ALPHAVILLE (1965)

(Alphaville, Une Étrange Aventure de Lemmy Caution)

 

Filmes em Geral #13

Dirigido por Jean-Luc Godard.

Elenco: Eddie Constantine, Anna Karina, Akim Tamiroff, Jean-Louis Comolli, Jean-André Fieschi, Howard Vernon e Michel Delahaye.

Roteiro: Jean-Luc Godard, baseado em poema de Paul Éluard.

Produção: André Michelin.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Dirigida por Jean-Luc Godard, “Alphaville” é uma ficção científica diferenciada, claramente inspirada pelos filmes noir, que foca mais nos aspectos filosóficos e existenciais do que nos avanços tecnológicos que o futuro pode proporcionar. Com seu costumeiro apreço pelo aspecto técnico, Godard consegue criar um longa futurista extremamente sombrio, que remete diretamente ao lado negro da humanidade, quando esta deixa de dar o devido valor aos sentimentos e a relação humana para favorecer a tecnologia.

A estranha cidade de Alphaville é o alvo de uma investigação comandada pelo agente Lemmy Caution (Eddie Constantine), que parte para o local após o insucesso de outros agentes na região. Ao chegar à cidade, controlada pelo computador Alpha 60 – que age como um ser onipresente, capaz de ver a tudo e a todos -, o agente parte em busca do professor Von Braun, para convencê-lo a destruir a famosa máquina, que simplesmente aboliu os sentimentos dos habitantes locais. Curiosamente, Caution encontra em seu caminho a jovem Natacha (Anna Karina), filha do professor, que servirá como guia em sua empreitada.

Jean-Luc Godard reafirma em “Alphaville” sua atração pelo cinema experimental, abusando de planos ousados, como uma curiosa tomada aérea durante uma perseguição automobilística, e conduzindo interessantes seqüências, como as que se passam dentro de um quarto de hotel, onde o espectador jamais sabe o que esperar quando os personagens passam por trás da cama onde Caution se deita. Demonstra ainda mais ousadia ao apresentar quebras de eixo, quando Caution abre a porta do guarda-roupa de Henri Dickson (Akim Tamiroff), personagens procurando a posição da câmera, na cena do poema entre Natacha e Caution, imagens em negativo, quando Caution luta com um segurança na garagem, e desrespeito pela continuidade de tempo e espaço, quando Caution abre seguidas portas, sempre com Natacha escondida atrás delas. Além disso, o diretor conta com a montagem nada convencional de Agnès Guillemot, que, por exemplo, alterna planos convencionais com expressões algébricas que piscam na tela.

Ao contrário do visual arrebatador da avançada “Metropolis” de Fritz Lang, Godard cria uma cidade futurista decadente, bastante parecida com qualquer grande cidade dos anos sessenta, nos jogando pra dentro daquele ambiente sombrio e amargo de maneira eficiente. Para isto, conta com o excelente trabalho de direção de arte, que, por exemplo, capricha nos detalhes da enorme central de controle de Alphaville, e com a obscura direção de fotografia de seu costumeiro colaborador Raoul Coutard, que mergulha o espectador em ambientes pouco iluminados, refletindo a angústia de Caution naquele local nada hospitaleiro. A narrativa é conduzida por uma espécie de narrador, que somado ao visual sombrio e predominantemente noturno do longa, revela a clara inspiração nos filmes noir. Vale notar também que de maneira mais explícita e menos sutil que no cinema de Truffaut, o erotismo e a sensualidade também estão presentes nos filmes de Godard. Em “Alphaville” não é diferente e, ainda que neste caso a maioria das mulheres tenha um papel apenas secundário numa sociedade que aboliu o amor, a carga erótica se faz presente, por exemplo, através das acompanhantes que se oferecem à Caution ou da mulher presa nua dentro de um vidro, que serve também para revelar a forma como aquelas pessoas olhavam para a mulher. Numa sociedade sem sentimentos, a mulher se tornou mero objeto sexual. Finalmente, a trilha sonora de Paul Misraki pontua os momentos de suspense, algumas vezes de maneira exagerada, e os momentos românticos, sempre que Natacha está em cena.

Godard é responsável também pelo excepcional roteiro, baseado em poema de Paul Éluard, que não mede esforços para criticar duramente uma sociedade voltada para o pensamento puramente racional, que não abre espaço em nenhum momento para a emoção e para a criação, inibindo os sentimentos e resultando numa sociedade sem conteúdo. Em “Alphaville”, Godard prova que a ciência (razão), por mais importante e necessária que possa ser (e realmente é), não substituirá jamais o sentimento humano (emoção) – e a busca do homem pelo entendimento de coisas sem lógica alguma é algo que a ciência jamais explicará. Na cidade onde é proibido ter sentimentos, fazer questionamentos e criar algo que não siga a “lógica”, o amor inexiste, o que a transforma numa cidade amedrontadora, onde cada cidadão é apenas um número e a sociedade acaba sendo dominada por uma incrível falta de propósitos ou objetivos individuais. Num mundo dominado pela lógica, a criação inexiste, pois não há espaço para a busca do diferente e ninguém ousa “tentar o que não foi tentado ainda”. Sendo assim, inexiste também a arte, e “Alphaville” crítica duramente o racionalismo exagerado no excepcional diálogo entre Caution e Alpha 60, quando a máquina pergunta “O que transforma as trevas em luz?” e o homem responde “a poesia”.

A interpretação de Eddie Constantine como Lemmy Caution, aliás, é bastante competente, transmitindo segurança naquilo que busca e jamais esmorecendo diante daquela cidade tão ameaçadora. Uma espécie de detetive futurista destemido que parte em busca de respostas na racional e fria Alphaville, Caution se mostra um homem inabalável, inteligente e, exatamente por isso, difícil de ser decifrado pelo inteligente computador. Em todo momento Caution mostra que será difícil convencê-lo a seguir as regras locais, o que o transforma numa séria ameaça para o controle da cidade e torna seus deliciosos diálogos com o computador Alpha 60 em momentos tensos e imprevisíveis. E por falar no responsável pelo controle de Alphaville, a perturbadora voz do temível “Alpha 60” é destas coisas que só o cinema é capaz de produzir e ficam na memória do espectador eternamente. Ainda dentro das atuações, vale destacar a charmosa Anna Karina, que transmite toda a insegurança de Natacha von Braun, uma mulher afetada pelo rígido método de controle local e que foi obrigada a “apagar” da memória todo e qualquer registro de sentimento que pudesse carregar. Mas até mesmo onde tudo é cuidadosamente controlado, sempre existirá espaço para o amor. Inconscientemente, Natacha sabe que Caution é sua única esperança de mudar sua situação, o que permite com que a paixão floresça entre ambos e Caution acabe sendo o responsável por sua redenção.

De maneira proposital, Godard mostra um futuro não muito distante da Paris dos anos sessenta neste interessante “Alphaville”, que faz uma crítica à sociedade de sua época e às limitações impostas por regras, inclusive dentro da indústria cinematográfica. Num local onde até mesmo as palavras eram controladas, não existia espaço para os sentimentos e para a arte. Felizmente, Godard não seguia regras pré-estabelecidas e era capaz de produzir grandes filmes, como é o caso de “Alphaville”.

Texto publicado em 24 de Setembro de 2010 por Roberto Siqueira

O DESPREZO (1963)

(Le Mépris)

 

Filmes em Geral #12

Dirigido por Jean-Luc Godard.

Elenco: Brigitte Bardot, Michel Piccoli, Jack Palance, Fritz Lang e Giorgia Moll.

Roteiro: Jean-Luc Godard, baseado em romance de Alberto Moravia.

Produção: Georges de Beauregard e Carlo Ponti.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Neste excelente “O Desprezo”, estrelado por Michel Piccoli e pela sex symbol da época Brigitte Bardot, Godard utiliza o relacionamento conturbado de um casal para mostrar, nas entrelinhas, seu modo de ver o cinema como arte ao mesmo tempo em que critica o cinema estritamente comercial.

O roteirista Paul Javal (Michel Piccoli) vai a Roma para trabalhar numa adaptação da obra “A Odisséia”, que contará com o diretor alemão Fritz Lang (interpretado pelo próprio Lang). Enquanto acerta os últimos detalhes para aceitar o trabalho e assinar o contrato, sua relação com sua bela esposa Camille (Brigitte Bardot) começa a desmoronar, principalmente após a aparição do produtor de cinema Jeremy Prokosch (Jack Palance).

O criativo e experimental Jean-Luc Godard já inicia “O Desprezo” inovando ao apresentar os créditos com sua própria voz, sem os tradicionais caracteres na tela. Mais contido que o habitual, o diretor ainda assim consegue criar planos interessantes, como durante uma conversa em que o casal Javal, sentado frente a frente, expõe a verdade quanto aos sentimentos de um pelo outro e a razão pela qual cada um está magoado. A câmera se movimenta de um lado para o outro horizontalmente, dando ao espectador a sensação de estar acompanhando um duelo entre os dois personagens. Depois desta discussão, eles saem de carro e Camille aparece envolvida pela escuridão, refletindo o sentimento de tristeza da personagem e revelando o bom trabalho do diretor de fotografia Raoul Coutard. Coutard e Godard também aproveitam muito bem a beleza estonteante da paradisíaca Ilha de Capri, criando planos belíssimos. Vale destacar ainda a cena em que Paul grita por Camille numa escadaria, já na ilha, em que Godard filma de muito longe, diminuindo o personagem na tela e, desta forma, refletindo sua pequena importância pra Camille naquele momento. Finalmente, o diretor francês utiliza a metalingüística para alfinetar os produtores de cinema, como podemos observar na cena em que todos estão na sala de projeção e o produtor diz que entende como os deuses se sentem. A crítica vem na frase de Fritz Lang: “não foram os deuses que criaram os homens, mas os homens que criaram os deuses”.

O excelente roteiro do próprio Godard é repleto de ácidos diálogos entre o casal principal, intercalados com críticas à figura do produtor que só pensa no lucro em detrimento da qualidade do espetáculo (“Quando ouço a palavra ‘cultura’ puxo o talão de cheques”, diz Prokosch). Ao mesmo tempo em que faz uma interessante análise sobre a natureza imprevisível das relações humanas, Godard mostra sua visão diferenciada sobre cinema e sua insatisfação com o cinema puramente comercial. Além disso, utiliza a história da Odisséia para traçar dois inteligentes paralelos. O primeiro é com a própria história de Paul e Camille, como fica evidente numa conversa entre Paul e Lang sobre Ulisses e Penélope, que claramente faz alusão à relação do casal. O segundo paralelo traçado fala a respeito da relação entre produtores (deuses) e diretores (homens), na citada cena da sala de projeção. O desprezo de Paul por Camille, agravado por sua brincadeira ousada com Francesca Vanini (Giorgia Moll), provocou a traição e o fim do desejo de sua esposa por ele e a narrativa consistente de Godard mostra este processo naturalmente. Mas Godard também quer falar, ainda que de forma sutil, sobre outro tipo de “desprezo”. É o desprezo dele próprio pela forma convencional de fazer cinema, em especial pela figura do produtor que favorece o dinheiro em detrimento da arte, como fica claro na conturbada relação entre produtor, diretor e roteirista exposta no longa.

A montagem dinâmica de Agnès Guillemot insere, em determinado momento, imagens já vistas anteriormente em forma de flashbacks, visando reforçar a curiosa narração em off dos personagens. Além disso, divide a narrativa claramente em três partes. Na primeira, a relação do casal começa a ter problemas graças ao convite de Prokosch, enquanto a segunda foca as discussões acaloradas do casal. Finalmente, o terceiro ato mostra o trágico desfecho deste conturbado relacionamento. A progressiva e lenta destruição do relacionamento do casal é pontuada ainda pela melancólica e tragicamente bela trilha sonora de Georges Delerue.

Entre as atuações, vale destacar Michel Piccoli, que se sai muito bem como Paul, com destaque para os duelos verbais com Bardot. Jack Palance interpreta o detestável Prokosch com elegância, enquanto Fritz Lang interpreta a si mesmo, o que obviamente facilita muito seu trabalho. Giorgia Moll complementa o elenco vivendo Francesca Vanini, que apesar da discreta participação, tem papel fundamental na briga do casal Javal. Mas quem rouba mesmo a cena é Brigitte Bardot, que exala sensualidade em praticamente todas as cenas em que aparece, mas também demonstra talento nos momentos dramáticos. Cínica e destemida, ela transmite com exatidão o quanto Camille está magoada com o marido, supostamente porque ele não demonstrou ciúme por ela. Tudo que Camille queria era que o marido demonstrasse que se importa com ela, como na primeira cena da ilha, quando Paul parece não se importar com sua saída com Prokosch. Repare como no momento em que diz “pode ir”, Godard dá um close em seu rosto, destacando sua frieza. O desprezo dele fez com que a paixão de Camille lentamente se esfriasse.

Godard aproveita muito bem a presença da principal musa da época para preencher o longa com diversos momentos repletos de sensualidade, seja através das constantes cenas de nudez total de Bardot, seja através do excepcional roteiro, como durante uma leitura de Paul sobre um diferente concurso ou na primeira conversa do casal deitado numa cama. Além disso, o erotismo sugerido e pouco explícito característico da nouvelle vague aparece, por exemplo, quando Bardot sai da banheira e deixa a toalha escapar mostrando parte das costas e coxas. Ousadia pura para a época, que também se fazia presente no roteiro, por exemplo, através dos palavrões de Camille numa discussão com Paul.

O lindo plano final que destaca o mar azul de Capri, seguido pela palavra “silêncio” gritada por Lang, reflete a sensação do espectador diante do trágico final de “O Desprezo”. O vazio que sentimos é por saber que aquela relação caminhava naturalmente para o final, assim como tantas outras que conhecemos, e nada podíamos fazer a respeito. Não bastasse este interessante estudo do relacionamento humano, o diretor ainda aproveitou para deixar, de forma sutil, sua crítica ao cinema convencional. Palmas pra ele.

Texto publicado em 23 de Setembro de 2010 por Roberto Siqueira

ACOSSADO (1959)

(À Bout de Souffle)

 

Filmes em Geral #10

Dirigido por Jean-Luc Godard.

Elenco: Jean-Paul Belmondo, Jean Seberg, Daniel Boulanger, Jean-Pierre Melville, Henri-Jacques Huet, Van Doude, Claude Mansard, Jean-Luc Godard, Richard Balducci e Roger Hanin.

Roteiro: Jean-Luc Godard, baseado em história de François Truffaut.

Produção: Georges de Beauregard.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Ágil, verborrágico, ousado tanto tecnicamente quanto tematicamente, “Acossado” fez parte da safra de filmes lançados nos cinemas em 1959, que inaugurou a nouvelle vague e representou o sopro de novidade que o cinema francês (e mundial) precisava. Nele, Godard narra a história de um assassino em fuga e sua conturbada convivência com uma bela jovem, filmando pelas ruas de Paris com muito realismo e agressividade, numa direção estilizada que influenciou muitas obras dali em diante.

Michel Poiccard (Jean-Paul Belmondo) parte em alta velocidade para Paris após roubar um carro em Marselha e matar um policial no caminho. Ao chegar à capital francesa, encontra a estudante americana Patricia Franchisi (Jean Seberg) e consegue convencê-la a escondê-lo até que receba um dinheiro que lhe devem. Mas Michel começa a se perder com o tempo, passando a agir sem o menor cuidado até encontrar seu trágico e inevitável destino.

Para entender a repercussão de “Acossado” é importante entender o contexto da época de seu lançamento. No final dos anos cinqüenta, o mundo vivia o inicio de uma revolução cultural, com os jovens se rebelando de diversas maneiras, por exemplo, através da música, com a evolução natural do rock e, alguns anos depois, com a formação de novos grupos, como os hippies, que surgiam com ideais baseados na liberdade, na paz e no amor. No cinema – ainda preso ao modelo clássico de narrar histórias, recheado de paradigmas estéticos e temáticos -, foi a nouvelle vague que iniciou este movimento de renovação. E foi “Acossado” (ao lado de “Os Incompreendidos”, de Truffaut e de “Hiroshima, meu amor” de Alain Resnais) o responsável direto por isto, com sua linguagem jovem, sua direção estilizada e sua temática bastante ousada para a época.

O roteiro do próprio Godard (baseado em história de François Truffaut) narra à vida de um homem que rouba um carro, assassina um policial e passa a viver pelas ruas de Paris, fugindo da polícia ao mesmo tempo em se relaciona com uma jovem norte-americana. Podemos notar que, obviamente, não se trata de um exemplo de ética e moral. Aliás, ousar na temática era uma das principais características da nouvelle vague e “Acossado” é um grande exemplo disto. Mas a ousadia não se resumia apenas à temática. A narrativa é acidentada, com cortes secos que dão a sensação de acelerar a história e evidenciam o estilo experimental de Godard, que obviamente contou com o auxilio do bom trabalho de montagem de Cécile Decugis e Lila Herman para conseguir este efeito. A dupla de montadores inova, por exemplo, fazendo pequenos cortes durante algumas cenas (os chamados jump-cuts), dando a impressão de que um pedaço do filme se perdeu. Na verdade, esta técnica serve para aumentar a sensação de urgência no espectador, o que trabalha a favor da narrativa, transmitindo a constante inquietação do fugitivo Poiccard. Na direção, Godard explora ao máximo sua câmera, criando planos diferentes e criativos, como na seqüência em que Poiccard conversa com Patricia dentro de um conversível, onde só podemos ver a nuca da moça enquanto ouvimos a conversa do casal. Mas Godard também sabe ser sutil, e é interessante notar como muita coisa não precisa ser dita para que o espectador compreenda o que acontece, como no momento em que Patricia pergunta a Poiccard que parte do corpo dela ele mais gosta e a resposta não vem com palavras, mas sim com uma carícia no local escolhido. É um momento rápido, seguido por um corte seco, mas o espectador mais atento percebe a sutileza. Esta cena, aliás, finaliza uma longa e interessante conversa do casal sobre coisas do cotidiano, algo também pouco comum na época. Eles brigam, fazem as pazes, se amam, se divertem e o espectador testemunha tudo isto através da câmera de Godard.

Ainda na parte técnica, vale destacar a direção de fotografia de Raoul Coutard, que evita o tom carregado, garantindo o clima leve e descontraído do longa. Observe como a maior parte do filme se passa durante o dia, sempre com a predominância das luzes em relação às sombras, o que também colabora para que o espectador não veja Poiccard como um personagem sombrio. A natureza jovial do longa é complementada pela trilha sonora alegre de Martial Solal e pela já citada montagem acidentada de Cécile Decugis e Lila Herman.

A boa atuação da dupla formada por Jean-Paul Belmondo, que interpreta Michael Poiccard, e Jean Seberg, que interpreta Patricia, se destaca principalmente nos momentos mais íntimos do casal, que acontecem dentro do apartamento de Patricia, quando as brincadeiras se misturam às dúvidas que ambos sentem com relação à natureza daquela relação. Belmondo e Seberg demonstram com competência a insegurança dos personagens e transmitem uma sensação de imprevisibilidade, através das respostas repentinas e constantes mudanças de comportamento, fazendo com que o espectador jamais possa prever a reação de qualquer um deles. E este perigoso estado constante de alerta acaba alimentando as dúvidas que temos a respeito das motivações de cada personagem. Dúvidas estas que ambos também nutrem em relação ao outro, e que serão vitais para o trágico destino de Poiccard. Afinal de contas, Patricia o ama, mas não tem certeza de que é correspondida, o que a leva a questionar, por exemplo, se ele aceitaria ter um filho com ela. Já Poiccard, que também a ama, de igual forma não tem certeza de que é correspondido, e a situação se agrava quando ele descobre o affair entre Patricia e um homem que pode ajudá-la na carreira. E este casal bomba relógio, prestes a explodir, caminha pelas ruas de Paris desfilando charme e, curiosamente, conquista a empatia da platéia, independente do comportamento amoral de ambos.

Patricia, aliás, é o símbolo da mulher independente, com seu corte de cabelo curto e suas provocantes minissaias. Dormir com diversos homens diferentes não era problema pra ela, mas certamente era chocante para a sociedade puritana da época (ainda hoje existe este tipo de pensamento). Poiccard, por sua vez, também não é um exemplo de retidão, afinal de contas, roubar um carro, assassinar um policial e fugir em alta velocidade, conversando com a câmera e xingando o espectador que não gosta da praia, do campo e de outras coisas mais, não é um comportamento comum. Os personagens, portanto, personificam o cinema transgressor que nascia ali.

Em seu filme de estréia, Godard agitou de vez a indústria cinematográfica. “Acossado” é a prova definitiva de que o cinema francês passa bem longe do estereótipo “filme arrastado feito por intelectuais”. Na realidade, trata-se de um filme agitado, agressivo, que não tem medo de ousar e inovar, experimentando novas técnicas e formas de narrar uma história pouco convencional. Certamente, está na lista dos filmes mais influentes da história da sétima arte.

Texto publicado em 21 de Setembro de 2010 por Roberto Siqueira