MÁQUINA MORTÍFERA (1987)

(Lethal Weapon)

 

Videoteca do Beto #49

Dirigido por Richard Donner.

Elenco: Mel Gibson, Danny Glover, Gary Busey, Mitch Ryan, Tom Atkins, Darlene Love, Traci Wolfe, Jackie Swanson, Damon Hines e Ebonie Smith.

Roteiro: Shane Black.

Produção: Richard Donner e Joel Silver.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Misturar elementos de ação e comédia é algo sempre bem vindo, pois estes dois gêneros costumam casar muito bem quando a junção é realizada corretamente, ainda mais em filmes policiais. Felizmente, Richard Donner acertou a mão neste primeiro longa da marcante e divertida série estrelada por Mel Gibson e Danny Glover, que viria ainda a ter três continuações de boa qualidade. Repleto de realistas e empolgantes cenas de ação, guiadas por um roteiro inteligente e recheado de bom humor, “Máquina Mortífera” é diversão garantida e, mais importante, de ótima qualidade.

Roger Murtaugh (Danny Glover), um policial à beira da aposentadoria e responsável pela investigação de um misterioso suicídio de uma garota, é obrigado a aceitar seu novo e ensandecido parceiro de trabalho chamado Martin Riggs (Mel Gibson). A investigação da dupla levará a um perigoso grupo de ex-militares do Vietnã que comanda o tráfico de drogas local, ao mesmo tempo em que servirá para consolidar a amizade entre eles.

O travelling inicial de “Máquina Mortífera” nos leva ao apartamento de Amanda Hunsaker (Jackie Swanson) ao som da animada música natalina “Jingle Bells”. Ao entrar no apartamento, porém, a realidade é bem diferente da alegria que o natal traz. A jovem loira, drogada e aparentemente fora de si, caminha até a sacada aonde sua vida chegará ao fim. A chocante cena da queda é muito bem realizada por Donner, que mostra o impacto de forma bastante realista, encerrando a seqüência com um impressionante plano feito de dentro do carro atingido. O diretor também capricha nas sensacionais seqüências de ação, com destaque para a explosão de uma casa, a invasão de uma mansão e, principalmente, toda a seqüência final, que se inicia com a pesada tortura aos policiais (observe as dolorosas reações de Riggs e Murtaugh) e só termina na luta entre Riggs e Joshua (Gary Busey, em atuação apenas razoável) em frente à casa de Roger. Apesar de exagerada, a luta final é belíssima visualmente, acentuada pela fotografia obscura, a chuva e a câmera agitada que alterna closes (realçando a dor dos personagens) e planos distantes, que permitem apreciar os elaborados golpes desferidos. Em outro momento, logo após o seqüestro de Rianne (Traci Wolfe), Donner cria um belo plano onde Roger e Riggs conversam em frente à árvore de natal. Observe como o diretor de fotografia Stephen Goldblatt utiliza o forte domínio do tom vermelho na cena, ilustrando visualmente o inferno astral da dupla naquele momento. Finalmente, na tensa e espetacular seqüência do deserto, Donner inicia e termina com um travelling, ambientando o espectador ao local. Observe como a excelente montagem de Stuart Baird garante um ritmo empolgante à cena sem jamais soar confusa. Baird, aliás, mantém a narrativa ágil e o ritmo empolgante durante todo o tempo, o que é essencial em um filme de ação.

A empatia que “Máquina Mortífera” provoca no espectador se deve em grande parte ao fato dos dois policiais serem pessoas comuns, com muitos problemas e completamente vulneráveis. Além disso, obviamente as atuações de Danny Glover e Mel Gibson colaboram bastante. A dinâmica da dupla é impressionante e os atores estão à vontade em seus papéis. Observe como Riggs cantarola durante a sessão de tiro ao alvo enquanto acerta todos os tiros, provocando espanto em Roger, ao passo que o amigo demonstra firmeza ao confrontar o trauma de Riggs quando é preciso. A verdadeira amizade aparece nos momentos alegres e tristes. A excelente introdução dos personagens situa muito bem o espectador na trama. Logo de cara, sabemos que Murtaugh enfrenta problemas com sua idade através de sua reação às piadas da família em seu aniversário, reforçada pela frase “Estou velho demais para isso”, repetida seguidas vezes durante o longa. Também sabemos, logo em sua primeira aparição, que Riggs é uma pessoa largada na vida, vivendo em um trailer e parecendo não ligar muito pra bagunça que o cerca (na realidade, esta bagunça reflete seu estado psicológico, revelando o bom trabalho de direção de arte). Vale ressaltar também que ter participado da guerra do Vietnã talvez seja o único ponto em comum entre os dois policiais. Enquanto um busca a calmaria da aposentadoria e tem uma família estável, o outro procura a morte de todas as formas após ter a sua família destruída, o que faz dele um perigo constante pra todos que cruzam seu caminho. Na impressionante cena em que Riggs coloca a arma na cabeça e na boca, fica evidente a razão de sua dor – e Gibson transmite muito bem este sentimento, chorando e lutando contra a vontade de largar tudo e deixar esta vida. O roteiro espalha evidências ao longo da narrativa, mas jamais dá muitas explicações sobre o drama de Riggs, o que é elegante e correto. As imagens falam mais que as palavras.

Mas o longa dirigido por Richard Donner não é perfeito. Os vilões jamais soam ameaçadores, talvez pelas fracas atuações de praticamente todos eles. Além disso, a primeira negociação entre Riggs e os traficantes, apesar de engraçada, é pouco verossímil. Dificilmente traficantes negociariam drogas ao ar livre, em plena luz do dia, em local de fácil acesso e totalmente desarmados como este três fizeram. O que atenua um pouco estes problemas é o fato do longa ser bastante voltado para o bom humor, fazendo com que esta cena, por exemplo, não soe tão deslocada na narrativa. O bom roteiro de Shane Black não resiste ao clichê “os dois se odeiam inicialmente e viram grandes amigos com o tempo”. Mas com exceção deste pecado, é bem amarrado e utiliza muito bem o mundo do tráfico de drogas como pano de fundo para a ação, chegando inclusive a mostrar as conseqüências graves do tráfico na sociedade logo no inicio, com a morte de Amanda. Além disso, utiliza inteligentemente o bom humor, tornando a narrativa mais leve e descontraída. Destaque para o inusitado (e cômico) método de Riggs para evitar um suicídio, os engraçados olhares entre Rianne e Riggs vigiados por Murtaugh durante um jantar e o diálogo dos dois amigos em cima de um barco, que marca também o momento em que a amizade se consolida de verdade. Os diálogos, aliás, evidenciam o entrosamento da dupla, como podemos notar também quando eles vão de carro até uma mansão.

“Máquina Mortífera” conta ainda com a deliciosa trilha sonora de Eric Clapton e Michael Kamen, que utiliza elementos de jazz durante o cotidiano da dupla e adota um tom pesado e tenso no deserto, oposto às notas rápidas utilizadas nas perseguições. Além disso, o longa inicia e termina com canções de natal (“Jingle Bells” e “I’ll be home for Christmas”), já que a depressão que muitas pessoas sentem nesta época tem muita influência na narrativa. Depressão, aliás, é a palavra que define muito bem Martin Riggs. Felizmente, o aparecimento de uma grande amizade amenizou os efeitos desta doença em sua vida, como fica evidente no momento em que Riggs entrega a “bala especial” nas mãos de Rianne, como um presente de natal para o amigo Roger.

Em resumo, “Máquina Mortífera” é um bom filme policial, que mistura doses corretas de ação, humor e suspense, e ainda encontra espaço para mostrar, mesmo que de forma superficial, os efeitos de uma doença que ataca muitas pessoas nos dias de hoje. Bem dirigido por Richard Donner, conta também com a força da entrosada dupla principal, extremamente dinâmica e responsável direta pela empatia do espectador. As maravilhosas seqüências de ação são a cereja no bolo deste filme que tem seus defeitos, mas garante a diversão sem ofender a inteligência da platéia.

Texto publicado em 14 de Março de 2010 por Roberto Siqueira

MAD MAX (1979)

(Mad Max) 

 

Videoteca do Beto #20

Dirigido por George Miller.

Elenco: Mel Gibson, Joanne Samuel, Hugh Keays-Byrne, Steve Bisley, Tim Burns, Roger Ward, Lisa Aldenhoven, David Bracks, Bertrand Cadart, David Cameron, Max Fairchild e Sheila Florence. 

Roteiro: George Miller e James McCausland. 

Produção: Byron Kennedy. 

 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Um pequeno orçamento de 400 mil dólares foi o responsável pela estréia de duas importantes carreiras no cinema mundial, além de gravar na história do cinema o nome desta aventura futurista com um ar decadente, que se tornou cult com o passar dos anos. Mad Max é um filme cheio de adrenalina, com uma densa carga dramática e personagens interessantes. O mundo cruel dominado por gangues retratado no longa serve de pano de fundo para as sensacionais cenas de perseguição na estrada, que se tornaram famosas ao longo dos anos e inspiraram duas continuações (o bom Mad Max 2: A caçada continua e o fraco Mad Max 3: Além da cúpula do trovão).

Num futuro caótico, o mundo foi dominado por gangues que vivem à procura de gasolina. Após o jovem e talentoso policial Max Rockatansky (Mel Gibson) matar acidentalmente um integrante de uma perigosa gangue, sua família e seu melhor amigo Goose (Steve Bisley) passam a ser perseguidos e as conseqüências trágicas desta perseguição despertam o pior dos sentimentos em Max, a vingança.

George Miller abusou da criatividade para realizar Mad Max. Como o orçamento do filme era extremamente limitado, muitos carros e motos foram remendados e reutilizados o que, somado às roupas nada convencionais das gangues, contribuiu para criar um visual diferente e atraente. O diretor acertou ao manter o ritmo ágil da narrativa, sem muitos floreios, utilizando criativos planos cheios de estilo nas cenas de perseguição – com a câmera no nível do asfalto, na frente de motos e carros, nos olhos de Max, entre outros – que aumentam ainda mais a alta carga de adrenalina. Em muitas destas cenas, Miller utiliza uma quantidade menor de frames (quadros por segundo) para dar uma sensação maior de velocidade, como na cena em que Max passa pelos motoqueiros e os joga da ponte. Nesta cena, aliás, ele alterna da alta velocidade para a câmera lenta durante a queda dos motoqueiros, mostrando em detalhes o impacto do choque. O diretor também utiliza a câmera para aumentar o suspense, como no plano onde vemos uma mão no tronco da árvore enquanto Jessie caminha até a praia. Toda esta tensa seqüência, desde a praia até a volta pra casa, passando por pombos, um cachorro morto e pelo deficiente Benno (Max Fairchild), culmina com a fuga de carro de Jessie (Joanne Samuel, em atuação que não compromete) e May (Sheila Florence) para a estrada, onde a tragédia se consumará. E nesta cena, que é a de maior impacto no espectador, Miller nos poupa ao mostrar um plano subjetivo, com a bola e o tênis do bebê na estrada indicando o resultado trágico. E se o resultado já seria trágico naturalmente, soa ainda mais dolorido porque o bom roteiro do próprio George Miller, auxiliado por James McCausland, acerta ao nos envolver no relacionamento cheio de amor e carinho de Max e Jessie. O impacto do drama vivido por Max após o ataque à sua família é maior justamente porque sentimos simpatia pelo casal. Também direto e sem muitos rodeios, o roteiro funciona perfeitamente, pecando apenas no terceiro ato, que é curto demais. Culpa também da montagem de Cliff Hayes e Tony Paterson, que por outro lado, acerta em cheio nas cenas de perseguição na estrada, criando seqüências de tirar o fôlego. A direção de fotografia de David Eggby explora ao máximo a beleza das estradas australianas e cria um visual quente e seco, aproveitando o maravilhoso brilho do sol naquele país. Finalizando a parte técnica, merece destaque a qualidade do som, principalmente na estrada com o barulho das motos e dos carros, e da trilha sonora de Brian May, rápida, alucinada e perfeita para aquele mundo.

O ataque ao jovem casal na estrada mostra o perigo que aquela gangue de motoqueiros representa. Malucos e arruaceiros, estes nômades não tem piedade de ninguém. A insanidade do grupo fica ainda mais evidente na cena em que Jessie vai comprar sorvete, quando todos partem como animais que cercam a presa para cima da moça, até que ela se aproveita do interesse do líder da gangue para se livrar dele e escapar. O próximo encontro entre eles só confirma a crueldade destes vilões. E mesmo que quisessem mudar este comportamento não poderiam, como fica evidente quando um dos motoqueiros se recusa a matar Goose da forma que seu líder queria, mas é obrigado a fazê-lo para evitar ser assassinado por eles. Por outro lado, as fracas interpretações de praticamente todos os atores do grupo prejudicam o tom ameaçador da gangue, que poderia soar muito mais perigosa e assustadora. O visual dos bandidos é muito mais assustador que eles próprios.

Para que “Mad Max” realmente funcionasse, seria necessário um personagem principal carismático, e Miller acertou em cheio na escolha. Desde sua excelente introdução (o diretor cria um suspense para lentamente revelar seu rosto, mostrando inicialmente as botas, óculos e luvas pretas) nos identificamos com Max, um policial destemido que não foge do choque e provoca a morte do até então temível “Dark Knight”. Vivido com competência por Mel Gibson, Max é uma pessoa simples, apaixonada pelo que faz, e que ama sua família. O ator é talentoso ao transmitir esta paixão de Max pela esposa, como podemos observar na bela cena em que, deitado na grama com Jessie, tenta dizer o quanto à ama usando como exemplo sua dificuldade em demonstrar afeto pelo falecido pai quando ainda era criança. Por outro lado, Max é também uma pessoa destemida e que gosta da adrenalina da estrada. Seu diálogo com Fifi Macafee (Roger Ward) deixa claro que ele está começando a gostar daquilo tudo e, se continuar nesta profissão, ficará tão louco quanto os baderneiros motoqueiros. Esta perigosa mistura de paixão e loucura o torna uma bomba relógio, pronta pra explodir caso algo aconteça às pessoas que ama. E a tragédia acontece, transformando Max no pior dos inimigos para aquela gangue, aquele que não tem mais nada a perder. O plano em que Max olha fixamente para a máscara do monstro é bastante simbólico, já que agora, sem a mulher, o filho e seu melhor amigo, ele se tornou o próprio monstro.

 

 

 

 

 

 

Além das excelentes cenas de perseguição que são um prato cheio para quem gosta de carros, colabora para o sucesso do filme (e o status de cult alcançado ao logo dos anos) o árido e sujo mundo futurista criado pela boa Direção de Arte de Jon Dowding (“Velocidade é só uma questão de dinheiro. Quão rápido você pode ir?” é a interessante frase de uma borracharia). Mais importante ainda são os excêntricos figurinos dos motoqueiros criados por Clare Griffin. Os figurinos, aliás, também tem função dramática no filme, pois indicam o estado psicológico de Max. Inicialmente, ele se veste muitas vezes de branco, colocando o preto somente pra trabalhar. Mas depois da morte de sua família, Max não abandona o preto, refletindo a escuridão que tomou conta de sua vida. E até mesmo o carro de perseguição colabora. Inicialmente utilizando o Interceptor amarelo, Max muda para o carro completamente preto na seqüência final. E aqui, Gibson também é competente ao retratar com o olhar a angústia, fúria e sede de vingança de Max.

Vingança, aliás, é o tema principal de “Mad Max”. O filme utiliza a vingança pessoal do policial como pano de fundo para as sensacionais cenas de perseguição. E mesmo que esta violência “justificada” não seja algo que eu, racionalmente, considere correto, é inegável que julgar a reação de Max ao enorme sofrimento que sentia seria leviano e hipócrita. Desta forma, ele parte sem medir conseqüências em busca da vingança, e o espectador torce por ele. Vale notar também como o modo cruel que Max faz sua última vítima inspirou um filme recente de bastante sucesso, com a sugestão de utilizar a serra como forma de escapar da morte.

O visual criativo e original se tornou um clássico com o passar dos anos, assim como as cenas em alta velocidade. Repleto de adrenalina, com um personagem carismático e cenas de perseguição de tirar o fôlego, “Max Mad” é um exemplo de que mesmo com orçamento baixo é possível fazer bons filmes, desde que se tenha talento para isto. Felizmente, este é o caso da dupla George Miller e Mel Gibson.

 

Texto publicado em 28 de Novembro de 2009 por Roberto Siqueira