DEBI & LÓIDE – DOIS IDIOTAS EM APUROS (1994)

(Dumb and Dumber)

 

Videoteca do Beto #101

Dirigido por Peter Farrelly.

Elenco: Jim Carrey, Jeff Daniels, Lauren Holly, Mike Starr, Charles Rocket, Karen Duffy, Felton Perry, Teri Garr, Hank Brandt, Joe Baker, Victoria Roswell, Cam Neely e Harland Williams.

Roteiro: Peter Farrelly, Bobby Farrelly e Bennett Yelin.

Produção: Brad Krevoy, Steven Stabler e Charles B. Wessler.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Fazer rir não é fácil. Em primeiro lugar, o estado de espírito da pessoa pode influenciar bastante na maneira como ela recebe uma piada. Em certos dias, podemos rir de qualquer coisa, por mais simples que seja, mas em outros, parece que sorrir é uma tarefa hercúlea. Além disto, o tipo de humor que agrada ao espectador varia bastante. Existem aqueles (como eu) que gostam de um humor mais sarcástico, mais sutil e menos físico. Já outros preferem um humor pastelão, bem mais espalhafatoso – e não vejo nada de errado nisto, é bom dizer. E como isto não é uma regra imutável, qualquer tipo de humor pode agradar a qualquer pessoa, dependendo da forma como a piada (ou cena, ou filme) é contada. Este é o segredo deste excelente “Debi & Lóide”, um filme que faz piada “idiota”, mas que respeita a inteligência do espectador e não o trata como tal.

Lloyd Christmas (Jim Carrey) é um motorista frustrado que vê sua vida mudar completamente quando resgata uma mala deixada pela bela Mary Swanson (Lauren Holly) no saguão de um aeroporto, antes dela seguir viagem para Aspen. Ao lado de seu grande amigo Harry Dunne (Jeff Daniels), ele parte numa viagem que cruzará o país na tentativa de devolver o objeto para a moça, provocando muitas confusões pelas estradas norte-americanas. Pra piorar a situação, a mala continha o dinheiro do pagamento de um resgate e os seqüestradores partem em busca da dupla.

Escrito pelos irmãos Peter e Bobby Farrelly, auxiliados por Bennett Yelin, “Debi & Lóide” conta a história de dois verdadeiros idiotas, que decidem cruzar os Estados Unidos somente para devolver uma mala para uma desconhecida, que tentava fazer o pagamento de um resgate (descobriríamos depois que, como acontece na maioria dos casos, o seqüestro é organizado por alguém próximo da família). Partindo desta premissa simples, o criativo roteiro nos apresenta a uma série de situações inusitadas e divertidas desde a apresentação dos personagens principais que, nos dois casos, enfrentam problemas no trabalho antes de voltar para casa. Além disso, o roteiro é repleto de humor negro, como fica claro desde a ida ao aeroporto, quando Lloyd provoca diversos acidentes enquanto conversa com Mary, chegando ao auge do politicamente incorreto quando a dupla provoca a morte de um dos seqüestradores no restaurante “Dante’s Inferno”, dando pimentas para quem sofre com úlcera e, na tentativa de ajudá-lo, medicando-o acidentalmente com veneno pra ratos. Finalmente, vale destacar que o roteiro faz ainda uma interessante referência ao clássico “O Silêncio dos Inocentes”, quando Lloyd e Harry dizem que comeriam o fígado de uma mulher com Chianti e fazem um gesto com a boca similar ao de Hannibal Lecter.

Além de escrever o criativo roteiro, Peter Farrelly demonstra competência na condução da narrativa, mantendo o ritmo sempre dinâmico e a atmosfera alegre na maior parte do tempo. Inteligente, ele sabe que o sentimentalismo não combina com o clima do filme e, por isso, evita as cenas melodramáticas na maior parte do tempo – e mesmo quando elas aparecem, como quando Lloyd reclama da vida antes de partir pra Aspen, são sempre interrompidas por alguma piada. Além disso, Farrelly se sai bem na condução das cenas mais divertidas, como na genial seqüência da lanchonete, quando Lloyd consegue sair sem pagar e deixa tudo na conta do grandalhão Sea Bass (Cam Neely). O diretor conta ainda com a montagem de Christopher Greenbury para criar muitos momentos engraçados, como quando Lloyd pede para uma velhinha cuidar de suas coisas e, em seguida, entra em casa gritando “Fui roubado! Por uma velinha sentada numa cadeira de rodas!”. E até mesmo na criação de planos simbólicos Peter se sai bem, como quando diminui Harry na tela quando ele volta pra casa, ilustrando seu sentimento de solidão na estrada, ou quando Mary está deitada entre os amigos na cama, simbolizando que aquela amizade estava novamente dividida por uma mulher, ainda que temporariamente – sem falar no engraçado sonho de Lloyd, quando as asas dos pombos atrás de Mary simbolizam que ela é um anjo na vida dele. Pra completar, a fotografia de Mark Irwin utiliza cores vivas e muitas cenas diurnas, reforçando a atmosfera leve da narrativa.

A coleção de cenas engraçadas é tão grande que fica difícil citar apenas algumas. Basta dizer que a narrativa apresenta uma sucessão quase ininterrupta de boas piadas, graças ao trabalho do montador Greenbury, em conjunto com a direção eficiente de Farrelly, que emprega um ritmo acelerado à narrativa, além, é claro, de contar também com o talento da dupla principal de atores. Ainda assim, vale destacar a divertida cena em que um policial para a dupla na estrada para multá-los, tomando a “cerveja” em seguida, numa das piadas escatológicas do longa – a outra piada deste tipo que também é sensacional acontece na casa de Mary, após um plano cruel de Lloyd.

Todas estas excelentes cenas ficam ainda melhores graças ao inspirado desempenho do ótimo Jim Carrey, que provou ao longo da carreira que é um ator não apenas talentoso, mas também versátil. É incrível como Carrey tem enorme facilidade para provocar o riso, seja através de suas expressões faciais, seja através de seu excelente timing cômico, como, por exemplo, na cena em que Lloyd conta para Harry que vendeu um pássaro morto para um menino cego (repare a tossida que o ator dá tentando disfarçar a revelação trágica). Aliás, a casa simples e bagunçada indica muito sobre a personalidade atrapalhada de Lloyd e Harry, o que evidencia o bom trabalho de direção de arte de Arlan Jay Vetter. “Que tipo de idiota criaria minhocas na sala?”, questiona uma das seqüestradoras ao invadir o local. Pra ajudar, seu cabelo (que remete a Jerry Lewis) e o dente quebrado dão um upgrade no visual cômico. Jeff Daniels também está muito bem, conseguindo sucesso na difícil missão de contracenar com um comediante tão talentoso como Carrey, além de protagonizar muitas das cenas marcantes de “Debi & Lóide” com competência, como quando prende a língua num teleférico e quando a privada quebra na casa de Mary. Demonstrando excelente química em cena, a dupla parece se conhecer a muito tempo, tamanho o entrosamento que apresentam. Repare, por exemplo, a alegria de Harry quando Lloyd troca o carro por uma moto, após os dois se perderem na estrada (“Achei que as rochosas eram mais rochosas”, diz Harry, após voltar metade do caminho). Eles se completam.

E se sem dinheiro a dupla consegue se divertir tanto na viagem, imagine o que acontece quando eles descobrem o que tem dentro da mala, já na cidade de Aspen? Embalados pela excelente trilha sonora de Todd Rundgren, repleta de músicas agitadas que colaboram com o clima leve da narrativa, a dupla parte para comprar novas roupas (sob o som de “Pretty Woman”), pois a noite haveria uma festa de gala, onde estariam presentes Mary e os seqüestradores (obviamente, eles não sabiam disto). E assim como a casa deles, as roupas escolhidas (figurinos de Mary Zophres) ilustram uma característica de Lloyd e Harry: a alegria. E após a hilária e surreal cena em que Lloyd mata uma coruja rara, os seqüestradores afirmam: “Foi um recado puro e simples. Matamos o pássaro deles e eles mataram o nosso”. Mas eles não eram bandidos e, acertadamente, se sairão bem de toda esta enrascada, ainda que voltem sem dinheiro, sem Mary e, pior que isto, a pé pra casa. Pra completar, o longa termina com uma piada perfeita, quando um ônibus lotado de mulheres de biquíni para na estrada a procura de dois rapazes para passar bronzeador nelas. Enquanto os créditos sobem na tela e os amigos se divertem na estrada, o espectador mantém o sorriso no rosto, o que é sinal de que o filme atingiu seu objetivo.

Leve e descontraído, “Debi & Lóide” é uma comédia eficiente, que conta com uma direção correta e duas atuações inspiradas para nos divertir. Misturando o humor pastelão com piadas que desafiam o limite do politicamente correto, o longa se transformou num dos símbolos da comédia nos anos 90. De quebra, lançou a consistente carreira dos irmãos Farrelly e consolidou a ascensão do ótimo Jim Carrey. Não é pouca coisa.

Texto publicado em 05 de Julho de 2011 por Roberto Siqueira