BARRY LYNDON (1975)

(Barry Lyndon)

 

Videoteca do Beto #43

Dirigido por Stanley Kubrick.

Elenco: Ryan O’Neal, Marisa Berenson, Patrick Magee, Hardy Kruger, Steven Berkoff, Leon Vitali, Gay Hamilton, Leonard Rossiter, Marie Kean, Murray Melvin, Frank Middlemass, André Morell, David Morley e Diana Koerner.

Roteiro: Stanley Kubrick, baseado em livro de William Makepeace Thackeray.

Produção: Stanley Kubrick.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

“Barry Lyndon” é acima de tudo um deleite visual. A recriação perfeita de época nos faz ter a exata sensação de que estamos realmente testemunhando aquele período da história da humanidade. Não bastasse isso, o filme ainda traz um belo estudo de personagem, mostrando em detalhes e sem pressa a trajetória de um simples jovem irlandês que alcança o topo da sociedade inglesa. Novamente o gênio Stanley Kubrick brinda o espectador com uma obra maravilhosa, que retrata como poucas o período em que se passa a narrativa e cria imagens que poderiam tranquilamente ser vendidas como quadros valiosos.

Barry (Ryan O’Neal) é um jovem irlandês aventureiro que é obrigado a deixar seu país após vencer um duelo armado, em pleno século XVIII. Nesta trajetória, passa por diversos obstáculos até alcançar a alta sociedade inglesa e tornar-se, através de um casamento com uma viúva local, um dos nobres da região. Mas seu destino não será feito apenas de glórias.

O visual magnífico de “Barry Lyndon” é resultado de um trabalho técnico impecável, comandado com firmeza por Stanley Kubrick, que utilizou quadros daquele período como inspiração. Os figurinos detalhados e idênticos aos utilizados no século XVIII (mérito de Milena Canonero e Ulla-Britt Söderlund), a detalhada e precisa direção de arte de Roy Walker, que recria desde o interior dos castelos aos pequenos detalhes como a arma utilizada nos duelos, e a fotografia deslumbrante de John Alcott, que explora as lindas paisagens e capta com precisão os ambientes internos iluminados somente à luz de velas (graças a uma lente especial feita para a Nasa) são os responsáveis diretos pelo deslumbrante visual do longa. É claro que os enquadramentos milimétricos de Kubrick e seu habitual perfeccionismo estão diretamente ligados ao esplendor visual que deleita os olhos dos espectadores. Até mesmo o zoom utilizado exaustivamente pelo diretor em “Barry Lyndon” é importante, pois nos entrega lentamente aos belíssimos planos, como se fossem verdadeiros quadros renascentistas. Estas obras de arte em movimento parecem praticamente vivas e precisam ser apreciadas lentamente e o zoom nos permite contemplar cada detalhe, como se estivéssemos realmente vendo uma pintura. Pra completar, a maquiagem retrata exatamente os costumes dos homens e mulheres da época, como podemos notar, por exemplo, durante os jogos de cartas ou nos encontros da alta sociedade inglesa, e a bela trilha sonora de Leonardo Rosenman e The Chieftains utiliza flautas e piano para compor melodias clássicas que nos ambientam ainda mais ao período medieval.

Mas “Barry Lyndon” não vive apenas das belíssimas imagens que possui. O roteiro cheio de estilo do próprio Kubrick (baseado em livro de William Makepeace Thackeray) é ácido – quando na voz do narrador – e repleto de diálogos maravilhosos – quando nas vozes dos personagens. Além disso, mostra com competência como era o jogo de interesses na época para aumentar o nível social e as posses da família, como podemos perceber logo no inicio através do casamento arranjado de Nora (Gay Hamilton) e John Quin (Leonard Rossiter) e, posteriormente, com o casamento de Barry e Lady Lyndon (Marisa Berenson). Outra curiosa característica do roteiro é não fazer questão de surpreender o espectador, revelando detalhes importantes com considerável antecedência através do misterioso narrador, que avisa, por exemplo, a futura morte de Bryan (David Morley) e, desta forma, prepara o espectador para o que virá a acontecer, evitando o melodrama. Observe que até mesmo os capítulos revelam o destino de Barry nas duas vezes em que aparecem. A narração, aliás, é um dos destaques do longa, repleta de frases irônicas e satíricas, como quando o narrador explica que o casal Lyndon passa a viver separado para que a mãe cuide das crianças enquanto Barry se encarrega dos prazeres do mundo. O bom humor também se mostra presente nas criativas formas em que Barry encontra para escapar das diversas situações em que se envolve, como quando acidentalmente se depara com os uniformes de dois líderes homossexuais do exército britânico ou quando se passa pelo Chevalier (Patrick Magee) para fugir de Berlim e do exército da Prússia.

Além do humor refinado, Kubrick também faz em “Barry Lyndon” um minucioso estudo de personagem. A transição de um jovem idealista e correto para um homem interesseiro e grosseiro é extremamente lenta e quase imperceptível, graças ao ritmo empregado à narrativa. Desta forma, mal percebemos que Barry sofre tamanha transformação, até porque o personagem jamais é retratado como uma pessoa boa ou má, como a mensagem final faz questão de reforçar. Mesmo quando se mostra um péssimo marido e um homem violento, especialmente contra seu enteado, Barry também demonstra qualidades que o aproximam do espectador, como o fato de ser um excelente pai. A montagem de Tony Lawson é diretamente responsável por manter este ritmo lento e contemplativo do filme, que apropriadamente permite ao espectador se deliciar com as belíssimas imagens que vê. Nem por isso deixa de conduzir a narrativa por muitos anos sem jamais soar episódica (a não ser pela divisão em capítulos), como podemos notar no salto sutil de oito anos da infância de Lorde Bullingdon (Leon Vitali) para a infância de Bryan Lyndon.

A tensa seqüência da saída de Barry da Irlanda, que inicia quando ele atira vinho em John e termina com o tenso duelo armado, é também o inicio da caminhada do jovem irlandês rumo à alta sociedade inglesa. Nesta trajetória, vamos lutar junto com ele e viver cada aventura ao lado do jovem Barry. Observe como Kubrick nos joga dentro da luta quando ele enfrenta um soldado no exército. A câmera agitada, o som dos socos e o barulho das pessoas em volta criam um clima muito real na cena. Interessante notar também como a acidez já citada é ainda mais perceptível nesta fase da vida de Barry, como quando o narrador diz que as razões da guerra não precisam ser explicadas, a não ser por filósofos ou historiadores. Na realidade, este trecho é uma crítica a insanidade da guerra. (“É bom sonhar com uma guerra gloriosa em uma poltrona em casa. Outra coisa é participar dela.”). E se o espectador se sente dentro da narrativa é também por causa do bom nível das atuações. Ryan O’Neal vive Barry Lyndon com sutileza, mantendo um ar misterioso e compenetrado em sua obsessão por alcançar a alta sociedade. Barry é esperto, jamais deixando de tomar o caminho que lhe seja vantajoso, mesmo que tenha que se rebaixar para isso, como quando aceita ser voluntário no exército da Prússia. O’Neal consegue transmitir emoção também nas cenas dramáticas, como em seu choro emotivo ao perder seu padrinho, e principalmente quando perde o filho Bryan. E os destaques não param por aí. Desde o momento em que a troca de olhares entre Barry e Lady Lyndon indica o interesse da moça, Marisa Berenson mostra sua qualidade como atriz, ampliada posteriormente com o crescente sofrimento que a personagem terá de enfrentar, e alcançando seu ponto alto na perda de Bryan e em sua tentativa de suicídio. No restante do eficiente elenco, destacam-se Leon Vitali como Lorde Bullingdon e Frank Middlemass como Sir Charles Lyndon.

O ataque furioso de Barry Lyndon ao jovem Lorde Bullingdon, captado com precisão por Kubrick, desencadeia todas as desgraças que se abatem sobre a vida dele. O eminente título inglês que conseguiria se perde, assim como a estabilidade da família. Pra piorar as coisas de vez, ao presentear seu amado filho, Barry acaba sofrendo a maior perda de sua vida. A tocante cena da despedida de Bryan inicia a seqüência final onde a vida de Barry Lyndon tomará seu destino trágico e deprimente. O reencontro com Bullingdon só fechará este ciclo cruel na vida do irlandês. E seu final, sozinho, pobre e debilitado, não condiz com a interessante vida que ele teve.

Não contente em criar uma visão assustadora do futuro em “Laranja Mecânica” e em possibilitar inúmeras interpretações para o destino da humanidade em “2001, uma odisséia no Espaço”, Stanley Kubrick decidiu também olhar para o passado e fazer um retrato minucioso e absolutamente deslumbrante do século XVIII neste magnífico “Barry Lyndon”. Repleto de planos capazes de tirar o fôlego de qualquer um, este grande trabalho do genial diretor também brinda o espectador com uma intrigante estória, que acompanha a trajetória de um jovem sonhador até sua completa transformação naquilo que mais odiava. E nem por isso podemos dizer que ele era uma má pessoa, pois era apenas um ser humano, com defeitos e virtudes. Exatamente como o diretor de “Barry Lyndon”, chato, perfeccionista, mas dono de um talento assombroso, capaz de deixar na historia do cinema tantas obras marcantes. E Barry Lyndon é mais uma delas.

Texto publicado em 04 de Fevereiro de 2010 por Roberto Siqueira

LARANJA MECÂNICA (1971)

(A Clockwork Orange) 

5 Estrelas

 

Obra-Prima

 

Videoteca do Beto #8

Dirigido por Stanley Kubrick.

Elenco: Malcolm McDowell, Patrick Magee, Michael Bates, Anthony Sharp, Warren Clarke, Carl Duering, Adrienne Corri, Paul Farrell, Clive Francis, Michael Glover, James Marcus, Godfrey Quigley e Aubrey Morris. 

Roteiro: Stanley Kubrick, baseado em livro de Anthony Burgess. 

Produção: Stanley Kubrick.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quando terminei de assistir mais este grande filme de Stanley Kubrick, a única palavra que me veio à cabeça foi “gênio”. Incrivelmente atual e polêmico, com imagens que dificilmente sairão de minha memória e uma empolgante jovialidade na tela, Laranja Mecânica se estabelece desde já como uma das mais agradáveis experiências que tive ao ver um filme, tornando-se uma referência obrigatória para mim de agora em diante. Extremamente visual, com muitas cenas violentas e diversas imagens que fazem referencia ao sexo, tornou-se polêmico antes mesmo de seu lançamento, sendo liberado no Brasil somente muitos anos depois de sua estréia, e mesmo assim, com tarjas pretas nos órgãos sexuais que aparecem durante o filme. Cito este fato somente para comentar como é engraçado e intrigante pensar que muita gente se incomoda muito mais com o sexo do que com a violência, o que é certamente motivo para reflexão.

Em um futuro indefinido, sombrio e incrivelmente parecido com os dias de hoje, Alex (Malcolm McDowell) é o líder de uma gangue de delinqüentes baderneiros que cometem diversos crimes noturnos pelas ruas. Ao ser pego pela polícia em uma noite de insucesso, ele passa a servir de experimento para uma nova técnica de tratamento de criminosos, antes de retornar para a sociedade.

O primeiro ato de Laranja Mecânica é muito próximo da perfeição. O fascinante ambiente futurista e decadente criado por Kubrick e sua equipe e a extrema segurança com que ele conduz a narrativa exerce uma inevitável atração em quem assiste. As cenas viscerais e extremamente violentas criam um impacto tão grande no espectador que no restante do filme somos praticamente levados pelo magnetismo do que vimos até então. Kubrick se mantém fiel ao seu estilo, com planos e enquadramentos criativos, como o caminhar em câmera lenta dos quatro drugues à beira da água (que claramente influenciou o inicio do filme Cães de Aluguel, de Tarantino). Observe como ele mantém a câmera fixa em determinados lugares mostrando as pessoas distantes na tela, num plano característico de seus filmes. Progressivamente elas vão se aproximando e crescendo, como no inicio da cena da revista das celas, que se passa no corredor. Ele também cria uma coleção de cenas memoráveis, como os quatro ataques da turma de Alex antes de sua prisão, o encontro na loja de discos (aqui Kubrick faz uma auto-referencia com a capa do disco 2001) e sua divertida seqüência embalada pela ótima trilha e finalmente, a tensa e maravilhosa cena que Alex hesita em tomar uma taça de vinho. Além disso, o filme tem muitos momentos de humor negro, como a divertida cena em que o protagonista e uma enfermeira estão gemendo e a forma diferente que ele encontra para ler a Bíblia.

Malcolm McDowell oferece a atuação de sua vida no papel do violento e carismático Alex. Com os olhos sempre arregalados e uma energia contagiante, ele cria uma empatia estranha no espectador que, mesmo discordando da maioria de suas atitudes, acaba sempre torcendo para que ele de alguma forma tenha sucesso. Fã incondicional da nona sinfonia de Bethoween (a quem chama de Ludwig van), ele é alguém cerebral na mesma proporção em que é infernal. Explosivo e visceral, encontra na violência a sua razão de viver, e seu prazer no que faz é impressionante. O ator transmite com extrema habilidade a personalidade doentia de Alex. Observe como ele se mantém sempre em movimento, demonstrando que é uma pessoa inquieta e que jamais para de pensar no que vai fazer. Quando fixa seu olhar, transmite uma sensação de hipnose, de poder absoluto, resultado obtido através da técnica do ator que mantém os olhos arregalados e sem piscar. Ele também capricha nos pequenos detalhes. Na prisão, o guarda exige que ele decore seu numero de inscrição, e ele olha pra cima como quem tenta decorar o que ouve. Ao ouvir a resposta do ministro quando o padre diz que um ser humano tem que poder escolher o que faz, sua reação de satisfação é perfeita, com um sorriso sarcástico no rosto. E o mais impressionante de tudo é a já citada empatia que ele consegue criar no espectador, mesmo sendo uma pessoa desprezível do ponto de visa ético e social. Isto tudo se deve ao talento absurdo de McDowell na criação de um personagem magnético e inesquecível, além da inteligência de Kubrick ao misturar momentos de violência com coisas que normalmente nos agradam, como músicas clássicas, quadros belíssimos e a arquitetura maravilhosa do velho cassino. No restante do elenco, podemos destacar as atuações de Patrick Magee como o velho escritor Frank Alexander (observe seu rosto repleto de raiva no jantar que tem com Alex e mais três pessoas) e Anthony Sharp como o Ministro do Interior, exalando cinismo nos momentos finais do filme, quando seu diálogo com Alex expõe todo o jogo político envolvido no tratamento. Michael Bates, apesar de caricato, está engraçado como o exagerado chefe Barnes, gritando para tentar impor respeito junto aos delinqüentes.

O próprio Kubrick escreveu o roteiro, adaptado do livro homônimo de Anthony Burgess. Os diálogos são sempre atraentes, utilizando inclusive a linguagem criada no livro, uma mistura de inglês e russo que só Alex e seus amigos entendem. A narrativa se divide claramente em três partes que se concentram no tema da violência, que é (na visão do diretor) algo intrínseco ao ser humano e que se espalha na sociedade de diversas formas. Na primeira, vemos a violência social através dos delinqüentes que agem sem motivos, só por diversão. Na segunda, a violência organizada sob a máscara do governo e da policia. E na terceira, a violência reativa daquelas pessoas que sofreram com os ataques de Alex. É como se Kubrick quisesse dizer que a violência é algo que temos que conviver de qualquer forma, algo inevitável. O ritmo sempre interessante da narrativa é mérito também da excelente montagem de Bill Butler, responsável por seqüências alucinantes que grudam nossas retinas na tela, como os ataques dos delinqüentes e o curioso método de tratamento de Alex.

A fotografia de John Alcott propositalmente mistura cores vivas, já que vemos o mundo filtrado através dos olhos do narrador. Observe como as cores da sala de sua casa são divididas entre o vermelho e o azul e como os ambientes que ele freqüenta sempre têm cores fortes em destaque. Por outro lado, quando se isola do mundo ou está ao lado de seus drugues a fotografia destaca a cor branca, já que neste momento Alex está em paz de espírito. As roupas brancas dos delinqüentes revelam também o excelente trabalho de figurino, que busca harmonia visual com a direção de fotografia. Seu disco favorito tem a capa branca e seu quarto é predominantemente branco, incluindo o curioso quadro da moça nua que revela também o cuidadoso e competente trabalho de Direção de Arte. Estes pequenos detalhes, como as pichações na entrada de sua casa e a cobra que ele cria em seu quarto, ajudam a demonstrar a personalidade perturbada de Alex. Finalmente, a excepcional trilha sonora recheada de músicas clássicas dá um tom de fábula ao filme, nos colocando em dúvida sobre a seriedade dos atos que vemos em cena. Kubrick nos obriga a associar músicas que normalmente gostamos a atitudes que normalmente repudiamos, como na excelente cena em que Alex canta “Singing in the Rain” (em outro momento de estupenda atuação de McDowell).

Laranja Mecânica é agressivo e visionário. Antevê diversos problemas sociais e até grupos que surgiriam anos depois do filme, como o movimento punk. Existe também uma sutil crítica ao autoritarismo, quando Alex tenta ler o que está assinando e o guarda da prisão grita pra ele assinar sem ler. Alex demonstra que, apesar de delinqüente, é alguém que pensa, ao contrario do guarda que só cumpre ordens sem questioná-las. Fica evidente também que um delinqüente não é necessariamente alguém sem cultura ou sem condições de ser alguém na vida, o que só agrava o problema, já que dificulta ainda mais a tarefa de mapear a causa da agressividade do jovem. O confronto de métodos fica evidente quando Alex é transferido para se submeter ao novo tratamento. É intencional, Kubrick quer chocar. Por outro lado, a cena final deixa claro que não importa o método utilizado, a pessoa perturbada sempre vai ver as coisas com seu próprio olhar. Em resumo, o que o genial diretor claramente pretende é escancarar uma discussão sobre a violência. O espectador é obrigado a pensar em diversos temas controversos. De onde se origina toda esta violência? Seria a violência das ruas diferente da violência organizada que os órgãos públicos exercem? Não seria a violência algo intrínseco do ser humano, que é um animal? Qual a sensação que sentimos ao ver Alex sendo atacado pelas pessoas que ele agrediu anteriormente? Confesso que, apesar de não concordar com suas atitudes, fiquei mais incomodado quando Alex foi agredido do que quando ele agrediu um grupo de estupradores, por exemplo, exatamente porque ele não tinha como se defender. Já a cena em que ele Alex comete um estupro me causou um grande incomodo, estranhamente aliviado pela canção alegre que ele cantava. Mas por que quando ele atacou um bêbado na rua eu achei graça? Kubrick me fez pensar em como devo olhar para a violência e para mim mesmo. Será que eu não sou tão bom quanto eu imaginava? Independente das respostas, a satisfação pelo questionamento gerado é suficiente para me agradar. É maravilhoso ser incomodado por um filme e ser obrigado a questionar valores desta forma.

Com uma atuação magnética e uma energia capaz de causar inveja a qualquer diretor de filmes de ação, Laranja Mecânica é o filme ideal para quem procura entretenimento inteligente e de qualidade. Abordando de forma audaciosa um tema extremamente complicado e controverso, Kubrick consegue criar um filme antológico, com imagens muito fortes e que dificilmente serão esquecidas. Recheado de humor negro e de seqüências inesquecíveis, propõe uma discussão muito interessante sobre a violência e leva a uma importante auto-reflexão da sociedade como um todo. O resultado final de tudo isto é uma obra-prima incrivelmente polêmica e proporcionalmente genial.

PS: Só espero que nenhum maluco justifique seus atos de violência por influencia deste filme, como era costume na época de seu lançamento. Como é um filme dos anos setenta acho difícil isto acontecer hoje em dia, mas nunca é demais ter cuidado. Vale lembrar que filmes recentes sofreram injustamente com este tipo de acusação, casos de “Clube da Luta” e “Assassinos por Natureza”.

Texto publicado em 22 de Julho de 2009 por Roberto Siqueira