LAVOURA ARCAICA (2001)

(Lavoura Arcaica)

 

 

Filmes Comentados #19

Dirigido por Luiz Fernando Carvalho.

Elenco: Selton Mello, Raul Cortez, Juliana Carneiro da Cunha, Leonardo Medeiros, Mônica Nassif, Christiana Kalache, Caio Blat, Renata Rizek, Simone Spoladore, Pablo César Câncio e Leda Samara Antunes.

Roteiro: Luiz Fernando Carvalho.

Produção: Luiz Fernando Carvalho.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de esclarecer que os filmes comentados não são críticas. Tratam-se apenas de impressões que tive sobre o filme, que divulgo por falta de tempo para escrever uma crítica completa e estruturada de todos os filmes que assisto. Gostaria de pedir que só leia estes comentários se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

– Obra-prima do cinema nacional, este poético e belo “Lavoura Arcaica” é um exercício cinematográfico primoroso, que abusa do estilo e da originalidade para contar uma estória difícil, polêmica e intensamente sufocante. A difícil convivência entre um pai rígido e um filho rebelde é o tema central do maravilhoso filme dirigido por Luiz Fernando Carvalho.

– A visceral atuação de Selton Mello é nada menos que sensacional, expondo em diversos momentos a angústia que o rebelde reprimido André sentia por não poder viver da forma que gostaria e experimentar tudo que tinha vontade. As emoções do personagem quase saltam da tela e caem no colo do espectador. Perfeito.

– O filme aborda temas complicados como os limites impostos pela sociedade e pela religião, o difícil relacionamento familiar e às vontades e instintos da natureza humana. Não à toa André vive em contato com a natureza, como quando coloca os pés no chão ou quando se encobre com folhas secas. Ele é puro instinto. E a câmera de Carvalho nos faz praticamente entrar em André, tornando palpável o seu contato com a natureza nestes momentos.

– Dentre as vontades de André está o polêmico amor, na verdade pura paixão, pela própria irmã Ana. Longe de querer justificar o incesto (condenável, em minha opinião), mas esta é a forma que ele encontrou para expor sua fúria insaciável por liberdade. André enfrentou a rígida repressão com a mais profana das libertinagens.

– Raul Cortez dá seu show particular, numa interpretação digna de aplausos. Destaque para a feroz e sensacional discussão que tem com André, o filho pródigo que regressa ao lar, na mesa da cozinha da fazenda.

– O trabalho técnico do longa é espetacular. A Direção de Arte de Yurika Yamasaki cria uma fazenda verossímil, suja, que reflete a vida dura daquela família. A Direção de Fotografia de Walter Carvalho nos brinda com uma imagem crua, seca e árida, totalmente coerente com o ambiente do longa. A trilha sonora de Marco Antônio Guimarães é linda, representando com sensibilidade o drama de André.

– A montagem do próprio Luiz Fernando Carvalho também é espetacular e merece um capítulo à parte. Observe como pequenos detalhes dizem mais que qualquer palavra, como na seqüência em que ao mesmo tempo vemos André (ainda criança) capturando uma pomba e André (já jovem) capturando a irmã, num ambiente cheio de grades que remete a uma gaiola. O simbolismo é evidente. Nas duas oportunidades, ele consumava seu desejo.

– A direção de Luiz Fernando Carvalho beira a perfeição, com inúmeras cenas marcantes e movimentos de câmera cheios de estilo. A narrativa lenta e muito bem desenvolvida permite a construção perfeita dos personagens, e o diretor é responsável direto por isso. O roteiro também de Luiz Fernando Carvalho é igualmente maravilhoso, poético, repleto de frases igualmente marcantes e que aborda temas complicados de forma contundente e corajosa.

– “Lavoura Arcaica” é cinema da mais alta qualidade. Esta obra marcante serve como referência obrigatória do excelente resultado que o cinema nacional pode alcançar e prova que podemos produzir verdadeiras obras-primas.

Texto publicado em 05 de Março de 2010 por Roberto Siqueira

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MEU NOME NÃO É JOHNNY (2008)

(Meu Nome não é Johnny)

 

Filmes Comentados #17

Dirigido por Mauro Lima.

Elenco: Selton Mello, Rafaela Mandelli, Eva Todor, André di Biasi, Ângelo Paes Leme, Orã Figueiredo, Hossen Minussi, Luís Miranda, Gillray Coutinho, Kiko Mascarenhas, Flávio Bauraqui, Aramis Trindade, Neco Vila Lobos, Charly Braun, Felipe Martins, Roney Villela, Wendell Bendelack, Cléo Pires, Júlia Lemmertz, Ivan de Almeida, Giulio Lopes, Flávio Pardal, Cássia Kiss e Rodrigo Amarante.

Roteiro: Mariza Leão e Mauro Lima, baseado em livro de Guilherme Fiúza.

Produção: Mariza Leão.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de esclarecer que os filmes comentados não são críticas. Tratam-se apenas de impressões que tive sobre o filme, que divulgo por falta de tempo para escrever uma crítica completa e estruturada de todos os filmes que assisto. Gostaria de pedir que só leia estes comentários se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

– A história do playboy João Guilherme Estrella (Selton Mello), que se tornou o maior traficante do Rio de Janeiro sem jamais pisar numa favela, é contada neste longa irregular, que infelizmente não alcança um resultado satisfatório.

– Logo no início do filme, Johnny solta um morteiro na sala e o pai passa a mão na cabeça, demonstrando claramente como a educação é fundamental na formação do caráter do ser humano.

– Apesar de errar a mão no tom, a direção de Mauro Lima consegue alguns bons momentos, como o elegante movimento de câmera quando o pai de Johnny morre. Por outro lado, a briga na cadeia, além de pouco realista, é bastante confusa devido à câmera instável de Mauro Lima.

– O mundo do tráfico retratado no filme é pouco verossímil, com droga sendo vendida a luz do dia em uma peixaria (!), por exemplo. Além disso, é um mundo muito clean para o universo que retrata, revelando uma grave falha da direção de fotografia de Uli Burtin.

– Quando Johnny é preso, sua conversa com o advogado é muito curta e sem sentido, evidenciando falhas do roteiro de Mariza Leão e Mauro Lima, que jamais se define como comédia, drama, documentário ou policial, o que é lamentável. Não há problema em transitar entre os gêneros, desde seja feito com elegância e tenha coerência com a proposta do filme, o que não é o caso.

– Selton Mello inicia bem sua atuação no papel de João Guilherme, mas se perde e acaba tendo um resultado apenas mediano, o que é decepcionante para um ator de sua qualidade. Destaque negativo para a cena em que compra um apartamento, quando fala rapidamente com o vendedor e com sua namorada de uma forma nada elegante e até mesmo incompreensível.

– A acidentada montagem de Marcelo Moraes corta algumas cenas subitamente como, por exemplo, quando Johnny conta que o “Tainha” (Aramis Trindade) foi pescado. Pra piorar, a montagem estica demais o fraquíssimo terceiro ato, que destoa do ritmo forte do restante do filme. Muito menos interessante do que sua trajetória no tráfico – esta sim cheia de energia – a seqüência dentro da cadeia (e, principalmente, a seqüência dentro do hospício) poderia ser menor.

– No final, João vê tudo que perdeu no dia do Natal e reflete sobre a vida que teve até então. Esta seria a mensagem ideal para acabar o filme, mas infelizmente o otimismo exagerado do roteiro faz questão de reforçar que João Guilherme saiu da cadeia e se deu bem na vida. Apesar de ser uma história real, infelizmente este final deixa uma mensagem simplória demais sobre o mundo que retrata. Ou seja, você se mete no tráfico, ganha milhões, viaja o mundo, é preso, fica dois anos internado em um hospício por alegar insanidade mental e sai numa boa. A realidade é bem diferente para a maioria absoluta das pessoas que se arriscam neste mundo violento e, não raramente, sem volta.

Texto publicado em 17 de Fevereiro de 2010 por Roberto Siqueira