Ganância gera desigualdade social e violência

No último fim de semana fui visitar a casa do meu primo em Sumaré e na volta surgiu um interessante tema para debate a partir de uma afirmação que eu fiz. Entendo que a causa de muitos dos problemas sociais que enfrentamos no país vem da absurda desigual distribuição de renda que é feita no país. E de onde se origina esta má distribuição? Além dos políticos que ganham rios de dinheiro e ainda tem inúmeros benefícios, entendo que as próprias empresas são responsáveis por esta desigualdade, com políticas salariais no mínimo questionáveis. É claro que para chegar a um cargo mais alto às pessoas precisam ser competentes, se prepararem e se esforçarem bastante. Mas será que é justo um diretor de empresa ganhar 40 mil reais enquanto um peão de fábrica ou um analista ganha 1 mil ou 2 mil reais? Seria este competente diretor 40 vezes melhor que um peão ou analista? Seria seu trabalho 40 vezes mais importante que o outro? Entendo que os salários devem sim levar em conta a meritocracia e que a pessoa deva sim ir evoluindo ao longo de sua carreira, mas será que esta diferença não é grande demais? Será que se a diferença entre estes salários fosse menor o Brasil não proporcionaria maiores oportunidades e seria um pais melhor? Deixo o questionamento para que possam debater e espero gerar uma saudável e produtiva discussão.

Um abraço.

Texto publicado em 07 de Julho de 2009 por Roberto Siqueira

MARLEY & EU (2008)

(Marley & Me) 

4 Estrelas

 

Filmes em Geral #2

Dirigido por David Frankel.

Elenco: Owen Wilson, Jennifer Aniston, Alan Arkin, Eric Dane, Kathleen Turner, Haley Bennett, Haley Hudson, Tom Irwin, Alec Mapa, Joyce Van Patten, Sandy Martin, Nathan Gamble, Finley Jacobsen e Lucy Merrian. 

Roteiro: Scott Frank e Don Roos, baseado em livro de John Grogan. 

Produção: Gil Netter e Karen Rosenfelt. 

Quando decidi assistir Marley & Eu cometi um erro que jamais deveria ao subestimar o filme antes mesmo de assisti-lo por puro preconceito. Pensei se tratar de mais um filme bobo sobre cachorros super inteligentes que praticamente eram seres humanos, como nos acostumamos a ver ao longo dos anos. Logo na primeira cena, a excelente piada sobre o cão tranqüilo que passeia com o dono me alertou para me despir do preconceito e assistir ao filme com outros olhos. Lição aprendida. Marley & Eu consegue sair da mesmice ao utilizar o cão apenas como instrumento para uma análise mais interessante do amadurecimento do casal principal e a construção de sua família.

John (Owen Wilson) e Jennifer (Jennifer Aniston) são recém-casados, acabaram de comprar um imóvel e trabalham como jornalistas na Flórida, para onde se mudaram recentemente. Ela é muito bem sucedida profissionalmente e ele ainda busca a felicidade neste campo de sua vida. Indeciso quanto a ser pai, John aceita a sugestão de seu amigo Sebastian (Eric Dane) e decide comprar um cachorro de presente para sua esposa. A partir deste momento, o cotidiano do casal ao lado do cachorro servirá de pano de fundo para uma análise mais profunda sobre a evolução da vida dos dois, os sonhos, as frustrações e as realizações de ambos. É claro que o animal de estimação tem papel fundamental na trama, influenciando a vida do casal em diversos momentos, mas de uma forma bem próxima daquilo que acontece no dia a dia de qualquer pessoa que tenha um animal de estimação. Eles não são tão importantes quanto os seres humanos, mas fazem parte das famílias pelo mundo afora.

O trabalho técnico no filme é discreto e competente. Observe por exemplo como a fotografia destaca a cor branca na cena pós-casamento, representando visualmente a paz de espírito do casal naquele momento. As penas brancas flutuando completam esta composição visual e encerram muito bem a cena. Observe como o visual muda completamente quando a trama chega a Florida, destacando cores vivas, que representam a alegria de uma cidade litorânea no verão. O que não posso considerar discreta é a montagem do filme, que em pelo menos duas vezes nos apresenta momentos muito interessantes. Para demonstrar a passagem do tempo na vida do casal, acompanhamos a leitura de um texto de John sobre seu dia a dia com Marley, enquanto a espetacular montagem demonstra visualmente o que o texto diz com imagens que mudam em uma velocidade impressionante. Também merecem destaque as excelentes músicas que tocam no filme.

O roteiro baseado no livro de John Grogan é previsível. Confesso que em poucos minutos de trama eu já imaginei o que aconteceria e acertei em cheio. Isso não desqualifica o trabalho de Scott Frank e Don Ross, já que a trama não deixa de ser interessante em nenhum momento. O foco aqui não é saber o que vai acontecer, e sim a forma como aquelas pessoas vão reagindo aos acontecimentos. Incomoda um pouco a típica mensagem do sonho americano, ou seja, se você se esforça e trabalha muito vai ter sucesso, o que não é uma verdade absoluta no mundo de hoje. (se não viu o filme, pule para o próximo parágrafo). Quanto ao final previsível, trata-se de uma tragédia anunciada. Não por falha do roteiro, mas pelo simples fato de que os cães vivem muito menos que os seres humanos. Na própria vida real as pessoas se recusam a aceitar que, inevitavelmente, um dia isso acontecerá com aquele animal que preencheu tantos vazios ao longo de sua jornada. Conseguir tratar este assunto de forma adulta e sem muitos melodramas é um ponto muito positivo para Marley & Eu.

Owen Wilson tem uma atuação muito irregular, explorando muito pouco o arco dramático que o personagem oferece. Nada o abala. Diversos acontecimentos bons, ruins, de extrema alegria e a mais cruel tristeza acontecem com ele e as reações de John são sempre extremamente frias. Ele é inerte a tudo, é uma pessoa insegura e indecisa. Observe por exemplo com na marcante cena do ultra-som ele reage como se nada tivesse acontecido, assim como sua reação ao saber que Jennifer está grávida é assustadoramente fria. Já nos momentos em que seu personagem demonstra certa inquietação e tristeza por não saber o que quer da vida ele consegue um bom resultado, como nas conversas com seu chefe Arnie Klein (Alan Arkin). Por outro lado, Jennifer Aniston (uma atriz que admiro muito desde os tempos de Friends) oferece um desempenho digno da grande atriz que é. Na mesma cena do ultra-som, podemos notar a diferença de reação entre os atores, com a emoção extremamente humana que Jennifer transmite na cena em um choro contido, mas muito tocante. (se não viu o filme, pule este parágrafo também) Quando Marley está doente, repare como ela abraça carinhosamente o cão e chora ao colocá-lo no carro, pressentindo o que está para acontecer. Seu choro contido vai aumentando gradativamente, transmitindo emoção ao espectador sem apelar para uma atuação exagerada. Já Alan Arkin tem atuação discreta como o chefe de redação de John, com alguns ótimos momentos de bom humor como na despedida de John de seu jornal. Finalmente, Eric Dane faz seu papel de forma correta como o eterno solteirão Sebastian.

Uma agradável surpresa é a boa direção de David Frankel. Utilizando a criatividade, ele consegue compor planos interessantes sem que soem deslocados ou vazios. Ele utiliza por diversas vezes um leve travelling da direita para a esquerda durante as conversas do casal, mantendo o foco no diálogo sem utilizar cortes e closes, o que sempre é interessante. No momento em que Marley dispara em uma corrida pela praia, Frankel faz um excelente travelling acompanhando o cachorro, em uma bela composição visual. Ele também cria uma inteligente elipse através do som, em determinado momento que a palavra incorrigível é pronunciada. É verdade que o treinamento de Marley nunca nos convence de que ele vai aprender algo (e aqui Kathleen Turner tem uma atuação pífia como a Sra. Kornblut) e que em diversos momentos duvidamos da enorme paciência que o casal tem com o rebelde cachorro. Somente depois de muito tempo é que Jennifer explode e se rebela contra o furacão chamado Marley, já demonstrando a mudança em sua personalidade, agora alterada pela vida. Ela já não trabalha mais e passa o dia inteiro cuidando da casa e das crianças. Aqui Jennifer Aniston tem outro momento brilhante, demonstrando claramente o incômodo que Jennifer sente por ter mudado tanto sua vida ao longo dos anos, o que é muito comum na maioria das mulheres que largam o emprego para cuidar dos filhos.

Utilizando o cachorro de estimação como fio condutor das mudanças ocorridas na vida do casal, Marley & Eu é na realidade um belo estudo de dois personagens. John, que era um homem sem ambição, indeciso e inseguro, evolui e se torna um profissional de sucesso e um verdadeiro pai de família. Este amadurecimento fica evidente quando John encontra o amigo Sebastian pelas ruas de Filadélfia. A conversa entre eles e a forma como o amigo aborda duas mulheres depois que eles se despedem serve para lembrar John o quanto ele amadureceu durante os últimos anos de sua vida. Jennifer também passa por transformações, mudando de profissional de sucesso e realizada para uma mãe pouco confortável em sua nova realidade. E acompanhando todo este processo estava Marley, “o pior cão do mundo”. Em um momento tocante do filme, Jennifer percebe que sua família havia começado com ele. E é interessante pensar como todo animal de estimação normalmente acompanha a evolução de seus donos, e quando eles se vão, parte da vida de seus donos vai com eles também.

Conseguindo ser emocionante sem apelar para melodramas, Marley & Eu se destaca pela forma adulta que encara o animal de estimação. Marley não é superdotado, não é extremamente inteligente e sequer é obediente. Sua virtude é apenas ser parte de uma família, um animal de estimação normal, como todos os outros. E é aí que mora seu encanto, na identificação que a maioria das pessoas tem com ele enquanto assistem ao filme.

Marley & Eu 

 Texto publicado em 06 de Julho de 2009 por Roberto Siqueira

E o Oscar foi para…

Para aquecer a categoria “Premiações”, vou fazer aqui um comparativo dos filmes que eu considerei os melhores do ano com aqueles que a Academia de Hollywood premiou. Vou comparar somente os últimos 20 anos pela óbvia razão de que são os anos que assisti mais filmes e, portanto tenho base para comparar. Vale ressaltar que em alguns destes anos eu não vi filmes que inclusive concorreram ao prêmio e, sendo assim, posso mudar meu julgamento à medida que for assistindo novos filmes. No momento, a comparação fica assim:

2009 (Ano de Produção 2008)

Oscar de Melhor Filme: Quem quer ser um milionário?

Meu Melhor Filme do ano: Wall.E

2008 (Ano de Produção 2007)

Oscar de Melhor Filme: Onde os fracos não têm vez

Meu Melhor Filme do ano: Na Natureza Selvagem

2007 (Ano de Produção 2006)

Oscar de Melhor Filme: Os Infiltrados

Meu Melhor Filme do ano: Filhos da Esperança

2006 (Ano de Produção 2005)

Oscar de Melhor Filme: Crash – No Limite

Meu Melhor Filme do ano: Syriana – A Indústria do Petróleo

2005 (Ano de Produção 2004)

Oscar de Melhor Filme: Menina de Ouro

Meu Melhor Filme do ano: Menina de Ouro

2004 (Ano de Produção 2003)

Oscar de Melhor Filme: O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei

Meu Melhor Filme do ano: Dogville

2003 (Ano de Produção 2002)

Oscar de Melhor Filme: Chicago

Meu Melhor Filme do ano: O Pianista

2002 (Ano de Produção 2001)

Oscar de Melhor Filme: Uma Mente Brilhante

Meu Melhor Filme do ano: O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel

2001 (Ano de Produção 2000)

Oscar de Melhor Filme: Gladiador

Meu Melhor Filme do ano: Gladiador

2000 (Ano de Produção 1999)

Oscar de Melhor Filme: Beleza Americana

Meu Melhor Filme do ano: Magnólia

1999 (Ano de Produção 1998)

Oscar de Melhor Filme: Shakespeare Apaixonado

Meu Melhor Filme do ano: Além da Linha Vermelha

1998 (Ano de Produção 1997)

Oscar de Melhor Filme: Titanic

Meu Melhor Filme do ano: Titanic

1997 (Ano de Produção 1996)

Oscar de Melhor Filme: O Paciente Inglês

Meu Melhor Filme do ano: O Paciente Inglês

1996 (Ano de Produção 1995)

Oscar de Melhor Filme: Coração Valente

Meu Melhor Filme do ano: Coração Valente (Eu sei, este ano tivemos inúmeros filmes maravilhosos. Mas por questões pessoais, que discutirei quando chegar o momento oportuno, este é meu filme favorito aqui).

1995 (Ano de Produção 1994)

Oscar de Melhor Filme: Forrest Gump – O Contador de Histórias

Meu Melhor Filme do ano: Um Sonho de Liberdade

1994 (Ano de Produção 1993)

Oscar de Melhor Filme: A Lista de Schindler

Meu Melhor Filme do ano: A Lista de Schindler

1993 (Ano de Produção 1992)

Oscar de Melhor Filme: Os Imperdoáveis

Meu Melhor Filme do ano: Os Imperdoáveis

1992 (Ano de Produção 1991)

Oscar de Melhor Filme: O Silêncio dos Inocentes

Meu Melhor Filme do ano: JFK – A Pergunta que não quer calar

1991 (Ano de Produção 1990)

Oscar de Melhor Filme: Dança com Lobos

Meu Melhor Filme do ano: Dança com Lobos

1990 (Ano de Produção 1989)

Oscar de Melhor Filme: Conduzindo Miss Daisy

Meu Melhor Filme do ano: Campo dos Sonhos

Resumindo, concordei com 40% das decisões da Academia nos últimos 20 anos. Mais pra frente vou explicando o porquê de cada uma destas escolhas. Mas pra começar, já deixo aqui registrado minhas preferências.

Fiquem à vontade para comentar, discordar, concordar ou criticar. Enfim, vamos debater…

Um abraço.

Oscar1 

Texto publicado em 05 de Julho de 2009 por Roberto Siqueira

Categoria Família

Criei esta categoria para falar da grande alegria que Deus me deu recentemente. Quando criei o blog não imaginei que este presente divino em minha vida já estava por vir. Agradeço a Ele e inauguro aqui oficialmente a categoria família (com alguns dias de atraso). Vou falar do meu cotidiano e principalmente do meu amor e do meu bebê.

Um abraço.

Texto publicado em 05 de Julho de 2009 por Roberto Siqueira

Curso de Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica em São Paulo com Pablo Villaça

Pessoal,

Para todos aqueles que tiveram interesse pelo curso que fiz com o crítico de cinema Pablo Villaça, ele está formando uma nova turma (segue o link do curso abaixo). Ele voltará à São Paulo agora em Julho.

http://www.cinemaemcena.com.br/pv/BlogPablo/page/Curso-de-Teoria-Linguagem-e-Critica-Cinematografica-em-Sao-Paulo.aspx

Recomendo o curso, é nota 10!

Abraço.

Texto publicado em 03 de Julho de 2009 por Roberto Siqueira

TRÊS HOMENS EM CONFLITO (1966)

(Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo) 

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #4

Dirigido por Sergio Leone.

Elenco: Clint Eastwood, Lee Van Cleef, Eli Wallach, Aldo Giuffrè, Mario Brega, Luigi Pistilli, Rada Rassimov, Antonio Casale, John Bartho, Angelo Novi e Antonio Casas. 

Roteiro: Agenore Incrocci, Sergio Leone, Furio Scarpelli e Luciano Vincenzoni. 

Produção: Alberto Grimaldi. 

Três Homens em Conflito é o ponto alto da parceria entre o diretor italiano Sérgio Leone e o hoje astro de Holywood Clint Eastwood. Pouco conhecidos na época, conseguiram alcançar o sucesso através da trilogia dos dólares, que marcou o western para sempre e simbolizou uma época onde o estilo Western Spaghetti ficou conhecido. Depois de “Por um punhado de dólares” e “Por uns dólares a mais”, a dupla alcançou seu melhor resultado em “Três homens em conflito” e brindou o cinema com uma obra que atravessa gerações graças à extraordinária qualidade que têm.

Já na apresentação dos créditos podemos perceber a originalidade de Leone através da montagem de imagens acompanhada da maravilhosa trilha de Ennio Morricone. O filme narra à estória de Tuco Benedito Pacifico Juan Maria Ramirez (isso tudo mesmo!), apelidado de “O Feio” (Eli Wallach), Angel Eyes Sentenza, apelidado de “O Mau” (Lee Van Cleef) e Blondie, apelidado de “O Bom” (Clint Eastwood). Estes três homens atravessam o velho oeste em meio a Guerra Civil americana à procura de 200 mil dólares que foram roubados. A introdução do filme e dos personagens é absolutamente perfeita. Na primeira delas, sem utilizar nenhuma palavra, o diretor cria um clima absurdamente tenso e demonstra com as imagens o quão perigoso é “O Feio”. Na introdução de “O Mau”, ele também cria este mesmo clima de tensão, e quando as primeiras palavras são ditas no filme, já sabemos o que está para acontecer. “O Bom” tem uma introdução de personagem mais bem humorada, e que ao mesmo tempo, serve para demonstrar a habilidade do personagem com a arma e um traço importante de sua personalidade: a esperteza.

A montagem de Eugenio Alabiso e Nino Baragli ajuda a manter a narrativa dos três personagens igualmente interessante, apesar de nos identificarmos mais com “O Bom”, talvez influenciados pela introdução deste personagem, onde ele é apresentado como o menos cruel dos três. Os bons diálogos do roteiro que Leone ajudou a escrever também merecem destaque, como a conversa entre dois personagens sobre as porcentagens que cada um merecia na parceria que tinham e outra conversa entre estes mesmos personagens em um quarto do Hotel sobre cinturões e esporas. O roteiro cruza os caminhos dos três personagens em diversos momentos da narrativa de forma inteligente e jamais cansativa, mantendo o espectador sempre atento ao que acontece. Também utiliza alguns artifícios como um diálogo expositivo entre “O Feio” e seu irmão padre (Luigi Pistilli), mas o truque é utilizado de forma inteligente, já que o conflito é bastante verossímil. Além disso, algumas frases são verdadeiras pérolas como o momento em que “O Feio” diz: “Na hora de atirar atire, não fale”. Leone também cria momentos de alívio cômico interessantes, como a bem humorada e muito inteligente cena com o exército azul empoeirado e parecendo cinza.

A atuação de Clint Eastwood é minimalista, com poucas mudanças de feição. O ator não expressa muitas emoções, o que cai bem no personagem frio e calculista que é “O Bom”. Um dos momentos de inspiração de Clint é quando “O Feio” pede que ele coloque a cabeça na corda e ele move a sobrancelha levemente, como quem está pensando “Fazer o que…”. Bem humorado. Interessante como seu personagem utiliza inteligentemente a seu favor o fato de ser o único que sabe algo extremamente importante na trama, permitindo-lhe trocar de parceria à qualquer momento, já que ele sabe que é o mais importante do trio. Já Lee Van Cleef tem uma atuação mais exagerada como “O Mau”, usando caras e bocas em diversos momentos da trama como na cena em que o personagem aparece pela primeira vez, o que acaba fazendo um contraponto interessante para a fria atuação de Clint. Mas é Eli Wallach quem consegue maior destaque entre os três personagens. Seu “Feio” é ao mesmo tempo ameaçador e ingênuo. Por diversas vezes sentimos pena dele e em outras tantas vezes sentimos raiva. Wallach consegue transmitir a personalidade insegura e ao mesmo tempo gananciosa do personagem em diversos momentos, como no momento em que ele é salvo pela primeira vez por seu comparsa. O sorriso misturado com tensão fica claro no rosto de Wallach, muito bem captado pela câmera próxima de Leone.

Também impressionante é o excelente trabalho de Ennio Morricone. A trilha sonora de Três Homens em Conflito é sensacional, com toda cara do velho oeste. Os assovios e os gritos que ouvimos em sua melodia principal se encaixam perfeitamente na melancólica e assustadora visão do velho oeste proposta por Leone. Ao longo de toda projeção somos presenteados com belíssimas melodias, além da maravilhosa música instrumental “The Ecstasy of Gold”, executada na íntegra em um momento chave e extremamente belo do filme. O trabalho de figurino e direção de arte também é competente, situando-nos na época com roupas bem características do velho oeste americano, além da excepcional maquiagem em certo momento da trama, onde um personagem está praticamente desfigurado por caminhar muitos dias sob o sol. A Fotografia de Tonino Delli Colli destaca as cores marrom, cinza, bege e em poucos momentos o azul escuro, demonstrando a aridez do velho oeste. Também demonstra visualmente o mundo seco, de pessoas com corações frios onde viviam os personagens.

Mas o grande destaque do filme é, sem dúvida nenhuma, a aula de direção dada por Sérgio Leone. O diretor italiano tem controle total do filme e demonstra como cada plano é cuidadosamente planejado. Observe por exemplo o talento de Leone ao criar planos e composições extremamente belas, muitas vezes utilizando somente as imagens para passar sentimentos ao espectador. Ele sabe cadenciar perfeitamente a alternância entre estes planos amplos com os closes, utilizados para acentuar o traço surrado daqueles personagens queimados pelo sol. Estes closes também demonstram a frieza com que eles encaram momentos extremamente tensos, como os duelos armados. O filme todo é recheado de momentos bem orquestrados, uma verdadeira coleção de cenas absolutamente perfeitas. Para citar algumas, repare a composição visual da cena do trem cortando a corrente presa a um determinado personagem, a tensa cena da invasão de um quarto de Hotel, a já citada cena acompanhada da música “The Ecstasy of Gold”, a explosão da ponte e o ataque aos comparsas de “O Mau”. São momentos de puro cinema, com imagens belíssimas e cheias de estilo, narrando uma trama inteligente diante de nossos olhos.

[se você ainda não viu o filme, pule este parágrafo] Entre todas as lindas cenas, a que merece maior destaque é a sensacional cena final do duelo anunciado entre os três personagens. O momento tão esperado mais parece um balé extremamente bem orquestrado por Leone, com movimentos de câmera sensacionais, cortes perfeitos, closes espetaculares e um crescente clima de tensão que aumenta ainda mais com a ótima trilha sonora, criando uma cena incrivelmente bela e inesquecível. Somente esta cena já serviria de referência para o belíssimo trabalho de um diretor extremamente inteligente e competente que podemos testemunhar neste filme.

Representante maior do estilo Western Spaghetti, Três Homens em Conflito encanta pela quantidade enorme de cenas esplendidamente bem filmadas, explorando todo o potencial das paisagens do velho oeste e extraindo o máximo da trama criada, demonstrando toda a competência de Sergio Leone como diretor. Mesmo muitos anos depois de seu lançamento, ainda se mantêm como um dos maiores westerns já lançados no cinema. Com cenas inesquecíveis, momentos de extrema tensão e imagens belíssimas, o filme consegue criar empatia com o espectador e mantê-lo sempre interessado na narrativa, de uma forma absolutamente competente e imperdível.

 

Texto publicado em 02 de Julho de 2009 por Roberto Siqueira