O RESGATE DO SOLDADO RYAN (1998)

(Saving Private Ryan)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #186

Dirigido por Steven Spielberg.

Elenco: Tom Hanks, Adam Goldberg, Vin Diesel, Edward Burns, Tom Sizemore, Giovanni Ribisi, Barry Pepper, Matt Damon, Paul Giamatti, Ted Danson, Jeremy Davies, Dennis Farina, Max Martini, Dylan Bruno e Leland Orser.

Roteiro: Robert Rodat.

Produção: Ian Bryce, Mark Gordon, Gary Levinsohn e Steven Spielberg.

O Resgate do Soldado Ryan[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Cinco anos após abordar os efeitos trágicos do regime nazista sobre o povo judeu no belo “A Lista de Schindler”, Steven Spielberg resolveu voltar à Segunda Guerra Mundial, desta vez sob a perspectiva de soldados norte-americanos e a partir do momento chave do conflito, conhecido como o “Dia D”. No entanto, se no primeiro a abordagem era mais intimista e melancólica, desta vez o diretor foca a ação, criando cenas memoráveis enquanto acompanha uma missão de resgate no meio do combate. Semelhantes tematicamente e distantes no tom, o fato é que estes dois trabalhos servem para mostrar o talento e a versatilidade deste grande diretor.

Escrito por Robert Rodat, “O Resgate do Soldado Ryan” utiliza um longo flashback para narrar o desembarque do exército norte-americano na praia de Omaha, na França, no famoso dia 06 de Junho de 1944. Após sobreviver ao verdadeiro massacre imposto pelas metralhadoras alemãs, o capitão John Miller (Tom Hanks) é incumbido de liderar um pelotão em busca do jovem James Ryan (Matt Damon), único dentre quatro irmãos ainda vivo e, justamente por isso, escolhido para voltar para casa e amenizar parte da dor de sua mãe. O problema é que Ryan é paraquedista e seu paradeiro é incerto, o que leva os soldados a questionarem a validade daquela missão.

Ainda que tenha quase 3 horas de duração, “O Resgate do Soldado Ryan” mantém um ritmo sempre empolgante, graças a sua narrativa simples e eficiente, que não abre muito espaço para firulas desnecessárias e foca constantemente na missão daquele grupo e nos obstáculos que surgem no caminho. Para isto, Spielberg conta com a montagem intensa de seu habitual colaborador Michael Kahn, ditando este ritmo dinâmico ao intercalar as empolgantes cenas de batalha com pequenos momentos de refresco, como quando os soldados conversam na igreja ou quando eles se encontram com companheiros do exército que tentam se recuperar dos ferimentos de batalha.

Isto não impede que Spielberg crie belos momentos dominados pelo silêncio e a melancolia, como, por exemplo, na cena em que a mãe de Ryan recebe as três cartas informando a morte de seus filhos. Sem a necessidade de utilizar uma só palavra, o diretor transmite toda a carga dramática da cena, apenas pelas escolhas dos planos e pelo desempenho dos atores, numa abordagem eficiente que sequer necessitaria da trilha sonora melancólica que a embala. Hábil também na composição de planos impactantes, como o rápido plano geral que acompanha o enorme contingente norte-americano chegando ao litoral francês, Spielberg confirma sua genialidade na condução das cenas de batalha, com sua câmera instável nos colocando dentro do combate. Entre elas, é claro que se destaca a sequência de abertura, capaz de tirar o fôlego do espectador, deixando-o grudado na cadeira por mais de 20 minutos.

Mãe de Ryan recebe as três cartasEnorme contingenteInvasão à NormandiaConduzida com agilidade e extrema competência por Spielberg, a invasão à Normandia não é apenas o melhor momento de “O Resgate do Soldado Ryan”, como figura também entre os maiores momentos da carreira do diretor – o que, em se tratando de Steven Spielberg, não é pouca coisa. Colocando-nos dentro do combate através da câmera agitada (e muitas vezes subjetiva), do caprichado design de som e da montagem frenética e jamais confusa, Spielberg cria uma sequência simplesmente perfeita tecnicamente, apostando no realismo gráfico para demonstrar os violentos efeitos daquele conflito armado, espalhando corpos despedaçados pela praia e espirrando sangue por todo lado, numa abordagem corajosa e acertada que faz falta em seus trabalhos mais recentes.

Refletindo a hostilidade daquele cenário, a fotografia quase sempre acinzentada de Janusz Kaminski (outro parceiro de longa data de Spielberg) abre pouco espaço para cores mais vivas, o que não impede a criação de planos lindíssimos como quando os soldados caminham sob os raios que caem no horizonte ou no ato final quando um grupo deles conversa iluminado pelos raros raios solares que vencem o tempo nublado que paira na região. Esta abordagem torna as cenas de batalha ainda mais tensas e sufocantes, ainda mais quando reforçadas pela chuva que cai. E até mesmo em ambientes internos como numa igreja a fotografia é belíssima, permitindo que Spielberg crie planos marcantes em conversas intimistas que ressaltam o lado humano daqueles soldados.

Fotografia acinzentadaRaros raios solaresAmbientes internos como uma igrejaAo recriar com precisão os uniformes utilizados na segunda guerra mundial, os figurinos de Joanna Johnston colaboram na ambientação do espectador, assim como o ótimo design de produção concebido por Tom Sanders, que recria as armas e os equipamentos utilizados como os tanques de guerra, sendo responsável também pelos impressionantes cenários nas cidades destruídas pela guerra, como na pequena vila fictícia chamada Ramelle no ato final.

Este refinamento técnico é um dos grandes trunfos de “O Resgate do Soldado Ryan” e, neste aspecto, o espantoso design de som merece um capitulo a parte. Chamando nitidamente a atenção na sequência da invasão à Normandia, onde nos permite notar com clareza toda a gama de tiros e explosões presente naquele ambiente hostil, o meticuloso trabalho de som segue perfeito por todo o filme, seja em momentos simples como quando demonstra a doença do capitão Miller na mão através do barulho repetitivo da bússola, seja na sequência final em que novamente nos coloca dentro da batalha através do som dos tiros, tanques e gritos dos soldados. Além disso, alguns instantes merecem destaque, como quando o som simula o impacto de duas explosões no capitão Miller, colocando o espectador no lugar dele ao distorcer o som real, ou quando a câmera afunda no mar logo no início e o som dá a exata noção da agressividade do ambiente acima da água ao contrastar o silencio dentro do mar com o barulho ensurdecedor fora dele.

Mais uma vez confirmando seu talento na composição de trilhas marcantes, John Williams faz outro bom trabalho, ainda que exagere em alguns momentos em que parece ditar para o espectador o que ele deve sentir. Na maior parte das vezes, no entanto, Williams pontua as cenas dramáticas com precisão, como quando o capitão Miller finalmente revela sua origem ao pelotão e escancara sua vontade de voltar pra casa, igualando-se aos seus comandados e aproximando-se da plateia.

Naturalmente carismático, Tom Hanks compõe o capitão Miller como um líder nato, falando com segurança diante dos comandados, o que não o impede de transmitir todas as dúvidas e inseguranças que vêm com o peso de sua posição, como no tocante momento em que chora solitário após a triste morte de Wade (Giovanni Ribisi). Em certo instante, ele próprio chega a questionar à validade daquela missão, humanizando o personagem ao demonstrar uma preocupação genuína com seu pelotão. Este questionamento, aliás, por diversas vezes parte dos próprios soldados, irritados diante de uma missão nada racional que coloca em risco a vida de vários combatentes para salvar apenas um.

Repleto de atores talentosos, o grande elenco de “O Resgate do Soldado Ryan” oferece pouco espaço para que nomes como Paul Giamatti e Vin Diesel brilhem. Ainda assim, Vin Diesel confere mais carisma ao seu Caparzo em seus poucos minutos em cena do que muitos dos outros atores conseguem fazer, ainda que o relacionamento entre eles soe real na maior parte do tempo, graças aos conflitos e aos diálogos que revelam suas fraquezas e angústias, tornando-os mais humanos diante do espectador. Mas ainda que seus personagens não sejam tão bem desenvolvidos, os atores que vivem aquele grupo de soldados conseguem ao menos nos fazer acreditar naqueles jovens como indivíduos diferentes e não apenas peças de um jogo de tabuleiro, como acontece, por exemplo, com o religioso atirador Jackson vivido por Barry Pepper e com o inseguro e por vezes medroso Upham interpretado por Jeremy Davies.

Líder natoCarismático CaparzoReligioso atirador JacksonApesar de todos os questionamentos, Ryan finalmente surge no caminho do grupo de maneira casual. Quando isto acontece, observe como Spielberg demora alguns segundos antes de revelar o rosto de Matt Damon, já que somente a sua presença em cena já seria suficiente para o espectador identificá-lo como o procurado personagem. E com tão pouco tempo de tela, Damon pouco pode fazer, ainda que se saia bem na conversa com o capitão Miller sobre as lembranças da vida fora dali, num dos raros momentos em que Hanks e Damon contracenam.

Após encontrar Ryan e resolver o principal conflito da narrativa, o roteiro transforma o confronto com os alemães na ponte no grande clímax, o que até funciona corretamente, ainda que não tenha o mesmo peso da espetacular batalha de abertura. E novamente, o som tem papel fundamental, já que é ele quem anuncia a chegada dos tanques alemães ao local e dá início ao conflito extremamente realista e violento, mais uma vez filmado com destreza pela câmera agitada de Spielberg e conduzido com dinamismo pelo diretor e seu montador.

Rosto de Matt DamonConversa com o capitão MillerConfronto com os alemães na ponteTecnicamente perfeito, “O Resgate do Soldado Ryan” escorrega apenas quando tenta dizer algo sobre os horrores da guerra, abordando a questão de maneira excessivamente melodramática, como nos desnecessários instantes finais em que Ryan pergunta se sua vida valeu a pena. Por outro lado, o tocante desespero de um soldado alemão diante da morte infelizmente é jogado fora no ato final, quando o mesmo surge novamente na batalha como se nada tivesse acontecido. No entanto, estas são falhas menores que não tiram os méritos do filme.

Mais empolgante do que reflexivo, “O Resgate do Soldado Ryan” funciona muito bem ao seu modo, colocando o espectador dentro da batalha e nos fazendo sentir de perto os horrores da guerra, mesmo que, no fim das contas, tenha pouco a dizer sobre ela.

O Resgate do Soldado Ryan foto 2Texto publicado em 23 de Fevereiro de 2014 por Roberto Siqueira

MÁQUINA MORTÍFERA 4 (1998)

(Lethal Weapon 4)

3 Estrelas 

Videoteca do Beto #185

Dirigido por Richard Donner.

Elenco: Mel Gibson, Danny Glover, Joe Pesci, Rene Russo, Chris Rock, Jet Li, Steve Kahan e Kim Chan.

Roteiro: Channing Gibson.

Produção: Richard Donner e Joel Silver.

Máquina Mortífera 4[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Apostando na competente mistura de cenas de ação de tirar o fôlego com muito bom humor, a série “Máquina Mortífera” consolidou-se como uma franquia de sucesso que, obviamente, também contava com o enorme carisma de seus personagens para conquistar a plateia. No entanto, se os três primeiros trabalhos eram marcados pela eficiência e regularidade, este quarto filme traz uma leve queda neste aspecto, ainda que o tombo não seja suficiente para fazer de “Máquina Mortífera 4” um longa ruim, apenas um trabalho claramente mais preguiçoso que os anteriores.

Escrito por Channing Gibson (que não tem relação de parentesco com Mel Gibson), “Máquina Mortífera 4” nos traz os policiais Martin Riggs (Mel Gibson) e Roger Murtaugh (Danny Glover) já mais velhos e agora promovidos ao cargo de Capitão após causarem mais confusão pelas ruas de Los Angeles. O problema é que eles acidentalmente descobrem uma gangue chinesa que atua na cidade trazendo imigrantes ilegais, dando início a uma investigação que levará a novas descobertas que colocarão em perigo suas famílias e amigos, entre eles Lorna (Rene Russo), a namorada de Riggs, o falastrão Leo (Joe Pesci) e o novato Detetive Lee Butters (Chris Rock), especialmente quando se deparam com o perigoso Wah Sing Ku (Jet Li).

Logo em seus empolgantes instantes iniciais, “Máquina Mortífera 4” já deixa claro que estamos assistindo a um legítimo filme da série, nos colocando dentro da ação enquanto acompanhamos o divertido diálogo dos carismáticos personagens, numa sequência muito bem conduzida por Richard Donner e que conta ainda com o excepcional design de som para nos ambientar, permitindo distinguir a conversa em meio aos tiros e explosões com precisão. Ciente de que já somos familiarizados com os personagens e seus dramas, traumas, problemas familiares e qualidades, o roteiro economiza tempo e parte logo para a apresentação do conflito que moverá a narrativa, através da chegada dos chineses no porto.

O problema é que Channing Gibson infla demais a trama com um excesso desconfortável de personagens que busca arrumar espaço para cada estrela que compõe o elenco, se perdendo também através de “surpresas” extremamente previsíveis, como a revelação de que Butters engravidou uma das filhas de Murtaugh. Por outro lado, a mistura de humor e ação que marca toda a série aparece novamente com força, balanceada de maneira extremamente eficiente durante toda a narrativa, encontrando espaço também para criticar a exploração de imigrantes ilegais nos Estados Unidos.

Com tantos personagens, a montagem de Dallas Puett, Kevin Stitt, Eric Strand e Frank J. Urioste soa um pouco confusa em certos momentos, mas acerta ao focar a maior parte do tempo no núcleo de sucesso da série, que é a relação entre Riggs e Murtaugh. Vividos novamente por Gibson e Glover de maneira extremamente descontraída e entrosada, os dois policiais são os grandes destaques de um elenco recheado, garantindo os melhores momentos do longa através de suas brincadeiras. Com o passar dos anos e o conhecimento mútuo, a relação de amizade entre eles só melhora, e isto fica evidente em “Máquina Mortífera 4”, que traz ainda um momento marcante da série, quando Riggs finalmente diz que “está velho demais para isso”, num instante que sinaliza a nostalgia que tomará conta da tela no ato final.

Empolgantes instantes iniciaisRelação de amizade só melhoraEstou velho demais para issoE se a química entre Riggs e Murtaugh continua intacta, o mesmo pode se dizer da relação entre Riggs e Lorna, novamente interpretada por Rene Russo e agora auxiliada pelo charme que a gravidez traz. Já Joe Pesci surge ainda mais falastrão e caricato na pele do engraçado Leo, que agora ganha a companhia de outro falastrão, o nem tão engraçado Butters vivido por Chris Rock.

Lorna e o charme que a gravidez trazEngraçado LeoNem tão engraçado ButtersJá os vilões continuam sendo a pedra no sapato da série, já que novamente eles surgem enfraquecidos e raramente representam alguma ameaça aos protagonistas. Esta sensação é reforçada pelo momento em que Riggs ridiculariza quase todos eles no restaurante de Benny (Kim Chan), que serve ao menos para apresentar a rara exceção dentro daquele grupo. Obviamente, estou me referindo ao misterioso Wah Sing Ku, interpretado por Jet Li. Compondo o vilão mais perigoso de toda franquia, Li não escapa da natureza unidimensional que marca os antagonistas da série, mas ao menos consegue oferecer alguma ameaça aos protagonistas, o que claramente não acontece com os outros vilões de “Máquina Mortífera”. Inicialmente soando ameaçador somente através da expressão facial, ele apresenta o quanto é letal quando mata um integrante da gangue num telhado, demonstrando toda sua capacidade nas artes marciais.

A presença dos chineses oferece uma oportunidade para que a figurinista Ha Nguyen se divirta ao criar as típicas roupas orientais, ganhando destaque também por chamar a atenção para o contraste entre Riggs e Murtaugh, que antes associávamos às diferenças de estilo entre eles, mas agora passamos a associar ao suposto sucesso financeiro de Murtaugh que gera desconfiança em Riggs. Já a fotografia de Andrzej Bartkowiak aposta novamente em cenas diurnas e iluminadas, que contrastam com o ato final, claramente mais sombrio e banhado pela chuva (outra marca da série). E finalmente, a trilha sonora composta por Eric Clapton (sim, ele!), Michael Kamen e David Sanborn aposta novamente em toques de guitarra que remetem aos bons momentos da franquia, mas agora inova ao trazer uma composição que faz alusão à China na sequência em Chinatown, escorregando por outro lado pelo tom exagerado que emprega em certos instantes, como na chegada do navio que carrega os chineses logo no começo.

Misterioso Wah Sing KuCenas diurnasAto final sombrio e banhado pela chuvaConduzindo todo este trabalho com segurança, Richard Donner acerta novamente na criação de cenas marcantes, como a excelente perseguição de carros envolvendo um trailer numa autopista de Los Angeles, repleta de malabarismos absurdos dos personagens e conduzida de maneira ágil e nunca confusa pelo diretor. Já quando Riggs para o carro na beira do trilho do trem, a tensão toma conta da tela justamente por termos acompanhado um assassinato semelhante no início do filme – e o posicionamento idêntico da câmera ajuda nesta associação. Balanceando estes momentos de adrenalina e tensão, as cenas engraçadas surgem em profusão, mas a que mais se destaca é mesmo a hilária conversa entre Riggs, Murtaugh e Benny num consultório odontológico. E finalmente, Donner mantém-se fiel à estrutura narrativa clássica da série, nos levando ao confronto final entre Riggs e o vilão numa noite chuvosa, fotografada de maneira bem obscura para ampliar a tensão. Só que desta vez, a luta corporal conta também com a participação de Murtaugh e, obviamente, é reforçada pela presença de um oponente realmente ameaçador.

Excelente perseguição de carros envolvendo um trailerHilária conversa num consultório odontológicoConfronto final entre Riggs e o vilãoEscorregando especialmente no roteiro, “Máquina Mortífera 4” representa uma leve queda na qualidade da série, mas está longe de ser um fracasso. Ainda que falte um pouco mais de ação, a foto da “família” e a criativa apresentação dos créditos finais conferem uma atmosfera nostálgica ao desfecho do longa, garantindo o encerramento digno de uma série muito eficiente e divertida.

Máquina Mortífera 4 foto 2Texto publicado em 17 de Fevereiro de 2014 por Roberto Siqueira

FORMIGUINHAZ (1998)

(Antz)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #184

Dirigido por Eric Darnell e Tim Johnson.

Elenco: Vozes de Woody Allen, Sharon Stone, Gene Hackman, Sylvester Stallone, Danny Glover, Jennifer Lopez, Anne Bancroft, Dan Aykroyd, Christopher Walken, Paul Mazursky, Jane Curtin e John Mahoney.

Roteiro: Chris Weitz, Paul Weitz e Todd Alcott.

Produção: Brad Lewis, Aron Warner e Patty Wooton.

Formiguinhaz[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Centrado num personagem desconfortável com sua posição na sociedade, questionador e até mesmo um pouco neurótico, “Formiguinhaz” poderia tranquilamente ter sido escrito por Woody Allen. Sendo assim, nada mais natural do que escolhê-lo para dublar a voz do protagonista, numa escolha não apenas inteligente, mas vital para que a narrativa funcione tão bem. Apostando ainda em outros astros e na qualidade da animação, a Dreamworks acertou em cheio nesta aventura divertida que, de quebra, ainda provoca reflexões interessantes no espectador.

Escrito pelo trio Chris Weitz, Paul Weitz e Todd Alcott, “Formiguinhaz” nos traz o cotidiano de um formigueiro a partir do ponto de vista de Z (Woody Allen), uma formiga operária que passa a questionar a falta de individualidade de seus semelhantes dentro da Colônia, chamando a atenção da bela princesa Bala (Sharon Stone) e gerando desconforto no general Mandíbula (Gene Hackman), que comanda o exército onde atua Weaver (Sylvester Stallone), um grande amigo de Z.

A imagem de abertura de “Formiguinhaz” emula o skyline de Nova York, revelando segundo depois que na verdade estamos vendo o contorno das folhas que enfeitam o exterior do formigueiro onde se encontra o protagonista, revelado num interessante movimento de câmera que vai ao seu encontro dentro do formigueiro. A simples menção à cidade, seguida pelo tom pessimista do monólogo de Z deitado num divã, deixa claro para o cinéfilo mais ligado que este é um filme com a cara de Woody Allen.

Esta sensação é reforçada pelas constantes reflexões do personagem sobre pensamentos já arraigados em seu povo, como o de que o indivíduo tenha que ser sacrificado em prol da Colônia, além é claro dos interessantes diálogos que se tornam ainda mais atraentes graças à maneira com que as vozes famosas do elenco se entregam aos seus respectivos papéis. Conferindo às formigas rostos que remetem diretamente aos seus dubladores sem jamais perder os traços cartunescos, os animadores da Dreamworks realizam um excelente trabalho, criando ainda ambientes impressionantes dentro e fora do formigueiro que nos sugam pra dentro da narrativa.

Skyline de Nova YorkDeitado num divãIntelectual complexadoÉ interessante notar também como cada personagem adota a persona cinematográfica do astro por trás dele. Assim, temos Woody Allen na pele de um intelectual complexado, Sharon Stone como a bela que rouba o coração do protagonista, Stallone como o fortão camarada e Hackman como o general viril e cruel, além das pequenas participações de Danny Glover como um soldado amigável, Jennifer Lopez como a sensual Azteca e Anne Bancroft como a sábia Rainha – Dan Aykroyd como a abelha Chip e Christopher Walken dublando o Coronel Cutter completam os destaques do elenco.

A belaFortão camaradaGeneral viril e cruelEstabelecendo muito bem a geografia do impressionante formigueiro concebido pelo design de produção de John Bell através de movimentos de câmera elegantes, os diretores Eric Darnell e Tim Johnson exploram muito bem aquele universo, aproveitando também o ambiente externo para criar lindos planos, como durante a marcha das formigas rumo ao combate e na fuga de Z e Bala. Por outro lado, este próprio combate nos traz uma triste e forte imagem dos corpos caídos no campo de batalha, realçada pelo plano distante e silencioso dos diretores e pela fotografia totalmente sem vida. Fotografia que investe numa paleta sem muita variação de cores dentro do formigueiro para sinalizar a vida sem graça de Z ali, provocando um forte contraste com o mundo colorido que ele encontra fora da Colônia.

Impressionante formigueiroCorpos caídos no campo de batalhaMundo coloridoFinalmente, é interessante notar a bela e sutil homenagem prestada pelos diretores no quase beijo entre Z e Bala, através de um recurso técnico muito utilizado pelas atrizes da época de ouro do cinema. Trata-se do soft focus, uma distorção na lente que embaça levemente a imagem e não nos permite ver as imperfeições no rosto dela quando a câmera se aproxima, exatamente como ocorria no passado.

Outro aspecto técnico que merece destaque é o som. Observe, por exemplo, como o ótimo design de som ilustra perfeitamente o forte impacto que os pés de um ser humano provocam naquele universo, ampliando consideravelmente o volume quando ele se movimenta por ali. Já a trilha sonora também remete aos filmes de Woody Allen ao inserir um toque de jazz, mas também traz composições instrumentais interessantes, como a marcha triunfal que acompanha os soldados indo pra guerra ou a música acelerada que anuncia a presença humana em “Insetopia”.

Mas o que chama mesmo a atenção em “Formiguinhaz” são as reflexões que a narrativa provoca. Tomemos como exemplo o instante em que os operários, já inspirados por Z, questionam o trabalho e iniciam uma revolta, sendo rapidamente contidos por um discurso inflamado do general Mandíbula, numa abordagem corajosa e adulta que toca em feridas profundas da humanidade, como o nazismo, o fascismo e todos os regimes autoritários que já existiram e/ou ainda existem em nossa sociedade, provando como o povo pode facilmente ser manipulado quando não consegue pensar por si mesmo. Este ideal opressor fica ainda mais evidente no discurso em que o General fala sobre limpeza, afirmando que os mais fortes superariam os mais fracos e eliminariam o mal da Colônia. Somente este aspecto já seria suficiente para garantir pontos ao longa.

Quase beijoDiscurso inflamadoSequência final empolganteA sequência final eficiente e empolgante prende o espectador na cadeira e o último plano, além de trazer uma elegante rima narrativa com a abertura, ainda nos revela o skyline da verdadeira Nova York ao fundo e em primeiro plano o Central Park, que descobrimos ser o local onde se passa toda a narrativa. Mais Woody Allen que isso, impossível.

Apostando na temática favorita de Woody Allen, “Formiguinhaz” é uma aventura divertida, recheada de personagens carismáticos e que traz ainda reflexões interessantes provocadas pelo pensamento questionador de seu protagonista. Deslocado, inquieto e inconformado com sua posição na sociedade em que está inserido, Z pode até não ter sido criado por Woody Allen, mas se tivesse ele certamente não seria muito diferente.

Formiguinhaz foto 2Texto publicado em 10 de Fevereiro de 2014 por Roberto Siqueira

CIDADE DOS ANJOS (1998)

(City of Angels)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #183

Dirigido por Brad Silberling.

Elenco: Nicolas Cage, Meg Ryan, Dennis Franz, Andre Braugher, Colm Feore, Rhonda Dotson, Sarah Dampf, Joanna Merlin, Robin Bartlett e Nigel Gibbs.

Roteiro: Dana Stevens, baseado em roteiro de Wim Wenders, Peter Handke e Richard Reitinger para o filme “Asas do Desejo / Der Himmel über Berlin.

Produção: Charles Roven e Dawn Steel.

Cidade dos Anjos[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Versão americana inspirada na obra-prima alemã “Asas do Desejo”, “Cidade dos Anjos” não consegue tocar o espectador com a mesma sensibilidade do original. No entanto, avaliar o filme de Brad Silberling sob este prisma seria injusto, já que, mesmo trabalhando dentro do modelo tradicional de Hollywood, o diretor consegue um excelente resultado, conquistando o espectador através da beleza de suas imagens e da força da narrativa. Se não sentimos o drama do protagonista com a mesma intensidade, também não podemos dizer que não somos envolvidos pela trajetória dele.

Como dito, a roteirista Dana Stevens inspirou-se no trabalho de Wim Wenders, Peter Handke e Richard Reitinger em “Asas do Desejo” (“Der Himmel über Berlin”, em alemão) para narrar à história de Seth (Nicolas Cage), um anjo enviado para ajudar aqueles que estão prestes a morrer que acaba se apaixonando por Maggie (Meg Ryan), uma cirurgiã centrada e racional que passa a questionar o próprio trabalho após perder um paciente numa cirurgia. Na medida em que Maggie abre espaço para novas interpretações sobre a vida e a morte, Seth sente que pode se aproximar dela e abre caminho para que um improvável relacionamento se concretize.

Estabelecendo desde o início a natureza angelical de seu protagonista, o diretor Brad Silberling faz questão de nos apresentar também aos benefícios daquela condição especial, trazendo Seth e seu amigo Cassiel (Andre Braugher, em boa atuação) sentados em cima de uma placa admirando o visual e falando sobre as coisas que eles não conseguem sentir. Assim, desde cedo à narrativa já evidencia o dilema que atormentará Seth: manter-se na privilegiada condição de anjo ou entregar-se aos prazeres e perigos da vida humana. Obviamente, nem o protagonista nem o espectador sabem que ele poderá ter esta escolha, já que somente depois que o divertido Nathaniel Messinger entra em cena é que esta alternativa será apresentada ao personagem. Completamente à vontade no papel, Dennis Franz interpreta Messinger com competência, conferindo graça ao anjo glutão que decidiu deixar a eternidade para trás para sentir os encantos e as dores da vida humana, servindo também como uma espécie de guia espiritual de Seth.

Seth e seu amigo CassielDivertido Nathaniel MessingerAnjo glutãoPara ampliar esta experiência sensorial tão desejada por Seth, Silberling insere planos que realçam as atividades corriqueiras que tornam a nossa condição humana tão especial. Assim, prazeres simples como comer uma pera ou sentir o toque de outra pessoa ganham uma nova dimensão na câmera do diretor e tornam-se objetos de desejo para Seth, que revela sua curiosidade num diálogo com o amigo Cassiel e em seu fascínio diante da habilidade do escritor Ernest Hemingway em descrever sensações que ele jamais pôde sentir. Ele queria sentir o vento, sentir o mar, sentir a dor, sentir o calor… Enfim, Seth queria sentir.

Através de lindos travellings que vagam pela cidade acompanhando pessoas indo para o trabalho, passeando e até mesmo a polícia atuando, o diretor realça a vida acontecendo naturalmente enquanto os anjos perambulam pelo local. Auxiliado pela fotografia naturalista de John Seale, o diretor evidencia o contraste entre o realismo do ambiente hospitalar e o encanto de instantes deslumbrantes como quando os anjos se reúnem para acompanhar o pôr do sol e as lindas sequências em que eles sentam em prédios ou objetos altos para olhar a cidade, nos presenteando com planos plasticamente belíssimos. Da mesma forma, o diretor trabalha bem na construção da aura sobrenatural que ronda os anjos, especialmente em planos que trazem todos olhando para o mesmo lugar, como quando Seth e Maggie deixam a Biblioteca juntos pela primeira vez. Esta sensação é reforçada ainda pela ousada escolha da figurinista Shay Cunliffe, que subverte o clichê e traz os anjos vestidos de preto ao invés do clássico branco.

Comer uma peraAnjos se reúnem para acompanhar o pôr do solTodos olhando para o mesmo lugarColaborando no contraste entre o realismo do hospital e a aura mágica que ronda os anjos, a trilha sonora de Gabriel Yared traz composições instrumentais dissonantes, intercaladas com belas canções como a linda “Angel” e o mega sucesso “Iris”, do grupo The Goo Goo Dolls. Assim, Silberling e sua equipe conseguem criar a atmosfera desejada em “Cidade dos Anjos”, fisgando o espectador pra dentro de uma narrativa clássica sobre o amor impossível. Além disso, a evolução lenta do romance ajuda a desenvolver melhor os personagens e seus dilemas, o que é mérito também da montagem de Lynzee Klingman, que investe o tempo necessário na construção do clima que permitirá a aproximação entre Seth e Maggie.

Desta forma, Silberling pode trabalhar na construção dos personagens com calma, nos aproximando mais deles através do uso constante do close-up e criando a empatia necessária para que o espectador torça pelo sucesso do romance. Observe, por exemplo, como a tensão durante o momento crítico da primeira cirurgia, a tristeza da família após Maggie dar a notícia do falecimento do paciente e a reação sensível dela soam extremamente realistas, tocando o espectador e fazendo com que os questionamentos da cirurgiã soem convincentes. Ao ver aquela médica numa posição de fragilidade e angústia, a empatia da plateia é quase imediata. Obviamente, o talento de Meg Ryan é essencial nesta composição da personagem. Cada vez menos confiante e questionando sua visão cética sobre a vida, Maggie lentamente cede espaço para o conflito interno que a atormenta, abrindo espaço também para a aproximação de Seth.

Momento crítico da primeira cirurgiaFragilidade e angústiaExpressão tranquilaAdotando uma expressão tranquila, Nicolas Cage transmite a paz que se espera de um anjo, numa atuação minimalista e bastante contida que foge de seu estilo tradicional e prova sua qualidade como ator. Através da expressão corporal e da voz contida, Cage ilustra muito bem a aflição de Seth diante da impossibilidade de viver aquele amor, assim como sua dúvida após descobrir que pode mudar sua condição. Captando muito bem as expressões dos atores, Silberling aproveita também para rechear a narrativa com planos simbólicos, como quando Maggie beija o namorado em sua casa e o diretor movimenta a câmera em direção a Seth, que se encontra atrás das grades da cozinha dela, num plano que ilustra o instante em que ele percebe que está apaixonado e, portanto, “aprisionado por ela”.

Em certo momento, o dilema de Seth parece simples de ser resolvido, mas basta refletir um pouco a respeito para compreender a complexidade daquela mudança drástica, já que ele deixaria para trás o conforto e a segurança de ser anjo para arriscar-se numa vida completamente nova, desconhecida e, o que é pior, finita. E é justamente neste sacrifício que reside à força do romance de “Cidade dos Anjos”. Quando Seth finalmente cria coragem e revela a verdade pra ela, chegamos ao esperado conflito entre o casal. Embaladas pela trilha melancólica, as cenas seguintes afundam os personagens na noite chuvosa, num visual obscuro que reflete a tristeza de ambos. E então, Maggie afirma que não quer mais ver Seth, concretizando o clichê do conflito e encaminhando a narrativa para o esperado final feliz. A partir daí, já esperamos que Seth desista da vida de anjo e corra atrás dela, o que realmente acontece, numa cena linda visualmente em que ele literalmente “cai” para tornar-se humano.

Atrás das gradesNoite chuvosaEle literalmente caiApós passar pelas esperadas dificuldades de alguém que acaba de ter contato com a sensibilidade humana, Seth finalmente reencontra Maggie e começa a viver o tão idealizado romance – e a empolgação de Cage, agora claramente mais agitado e vibrante, ilustra muito bem a excitação do personagem neste novo cenário. E é justamente aí que “Cidade dos Sonhos” começa a fugir do clichê básico do gênero, apesar da tradicional cena de sexo na frente da lareira. Em um dos elegantes travellings de Silberling, acompanhamos Maggie pedalando sua bicicleta pelas montanhas feliz da vida, acompanhada por uma trilha sonora suave e em seguida pela câmera lenta que torna a sequência ainda mais bela. Só que, de repente, a expressão no rosto dela indica que algo saiu errado e o caminhão que surge à sua frente traz o acidente que levará Maggie à morte e a plateia ao choque. O final feliz está descartado e o plongè que diminui o destruído Seth diante do túmulo dela, a chuva e a trilha triste só realçam a tragédia.

Tradicional cena na frente da lareiraMaggie pedalando pelas montanhasExpressão no rosto dela indica que algo saiu erradoPra terminar de arrancar as últimas gotas de lágrima de parte da plateia, Seth afirma que “preferia tocá-la, beijá-la e senti-la apenas uma vez do que passar a eternidade sem fazê-lo”. E se o espectador concordar com ele, o sucesso de “Cidade dos Anjos” está garantido.

Apesar de seguir clichês básicos dos romances, Silberling tem coragem de fugir do esperado final feliz e apostar num desfecho ironicamente trágico, que nos faz refletir sobre a efemeridade da vida humana e a nossa impotência diante dela. Enriquecido ainda por atuações competentes e por um visual marcante, “Cidade dos Anjos” confirma-se como um romance eficiente e belo.

Cidade dos Anjos foto 2Texto publicado em 03 de Fevereiro de 2014 por Roberto Siqueira