VIDA DE CACHORRO (1918)

(A Dog’s Life)

 

Filmes em Geral #15

Dirigido por Charles Chaplin.

Elenco: Charles Chaplin, Edna Purviance, Syd Chaplin, Henry Bergman, Charles Reisner, Albert Austin e Tom Wilson.

Roteiro: Charles Chaplin.

Produção: Charles Chaplin.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Charles Chaplin já demonstrava seu incrível talento neste “Vida de Cachorro”, curta metragem que aborda superficialmente temas que ainda seriam melhor explorados pelo genial diretor em seus próximos filmes. Ainda assim, é possível se divertir e se emocionar nos 40 minutos desta pequena jóia estrelada pelo tradicional vagabundo.

Um vagabundo (Chaplin) salva a vida de um cachorro na rua quando este é atacado por outros cães. Com o pobre cão escondido nas calças, ele entra num salão de baile, onde uma cantora desafinada é explorada pelo dono do estabelecimento. É então que dois ladrões roubam a carteira de um milionário bêbado e escondem justamente no local onde dorme o vagabundo, que encontraria ali a chance de mudar definitivamente de vida.

O curta “Vida de Cachorro” tem toda a cara do cinema mudo que traria fama e glória para Chaplin futuramente, com trilha sonora presente durante todo o tempo, letreiros brancos com fundo negro mostrando os diálogos e todo o talento do talentoso ator e diretor para expressar sentimentos e provocar o riso. As inúmeras gags visuais já demonstravam o talento do ator para a comédia, como na seqüência em que ele foge de um policial passando por baixo da cerca, a clássica seqüência em que ele rouba comida e a sensacional fuga de dentro do bar Lanterna Verde com os bandidos correndo atrás dele. Chaplin, aliás, tem como sempre um desempenho fenomenal, provocando o riso e as lágrimas sem necessitar de palavras, simplesmente através de expressões corporais. Vale destacar, entre tantos momentos, a sensacional seqüência em que ele se faz passar por um dos bandidos, que se encontrava desacordado, somente através dos gestos de suas mãos. Edna Purviance, que interpreta a cantora desafinada do salão, também se sai bem, fazendo um belo par com Carlitos.

Tecnicamente, vale destacar a deliciosa trilha sonora do próprio Chaplin, especialmente a divertida música que acompanha a seqüência da dança no salão, além da direção, também de Chaplin, que conduz a narrativa com segurança e acerta o ritmo nas cenas mais engraçadas, como aquela em que o vagabundo come na lanchonete sem que o dono perceba.

A dificuldade de se adaptar ao capitalismo, tema costumeiro nos filmes de Chaplin, aparece aqui na cena em que o vagabundo tenta arrumar emprego sem sucesso e é reforçada pela seqüência do assalto cometido por dois homens, evidenciando as conseqüências da desigualdade social. A importância do dinheiro neste sistema também é abordada pelo roteiro de Chaplin, quando o dono do bar expulsa o vagabundo simplesmente pelo fato dele não ter dinheiro para pedir uma bebida, e fica ainda mais evidente quando Carlitos diz para a cantora que “agora poderemos ficar no país”, após encontrar a carteira de um homem rico. O final do curta mostra o casal feliz, curtindo sua fazenda, graças ao dinheiro que encontraram na carteira, o que não deixa de ser uma irônica crítica, pois eles só conseguiram encontrar a felicidade desta maneira, já que não foram dadas oportunidades para o crescimento de outra forma. E Chaplin, mais uma vez, mostra sua preferência pela vida do campo em detrimento da loucura das grandes cidades.

Chaplin já tinha assombrado o mundo com seu talento absurdo em curtas como este divertido “Vida de Cachorro”, que marcou a transição entre a fase menos famosa de sua carreira e aquela em que registra seus filmes mais famosos em todo o planeta, já num período em que tinha seu próprio estúdio e, portanto, total liberdade como cineasta.

Texto publicado em 17 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira

Semana Chaplin

Nesta semana divulgarei críticas de seis grandes filmes e um curta-metragem do gênio Charles Chaplin, que sabia como ninguém emocionar o espectador através do humor e da sensibilidade de seus filmes. Crítico feroz do capitalismo, entre outras loucuras da “evolução” humana, o genial diretor, ator, compositor, montador e roteirista deixou sua marca eternamente na indústria cinematográfica. E impressiona notar como ainda hoje seus filmes soam atuais e falam para todas as idades.

Vale ressaltar que não pretendo listar os melhores filmes desta brilhante carreira, apenas divulgar críticas de filmes que me agradam bastante dentro da rica filmografia de Charles Chaplin.

Aguardem!

Um grande abraço.

Texto publicado em 16 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira

STAR WARS EPISÓDIO VI: O RETORNO DE JEDI (1983)

(Star Wars: Episode VI – The Return of the Jedi)

 

Videoteca do Beto #71

Dirigido por Richard Marquand.

Elenco: Mark Hamill, Harrison Ford, Carrie Fisher, Billy Dee Williams, Alec Guinness, Anthony Daniels, Kenny Baker, Peter Mayhew, Sebastian Shaw, David Prowse, James Earl Jones, Ian McDiarmid, Frank Oz e Michael Pennington.

Roteiro: George Lucas e Lawrence Kasdan, baseado em história de George Lucas.

Produção: Howard G. Kazanjian.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Visivelmente buscando agradar o público mais jovem e apostando alto nos resultados da bilheteria, “Star Wars Episódio VI: O Retorno de Jedi” só não é uma decepção porque consegue finalizar, ainda que sem grande brilho, a maravilhosa saga espacial de George Lucas. Infelizmente, investe numa narrativa leve, que escancara o apelo infanto-juvenil crescente na saga, e por isso jamais explora o potencial que o capítulo final da série realmente oferecia após o excepcional “O Império Contra-Ataca”.

O temível Darth Vader (David Prowse, voz de James Earl Jones), supervisionado de perto pelo poderoso Imperador (Ian McDiarmid), acompanha a construção da nova Estrela da Morte, uma estação que será capaz de aniquilar as tropas rebeldes do universo. Enquanto isso, Luke Skywalker (Mark Hamill) parte para libertar Han Solo (Harrison Ford), a princesa Leia (Carrie Fisher), R2D2 (Kenny Baker), 3-CPO (Anthony Daniels) e Chewbacca (Peter Mayhew) das mãos do cruel Jabba. Após a fuga, todos se envolvem numa batalha galáctica contra o império antes que este conclua a construção da Estrela da Morte.

Após o excelente segundo filme da série, que além de explorar com competência o potencial sombrio do universo Star Wars, apresentava ainda uma revelação empolgante, responsável por elevar a níveis insuportáveis a ansiedade dos fãs para o capítulo final, a saga espacial de George Lucas chegava ao seu capítulo final. Infelizmente, porém, todo o excelente trabalho feito no filme anterior não foi explorado em “O Retorno de Jedi”. Nitidamente, a série preferiu seguir pelo caminho mais lucrativo, adotando uma narrativa mais leve na tentativa de atrair o público jovem (responsável pelas grandes bilheterias da época). Sendo assim, não faltam cenas que abusam do bom humor, o que contrasta diretamente com o tom pessimista de “O Império Contra-Ataca”, como podemos perceber na humorada cena do ritual em que 3-CPO é declarado uma divindade e se recusa a salvar seus amigos da fogueira, quando o mesmo 3-CPO diz para R2D2 que “não é hora para heroísmo” na batalha no planeta dos ewoks ou quando Han grita “consegui!” somente para ver a porta se fechar na sua cara em seguida. Além disso, Lucas infantiliza de vez a série ao inserir na narrativa os ewoks, uma espécie de ursinhos de pelúcia sem a menor graça (ele já havia feito algo parecido ao inserir anões peludos em “THX 1138”, seu filme de estréia). Por outro lado, o roteiro, baseado em história de George Lucas e escrito pelo próprio Lucas, auxiliado por Lawrence Kasdan, apresenta interessantes rimas narrativas com os filmes anteriores, como quando Han diz para Leia “eu te amo” e recebe um “eu sei” como resposta e quando Luke corta a mão de Darth Vader na batalha de sabres de luz.

Todos estes problemas de roteiro poderiam ser amenizados nas mãos de um grande diretor. Só que “grande diretor” não é uma definição adequada para Richard Marquand. Apesar de acertar a mão nas cenas que exigem mais ação, como as batalhas no espaço e no planeta dos ewoks, o diretor erra na condução da narrativa ao estender demais o resgate de Han Solo, prejudicando a seqüência mais interessante do longa, que é o ataque à Estrela da Morte e o esperado confronto final entre o império e os rebeldes. Além disso, Marquand também prefere preservar o tom leve da narrativa, evitando nos chocar, por exemplo, quando não mostra o resultado do ataque feroz do monstro criado por Jabba contra uma vítima indefesa que cai em seu covil por acidente, o que por conseqüência, enfraquece este vilão diante do espectador quando Luke o enfrenta no mesmo local. Ainda assim, o diretor tem seus acertos, como quando diminui o comandante em cena, após bronca de Vader por causa do atraso na construção da nova Estrela da Morte, ilustrando sua impotência diante do grande vilão. Marquand também acerta ao nos colocar sob o ponto de vista de Luke e Leia na empolgante seqüência da perseguição em alta velocidade na floresta a bordo das motos voadoras. E finalmente, o diretor merece crédito também pela condução do esperado confronto entre Darth Vader e Luke Skywalker, numa seqüência carregada de tensão, até pelo arco dramático vivido pela dupla.

Mas se apresenta problemas de roteiro e direção, não podemos dizer o mesmo quando falamos dos aspectos técnicos de “O Retorno de Jedi”. Mantendo a tradição da série, os efeitos visuais da Industrial Light & Magic são excelentes, como podemos notar quando as naves sobrevoam o deserto e, principalmente, nas batalhas no espaço. A fotografia de Alan Hume adota cores vivas, refletindo o tom alegre da narrativa, mas acerta no tom sombrio das cenas que se passam dentro da Estrela da Morte e também no palácio de Jabba. Aliás, os diversos monstros do palácio de Jabba, incluindo o próprio vilão, são bastante realistas para a época, o que reforça a qualidade dos aspectos visuais do longa, perceptível também na interessante cidade dos ewoks, com casas e passarelas dispostas nas árvores. Vale notar ainda como a roupa vermelha dos guardas na chegada do Imperador à Estrela da Morte remete ao aspecto demoníaco daquele vilão poderoso. Não é à toa também que Luke está todo de preto no confronto final com seu pai, ilustrando visualmente o conflito interno que o personagem estava vivendo. Estes pequenos detalhes demonstram o bom trabalho de Aggie Guerard Rodgers e Nilo Rodis-Jamero, responsáveis pelos figurinos. Também se destaca a bela direção de arte de Fred Hole e James L. Schoppe, que capricha no visual interno e externo das naves, no palácio de Jabba e, principalmente, no belíssimo visual dos diversos planetas em festa após a derrota do império e a libertação da galáxia. O som e a trilha sonora também são espetaculares. A trilha de John Williams mantém a marcante música tema da série e suas empolgantes variações, enquanto o som se destaca nas cenas no espaço, com as naves cortando a galáxia, e no duelo entre Luke e Vader, onde podemos distinguir perfeitamente o ruído dos sabres de luz e a voz dos personagens. A montagem de Sean Barton, Duwayne Dunham e Marcia Lucas tem papel fundamental no sucesso das cenas de batalha, mantendo a dinâmica entre os planos sem confundir o espectador, além de alternar entre as duas batalhas (no espaço e no planeta) num ritmo dinâmico e que consegue manter as duas seqüências interessantes.

Interessantes também são os icônicos personagens da série Star Wars, novamente interpretados com competência por todo o elenco. E mais uma vez o destaque fica para Harrison Ford na pele de Han Solo. Observe, por exemplo, a reação irônica de Han quando Luke diz que vai salvá-los no deserto ou sua cara de decepção quando Leia diz que sente a presença de Luke após a destruição da Estrela da Morte. Leia, novamente interpretada por Carrie Fisher, que finalmente assume seu amor por Han quando parte para resgatá-lo no planeta Tatooine. E ainda que não tenha o peso da revelação bombástica de “O Império Contra-Ataca”, até por que os momentos que a precedem apontam claramente para esta possibilidade, a revelação de Yoda sobre Leia pode provocar alguma surpresa no espectador. Da mesma forma, a revelação de Luke para Leia não provoca um choque tão grande na moça, que reage com naturalidade, como se já imaginasse tudo aquilo. Em compensação, quando Luke se retira e Han se aproxima, Fisher demonstra com competência o conflito de sentimentos da personagem. Darth Vader está novamente sombrio, muito por causa da poderosa voz de James Earl Jones e do visual caprichado do personagem. Quem também está bastante sombrio é Ian McDiarmid como o Imperador, se destacando na conversa que tem com Luke, com expressões faciais que buscam intimidar o jovem Jedi. E finalmente chegamos ao grande herói da série Star Wars, interpretado com carisma por Mark Hamill. Logo em sua chegada ao palácio de Jabba, Luke demonstra seu poder, agora já treinado como um cavaleiro Jedi, ainda que para se tornar um verdadeiro Jedi ele precisa derrotar Vader. Hamill demonstra bem a confiança de Luke, com o olhar determinado e a voz firme. Em outro momento, quando Yoda confirma que Vader é seu pai, Luke reage com certa decepção e inconformismo, e esta reação é verossímil por causa da boa atuação de Hamill.

Se não entrega um resultado maravilhoso, “O Retorno de Jedi” pelo menos cumpre o que se espera do encerramento da série, ao concluir o arco dramático de Luke Skywalker e Darth Vader, quando o vilão se volta contra o Imperador para proteger seu filho e o mata. Anakin Skywalker estava de volta para o lado bom da “força” e o próprio aspecto visual do ex-vilão, quando Luke retira sua máscara, reflete isto. Seu rosto branco, embora desfigurado, ilustra a paz interior que ele agora sentia. Paz também sente o espectador ao ver o final feliz da série, mas assim como Darth Vader em seu momento final, os mais exigentes podem sentir um gosto amargo, porque após o sensacional segundo filme, este encerramento certamente se revela inferior à expectativa.

Embora entregue aquilo que se propõe a fazer e feche a trilogia de maneira satisfatória, “O Retorno de Jedi” não consegue repetir o excelente resultado de “O Império Contra-Ataca”, limitando-se a encerrar a narrativa de maneira burocrática e voltada para o público jovem. Ainda assim, ganha pontos importantes por representar o encerramento de uma história criativa, interessante e que marcou um momento importante na história do cinema mundial.

Texto publicado em 14 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira

STAR WARS EPISÓDIO V: O IMPÉRIO CONTRA-ATACA (1980)

(Star Wars: Episode V – The Empire Strikes Back)

 

Videoteca do Beto #70

Dirigido por Irvin Keshner.

Elenco: Mark Hamill, Harrison Ford, Carrie Fisher, Billy Dee Williams, Alec Guinness, Anthony Daniels, Kenny Baker, David Prowse, Peter Mayhew, James Earl Jones (Darth Vader – voz), Frank Oz (Yoda – voz), Jeremy Bulloch e Clive Revill (Imperador Cos Palpatine – voz).

Roteiro: Leigh Brackett e Lawrence Kasdan, baseado em história de George Lucas.

Produção: Gary Kurtz.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Adotando um tom sensivelmente mais sombrio e desenvolvendo melhor os personagens que em “Star Wars Episódio IV: Uma Nova Esperança”, George Lucas, que abriu mão até mesmo da direção para assumir a produção executiva e ter maior controle sobre a obra, entrega o melhor filme da trilogia neste maravilhoso “Star Wars Episódio V: O Império Contra-Ataca”, que além de ter uma narrativa ainda mais interessante, conta com uma revelação bombástica que abalou os alicerces de toda a trilogia e certamente fez muitos fãs saltarem das cadeiras nos cinemas de todo o mundo.

Comandadas pelo temível Darth Vader (David Prowse, voz de James Earl Jones), as forças do império atacam impiedosamente os membros da resistência que se encontram refugiados num planeta distante. Após conseguir escapar, os membros partem para o ponto de encontro, mas Luke Skywalker (Mark Hamill) decide alterar sua rota na tentativa de encontrar o mestre jedi Yoda (voz de Frank Oz), que poderá ensiná-lo a dominar “a força” e torná-lo um cavaleiro jedi. Ao mesmo tempo, Darth Vader parte em busca do rapaz com a intenção de convencê-lo a mudar para o lado negro da “força”.

Conforme planejado por George Lucas antes mesmo do início da trilogia, “Star Wars Episódio V: O Império Contra-Ataca” apresenta uma narrativa mais elaborada que seu antecessor, ao nos revelar outros aspectos e motivações daqueles interessantes personagens apresentados no primeiro filme. Sendo assim, algumas respostas vagamente respondidas anteriormente agora aparecem de maneira bastante clara, como os motivos do grande interesse de Vader por Skywalker e as razões pelas quais Kenobi (Alec Guinness) praticamente adota o jovem no início da jornada. Este aspecto da narrativa claramente ajuda os atores a explorarem ainda mais o potencial dramático de seus personagens e praticamente todos oferecem um desempenho memorável. Hamill, por exemplo, se sai muito bem na pele de Skywalker, demonstrando com exatidão a determinação daquele jovem na tentativa de se tornar um jedi, mas principalmente, sua obstinação em defender seus parceiros das forças do mal. O ator se destaca ainda nos momentos bem humorados, como quando Luke ganha um beijo de Leia na frente de Han Solo (Harrison Ford) e cruza os braços atrás da cabeça com um ar de satisfação. Já Harrison Ford confirma que é de longe o melhor ator do elenco, interpretando de maneira firme e determinada o simultaneamente durão e carismático Han Solo. Além disso, o ator se destaca naquela que é uma de suas maiores especialidades (o que ficaria claro na série “Indiana Jones”) ao provocar o riso de maneira natural, principalmente durante suas brigas com a princesa Leia. Leia que é novamente interpretada por Carrie Fisher, que demonstra empatia com Ford, apesar de não saber se quer mesmo ficar com Han ou Luke. Mudando para o lado negro da “força”, Darth Vader continua ameaçador, com sua capa preta e sua voz poderosa (voz de James Earl Jones) mantendo sua enorme capacidade de intimidar seus adversários. Sua crueldade aparece, por exemplo, quando mata sem hesitar um comandante que falhou numa missão. A partir dali, o espectador já sabe que pode esperar qualquer coisa deste temível vilão. E fechando os destaques do elenco, Alec Guinness novamente demonstra serenidade nas poucas aparições de Kenobi, Anthony Daniels garante os momentos de alivio cômico com as tiradas do robô C3PO e Frank Oz é o responsável pela marcante voz do mestre Yoda.

No comando de toda esta gente está Irvin Keshner, o homem escolhido por Lucas para tocar seu grande projeto. Felizmente, o diretor dá um verdadeiro show, especialmente nas sensacionais cenas no espaço, onde as naves cortam o universo em alta velocidade com a câmera acompanhando seu trajeto. Keshner nos leva por dentro de asteróides e em volta de planetas com incrível realismo, graças também ao excepcional trabalho de efeitos visuais da Industrial Light & Magic, além da montagem ágil de Paul Hirsch e Marcia Lucas, que aumenta o clima de urgência. Os montadores continuam utilizando os fades e as transições de imagens que remetem aos seriados de TV, mantendo o tom episódico da trilogia, apresentam um interessante raccord através da neve quando Luke e Han estão esperando resgate, mas se destacam mesmo nas cenas de perseguição no espaço, alternando com dinamismo entre os interessantes planos de Keshner. Nestas seqüências, vale prestar atenção também no incrível trabalho de som e efeitos sonoros, que nos permite identificar cada barulho de tiro, cada fala dita pelos personagens e o som das naves cortando o espaço. O som se destaca também na tensa seqüência do congelamento de Han, através do barulho das máquinas trabalhando. Voltando a Keshner, o diretor ainda utiliza a câmera para nos transmitir as sensações dos personagens, por exemplo, na cena em que Han, Leia, os robôs e Chewbacca (Peter Mayhew) sentem um tremor num suposto asteróide e descobrem, minutos depois, que na realidade estão dentro da barriga de um monstro espacial.

E se “O Império Contra-Ataca” nos transporta para lugares fascinantes, é porque a boa direção de Keshner conta também com o excelente apoio de sua equipe técnica. Além dos já citados fabulosos efeitos visuais da Industrial Light & Magic, merece destaque a direção de fotografia de Peter Suschitzky, que realça inicialmente cores frias (com muito gelo e neve na seqüência inicial) que gradualmente são alteradas para tons obscuros (com a predominância do preto), realçando o clima mais sombrio deste segundo filme. Os figurinos de John Mollo, além de criarem o visual marcante de Darth Vader, ajudam na ambientação do espectador ao universo “Star Wars”, através das roupas espaciais dos personagens. Obviamente, a direção de arte (créditos para Leslie Dilley, Harry Lange e Alan Tomkins) também colabora, ao criar o visual arrebatador de cidades incríveis, como aquela em que vive o divertido e ambíguo Lando Calrissian, interpretado com carisma por Billy Dee Williams. Finalmente, a trilha sonora marcante de John Williams está novamente presente, agora com uma variação interessante (e sombria) quando Darth Vader está em cena.

Escrito por Leigh Brackett e Lawrence Kasdan (baseado em história de George Lucas), o roteiro mostra logo na introdução seu tom obscuro, quando informa que as forças do império forçaram a fuga dos membros da resistência de seu planeta, contrariando o final alegre do primeiro filme. Além disso, introduz de maneira correta dois personagens importantes na narrativa. O primeiro (e menos importante deles) é o imperador Cos Palpatine (voz de Clive Revill), que dita às regras para Darth Vader e deixa claro sua importância somente pelo fato do grande vilão temê-lo e respeitá-lo. O segundo é o fascinante Yoda, uma espécie de guru espiritual que não aparenta ter a força que realmente tem. Seu aspecto físico provoca até mesmo um choque no espectador, que esperava, com base nas respeitosas menções anteriores ao seu nome, alguém imponente. Porém Yoda prova que a verdadeira força do ser humano está na mente e encanta o espectador durante o treinamento de Luke. E ao contrário de “Uma Nova Esperança”, desta vez o roteiro desenvolve muito bem os personagens, nos mostrando suas verdadeiras motivações e deixando claro que Vader e Skywalker são os dois lados da mesma força, numa interessante representação do bem e do mal existente no universo. Além disso, o arco dramático de Luke Skywalker finalmente se completa, no momento da bombástica revelação de Darth Vader, que explica uma série de situações insinuadas sutilmente até então. A importância do pai de Luke para Kenobi e para o universo fica clara e o jovem sabe, a partir daquele instante, que passará a viver um intenso conflito interior na busca da defesa do universo (e Hamill demonstra bem este choque na cena, auxiliado também pelo close de Keshner). Vale observar como toda a composição da cena aumenta ainda mais o impacto da revelação. Após um intenso duelo de sabres de luz (repare que até mesmo as cores das armas representam a luta entre o bem e o mal), os dois personagens, à beira de um abismo, discutem até que Vader, filmado em ângulo baixo para aumentar a sensação de poder, diz a famosa frase “Eu sou sei pai!”. Luke está em choque e o espectador também.

“Star Wars Episódio V: O Império Contra-Ataca” apresenta um momento histórico do cinema, parodiado inúmeras vezes desde então, que é capaz até hoje de chocar aqueles que jamais ouviram falar desta revelação. Com sua atmosfera sombria e seu final obscuro que, ao contrário do longa anterior, deixa o terreno preparado para sua continuação, George Lucas arrebatou de vez os corações cinéfilos e os deixou mais que ansiosos para acompanhar o encerramento desta verdadeira saga espacial.

Texto publicado em 12 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira

STAR WARS EPISÓDIO IV: UMA NOVA ESPERANÇA (1977)

(Star Wars: Episode IV – A New Hope)

 

Videoteca do Beto #69

Dirigido por George Lucas.

Elenco: Mark Hamill, Harrison Ford, Carrie Fisher, Peter Cushing, Alec Guinness, Anthony Daniels, Kenny Baker, Peter Mayhew, David Prowse, Phil Brown, Shelagh Fraser, Alex McCrindle, Eddie Byrne e James Earl Jones (Darth Vader – Voz).

Roteiro: George Lucas.

Produção: Gary Kurtz.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Com uma narrativa simples, que serve de introdução ao complexo universo da trilogia Star Wars, efeitos especiais magníficos e personagens que personificam a eterna luta ente as forças do bem e do mal, “Star Wars Episódio IV: Uma Nova Esperança” é o marco inicial de um momento histórico do cinema, quando os grandes estúdios perceberam a importância do público jovem e passaram a priorizar produções voltadas para este público. Mas ao contrário da maioria das produções contemporâneas, o longa dirigido por George Lucas exala criatividade, levando o espectador numa viagem inesquecível por cenários e personagens fascinantes.

O jovem Luke Skywalker (Mark Hamill) se vê envolvido numa verdadeira guerra intergaláctica quando seu tio (Phil Brown) compra os robôs C3PO (Anthony Daniels) e R2D2 (Kenny Baker) e encontra com eles uma mensagem da princesa Leia Organa (Carrie Fisher) para Obi-Wan Kenobi (Alec Guinness), alertando sobre os planos do poderoso império liderado pelo temível Darth Vader (David Prowse, voz de James Earl Jones). Luke e Kenobi se juntam então ao mercenário Han Solo (Harrison Ford) e ao feioso Chewbacca (Peter Mayhew) e partem para enfrentar as forças do mal.

“Star Wars Episódio IV: Uma Nova Esperança” é uma grande aventura. Falar sobre ele hoje, mais de trinta anos após o seu lançamento, não é tarefa fácil, principalmente porque não é possível medir o tamanho de seu impacto na cultura cinematográfica com exatidão. Mas para se ter uma pequena idéia da importância do filme, basta dizer que a ópera espacial de George Lucas marca (ao lado de Tubarão, de seu amigo Spielberg) o inicio dos blockbusters, com sua narrativa ágil, voltada para o público jovem, repleta de efeitos especiais e muita ação. Mas ao contrário de muitos dos filmes atuais do gênero, a narrativa de “Uma Nova Esperança” é muito interessante e os efeitos especiais, ainda que impecáveis, não são um fim, mas apenas um meio utilizado para colaborar com o andamento da trama. “Uma Nova Esperança” é também o responsável por nos apresentar aos encantadores personagens do universo “Star Wars”. Alguns deles nos acompanharão por toda a trilogia, enquanto outros ficarão pelo caminho, mas é incrível notar como praticamente todos conseguem deixar sua marca na memória do espectador. Neste primeiro filme da trilogia, estes personagens não são plenamente desenvolvidos e, por isso, nós pouco sabemos sobre seu passado e suas motivações. Sabemos que a princesa Leia se rebela contra o império e que Darth Vader quer destruir determinado planeta, mas não sabemos por que o vilão deseja fazer aquilo. E qual a natureza da relação entre Kenobi e o pai de Skywalker? Algumas respostas até começam a aparecer de maneira sutil, mas o primeiro filme serve mesmo apenas como preparação para o restante da trilogia.

Ainda assim, os personagens de “Uma Nova Esperança” se destacam. A começar pelo vilão da história, provavelmente presente em quase todas as listas de grandes vilões da história do cinema. A caracterização de Darth Vader é perfeita, desde o figurino completamente preto (figurinos de John Mollo), passando pela voz firme e ameaçadora de James Earl Jones e terminando com seu sabre de luz vermelha, numa completa personificação do mal. Já Luke Skywalker é exatamente o oposto do vilão e seu figurino branco ajuda a reforçar esta idéia. Interpretado pelo carismático Mark Hamill, Luke é a força que equilibra o universo na eterna luta do bem contra o mal. Hamill demonstra muito bem a gradual transformação do personagem, inicialmente inocente, no grande herói da narrativa. No entanto, ainda que algumas dicas sejam dadas no primeiro filme, seu arco dramático só se completará mesmo no segundo filme (mas vamos deixar este assunto para a crítica de “O Império Contra-Ataca”). Já a princesa Leia, além de corajosa e determinada, demonstra um interessante conflito de sentimentos ao não saber se gosta mais de Han Solo ou de Luke Skywalker e Carrie Fisher demonstra este dilema com competência. Além disso, suas constantes discussões com Han servem como alívio cômico para a narrativa, desafogando a tensão em diversos momentos (e nestas cenas, Fisher consegue contracenar muito bem com o talentoso Harrison Ford). Ford, aliás, que aparece somente com quase uma hora de projeção, o que é suficiente para que ele roube a cena e demonstre todo seu talento, compondo um Han Solo egoísta, representando com exatidão o estereótipo do malandro, ao buscar sempre uma solução que melhor lhe convenha, independente de prejudicar os outros ou não. E finalmente, Alec Guinness demonstra segurança na pele do jedi Obi-Wan Kenobi, transmitindo muita segurança nos ensinamentos do veterano para o jovem Luke. Seu duelo de sabres de luz com Darth Vader é tenso, porém jamais alcança a intensidade de outro duelo similar que aconteceria no segundo filme da trilogia, não por causa do ator e sim por causa da carga dramática infinitamente maior no segundo duelo. Vale citar ainda os apaixonantes robôs C3PO e R2D2, interpretados por Anthony Daniels e Kenny Baker, além de Chewbacca, vivido por Peter Mayhew, cuja aparência assustadora é inversamente proporcional à bondade de seu coração.

Além dos fascinantes personagens, “Uma Nova Esperança” conta ainda com a empolgante trilha sonora de John Williams, tão marcante que até mesmo quem nunca assistiu ao filme é capaz de reconhecê-la. A fotografia de Gilbert Taylor destaca cores sem vida no planeta Tatooine, conferindo um visual árido, que reflete a vida dura daquelas pessoas constantemente ameaçadas pelo império. Por outro lado, quando a ação se passa na nave de Darth Vader, a fotografia sombria, que destaca o azul escuro e o preto, representa a maldade que paira sobre o local. Todo este cuidado com o aspecto visual é impressionante, desde as inúmeras criaturas que cruzam pela narrativa (como o perigoso Jabba) até as imponentes naves que cortam em alta velocidade o espaço sideral, atestando a qualidade dos sensacionais efeitos visuais da Industrial Light & Magic. E obviamente, as seqüências de perseguição e combate no espaço marcam alguns dos grandes momentos do longa, graças à condução segura e competente de George Lucas.

E chegamos então ao grande idealizador de “Star Wars”. O criativo cineasta pertence à geração que marcou o cinema norte-americano, no movimento que ficou conhecido como “nova Hollywood”. Mas ao contrário de Coppola e Scorsese, que seguiram outro caminho, preferindo filmes sombrios e personagens extremamente complexos, Lucas (assim como o amigo Spielberg) seguiu pelo caminho do chamado “cinema-pipoca”, voltado para o público jovem, mas que nem por isso subestima a inteligência de seu espectador. Neste primeiro episódio da velha trilogia, Lucas nos apresenta um visual esplêndido nas cenas espaciais, graças aos belos planos e enquadramentos do diretor. Repare também como quando Luke e Kenobi chegam numa vila para negociar com Han a utilização de uma nave, o plano geral de Lucas destaca o belo trabalho de direção de arte de Leslie Dilley e Norman Reynolds, que cria uma vila diferente e impressionante, repleta de detalhes em cada uma de suas imponentes construções. Lucas é responsável também pelo bom roteiro de “Uma Nova Esperança”, que além de conter interessantes reviravoltas, como quando Han inesperadamente retorna para ajudar Luke, faz pequenas menções ao pai de Skywalker, deixando claro o peso que sua ausência tem na vida do rapaz. A narrativa é coesa e muito bem conduzida pelo diretor, auxiliado também pela boa montagem do trio Richard Chew, Paul Hirsch e Marcia Lucas, que imprime um ritmo mais lento no primeiro ato, acelerando a partir do segundo e chegando ao clímax no terceiro, já num ritmo de tirar o fôlego bastante coerente com uma aventura. Colabora com esta sensação de urgência a câmera ágil de Lucas, especialmente nas batalhas espaciais, alternando, sem jamais soar confusa, entre os planos abertos que nos mostram as naves e os planos fechados que ilustram a tensão dos pilotos. A montagem utiliza ainda com freqüência o fade e a transição de imagens que se sobrepõem na tela, dando um ar episódico proposital à narrativa. O diretor queria que o filme se parecesse com os seriados norte-americanos e este efeito dá esta sensação. Talvez o único problema de “Uma Nova Esperança” seja o seu final pouco aberto à continuação, que não deixa a sensação de “quero mais” esperada para um primeiro filme de trilogia. Além disso, sua narrativa não consegue desenvolver os personagens completamente, mas este não chega a ser um problema, já que este desenvolvimento seria feito com maestria no segundo filme e foi planejado pelo diretor. Ainda assim, o longa consegue um resultado bastante satisfatório, se estabelecendo como uma aventura capaz de nos transportar para outro universo de maneira mais que eficiente.

Responsável por criar uma verdadeira legião de fãs e preparar o terreno para o maravilhoso “O Império Contra-Ataca”, “Star Wars, uma nova esperança” jamais alcança os níveis de tensão e o aspecto sombrio de sua seqüência, mas ainda assim consegue agradar o espectador ao nos apresentar personagens importantes, cenários magníficos e uma história capaz de prender a atenção com sua narrativa ágil, inteligente e bem conduzida. Assim como o poderoso ataque da estrela da morte, George Lucas deixou sua marca neste importante filme de estréia da trilogia “Star Wars”.

Texto publicado em 10 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira

Imagens: Tubarão (1975)

Seguindo o projeto de atualização das críticas com imagens, chegou à vez da crítica do pai dos blockbusters Tubarão (1975) ser devidamente ilustrada. Vale lembrar que o texto permanece o mesmo do dia de divulgação.

Um abraço.

Texto publicado em 08 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira

GREASE – NOS TEMPOS DA BRILHANTINA (1978)

(Grease)

 

Videoteca do Beto #68

Dirigido por Randal Kleiser.

Elenco: John Travolta, Olivia Newton-John, Stockard Channing, Jeff Conaway, Barry Pearl, Michael Tucci, Kelly Ward, Didi Conn, Jamie Donnelly, Dinah Manoff, Eve Arden, Edd Byrnes, Sid Caesar, Susan Buckner, Lorenzo Lamas e Michael Biehn.

Roteiro: Bronte Woodard e Allan Carr, baseado em peça teatral de Jim Jacobs e Warren Casey.

Produção: Allan Carr e Robert Stigwood.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A história é simples, talvez até simples demais. O tema principal da narrativa também não é nada original. Mas o vigor empregado pelo diretor Randal Kleiser e pelo afinado elenco liderado por John Travolta e Olivia Newton-John transforma o musical “Grease, nos tempos da brilhantina” num filme apaixonante, que conquista o espectador com sua energia.

É fim de verão na Califórnia quando o jovem Danny (John Travolta) e a bela Sandy (Olivia Newton-John) fazem juras de amor, pouco antes de a garota voltar para Sidney, na Austrália. Mas inesperadamente ela muda seus planos e acaba se matriculando na mesma escola de Danny. O problema é que lá o rapaz tem fama de garanhão, o que o leva a esnobá-la na frente dos amigos, somente para manter a fama ao não se “prender” numa garota só. Mas no íntimo, ele sabia que estava apaixonado por ela.

Logo nos créditos iniciais, “Grease” nos mostra sua característica mais marcante, através de uma divertida animação, embalada por uma bela canção, que dá o tom divertido e jovial do musical. É com esta abordagem alegre e enérgica que o diretor Randal Kleiser consegue salvar um roteiro apenas razoável, que na realidade apresenta uma história pouco atraente. Ainda assim, o roteiro da dupla Bronte Woodard e Allan Carr consegue ilustrar a fase da juventude, quando ainda estamos cheios de dúvidas e temos que começar a tomar decisões importantes em nossas vidas, além de ser também a época em que as paqueras no colégio se iniciam. Nesta complicada fase, começamos a deixar os amigos de infância em segundo plano e passamos a conviver mais com o sexo oposto, mas ainda não temos a segurança necessária para fazer esta transição tranquilamente. O conflito entre manter a moral diante dos amigos e entregar-se a uma paixão, aliás, é a única razão para que Danny renegue Sandy diante dos amigos. E se este dilema é ilustrado com muito charme e eficiência em “Grease”, os méritos são da boa direção de Kleiser, que emprega muita energia nas cenas e, esbanjando jovialidade, ameniza a fragilidade do roteiro. Não por acaso, o filme conquista o público jovem quase que instantaneamente. Por fim, a descoberta do sexo não poderia faltar num filme sobre jovens, e ela aparece, por exemplo, quando Betty (Stockard Channing) e Kenickie (Jeff Conaway) decidem seguir em frente sem um importante (hoje em dia vital!) acessório. Fica evidente a inocência daqueles jovens diante do tema neste episódio e em diversos outros, como quando um deles pergunta se a duração de uma relação é mesmo de apenas 15 minutos.

Como musical “Grease” é bastante eficiente, também porque as canções são orgânicas, ainda que oscilem entre aquelas apenas regulares e outras maravilhosas. Sendo assim, nenhuma canção soa artificial, como se fosse colocada na trama de qualquer maneira apenas para preencher espaço. Desta forma, quando ouvimos Danny contando vantagem para os seus amigos enquanto Sandy romantiza o encontro na excelente “Summer Nights”, a letra tem todo sentido dentro da narrativa, expondo os sentimentos de cada personagem. Talvez a seqüência musical mais famosa do longa, a bela “Summer Nights”, aliás, é também um dos momentos mais empolgantes do filme, graças à boa condução de Kleiser, ilustrando bem a diferença com que homens e mulheres encaram a paquera nesta fase da vida. Colabora também o show de Travolta, que mostra seu talento como dançarino, apesar da coreografia apenas razoável, que não atinge o mesmo nível de excelência de outros musicais como “Os Embalos de Sábado à Noite”, estrelado por ele próprio. O diretor também conduz bem as seqüências de humor, como quando Danny tenta sem sucesso praticar algum esporte para reconquistar Sandy ou quando o boato sobre a gravidez de Betty começa a correr pela turma. Em outro momento, a câmera de Kleiser acompanha Sandy com poucos cortes, criando uma seqüência elegante enquanto ela canta a música “Hopelessly Devoted To You”. E finalmente, a interessante música “Look At Me I’m Sandra Dee”, cantada por Betty Rizzo, claramente critica o puritanismo e serve, de maneira sutil, como uma alfinetada na “velha Hollywood”, ao citar Doris Day e Rock Hudson.

E se “Grease” caminha num ritmo extremamente agradável, é também devido à dinâmica montagem de John F. Burnett, bastante apropriada para um musical juvenil, e que, além disso, ainda utiliza com elegância a sobreposição de imagens em algumas canções para nos mostrar Danny e Sandy em locais diferentes simultaneamente. Já as cores quentes da fotografia de Bill Butler reforçam o tom alegre do filme, se destacando na ensolarada despedida do casal na praia, onde os raios solares reforçam o momento mágico. Os figurinos coloridos de Albert Wolsky, além de marcantes, certamente carregam a cara de sua geração. As roupas de couro, saias e perucas coloridas garantem um visual alegre e divertido, também coerente com o tom da narrativa. Vale notar ainda como em suas primeiras aparições, Betty, a garota pink mais cética, se veste de preto, representando visualmente seu estado de espírito. Betty, aliás, que é muito bem interpretada por Channing, que demonstra muito bem o jeito despojado da garota. Devo destacar ainda o carro preto que solta fogo pelo escapamento dos “Scorpions”, que deixa claro para o espectador quem são os rivais dos “T-Birds”, ainda mais quando estes últimos aparecem com um carro branco (lembrando as cores dos cavalos de Messala e Ben-Hur), revelando o bom trabalho de direção de arte.

E chegamos então à outra razão para o sucesso de “Grease”. Além da eficiente direção de Kleiser, é a energia do elenco que garante o sucesso do longa. Apesar de já ter aparecido em cena antes, a introdução de Danny na escola é cheia de estilo, graças à pose de John Travolta e a forma como a câmera vai buscá-lo em meio às garotas, ilustrando muito bem o poder de sedução do rapaz. Poder este que fica mais evidente graças ao carisma do ator, extremamente solto no papel. Travolta demonstra bem o típico comportamento adolescente de Danny, por exemplo, quando muda radicalmente a forma de tratar Sandy somente porque está na frente dos amigos. E apesar de se sair bem no papel dramático, ele se destaca mesmo como dançarino, demonstrando seu enorme talento nos números musicais. Já Olivia Newton-John conquista a empatia do espectador com seu charme, compondo uma Sandy praticamente irresistível com sua fragilidade e insegurança. E nem mesmo a improvável mudança de comportamento da garota no final compromete sua atuação, já que é fruto do roteiro e ela pouco poderia fazer a respeito. Pelo menos, a mudança radical rende mais um empolgante número musical, já que é praticamente impossível não balançar os pés com a deliciosa “You’re the one that I want”.

Ainda que tenha pequenos defeitos, “Grease, nos tempos da brilhantina” se destaca principalmente pela forma divertida e empolgante que ilustra uma fase marcante de nossas vidas. Apesar das incertezas que nos cercam, a época da escola certamente traz deliciosas lembranças de um tempo onde nossa maior preocupação era para onde e com quem iríamos passar o final de semana.

Texto publicado em 06 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira

PATTON – REBELDE OU HERÓI? (1970)

(Patton)

 

Videoteca do Beto #67

Vencedores do Oscar #1970

Dirigido por Franklin J. Schaffner.

Elenco: George C. Scott, Karl Malden, Michael Bates, Ed Binns, Stephen Young, Lawrence Dobkin, John Doucette, James Edwards, Frank Latimore, Richard Münch, Morgan Paull, Siegfried Rauch, Paul Stevens, Michael Strong, Karl Michael Vogler e Peter Barkworth.

Roteiro: Francis Ford Coppola e Edmund H. North, baseado em livros de Ladislas Farago e Omar N. Bradley.

Produção: Frank McCarthy.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A personalidade conturbada e a obstinação pela glória eram dois traços marcantes do famoso general norte-americano George Patton, que inspirou este “Patton, rebelde ou herói?”, dirigido por Franklin Schaffner e que faz um fascinante estudo deste ser humano complexo (e quem não é?). Talvez o único general dos aliados realmente temido pelos nazistas, era capaz de campanhas heróicas e históricas nos campos de batalha, mas falhava terrivelmente quando se relacionava com as pessoas, onde a “luta” não exigia tanques e estratégias, mas sim sensibilidade e humanismo.

O general George Patton (George C. Scott) assume o comando do exército norte-americano durante a segunda guerra mundial e, depois de seguidos triunfos, coloca sua reputação em risco ao agredir em público um soldado que passava por uma crise. Seus métodos inspiravam medo nos alemães, mas também provocavam ressentimentos nos aliados e, por isso, quase impediram que seu grande sonho se realizasse. Rebaixado, sem o comando do exército e impedido de participar do “dia D”, Patton é obrigado a rever seus conceitos, mas consegue retornar para comandar a caminhada do 3º exército americano pela Europa, que terminaria somente em território russo.

Logo no primeiro plano, em que o general aparece diante da imensa bandeira norte-americana, “Patton” mostra uma de suas principais forças: os enquadramentos perfeitos que exploram ao máximo a tela widescreen (cinemascope) e que serão responsáveis pelo visual deslumbrante do longa. Em seguida, os planos de cada detalhe do condecorado uniforme do general George Patton nos apresentam à outra característica marcante do filme: a obsessão de seu protagonista pela guerra e seu amor pelos campos de batalha. O discurso que segue apenas resume o pensamento típico norte-americano sobre a guerra e demonstra também o “ódio à derrota”, a cultura dos “vencedores”, que se por um lado motiva as pessoas a seguirem em busca de seus ideais, por outro é responsável por uma legião de frustrados espalhados pelo mundo por não terem conseguido alcançar o “sucesso” imaginado.

Escrito por Francis Ford Coppola e Edmund H. North (baseado em livros de Ladislas Farago e Omar N. Bradley), “Patton” cobre praticamente toda a trajetória do general homônimo durante a segunda guerra mundial e, apesar de glorificar o pensamento belicista na maior parte do tempo, se redime na última frase do filme (“Toda glória é efêmera”), ao questionar a validade de tudo aquilo. Além disso, o roteiro faz uma crítica sutil à imprensa sensacionalista quando Patton se esquece de mencionar os russos, provocando uma verdadeira tormenta nos jornais do dia seguinte. Coppola e North ainda inserem pequenos alívios cômicos que balanceiam bem a narrativa, como quando alguém diz para Patton que ele “não verá mais aviões alemães” e, no minuto seguinte, um bombardeio se inicia. Após este bombardeio, aliás, Patton se sente derrotado e o plano de Schaffner demonstra bem este sentimento, diminuindo o general na tela enquanto este imagina um duelo no estilo western com tanques de guerra. Patton é diminuído em cena ainda em outros momentos, como quando recebe as instruções num hotel de Londres e no último e solitário plano do longa. Schaffner cria ainda lindos planos nas exóticas locações situadas na Tunísia, Marrocos e Argélia, além de utilizar planos gerais que nos situam com precisão nas batalhas. O diretor também emprega repetidas vezes o zoom out, como quando os animais pressentem o ataque dos alemães no deserto ou quando Patton e Montgomery (Michael Bates) se cumprimentam em Messina, nos afastando lentamente da cena. Finalmente, o diretor acerta ao filmar por diversas vezes o general em ângulo baixo, especialmente em seus discursos inflamados, representando o poder que aquele homem tinha (ou pensava ter), mas peca ao apresentar um plano óbvio demais, quando mostra dois soldados mortos de mãos dadas após o general ouvir que a batalha foi hand to hand.

Como filme de guerra “Patton” é eficiente, graças também ao bom trabalho técnico coletivo. A montagem de Hugh S. Fowler trabalha muito bem nas batalhas, alternando entre os belos planos gerais e os planos que nos colocam muito próximos dos soldados, mas desliza ao estender demais algumas cenas desnecessárias, como os inúmeros discursos do general. Acerta ainda ao inserir uma espécie de telejornal, que atualiza as notícias e dá seguimento à narrativa sem parecer falso ou deslocado. Os figurinos recriam perfeitamente os uniformes dos soldados, tanto de americanos como de marroquinos e alemães, e a direção de arte de Urie McCleary e Gil Parrondo é responsável pelo contraste entre as luxuosas instalações alemãs e do alto comando norte-americano e, por exemplo, a desgastada base no Marrocos, com paredes descascadas e claramente deterioradas. Além disso, capricha nos detalhes que compõem o exército, como os equipados tanques de guerra, e em pequenos objetos que exemplificam a personalidade do general Patton, como o revólver pouco comum que ele carregava. O som é excepcional, se destacando nas batalhas, mas trabalhando de maneira eficiente, por exemplo, quando a oscilação do som da sirene dá a noção da posição do carro que traz o general em sua chegada ao Marrocos. A chegada dos tanques no primeiro combate também merece destaque, fazendo literalmente o chão tremer. Já a fotografia de Fred J. Koenekamp evolui do visual empoeirado do deserto, onde destaca cores como o verde musgo e o marrom, para o gélido terceiro ato em território russo, onde as cores frias e a própria neve criam um contraste interessante, que reflete também os sentimentos do general. Nas palavras de um alemão, a aproximação do fim da guerra significava também o seu próprio fim. Koenekamp acerta ainda quando envolve o general em sombras no momento em que ele é notificado que Bradley assumiu o comando, representando visualmente sua angústia. Finalmente, a trilha sonora do bom Jerry Goldsmith oscila entre momentos melancólicos, como quando um soldado americano morre num bombardeio, e momentos triunfais, como quando Patton volta a comandar uma divisão do exército.

Mas se é eficiente como filme de guerra, “Patton” se destaca mesmo como um minucioso estudo de personagem. Extremamente temido, o general George Patton era capaz de gerar pânico nos soldados, como quando um deles diz “Que Deus nos ajude” ao saber de sua chegada. O temor se justifica logo em sua primeira “vistoria” no local, quando arranca um pôster de mulher e ordena que todos vistam o uniforme do exército, incluindo os médicos. Quando questionado por um médico sobre a impossibilidade de utilizar o material de trabalho por causa do capacete, ele responde: “Faça dois furos”, mostrando seu lado pratico e nada humanista. E até mesmo seu lado espiritual era apenas mais uma arma em suas mãos, como fica evidente quando ele ordena que o capelão peça para Deus melhorar o clima. George Scott encarna o general com extrema competência, demonstrando sua obstinação pela vitória com fervor. A expressão séria, como quando se olha no espelho antes da primeira batalha contra os alemães, poucas vezes saía de seu rosto, mas Scott sabe bem os momentos em que a cena pede uma oscilação em sua feição, como quando Bradley questiona seus métodos pouco éticos e ele coça os olhos olhando para os céus. Sua capacidade de mover exércitos era proporcional à sua falta de tato, exemplificada em suas declarações, como quando compara o Marrocos a uma “mistura da Bíblia com Hollywood”. O único local capaz de aflorar emoções em Patton era mesmo o campo de batalha. Profundo conhecedor da história das guerras, sabia da importância de conhecer o inimigo e, por isso, lia o livro de seu adversário apenas para antecipar suas táticas. Na busca incessante pela vitória e pela glória, Patton utilizava todas as armas possíveis, ainda que pra isso tivesse que atropelar a ética e a moral, como quando pede para que seus lideres enviem novamente uma mensagem, somente para ganhar tempo e desobedecer à ordem que estava por vir, invadindo a cidade de Palermo. Era capaz de prejudicar seu aliado inglês e provocar a morte de soldados do próprio exército somente para chegar a Messina antes de seu aliado e ter toda a glória para si. E se o ser humano pouco importava pra ele, o que dizer então de pobres animais que atrapalhavam sua marcha em cima de uma ponte? A solução foi rápida. O horror da guerra não lhe comovia nem um pouco, como podemos notar no plano em que Patton sequer olha para os lados enquanto diversos soldados feridos passam ao redor. Já a “covardia” era capaz de lhe tirar do sério, fazendo com que ele humilhasse um soldado em crise no hospital, o que lhe custou muito caro depois. Nesta cena, aliás, Scott está estupendo, demonstrando com exatidão a raiva que Patton sentia diante daqueles que considerava covardes. É interessante notar também que nem mesmo os alemães acreditavam que uma agressão a um soldado fosse motivo para afastar o general. Após a queda, Patton se esforça muito para conter os nervos, como quando é provocado por um repórter e, após hesitar, resolve seguir em frente sem reagir. Mas o tato não era seu forte, como fica claro em sua fria despedida dos companheiros de batalha após o fim do conflito.

“Patton” pode parecer um filme de guerra e até cumpre bem esta função quando necessário, mas na realidade, o longa dirigido por Franklin J. Schaffner é um belo estudo de personagem (como sugere o próprio nome do filme), que esmiúça a mente de um dos grandes generais norte-americanos, sem jamais temer mostrar seus piores defeitos. George Patton não era um político, o ser humano pouco lhe importava e é apropriado que no último plano ele apareça pequeno e solitário, acompanhado somente por um cachorro. Em sua busca obstinada pela glória, ele descobriu que estas coisas são passageiras. O que realmente importa na vida talvez ele jamais tenha tido.

Texto publicado em 03 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira

Imagens: O Poderoso Chefão – Parte II (1974)

Seguindo o projeto de atualização das críticas com imagens, chegou à vez da crítica de O Poderoso Chefão – Parte II (1974) ser devidamente ilustrada. Vale lembrar que o texto permanece o mesmo do dia de divulgação.

Um abraço.

Texto publicado em 01 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira

PINÓQUIO (1940)

(Pinocchio)

 

 

Videoteca do Beto #66

Dirigido por Hamilton Luske e Ben Sharpsteen.

Elenco: Vozes de Dickie Jones, Mel Blanc, Walter Catlett, Don Brodie, Christian Rub, Evelyn Venable, Cliff Edwards e Frankie Darro. 

Roteiro: Carlo Collodi (história), Ted Sears (adaptação), Otto Englander (adaptação), Webb Smith (adaptação), William Cottrell (adaptação), Joseph Sabo (adaptação) e Erdman Penner (adaptação).

Produção: Walt Disney (não creditado).

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após revolucionar o cinema com seu filme de estréia “Branca de Neve e os Sete Anões”, contrariando todas as expectativas e provando ser possível realizar um longa-metragem de animação, Walt Disney conseguiu, já em seu segundo filme, alcançar a perfeição. “Pinóquio” é um triunfo cinematográfico belíssimo, com uma estrutura narrativa perfeita, que se estabeleceu como o padrão a ser seguido pelo gênero animação até os dias de hoje. Além dos triunfos técnicos, o longa consegue ainda ser extremamente emocionante, tocando de maneira uniforme os corações de crianças e adultos.

Um grilo falante (voz de Cliff Edwards) invade uma velha casa numa cidade pequena para se esconder do frio. Lá encontra o velho Gepeto (voz de Christian Rub) e suas únicas companhias, o gato Fígaro e a peixe Cleo (ambos, voz de Mel Blanc). Após Gepeto construir um boneco de madeira e desejar que este se torne um menino de verdade, uma bela fada azul (voz de Evelyn Venable) invade a casa durante a noite e dá vida ao boneco chamado Pinóquio (voz de Dickie Jones), prometendo lhe transformar num menino de verdade se ele demonstrasse coragem e altruísmo.

“Pinóquio” fala para crianças de todas as idades, mas certamente sua mensagem é direcionada diretamente aos meninos. O menino de madeira, como qualquer garoto, é inocente ao ponto de acreditar numa promessa de um estranho (“Vou ser ator famoso”, diz eufórico para o grilo) e curioso o suficiente para colocar o dedo no fogo ou atrapalhar o sono do “pai” com suas perguntas (“Por quê? Por quê? Por quê?”) – repare a divertida irritação de Fígaro neste momento. Por isso, o roteiro (adaptado da história de Carlo Collodi) não perde a oportunidade e deixa diversas lições, como não confiar em estranhos (raposa João Honesto), saber escolher as amizades (Espoleta), não mentir (nariz crescendo) e sempre suspeitar do caminho fácil para o sucesso (Stromboli). Por mais que sejam óbvias, é inegável que são mensagens sempre eficientes e atuais. Além disto, a narrativa flui de maneira muito agradável, graças à estrutura harmoniosa que acompanha todo o arco dramático do menino de madeira, transformado de garoto curioso e inocente em herói corajoso e altruísta. Outra sacada interessante do roteiro, inexistente no conto original de Collodi, é o grilo falante, um personagem chave para o sucesso da narrativa, que funciona como elo entre o espectador e o universo do longa. Além de narrador, o grilo serve também como alivio cômico numa trama repleta de momentos nebulosos, como quando lê a carta entregue por uma pomba ou quando ameaça brigar com Espoleta (voz de Frankie Darro). Inicialmente, ele não confia muito nos conselhos que dá, como quando testemunha o sucesso de Pinóquio e se retira, dizendo que “atores não precisam de consciência”. No entanto, assim como Pinóquio aprende muitas coisas ao longo da narrativa, o grilo também aprende a ser mais incisivo e confiar nos seus princípios.

Mas “Pinóquio” impressiona também pela qualidade da animação em si. Vale lembrar, em tempos de animação digital, que o desenho foi criado a partir de pinturas feitas à mão por dezenas de artistas que trabalhavam para Walt Disney. O lindo visual, repleto de detalhes como as ranhuras na madeira ou o correto deslocamento das sombras quando a fada aparece ou em cenas iluminadas por velas, é resultado do trabalho manual destes grandes artistas, o que engrandece ainda mais a qualidade do que vemos na tela. Observe a riqueza de detalhes, como os olhos imóveis de Pinóquio, quando ainda era um boneco de madeira, contrastando com o vivo e inquieto olhar do mesmo Pinóquio após receber “o dom da vida”. Repare também a qualidade das imagens no fundo do mar, simulando a dificuldade para caminhar no oceano. Este cuidado extremo com cada detalhe, sempre misturando um rico universo de cores e tons, inevitavelmente conquista a empatia de crianças e adultos. Os movimentos de câmera também são extremamente ousados para uma animação de 1940, como quando a câmera simula os pulos do grilo enquanto ele se aproxima da casa de Gepeto ou no impressionante travelling que nos leva por toda a cidade até chegar à porta da casa onde Pinóquio se prepara para o seu primeiro dia de aula. Os diretores Hamilton Luske e Ben Sharpsteen confirmam o conhecimento da linguagem cinematográfica quando empregam um zoom para aumentar o impacto da cena, quando Pinóquio, após salvar Gepeto, aparece caído na água. Além disso, alteram o foco para transmitir sensações, como quando Pinóquio fuma e, em seguida, vê a bola 8 e o grilo completamente distorcidos. Finalmente, os diretores mostram talento até mesmo para situar o espectador em ações que acontecem fora de campo, como na tensa seqüência da perseguição da baleia Monstro, onde mesmo sem ver a baleia no plano, o espectador sente sua aproximação somente através das reações de Pinóquio e Gepeto.

O festival de sensações provocadas no espectador é ainda mais forte graças à bela trilha sonora, que além de pontuar muito bem as cenas (observe o tom sombrio da música que acompanha a terrível transformação de Espoleta e Pinóquio em burros), ainda contém excelentes canções, algo tradicional nos filmes da Disney e que certamente facilita a comunicação com as crianças. E o mais interessante é que as canções são sempre orgânicas, fazendo a narrativa andar através da mensagem de cada letra, além de utilizar o som diegético como parte da música, como na divertida “Give a little whistle”, cantada pelo grilo falante, onde os pequenos sons produzidos na casa de Gepeto contribuem com a canção. E o que dizer então da belíssima “When you wish upon a star”, composta por Leigh Harline e Ned Washington, que de tão encantadora, ultrapassou os limites do filme e tornou-se a música tema da própria Disney? Além da linda melodia, a letra resume perfeitamente a mensagem do longa. Ainda no aspecto sonoro, o belo trabalho de efeitos sonoros fica evidente através dos relógios, do som da batida na madeira de Pinóquio e da água do mar na perseguição da baleia Monstro.

E se Pinóquio acaba perseguido pela baleia Monstro, é porque quando finalmente volta pra casa, ele a encontra vazia e abandonada, e os tons azulados da imagem refletem sua imensa tristeza. Estes momentos sombrios não faltam no longa, como a cena em que Gepeto procura por Pinóquio sob um clima chuvoso e obscuro, o momento em que Pinóquio é preso, onde a tempestade representa a angústia dele, e a transformação de Espoleta em burro, com a sombra refletida na parede que remete às perturbadoras imagens do expressionismo alemão (repare a engraçada reação de Pinóquio jogando a cerveja e o cigarro fora, num excelente exemplo de alivio cômico eficiente). Além disso, o próprio visual da Ilha dos Prazeres após a prisão dos garotos é capaz de provocar calafrios em qualquer espectador. E por falar na Ilha dos Prazeres, o parque de diversões idealizado pelo cocheiro (que se transforma em demônio ao revelar seus planos para João Honesto), repleto de doces e sorvetes, mas que conta também com tabaco, cerveja, e locais como a “casa da briga” ou a “casa modelo” para ser destruída, revela-se um verdadeiro lugar de sonhos para meninos travessos como Espoleta. E não demora muito para que Pinóquio perceba o fascínio desta vida, o que faz com que diga para seu mais novo amigo que “ser malvado é divertido”. A imagem dos garotos bebendo, fumando e jogando sinuca chega até mesmo a ser chocante, mas consegue perfeitamente transmitir a idéia de rebeldia, resumida na frase de Espoleta citada por Pinóquio (“Só se vive uma vez”). Obviamente, o roteiro se encarrega de pregar outra lição nos meninos teimosos, ensinando o perigo das más companhias, simbolizado na terrível transformação dos meninos em burros. Finalmente, não poderiam faltar cenas marcantes neste verdadeiro clássico da Disney, como a dança de Pinóquio com as marionetes, a perseguição da baleia Monstro e, principalmente, a histórica cena em que seu nariz cresce. Até mesmo quem nunca assistiu ao filme sabe a conseqüência da mentira do garoto.

O boneco Pinóquio representava a chegada da alegria naquele lar. Gepeto, solitário e carente de crianças, investia o tempo em seu hobby favorito, criando diversos e interessantes bonecos de madeira. Mas o menino-marionete era a sua maior criação, e até mesmo o gato Fígaro sabia disto, o que justifica seu ciúme imediato, ao imaginar que o menino substituiria o seu lugar no coração do velho homem. No fundo, “Pinóquio” não trata simplesmente de deixar mensagens educativas para as crianças (algo que faz muito bem). Ilustra também, de forma tocante, a imensa alegria que um homem (e uma mulher) sente quando é presenteado com a chegada de uma criança, enchendo o lar com a mais pura alegria. E Gepeto sabia que esta alegria lhe faltava, tanto que quando tem a oportunidade de fazer um desejo, não hesita em pedir que o seu menino seja um “menino de verdade”. A transformação em sua vida é tão grande que jamais o velho Gepeto culpa Pinóquio pela tragédia que se abateu em sua vida e, mesmo engolido por uma baleia, é capaz de dizer “Pobre Pinóquio, era um garoto tão bom”. E no fundo, Gepeto tinha razão, porque na realidade, Pinóquio sempre foi um menino de verdade, inocente, curioso, às vezes atentado, mas sempre com um coração puro e a alegria encantadora de uma verdadeira criança. Portanto, quando a fada finalmente lhe transforma num menino de carne e osso (provocando uma explosão de alegria nos personagens, incluindo Fígaro, e no espectador), está apenas oficializando algo que na prática, no coração dele, já existia. E então, a bela trilha sonora surge apenas para fechar com chave de ouro esta obra-prima da história do cinema.

“Pinóquio” pode parecer um filme destinado a ensinar valores para as crianças, mas como indica a canção principal, sua verdadeira mensagem atinge mesmo o coração dos adultos, ao ensinar a importância de acreditarmos em nossos sonhos. E o que mais poderia representar o sonho de um adulto do que a chegada de uma criança em seu lar? Walt Disney sabia disto, assim como sabia tocar no coração do espectador, e provou isto mais uma vez nesta verdadeira obra-prima, que ainda hoje soa atual e emociona.

Texto publicado em 29 de Setembro de 2010 por Roberto Siqueira