O GABINETE DO DR. CALIGARI (1919)

(Kabinett des Dr. Caligari)

 

Filmes em Geral #32

Filmes Comentados #21 (Comentários transformados em crítica em 06 de Janeiro de 2011)

Dirigido por Robert Wiene.

Elenco: Werner Kraus, Lil Dagover, Conrad Veidt, Friedrich Feher e H.H. Von Twardowski.

Roteiro: Hans Janowitz e Carl Mayer.

Produção: Erich Pommer.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Considerado o marco inicial do expressionismo no cinema, “O Gabinete do Dr. Caligari” conta a estória de um hipnotizador (Werner Kraus) que chega ao circo de uma pequena cidade para apresentar um sonâmbulo (Conrad Veidt) que, misteriosamente, faz profecias macabras, que acabam sendo concretizadas posteriormente. Simultaneamente a sua chegada, crimes começam a acontecer na cidade, e a dupla passa a ser a principal suspeita dos crimes.

O longa que inaugurou o movimento expressionista no cinema apresenta uma atmosfera bastante sombria, que determinou o padrão estilístico que seria seguido pelos filmes seguintes. Mas para entender a importância de “O Gabinete do Dr. Caligari” é preciso contextualizar o seu lançamento. Em 1919, o cinema estava apenas começando a mudar, com os filmes de Griffith, o primeiro a contar uma estória de forma diferente, alternando planos abertos com closes, mas o diretor Robert Wiene preferiu manter a câmera fixa num ponto, com os atores encenando na frente dela, como era costume na época. Em compensação, investiu pesado no tom obscuro, com o forte contraste entre luzes e sombras, cenários distorcidos e muita maquiagem, criando um visual bastante sombrio. Auxiliado pela fotografia (direção de Willy Hameister) também sombria e pelos cenários distorcidos, o diretor conseguiu criar um clima fantasmagórico, conferindo uma atmosfera de pesadelo ao longa. Além disso, a fenomenal direção de arte representa com precisão a principal característica do expressionismo alemão, que é a distorção de imagens buscando representar visualmente os sentimentos dos personagens. Os cenários distorcidos, as ruas e casas tortas e os personagens extremamente maquiados foram utilizados com perfeição em “O Gabinete do Dr. Caligari”.

Vale observar também como as formas geométricas ajudam a expressar os sentimentos dos personagens, como os triângulos maquiados nos olhos que garantem um ar ainda mais mórbido ao sonâmbulo Cesar e as linhas suaves do quarto da bela Jane Olsen (Lil Dagover), que exprimem a paz de espírito da moça. A própria casa do Dr. Caligari parece pequena e apertada por fora, dando uma sensação de incomodo em quem vê, refletindo o distanciamento do espectador com as práticas do doutor. Mas além de contar com um visual exuberante, carregado nos tons sombrios e na distorção das imagens, o longa ainda conta com uma trama muito bem elaborada (mérito do roteiro de Hans Janowitz e Carl Mayer), com interessantes reviravoltas e um final surpreendente. E apesar dos poucos diálogos (como o filme é mudo, as falas aparecem escritas na tela), o longa mantém um ritmo ágil e interessante, se considerarmos as dificuldades técnicas da época, sempre mantendo o espectador ligado na narrativa.

Entre as atuações, vale destacar Conrad Veidt como o assustador Cesar e o próprio Werner Kraus como o macabro Dr. Caligari. Numa época em que os atores não tinham o recurso do diálogo devido à inexistência do som, a expressão facial e corporal era fundamental para provocar o medo e ambos se saem bem nesta tarefa. Além disso, é importante ressaltar que o exagero nas expressões buscando externar os sentimentos dos personagens era uma das marcas do expressionismo.

Contando com uma narrativa interessante, boas atuações e um trabalho excepcional de fotografia e direção de arte, responsável por um dos mais sombrios visuais já vistos num filme, “O Gabinete do Dr. Caligari” iniciou com o pé direito o movimento expressionista no cinema, tendo forte influência nos filmes posteriores do movimento, assim como em diversas outras obras da história da sétima arte.

PS: Comentários divulgados em 02 de Agosto de 2010 e transformados em crítica em 06 de Janeiro de 2011.

Texto atualizado em 06 de Janeiro de 2011 por Roberto Siqueira

Semana: Expressionismo Alemão

Nesta semana divulgarei comentários a respeito de cinco grandes filmes do expressionismo alemão. Quero deixar claro que a lista não pretende, de forma alguma, listar os filmes mais importantes do período. Trata-se apenas de uma seleção de filmes que me agradaram neste importante movimento da história do cinema. Aproveito também para lançar a página “Expressionismo Alemão”, que você pode acessar na página inicial (lado direito da tela), onde faço um pequeno resumo sobre este movimento e descrevo suas principais características.

Antes de assistir os filmes é importante conhecer o movimento e quais eram suas características para que possa apreciar estas obras em toda sua plenitude. Portanto, recomendo a leitura da página e dos textos indicados nela.

Espero que gostem.

Um abraço.

Texto publicado em 01 de Agosto de 2010 por Roberto Siqueira

CONDUZINDO MISS DAISY (1989)

(Driving Miss Daisy)

 

Videoteca do Beto #60

Vencedores do Oscar #1989

Dirigido por Bruce Beresford.

Elenco: Morgan Freeman, Jessica Tandy, Dan Aykroyd, Patti LuPone, Esther Rolle, Jo Ann Havrilla, William Hall Jr., Alvin M. Sugarman, Clarice F. Geigerman, Muriel Moore, Sylvia Kahler e Crystal R. Fox.

Roteiro: Alfred Uhry, baseado em peça teatral de Alfred Uhry.

Produção: Lili Fini Zanuck e Richard D. Zanuck.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

De forma simples e eficiente, o diretor Bruce Beresford nos traz esta tocante estória sobre uma senhora judia que hesita em aceitar seu novo motorista negro após sofrer um leve acidente com seu novo carro. A trajetória de aceitação, quebra de preconceitos e aproximação de duas pessoas solitárias, e acima de tudo, o olhar humano, despido de preconceito racial ou religioso (ele é negro, ela judia), torna este “Conduzindo Miss Daisy” um lindo filme sobre o valor do caráter humano e da verdadeira amizade.

Uma rica judia de 72 anos de idade (Jessica Tandy) acidentalmente joga seu carro novo no jardim do vizinho. Seu filho Boolie (Dan Aykroyd) tenta convencê-la de que ela precisa de um motorista, mas ela resiste à idéia. Mesmo assim, seu filho contrata o motorista Hoke (Morgan Freeman), provocando a imediata recusa de sua mãe. Mas gradativamente ela quebra a barreira da diferença cultural e racial existente entre eles, aceita suas próprias limitações e permite nascer e crescer um sentimento puro e sincero de amizade que durará décadas.

Embalado pela leve e descontraída trilha sonora do sempre ótimo Hans Zimmer, o diretor Bruce Beresford conduz este singelo “Conduzindo Miss Daisy” com enorme segurança, permitindo que os ótimos desempenhos de todo o elenco sejam a principal atração do longa. Ainda assim, a parte técnica merece destaque, a começar pelo excelente trabalho de direção de arte de Victor Kempster que, auxiliado pelos figurinos de Elizabeth McBride, cria um visual coerente com a época da narrativa, notável através do interior das casas, dos carros e da própria maneira de se vestir dos personagens. Vale observar também como a fotografia discreta e sem muita vida de Peter James reflete a personalidade de Miss Daisy, que detesta chamar a atenção, como ela mesma deixa claro ao reclamar quando Hoke para o carro na porta da igreja. Por outro lado, James explora muito bem a beleza dos jardins e ruas arborizadas da cidade, criando um interessante contraste visual. Já a maquiagem da dupla Manlio Rocchetti e Kevin Haney é simplesmente espetacular, refletindo com precisão o envelhecimento dos personagens, notável principalmente no terceiro ato do longa. E finalmente, a montagem de Mark Warner flui muito bem, cobrindo muitos anos da vida dos personagens sem jamais soar cansativa ou episódica, além de fazer a transição do tempo de forma elegante em muitos momentos, por exemplo, através do crescimento das flores no jardim. O diretor Beresford também é competente na criação de planos interessantes, como aquele em que podemos ver o reflexo de Hoke no belíssimo Hudson que ele vai dirigir por muitos anos ou na magnífica composição visual da viagem feita por Miss Daisy e seu motorista, além é claro da elegante câmera lenta que indica a morte de Idella (Esther Rolle).

Sem fugir do clichê “eles se odeiam e depois viram grandes amigos” (que neste caso é muito bem utilizado, pois o desentendimento inicial é perfeitamente aceitável, assim como o nascimento da relação de respeito e carinho entre eles), o bom roteiro de Alfred Uhry, baseado em peça teatral do próprio Uhry, estuda minuciosamente os efeitos do envelhecimento no ser humano, normalmente resistente às mudanças provocadas pela passagem do tempo. Esta resistência provoca uma enorme dificuldade em aceitar que não podemos mais fazer as mesmas coisas de antes, como quando Miss Daisy resiste em aceitar que não pode mais dirigir. Além disso, o roteiro acertadamente aborda temas complicados, como o racismo (os negros são empregados e motoristas), tão forte naquele período da história dos EUA, e a discriminação religiosa, escancarados na frase preconceituosa do policial que pára os dois idosos na estrada. Finalmente, o roteiro de Uhry conta ainda com diálogos dinâmicos, inteligentes e repletos de ironia, principalmente entre a dupla principal e entre Miss Daisy e seu filho.

Colaboram para o dinamismo dos diálogos as excelentes atuações do elenco, com destaque para o trio principal formado por Tandy, Freeman e Aykroyd. Jessica Tandy está perfeita como a amargurada Miss Daisy. Teimosa e extremamente autoconfiante, ela demonstra enorme dificuldade em se despir de preconceitos e alterar sua rotina, como quando reclama por mudar o caminho para o mercado Piggly. Miss Daisy é tão ranzinza que canta enquanto o filho fala, simplesmente por não concordar com o que ouve. A ironia – traço forte do roteiro que garante o tom de comédia – também está presente nas frases da personagem, como quando ela fala sobre o nariz de sua nora Florine (Patti LuPone), assim como o olhar sempre negativo para o mundo, exemplificado no sorriso dela ao constatar que algo sumiu de sua dispensa, como se já esperasse por aquilo. Esta seqüência do “roubo do salmão”, aliás, reafirma o tom bem humorado do longa, perceptível até mesmo na trilha sonora, que dá um acorde alto criando suspense. Depois da resolução do “caso”, repare como o diretor inteligentemente cria um plano com a cozinha vazia, refletindo a sensação que o espectador sente naquele momento. Extremamente resistente no inicio, Miss Daisy completa sua gradual transformação ao longo dos anos quando confessa seu sentimento de amizade por Hoke (“Você é meu melhor amigo”), e esta transformação é notável graças ao excelente trabalho da atriz. Tandy também demonstra muito bem o desespero de Miss Daisy quando começa a enfrentar problemas de memória, descendo a escada para procurar “as provas que devem ser corrigidas” e falando repetitivamente, além de mostrar competência também quando recorda da primeira vez que viajou, aos doze anos de idade, num momento nostálgico e tocante. E o responsável por toda esta mudança na vida da rica judia é um senhor simples e de enorme coração, interpretado magnificamente por Morgan Freeman. A introdução de Hoke na narrativa é perfeita, apresentando logo de cara todos os trejeitos do personagem, como a voz calma e anasalada, o sotaque diferenciado, o andar encurvado e lento, o olhar por cima dos óculos e a gargalhada. Seu jeito tranqüilo e paciente é ideal para conseguir conviver diariamente com a difícil Miss Daisy. Repare como logo na entrevista com Boolie fica evidente a ótima caracterização do personagem, reforçando a qualidade da atuação de Freeman. Vale destacar em especial dois grandes momentos do ator. O primeiro, na emocionante cena em que Hoke procura a lápide de Bauer e escancara sua deficiência na leitura, onde o ator transmite toda a dificuldade e embaraço do personagem, provocando a imediata reação de Miss Daisy, que sorri de satisfação quando o motorista consegue encontrar a lápide. O outro momento acontece quando Hoke pede aumento para Boolie. Freeman demonstra com enorme sensibilidade, através do jeito de falar, da gargalhada e do tom de voz, a intenção do personagem, ainda que as palavras não digam claramente o que ele pretende. Finalizando os destaques do elenco, Dan Aykroyd se sai muito bem no papel do divertido Boolie, que sabe perfeitamente como é difícil conviver com sua amada mãe. Por isso, ele raramente dá ouvidos às constantes reclamações da velha senhora, e até mesmo quando o faz, é sempre com um pé atrás, como no caso do salmão roubado. Além disso, o ator demonstra com competência o modo sempre irônico com que Boolie lida com os problemas da família (“Carros não agem, as pessoas que agem com eles”), como quando sua esposa reclama por não ter coco ralado no natal.

Quando Hoke se rebela e diz que é um senhor de 70 anos de idade que precisa fazer xixi, ele finalmente ganha o respeito definitivo de Miss Daisy. Os dois, aliás, começam a dar sinais evidentes da relação de amizade entre eles quando ela lhe presenteia no natal (“Não é presente de Natal. Judeus não têm nada que ver com isso”, faz questão de ressaltar). Neste momento, ainda que as fortes tradições se mantenham (Hoke fica do lado de fora da casa), o livro que ele ganha simboliza que a relação entre os dois já não é apenas profissional. E é delicioso acompanhar a construção gradual e consistente de uma amizade verdadeira. Por isso, quando chegamos à seqüência final, com os dois amigos sentados à mesa conversando enquanto Hoke alimenta Miss Daisy, nos sentimos comovidos. E esta comoção não é provocada de forma artificial ou melodramática. É simplesmente belo ver como os velhos traços da amizade permanecem, com as alfinetadas e a ironia presentes no diálogo, mas o respeito e admiração são muito mais fortes.

A velhice é tratada com respeito neste sensível “Conduzindo Miss Daisy”, extremamente bem atuado e com um roteiro bastante inteligente, que nos deixa algumas reflexões. A vida passa, o corpo enfraquece, os filhos crescem, os amigos e familiares se vão, mas as lembranças ficam. E afinal de contas, o que levamos desta vida? Levamos o amor, as verdadeiras amizades e as histórias que vivemos para contar. Melhor ainda é quando chegamos ao final desta trajetória podendo contar com alguém, seja este (a) um (a) companheiro (a) ou um verdadeiro (a) amigo (a). É isto que vale a pena na vida.

Texto publicado em 31 de Julho de 2010 por Roberto Siqueira

Imagens: 2001 – Uma Odisséia no Espaço (1968)

Seguindo o projeto de atualização das críticas com imagens, já podem conferir a crítica de 2001 – Uma Odisséia no Espaço (1968), agora devidamente ilustrada. Vale lembrar que o texto permanece o mesmo do dia de divulgação.

Um abraço.

Texto publicado em 28 de Julho de 2010 por Roberto Siqueira

CAMPO DOS SONHOS (1989)

(Field of Dreams)

 

Videoteca do Beto #59

Dirigido por Phil Alden Robinson.

Elenco: Kevin Costner, Amy Madigan, Gaby Hoffman, Ray Liotta, Timothy Busfield, James Earl Jones, Burt Lancaster, Frank Whaley, Dwier Brown, Fern Persons, Michael Milhoan, Steve Eastin, Charles Hoyes, Art LaFleur, Lee Garlington, Mike Nussbaum e James Andelin.

Roteiro: Phil Alden Robinson, baseado em livro de W.P. Kinsella.

Produção: Charles Gordon e Lawrence Gordon.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quão injusta é a morte? É triste pensar que jamais resolveremos algo que ficou pendente quando alguém nos deixa. Aquela bebida com um amigo depois do expediente, aquele churrasco com a família, aquela viagem tão sonhada, nada disto é possível se um dos participantes se vai. Pior ainda é quando estamos brigados, distantes ou com alguma situação mal resolvida. O remorso corrói aquele que fica, ainda que a recíproca fosse verdadeira numa situação inversa. A chance de reconciliar-se com o passado e realizar os sonhos é o tema deste belíssimo “Campo dos Sonhos”, dirigido por Phil Alden Robinson e que exemplifica perfeitamente como o cinema pode ser mágico. Quando os créditos começam a aparecer na tela, além de enxugar as inevitáveis lágrimas, o espectador pode tirar algumas lições, como aproveitar cada segundo da vida, fazer tudo que tiver vontade e não deixar nada pra depois. E principalmente, não se desentender com quem ama por besteiras.

O fazendeiro Ray Kinsella (Kevin Costner) caminha pelo seu milharal em Iowa quando ouve uma misteriosa voz que lhe diz “Se você construir, ele virá”. Após ter uma visão de um campo de beisebol no meio de suas plantações, ele entende que deverá construir este campo para que seu grande ídolo do beisebol no passado volte a jogar. O detalhe é que “Shoeless” Joe Jackson (Ray Liotta), o jogador em questão, está morto há muitos anos. Após construir o campo, a mágica acontece e Ray descobre que este local pode realizar muitos outros sonhos. Dentre eles, estaria algo que nem mesmo Ray poderia imaginar.

A trama de “Campo dos Sonhos” é simples. Homem de família estruturada, Ray vive muito bem com a esposa Annie (Amy Madigan) e a filha Karin (Gaby Hoffman). Na infância, foi criado pelo pai devido o falecimento de sua mãe e se acostumou a ouvir histórias sobre beisebol desde pequeno. O problema é que o beisebol se tornou algo como jogar o lixo na rua, como ele mesmo afirma. E então, na adolescência, Ray, após brigar com o pai, sai de casa dizendo que jamais respeitaria alguém cujo ídolo era um bandido. Ele se referia a “Shoeless” Joe Jackson, o ídolo de seu pai que foi suspenso por “entregar um campeonato”. Não houve tempo para reconciliação. Seu pai morreu antes que Ray se desculpasse. Já adulto e pai de família, Ray não esconde a mágoa por não ter acertado esta situação. É quando, no meio de seu milharal, uma misteriosa voz começa a mudar sua vida. A câmera se aproxima de Ray praticamente no mesmo nível do milharal e a voz surge como um sussurro no ouvido do protagonista e do espectador com as palavras “Se você construir, ele virá”. Um momento absolutamente marcante. Como podemos notar, não se trata de um longa apenas sobre beisebol. Por isso, mesmo que jamais tenha ouvido falar no esporte, o espectador pode ser completamente envolvido pela narrativa. Pense, por exemplo, nos seus grandes ídolos do esporte (seja ele futebol, voleibol ou outro qualquer) e entenderá o fascínio de Ray ao ver “Shoeless Joe” jogando em seu campo. Mérito da boa direção de Phil Alden Robinson, que conduz a narrativa com segurança e permite este envolvimento do espectador, criando ainda belos planos que exploram a imensidão dos milharais e lindos campos de Iowa, além do visual esplêndido nas cenas noturnas do iluminado campo de beisebol – graças também à boa direção de fotografia de John Lindley. Observe também como logo no início, o vídeo com imagens antigas e fotos introduz perfeitamente o espectador a trama, já dando pistas do problema de relacionamento entre Ray e seu pai. Ainda na parte técnica, a trilha sonora do ótimo James Horner tem um tom mágico, fabuloso, que se encaixa perfeitamente ao clima do filme. Além disso, conta com canções alegres e empolgantes que demonstram os sentimentos de Ray quando parte com sua perua Kombi em busca de Terence Mann (James Earl Jones).

Mas se na direção Robinson é competente com discrição, no roteiro seu grande trabalho é ainda mais notável. Além de mostrar a capacidade do esporte de marcar momentos de nossas vidas, o excelente roteiro, baseado em livro de W.P. Kinsella (qualquer semelhança não é mera coincidência), envolve o espectador de tal forma que este jamais questiona o que vê, deixando-se levar nesta viagem singular. Afinal de contas, “Campo dos Sonhos” não é um filme para entender lógica ou cientificamente, é um filme para sentir. E em seu último ato, desarma completamente as defesas do espectador e torna as lágrimas em algo inevitável. Seu ritmo delicioso e envolvente é mérito também da montagem de Ian Crafford, que além de ser direta, conta ainda com interessantes momentos, como a seqüência em que o plano do campo de beisebol coberto de neve indica a passagem do tempo antes da primeira aparição de “Shoeless” Joe. A cena que segue, aliás, é outro grande momento do longa, quando Karin interrompe a importante conversa sobre as finanças do casal para dizer “Papai, tem um homem no seu campo”. O espectador é levado pela narrativa sem saber muito bem pra onde, descobrindo depois que é para um final mágico e incrivelmente belo, um acerto de contas com o passado que leva a completa redenção de Ray. E apesar do grande tema central de “Campo dos Sonhos” ser revelado somente em seus minutos finais, podemos notar sua presença em diversos momentos da narrativa através de pequenos diálogos que remetem ao relacionamento entre Ray e seu pai, John Kinsella (Dwier Brown). Ray deixa claro, em conversas com Annie e Terence Man, a importância que sei pai teve em sua vida e a angústia que sentia por não ter conseguido se acertar com ele antes de sua partida. Além disso, ao dizer para Annie que tinha medo de estar ficando igual ao velho John, Ray ratifica que não desistiria da construção do campo, por mais absurda que pudesse parecer. Trata-se do dilema de qualquer ser humano que sente estar chegando a uma fase decisiva de sua vida sem ter realizado seus sonhos e desejos.

Seria essencial que o ator escolhido para viver Ray conquistasse a platéia e fizesse com que o espectador fosse cúmplice da busca do personagem, e Costner é muito competente nesta tarefa, graças à sua grande atuação e ao seu inegável carisma. Por isso, o espectador jamais questiona as atitudes de Ray, por mais absurdas e ilógicas que pareçam. Sua busca obstinada por algo que nem ele conseguia identificar com clareza comove e traz pra junto dele o espectador. O ator também mostra competência no timing cômico em diversos momentos, como quando sua mulher pergunta “se construir o que, quem virá?” e ele responde desapontado que “a voz não disse…” ou quando Annie questiona o que fazer caso a voz apareça enquanto ele está fora e ele responde ironicamente “pegue o recado”. A cumplicidade do casal, aliás, é essencial para o sucesso da narrativa e a dupla Costner/Amy Madigan se sai muito bem, demonstrando excelente química. Somente com o suporte de uma esposa como Annie um homem seria capaz de fazer o que Ray faz. Observe o sorriso de satisfação dele ao olhar para o campo assim que fica pronto e dizer “criei algo completamente ilógico”. Ele não desistiu de seu sonho, por mais absurdo que fosse, e se sentiu recompensado por isto. Madigan, por sua vez, se sai muito bem como a espontânea e confidente Annie, destacando-se na divertida discussão sobre livros numa escola, que serve também como uma crítica ao puritanismo. Quem também está bem é Ray Liotta no papel do lendário “Shoeless” Joe Jackson. Mantendo sempre um ar misterioso e ao mesmo tempo de deslumbramento, Liotta transmite perfeitamente a alegria do ex-jogador ao voltar a pisar num campo de beisebol, chegando a perguntar se ali era o paraíso. A cômica resposta de Ray “Não. É Iowa” será substituída no final por uma reflexão emocionada do fazendeiro, que ao ouvir seu pai dizer que o paraíso é o lugar onde os sonhos se realizam, enquanto vê sua esposa e filha brincando na varanda, responde “talvez aqui seja mesmo o paraíso”. James Earl Jones demonstra com competência a amargura de Terence Mann, um homem assombrado pela importância de seu passado diante de uma sociedade completamente diferente (e muito mais hipócrita). Sua revolta com os dias atuais fica clara quando grita para Ray “voltar aos anos sessenta”. O mundo é totalmente diferente pra ele hoje e o idealismo dos anos sessenta infelizmente não sobreviveu. A presença marcante de Earl Jones garante mais algumas seqüências de bom humor, como a “arma” de Ray ao invadir seu apartamento e a conversa dos dois antes de comprar um cachorro-quente. Sem falar na sua engraçada reação ao pensar o que diria para seu pai quando este anuncia seu desaparecimento no jornal. Completando o elenco, temos Burt Lancaster na pele do médico Moonlight Graham. Sua presença tem um tom mágico, reforçado pela nevoa que cai sobre a noite, pelo ar nostálgico dos carros antigos espalhados pelas ruas e até mesmo pelo anúncio de “O Poderoso Chefão” no cinema da cidade – o que é mérito também da boa direção de arte de Leslie McDonald. E a história do médico que quase foi jogador de beisebol é tocante, mostrando como às vezes, por mais que algo pareça ter dado errado, pode acabar sendo o melhor caminho. “Se eu tivesse sido médico por cinco minutos, isto sim teria sido uma tragédia filho”, diz ele, sem jamais negar o desejo frustrado de conseguir pelo menos uma rebatida como jogador de beisebol.

Quando Ray, já retornando pra casa, revela para Mann o motivo de sua mágoa com seu pai, fica claro para o espectador o quanto ele ainda sofre com a atitude intempestiva tomada na juventude. A morte de seu pai impediu sua reconciliação, e nas palavras sempre sábias de Terence Mann, “esta é sua penitência”. Mas felizmente, “Campo dos Sonhos” fala de redenção e reconciliação, e o acerto entre pai e filho acontece da forma mais inesperada e surpreendente possível. Ray, revoltado pelo fato de Mann ter sido convidado pelos jogadores a ir com eles para o misterioso milharal, questiona duramente seu ídolo “Shoeless” Joe e este responde: “É melhor ficar por aqui Ray”. O arrepio começa a subir nos espectadores mais atentos. Tudo indicava este final espetacular, de redenção. E Joe continua, dizendo “Se você construir… ele virá” e olha para o campo, onde vemos John Kinsella retirando a máscara e os acessórios. Então Ray, emocionado, desentala de sua garganta a frase “Quer jogar um pouco, pai?” e o choro é inevitável, independente do fato do espectador ter ou não perdido seus entes queridos. A mistura de sonho e realidade é perfeita, mexendo com sentimentos, elevando as emoções e desarmando completamente o espectador, que já não consegue mais pensar racionalmente sobre o que vê. O tema abordado, e principalmente, a forma como é abordado, supera pequenos detalhes. Obviamente, pessoas que já perderam os pais podem ter um impacto ainda maior nesta cena final, mas posso dizer – e aqui abro espaço para um comentário extremamente pessoal – que eu sempre me emociono demais nesta cena, e graças a Deus, tenho meus pais vivos.

Singelo e absolutamente tocante, “Campo dos Sonhos” é uma pérola, por vezes esquecida, que tem a incrível capacidade de fazer com que o espectador se envolva de tal forma com a narrativa que nada mais lhe importa. Muito bem dirigido e interpretado, é um filme mágico, que toca o lado mais sensível do ser humano, por mais frio que este possa ser. “Campo dos Sonhos” é mais que uma celebração do beisebol. É uma celebração do perdão, da reconciliação e da própria vida.

PS: Quando a jovem Karin diz que as pessoas viriam ver o campo de todos os lugares, estava inconscientemente fazendo uma profecia que transcende o filme, já que o “Campo dos Sonhos” em Iowa é visitado anualmente por milhares de fãs ainda nos dias de hoje.

Texto publicado em 26 de Julho de 2010 por Roberto Siqueira

Projeto Ilha de Lost

Amigos do Cinema & Debate. Fui convidado para participar de um novo projeto, chamado “Ilha de Lost”. Este interessante projeto consiste em debater diversos assuntos sob pontos de vista diferentes e assim, convocar os leitores para dar também a sua opinião a respeito. No debate de estréia, o assunto é hobbie e eu, obviamente, estou defendendo a comunidade cinéfila. Quem quiser opinar ou apenas conhecer este novo espaço, basta clicar aqui.

É importante deixar claro que a “Ilha de Lost” é um projeto paralelo, em que participarei com enorme prazer, mas o Cinema & Debate continua sendo o meu blog oficial e voltará a ter, a partir de amanhã, críticas sobre filmes divulgadas com freqüência.

Um abraço.

Texto publicado em 25 de Julho de 2010 por Roberto Siqueira

O primeiro aniversário

Infelizmente, devido à Copa do Mundo e às minhas férias, não consegui organizar os posts em Junho, justamente o mês do primeiro aniversário do Cinema & Debate. Como não poderia deixar esta data passar em branco, decidi homenagear o blog um mês depois de seu primeiro aniversário. Há exatamente um ano e um mês o post “A Sétima Arte” inaugurava o Cinema & Debate.

Podemos dizer que o Cinema & Debate ainda é um bebê, mas tenho a esperança de que ele cresça, se desenvolva e se torne um adulto competente naquilo que faz. E para que isto aconteça, contamos com alguém muito especial, que é você leitor.

Agradeço a todos que acessaram o blog neste primeiro ano e passaram horas, minutos ou até mesmo segundos preciosos lendo o que foi postado aqui. Agradeço aos leitores que comentam com freqüência, aos que comentam esporadicamente e também aos leitores silenciosos, que preferem ler sem comentar. São todos bem vindos!

Tenho certeza que este foi apenas o começo de uma bela história.

Um grande abraço e um enorme muito obrigado.

Texto publicado em 20 de Julho de 2010 por Roberto Siqueira

O MILAGRE DE BERNA (2003)

(Das Wunder von Bern)

4 Estrelas 

Filmes em Geral #96

Filmes Comentados #20 (Comentários transformados em crítica em 20 de Dezembro de 2012)

Dirigido por Sönke Wortmann.

Elenco: Louis Klamroth, Peter Lohmeyer, Johanna Gastdorf, Mirko Lang, Birthe Wolter, Katharina Wackernagel, Lukas Gregorowicz, Péter Franke, Sascha Göpel, Knut Hartwig, Holger Dexne, Simon Verhoeven, Jo Stock e Martin Bretschneider.

Roteiro: Rochus Hahn e Sönke Wortmann.

Produção: Hanno Huth, Tom Spiess e Sönke Wortmann.

O Milagre de Berna[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Dirigido com competência por Sönke Wortmann, “O Milagre de Berna” conta a história do primeiro título alemão na história das Copas sob a ótica de uma família praticamente destruída pela segunda guerra mundial. Com sensibilidade e delicadeza, o longa consegue transmitir sensações raras em filmes baseados no futebol, envolvendo o espectador emocionalmente e, de quebra, demonstrando a triste realidade da devastada Alemanha pós-guerra.

Escrito pelo próprio Wortmann ao lado de Rochus Hahn, “O Milagre de Berna” utiliza a verdadeira história da conquista germânica como pano de fundo para nos mostrar os efeitos da guerra naquela sociedade, ancorando sua narrativa na família do pequeno Matthias Lubanski (Louis Klamroth), um garoto apaixonado por futebol que faz amizade com o jogador Helmut Rahn (Sascha Göpel) e vê sua família se transformar quando seu pai Richard (Peter Lohmeyer) retorna após 11 anos de prisão na Rússia. Até então, sua mãe Christa (Johanna Gastdorf) se virava para sustentar a família, cuidando de um bar onde também trabalhava sua irmã Ingrid (Birthe Wolter) enquanto seu irmão Bruno (Mirko Lang) conseguia uns trocados como músico. Os problemas se agravam com o início da Copa do Mundo de 1954 e a convocação de Rahn para a seleção alemã, que complica ainda mais a vida de Matthias.

Além da interessante sacada de narrar a conquista alemã sob a perspectiva de uma família sofrida no interior do país, o bom roteiro de “O Milagre de Berna” ainda conta com alguns diálogos interessantes, como no engraçado momento em que o jornalista Ackermann (Lukas Gregorowicz) explica para a esposa sobre como um repórter deve ser “neutro” na cobertura de um mundial. Ressaltando a falta de esperança e o estado de espírito daquele povo traumatizado pelos horrores da guerra através da família Lubanski (“Nunca seremos campeões nacionais”, diz o decepcionado garoto se referindo ao time de coração), a dupla de roteiristas escancara também os traumas provocados pelo estigma do nazismo, uma verdadeira sombra que infelizmente acompanharia os alemães por décadas.

Ressaltando esta melancolia em seus tons azulados e tristes, a fotografia de Tom Fährmann também ilustra este estado de espírito influenciado pela tragédia da guerra, contrastando este visual opressor com a beleza natural dos campos na chegada à Suíça – e repare como o sol brilha em solo suíço, indicando que o futuro da nação começaria a mudar a partir daquele evento. Aliás, toda a parte técnica de “O Milagre de Berna” é excepcional, como podemos notar na precisa reconstituição de época que nos transporta para a Alemanha e a Suíça dos anos 50, graças ao ótimo design de produção de Uli Hanisch e aos figurinos de Ursula Welter, que recriam as casas típicas alemãs, o estádio da final em Berna, os uniformes e a bola oficial do jogo com uma fidelidade impressionante.

Ackermann explica para a esposaMelancoliaSol brilha em solo suíçoImprimindo um ritmo interessante que constrói uma crescente expectativa pela grande decisão da Copa, o diretor e seu montador Ueli Christen ainda criam interessantes rimas narrativas, como quando a Alemanha vence a Turquia por 4 a 1 ao mesmo tempo em que garotos alemães jogam futebol num campinho ou quando Rahn foge da concentração e Matthias foge de casa, num momento simbólico que ilustra a empatia deles e evidencia o quanto o menino realmente via no jogador a figura paterna que tanto lhe fazia falta. Exatamente por isso, Wortmann emprega um close-up em Matthias quando sua mãe se prepara para ler a carta que anunciará a morte ou o retorno do pai, evidenciando a tensão do garoto e de toda a família. Neste instante, nota-se claramente que cada filho tem uma expectativa diferente para o que pode ouvir da boca da mãe, especialmente Bruno (Mirko Lang), que assumiu a responsabilidade do lar e tem forte ressentimento do pai, como fica evidente quando ele, já com o pai de volta, afirma que o jogador Rahn é “uma espécie de figura paterna para Matthias”.

Rahn que é interpretado por Sascha Göpel de maneira burocrática, mas ainda assim consegue criar empatia com o jovem Matthias. Sua trajetória serve também para nos mostrar a curiosa realidade dos jogadores de futebol da época, que tinham que trabalhar em outros empregos para se sustentar (“A seleção alemã pagará pelos dias de trabalho perdidos, em virtude da Copa do Mundo”). Já o repórter Paul Ackermann de Lukas Gregorowicz funciona como um bem vindo alívio cômico, transmitindo insegurança desde quando tenta convencer a esposa Annette (Katharina Wackernagel) a permitir que ele realize seu sonho e acompanhe de perto a seleção alemã no mundial de futebol – repare como ele hesita antes de contar pra ela que foi escolhido para cobrir a Copa.

Por falar na cobertura da Copa, as entrevistas coletivas do técnico germânico Sepp Herberger (Péter Franke) às vezes soam totalmente sem sentido, mas em outras ocasiões tem diálogos sensacionais, como quando descobrimos a origem da expressão “tempo Fritz Walter”, utilizada até os dias de hoje em gramados alemães. Interpretado de maneira sóbria por Knut Hartwig, Walter ficou marcado como o jogador símbolo da conquista alemã, liderando a equipe dentro de campo e cuidando do talentoso e desajuizado Rahn fora dele – algo que “O Milagre de Berna” também faz questão de mostrar através de uma conversa entre o capitão e o técnico da seleção.

Mãe se prepara para ler a cartaRahn e MatthiasSímbolo da conquista alemãVoltando a família Lubanski, Peter Lohmeyer também tem uma boa atuação como o pai de Matthias, demonstrando sua enorme dificuldade para se adaptar a vida após a guerra através de sua agressividade e do bloqueio que o impede de ter um bom relacionamento com os filhos. Pra piorar, as lembranças da guerra impedem até mesmo que ele trabalhe na mineradora, fazendo com que passe o dia inteiro com a família e crie uma tortura psicológica para todos. Esta complicada situação se arrasta até o jantar em que Richard tenta se reconciliar com a família, seguido pela chocante revelação da morte dos coelhos, que é também o ponto de partida para sua mudança, permitindo que ele sorrisse pela primeira vez após o conflito brincando com uma bola no campo. De fato, o futebol tem mesmo este poder de aproximar as pessoas e, após este momento, ele conversa com Matthias na cozinha e se reconcilia com o filho, numa reaproximação ressaltada até mesmo pelo zoom de Wortmann. No entanto, sua mudança tardia não impediu que Bruno fugisse paraa Alemanha Oriental; e a conversa entre os irmãos antes da fuga serve para ilustrar como o socialismo vendia o sonho de uma vida ideal.

Essencial para o sucesso da narrativa, o jovem Louis Klamroth consegue criar empatia com o público através do seu jeito simples que transforma Matthias num símbolo dos meninos sonhadores que encontram no futebol a sua grande fonte de alegria e inspiração. Obviamente, a boa relação entre o garoto e sua mãe colabora neste sentido, aproximando o personagem da plateia. Aliás, a melhor atuação de “O Milagre de Berna” fica por conta de Johanna Gastdorf como a mãe de Matthias, Christa Lubanski. Transmitindo toda a angústia de uma mulher que acompanha sua família lentamente se dissolvendo, ela mal consegue curtir o esperado momento da volta do marido, enfrentando uma gritante dificuldade de readaptação que fica evidente no dia em que ele retorna, quando eles mal se tocam antes de dormir. O tempo e a guerra esfriaram a chama da paixão e a distancia tornou-os estranhos ao ponto de Richard descer do trem e confundir a esposa com a filha Ingrid, num momento tocante em que o choro de Christa demonstra com clareza esta mistura de sentimentos.

Relação entre o garoto e sua mãeEles mal se tocamConfunde a esposa com a filhaOutro momento marcante acontece quando a senhora responsável pela limpeza do hotel aconselha o técnico da seleção alemã a fazer vista grossa quando Rahn chega bêbado na concentração, contrastando com o violento castigo de Richard em Matthias que contrapõe os distintos estilos de liderança de ambos. Mas o ponto alto de “O Milagre de Berna” é mesmo a grande final, preparada cuidadosamente pelo diretor desde quando engrandece Herberger na tela durante sua última preleção. Em seguida, Wortmann consegue algo raro no cinema ao transmitir muitas das sensações que sentimos assistindo um jogo de futebol, acertando também ao mostrar a reação das pessoas em diversos pontos do país, com as ruas vazias e os alemães se amontoando em bares ou em volta de rádios, mostrando como a Copa do Mundo mexe com a sociedade de forma geral.

Recriando a final da Copa com precisão, “O Milagre de Berna” respeita cada detalhe daquela emocionante partida e consegue criar a atmosfera perfeita através da entrada em campo, do hino nacional e do clima chuvoso, além de encenar com rigorosa fidelidade histórica as jogadas de gol. O único deslize é mesmo o tamanho do gramado, que mais parece um society do que um campo profissional, mas este é apenas um pequeno detalhe diante de tantas qualidades. Cruzando novamente os caminhos de Rahn e Matthias, Wortmann nos conduz ao grande momento do filme de maneira tão envolvente que nos pegamos vibrando como crianças quando Rahn marca o gol da virada germânica, fazendo o povo ir à loucura e os narradores perderem a “imparcialidade”, exatamente como acontece com muitos profissionais do ramo quando seu país está em campo na Copa. É a magia dos mundiais captada em celulóide com precisão.

Senhora aconselha o técnicoAlemães se amontoando em baresJogadas de golNarrando com competência um dos acontecimentos mais importantes da história alemã pós-segunda guerra, “O Milagre de Berna” aproveita para mostrar os efeitos daquele conflito na sociedade, trazendo um país em frangalhos e com o orgulho nacional ferido após o período negro do nazismo. Felizmente, aquele título mundial serviu para devolver ao povo o orgulho de ser alemão e hoje os germânicos formam uma das nações mais bem sucedidas e respeitáveis do nosso planeta. O futebol é mesmo um esporte poderoso.

PS: Comentários divulgados em 19 de Julho de 2010 e transformados em crítica em 20 de Dezembro de 2012.

O Milagre de Berna foto 2Texto atualizado em 20 de Dezembro de 2012 por Roberto Siqueira

Do futebol para o cinema

Para fazer a transição dos comentários sobre a Copa do Mundo para as críticas de filmes, nada mais adequado do que divulgar comentários sobre um filme que fale sobre a própria Copa.

Por isso, decidi divulgar comentários sobre “O Milagre de Berna”, um dos meus filmes favoritos sobre o tema. Entre hoje e amanhã divulgarei meus comentários sobre este belo filme.

Um abraço e até breve.

Texto publicado em 19 de Julho de 2010 por Roberto Siqueira

De volta à ativa

Após um mês de férias, apenas curtindo a Copa do Mundo e vez ou outra fazendo alguns comentários sobre a Copa no blog, voltarei à ativa na próxima semana, com novas críticas e posts relacionados à sétima arte.

Foi muito bom curtir mais um mundial de futebol. Gostei bastante do que vi e relaxei muito, curtindo meu bebê, minha esposa e minhas férias. Mas agora é hora de voltar ao batente. E felizmente, hora de ver mais filmes também! Será um prazer.

Um grande abraço e até breve.

Texto publicado em 17 de Julho de 2010 por Roberto Siqueira