Viajar

Viajar para o exterior é diferente. Não que viajar no Brasil não seja bom (viajar é sempre bom, e num país belíssimo como o nosso é melhor ainda). Ser diferente não quer dizer ser melhor. Muitas coisas são melhores, outras são piores, mas com certeza, conhecer outro país é algo diferente. Num outro país, cada pequeno detalhe é uma novidade, desde os produtos num supermercado de Paris até o semáforo para bicicletas em Amsterdã. E quando gostamos demais de um lugar, freqüentemente nos pegamos num sentimento nostálgico, de saudade destes pequenos detalhes, cheiros, sons, entre outras coisas.

Por causa desta nostalgia gostosa, decidi escrever aqui no blog sobre cada cidade que já conheci fora do país. Não vou determinar uma periodicidade para isto, mas escreverei sempre que tiver vontade (e inspiração). Também não vou determinar uma seqüência, mas pretendo escrever sobre cada uma das dezenas de cidades que já conheci, tanto na Europa quanto na América do Sul. Não quero me comprometer, mas provavelmente a primeira das cidades que escreverei será Praga (na verdade, já escrevi um pequeno texto sobre Versailles, mas bem diferente do que pretendo fazer agora). Praga, aliás, que é a cidade que mais me dá saudade (e em minha esposa também), talvez por ser a mais diferente quando comparada as nossas cidades. Ou simplesmente por ser a mais linda de todas elas.

Em breve inicio mais esta série no blog, que foge (eu sei) do assunto principal do Cinema & Debate, mas ainda assim, acho interessante e pretendo compartilhar com cada leitor deste espaço.

Espero que gostem.

Um abraço.

Texto publicado em 04 de Abril de 2010 por Roberto Siqueira

Os clássicos dos Mundiais

Desde o último dia 02 de Março os ótimos canais ESPN vêm mostrando todas as terças-feiras, às 21 horas (com reprise aos domingos, após o Bate-Bola), os grandes jogos na íntegra da história da Copa do Mundo, de 1970 pra cá. Todos os jogos têm uma narração diferenciada, com um olhar atual para aqueles grandes jogos, sempre acompanhado dos excelentes comentários da equipe de Jose Trajano. Além disso, durante os jogos temos uma série de informações da época, tanto no aspecto esportivo quando no aspecto político e social. Trata-se de uma excepcional oportunidade pra quem gosta de futebol e pra quem é mais novo, de acompanhar na íntegra (e isto quer dizer ver as qualidades e defeitos também) grandes jogadores e grandes seleções da história das Copas. Serve também para derrubar alguns mitos, como o de que o Brasil até poderia ter vencido a Laranja Mecânica em 74 ou o de que perdemos para a França em 98 por causa da convulsão do Ronaldo.

Pretendo comentar cada um destes jogos aqui no blog e inclusive já assisti alguns deles (estou gravando todos e assistindo conforme posso). E assim como já prometi comentar aqui todas as seleções da Copa antes do inicio do mundial, prometo também encerrar estes comentários sobre os clássicos dos mundiais antes do dia 11 de Junho.

Para quem tem curiosidade sobre a programação dos jogos, segue abaixo (informação retirada do site TV Magazine, que você pode conferir clicando aqui):

– Copa de 70 Final Brasil x Itália 02/03 na ESPN e 07/03 na ESPN Brasil
– Copa de 74 Brasil x Holanda 09/03 na ESPN e 14/03 na ESPN Brasil
– Copa de 74 Final Alemanha x Holanda 16/03 na ESPN e 21/03 na ESPN Brasil
– Copa de 78 Brasil x Argentina 23/03 na ESPN e 28/04 na ESPN Brasil
– Copa de 78 Argentina x Peru 30/03 na ESPN e 04/04 na ESPN Brasil
– Copa de 78 Final Argentina x Holanda 06/04 na ESPN e 11/04 na ESPN Brasil
– Copa de 82 Itália x Brasil 13/04 na ESPN e 18/04 na ESPN Brasil
– Copa de 86 Inglaterra x Argentina 20/04 na ESPN e 25/04 na ESPN Brasil
– Copa de 86 Final Argentina x Alemanha 27/04 na ESPN e 02/05 na ESPN Brasil
– Copa de 90 Itália x Argentina 04/05 na ESPN e 09/05 na ESPN Brasil
– Copa de 90 Final Alemanha x Argentina 11/05 na ESPN e 16/05 na ESPN Brasil
– Copa de 94 Final Brasil x Itália 18/05 na ESPN e 23/05 na ESPN Brasil
– Copa de 98 Final França x Brasil 25/05 na ESPN e 30/05 na ESPN Brasil
– Copa de 02 Final Brasil x Alemanha 01/06 na ESPN e 06/06 na ESPN Brasil
– Copa de 06 Final França x Itália 08/06 na ESPN e 10/06 na ESPN Brasil – único que não será no domingo na ESPN Brasil.

Espero que gostem.

Um abraço.

Texto publicado em 03 de Abril de 2010 por Roberto Siqueira

Dança do Pajé

Fazer o Arthur dormir não é tarefa fácil. Fominha igual ao pai, o pequeno não se contenta com vinte ou vinte e cinco minutos de “mamá”. Mesmo que durma nos braços da mamãe, após os dez minutinhos recomendados pelos médicos para colocar pra arrotar, normalmente ele acorda e chora, querendo mais. E é aí que entro em ação. Mestre no desenvolvimento de técnicas inovadoras para o controle emocional de bebês (pretendo escrever um livro sobre isto! ;)), já aprendi que imitar um choro de bebê, por exemplo, faz com que ele pare de chorar e preste atenção no louco que fica chorando ao lado dele. Não bastasse isso, ainda canto uma musiquinha (que não direi aqui para evitar o mico) pra comemorar minha vitória no “campeonato de choro” disputado entre o Arthur e o papai.

Acontece que nem sempre o choro dá resultado, e já perdi algumas disputas para o pequeno príncipe, o que me obrigou a trocar de tática. Foi quando surgiu então a “dança do pajé” (apelido carinhoso dado pela “nada” satírica mamãe dele). A dança consiste em pequenos movimentos de um lado para o outro, acompanhados de um pequeno sussurro, que segundo ela, parecem um índio dançando, pedido chuva ou algo assim. É claro que é um exagero da parte dela, pois a leveza e graça de meus movimentos são, obviamente, a razão da sonolência provocada no pequeno Arthur, que invariavelmente, dorme minutos depois da sensacional dança. É claro que não vou ensinar os passos da dança aqui, mas quem sabe um dia o livro saia e os pais pelo mundo afora aprendam a repetir minha fórmula de sucesso.

Brincadeiras à parte, volto a declarar que ser pai é algo maravilhoso e incomparável. Agradeço a Deus pela plena felicidade que estou vivendo.

Um grande abraço a todos.

Texto publicado em 01 de Abril de 2010 por Roberto Siqueira

CINEMA PARADISO (1988)

(Nuovo Cinema Paradiso)

 

Videoteca do Beto #52

Vencedores do Oscar #1988 (FILME ESTRANGEIRO)

Dirigido por Giuseppe Tornatore.

Elenco: Philippe Noiret, Jacques Perrin, Salvatore Cascio, Marco Leonardi, Antonella Attili, Enzo Cannavale, Isa Danieli, Leo Gullotta, Pupella Maggio, Agnese Nano, Leopoldo Trieste, Roberta Lina, Nino Terzo, Brigitte Fossey, Tano Cimarosa e Nicola Di Pinto.

Roteiro: Giuseppe Tornatore.

Produção: Mino Barbera, Franco Cristaldi e Giovana Romagnoli.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A história da linda amizade entre um garoto órfão de pai e um projecionista de cinema sem filhos se mistura à própria história do cinema italiano, nesta linda homenagem do diretor Giuseppe Tornatore ao cinema de uma forma geral, que espalhou lágrimas de cinéfilos por todo o mundo em 1988. Auxiliado por uma das mais lindas trilhas sonoras de um gênio e por atuações sensíveis e tocantes, “Cinema Paradiso” é uma realização única e incrivelmente emocionante.

Alguns anos depois do final da Segunda Guerra Mundial e antes da chegada da televisão, uma pequena cidade da Sicília, na Itália, foi o palco de uma grande amizade entre Salvatore “Totó” (Jacques Perrin), um garoto apaixonado por cinema, e Alfredo (Philippe Noiret), o projecionista do cinema local conhecido como “Cinema Paradiso”. As lembranças desta amizade marcante, provocadas pela notícia da morte de Alfredo, tomam conta dos pensamentos do agora bem sucedido cineasta Salvatore, que se prepara para voltar à cidade natal após trinta anos.

O diretor Giuseppe Tornatore conduz “Cinema Paradiso” com extrema elegância, através de belos movimentos de câmera, como um travelling que se inicia no crochê abandonado pela mãe de Salvatore (Antonella Attili, jovem, e Pupella Maggio, idosa) quando este finalmente retorna pra casa, passa pela janela e pelo taxi, até finalmente encontrar o rapaz abraçando sua mãe. Tornatore, aliás, abusa dos travellings e panorâmicas, explorando com competência as lindas paisagens da bela Itália, auxiliado pela direção de fotografia de Blasco Giurato. O diretor também conduz muito bem a tensa seqüência do incêndio no Cinema Paradiso, iniciada exatamente quando um tiro seria disparado no filme que passava. Em seguida, a pergunta “quem irá reconstruir o Cinema Paradiso?” é respondida com outro movimento de câmera, que aponta o napolitano vencedor da loteria. E ele realmente ergue o “Novo Cinema Paradiso”, dando inicio a uma nova fase no cinema da cidade, agora comandado por Totó, já que Alfredo foi gravemente ferido no incêndio e perdeu a visão. Em outro momento, um movimento simples, porém muito simbólico, acontece quando Salvatore tem a confirmação da morte do pai. Observe como Tornatore leva a câmera até um pôster de “…E o Vento Levou”, numa clara alusão à semelhança física entre o pai dele e Clark Gable que Alfredo havia comentado antes. Finalmente, Tornatore também utiliza o zoom na bela cena em que Alfredo conta a história do soldado que prometeu aguardar por cem dias pela amada, e que refletirá em outra linda seqüência entre Salvatore e sua paixão Elena (Agnese Nano).

Giuseppe Tornatore também demonstra muita competência na condução dos atores, a começar pela dupla que conduz a narrativa formada por Totó e Alfredo, mas interpretada por quatro atores diferentes. A relação de amizade entre eles se inicia com as discussões sobre a presença do garoto na sala de projeção e caminha até o mais puro sentimento de respeito e carinho que acompanha ambos por toda a vida. Para transmitir esta sensação, é essencial que exista química entre os personagens, e felizmente Philippe Noiret consegue estabelecer esta química com todos os atores que interpretam Totó em suas três fases, com destaque especial para a infância, vivida por Salvatore Cascio. O início da amizade entre Alfredo e o menino Totó é o que determina a empatia do público com a dupla. Também interpretam Salvatore os atores Marco Leonardi, na adolescência, e Jacques Perrin, já na fase adulta e responsável por momentos emocionantes do longa. Ao ouvir a notícia da morte de Alfredo, o já adulto Salvatore finge não ser nada demais, mas quando vira para o lado na cama, seu semblante demonstra claramente a importância daquele nome e o impacto da notícia. A chuva e o rosto triste mergulhado nas sombras deixam claro para o espectador que se trata de alguém realmente marcante. Com a ausência do pai, claramente sentida pelo garoto, é em Alfredo que Totó enxerga a figura paterna, e por isso o menino se apega àquela figura aparentemente ranzinza, mas encantadora em sua essência e com enorme coração. Ao mesmo tempo, Alfredo adota Salvatore como o filho que não teve e mesmo que inconscientemente, eles se completam. É compreensível, portanto, que vivendo numa pequena cidade italiana no período do pós-guerra, ainda sem televisão e órfão de pai, o menino enxergue no escuro do cinema (e na companhia de Alfredo) a oportunidade de fugir da realidade e viver um mundo de sonhos. Sua vida começou a mudar definitivamente quando ajudou Alfredo numa prova e conseguiu o direito de freqüentar a cabine de projeção. A partir dali, viveu um período mágico em sua vida. Já a vida de Alfredo mudaria completamente após a tragédia do incêndio no antigo Cinema Paradiso. Impossibilitado de fazer aquilo que mais amava, ele passa a ter ainda mais sensibilidade para perceber o mundo à sua volta. E a atuação de Philippe Noiret cresce ainda mais quando Alfredo fica cego, transmitindo ainda mais emoção e expondo com competência os sentimentos do personagem, como num sorriso que ele solta ao pressentir que Totó vai ver Elena dentro da igreja. A importância de Antonio na vida de Salvatore fica ainda mais evidente quando vemos este pedir para que ele “fique longe” e “não volte mais!”. Antonio entendia que ele poderia conseguir muito mais na vida indo para a cidade grande (“O mundo é seu!”), o que demonstra um amor verdadeiro, que não é egoísta e prefere a felicidade de Totó ao invés de mantê-lo preso ao seu lado – e no fundo, ele sabia que se pedisse, Totó ficaria. O rapaz cumpriu a promessa, ficando trinta anos sem voltar à cidade, e em sua volta, é visto com muito respeito por todos, realizando o sonho de Alfredo – e até mesmo a composição visual de Tornatore demonstra isto, filmando Salvatore de baixo pra cima, demonstrando grandeza.

A linda estória narrada conta também com o ótimo roteiro do próprio Giuseppe Tornatore, que abusa da metalingüística, fazendo diversas referências ao próprio cinema. Além disso, utilizando um linguajar despojado e com muitos palavrões (típico dos italianos), constrói de forma bastante consistente a amizade entre Totó e Alfredo, apresentando também os bastidores do trabalho de projeção dos filmes e revelando a paixão de ambos pelo cinema. O fascínio das pessoas pelo cinema, aliás, é notável durante toda a narrativa. Elas deixam compromissos para trás, brigam, aguardam por horas na porta, tudo para ver um bom filme. Interessante notar também o sorriso no rosto das crianças ao ver os filmes do gênio Charles Chaplin. Além disso, o roteiro explora muito bem o bom humor, como no engraçado método de censura do padre Adelfio (Leopoldo Trieste) para os filmes exibidos no Cinema Paradiso, onde todas as cenas de beijo são cortadas, provocando verdadeiros saltos na projeção que causam a imediata reação da platéia. Por outro lado, quando finalmente assistem uma cena de beijo, a reação de espanto e alegria é enorme. Outro momento de bom humor acontece quando Alfredo projeta um filme numa casa e o morador sai para ver a razão daquele alvoroço. Repare também como alguém grita que “a praça é nossa” durante a tentativa de cobrar ingresso, provocando a imediata reação do louco da praça, que responde com sua frase característica “a praça é minha!”.

Tecnicamente “Cinema Paradiso” também tem qualidades, a começar pela boa montagem de Mario Morra. Observe, por exemplo, o salto de muitos anos na narrativa durante uma conversa entre Totó e Alfredo e a elegante seqüência em que uma bicicleta vai e volta com os filmes na garupa, demonstrando o sacrifício daquelas pessoas para não deixar o público esperando dentro do cinema. A trilha sonora do gênio Ennio Morricone é um capítulo à parte. Absolutamente linda, a nostálgica trilha se confunde com o clima de saudade de todo o longa. O deleite visual fica por conta da boa direção de fotografia de Blasco Giurato, que explora a beleza das locações italianas, se contrapondo muito bem ao excelente uso da luz e das sombras nas cenas dentro do Cinema Paradiso. Já a direção de arte de Andrea Crisanti capricha na tipicamente italiana cidade de Giancaldo, com a praça central e as ruas de pedras. Além disso, podemos observar o bom trabalho de Crisanti no interior abandonado do Cinema Paradiso. E finalmente, merece destaque a ótima maquiagem de Maurizio Trani, notável em diversos personagens quando Totó retorna para a cidade.

A sensibilidade de Tornatore também brinda o espectador com algumas seqüências incrivelmente belas, como o primeiro beijo de Totó e Elena, auxiliado pela maravilhosa trilha sonora e pelos clarões da chuva que cai. Outro momento tocante acontece quando Salvatore retorna ao Cinema Paradiso. Os pequenos detalhes encontrados no abandonado cinema, como a boca do Leão de onde eram projetadas as imagens, são extremamente importantes pra ele, afinal de contas, fazem parte das lembranças de uma fase importante de sua vida. A vida é feita destas pequenas memórias e o longa retrata muito bem isto. Em outra cena, o choro das pessoas ao ver uma parte da história da cidade e da vida delas ir embora junto com a implosão do Cinema Paradiso é de cortar o coração. Difícil segurar as lágrimas. Assim como é praticamente impossível segurar as lágrimas na belíssima seqüência final, quando Totó assiste ao “filme proibido” deixado de presente por Alfredo, com pedaços de cenas de beijo de grandes filmes da história do cinema italiano.

“Cinema Paradiso” é uma linda homenagem à magia do cinema e por isso, encanta aos cinéfilos de forma singular. Além disso, quando vemos a estrutura do cinema sendo demolida, seguida pela emocionante seqüência final em que Salvatore finalmente vê os pedaços de filmes cortados por Alfredo, sentimos uma mistura de emoções, pois sabemos que ali está se despedindo não apenas o Cinema Paradiso, mas também uma fase áurea do cinema italiano, marcante para muitos cinéfilos e que entrou para a história como um dos melhores períodos da sétima arte. Por isso tudo, “Cinema Paradiso” comove, abordando temas universais de forma singela e inesquecível.

Texto publicado em 30 de Março de 2010 por Roberto Siqueira

No futebol, matar a bola é um ato de amor

Hoje um dos maiores jornalistas da história nos deixou. Acompanhei os comentários e textos de Armando Nogueira por muitos anos e posso dizer que poucos comentaram futebol (e o esporte de uma forma geral) como ele. Deixo uma pequena homenagem ao mestre, representante do que de melhor existiu na crônica esportiva e no jornalismo brasileiro, de uma forma geral.

Abaixo algumas das frases marcantes do mestre Armando Nogueira:

“No futebol, matar a bola é um ato de amor”
“Se Pelé não tivesse nascido homem, teria nascido bola”
“O futebol não aprimora os caracteres do homem, mas sim os revela”
“Para Garrincha, a superfície de um lenço era um latifúndio”
“A bola em si, ela é um elemento fascinante, é um brinquedo sedutor, é um brinquedo mágico, que adiciona poesia e lirismo na sua relação com o homem”
“Ademir da Guia, tens o nome, o sobrenome e a bola do craque”
“Arthur Friedenreich jogava Futebol com o coração no peito do pé. Foi ele quem ensinou o caminho do gol à bola brasileira”
“Até a bola do jogo pedia autógrafo a Pelé”
“O suor na pele do atleta são lágrimas que o corpo chora na alegria do esforço”
“Os momentos de violência, os momentos de brutalidade, são invariavelmente superados pelo gosto artístico de uma linda jogada”
Sobre a conquista do tricampeonato mundial em 1970, no México, Armando escreveu: “Choremos a alegria de uma campanha admirável em que o Brasil fez futebol de fantasia, fazendo amigos. Fazendo irmãos em todos os continentes”.

Descanse em paz Armando, o jornalismo agradece tudo que fez e já sente muito sua falta.

Texto publicado em 29 de Março de 2010 por Roberto Siqueira

OSCAR 2003: CHICAGO X O PIANISTA

Seguindo minha comparação entre o vencedor do Oscar de Melhor filme e aquele que eu considerei como a melhor produção do ano, chega à vez do ano de 2002 (Premiação em 2003). Gosto de “Chicago”. Acho um musical interessante, bem dirigido e atuado e com ótimos números musicais. Ainda assim, jamais daria o prêmio de Melhor Filme ao longa dirigido por Rob Marshall num ano em que tínhamos, por exemplo, “As Horas”, “O Senhor dos Anéis – As Duas Torres” e “Irreversível”. Além destas obras claramente superiores ao musical, tínhamos ainda “O Pianista”, justamente vencedor do prêmio de Melhor Diretor e que, inexplicavelmente, não venceu o prêmio de Melhor Filme.

Porque “O Pianista” é melhor?

Apesar do tema já ter rendido inúmeros grandes filmes na história do cinema, é sempre interessante assistir um bom longa sobre o holocausto. E “O Pianista” cumpre com perfeição sua proposta, mostrando de forma fria e direta a vida duríssima dos judeus (e todos os povos dominados) naquele período. Além disso, conta com uma atuação inspirada de Adrien Brody, uma fotografia impecável e, é claro, a excelente direção de Polanski. Apesar dos grandes filmes do ano – “As Horas”, em especial, merece muito destaque – não vejo nenhuma obra superior a “O Pianista”. Por isso, o longa dirigido pelo ótimo Roman Polanski levaria meu voto.

E pra você, qual o melhor filme de 2002 e por quê?

Um abraço e bom debate.

Texto publicado em 28 de Março de 2010 por Roberto Siqueira

OS INTOCÁVEIS (1987)

(The Untouchables)

 

Videoteca do Beto #51

Dirigido por Brian De Palma.

Elenco: Kevin Costner, Robert De Niro, Sean Connery, Charles Martin Smith, Andy Garcia, Richard Bradford, Jack Kehoe, Brad Sullivan, Billy Drago, Patricia Clarkson e Peter Aylward.

Roteiro: David Mamet, baseado em livro de Oscar Fraley, Eliot Ness e Paul Robsky.

Produção: Art Linson.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O estilo marcante e o visual refinado de Brian De Palma aparecem com força total neste tradicional confronto entre o bem e o mal, que conta como o agente do tesouro Eliot Ness conseguiu combater e prender o poderoso Al Capone, em pleno período da lei seca, na Chicago dos anos trinta. O ritmo empolgante, o impressionante visual e as marcantes atuações fazem de “Os Intocáveis” um filme muito interessante, que trouxe de volta os bons filmes de gângster ao cenário de Hollywood.

Nos anos trinta, a lei seca impedia o comércio de bebidas alcoólicas em Chicago, o que não quer dizer que este comércio não existia. Com praticamente todos os poderosos no bolso, Al Capone (Robert De Niro) mandava e desmandava na cidade. É quando o jovem agente Eliot Ness (Kevin Costner) é contratado para acabar com o reinado do terror e da corrupção e, ao lado do guarda de rua Jim Malone (Sean Connery), do contador Oscar Wallace (Charles Martin Smith) e do novato policial Giuseppe Petri (Andy Garcia), forma uma equipe de homens corajosos e incorruptíveis, conhecida como “os intocáveis”.

O trabalho técnico merece grande destaque em “Os Intocáveis”, conseguindo ambientar perfeitamente o espectador à época. A começar pela magnífica recriação da Chicago dos anos trinta, resultado do trabalho em conjunto da excelente Direção de Arte de William A. Elliott e dos figurinos de Giorgio Armani e Marilyn Vance. Desde os charmosos carros, passando pelo interior dos ambientes – como o luxuoso hotel Lexington onde Capone se hospeda – até os elegantes ternos, sobretudos e chapéus, a sensação é de estarmos em outra época. O toque final no apurado visual vem da boa direção de fotografia de Stephen H. Burum, que utiliza cores dessaturadas freqüentemente, lembrando em diversos momentos imagens antigas de jornal. Além disso, Burum também utiliza um tom vermelho, que remete ao sangrento destino de Malone, quando sua surpreendente fonte é revelada – Mike (Richard Bradford) – e diz que ele é um homem morto. Pra completar o grande trabalho técnico, ainda nos créditos iniciais que aparecem sob o reflexo da sombra do nome do filme, podemos notar a qualidade da empolgante trilha sonora do ótimo Ennio Morriconne, que apresenta diversas variações interessantes durante o longa. Repare como a trilha indica tensão quando Ness, antes de invadir o primeiro depósito, vê um homem suspeito e se aproxima dele, somente para descobrir que era um repórter. Já após a frustrada batida, quando o desolado agente sai vagando triste pelas ruas até chegar à ponte, a trilha melancólica indica a tristeza dele. Finalmente, quando “os intocáveis” conseguem a primeira batida com sucesso, a trilha triunfal eleva ainda mais o grande momento.

Além do trabalho técnico, De Palma precisou contar também com um elenco afiado, pois a empatia do público com o quarteto principal é essencial para que “Os Intocáveis” funcione. Felizmente, o elenco corresponde. A começar por Sean Connery, numa atuação excepcional, notável desde a primeira aparição na ponte, quando tem seu primeiro contato com Eliot Ness, até sua terrível morte, onde transmite perfeitamente a dor de Malone, massacrado pelos tiros e mal conseguindo falar com Ness antes de seu último suspiro. Quem também está muito bem é Kevin Costner, no papel do correto Eliot Ness. Determinado em prender Al Capone, Ness é um personagem complexo, que tenta cumprir a lei, mas sabe que apesar de não querer, poderá ter que usar métodos que a própria lei proíbe para cumprir seu objetivo. Afinal, Malone foi bem claro com ele no interessante diálogo dentro da Igreja (“Você quer pegar Capone? É assim que se pega Capone: ele puxa uma faca e você, uma arma. Ele manda um dos seus para o hospital, e você manda um dos dele pra cova”). Mas Ness não consegue conviver tranquilamente com este violento ambiente, ficando claramente desconfortável quando mata um dos gângsteres de Capone. Por outro lado, sabe da enorme responsabilidade que tem nas costas, e o peso de sua missão fica evidente quando conversa com a mãe da garota morta na explosão do bar – e Costner é competente ao transmitir a angústia e preocupação do personagem neste momento. O ator também se mostra muito solto no papel, por exemplo, quando questiona ironicamente no meio da rua e com as mãos na cintura o novo amigo Malone (“Porque está me ajudando?”). A química entre os dois amigos, aliás, é essencial para a empatia do público e ambos têm sucesso absoluto. Repare como, após ficar transtornado por matar um homem, Ness rapidamente se reanima com as palavras diretas de Malone. Neste momento, aliás, Malone comprova sua astúcia ao utilizar um homem morto como elemento chave para conseguir a informação que precisava de um gângster capturado.O terceiro integrante da exemplar equipe é muito bem apresentado ao espectador, demonstrando sua habilidade com a arma na mão e sua forte personalidade ao confrontar sem medo o veterano Malone. Mas Andy Garcia, se não compromete, também não consegue grande destaque na pele do exímio atirador Stone (ou Giuseppe Petri). Finalmente, o quarto integrante do grupo é Oscar Wallace, interpretado por Charles Martin Smith, que se sai bem no papel do contador que cai de pára-quedas na missão e acaba tendo papel fundamental, ainda que saia cedo de cena. Seu melhor momento acontece quando, depois de sair atirando em tudo que vê pela frente, encosta num barril onde a bebida jorra e, após olhar para os lados e confirmar que ninguém está vendo, toma uns goles do líquido proibido. Finalmente, a razão da existência desta equipe de homens honestos é justificada pela marcante presença de Robert De Niro como o poderoso Al Capone, impondo respeito toda vez que entra em cena (De Palma acentua seu poder ao filmá-lo constantemente em ângulo baixo). Seu cinismo exala na tensa seqüência em que fala sobre beisebol e trabalho em equipe, momentos antes de espancar com o taco de beisebol um dos integrantes da máfia, numa cena extremamente violenta. Em dois momentos, De Niro tem um duelo direto com Costner e ambos transmitem muita segurança no que falam. No primeiro deles, Ness, inconformado com a morte de Wallace, invade o hotel Lexington e chama Capone pra briga. No segundo, Capone, derrotado nos tribunais, é provocado por Ness e precisa de alguns capangas para segurá-lo, tamanha a fúria que sentia. Fechando os destaques do elenco, Patricia Clarkson vive a serena esposa de Eliot Ness, se transformando na estrutura familiar que ele precisa para desempenhar sua função com sucesso.

“Os Intocáveis” conta também com o bom roteiro de David Mamet que, além da boa construção dos personagens, é repleto de frases marcantes, como a citada orientação de Malone sobre como se faz para pegar Capone e as polêmicas declarações do poderoso mafioso. Além disso, a montagem de Gerald B. Greenberg e Bill Pankow mantêm a narrativa num ritmo ágil, permitindo, por exemplo, que o espectador saiba quem são os personagens principais, quais são as suas motivações e o que está em jogo de forma rápida e direta, além de colaborar decisivamente na melhor cena do filme, dentro da estação de trem. E finalmente, chegamos a Brian De Palma. Diretor com grande apreço pelo visual estilizado, permite que o espectador note sua inventividade logo no primeiro plano, quando vemos em plongèe (filmado por cima) o poderoso Al Capone rodeado de jornalistas numa barbearia dizendo que “existe violência em Chicago, mas não vem de mim”. Em seguida, um lento travelling nos leva à porta de um bar onde uma pequena garota está entrando. A recusa do dono do bar em comprar cerveja contrabandeada, a presença da pequena garota e uma suspeita maleta “esquecida” por um gângster são os ingredientes de um início explosivo, que desmente logo de cara as palavras de Capone. O espectador sabe, a partir deste instante, do que o mafioso é capaz. Por isso, quando um gângster ameaça a família de Ness na porta da casa dele, o desespero do agente ao subir as escadas é compartilhado com o espectador, que leva um pequeno susto ao ver a cama vazia, acalmando-se com o movimento de câmera para a direita que mostra a filha dele. O diretor, aliás, abusa dos movimentos “não convencionais”, como a câmera que circula a mesa com os quatro intocáveis ou o travelling que sai da janela onde Ness e Wallace conversam sobre o imposto de Capone e revela que eles estão num avião. Em outro momento, a câmera funciona como o ponto de vista do invasor da casa de Malone, deixando o espectador grudado na cadeira até o violento desfecho da cena. De Palma é competente também na condução de seqüências espetaculares, como o flagra na divisa entre os EUA e Canadá, onde – embalada pela ótima trilha sonora – a montagem alterna muito bem entre os diversos planos, tornando a seqüência ainda mais empolgante. E, obviamente, demonstra seu talento na melhor cena do longa, durante a espetacular seqüência na estação de trem (uma bela homenagem a “O Encouraçado Potemkin”, de 1925). A câmera lenta mostra em detalhes o show orquestrado por De Palma, com o carrinho do bebê lentamente descendo as escadarias enquanto os gângsteres trocam tiros com Ness e Petri, num balé perfeito que é puro cinema.

Apesar do clima tenso, “Os Intocáveis” não é carregado dramaticamente. Mesmo assim, não deixa de ter cenas extremamente tocantes e tristes, como a morte de Wallace, que escancara de vez a corrupção da polícia de Chicago, e a atordoante morte de Jim Malone. Por outro lado, as empolgantes intervenções do grupo no tráfico de bebidas e o grande final garantem a sensação de satisfação ao espectador. A seqüência final, aliás, não poderia ser menos do que sensacional, iniciando quando Ness, agora poderoso após conseguir o julgamento, aparece gigante na tela ao sair da côrte (De Palma também utiliza um ângulo que o engrandece na tela). O inteligente roteiro utiliza o fósforo (“1634 Rancine”) como forma de indicar para Ness quem matou Malone (num artifício chamado pista e recompensa, que normalmente agrada muito ao espectador), dando início a outra ótima perseguição, ainda que tenha pequenos exageros (Ness erra um tiro a meio metro). E novamente, o estilo marcante de Brian De Palma aparece, quando após empurrar Nitti (Billy Drago), a câmera faz um movimento interessante buscando Ness em cima do prédio. O empolgante final, com a troca do júri e a prisão de Capone, completa a perfeita conclusão da narrativa.

Impecável tecnicamente, “Os Intocáveis” conta de maneira muito interessante como o poderoso Al Capone viu seu império cair diante do determinado agente Eliot Ness. O refinado estilo visual de seu diretor e suas grandes atuações fazem com que este seja um grande momento do cinema nos anos oitenta, explorando de maneira divertida um gênero normalmente mais pesado e mesmo assim, conseguindo sucesso absoluto.

Texto publicado em 25 de Março de 2010 por Roberto Siqueira

Curso de Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica em São Paulo com Pablo Villaça

Pessoal,

Para todos aqueles que tiveram interesse pelo curso que fiz com o crítico de cinema Pablo Villaça, ele estará novamente em São Paulo em Maio para formar uma nova turma (para ler detalhes do curso, clique aqui). O próprio Pablo deu mais informações do curso em seu blog e se quiser conferir também, clique aqui. Finalmente, se quiser ouvir o áudio do curso dele, divulguei os links neste post.

Como disse na última vez em que ele veio, recomendo o curso, é nota 10!

Abraço.

Texto publicado em 24 de Março de 2010 por Roberto Siqueira

O ÚLTIMO IMPERADOR (1987)

(The Last Emperor)

 

Videoteca do Beto #50

Vencedores do Oscar #1987

Dirigido por Bernardo Bertolucci.

Elenco: John Lone, Joan Chen, Peter O’Toole, Ying Ruocheng, Victor Wong, Dennis Dun, Ryiuchi Sakamoto, Maggie Han, Ric Young, Vivian Wu, Cary-Hiroyuki Tagawa, Jade Go, Henry O, Richard Vuu, Tsou Tijger e Tao Wu.

Roteiro: Mark People e Bernardo Bertolucci.

Produção: Jeremy Thomas.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

“O Último Imperador” é um deleite visual, enriquecido pelos fatos históricos que narra e pelo belo estudo de personagem que traz. O diretor Bernardo Bertolucci conta a trajetória de Pu Yi, o último imperador da China, que acompanhou praticamente de camarote durante toda sua vida as diversas etapas fundamentais da história recente chinesa, dentre elas o fim da dinastia Ching e a instauração da primeira república chinesa (de Sun Ya-Sem), a invasão japonesa, a II Guerra Mundial e finalmente, a fundação da República Popular da China. Durante este processo, aprendeu que a primeira etapa de sua vida nada mais era do que uma prisão de luxo e viu crescer dentro de si a sede pelo poder, chegando ao fundo do poço quando participou da ocupação japonesa em sua terra natal – quando foi transformado em imperador-marionete da Manchúria – fato este que resultou em sua prisão como traidor da nação.

Aos três anos de idade, Pu Yi (John Lone) foi declarado Imperador da China e passou a viver enclausurado na Cidade Proibida até ser deposto pelo governo revolucionário, já com 24 anos, quando finalmente pode conhecer o mundo fora daqueles muros. Passou então a buscar obsessivamente o poder, chegando ao ponto de colaborar com a invasão japonesa da Manchúria, em troca de ser nomeado Imperador da região. Capturado por soviéticos, foi devolvido à China e feito prisioneiro político, sendo libertado somente no fim de seus dias.

Bernardo Bertolucci conduz com competência a longa trajetória de Pu Yi, criando belíssimos planos, como toda a linda cerimônia de nomeação de Pu Yi como Imperador, ainda com 3 anos de idade. O diretor também faz interessantes movimentos de câmera, como o lento travelling que passa pelo Imperador prostrado no chão ao tentar escutar de onde vem o barulho, sobe até o alto dos telhados e volta para Johnson (Peter O’Toole), momentos antes do jovem Pu Yi dizer que aprova o protesto dos estudantes lá fora. Bertolucci alterna com competência entre os muitos closes no rosto do imperador, realçando suas reações, e os planos gerais que demonstram a qualidade do trabalho técnico do longa, explorando muito bem a beleza das locações, como a própria arquitetura da Cidade Proibida. Repare como no plano em que Pu Yi se deita com suas duas mulheres, o lençol é tomado pelas cores quentes e o fogo daqueles corpos lentamente se mistura ao fogo dos depósitos. Finalmente, um pequeno travelling chama a atenção, quando o velho Pu Yi, ao lado de dezenas de bicicletas, olha fixamente para algo que é revelado segundos depois pelo movimento de câmera de Bertolucci, simbolizando uma nova etapa na vida dos chineses, já invadidos pelas famosas bicicletas que enchem as ruas de Pequim.

Bertolucci assina também o roteiro (auxiliado por Mark People), misturando importantes fatos históricos do período em que se passa a narrativa aos significativos efeitos provocados em Pu Yi por sua infância trágica, ainda que luxuosa, que fizeram do jovem imperador um refém do poder e do conforto pelo resto de sua vida. Desta forma, os fatos históricos servem como pano de fundo para um interessante estudo de personagem. O único escorregão acontece na forma maniqueísta com que retrata os japoneses, que parecem ser todos gananciosos e cruéis (“A Ásia nos pertence!”). Bertolucci divide ainda a narrativa em dois períodos. O primeiro deles se inicia com a chegada dos prisioneiros na fronteira entre Rússia e China e aborda a vida do Imperador Pu Yi após sua prisão, enquanto o segundo mostra sua trajetória como imperador desde os três anos de idade até o momento em que foi capturado pelos russos quando fugia para o Japão.

O apuro técnico de “O Último Imperador” é espetacular. Observe a caprichada Direção de Arte do trio Maria-Teresa Barbasso, Gianni Giovagnoni e Gianni Silvestre, responsável pelo notável contraste entre o luxo da vida do Imperador dentro da cidade proibida e a sofrida vida dentro da prisão. A direção de fotografia de Vittorio Storaro é esplêndida, claramente refletindo a divisão da narrativa através da cor que predomina na tela. Durante toda a seqüência na prisão o verde é a cor predominante, adotando um tom frio e obscuro que simboliza a esperança praticamente morta dentro do imperador, que tenta até mesmo o suicídio. O vermelho chinês predomina toda a trajetória do imperador até seu encontro com os japoneses, simbolizando a influência das tradições chinesas em sua vida, aprisionado na Cidade Proibida. A partir do momento em que inicia sua relação com os japoneses, o azul passa a predominar a tela, simbolizando a frieza de Pu Yi ao “vender” sua terra natal em troca do possível poder que finalmente poderia desfrutar, já que até então, Pu Yi havia sido o ator principal de uma peça sem platéia. Também se destacam os impecáveis figurinos de James Acheson, que recriam com precisão as luxuosas roupas chinesas tanto do imperador, como da imperatriz e de praticamente todos os integrantes da Cidade Proibida, criando um interessante contraponto com os uniformes sem vida da prisão que refletem a tristeza daqueles homens condenados. A montagem de Gabriella Cristiani faz uma interessante transição no tempo durante a visita da mãe de Pu Yi, ao dizer que faz sete anos que ele não vê sua mãe. Também transita elegantemente entre as duas narrativas, como quando Pu Yi diz aos seus interrogadores que queria reformas e em seguida, vemos a cena em que ele corta seu cabelo. A evolução da infância e adolescência de Pu Yi também segue num bom ritmo, conseguindo mostrar diversos fatos marcantes sem jamais soar cansativo. O problema do trabalho de Cristiani aparece na etapa final da narrativa, onde parece estender demais algumas cenas, como a passeata em que Pu Yi tenta ajudar um conhecido da prisão, que é encerrada por uma dança desnecessária de garotas chinesas. Este pequeno problema acaba tornando o filme mais longo que o necessário, mas nada que comprometa o excelente resultado final da obra. Também merece destaque a maquiagem no velho Pu Yi e a trilha sonora tipicamente chinesa que ambienta perfeitamente o espectador.

As fortes e rígidas tradições chinesas tem presença marcante no longa, como podemos perceber no momento em que o jovem Imperador necessita de óculos (“Imperadores não usam óculos!”), no método de escolha da Imperatriz e até mesmo nos cabelos de Pu Yi. Esta rigidez provoca ainda mais o sentimento de revolta no garoto, que começa a se rebelar quando ouve a manifestação de estudantes (“Os estudantes estão certos. Eu também estou bravo!”), e que resulta na quebra total dos costumes chineses por parte dele (“Se eu fosse monarca, mudaria tudo. É humilhante não poder escolher”, referindo-se a escolha de sua esposa). Pu Yi passa a usar óculos e corta o cabelo, numa cena que arranca sorrisos sutis de Johnson, dele próprio e da Imperatriz. Por outro lado, o choque cultural começa a atrapalhar a relação do trio quando estes entram em contato com os costumes do ocidente e a consorte (Vivian Wu) se revolta, dizendo que quer o divórcio. Na infância perdida (“Nunca vi outra criança”), seus únicos momentos de diversão se resumiam às brincadeiras com os eunucos, o que explica sua enorme alegria ao correr pela cidade com o irmão mais novo. Quando pergunta ao tutor se George Washington tem um carro (“Eu queria ter um carro”), Pu Yi começa a mostrar interesse pelo mundo lá fora, ratificado pelo seu deslumbre diante dos carros – que contrastam com os camelos que aparecem no plano anterior – momentos antes de deixar pela primeira vez a Cidade Proibida. Personagem central da narrativa, Pu Yi é interpretado por quatro atores diferentes. O primeiro deles é Richard Vuu, ainda quando Pu Yi era uma criança de três anos. Tsou Tijger, o segundo, vive a infância do imperador. Extremamente caricato, claramente é o mais fraco de todos. Já a terceira fase de sua vida é interpretada com competência por Tao Wu. Nesta importante fase, Pu Yi começa a se rebelar de verdade e Tao Wu transmite o sentimento de revolta do jovem com precisão, além de demonstrar com sutileza sua felicidade ao despir o rosto da esposa pela primeira vez e ver que se tratava de uma bela jovem. O mesmo sorriso sutil aparece como sinal de rebeldia quando corta seu cabelo diante dos eunucos. Finalmente, John Lone é o melhor de todos interpretando a fase adulta de Pu Yi. Seu olhar determinado, a fala confiante e o ar superior dão o tom do ditador que Pu Yi pensava ser. Nesta etapa de sua vida, já era um homem totalmente dominado e fascinado pelo poder, como fica evidente quando diz que irá construir seu próprio país ao falar da invasão da Manchúria. Observe como até mesmo na prisão Pu Yi ainda se sente poderoso, mandando e desmandando até o momento em que é obrigado a fazer as tarefas e aceitar sua nova realidade. Sua esposa, interpretada corretamente por Joan Chen, se cansa da sede de poder de Pu Yi e expõe todo seu sentimento de desgosto ao comer ópio na festa de comemoração do domínio japonês sobre a Manchúria. Com a amargura que toma conta de sua consciência, ela inicia seu triste processo de decadência, consolidado quando tem seu bebê misteriosamente morto e é levada pelos japoneses, retornando algum tempo depois, totalmente degradada fisicamente. Finalmente, o excelente Peter O’Toole tem uma atuação de destaque como o sóbrio tutor britânico Flemming Johnson. Elegante, sempre com a voz firme e a fala pausada, transmite uma tranqüilidade incrível quando está em cena, servindo como ponto de equilíbrio para a criação daquele jovem solitário. Destaque para sua reação espontânea quando Pu Yi pergunta por que ele nunca foi casado.

Em dois momentos cruciais da narrativa, Pu Yi se sente impotente em frente aos portões que se fecham. Mesmo com todo o poder que pensava ter, ele não era capaz de sair do local em que estava. Primeiro, o jovem sai pedalando sua bicicleta para ver sua mãe morta e se depara com os portões da Cidade Proibida. Suas tentativas frustradas de ordenar a abertura dos portões escancaram seu falso poder. Posteriormente, Pu Yi se reencontrará com esta situação quando corre para evitar a saída de sua esposa numa ambulância, mas da mesma forma, é impedido em frente aos enormes portões da embaixada japonesa. A realidade é escancarada de vez no triste final, quando o último imperador chinês volta ao local onde foi “consagrado” e aprisionado, agora como um turista comum que paga normalmente pelos ingressos. Sua visita aos interiores da Cidade Proibida é repleta de nostalgia, e a bela cena final, com a guia de turismo dando informações sobre o local e sobre Pu Yi, encerra corretamente a narrativa.

Esplêndido em todos os aspectos técnicos, que resultam num visual absolutamente deslumbrante, “O Último Imperador” entrega ainda uma narrativa interessante, que utiliza os fatos históricos para nos mostrar a vida do trágico Pu Yi de forma bastante humana e tocante. Dirigido com competência por Bertolucci, o longa demonstra os efeitos da triste infância em toda sua vida, onde não passou de uma marionete de luxo, sem jamais chegar a ocupar um lugar de verdadeira importância entre os poderosos da época. Felizmente, o tempo se encarregou de reservar-lhe um lugar de respeito na história chinesa.

Texto publicado em 23 de Março de 2010 por Roberto Siqueira

Imagens

Quem acompanha as minhas críticas da Videoteca do Beto sabe que desde “Taxi Driver” (Videoteca do Beto #16) adotei o costume de espalhar imagens que normalmente têm alguma relação com o texto, o que além de fortalecer meus argumentos, claramente dá um visual mais interessante ao blog. Exatamente por isso, decidi incluir imagens também nas 15 críticas anteriores ao novo procedimento, buscando sempre agregar e melhorar o conteúdo do Cinema & Debate. Obviamente, não vou alterar nenhuma palavra das críticas já divulgadas, por considerar que tal atitude seria uma total falta de respeito com os leitores. Quero deixar claro, portanto, que simplesmente vou incluir as imagens, mas os textos permanecerão os mesmos do dia de divulgação.

Sempre que atualizar uma destas críticas, informarei aos leitores. E pra começar, informo que já inclui imagens na crítica de “…E o Vento Levou” (Videoteca do Beto #1). Se quiser conferir, basta clicar aqui.

Um abraço.

Texto publicado em 20 de Março de 2010 por Roberto Siqueira