OS DEZ MANDAMENTOS (1956)

(The Ten Commandments)

 

Videoteca do Beto #110

Dirigido por Cecil B. DeMille.

Elenco: Charlton Heston, Anne Baxter, Yul Brynner, Edward G. Robinson, Yvonne De Carlo, Vincent Price, Richard Farnsworth, Debra Paget, John Derek, Cedric Hardwicke, Nina Foch, Martha Scott, Judith Anderson, John Carradine, Olive Deering, Douglass Dumbrille e Robert Vaughn.

Roteiro: Eneas McKenzie, Jesse Lasky Jr., Jack Gariss e Fredric M. Frank, baseado nos livros de J.H. Ingraham, A.E. Southom e Dorothy Clarke Wilson.

Produção: Cecil B. DeMille.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Poucos livros têm tanto potencial cinematográfico como a Bíblia Sagrada. Recheado de histórias grandiosas, o livro sagrado cristão é um prato cheio para cineastas ousados, que podem projetar na tela a sua visão sobre aqueles acontecimentos. Por outro lado, histórias bíblicas podem causar aversão em pessoas não cristãs e, nas mãos de diretores errados, podem se transformar em mera propaganda religiosa. Não é o caso de “Os Dez Mandamentos”, épico grandioso e muito bem conduzido por Cecil B. DeMille, que narra à trajetória de Moisés desde que foi colocado ainda bebê num rio até o momento em que lidera a libertação de seu povo do Egito.

Após o Faraó decretar a morte de todos os bebês do sexo masculino, o recém-nascido Moisés (Charlton Heston) é deixado nas águas de um rio, dentro de um cesto, e encontrado por uma princesa egípcia. Já adulto, ele disputa a atenção da jovem Nefretiri (Anne Baxter) com Ramsés (Yul Brynner), o filho do Faraó e herdeiro do trono. Protegido até mesmo pelo Faraó, Moisés vê tudo mudar quando sua verdadeira origem é revelada e ele é condenado à morte. Ramsés, no entanto, não o mata, preferindo expulsá-lo do Egito. Anos depois, Moisés tem um encontro com Deus e descobre sua missão, voltando para o Egito para libertar seu escravizado povo.

Baseado nos livros bíblicos, “Os Dez Mandamentos” explora muito bem o enorme potencial da história original graças à condução precisa de DeMille, que tinha tanto apreço pela obra que decidiu até mesmo fazer a introdução da narrativa pessoalmente. O roteiro acompanha todas as etapas da vida de Moisés, o que torna a narrativa bastante extensa, ainda que jamais deixe de ser envolvente, graças também ao bom ritmo da montagem de Anne Bauchens. Auxiliado pela direção de fotografia de Loyal Griggs, o diretor cria um universo bastante colorido e vivo, explorando muito bem as belas paisagens para criar planos marcantes, como na linda marcha dos camelos pelo deserto de Sur e na impressionante imagem do anjo destruidor que desce em forma de fumaça para matar os primogênitos egípcios. E se esteticamente o diretor se sai muito bem, é na criação de momentos imponentes que a direção segura de Cecil B. DeMille se destaca, explorando muito bem o visual magnífico das locações e a impressionante quantidade de figurantes, como no plano geral que acompanha a saída dos israelitas do Egito. Neste e em outros momentos, como a famosa seqüência no mar vermelho, fica evidente a excelente condução da mise-en-scène do diretor, que coordena aquele enorme grupo de pessoas com eficiência.

Eficiente também é a citada montagem de Anne Bauchens, ainda que hoje o filme soe pouco comercial devido a sua longa duração e alguém possa argumentar que algumas cenas poderiam ser cortadas. Pessoalmente, me senti sugado por aquele universo e aproveitei cada minuto da jornada sem notar o tempo passar. E isto acontece também porque os excelentes figurinos (crédito para Arnold Friberg, Edith Head, Dorothy Jeakins, John Jensen e Ralph Jester), com as armaduras dos soldados e o manto de Moisés, por exemplo, e a direção de arte (crédito para Albert Nozaki, Hal Pereira e Walter H. Tyler), que recria cenários imponentes como os palácios e trabalha em pequenos detalhes como as carroças e as armas, ambientam perfeitamente o espectador. Além disso, a montagem de Bauchens indica com inteligência os saltos da narrativa evitando que ela se torne episódica, por exemplo, quando o filho pequeno de Moisés surge e nos mostra que se passaram alguns anos desde que ele saiu do Egito.

Embalado ainda pela trilha sonora triunfal de Elmer Bernstein, “Os Dez Mandamentos” é recheado de cenas marcantes e grandiosas, como o momento em que Deus fala pela primeira vez com Moisés, a própria inscrição na pedra dos mandamentos e a descida de Moisés do monte, irado diante de um povo infiel, que havia acabado de presenciar um milagre divino e já tinha se entregado a outro ídolo – e vale citar o belo momento em que o fogo se funde ao bezerro de ouro, numa transição elegante de planos. A conversa com Deus, aliás, revela também os bons efeitos visuais, que funcionam perfeitamente na maior parte do tempo, como quando os cajados são transformados em cobras. Mesmo que hoje soem datados, até mesmo os efeitos menos realistas – como o fogo que segura os egípcios do outro lado do mar – eram muito eficientes na época e não comprometem a narrativa. E se os efeitos visuais parecem envelhecidos em alguns momentos, o design de som e os efeitos sonoros continuam simplesmente espetaculares, destacando-se na fuga do Egito e na passagem pelo mar vermelho.

Já na condução do elenco DeMille não é tão feliz, extraindo atuações irregulares que oscilam entre momentos bons e outros de “overacting”. Heston, por exemplo, jamais foi um ator sutil e, ainda que tenha suas limitações, se sai bem como Moisés, mostrando-se inicialmente viril e retratando muito bem o envelhecimento do personagem com o passar dos anos. Sempre seguro, ele passa a demonstrar cansaço no decorrer da narrativa, através da voz e da forma lenta de caminhar, o que, auxiliado pela excelente maquiagem, da uma boa noção da degradação física de Moisés. Por outro lado, o grande Edward G. Robinson cria um Dathan irregular e até mesmo unidimensional, chegando a ser irritante em sua resistência diante dos milagres divinos. Anne Baxter também oscila bastante, mas cria uma Nefretiri insinuante e decidida, que consegue persuadir Ramsés em muitos momentos. Interpretado por Yul Brynner, Ramsés é duro e autoritário sempre que está em cena, também pela voz firme do ator e por sua postura, que impõe respeito na pele do grande vilão da narrativa (repare a sintonia entre o deus Sokar e as roupas pretas de Ramsés, indicando a aura sombria do personagem).

Envolta em magia, a conversa entre Moisés e Deus no monte Sinai determina sua volta para libertar o povo no Egito. Respeitado pelo pai de Ramsés, que chega a pronunciar seu nome antes de morrer, o hebreu volta a terra em que foi criado, desta vez para retirar seu povo escravo de lá. “Egípcio ou hebreu, sou o mesmo Moisés”, afirma em certo momento, mas isto não era verdade. Ele estava mudado após a conversa no monte Sinai e agora sabia a sua missão na terra. E após Deus castigar o Egito com pragas, Ramsés finalmente se convence e liberta os hebreus, dando início a melhor seqüência de “Os Dez Mandamentos”, que começa com a gloriosa saída do Egito e chega ao seu grande momento diante do mar vermelho. Mesmo após tantos anos, a cena da abertura do mar ainda é impactante e prende a atenção do espectador de maneira impressionante. Os ótimos efeitos visuais, a trilha sonora e a forma como DeMille conduz a seqüência criam uma cena poderosa. Após este grande momento, Ramsés volta derrotado e é envolvido, ao lado de Nefretiri, por tons vermelhos no trono, simbolizando o inferno astral do casal. Mas nem mesmo este milagre amoleceria os corações do povo israelita, que ainda marcharia por 40 anos no deserto até alcançar a terra prometida.

Independente de sua crença, o espectador sai satisfeito com o belo espetáculo visual de “Os Dez Mandamentos”. E é justamente na força de suas grandes cenas que reside o sucesso da narrativa. Espetaculoso, Cecil B. DeMille sabia que a história de Moisés atrairia o grande público e conduziu com muito carinho este ousado projeto. Acabou conseguindo mais do que sucesso de público, entregando um filme que marcou a história do cinema.

Texto publicado em 26 de Agosto de 2011 por Roberto Siqueira

CREPÚSCULO DOS DEUSES (1950)

(Sunset Boulevard)

 

Videoteca do Beto #38

Dirigido por Billy Wilder.

Elenco: William Holden, Gloria Swanson, Erich von Stroheim, Nancy Olson, Fred Clark, Lloyd Gough, Jack Webb, Franklyn Farnum, Larry J. Blake, Chales Dayton, Cecil B. DeMille, Buster Keaton, H.B. Warner e Ray Evans.

Roteiro: Charles Brackett, D.M. Marshman Jr. e Billy Wilder.

Produção: Charles Brackett.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Os bastidores de Hollywood são escancarados diante do público nesta maravilhosa produção dirigida por Billy Wilder, que mistura com competência ficção e realidade. Os jogos de interesses, a forma como as estrelas que a própria Hollywood produz são abandonadas e esquecidas e o impacto que este abandono provoca nestas pessoas são retratados de forma singular em “Crepúsculo dos Deuses”. O longa mostra também como neste meio as pessoas podem se sujeitar a qualquer coisa em troca de sucesso, fama ou apenas uma vida confortável.

Joe Gillis (William Holden) é um roteirista praticamente falido que foge de credores que tentam recuperar seu veículo por falta de pagamento. Acidentalmente, acaba se refugiando numa decadente mansão, cuja proprietária chamava-se Norma Desmond (Gloria Swanson), uma estrela do cinema mudo há tempos longe da fama. Ao saber que Gillis é roteirista, Norma contrata-o para revisar o roteiro que ela escreveu, acreditando ser esta a oportunidade de devolvê-la ao estrelato. Diante desta chance dada pelo destino, Gillis decide aceitar a proposta, e passa a descobrir através de conversas com o mordomo Max (Erich von Stroheim) as razões para que Norma ainda se considere uma estrela, ao mesmo tempo em que desenvolve um carinho especial pela também candidata a roteirista Betty Schaefer (Nancy Olson).

“Crepúsculo dos Deuses” revela seu final logo na primeira cena, através de uma intrigante narração póstuma – descobriremos ser a voz de Gillis somente no terceiro ato – que mantém um tom de ironia e sarcasmo (“Pobre coitado! Sempre quis ter uma piscina”), numa seqüência que nos levará até o corpo de um homem morto numa piscina. Esta tomada, aliás, é um dos raros planos estilísticos de Wilder, que procura priorizar a condução firme da narrativa e sempre valorizou mais o roteiro que o aspecto visual em seus filmes. Em todo caso, neste plano Wilder tem o cuidado de não mostrar detalhadamente o rosto do jovem morto na água. Enquanto buscamos entender as razões daquele assassinato, a excelente montagem de Doane Harrison e Arthur P. Schmidt mantém o bom ritmo da narrativa, dividindo claramente os acontecimentos em três etapas. Primeiro observamos a busca de Gillis pelos dólares que precisa para saldar as dívidas. Depois, acompanhamos seu envolvimento com Norma (e a fortuna que ela trazia). E finalmente, seremos cúmplices de sua tentativa frustrada de largar aquela vida. Portanto, Gillis é o personagem central da narrativa e servirá de fio condutor para que Wilder explore ao máximo os bastidores da indústria de Hollywood, ao mesmo tempo em que estuda a fundo os efeitos do esquecimento e do distanciamento da fama na mente de uma estrela abandonada. Priorizar o roteiro, no entanto, não significa descuidar completamente do visual. A excepcional Direção de Arte de Hans Dreier e John Meehan capricha em cada detalhe, como é notável no interior da enorme e envelhecida mansão de Norma, e a fotografia escura (Direção de John F. Steinz) utiliza na maior parte do tempo ambientes fechados e cenas noturnas, refletindo o clima sombrio em que as ações se passam.

O momento de parar a carreira e deixar pra trás todo o glamour e fortuna que trazem é provavelmente o mais complicado na vida de qualquer artista. Olhando por outra perspectiva, é comparável ao momento em que jogadores de futebol, por exemplo, deixam os holofotes e penduram as chuteiras. Salvo raras exceções, deixar a atenção da mídia e o carinho do público pra trás é sempre doloroso para quem viveu a maior parte da vida lado a lado com o sucesso. No meio do cinema, ainda existe a possibilidade de continuar trabalhando, mesmo sem o glamour de outrora, até o fim de seus dias. Mas nem sempre foi assim. Na época da transição do cinema mudo para o cinema falado, muitos atores e atrizes perderam o emprego e deixaram, repentinamente, os holofotes da fama. Este era o caso de Norma Desmond. E conviver com a solidão imposta pela aposentadoria, enclausurada dentro de sua enorme mansão, não foi a melhor escolha para ela. Norma enlouqueceu, jamais aceitando a realidade, até por culpa de seu mordomo (e ex-marido, que também era diretor e a revelou para o mundo), que escrevia cartas e entregava pra Norma, como se fossem de seus fãs.

A grande atuação de Gloria Swanson como Norma Desmond tem uma explicação bastante especial (além do talento da atriz, é claro), já que ela própria era uma atriz inativa há vinte anos, que viveu seus dias de glória, assim como a personagem, nos tempos do cinema mudo. Até mesmo o filme que é exibido em sua mansão é verdadeiro (“Queen Kelly”, de 1929), e curiosamente, dirigido por Erich Von Stroheim, que em “Crepúsculo dos Deuses” interpreta (muito bem por sinal) o mordomo Max, também um diretor já aposentado. Exibir “Queen Kelly”, aliás, é bastante simbólico, pois este filme foi praticamente o responsável pelo fim da carreira de ambos. Convencida, direta, freqüentemente com olhar superior e rangendo os dentes, Norma é o retrato da auto-idolatria. Esta aparente autoconfiança, no entanto, escondia a enorme depressão que sentia por ter deixado os dias de glórias no passado e chegado ao fim de sua carreira (“Eu sou grande. Os filmes é que ficaram pequenos”). Seus gritos e maneirismos exagerados eram apenas uma forma de esconder a tristeza e melancolia que a afligia por ter sido esquecida pelo público, imprensa e pela própria Hollywood. Por isso, a grande cena do retorno de Norma aos estúdios da Paramount é ao mesmo tempo cômica e tocante. Ela se sente novamente uma estrela, mesmo que por apenas alguns segundos, antes de voltar à realidade novamente. Mas Norma nunca aceitou a realidade totalmente, preferindo viver a fantasia criada por seu mordomo, e até mesmo em seu último ato antes de ser presa, interpreta diante das tão sonhadas câmeras a personagem que sonhava viver em sua volta ao cinema (“Sr. DeMille, estou pronta para o meu close”).

William Holden está confortavelmente bem como Joe Gillis, o roteirista desconhecido (“As platéias não pensam em quem escreve o filme. Pensam que os atores fazem o que dá na cabeça”) que encontra em Norma a chance de ter a fortuna que sonhava. “Os melhores roteiros foram escritos de barriga vazia”, diz seu agente durante a perseguição de Gillis aos dólares que tanto necessitava para manter seu carro. Desesperado, ele aceitaria qualquer coisa, e acaba caindo nos braços de Norma. Irônico em diversos momentos (“Ela leu o roteiro?”, pergunta ao ouvir Norma falar sobre uma astróloga e horóscopos), Gillis sabia que aquela era a chance que tinha de conviver com o luxo e a vida confortável que Hollywood prometia e por isso, aceitou viver aquela mentira. Mas até o momento em que faz esta revelação à Betty Schaefer (“Fiz um contrato de longo prazo”), interpretada com muito charme por Nancy Olson, não sabemos exatamente quais eram seus pensamentos e sentimentos, especialmente por causa do pequeno romance que vive com a garota. Esta ambigüidade dos personagens, também presente em Schaefer – que apaixonada por Gillis, desiste por um instante de se casar com o amado noivo Artie Green (Jack Webb) – é um dos vários pontos positivos do excelente roteiro de Charles Brackett, D.M. Marshman Jr. e Billy Wilder, que espalha por toda a narrativa uma série de frases marcantes (muitas já citadas ao longo desta crítica), além de abusar da metalingüística. A ambigüidade de Gillis exibe outra face quando após dispensar Betty, ele volta somente para fazer as malas e largar tudo àquilo que acabou de dizer ser a razão de sua estadia na mansão. Completando o elenco, o diretor Cecil B. DeMille (“Os Dez Mandamentos”) interpreta a si próprio e seu reencontro com Norma é extremamente simbólico, já que assim como no longa, DeMille e Swanson haviam trabalhado juntos nos tempos de glória da atriz na vida real e aquela era realmente a volta dela aos estúdios da Paramount. Em outra cena, Norma joga cartas com três atores aposentados do cinema mudo, chamados de “bonecos de cera” por Gillis. Os três (Buster Keaton, H.B. Warner e Ray Evans) também eram atores verdadeiros realmente aposentados e que interpretam a si próprios.

Como podemos notar, “Crepúsculo dos Deuses” exerce a metalingüística com extrema competência para criticar com acidez o mundo dos sonhos de Hollywood, mostrando sem pudor o que significou para a capital do cinema mundial aposentar suas estrelas do cinema mudo. Conduzido por um roteiro extremamente consistente e corajoso que ele próprio ajudou a escrever, Billy Wilder entrega ao espectador uma obra sombria, com gosto amargo, que desde os primeiros minutos demonstra sua enorme qualidade, e em seu trágico e melancólico final confirma a expectativa, se firmando como uma obra de primeira grandeza.

Texto publicado em 25 de Janeiro de 2010 por Roberto Siqueira