MAGNÓLIA (1999)

(Magnolia)

5 Estrelas

 

 

obra-prima 

Videoteca do Beto #228

Dirigido por Paul Thomas Anderson.

Elenco: John C. Reilly, Julianne Moore, William H. Macy, Tom Cruise, Philip Baker Hall, Philip Seymour Hoffman, Jason Robards, Alfred Molina, Melora Walters, Michael Bowen, Ricky Jay, Jeremy Blackman, Melinda Dillon, Luis Guzmán, Felicity Huffman, Henry Gibson, Michael Murphy, April Grace, Don McManus e Patton Oswalt.

Roteiro: Paul Thomas Anderson.

Produção: Paul Thomas Anderson e JoAnne Sellar.

Magnólia[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Alguns filmes precisam de um tempo para serem absorvidos em sua plenitude pelo espectador. Este tempo pode ser aqueles instantes em que você repassa o filme na cabeça tentando encontrar possíveis furos no roteiro, horas em que você reflete sobre as questões levantadas ou até mesmo dias ou meses em que tenta formar uma teoria que interprete sua mensagem. Pois a obra-prima “Magnólia” se encaixa em todas estas possibilidades e ainda oferece mais, permitindo ao espectador desfrutar novos e deliciosos detalhes em cada revisita. Motivo de grande polêmica e revolta de espectadores mais apressados por causa de uma única cena, o longa dirigido por Paul Thomas Anderson é um deleite para o verdadeiro fã de cinema, tamanha a sua complexidade temática e narrativa.

Escrito pelo próprio Paul Thomas Anderson (assim como todos os outros filmes de sua carreira), “Magnólia” acompanha um dia na vida de um grupo de pessoas em Los Angeles, que têm seus destinos interligados de alguma forma. Assim, temos o policial Jim (John C. Reilly) que conhece Claudia (Melora Walters) ao atender um chamado; Claudia que é filha de Jimmy (Philip Baker Hall), o apresentador de um programa de TV no qual Stanley (Jeremy Blackman) é o astro infantil, assim como Donnie Smith (William H. Macy) já fora um dia. O programa é produzido por Earl Partridge (Jason Robards), casado com Linda (Julianne Moore) e pai de uma espécie de guru do sexo, o misógino Frank T.J. Mackey (Tom Cruise). Doente em estado terminal, Earl tem a companhia do cuidador Phil (Philip Seymour Hoffman), que acaba descobrindo em conversas com seu paciente a razão da raiva que o filho sente do pai.

Como é fácil perceber neste breve resumo, “Magnólia” não é um filme simples de acompanhar. Ou ao menos não deveria ser. Com tantos personagens e, o que é mais admirável, com importância semelhante dramaticamente, a ousada narrativa intercala a vida de todos eles de maneira dinâmica, o que faz o trabalho do montador Dylan Tichenor (parceiro de Anderson no também multifacetado e ótimo “Boogie Nights”) essencial para o sucesso do filme. E é incrível perceber como a genialidade da montagem e a condução de Anderson nos mantém interessados por todas as histórias narradas quase que na mesma intensidade, através de sua câmera em constante movimento que jamais nos deixa confusos e do absoluto controle da misè-en-scene, o que não é nada fácil numa narrativa multifacetada e repleta de personagens importantes. Empregando movimentos de câmera elegantes que alternam entre o uso do zoom, travellings e belíssimos planos-sequência (aquele nos corredores da emissora de televisão é sensacional), o diretor não apenas mantém nosso interesse como ainda cria um visual gradualmente sufocante, ampliado pela brilhante fotografia de Robert Elswit, que explora os ambientes fechados, a noite predominante e a chuva que cai em boa parte do filme para criar esta sensação de sufocamento gradual no espectador e refletir os sentimentos dos personagens.

Absoluto controle da misè-en-sceneBelíssimos planos-sequênciaNoite predominante e a chuva que cai

As elegantes transições surgem também através de muitos raccord sonoros, que são transições entre cenas que iniciam primeiro através do som e somente depois através da imagem, ou seja, começamos a ouvir o som da cena posterior enquanto ainda acompanhamos imagens da cena antecessora, o que serve para aumentar a expectativa pela sequência que está por iniciar, como por exemplo quando o som do show de Frank surge enquanto ainda acompanhamos seu pai doente na cama. A trilha sonora de Jon Brion também colabora na criação do mencionado clima melancólico, além de muitas vezes ajudar a ditar o ritmo da narrativa, tanto nos momentos mais empolgantes em que a música acompanha as constantes mudanças de foco, transitando entre todas aquelas histórias, quanto nos momentos mais intimistas em que os personagens estão mais reflexivos.

Competente também na direção de atores, Anderson extrai atuações respeitáveis de um elenco qualificado e homogêneo. Personagem central da narrativa (ainda que em “Magnólia” não seja tão simples definir o protagonista), Jim talvez seja o personagem mais tranquilo depois de Phil, chegando a ser comovente em sua quase ingenuidade. Carismático, John C. Reilly assume o papel com facilidade e transforma Jim num dos pontos de equilíbrio de uma narrativa tão pesada dramaticamente, como atesta a personagem que mais contracena com ele. Logo em sua primeira aparição, Melora Walters já sugere o forte trauma de Claudia através da histeria dela ao ver o pai e segue na mesma intensidade durante quase todo o filme. Observe, por exemplo, como ela está inquieta na chegada do policial, demonstrando tanto o efeito das drogas quanto sua ansiedade provocada pela visita recente do pai. Claudia é uma personagem traumatizada e depressiva e Walters transmite isso com precisão.

Comovente em sua quase ingenuidadeForte trauma de ClaudiaHomem cansado, amargurado

Seu pai é interpretado por Philip Baker Hall, que vive Jimmy como um homem cansado, amargurado talvez, que ficou famoso por apresentar um quiz show envolvendo crianças, mas que não soube se aproximar da própria filha como deveria e, o que é muito pior, cometeu um crime horrendo contra ela. Vivendo outra linha narrativa crucial para entendermos os temas tratados em “Magnólia”, William H. Macy vive o ex-garoto prodígio Donnie Smith, externando com competência o ressentimento provocado pela exploração dos pais e a falta de confiança para aceitar-se como ele é. Apaixonado por um barman, mas sem coragem para assumir sua orientação sexual, ele encontra na platônica paixão a possibilidade de aceitação social que tanto lhe faz falta. Já Stanley, seu herdeiro na posição de menino prodígio, reage à pressão de ser o fio condutor da riqueza dos pais e não aceita ser explorado, levando o pai (Michael Bowen) ao desespero – e o garoto Jeremy Blackman segura bem o papel neste sentido, demonstrando firmeza sem perder o encanto da infância. As crianças que são exploradas pelo show business por puro interesse econômico (das emissoras e dos pais, diga-se) é um dos temas importantes abordados pelo longa.

Representando o espectador naquele mar de dor e angustia, Philip Seymour Hoffman encarna Phil com grande sensibilidade, demonstrando o quanto o cuidador absorve o sofrimento dos que estão à sua volta. Único personagem sem motivos aparentes para sentir a própria dor, seu rosto transmite a paz e a empatia pelo próximo tão necessárias em sua profissão – e as expressões de Hoffman realçam com exatidão a intensidade com que o personagem sente a dor alheia. Assim, Phil se transforma no ponto de equilíbrio principal do espectador naquela narrativa angustiante. O mesmo não podemos dizer de Linda. Inicialmente mais discreta, Julianne Moore lentamente ganha força na narrativa até transformá-la num poço de emoções à flor da pele, culminando numa tentativa de suicídio melancólica e tocante movida pelo remorso após revelar suas reais intenções naquele relacionamento. A confissão, aliás, é um dos bons momentos da atriz, no qual demonstra como o peso do passado corrói a personagem.

Ex-garoto prodígio Donnie SmithHerdeiro na posição de menino prodígioPonto de equilíbrio principal

O peso do passado é, portanto, outro tema central de “Magnólia”, escancarado na frase “Nós até podemos ter esquecido do passado, mas o passado ainda não se esqueceu de nós”, repetida algumas vezes. Quem melhor personifica este peso é Earl Partridge, interpretado de maneira estupenda por Jason Robards, que consegue o feito de humanizar um personagem tão cruel. Graças a intensidade de sua performance, sentimos a dor de Earl como se fosse nossa, com seus gemidos agudos, olhar desfocado e a voz cansada, que denotam o desgaste de um homem lentamente consumido pelo passado, como podemos notar no momento magistral em que Earl conta como conheceu a esposa Lilly e confessa o arrependimento pela forma como a tratou e especialmente por traí-la, reclamando cheio de amargura que “A vida não é curta, é longa!” após tantos anos convivendo com seu remorso, numa cena que ecoa na mente do espectador mesmo após a projeção.

Parte deste sofrimento vem também da certeza do trauma provocado em seu filho Frank que, como muitos personagens em “Magnólia”, também precisa acertar contas com o passado. Talvez no ano mais especial de sua carreira em termos de atuação, Tom Cruise está muito bem na pele do misógino protagonista de um show voltado para homens obviamente machistas, demonstrando grande segurança no palco e uma carcaça que esconde fortes traumas do passado fora dele, como fica evidente quando é confrontado pela entrevistadora e, inquieto, dá os primeiros sinais de que está mentindo (algo que tanto a repórter quanto o espectador já sabiam). Após a menção aos pais, ele muda completamente a feição e perde a estabilidade e a confiança que pareciam transbordar até então, escancarando sua conexão com a mãe e o trauma provocado pela morte dela, o que talvez explique, sem justificar, a persona machista que criou como uma autodefesa ou uma forma de esconder a fragilidade emocional e afetiva que tinha. Por isso, seu comportamento na entrevista passa da euforia para a introspecção, numa transição conduzida com perfeição por Cruise.

Poço de emoções à flor da peleHomem lentamente consumido pelo passadoMisógino protagonista de um show

O comportamento de Frank, aliás, serve para ilustrar aquele que talvez seja o principal tema de “Magnólia”, que é o desentendimento entre pais e filhos. Desta forma, temos o ressentimento de Donnie e a revolta de Stanley alimentados pelo mesmo motivo, assim como o ódio que Claudia sente pelo pai também é o sentimento de Frank por Earl, mas por razões diferentes. Orbitando em volta deles, temos personagens igualmente sugados pela culpa que Jimmy e Earl carregam, como Linda, ou aqueles que tentam amenizar a dor dos que estão em volta, como Jim e Phil. A intenção é clara: demonstrar a conexão entre aquelas pessoas. O primeiro momento em que isso acontece é durante o show de Jimmy, em que vários personagens, mesmo distantes uns dos outros, surgem conectados através da tela da televisão, numa das várias sequências conduzidas com maestria por Anderson e seu montador. Da mesma forma, o zoom que nos leva até Jimmy instantes antes dele cair no palco surge logo após uma sequência dinâmica que nos faz passar por vários personagens, na qual a trilha sonora indica que aquelas pessoas estavam muito próximas de chegarem aos seus limites.

Este limite chega no instante em que o peso das atitudes do passado toma conta de boa parte dos personagens e o sofrimento atinge níveis quase insuportáveis, levando-os a se isolarem de alguma forma, ainda que em alguns casos este isolamento surja apenas mentalmente e não de fato fisicamente. Então surge a emocionante sequência em que todos se conectam novamente, agora cantando a bela música “Wise up”, de Aimee Mann, num momento lindo, realçado pela chuva que cai, pela noite e pela melancolia coletiva que toma conta da tela, conduzido com maestria por Anderson – que é amigo pessoal de Mann e escolheu a cantora para desenvolver as músicas especialmente para o filme. Em seguida, a chuva finalmente cessa e o alívio temporário chega, dando início ao terceiro ato da narrativa.

Conectados através da tela da televisãoTodos se conectam novamenteDivertido segmento de abertura

O tragicamente divertido segmento de abertura passa então a fazer mais sentido quando um fato inusitado surge para interferir na vida de todas aquelas pessoas. Seria coincidência ou a ação do destino? Temos um ser superior que direciona nossas vidas ou estamos jogados ao acaso? Chegamos então ao grande mistério de “Magnólia”, desvendado brilhantemente pelo crítico Pablo Villaça em sua memorável crítica de 2000. Inicialmente, a interpretação mais plausível é a de que o acaso tem peso em nossas vidas e a chuva de sapos representaria metaforicamente este acaso. É uma visão coerente e que faz todo sentido. No entanto, Paul Thomas Anderson não queria apenas nos abrir a possibilidade de interpretação, ele queria brincar com nossa percepção e o faz durante toda a narrativa. Observe, por exemplo, como o garoto rapper faz uma espécie de profecia sobre a chuva que aliviaria a todos, assim como alguns personagens dizem que “está chovendo gatos e cachorros”, numa expressão típica do idioma inglês que serve para brincar com o fato estranho que ocorreria depois.

Da mesma forma, a previsão do tempo surge várias vezes na tela, indicando a importância do clima desde o início e sinalizando de forma sutil o evento que ocorreria no clímax. Observe também como a primeira previsão é de 82% de chance de chuva, numa brincadeira que faz uma das primeiras alusões ao versículo “Êxodo 8:2”, algo que se repetiria algumas vezes, como na abertura do programa comandado por Jimmy em que vemos rapidamente um cartaz escrito este versículo na plateia. Em outro momento, a menção ao livro de Êxodo, capítulo 20, versículo 5 (“Os pecados dos pais recaem sobre os filhos”), além de reforçar o tema central de “Magnólia”, ainda indica a importância deste livro para compreender a narrativa. E por fim, repare como Jim passa por uma placa de publicidade luminosa contendo a frase “Êxodo 8:2” segundos antes do primeiro sapo atingir seu carro.

Primeira previsão é de 82% de chuvaCartaz escrito Êxodo 8 2Placa de publicidade luminosa

Mas o que quer dizer este bendito versículo (sem trocadilho)? Uma rápida consulta a Bíblia traz as palavras de Deus para o faraó, reveladas na voz de Moisés: “Mas se recusares deixá-lo ir, eis que ferirei com rãs todos os teus termos”. Em Magnólia, é justamente quando Frank implora para que seu pai não o deixe (“Don’t go away!”) que a chuva tem início, num momento em que todos pareciam estar sem saída ou encontrando soluções tragicamente definitivas para aliviar o sofrimento. Certamente a sequência mais polêmica de “Magnólia”, os sapos que surgem dos céus para salvá-los podem ser interpretados de várias formas, como o mencionado acaso que surge para alterar os seus destinos e mudar o rumo de suas vidas, mas esta pérola escondida por toda a projeção torna o longa ainda mais especial e brilhante.

Durante a chuva, o quadro com a frase “Mas realmente aconteceu” (“But it did happen”), já citada antes por Phil quando explicava a tentativa desesperada do pai em estado terminal de encontrar o filho no telefone (“Parece aqueles filmes…”), reforça a teoria da força do acaso em nossas vidas e serve para acalmar os mais céticos, ainda que a explicação bíblica esteja lá, espalhada de diversas formas por “Magnólia”. E vale dizer que, se tematicamente a cena tem um peso enorme, tecnicamente a sequência da chuva de sapos é perfeita, visualmente impactante e com instantes plasticamente belíssimos como quando acompanhamos um sapo caindo lentamente num plano plongè.

Frank implora para que seu pai não o deixeMas realmente aconteceuTecnicamente a sequência da chuva de sapos é perfeita

“O que podemos perdoar?”, questiona Jim instantes antes de encerrar esta obra-prima. A resposta é uma das mais difíceis que podemos encontrar. Assim, quando finalmente podemos ver o primeiro sorriso de Claudia, nos damos conta que já estamos no último plano do longa, mas nunca é tarde para encontrar alguma forma de redenção.

Narrativamente complexo, tematicamente rico e visualmente belo, “Magnólia” é uma obra-prima do cinema capaz de gerar grande polêmica, mas extremamente recompensadora para os amantes da sétima arte. Contando com um diretor talentoso e um elenco formidável, o longa tem o poder que somente os grandes filmes têm de tornar-se ainda mais especial em cada revisita. E isto, com o perdão do infame trocadilho, não é um mero resultado do acaso.

Magnólia foto 2Texto publicado em 25 de Abril de 2016 por Roberto Siqueira

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JACKIE BROWN (1997)

(Jackie Brown)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #175

Dirigido por Quentin Tarantino.

Elenco: Pam Grier, Samuel L. Jackson, Robert Forster, Bridget Fonda, Michael Keaton, Robert De Niro, Michael Bowen, Chris Tucker e Lisa Gay Hamilton.

Roteiro: Quentin Tarantino, baseado em romance de Elmore Leonard.

Produção: Lawrence Bender.

Jackie Brown[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após surgir como um sopro de criatividade numa indústria carente de novidades com “Cães de Aluguel” e consolidar-se como um grande roteirista e diretor em “Pulp Fiction” – hoje reconhecido como um dos filmes mais importantes dos anos 90 -, Quentin Tarantino viu crescer consideravelmente a expectativa por seu próximo trabalho. Assim, não foram poucos os fãs que se decepcionaram, pois apesar de trazer muitos dos elementos marcantes do diretor e de contar com boas atuações, o consenso geral era de que Tarantino parecia ser menos Tarantino em “Jackie Brown”. Não é pra tanto, mas o fato é que ainda que a expectativa seja algo sempre prejudicial, o longa realmente não está no mesmo nível de seu antecessor. Nem por isso, deixa de ser um grande trabalho de um diretor amadurecido, é verdade, mas ainda completamente apaixonado pelo cinema.

Pela primeira vez baseando-se em material de outra pessoa (no caso, um romance de Elmore Leonard), Tarantino nos apresenta a personagem título “Jackie Brown” (Pam Grier), uma comissária de uma companhia aérea mexicana de segunda linha que tenta compensar o baixo salário ajudando o perigoso traficante Ordell Robbie (Samuel L. Jackson) a trazer dinheiro do exterior, mas é pega por policiais (Michael Bowen e Michael Keaton) no aeroporto e, em troca de sua liberdade, concorda em ajudá-los a desmontar o esquema internacional de tráfico de armas. No processo, ela contará com a ajuda de Max (Robert Forster), um fiador conhecido pelo traficante, por seu comparsa Louis (Robert De Niro) e pelos policiais – e que, por sua vez, acaba se apaixonando por ela.

Ainda que superficialmente “Jackie Brown” pareça seguir a mesma linha dos filmes anteriores de Tarantino, sua narrativa mais linear (com exceção do ato final), menos intrincada e recheada por um tom mais realista foge bastante do hiper-realismo marcante de “Pulp Fiction”, responsável por situações tão surreais que amenizavam os efeitos da violência gráfica das cenas. E se a violência também era marcante em “Cães de Aluguel”, aqui ela não surge com tanta força, assim como o humor negro aparece apenas em raras ocasiões. No entanto, se por um lado Tarantino desta vez prefere conduzir a narrativa de uma maneira, digamos, um pouco mais sóbria, por outro nós temos alguns personagens mais bem desenvolvidos dramaticamente que o de costume, como é o caso da protagonista e, especialmente, do fiador Max.

Nem por isso, podemos dizer que Tarantino abandona completamente seu estilo. Explorando novamente o submundo do crime, seu roteiro muito bem estruturado entrelaça aquele grupo de pessoas interessadas no paradeiro daquela enorme quantia de dinheiro sempre de maneira atraente. Além disso, o diretor não abandona seus diálogos inteligentes sobre coisas prosaicas, como na primeira cena na casa de Ordell onde o traficante e seu amigo Louis são apresentados ao espectador enquanto discutem sobre armas, assim como marcam presença as músicas sempre divertidas, o fetiche por pés femininos e as referências à cultura pop, como quando os personagens comentam cenas do filme “O Matador”, de John Woo, ou quando mencionam Demi Moore, a banda The Delfonics e as lojas de conveniências 7-Eleven. Tarantino também aposta novamente na divisão em capítulos, trazendo ainda elementos não diegéticos como o mapa que indica o trajeto do voo da cidade mexicana até Los Angeles.

Discutem sobre armasPés femininosMapa indica o trajeto do vooNa direção de atores, Tarantino acerta ao permitir composições mais humanas, o que não evita que Samuel L. Jackson atue da maneira histriônica de sempre, mas que cai bem na pele de Ordell, com seu jeito engraçado e pausado de pronunciar os palavrões e as frases cuidadosamente elaboradas pelo diretor/roteirista. Criando uma espécie de vilão carismático, Jackson se destaca especialmente na discussão com Louis, num instante carregado de tensão por sabermos que Ordell pode atirar a qualquer instante – e isto de fato acontece, num dos raros momentos em que a violência gráfica típica de Tarantino surge em “Jackie Brown”, seguida pelo humor negro característico do diretor quando acompanhamos o criminoso saindo andando tranquilamente pelas ruas como se nada tivesse acontecido.

No entanto, dois personagens conseguem algo raro na curta filmografia de Tarantino até então e chegam e emocionar o espectador. Escolhida por ser uma das grandes musas do gênero homenageado em “Jackie Brown” (o blaxploitation), Pam Grier é a primeira a realizar tal feito quando Jackie fala sobre o futuro e externa sua preocupação com a velhice, com um zoom lento realçando sua forte atuação da mesma forma em que a câmera que fica em seu rosto o tempo inteiro destaca sua expressão apavorada quando ela sai da loja de roupas logo após a entrega do “dinheiro” para Melanie (Bridget Fonda) – observe também como a trilha sonora amplia a tensão nesta cena. Compondo uma personagem ambígua que conquista a empatia da plateia mesmo cometendo os crimes que comete, Grier confere humanidade à protagonista através de pequenos momentos, como quando ensaia como pegar a arma na gaveta antes da chegada de Ordell ao escritório de Max.

Vilão carismáticoJackie fala sobre o futuroApavoradaMax que é certamente o personagem mais interessante e complexo de “Jackie Brown”. Demonstrando inteligência e coragem logo nas primeiras negociações com Ordell, o personagem interpretado com competência e sensibilidade por Robert Forster parece incapaz de abandonar a rotina ao qual se submeteu por tantos anos – e que certamente é a responsável por sua expressão sempre cansada e abatida. No entanto, ao ver Jackie ele não apenas se apaixona por ela, como também parece finalmente refletir a respeito de sua vida, mas isto não é suficiente para que tenha a coragem de largar tudo e ir com ela para a Espanha na tocante cena final, captada com precisão pela câmera de Tarantino que, deixando o personagem fora de foco em seu momento de arrependimento, parece respeitar sua dor diante da plateia. Se o crime é o fator que move a narrativa, o romance entre eles é o alicerce, só que enquanto Jackie é pura determinação, ele é apenas resignação – e esta diferença é crucial para que eles não fiquem juntos.

Fechando o elenco, temos um Robert De Niro contido, que passa quase despercebido na maior parte do filme, já que seu Louis nada mais é do que um criminoso velho e ultrapassado, que tenta sobreviver mesmo sem a agilidade e velocidade de raciocínio do passado. Quase sempre carrancudo e calado, ele chama a atenção da bela Melanie, mas curiosamente o ato sexual rápido e seco entre eles acaba afastando-os ao ponto de Louis finalmente mostrar o quanto é perigoso ao atirar na garota após ela irritá-lo no estacionamento do Shopping, numa rara cena em que o absurdo da situação nos faz rir ao invés de chocar, algo também típico de Tarantino.

Expressão cansada e abatidaCriminoso velho e ultrapassadoBela MelanieCom a câmera nas mãos, o diretor até utiliza o plano-sequência algumas vezes, insere seu clássico plano de dentro do porta-malas de um veículo e emprega um travelling cheio de estilo para nos revelar o carro de Ordell virando a esquina e parando a poucos metros da casa de Beaumont Livingston (Chris Tucker) na noite de seu assassinato, num momento em que a música diegética é essencial para nos indicar que se trata do mesmo carro. Entretanto, de maneira geral sua direção é mais discreta, o que não quer dizer que ele não nos presenteie com cenas marcantes, como quando Ordell visita Jackie na casa dela, apagando as luzes seguidamente e tornando aquela conversa já naturalmente tensa em algo ainda mais eletrizante. Auxiliado por sua montadora e amiga Sally Menke, Tarantino utiliza muito bem a tela dividida nesta cena, fazendo com que o espectador perceba no mesmo instante que Ordell a presença de uma arma salvadora nas mãos de Jackie. No entanto, Menke não consegue evitar que o filme perca um pouco o ritmo em determinados momentos do segundo ato, mas comprova seu talento e importância na sensacional sequência da entrega “pra valer” do dinheiro (voltaremos a ela em instantes).

Carro de Ordell virando a esquinaOrdell visita JackieArma salvadoraA escuridão que amplia a tensão na casa de Jackie surge em diversas outras ocasiões, já que o diretor de fotografia Guillermo Navarro aposta no predomínio de cenas noturnas, escondendo os personagens nas sombras em muitos momentos – uma estratégia reforçada pelo uso constante de fades que escurecem a tela completamente por alguns segundos. Já as cenas diurnas confirmam a opção de Tarantino por não tentar glamourizar a vida em Los Angeles como na maioria dos filmes. Ainda que o sol predomine, a imagem que temos é de uma cidade normal, ocupada por pessoas quase sempre a margem da sociedade.

Confirmando seu talento para construir cenas de impacto desde o teste da entrega do dinheiro, Tarantino nos brinda com uma sequência espetacular na entrega “pra valer”, que finalmente se divide sob três perspectivas diferentes (outra marca do diretor) e nos permite acompanhar como cada integrante se comportou no momento chave da narrativa, levando-nos ao confronto final no qual Ordell é surpreendido por Ray (Keaton, em atuação divertida na pele de um personagem que ele repetiria um ano depois em “Irresistível Paixão”, de Steven Soderbergh) no escritório totalmente escuro de Max.

Entrega pra valerTrês perspectivas diferentesOrdell é surpreendido por RayUtilizando o relacionamento afetivo entre Jackie e Max como fio condutor de sua narrativa mais sóbria, “Jackie Brown” é talvez o filme que mais destoa em tom e abordagem na filmografia de Tarantino, o que não significa necessariamente que seja um filme menor. Na verdade, Tarantino tentou criar algo diferente e, ainda que tropece aqui ou ali, conseguiu um excelente resultado.

Jackie Brown foto 2Texto publicado em 30 de Setembro de 2013 por Roberto Siqueira