CIDADE DOS SONHOS (2001)

(Mulholland Dr.)

 

 

Videoteca do Beto #244

Dirigido por David Lynch.

Elenco: Naomi Watts, Laura Harring, Justin Theroux, Ann Miller, Lee Grant, Melissa George, Robert Forster, Brent Briscoe, Dan Hedaya, Monty Montgomery, Katharine Towne, Lori Heuring, Billy Ray Cyrus, James Karen, Chad Everett, Geno Silva, Jeanne Bates, Mark Pellegrino, Patrick Fischler e Michael Cooke.

Roteiro: David Lynch.

Produção: Neal Edelstein, Tony Krantz, Michael Polaire, Alain Sarde e Mary Sweeney.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Famoso por construir narrativas surrealistas povoadas por personagens bizarros envoltos numa atmosfera sufocante, David Lynch já tinha pavimentado uma carreira de sucesso através de filmes como “O Homem Elefante”, “Veludo Azul” e “Coração Selvagem” quando a obra-prima “Cidade dos Sonhos” chegou aos cinemas. Aclamado pela crítica, o longa ganhou status de cult ao longo dos anos, chegando a liderar a lista dos melhores filmes do século da BBC de Londres e sendo alvo durante anos de minuciosos debates entre cinéfilos na internet em busca de desvendar as pistas deixadas na narrativa para embasar suas interpretações. Ciente disso, Lynch jamais caiu na tentação de explicar maiores detalhes sobre seu filme, deixando aos fãs a deliciosa missão de interpretar tudo aquilo segundo suas próprias visões e experiências.

Como de costume escrito pelo próprio Lynch, “Cidade dos Sonhos” acompanha a trajetória de Betty (Naomi Watts), que deixa o Canadá e parte para Los Angeles em busca de realizar o sonho de ser atriz. Ao chegar na casa de sua tia, ela depara-se com outra jovem garota (Laura Harring) que acaba de sobreviver a um acidente de carro e está totalmente desorientada, incapaz de lembrar o próprio nome. Comovida com a situação, Betty tenta ajudá-la a recordar sua própria história enquanto tenta emplacar na concorrida indústria cinematográfica de Hollywood. Enquanto isso, o diretor de cinema Adam Kesher (Justin Theroux) é coagido pela máfia a contratar a atriz Camilla Rhodes (Melissa George) para estrelar seu próximo filme.

Logo após a pequena introdução que antecede o letreiro da rua Mulholland Drive que inspira o nome original do filme, Lynch mergulha sua câmera em um travesseiro, num movimento chave para que, mais cedo ou mais tarde, o espectador compreenda um pouco melhor o universo onírico para o qual será sugado durante quase toda a projeção. Apoiado em um roteiro bastante complexo que bebe diretamente na fonte noir, “Cidade dos Sonhos” nos transporta pelo pesadelo de uma jovem angustiada pelo que fez e que parece condenada a não mais acordar (aliás, existe alguma “tradução” mais spoiler que essa?). Assim, em diversos instantes nos deparamos com personagens que parecem impotentes, paralisados diante de algo sem saber como reagir, exatamente como nos sentimos nos sonhos. Repare também como logo após o cowboy ordenar que a protagonista acorde, diversos personagens surgem em papéis diferentes do que tínhamos até então, evidenciando uma confusão também comum quando sonhamos. Da mesma forma, as cenas noturnas trazem constantemente os faróis dos carros e as luzes da cidade com intensidade maior que o normal, num uso do flare que reforça a atmosfera onírica pretendida pelo diretor, ampliada pelas misteriosas composições da trilha sonora de Angelo Badalamenti (que faz uma ponta no filme) e pelos momentos surreais como o assassinato de três pessoas num escritório envolvendo um aspirador de pó.

Repleto de diálogos estranhos, como aquele entre Adam e o cowboy (Monty Montgomery) sobre a escolha de uma atriz, o longa é repleto de momentos desconfortáveis para o espectador, tornando a experiência mais inquietante e confirmando que “Cidade dos Sonhos” é muito mais um filme para sentir do que propriamente para entender, ainda que uma coisa não exclua a outra. Apostando em movimentos de câmera cheios de estilo como o travelling pelo letreiro famoso de Hollywood que nos leva a mansão onde Betty encontraria Rita e que nos permite contemplar o local onde se passaria a narrativa, além de realçar a importância da cidade na interpretação daquilo tudo – afinal, estamos falando de uma terra onde as pessoas vão em busca de sonhos –, Lynch utiliza muitas vezes o close-up para realçar as reações dos personagens diante do universo perturbador que cria, repleto de imagens assustadoras como aquelas que acompanham a visita a casa número 17 onde a jovem Diane surge imóvel numa cama ou na sequência fantasmagórica que se passa no clube “Silêncio”, passando ainda pela pesada cena em que Betty se masturba com muito mais dor que prazer, já próximo à conclusão do filme.

Apostando num visual dominado pela noite no primeiro ato, a fotografia de Peter Deming realça o vermelho em diversos instantes (a toalha que cobre Rita e a cor de seu batom, diversas roupas de Rita e de outros personagens como Coco, etc.), o que não apenas simboliza a paixão que motivaria o crime cometido pela protagonista como também reflete o intenso sentimento de culpa dela. E se as cores sem vida do apartamento de Diane refletem seu estado de espírito após descobrirmos a razão de seu sofrimento, os figurinos de Amy Stofsky também ilustram a evolução da personagem durante a narrativa, refletindo a falta de brilho de sua vida no ato final, quando ela abandona de vez a blusa rosa e passa a usar cores opacas. Além disso, repare como Rita surge vestida de preto na cena em que abre a caixa azul e é sugada por ela, num claro simbolismo de sua morte.

Inicialmente imprimindo um ritmo mais lento e contemplativo, Lynch acelera a narrativa progressivamente até que, com o auxílio de sua montadora Mary Sweeney, construa uma sequência final que nos transporta por lugares aparentemente desconexos, mas já conhecidos pelo espectador e que ganham significados completamente diferentes na segunda ou terceira aparição, assim como ocorre com vários diálogos que ganham novos significados quando repetidos em outro contexto, como o teste de Betty para um papel, que começa numa brincadeira da montagem que simula uma discussão entre ela e Rita somente para, segundos depois, revelar que era apenas um ensaio e que torna-se infinitamente mais dramático e pesado quando ela contracena com outro ator em busca de conseguir o papel. Finalmente, vale destacar as diversas transições interessantes como o raccord sonoro que nos leva de um jantar para uma negociação numa mesa de um restaurante através de pratos que quebram.

Aliás, vale destacar como o design de som é vital para o funcionamento da narrativa justamente pela ausência do som, por exemplo, quando acompanhamos Betty andando pela casa da tia e mal conseguimos ouvir seus passos ou quando o diretor traído briga com a esposa e, enquanto ela grita e esbraveja, ele apenas age sem pronunciar palavra alguma. O silêncio, que surge no nome do clube e que é a palavra que encerra a narrativa, preenche boa parte do longa de maneira proposital, o que também remete aos mais terríveis pesadelos, quando por vezes somos incapazes de gritar ou chamar alguém próximo para nos socorrer.

Por tudo isso, “Cidade dos Sonhos” é um filme em que a sensação de estranhamento tem presença constante, fazendo com que o espectador não se sinta como alguém que pertence aquele universo (e como poderia?), o que é amplificado pelas atuações propositalmente exageradas em muitas cenas, especialmente na primeira metade do filme, quando temos reações quase caricatas de personagens como a sinistra senhora Louise (Lee Grant). No entanto, Lynch é sábio o suficiente para não permitir que seus atores passem do ponto e estraguem a experiência que ele pretende nos proporcionar, balanceando estes instantes de maneira eficiente com outros em que o realismo das atuações impressiona, especialmente nos minutos finais da projeção.

Em atuação impactante, Naomi Watts conclui a brutal transição da alegre e entusiasmada Betty para a transtornada e agressiva Diane com muita competência, convencendo em ambos os casos. A atriz transmite com precisão, por exemplo, o deslumbramento de Betty ao chegar em Los Angeles (“Agora estou neste local de sonhos”, diz ela), mostrando-se feliz por estar ali e empolgada com as portas que poderiam se abrir naquela cidade, agindo quase que de maneira infantil em boa parte do tempo, mas crescendo bastante quando necessário, como no citado teste para um desejado papel. Assim, o contraste entre a ingênua Betty e a devastada Diane do ato final chama bastante a atenção, quando Watts encarna a angústia de uma personagem atormentada pelo que fez de maneira visceral.

Com menor intensidade, Laura Harring convence tanto como a mulher que escapa de um acidente e parte em busca da identidade perdida quanto como a atriz bem sucedida que curte a fama e parece ter certo prazer em desprezar a amiga e ex-amante que faz questão de manter próxima, alternando do olhar perdido e distante de Rita para o olhar penetrante e levemente arrogante de Camilla, assim como transita de uma postura corporal assustada e defensiva para uma atitude muito mais confiante e desenvolta, que faz jus a alguém que chegou ao sucesso profissional. Obviamente, não podemos deixar de citar o bom desempenho das duas atrizes ao exalar a tensão sexual latente desde o início entre as personagens até finalmente se concretizar num ato físico quando Betty convida Rita para dormir com ela.

Espalhando pistas por toda o longa, como o close-up no nome dos funcionários do restaurante Winkle’s, Lynch constrói uma narrativa envolvente e totalmente aberta a interpretações, que estimula o espectador a formular suas próprias teorias e alimenta uma vontade quase imediata de rever o filme logo após sua conclusão, o que é sempre um bom sinal. Teria o pesadelo que inicia no travesseiro de fato se encerrado nas palavras do cowboy ou estaríamos diante de um pesadelo sem fim, viajando pela mente perturbada de uma alma condenada? Diane realmente se suicidou ou seria apenas mais um devaneio da mente perturbada da garota? A reviravolta abre diversas possibilidades e permite que cada espectador construa sua própria visão daquele universo, o que geralmente está muito mais relacionado a sua experiência de vida, as suas memorias afetivas e aos estímulos sensoriais que sentiu durante o longa do que a alguma lógica inquestionável que amarre todas as pontas do roteiro. Não é exatamente o que acontece quando tentamos compreender um sonho ao despertar? A minha visão segue a leitura mais comum entre cinéfilos, de que Diane, corroída pelo ciúme, encomenda o assassinato da ex-namorada Camilla após esta anunciar seu casamento com o diretor Adam Kesher numa festa, dorme, tem um pesadelo (que no caso domina boa parte da narrativa e embaralha diversas pessoas e acontecimentos da vida real de Diane), acorda atormentada pela culpa e comete suicídio, mas é claro que esta é apenas uma entre as inúmeras possibilidades de leitura desta obra-prima.

Sendo assim, o espectador não precisa se martirizar caso não consiga encaixar todas as peças do complexo quebra-cabeças e compreender totalmente aquele universo onírico. Nem era isso que Lynch pretendia, aliás. O diretor não é destes que gostam de entregar explicações fáceis e mastigadas, preferindo deixar o espectador livre para permitir-se levar pelas sensações e criar suas próprias interpretações. Nada daquilo precisa obrigatoriamente fazer sentido. O importante é que a experiência vivida represente alguma forma de absorção e aprendizado, ainda que deixe nossas mentes fervilhando, confusas e envolvidas num longo processo de assimilação que geralmente vem acompanhado dele…

O silêncio.

Texto publicado em 03 de Junho de 2019 por Roberto Siqueira

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JACKIE BROWN (1997)

(Jackie Brown)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #175

Dirigido por Quentin Tarantino.

Elenco: Pam Grier, Samuel L. Jackson, Robert Forster, Bridget Fonda, Michael Keaton, Robert De Niro, Michael Bowen, Chris Tucker e Lisa Gay Hamilton.

Roteiro: Quentin Tarantino, baseado em romance de Elmore Leonard.

Produção: Lawrence Bender.

Jackie Brown[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após surgir como um sopro de criatividade numa indústria carente de novidades com “Cães de Aluguel” e consolidar-se como um grande roteirista e diretor em “Pulp Fiction” – hoje reconhecido como um dos filmes mais importantes dos anos 90 -, Quentin Tarantino viu crescer consideravelmente a expectativa por seu próximo trabalho. Assim, não foram poucos os fãs que se decepcionaram, pois apesar de trazer muitos dos elementos marcantes do diretor e de contar com boas atuações, o consenso geral era de que Tarantino parecia ser menos Tarantino em “Jackie Brown”. Não é pra tanto, mas o fato é que ainda que a expectativa seja algo sempre prejudicial, o longa realmente não está no mesmo nível de seu antecessor. Nem por isso, deixa de ser um grande trabalho de um diretor amadurecido, é verdade, mas ainda completamente apaixonado pelo cinema.

Pela primeira vez baseando-se em material de outra pessoa (no caso, um romance de Elmore Leonard), Tarantino nos apresenta a personagem título “Jackie Brown” (Pam Grier), uma comissária de uma companhia aérea mexicana de segunda linha que tenta compensar o baixo salário ajudando o perigoso traficante Ordell Robbie (Samuel L. Jackson) a trazer dinheiro do exterior, mas é pega por policiais (Michael Bowen e Michael Keaton) no aeroporto e, em troca de sua liberdade, concorda em ajudá-los a desmontar o esquema internacional de tráfico de armas. No processo, ela contará com a ajuda de Max (Robert Forster), um fiador conhecido pelo traficante, por seu comparsa Louis (Robert De Niro) e pelos policiais – e que, por sua vez, acaba se apaixonando por ela.

Ainda que superficialmente “Jackie Brown” pareça seguir a mesma linha dos filmes anteriores de Tarantino, sua narrativa mais linear (com exceção do ato final), menos intrincada e recheada por um tom mais realista foge bastante do hiper-realismo marcante de “Pulp Fiction”, responsável por situações tão surreais que amenizavam os efeitos da violência gráfica das cenas. E se a violência também era marcante em “Cães de Aluguel”, aqui ela não surge com tanta força, assim como o humor negro aparece apenas em raras ocasiões. No entanto, se por um lado Tarantino desta vez prefere conduzir a narrativa de uma maneira, digamos, um pouco mais sóbria, por outro nós temos alguns personagens mais bem desenvolvidos dramaticamente que o de costume, como é o caso da protagonista e, especialmente, do fiador Max.

Nem por isso, podemos dizer que Tarantino abandona completamente seu estilo. Explorando novamente o submundo do crime, seu roteiro muito bem estruturado entrelaça aquele grupo de pessoas interessadas no paradeiro daquela enorme quantia de dinheiro sempre de maneira atraente. Além disso, o diretor não abandona seus diálogos inteligentes sobre coisas prosaicas, como na primeira cena na casa de Ordell onde o traficante e seu amigo Louis são apresentados ao espectador enquanto discutem sobre armas, assim como marcam presença as músicas sempre divertidas, o fetiche por pés femininos e as referências à cultura pop, como quando os personagens comentam cenas do filme “O Matador”, de John Woo, ou quando mencionam Demi Moore, a banda The Delfonics e as lojas de conveniências 7-Eleven. Tarantino também aposta novamente na divisão em capítulos, trazendo ainda elementos não diegéticos como o mapa que indica o trajeto do voo da cidade mexicana até Los Angeles.

Discutem sobre armasPés femininosMapa indica o trajeto do vooNa direção de atores, Tarantino acerta ao permitir composições mais humanas, o que não evita que Samuel L. Jackson atue da maneira histriônica de sempre, mas que cai bem na pele de Ordell, com seu jeito engraçado e pausado de pronunciar os palavrões e as frases cuidadosamente elaboradas pelo diretor/roteirista. Criando uma espécie de vilão carismático, Jackson se destaca especialmente na discussão com Louis, num instante carregado de tensão por sabermos que Ordell pode atirar a qualquer instante – e isto de fato acontece, num dos raros momentos em que a violência gráfica típica de Tarantino surge em “Jackie Brown”, seguida pelo humor negro característico do diretor quando acompanhamos o criminoso saindo andando tranquilamente pelas ruas como se nada tivesse acontecido.

No entanto, dois personagens conseguem algo raro na curta filmografia de Tarantino até então e chegam e emocionar o espectador. Escolhida por ser uma das grandes musas do gênero homenageado em “Jackie Brown” (o blaxploitation), Pam Grier é a primeira a realizar tal feito quando Jackie fala sobre o futuro e externa sua preocupação com a velhice, com um zoom lento realçando sua forte atuação da mesma forma em que a câmera que fica em seu rosto o tempo inteiro destaca sua expressão apavorada quando ela sai da loja de roupas logo após a entrega do “dinheiro” para Melanie (Bridget Fonda) – observe também como a trilha sonora amplia a tensão nesta cena. Compondo uma personagem ambígua que conquista a empatia da plateia mesmo cometendo os crimes que comete, Grier confere humanidade à protagonista através de pequenos momentos, como quando ensaia como pegar a arma na gaveta antes da chegada de Ordell ao escritório de Max.

Vilão carismáticoJackie fala sobre o futuroApavoradaMax que é certamente o personagem mais interessante e complexo de “Jackie Brown”. Demonstrando inteligência e coragem logo nas primeiras negociações com Ordell, o personagem interpretado com competência e sensibilidade por Robert Forster parece incapaz de abandonar a rotina ao qual se submeteu por tantos anos – e que certamente é a responsável por sua expressão sempre cansada e abatida. No entanto, ao ver Jackie ele não apenas se apaixona por ela, como também parece finalmente refletir a respeito de sua vida, mas isto não é suficiente para que tenha a coragem de largar tudo e ir com ela para a Espanha na tocante cena final, captada com precisão pela câmera de Tarantino que, deixando o personagem fora de foco em seu momento de arrependimento, parece respeitar sua dor diante da plateia. Se o crime é o fator que move a narrativa, o romance entre eles é o alicerce, só que enquanto Jackie é pura determinação, ele é apenas resignação – e esta diferença é crucial para que eles não fiquem juntos.

Fechando o elenco, temos um Robert De Niro contido, que passa quase despercebido na maior parte do filme, já que seu Louis nada mais é do que um criminoso velho e ultrapassado, que tenta sobreviver mesmo sem a agilidade e velocidade de raciocínio do passado. Quase sempre carrancudo e calado, ele chama a atenção da bela Melanie, mas curiosamente o ato sexual rápido e seco entre eles acaba afastando-os ao ponto de Louis finalmente mostrar o quanto é perigoso ao atirar na garota após ela irritá-lo no estacionamento do Shopping, numa rara cena em que o absurdo da situação nos faz rir ao invés de chocar, algo também típico de Tarantino.

Expressão cansada e abatidaCriminoso velho e ultrapassadoBela MelanieCom a câmera nas mãos, o diretor até utiliza o plano-sequência algumas vezes, insere seu clássico plano de dentro do porta-malas de um veículo e emprega um travelling cheio de estilo para nos revelar o carro de Ordell virando a esquina e parando a poucos metros da casa de Beaumont Livingston (Chris Tucker) na noite de seu assassinato, num momento em que a música diegética é essencial para nos indicar que se trata do mesmo carro. Entretanto, de maneira geral sua direção é mais discreta, o que não quer dizer que ele não nos presenteie com cenas marcantes, como quando Ordell visita Jackie na casa dela, apagando as luzes seguidamente e tornando aquela conversa já naturalmente tensa em algo ainda mais eletrizante. Auxiliado por sua montadora e amiga Sally Menke, Tarantino utiliza muito bem a tela dividida nesta cena, fazendo com que o espectador perceba no mesmo instante que Ordell a presença de uma arma salvadora nas mãos de Jackie. No entanto, Menke não consegue evitar que o filme perca um pouco o ritmo em determinados momentos do segundo ato, mas comprova seu talento e importância na sensacional sequência da entrega “pra valer” do dinheiro (voltaremos a ela em instantes).

Carro de Ordell virando a esquinaOrdell visita JackieArma salvadoraA escuridão que amplia a tensão na casa de Jackie surge em diversas outras ocasiões, já que o diretor de fotografia Guillermo Navarro aposta no predomínio de cenas noturnas, escondendo os personagens nas sombras em muitos momentos – uma estratégia reforçada pelo uso constante de fades que escurecem a tela completamente por alguns segundos. Já as cenas diurnas confirmam a opção de Tarantino por não tentar glamourizar a vida em Los Angeles como na maioria dos filmes. Ainda que o sol predomine, a imagem que temos é de uma cidade normal, ocupada por pessoas quase sempre a margem da sociedade.

Confirmando seu talento para construir cenas de impacto desde o teste da entrega do dinheiro, Tarantino nos brinda com uma sequência espetacular na entrega “pra valer”, que finalmente se divide sob três perspectivas diferentes (outra marca do diretor) e nos permite acompanhar como cada integrante se comportou no momento chave da narrativa, levando-nos ao confronto final no qual Ordell é surpreendido por Ray (Keaton, em atuação divertida na pele de um personagem que ele repetiria um ano depois em “Irresistível Paixão”, de Steven Soderbergh) no escritório totalmente escuro de Max.

Entrega pra valerTrês perspectivas diferentesOrdell é surpreendido por RayUtilizando o relacionamento afetivo entre Jackie e Max como fio condutor de sua narrativa mais sóbria, “Jackie Brown” é talvez o filme que mais destoa em tom e abordagem na filmografia de Tarantino, o que não significa necessariamente que seja um filme menor. Na verdade, Tarantino tentou criar algo diferente e, ainda que tropece aqui ou ali, conseguiu um excelente resultado.

Jackie Brown foto 2Texto publicado em 30 de Setembro de 2013 por Roberto Siqueira