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MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA (1969)

10 novembro, 2010

(The Wild Bunch)

 

Filmes em Geral #24

Dirigido por Sam Peckinpah.

Elenco: William Holden, Ben Johnson, Ernest Borgnine, Robert Ryan, Warren Oates, Jaime Sánchez e Emilio Fernández.

Roteiro: Walon Green e Sam Peckinpah, baseado em história de Roy N. Sickner.

Produção: Phil Feldman.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Um ano depois de Sergio Leone realizar um verdadeiro canto de despedida do western na obra-prima “Era uma Vez no Oeste”, Sam Peckinpah completou o serviço e fez a transição completa do cinema clássico para o cinema moderno e mais violento que se consolidaria em seguida (e que já havia iniciado dois anos antes com “Bonnie & Clyde”) neste interessante “Meu ódio será sua herança”, longa que apresenta pelo menos duas grandes cenas de tirar o fôlego.

Um grupo de foras-da-lei, liderado pelo inteligente Pike (William Holden), invade uma cidade em busca de ouro e, após escapar por pouco da morte, decide que está na hora de parar. Porém, após cruzarem a fronteira entre os Estados Unidos e o México, o grupo se depara com um general ditador (Emilio Fernández) que lhes oferece uma última missão: roubar um trem carregado de armas. Ao mesmo tempo, o ex-parceiro de Pike, conhecido como Thornton (Robert Ryan), é convocado para trazer sua cabeça em troca da liberdade.

Nos primeiros minutos de “Meu ódio será sua herança”, um grupo de soldados (que se revelaria um grupo de foras-da-lei) invade uma cidade e, no caminho, cruza com um grupo de crianças que brincam com um escorpião. Em dois momentos distintos, dois planos destacam este escorpião sendo atacado por formigas e incendiado. Não é por acaso. Peckinpah está, na realidade, ilustrando o que aconteceria no final do filme, pois assim como aquele escorpião, um animal até mesmo mais perigoso que a formiga, pouco poderia fazer no meio de tantas formigas, o grupo liderado por Pike jamais conseguiria escapar do grupo de mexicanos na seqüência final. Mas a seqüência final é apenas a cereja do bolo de um longa que já inicia com um tenso tiroteio, que não poupa mulheres e crianças, num verdadeiro espetáculo estilizado de violência. O diretor, auxiliado pela montagem de Louis Lombardo, alterna entre os planos com agilidade sem jamais confundir o espectador, utilizando também a câmera lenta para aumentar o impacto daquele confronto na platéia (e aqui vale observar também a qualidade do som, perceptível através dos gritos, dos cavalos e dos tiros), deixando claro deste então que não seremos poupados do sangrento resultado daqueles conflitos. Mas nem só de violência vive “Meu ódio será sua herança”. Peckinpah aproveita muito bem as belas paisagens que cruzam o caminho do grupo, criando belos planos, graças também ao auxilio da direção de fotografia de Lucien Ballard. Ballard utiliza tons opacos, sem vida, que contrastam com a beleza da região e refletem o sentimento de nostalgia daquele grupo que se despede da vida que adora. Peckinpah cria ainda momentos de extrema tensão, quebrados repentinamente por alguma situação bem humorada, como quando o grupo entra em conflito com o general por causa de uma mulher e, em seguida, a situação se resolve com um convite para beber, além de utilizar o flashback algumas vezes, buscando explicar as motivações dos personagens, como quando descobrimos que Pike e Thornton já trabalharam juntos no passado. Finalmente, o diretor conduz muito bem a seqüência do roubo do trem, onde somente o som diegético é suficiente para criar o clima de tensão. A fuga do grupo e o conseqüente tiroteio também são extremamente bem conduzidos pelo diretor, numa seqüência empolgante e bela que culmina com a plástica cena da explosão da ponte em câmera lenta.

Escrito por Walon Green e pelo próprio Peckinpah, o roteiro busca humanizar os bandidos, mostrando o lado humano de cada um e ética existente entre eles, como quando alguém diz que eles “não são como o general” ou quando eles dividem o uísque e fazem uma brincadeira com um dos integrantes do grupo – e repare como esta brincadeira indica a atitude que eles tomariam contra este mesmo integrante quando a missão fosse cumprida, o que motivaria o arrependimento do grupo e a sensacional seqüência final. “Todos sonhamos ser crianças de novo, até os piores de nós”, diz Pike em certo momento, demonstrando uma fragilidade incomum nos bandidos clássicos de Hollywood. A narrativa acompanha toda a trajetória dos foras-da-lei, intercalando momentos de extrema tensão, como os dois tiroteios que iniciam e encerram o longa, com momentos de relaxamento, especialmente no território mexicano.

Sem jamais demonstrar claramente quem são os heróis ou vilões, a narrativa segue de maneira direta, acompanhando a trajetória daquele grupo no México e, simultaneamente, os passos do grupo liderado por Thornton, que segue as pegadas de Pike. E por mais que existam momentos de relaxamento, o filme carrega uma alta dose de energia, perceptível até mesmo nas atuações. Interpretado por William Holden, Pike é um líder firme, mas que sabe também os momentos em que pode relaxar e dar boas gargalhadas com seu grupo de trabalho, como podemos notar quando eles discutem rispidamente por um monte de “arruelas” e, logo em seguida, voltam a sorrir ao falar sobre prostitutas. Além de bom líder, ele é extremamente inteligente e hábil negociador, como demonstra claramente quando negocia as armas com centenas de mexicanos e quando oferece a metralhadora como um “presente para o general”. O general, aliás, é interpretado com muita graça por Emilio Fernández, sendo responsável por momentos muito bem humorados, como quando testa a metralhadora e quase provoca uma tragédia. O bom relacionamento do grupo de Pike também se deve à boa atuação coletiva do elenco, algo que fica evidente na aparentemente leve e descontraída seqüência do banho no México, que é de vital importância para o futuro da narrativa, pois revela as intenções do grupo naquela missão encomendada pelo general. Já Robert Ryan demonstra firmeza na pele de Thornton, revelando sua admiração e respeito pelo grupo liderado por Pike (“Estamos atrás de homens”), afinal de contas, eles eram pessoas iguais, que pelos caminhos da vida acabaram ficando em lados opostos.

Como em todo bom western, os figurinos, de Gordon Dawson, e a direção de arte, de Edward Carrere, ambientam perfeitamente o espectador ao velho oeste, com os chapéus, sobretudos, roupas do exército e os vestidos das mulheres, além da estrutura da cidade, com o saloon, o hotel e toda aquela arquitetura típica dos westerns. Também se destaca a trilha sonora de Sonny Burke, que oscila entre o triunfal e o melancólico, refletindo os sentimentos daquele grupo que sabe estar realizando o seu último trabalho. E fechando a parte técnica, o som também oscila com perfeição, por exemplo, quando o grupo de religiosos se aproxima antes do primeiro tiroteio, diminuindo sensivelmente o volume quando a ação se passa dentro do saloon. Mas é no espetacular tiroteio final que todo o grande trabalho de Peckinpah e sua equipe chegam ao ápice. Com muito realismo e estilizando a violência através de closes, câmera lenta e rios de sangue que jorram das vítimas, o diretor consegue realizar uma cena emblemática, extremamente gráfica, que provoca forte impacto no espectador e serviu de inspiração para muitos filmes posteriores.

Com uma narrativa direta e sem apresentar heróis e vilões claramente definidos, “Meu ódio será sua herança” causou muita polêmica na época de seu lançamento por causa da estilização da violência. Mas o longa dirigido por Peckinpah estava “apenas” antecipando a forma de fazer cinema que viraria regra logo em seguida, ao mesmo tempo em que, assim como os seus personagens, se despedia do estilo clássico que caracterizou o mais americano dos gêneros cinematográficos.

Texto publicado em 10 de Novembro de 2010 por Roberto Siqueira