AMADEUS (1984)

(Amadeus)

 

Videoteca do Beto #30

Vencedores do Oscar #1984

Dirigido por Milos Forman.

Elenco: F. Murray Abraham, Tom Hulce, Elizabeth Berridge, Simon Callow, Roy Dotrice, Christine Ebersole, Jeffrey Jones, Charles Kay, Kenny Baker, Lisabeth Bartlett, Barbara Bryne, Martin Cavina, Roderick Cook, Milan Demjanenko e Peter DiGesu.

Roteiro: Peter Shaffer, baseado em peça de Peter Shaffer.

Produção: Saul Zaentz.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A vida e a obra de um verdadeiro gênio da música são apresentadas de forma louvável neste lindo filme dirigido pelo competente Milos Forman, através da visão de outro compositor que conviveu com Mozart, admirou o seu magnífico trabalho e desejou ter o mesmo talento que ele. A forma como foi obrigado a aceitar sua “mediocridade”, como ele mesmo diz, é tocante e diz muito sobre a frustração comum à maioria das pessoas que se aproximam da velhice e percebem que não conseguiram ser o que sonhavam.

Após tentar o suicídio, Antonio Salieri (F. Murray Abraham) resolve confessar a um padre que foi o responsável pela morte do gênio Wolfgang Amadeus Mozart (Tom Hulce), contando em detalhes como conheceu, conviveu e lentamente viu crescer seu ódio pelo jovem irreverente e criativo que, segundo ele, compunha como se sua música tivesse sido abençoada pelo próprio Deus. Baseado na peça de Peter Shaffer e com o roteiro escrito pelo próprio Shaffer, “Amadeus” nos conta a vida de Mozart curiosamente sob o ponto de vista de outro compositor da época, que conviveu com ele e que, apesar de ter talento, jamais conseguiu se igualar à genialidade dele. E é exatamente o efeito que a aparição daquele homem, com uma capacidade criativa muito acima da média, causaria em Salieri que iremos testemunhar ao longo da projeção.

Dirigido maravilhosamente por Milos Forman, o filme conta uma história triste e melancólica de forma absolutamente convincente e encantadora, o que não impede a existência de ótimos momentos de alívio cômico, notáveis principalmente nas falas de Salieri contra Deus, como na cena em que diz “de agora em diante somos inimigos”, e o plano seguinte mostra a imagem de Cristo. Cômica também é a forma que Salieri descreve como seu caminho se abriu para explorar seu talento musical inibido por seu pai, na engraçada cena da morte do Sr. Francesco Salieri. Milos Forman utiliza muitos closes nas reações de Salieri quando Mozart é elogiado, realçando sua inveja, que crescia paralelamente à sua admiração por ele. O filme mostra como ele ouvia e absolvia as músicas do gênio de uma maneira muito charmosa e encantadora, utilizando o inteligente recurso de tocar a canção que ele lia nas partituras para que o espectador sinta o que ele sentia. Forman também é inteligente ao mostrar o processo criativo do gênio, que enxergava música em coisas banais, como na interessante tirada em que ele, ao ouvir os brados de uma velha senhora quando sua mulher vai embora, se inspira para compor uma de suas mais famosas canções.

A interessante idéia de contar a história através da experiência de Salieri funciona muito bem, também porque a excelente montagem de Michael Chandler e Nena Danevic salta do narrador para a história em um ritmo muito bom, jamais sendo cansativo e mantendo-se sempre atraente. Alternando com agilidade do presente para o passado (em certo momento, a montagem salta ao presente somente para que Salieri diga que “aquele garoto obsceno, engatinhando no chão, era Mozart! Aquele era Mozart!”, indignado por esperar um ser humano “à altura do talento que tinha”), a montagem também faz elegantes transições de tempo, como quando Madame Cavalieri (Christine Ebersole) tem aulas com Salieri e pergunta sobre a nova ópera de Mozart, e no plano seguinte, está cantando na ópera citada. Aliás, o trabalho técnico de “Amadeus” é formidável, perceptível na excepcional direção de arte de Karel Cerny e nos fabulosos figurinos de Theodor Pistek, que ambientam o espectador na Viena da época com perfeição, além da notável maquiagem em Salieri já velho e em Mozart doente. O estado emocional de Mozart é refletido com competência através da excelente direção de fotografia de Miroslav Ondrícek. Inicialmente colorida, demonstra o mundo alegre e iluminado que o criativo e elétrico Mozart enxergava. Porém quando seu pai morre, o reflexo imediato vem em sua próxima ópera, sem cores, obscura e até mesmo fantasmagórica. E na medida em que Mozart vai enlouquecendo, a fotografia cada vez menos colorida e menos viva apenas reflete seu estado mental. Destaca-se também o ótimo trabalho de som, que capta com clareza cada instrumento das precisas composições. Finalmente, nem precisaríamos citar a maravilhosa trilha sonora de John Strauss, que espalha a vasta e deliciosa obra de Mozart por todo o filme.

Ao ouvir a experiência de Salieri ser contada para o Padre, praticamente podemos sentir sua tristeza e decepção por não ter nascido com o talento que aquele “jovem irreverente e obsceno” tinha graças ao magnífico desempenho de F. Murray Abraham. Observe como ele narra a história com paixão, demonstrando através do olhar, do tom de voz e de cada gesto, o forte sentimento de frustração que amargurava ao relembrar a história que viveu com o gênio. A fala precisa, pausada e com boa entonação garante um tom emocionado à narração. Sua feição enquanto conta a história denota uma tristeza incontida por não ter tido o talento do rival, refletida também na fotografia obscura. Por outro lado, sempre que pode Salieri deixa claro sua admiração pelo trabalho de Mozart. Sua emoção é palpável ao ouvir as músicas dele, às vezes até fazendo-o chorar. Observe como uma simples troca de olhares entre os presentes, quando Mozart começa a tocar e melhorar a música criada por Salieri na sala do Imperador – causando o espanto de todos com o talento dele – provoca um sorriso forçado de Salieri, que na realidade sentia inveja. Quando descreve para o Padre seu plano para matar o rival, Abraham transmite muita emoção, olhando para as mãos ao dizer que “planejar a morte de alguém é fácil, mas fazer o serviço com as próprias mãos não é”. “Como se mata um homem? Como é que se faz isso?” diz ele, numa das mais espetaculares cenas do filme.

Mas porque todo este ódio por parte de Salieri? A resposta está no talento do personagem que dá nome ao filme, Wolfgang Amadeus Mozart. Interpretado com muita energia por Tom Hulce, Mozart era dono de um talento absurdo para compor musica, o que o tornava um gênio, acima de todos os outros compositores de sua época. Apresentado como um jovem cheio de alegria quando persegue uma garota, percebemos através de um simples jogo de palavras que ele faz com ela a incrível velocidade de seu raciocínio. Desinibido e irreverente, como podemos perceber quando desafia o arcebispo em seu próprio palácio, abrindo à porta para que este escute os aplausos à sua música, Mozart era – como ele mesmo dizia – um homem vulgar. Mas sua música não era. Hulce demonstra a ansiedade do gênio de forma competente, como podemos observar quando o Imperador vai emitir uma opinião sobre sua música e faz uma pausa. Seu olhar arregalado, sua fala presa na boca e a respiração ofegante demonstram que ele mal podia esperar para ouvir a opinião dele. Jovial e descompromissado, ele tocava seu noivado enquanto se divertia, até ser desmascarado. Observe seu claro desconforto quando madame Cavalieri descobre que ele é noivo de Constanze (Elizabeth Berridge). Ele mal sabe para qual delas olhar. Também é marcante a engraçada e aguda risada criada por Hulce, que caracteriza muito bem o excêntrico personagem. Após se tornar um homem de família, Mozart valoriza muito a esposa, como fica claro em sua discussão com o pai, assim como é interessante notar como ele observa atentamente as reações do filho em uma ópera, demonstrando uma clara preocupação com o gosto do garoto. Mas a vida do gênio não era um mar de rosas. A inveja de Salieri criava problemas em sua vida (e se é verídico ou não, não é relevante neste caso), como a proibição de um balé em uma de suas óperas, a obrigação de fazer teste para dar aulas à filha do Imperador e, principalmente, a assombração do fantasma do pai que o levaria à morte. O teste, aliás, levanta uma interessante questão. Porque os melhores têm que ser tratados como os outros? Porque gênios devem se igualar aos medíocres? Quando afirma ser o melhor compositor, Mozart escuta que um pouco de humildade lhe faria bem. Por quê? A genialidade deve ser exaltada, e não igualada ao restante das pessoas. E é irônico notar como foi justamente em Salieri que Mozart encontrou alguém capaz de entender perfeitamente a grandiosidade de sua obra. Nem mesmo a ópera que fez o Imperador dormir desagradou ao rival (num paralelo interessante com o próprio cinema, onde a maioria do público não compreende obras que exijam um esforço intelectual maior). Sabendo do peso que seu pai representava, Salieri arquiteta um plano cruel, que vai lentamente degradando Amadeus, e fazendo com que ele se afunde na bebida, algo peculiar à maioria dos gênios. Normalmente dedicados àquilo em que são excepcionais, não conseguem ter uma vida normal, tendo muitos vícios e, não raramente, dificuldades financeiras. Mozart era assim. Precisando de dinheiro, se entregou à música popular e fez sucesso, mas jamais escondeu seu embaraço, como podemos notar quando pergunta à Salieri o que achou de sua ópera, somente para dizer depois que era “apenas um vaudeville”.

Durante a maravilhosa seqüência em que Mozart e Salieri trabalham juntos na criação de uma ópera (que ironicamente seria sobre a própria morte de Amadeus) podemos notar o fascinante processo de criação de um gênio. É notável sua agilidade, empolgação e paixão pelo que faz, assim como é assombrosa a sua facilidade para compor. Salieri, por outro lado, era talentoso, mas não era gênio, e por isso demonstra enorme dificuldade em acompanhar o raciocínio de Mozart. Também por isso, não se contentava com seu talento. Ao perceber que Amadeus se alegrava com sua ajuda e reconhecimento, provavelmente Salieri gostaria de voltar atrás, percebendo finalmente que mesmo sem o talento dele, sua existência era importante de alguma forma. Mas era tarde demais. A degradação e a loucura de Mozart o levaram ao fim. E a culpa seria o fardo pesado que Salieri levaria pelo resto da vida.

“Amadeus” mostra como a inveja corrói um ser humano. Frustrado por não ter conseguido ser aquilo que sonhou, Salieri sentia inveja, misturada com grande admiração pelo trabalho de Mozart, que segundo ele, era o próprio Deus fazendo música. A chuva, a trilha melancólica e a fotografia escura demonstram a tristeza dele no enterro do gênio. Mais triste ainda são as palavras finais de Salieri: “Medíocres em toda parte, eu os absolvo. Sou o campeão dos medíocres”. Não há problema algum em não ser gênio, isto é privilégio de poucos. O problema é deixar a frustração corroer sua alma e o levar a invejar alguém mais talentoso. Salieri se intitulava o campeão dos medíocres. Forman não pode dizer o mesmo. E Amadeus, o filme, está bem longe de ser medíocre. Pelo contrário, trata-se de uma obra que encantaria até mesmo o gênio que a inspirou.

Texto publicado em 28 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira

FRANKENSTEIN DE MARY SHELLEY (1994)

(Mary Shelley’s Frankenstein)

 

Filmes em Geral #90

Filmes Comentados #9 (Comentários transformados em crítica em 17 de Outubro de 2012)

Dirigido Kenneth Branagh.

Elenco: Kenneth Branagh, Robert De Niro, Helena Bonham Carter, Ian Holm, Tom Hulce, Aidan Quinn, Richard Briers, John Cleese, Robert Hardy, Cherie Lunghi, Celia Imrie, Trevyn McDowell e Gerard Horan.

Roteiro: Steph Lady e Frank Darabont, baseado em livro de Mary Shelley.

Produção: Francis Ford Coppola, James V. Hart e John Veitch.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Extremamente criticado na época de seu lançamento, “Frankenstein de Mary Shelley” apresenta tantas qualidades que transforma o esforço para compreender sua má recepção numa tarefa inútil. Muito mais interessante é explorar a abordagem fiel de Branagh, as excelente atuações do elenco e a profundidade dramática do longa que, contando ainda com um visual arrebatador, se confirma como uma das melhores adaptações da obra de Mary Shelley.

Escrito por Steph Lady e Frank Darabont (que dirigiria a obra-prima “Um Sonho de Liberdade” naquele mesmo ano), “Frankenstein de Mary Shelley” chama a atenção desde sua excelente introdução, quando uma marcante voz narra o texto inicial da obra de Shelley. Através de um longo flashback que tem inicio no encontro casual entre Victor Frankenstein (Kenneth Branagh) e um determinado e inconsequente explorador no polo Ártico (Aidan Quinn), o filme narra à história do promissor médico que busca encontrar uma forma de trazer pessoas que já morreram de volta à vida, motivado especialmente pela morte precoce de sua mãe (Cherie Lunghi). Após conhecer o inteligente professor Walderman (John Cleese), seus experimentos finalmente funcionam e ele dá vida a uma Criatura (Robert De Niro) feita a partir dos restos mortais de um assassino e do cérebro de seu falecido mentor.

Além de desenvolver a narrativa e os personagens de maneira consistente, o elegante roteiro apresenta diversos diálogos interessantes, começando por aquele em que o capitão Walton de Aidan Quinn diz para Victor que deseja entrar para a história da humanidade e recebe uma resposta cheia de ressentimento: “Eu, mais do que ninguém, sei que você está errado”. Outro diálogo marcante acontece dentro de uma caverna gelada, quando a Criatura questiona Victor e nos leva a refletir sobre a situação: afinal, quem é o verdadeiro monstro? Incluindo ainda diversas menções ao nome de Deus para ilustrar a força da religião naquele período, o roteiro aborda com competência a questão do abandono, da falta de afeto, amor e carinho, mostrando também como as pessoas tendem a olhar para o exterior e não para o interior de seus semelhantes, numa atitude cruel capaz de destruir a autoestima de qualquer ser humano.

Auxiliado pela montagem dinâmica de Andrew Marcus, Branagh narra fatos importantes da história de maneira econômica, ganhando tempo para explorar seu melhor personagem, que é a Criatura interpretada por De Niro, assim como lhe permite dar mais foco à fase de estudos e experimentos que ressalta a obsessão de Victor. Juntos, diretor e montador abusam do virtuosismo técnico em momentos interessantes como o raccord que salta de Victor e Elizabeth brincando com água para o plano em que eles soltam pipa ou aquele em que Victor corta a corda do corpo enforcado do assassino e, em seguida, vemos um copo descendo na mesa de uma taverna como se continuasse o movimento de queda do cadáver. Ainda nos detalhes técnicos, chama a atenção como a trilha sonora de Patrick Doyle pontua muito bem as cenas, surgindo na maior parte do tempo para indicar momentos importantes, como quando a música triunfal acompanha a entrada de Victor no local onde ele dará vida à Criatura, acertando também no melancólico tema que embala a relação entre Victor e Elizabeth, que surge até mesmo na flauta da Criatura, indicando como esta interfere no relacionamento deles.

Utilizando inicialmente cores vivas, a fotografia de Roger Pratt demonstra bem a alegria de Victor até o momento em que perde sua mãe, criando um contraste marcante em sua obscura passagem por Inglostadt, que reflete sua mente conturbada e obstinada naquele instante, ressaltada inclusive pela bagunça generalizada do caótico local, repleto de objetos espalhados por todos os lados (design de produção de Tim Harvey). Branagh conta também com os figurinos coloridos e ricos em detalhes de James Acheson e com a decoração perfeita dos ambientes para dar um visual espetacular ao longa, escorregando apenas em alguns efeitos visuais, como na cena do monte em que os raios que caem sobre eles soam pouco verossímeis. Por outro lado, o diretor realça com sutileza momentos de importância narrativa, como quando o sapo testado por Victor quebra o vidro e indica a força que a nova criatura terá.

Demonstrando grande habilidade na direção, Branagh é responsável pela criação de inúmeros planos marcantes, como aquele que diminui o Barão Frankenstein (Ian Holm) na enorme escada azul logo após o trágico parto, indicando o quanto ele estava arrasado, o impressionante plano geral que acompanha a cruel morte de Justine (Trevyn McDowell) ou os planos belíssimos que exploram a beleza da região enquanto a Criatura caminha na neve. Observe ainda como o professor Krempe (Robert Hardy) é filmado por baixo de forma que fique imponente na sala durante a aula até o instante em que é questionado por Victor, quando a câmera inverte o eixo e o diminuí na cena, simbolizando que Frankenstein não respeita sua visão e quer ir além. Aliás, os movimentos de câmera tem grande importância na narrativa, algo ressaltado pelo simbolismo dos contra-plongès (filmado por baixo) que simbolizam a vida no nascimento da Criatura e de sua “Noiva” e dos plongès (filmado por cima) que simbolizam a morte do professor, do garoto Willie e de Elizabeth, numa lógica perfeita que demonstra o equilíbrio de maneira coerente na cena do parto, onde uma morte e um nascimento acontecem simultaneamente e a câmera se mantém no mesmo nível. Finalmente, Branagh confere energia à excelente sequência do nascimento da criatura, incluindo até mesmo uma referencia ao clássico da Universal de 1931 (“Está vivo! Está vivo!”).

Mas se tem grande destaque atrás das câmeras, na frente delas Branagh tem uma atuação apenas razoável, escancarando sua origem teatral ao exagerar nas expressões faciais, saindo-se bem apenas em raros momentos como quando Victor tenta convencer Elizabeth a ficar. Supostamente demonstrando grande apego à família, Victor lentamente revela-se um ser egoísta, que pensa somente em seu benefício sem levar em consideração as consequências de seus atos – o que o leva, por exemplo, a dizer “Graças a Deus” quando é informado que os recém-nascidos estão morrendo diante de uma epidemia, pensando apenas na Criatura e esquecendo-se das centenas de mães que choram naquele instante. Aliás, a própria obstinação de Victor em trazer os mortos de volta a vida revela um egoísmo profundo, já que este ato busca essencialmente a “sua” felicidade, esquecendo-se do que aquilo poderia provocar naqueles que já se foram – e neste sentido, a sequência em que Elizabeth é ressuscitada é crucial para compreender o mal que ele fez. Aliás, auxiliada pela excepcional maquiagem que torna as criaturas mais realistas, Helena Bonham Carter se sai muito bem nos poucos minutos em cena como a noiva de Frankenstein, convencendo e demonstrando em seu rosto expressivo a dor da personagem ao descobrir o que Victor tinha feito com ela.

Entretanto, o grande destaque do elenco fica mesmo para Robert De Niro, que surge inicialmente como o assassino do professor, o que é apropriado para dar credibilidade à Criatura que surgirá em seguida. Numa interpretação tocante, ele demonstra sensibilidade e raiva em proporções cavalares, destacando-se em diversos momentos como quando ajuda uma família de camponeses e recebe uma placa e uma flor como agradecimento, demonstrando uma alegria genuína capaz de nos levar as lágrimas. Aliás, toda esta sequência da família na floresta é linda e bastante simbólica, resumindo a mensagem do filme com precisão. Criando um ser ambíguo que, como ele mesmo diz, carrega amor e ódio em medidas iguais, De Niro cria um anti-herói que, mesmo cometendo atos insanos (como matar uma criança e incriminar a tia dela), consegue conquistar a empatia da plateia. Obviamente, o fato da Criatura já surgir indefesa, com as pessoas tentando agredi-la sob a alegação de que ela é a responsável pela terrível doença que assola a cidade, colabora bastante – e o plano em que a criatura se mistura aos mortos é muito simbólico, já que ele jamais deixa de ser uma espécie de morto-vivo, não por falta de humanismo, mas pela forma como é recebido pelos “seres humanos”.

Em certo momento, a Criatura afirma que “pela compaixão de um único ser humano, faria as pazes com todos”, nos levando a uma interessante reflexão. Porque não aceitamos aqueles que não entendemos ou que julgamos diferentes? O choro diante da morte de Victor e a frase “ele nunca me deu um nome” demonstram a dor e o ressentimento da Criatura diante da rejeição paterna. Já sua última e impactante frase, “Eu abandonei a humanidade”, demonstra seu ressentimento com toda a raça humana. Ele viu que as pessoas não seriam capazes de aceitá-lo. Nem o seu criador o fez.

Outras críticas interessantes sobre o filme você pode encontrar nos links abaixo:

– Análise completa por Pablo Villaça.

– Crítica de Alexandre Rivaben.

PS: Comentários divulgados em 03 de Novembro de 2009 e transformados em crítica em 17 de Outubro de 2012.

Texto atualizado em 17 de Outubro de 2012 por Roberto Siqueira