MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA (1969)

(The Wild Bunch)

 

Filmes em Geral #24

Dirigido por Sam Peckinpah.

Elenco: William Holden, Ben Johnson, Ernest Borgnine, Robert Ryan, Warren Oates, Jaime Sánchez e Emilio Fernández.

Roteiro: Walon Green e Sam Peckinpah, baseado em história de Roy N. Sickner.

Produção: Phil Feldman.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Um ano depois de Sergio Leone realizar um verdadeiro canto de despedida do western na obra-prima “Era uma Vez no Oeste”, Sam Peckinpah completou o serviço e fez a transição completa do cinema clássico para o cinema moderno e mais violento que se consolidaria em seguida (e que já havia iniciado dois anos antes com “Bonnie & Clyde”) neste interessante “Meu ódio será sua herança”, longa que apresenta pelo menos duas grandes cenas de tirar o fôlego.

Um grupo de foras-da-lei, liderado pelo inteligente Pike (William Holden), invade uma cidade em busca de ouro e, após escapar por pouco da morte, decide que está na hora de parar. Porém, após cruzarem a fronteira entre os Estados Unidos e o México, o grupo se depara com um general ditador (Emilio Fernández) que lhes oferece uma última missão: roubar um trem carregado de armas. Ao mesmo tempo, o ex-parceiro de Pike, conhecido como Thornton (Robert Ryan), é convocado para trazer sua cabeça em troca da liberdade.

Nos primeiros minutos de “Meu ódio será sua herança”, um grupo de soldados (que se revelaria um grupo de foras-da-lei) invade uma cidade e, no caminho, cruza com um grupo de crianças que brincam com um escorpião. Em dois momentos distintos, dois planos destacam este escorpião sendo atacado por formigas e incendiado. Não é por acaso. Peckinpah está, na realidade, ilustrando o que aconteceria no final do filme, pois assim como aquele escorpião, um animal até mesmo mais perigoso que a formiga, pouco poderia fazer no meio de tantas formigas, o grupo liderado por Pike jamais conseguiria escapar do grupo de mexicanos na seqüência final. Mas a seqüência final é apenas a cereja do bolo de um longa que já inicia com um tenso tiroteio, que não poupa mulheres e crianças, num verdadeiro espetáculo estilizado de violência. O diretor, auxiliado pela montagem de Louis Lombardo, alterna entre os planos com agilidade sem jamais confundir o espectador, utilizando também a câmera lenta para aumentar o impacto daquele confronto na platéia (e aqui vale observar também a qualidade do som, perceptível através dos gritos, dos cavalos e dos tiros), deixando claro deste então que não seremos poupados do sangrento resultado daqueles conflitos. Mas nem só de violência vive “Meu ódio será sua herança”. Peckinpah aproveita muito bem as belas paisagens que cruzam o caminho do grupo, criando belos planos, graças também ao auxilio da direção de fotografia de Lucien Ballard. Ballard utiliza tons opacos, sem vida, que contrastam com a beleza da região e refletem o sentimento de nostalgia daquele grupo que se despede da vida que adora. Peckinpah cria ainda momentos de extrema tensão, quebrados repentinamente por alguma situação bem humorada, como quando o grupo entra em conflito com o general por causa de uma mulher e, em seguida, a situação se resolve com um convite para beber, além de utilizar o flashback algumas vezes, buscando explicar as motivações dos personagens, como quando descobrimos que Pike e Thornton já trabalharam juntos no passado. Finalmente, o diretor conduz muito bem a seqüência do roubo do trem, onde somente o som diegético é suficiente para criar o clima de tensão. A fuga do grupo e o conseqüente tiroteio também são extremamente bem conduzidos pelo diretor, numa seqüência empolgante e bela que culmina com a plástica cena da explosão da ponte em câmera lenta.

Escrito por Walon Green e pelo próprio Peckinpah, o roteiro busca humanizar os bandidos, mostrando o lado humano de cada um e ética existente entre eles, como quando alguém diz que eles “não são como o general” ou quando eles dividem o uísque e fazem uma brincadeira com um dos integrantes do grupo – e repare como esta brincadeira indica a atitude que eles tomariam contra este mesmo integrante quando a missão fosse cumprida, o que motivaria o arrependimento do grupo e a sensacional seqüência final. “Todos sonhamos ser crianças de novo, até os piores de nós”, diz Pike em certo momento, demonstrando uma fragilidade incomum nos bandidos clássicos de Hollywood. A narrativa acompanha toda a trajetória dos foras-da-lei, intercalando momentos de extrema tensão, como os dois tiroteios que iniciam e encerram o longa, com momentos de relaxamento, especialmente no território mexicano.

Sem jamais demonstrar claramente quem são os heróis ou vilões, a narrativa segue de maneira direta, acompanhando a trajetória daquele grupo no México e, simultaneamente, os passos do grupo liderado por Thornton, que segue as pegadas de Pike. E por mais que existam momentos de relaxamento, o filme carrega uma alta dose de energia, perceptível até mesmo nas atuações. Interpretado por William Holden, Pike é um líder firme, mas que sabe também os momentos em que pode relaxar e dar boas gargalhadas com seu grupo de trabalho, como podemos notar quando eles discutem rispidamente por um monte de “arruelas” e, logo em seguida, voltam a sorrir ao falar sobre prostitutas. Além de bom líder, ele é extremamente inteligente e hábil negociador, como demonstra claramente quando negocia as armas com centenas de mexicanos e quando oferece a metralhadora como um “presente para o general”. O general, aliás, é interpretado com muita graça por Emilio Fernández, sendo responsável por momentos muito bem humorados, como quando testa a metralhadora e quase provoca uma tragédia. O bom relacionamento do grupo de Pike também se deve à boa atuação coletiva do elenco, algo que fica evidente na aparentemente leve e descontraída seqüência do banho no México, que é de vital importância para o futuro da narrativa, pois revela as intenções do grupo naquela missão encomendada pelo general. Já Robert Ryan demonstra firmeza na pele de Thornton, revelando sua admiração e respeito pelo grupo liderado por Pike (“Estamos atrás de homens”), afinal de contas, eles eram pessoas iguais, que pelos caminhos da vida acabaram ficando em lados opostos.

Como em todo bom western, os figurinos, de Gordon Dawson, e a direção de arte, de Edward Carrere, ambientam perfeitamente o espectador ao velho oeste, com os chapéus, sobretudos, roupas do exército e os vestidos das mulheres, além da estrutura da cidade, com o saloon, o hotel e toda aquela arquitetura típica dos westerns. Também se destaca a trilha sonora de Sonny Burke, que oscila entre o triunfal e o melancólico, refletindo os sentimentos daquele grupo que sabe estar realizando o seu último trabalho. E fechando a parte técnica, o som também oscila com perfeição, por exemplo, quando o grupo de religiosos se aproxima antes do primeiro tiroteio, diminuindo sensivelmente o volume quando a ação se passa dentro do saloon. Mas é no espetacular tiroteio final que todo o grande trabalho de Peckinpah e sua equipe chegam ao ápice. Com muito realismo e estilizando a violência através de closes, câmera lenta e rios de sangue que jorram das vítimas, o diretor consegue realizar uma cena emblemática, extremamente gráfica, que provoca forte impacto no espectador e serviu de inspiração para muitos filmes posteriores.

Com uma narrativa direta e sem apresentar heróis e vilões claramente definidos, “Meu ódio será sua herança” causou muita polêmica na época de seu lançamento por causa da estilização da violência. Mas o longa dirigido por Peckinpah estava “apenas” antecipando a forma de fazer cinema que viraria regra logo em seguida, ao mesmo tempo em que, assim como os seus personagens, se despedia do estilo clássico que caracterizou o mais americano dos gêneros cinematográficos.

Texto publicado em 10 de Novembro de 2010 por Roberto Siqueira

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20 Respostas to “MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA (1969)”

  1. Alexandre Figueiredo Says:

    Faroeste da melhor qualidade. O tiroteio final é de tirar o fôlego.

  2. Aprigio Alves de Oliveira Filho Says:

    Caro Roberto Siqueira não fiz particularmente uma crítica à sua resenha do filme, pois está muito bem redigida e a meu ver apresenta uma valoração equilibrada, sem os exageros injustificados que observo em outras. As melhores sequências de Meu ódio… estão nos últimos 50 min., após o acordo entre Pike (William Holden)e o general Mapache. A cena com Holden e Borgnine morrendo com seu rostos em close-up é realmente visceral e o grande ápice dramático desse western crepuscular, no entanto ficam intercaladas entre esse grande final e o início movimentado muitas cenas demoradas e maçantes; muitas piadas estranhas acompanhadas de gargalhadas idem. Alguns personagens são antipáticos, como o velho que toma conta dos cavalos e o dois caçadores de recompensa que saqueiam tudo a dos mortos, bem ao contrário do que diz a sinopse da capa; o mais inexpressivo e antipático é o homem do general que usa uma viseira na testa e que fica responsável por fazer a troca do dinheiro pelas armas, com aquele sorriso apalermado; a cena dos parceiros de Pike com as prostitutas é demorada demais e quebra totalmente o ritmo do filme; a cena em que o inábil e perverso general Mapache manuseia a metralhadora, disparando para todos os lados sem matar ninguém a meu ver não acrescenta nada.Peckinpah queria quebrar o ritmo com um pouco de humor e quase desanda em comédia. Assisti este western quatro ou cinco vezes como disse no meu primeiro comentário e assim como o Francisco não sinto vontade de assisti-lo mais,vezes, a não ser que passe na TV e no momento esteja sem fazer nada. O problema é que a crítica analisa uma parte pelo todo, atribuindo ao todo qualidades que apenas se concentram em algumas partes(ou sequências), como a que citei, em que as personagens de Holden e Borgnine morrem. Depois verei suas análises dos filmes de Leone. Valeu e um abraço.

    • Roberto Siqueira Says:

      Olá Aprigio.
      Obrigado pela resposta. Creio que eu interpretei mal seu comentário anterior.
      Um forte abraço e obrigado pela visita.

  3. Aprigio Alves de Oliveira Filho Says:

    Ah, desculpem, não deixei minha cotação. Jamais diria que o filme é medíocre ou ruim, mas digo também que não é obra-prima. Entre altos e baixos, que ele apresenta, considerei e considero apenas um bom western apenas. Depois enviarei minha análise justificando.

  4. Aprigio Alves de Oliveira Filho Says:

    Concordo com o Francisco e o Cesar Duarte. Asissti uma primeira vez devido ás críticas elogiosas e não gostei de quase nada. Quando foi lançado em DVD e com todos os clamores da crítica e da sinopse na capa, resolvi assisti-lo novamente, por achar que não havia prestado a devida atenção em cada cena do filme, mas continuei praticamente com a mesma opinião. De cara percebi a influência do spaghetti, principalmente de Leone. Depois de ver comentários elogiosos e apaixonados em alguns blogs assisti mais duas vezes, buscando o máximo de neutralidade, para eliminar qualquer preconceito e eliminar todas as dúvidas que ainda existissem. E mais do que nunca continuo achando que existem exageros tremendos em relação a esse filme, que é apenas bom e não obra-prima. Os filmes de Leone são superiores em tudo, só perde para o quesito quantidade de sangue. A meu ver, criou-se, á época do lançamento do filme de Peckinpah um forte lobby-e aí a ideologia de superioridade do cinema americano entrou forte- para neutralizar os filmes western spaghetti, e ao mesmo tempo eclipsar o nome de Sergio leone e Sergio Corbucci, que eram e são os nomes principais desse gênero. Não se podia admitir que diretores de outro continente pudesse realizar westerns daquela forma, tão inovadores, que praticamente demolia todos os pilares do patrimônio americano. Filmes ousados com tomadas desconcertantes, movimentos de câmera com fotografia dinâmica e multifacetada e zoons acachapantes, que quase nuca eram usados nos chamados clássicos americano, apesar de terem a disponibilidade do recurso em suas câmeras. tudo o que Peckinpah colocou em seu western, os italianos já haviam, de uma forma ou de outra, apresentado em spaghetti como Django (1966); o vingador silencioso (1968); Os cruéis (1969); Peça perdão a deus não a mim (1967/68); Tempo de massacre (1966), etc. ;além dos próprios filme inauguradores de Sergio Leone, Por um punhado de dólares (1964); Por uns dólares a mais (1965); Três homens em conflito (19666). Aqui torna-se necessário lembrar que ele assistiu Por um punhado… ficou estupefato e aplaudiu. É só pesquisar que se descobre. Voltando ao ponto, tentou-se de todas as forma tirar a primazia destes filmes citados e outros, bem como de seus diretores e passar para o diretor americano. Por que? Simplesmente porque ele era americano. Não podiam suportar estrangeiros sendo exaltados como os grande renovadores, aqueles que ultrapassaram os pilares dos clássicos, tomando a dianteira de uma linguagem nova, revolucionária. Não tomarei muito espaço aqui, mas depois publicarei aqui um comentário-resenha do filme, apresentando minha avaliação de muitas sequências que apresentam fragilidades, bem como aquela onde está a influência do diretor italiano Sergio leone.

    Meu e-mail para contato é aprigiohistoria@yahoo.com.br

    • Roberto Siqueira Says:

      Olá Aprigio,
      Agradeço o comentário e fico feliz que compartilhe conosco sua visão sobre o filme. Só não entendi o tom das críticas ao texto, já que, assim como você, eu gosto muitos dos western spaghetti.
      Apesar de gostar de “Meu ódio será sua Herança”, gosto muito mais dos clássicos do Leone – e minhas críticas sobre os filmes dele deixam isto bem claro. Se tiver interesse, já escrevi sobre “Três homens em conflito” e “Era uma vez no Oeste” aqui neste mesmo espaço.
      Um abraço e fique a vontade para comentar sempre que quiser.

  5. Kaio Cézar Says:

    Esse filme é fantástico tanto a parte técnica e de direção, como a qualidade de atores( Holden e Borgnine) e suas atuações são excepcionais,além é claro da trilha sonora estilo mexicana( no momento de despedida do vilarejo), até a caminhada de encontro a morte na cena final.Também já está na minha coleção de grandes faroestes.

  6. josmar Says:

    um escelente filme, muito bom mesmo e ja esta na minha coleção de filmes classicos . com certeza assistirei outras vezes

  7. luiz rocha Says:

    Quanto ao comentário de um dos leitores que o general vivido pelo ator mexicano Emilio Fernandez é caricato, de jeito nenhum. Achei excepcional o trabalho daquele ator. Os ditadores são sempre caricatos…Aliás todos os personagens aliados ao general estão perfeitos com aqueles cabelos duros e emplastados,alias, Sam Peckinpah era muito bom na direção de atores. Extremamente realista.

  8. luiz rocha Says:

    Gosto muito desse filme e revendo-o sempre encontro algo novo; O final após o tiroteio, quando o personagem(Robert Ryan) está sentado reflexivo na saida do povoado é muito interessante. Ele lembra um porteiro de Dante num clima pós apocalipse com fumaça e um tom cinzento no céu (a música incrível acho que é do Jerry Fielding e não do Burke ). Depois as gargalhadas em flash back do grupo e a música La Golondrina fecham com chave de ouro este monumental faroeste. Um crítico disse que as gargalhadas finais lembram o fatalismo da morte (está no make off do vídeo). Penso que são como que uma elegia à vida e aos bons momentos. Jerry Fielding, a propósito, era músico da banda de jazz-rock Blood Sweet and Tears dos anos 60. Trilha a nível de Ennio Morricone e Elmer Berstein para falar nos melhores.

  9. Cesar Duarte Says:

    De tanto ouvir falar e ler sobre este filme, comprei um dvd dele e o assisti neste domingo, porém confesso que fiquei decepcionado. Achei o filme chato , longo e cansativo. Tem filmes que são tratados como obras de arte, verdadeiras unanimidades, como é o caso deste. Perde de longe para praticamente todos os filmes de Sergio Leone, John Ford e Howard Hawks. O elenco principal é até muito bom ,porém o elenco secundário é muito fraco, não convence. O general mexicano é extremamente caricato, muito forçado. O filme Quando Explode a Vingança, qque trata do mesmo assunto, A Revolução Mexicana de 1913, é infinitamente superior a esse. Quando gosto de um filme, o assisto muitas vezes durante a vida, porém este filme dificilmente o verei de novo, pois realmente não gostei.

    • Roberto Siqueira Says:

      Olá Cesar,
      Fico feliz que expresse sua opinião mesmo quando discorda, este espaço existe exatamente pra isto. Também considero este filme inferior aos grandes filmes do Leone e de John Ford, apesar de achar “Meu Ódio será sua Herança” um bom filme.
      Abraço.

  10. francisco Says:

    Caro Roberto, tenho que confessar que não gosto deste filme, e olhe que até tentei revê-lo algumas vezes no intuito de mudar minhas impressões, pelo fato dele ser tão cultuado pela crítica mundial, mas não consegui e mesmo entendendo a sua importancia dentro do contexto de modernização do cinema de ação (no sentido de violência explícita), não compreendo os exageros dos críticos quanto a valorização do recurso slow motion, que pra mim é um truque sórdido que qualquer produção medíocre pode utilizar e banalizar pra esconder deficiências na edição. Mas senti um grande alívio quando vi que vc não deu 5 estrelas. Valeu…Um abraço!

    • Roberto Siqueira Says:

      Olá Francisco,
      Sinta-se à vontade para discordar sempre que quiser, afinal, este espaço existe para que possamos debater cinema, sempre com respeito e com base em argumentos.
      Realmente a importância histórica tem grande peso na análise dos críticos e o filme tem grande importância. Mas não se preocupe, é normal não gostarmos de alguns filmes cultuados, acontece.
      Abraço.

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