BLADE RUNNER – O CAÇADOR DE ANDRÓIDES (1982)

(Blade Runner)

 

Videoteca do Beto #25

Dirigido por Ridley Scott.

Elenco: Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young, Edward James Olmos, Daryl Hannah, William Sanderson, Brion James, Joe Turkell, Joanna Cassidy, James Hong e Morgan Paull.

Roteiro: Hampton Francher e David Webb Peoples, baseado em livro de Philip K. Dirk.

Produção: Michael Deeley.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

De acordo com “Blade Runner – O Caçador de Andróides”, belíssima ficção-científica dirigida por Ridley Scott, o futuro do planeta é sombrio e assustador. O crescimento descontrolado das grandes metrópoles, aliado à globalização e a destruição do meio ambiente, provocou profundas alterações climáticas e sociais, transformando o planeta em um local frio, deteriorado e muito complicado de se viver. Este sombrio ambiente serve como pano de fundo para uma trama que levanta questões muito profundas a respeito da existência humana, gerando discussões filosóficas e provocando até mesmo estudos baseados no longa. Além disso, o filme desenvolve personagens complexos e fascinantes. E todos eles buscam respostas que não serão encontradas facilmente.

O ano é 2019. Uma grande corporação desenvolveu um robô, conhecido como replicante, que é idêntico ao ser humano em sua aparência e inteligência, porém mais forte e ágil. Utilizados como escravos na exploração de outros planetas, um grupo destes replicantes se rebela. O problema é que o motim provoca a reação imediata das autoridades terrestres, que proíbem a presença de replicantes no planeta, sob pena de morte. É quando seis replicantes chegam a Terra após render uma tripulação e o ex-caçador de andróides Deckard (Harrison Ford) é chamado para matá-los, numa operação que não é conhecida como execução, e sim remoção.

Como de costume nos filmes dirigidos por Scott, o visual deslumbrante do mundo futurista decadente se destaca logo no inicio do longa, graças ao excelente trabalho de direção de arte de David L. Snyder. Tudo é fascinante. Os carros sujos, a cidade poluída repleta de prédios enormes que se espremem em pequenos espaços, o contraste entre os luxuosos apartamentos dos ricos no alto dos prédios e a podridão da ralé que vive no nível do chão, o resultado da globalização, com uma verdadeira torre de babel circulando neste submundo repleto de pessoas de diversas nacionalidades, o clima quase sempre chuvoso, nublado e sombrio, resultado das mudanças climáticas provocadas pelo crescimento exacerbado do capitalismo, carros voadores, um festival de luzes e muito neon piscando com propagandas em toda parte. Tudo está lá, diante de nossos olhos, com um realismo incrível. A fotografia azulada e escura (direção de Jordan Cronenweth), que remete aos filmes noir, esconde os personagens nas sombras e ao mesmo tempo cria um forte contraste com os raios de luz (ou luzes piscando freneticamente) que entram nos ambientes, criando um visual sombrio e triste, refletindo a vida destas pessoas neste mundo frio e cruel. Claramente, este é o resultado de anos e anos de crescimento sem controle, sem preocupação ambiental e sem sustentabilidade, que provocou a degradação total do planeta e das relações humanas. A trilha sonora eletrônica de Vangelis completa a parte técnica casando perfeitamente como o ambiente do filme (e soando bastante ousada para a época). Os carros voadores dos policiais raramente arriscam entrar no violento submundo, onde as pessoas vivem precariamente. O perigo que os replicantes (andróides) representam é bem resumido na frase de um policial “Ele está respirando bem agora, desde que não desliguem os aparelhos”, se referindo ao último caçador de andróides que fez o teste com um deles. O teste, apresentado logo no inicio do filme, se resume a uma série de perguntas feitas de forma a identificar um replicante, já que fisicamente eles são idênticos ao seres humanos. Mentalmente, porém, são diferentes, já que não têm passado, e através das perguntas (e da dilatação dos olhos quando as escutam), os caçadores conseguem identificá-los. Aliás, a criatividade da tecnologia empregada em “Blade Runner” também é fascinante, como podemos notar, por exemplo, na máquina que Deckard utiliza para analisar uma fotografia.

Ridley Scott acerta a mão também no ritmo da narrativa. Lento e reflexivo, “Blade Runner” não é um simples filme de perseguição. É muito mais que isso. É claro que existem boas seqüências de ação. Auxiliado pela boa montagem de Marsha Nakashima, o diretor cria uma seqüência empolgante durante a perseguição de Zhora, por exemplo. Os cortes ágeis e precisos aumentam a adrenalina da cena sem torná-la confusa. Por outro lado, quando Deckard finalmente alcança Zhora e atira, ele utiliza a câmera lenta, mostrando em detalhes o impacto daquele ataque e a reação angustiada de Deckard, que sente pelo que fez, mas cumpre o seu dever. A trilha sonora triste marca o momento. A empolgante seqüência final entre Roy e Deckard também é sensacional, repleta de tensão e realismo. Mas o principal acerto de Scott, que conta com o criativo e excepcional roteiro de Hampton Francher e David Webb Peoples (baseado em livro de Philip K. Dirk), é a ambigüidade de cada um dos personagens e as inúmeras reflexões que provocam no espectador.

Todos os personagens em “Blade Runner” estão em busca de algo. Harrison Ford encabeça o elenco, encarnando muito bem o caçador de andróides Deckard que busca exterminar os replicantes da Terra, ao mesmo tempo em que busca também sua própria identidade. Ford acerta ao balancear a frieza e determinação com que Deckard parte para cumprir sua missão com a emoção contida, porém sensível, que sente quando está com a aflita Rachel, interpretada com competência por Sean Young. As dúvidas sobre sua própria origem e a angustia após descobrir a verdade são muito bem retratadas pela atriz. Quando Rachel demonstra ter sentimentos por Deckard, o espectador provavelmente se pergunta “E agora?”, já que ele descobre gostar dela praticamente ao mesmo tempo em que é avisado que precisa matá-la. “Eu sou o trabalho” diz ela, ciente da missão do parceiro. Deckard, por sua vez, sabe o que precisa fazer, mas não terá coragem para isso. Rutger Hauer está sensacional como o frio e assustador Roy, que busca desesperadamente encontrar uma forma de prolongar sua existência, já programada anteriormente para durar apenas quatro anos. Por outro lado, o ambíguo personagem demonstra “humanidade” no terceiro ato, quando salva Deckard e mostra seus sentimentos mais puros e sinceros, além de levantar questões profundas sobre a existência de cada ser no universo. Seu lado emocional fica ainda mais evidente quando sua amada Pris (Daryl Hannah) é assassinada por Deckard, provocando seu emotivo beijo de despedida. A tensa seqüência em que Roy mata Tyrell (Joe Turkell) é de um simbolismo tremendo. A perversidade da inteligência humana é colocada em cheque. Até mesmo a coruja é criada artificialmente na casa dos Tyrell. Insatisfeita com sua existência sem sentido, a criatura mata o criador. Afinal de contas, que sentido tem uma vida programada apenas para ser escravizada e com tão pouco tempo de existência? Em seguida, Roy aparece iluminado em um plano poderoso que reflete sua satisfação.

Quando descobrimos que as memórias de Rachel (brincadeira de médico, as aranhas) são implantadas, as reflexões que o filme sugere se tornam mais evidentes. As memórias dela, na realidade, são da sobrinha de Tyrell, o gênio que criou os replicantes. Tyrell limitou a existência destes seres em apenas quatro anos ao prever que poderiam desenvolver sentimentos próprios e o choro de Rachel ao descobrir toda a verdade comprova esta teoria. E é curioso pensar o que aquele ser, humano ou não, estaria sentindo naquele momento, nos levando a questionar até que ponto é justo o ser humano criar outro ser desta forma. Deckard, ao descobrir que seria incapaz de eliminar Rachel, decide fugir com ela, mesmo sabendo que a moça não sobreviveria por muito tempo. “É uma pena que ela não viverá, mas quem vive”, é a frase final de Gaff (Edward James Olmos), que remete a discussão central do filme, sobre a natureza finita de nossa existência.

Então chegamos ao dilema de “Blade Runner”, enriquecido pela bela discussão filosófica que o longa propõe. Seria Deckard é um replicante? Durante toda a narrativa são espalhadas dicas sobre a origem dele, mas de uma forma tão sutil que provavelmente a maioria dos espectadores não consegue notar. Primeiro, o texto que abre o longa diz que seis replicantes estão soltos na terra (três homens e três mulheres). Os quatro primeiros são logo identificados, mas o quinto só é revelado quando descobrimos que Rachel é uma replicante. Acontece que ela não sabe disso, pois foi utilizada como cobaia em experimentos de implante de memória e pensa ter tido uma infância. Sendo assim, não podemos descartar a hipótese de que Deckard também tenha memórias implantadas em sua mente. Além disso, quem garante que o sexto replicante realmente teria sido queimado quando invadiu a empresa Tyrell? É provável que seja apenas uma estória inventada pela policia para não levantar suspeita sobre a origem replicante de Deckard. Não podemos negar que é extremamente inteligente por parte da policia utilizar um replicante para caçar outros replicantes, já que ele se iguala em força e agilidade com os demais. Mas porque os policiais deixariam Deckard escapar? Ora, Gaff, o policial que faz origamis, deixa um unicórnio para Deckard momentos antes de sua fuga com Rachel. Como Gaff poderia saber desta passagem remota da vida dele, lembrada apenas em sonhos por Deckard? Este é o claro sinal de que ele pode ser um replicante e os policiais sabiam disso. Como podemos perceber, o filme levanta possibilidades, mas não as confirma. É o espectador quem deve buscar as respostas, o que é genial. Mas “Blade Runner” vai além, se aprofundando também em questões filosóficas sobre a existência humana. O que é ser um humano? De onde viemos e para onde vamos? A marcante frase de Roy no belíssimo diálogo que tem com Deckard (“Eu vi coisas que ninguém acreditaria. Todos esses momentos ficarão perdidos no tempo, como lágrimas na chuva”) resume bem o dilema de nossa existência. Por mais que existam meios de registrar fatos importantes (livros, vídeos, fotografias), muitas passagens importantes da vida de cada ser humano serão simplesmente apagadas do universo quando este deixar de existir.

Utilizando um mundo futurista incrivelmente sombrio que é apontado claramente como resultado das atitudes tomadas no passado pela humanidade, “Blade Runner – O Caçador de Andróides” levanta ainda muitas questões interessantes e profundas sobre a natureza da existência humana. O que acontecerá com cada um de nós quando a escuridão da morte chegar? De onde viemos? Para onde vamos? O que fizemos aqui será simplesmente apagado, “como lagrimas na chuva”? As respostas serão encontradas por cada espectador, de sua própria maneira. E esta é a beleza deste grandioso clássico, que marcou a ficção-científica e o cinema para sempre.

Texto publicado em 13 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira

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9 Respostas to “BLADE RUNNER – O CAÇADOR DE ANDRÓIDES (1982)”

  1. claravix Says:

    Republicou isso em Estética e Arquitetura.

  2. Alexandre Costa Says:

    Vc não citou uma linha sobre a marcante trilha sonora de Vangelis. Concerteza, uma das mais belas feitas na história do cinema. Abraço!

  3. Fernando Assunção Says:

    Acabei de assistir o filme a já sai buscando outros pontos de vista sobre ele, e me impressionei com a grandiosidade da obra, ele é lindo, reflexivo e pelo menos para mim, muito emocionante.
    E esta analise me ajudou a admira-lá mais ainda. Parabéns.

  4. laranjamecanica6 Says:

    Está na minha lista de melhores filmes.
    Bjus!

  5. OS DUELISTAS (1977) « Cinema & Debate Says:

    […] deslumbrante (que seria aprimorado em “Alien, o oitavo passageiro” e, especialmente, em “Blade Runner”) e os elegantes movimentos de câmera. Além disso, apresenta a envolvente história de dois […]

  6. Betty Gaeta Says:

    Parabéns! O texto está muito bom. O filme é o meu favorito, então sou suspeita para opinar sobre o mesmo. Espero que vc de sequencia às críticas, pois quem gosta de cinema com certeza vai gostar do blog.

    • Roberto Siqueira Says:

      Muito obrigado Betty! Fico feliz que tenha gostado da crítica. E tenha certeza que vou continuar escrevendo sobre cinema. É minha paixão. Um abraço, seja bem vinda ao Cinema & Debate e volte sempre.

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