TOP GUN – ASES INDOMÁVEIS (1986)

(Top Gun)

 

Videoteca do Beto #46

Dirigido por Tony Scott.

Elenco: Tom Cruise, Kelly McGillis, Val Kilmer, Anthony Edwards, Tom Skerritt, Meg Ryan, Michael Ironside, John Stockwell, Barry Tubb, Rick Rossovich, Tim Robbins, Clarence Gilyard Jr., Whip Hubley e James Tolkan.

Roteiro: Jim Cash e Jack Epps Jr..

Produção: Jerry Bruckheimer e Don Simpson.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Tony Scott escolheu a dedo o roteiro de “Top Gun – Ases Indomáveis”, sabendo que teria em mãos a oportunidade perfeita de fazer fama e arrecadar milhões em bilheteria. Explorando muitos clichês, o longa nada mais é do que uma estória comum feita para alçar ao sucesso o na época jovem e ascendente Tom Cruise. E Scott é hábil nesta tarefa, utilizando todos os recursos que podia para não falhar. O resultado é um filme convencional, que não deixa ter momentos interessantes – principalmente quando explora as ótimas seqüências aéreas – mas jamais alcança um resultado expressivo ou memorável.

Pete Mitchell, conhecido como Maverick (Tom Cruise), é um jovem e promissor piloto de caça que, ao lado de seu grande amigo Nick “Goose” Bradshaw (Anthony Edwards), ingressa na Academia Aérea norte-americana, especializada em desenvolver os melhores pilotos e conhecida como Top Gun. Ao chegar lá, se envolve com a bela instrutora Charlotte Blackwood (Kelly McGillis) ao mesmo tempo em que enfrenta um duelo particular com outro excepcional piloto, conhecido como Iceman (Val Kilmer).

Como podemos perceber, “Top Gun” parece ter apenas um propósito: alçar o então candidato a astro de Hollywood Tom Cruise ao estrelato e, conseqüentemente, arrecadar milhões nas bilheterias. E o roteiro nada criativo, escrito por Jim Cash e Jack Epps Jr., explora diversos clichês sem nenhum pudor para alcançar seu objetivo. Temos o jovem galã e promissor que, devido ao trauma do passado relacionado à morte do pai, não tem medo e nem juízo, mas que por outro lado, é incrivelmente bom no que faz. Temos também a garota (no caso uma mulher mais madura) que obviamente se envolverá com o mocinho e o antagonista chato, que parece existir somente para gerar conflito com o protagonista sem aparente justificativa, e que obviamente, ficará amigo dele no previsível final. Finalmente, temos as músicas joviais e românticas da bela trilha sonora de Harold Faltermeyer, que ficam grudadas na memória do espectador, fazendo-o lembrar do filme sempre que as escuta (e na época a romântica “Take my breath away”, do grupo Berlin, foi tocada exaustivamente nas rádios). Somente para reforçar o argumento, repare as inúmeras vezes em que Scott utiliza o close em Tom Cruise, freqüentemente de óculos escuros, alternando com planos americanos (da cintura pra cima) do astro sem camisa, claramente explorando o carisma (e os músculos) do jovem ator para atrair o público feminino, como fica evidente na cena do jogo de vôlei, que nada mais é do que puro exibicionismo dos jovens galãs. Até mesmo a tensa e triste morte de Goose não escapa ao clichê da morte do melhor amigo que serve como ponto de virada na vida do protagonista, simbolizada perfeitamente na cena em que Maverick joga as cinzas do parceiro no mar. E nem mesmo o treinamento dos pilotos soa convincente, jamais transmitindo a esperada dificuldade que um piloto deveria enfrentar para alcançar o nível de excelência exigido numa profissão como esta.

Mas “Top Gun” também tem seus pontos positivos, começando pelo excelente trabalho de som, perceptível principalmente nas sensacionais seqüências aéreas, captando perfeitamente o barulho dos aviões rasgando o céu. A boa montagem de Chris Lebenzon e Billy Weber colabora nestas seqüências empolgantes, onde o diretor Tony Scott cria belos planos, auxiliado também pela direção de fotografia de Jeffrey L. Kimball e pelos efeitos visuais. O diretor abusa do lindo visual durante os vôos, aproveitando o universo de belas imagens que o céu proporciona para filmar de ângulos interessantes como a frente, a asa e a cauda dos aviões. Em outro momento, Scott dá um close em Cruise quando este fala do falecido pai, realçando a tristeza em seu rosto ao pensar na misteriosa morte dele. Tom Cruise, aliás, que tem boa atuação, demonstrando a costumeira energia na pele do rebelde Maverick, apesar de abusar dos intermináveis sorrisos (obviamente, buscando se afirmar como galã). Repare como ele sorri levemente ao ouvir que vai para a escola especial “Top Gun”, pois sabia que aquela era a oportunidade da sua vida de provar a qualidade que tinha como piloto, além de poder enfrentar o passado traumático. Seu desempenho cresce na parte final, após perder o amigo e partir para superar o trauma da perda enigmática de seu pai. Mas infelizmente, o roteiro previsível não exige muito do elenco. Goose, interpretado por Anthony Edwards, é um bonachão infantil que tem a única função de provocar o riso forçado no espectador e a maioria de seus fracos diálogos com Maverick não empolga, como quando falam sobre o Mig invertido. Val Kilmer está caricato e exagerado na pele do unidimensional Tom Kazanski, o “Iceman”, que só tem dois momentos humanos durante toda a narrativa. O primeiro é quando respeita a dor de Maverick por perder o amigo (“Sinto por Goose”) e o segundo é o previsível final, quando finalmente reconhece a qualidade do rival. Kelly McGillis vive a madura Charlotte e tem seus bons momentos, como quando diz para Cruise que não quis deixar a relação entre eles atrapalhar a profissão dela (“Não quero que saibam que me apaixonei por você”). Sua Charlotte, apesar de estar completamente apaixonada, é bastante consciente de que assumir aquela paixão poderia comprometer seu desempenho como instrutora da equipe. Tom Skerritt está excelente como o inteligente comandante Mike “Viper” Metcalf, que sabe muito bem onde Maverick pode chegar e luta para extrair o melhor do garoto. E finalmente, Meg Ryan rouba a cena nos poucos minutos em que aparece, vivendo a esposa de Goose, Carole Bradshaw. Totalmente solta e despojada, é claramente a melhor atuação do longa, transmitindo ainda muita emoção quando perde o marido. É com ela em cena que Goose e Maverick vivem um de seus melhores momentos, quando cantam juntos ao piano.

Quando Maverick se aproxima de Charlotte e canta, auxiliado por todos no bar, a canção “You’ve lost that loving feeling”, o longa de Tony Scott parece empolgar. A empolgação aumenta nas maravilhosas seqüências protagonizadas pelos caças que cortam o céu em alta velocidade. Mas infelizmente, quando a ação se passa no chão, não consegue sucesso, se limitando a uma narrativa comum e desinteressante. Não há problemas em utilizar os clichês, afinal de contas eles não se tornaram clichês à toa. O problema é a forma como estes são utilizados, e infelizmente neste caso o resultado pouco criativo não agrada, sendo salvo somente pelas seqüências aéreas citadas.

“Top Gun” não deixa nenhuma mensagem importante ou reflexão, não conta com um roteiro criativo e sequer recicla velhos clichês. Tony Scott prefere seguir o caminho contrário, abusando de fórmulas e receitas para alcançar o sucesso de bilheteria. Por isso, explora as cenas de ação envolvendo os caças para atrair o público masculino e do romance envolvendo o galã da época para atrair o público feminino. No fim das contas, o diretor conseguiu alcançar seu objetivo, mas infelizmente não conseguiu nada mais do que isso. Ao contrário dos poderosos aviões que vemos em todo o filme, “Top Gun – Ases Indomáveis” jamais alça vôos maiores.

Texto publicado em 15 de Fevereiro de 2010 por Roberto Siqueira

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32 Respostas to “TOP GUN – ASES INDOMÁVEIS (1986)”

  1. Alex Says:

    Hj assisti o filme no Clássicos Cinemark. Nunca vi o filme,nem msm em tv. Mas passando na grande tela aproveitei a ocasião. O filme é mto cheio de clichês e closes,os diálogos são bons até primeira parte do filme quando Maverick é escolhido para Top Gun,depois disso o filme fica previsível e com isso fica restrito com a função de entreter com boas filmagens e trilha sonora.

  2. joker Says:

    A crítica foi rasa e simplista. O orçamento do filme foi uma pechincha pelo que arrecadou. As cenas de combate são coreograficas e a rotina e táticas de combate jamais seriam documentas num filme em plena guerra fria.o propósito do filme não foi lançar Tom Cruise no estrelado e sim entrenter. E nisso ele faz muito bem.

  3. Lisboa Says:

    Vc tem uma boa dica de filme que trate de aviação

  4. Junior Says:

    Considerando os parcos recursos tecnológicos de informática que hoje compõe 90% dos filmes modernos, para a época esse filme foi um marco! A utilização de caças F-14 e F-05 como simulador de Mig 29. Retrata o treinamento de pilotos na Base de Miramar para formar um ranking dos melhores pilotos de caça e ressalta o enlace amoroso entre uma civil que ministra aulas e um jovem piloto. Não se pode fazer uma crítica de um filme dos anos 80 considerando todo o aparato de hoje. Digo por ter assistido “guerra ao terror” que é um filme que retrata a atualidade e que utiliza todos os meios tecnológicos que o transforma numa super produção. Por fim, pelo tipo de tecnologia que tínhamos aqui no Brasil á época (televisão de tubo e carro com carburador era um exemplo e computador ninguém sabia nem o que era) acho o filme “top gun” o melhor filme dos anos 80 pois ver uma caça como o F-14 de perto só em filme mesmo e ainda marcou uma época.

    • Roberto Siqueira Says:

      Olá Junior,
      A parte técnica do filme é boa, mas isto não serve para transformá-lo num grande filme, muito menos no melhor dos anos 80.
      A análise sempre é feita com base no que existia na época, mas um filme não é feito apenas pela parte técnica. Roteiro, direção, atuações, etc, também devem ser levados em consideração.
      Um abraço e obrigado pelo comentário.

  5. João Batista Says:

    Olá pessoal
    Me interesso por cinema, e depois de ler essa crítica tão bacana, senti vontade de expressar minha opinião também… Afinal, concordo com tudo que foi dito na crítica e se posso acrescentar mais um assunto é a participação da marinha dos Estados Unidos o que nos faz pensar que o filme é uma vitrine para recrutar jovens da época vendendo a imagem que quem está na marinha poderia ter uma vida tão estimulante como a de Maverick.
    Gostaria muito de ler uma crítica sobre o filme De Olhos Bem Fechados em que Tom Cruise e Nicole Kidman fazem um trabalho fabuloso junto com o Genial Diretor Stanley Kubrick em seu último filme.

    • Roberto Siqueira Says:

      Que bom que gostou João, fico feliz com o elogio.
      Escreverei sobre “De Olhos bem Fechados” em breve, assim que chegar em 1999.
      Abraço.

  6. cross98 Says:

    Acho esse filme muito chato

  7. Lucas Palma Says:

    Boa Noite Roberto.

    Concordo que o filme seja uma exploração absurda de clichês, mas acho que você foi ligeiramente injusto com o sucesso dessa fórmula em Top Gun – Ases Indomáveis. Ao meu ver, a trilha sonora, a fotografia, os planos, o carisma dos personagens e do próprio elenco fizeram dos meros chavões cenas “épicas”, tal como a seqüência (até mesmo desnecessária ao enredo se pensarmos bem) de Maverick andando com sua motocicleta no pôr-do-sol ao lado da pista de pouso da Academia.

    Ao meu humilde ver, Top Gun entra para o rol de grandes filmes da história do cinema justamente por se aproveitar brilhantemente do excesso de clicês.

    Abraço.

    • Roberto Siqueira Says:

      Olá Lucas.
      Respeito sua opinião, mas não concordo. Não acho que Top Gun entre na lista dos melhores nem mesmo da década de 80. Mas repito, respeito sua opinião, ok?
      Um grande abraço.

  8. Mandy Intelecto Says:

    Também não lembro muito bem!!!
    Mas é bem bunitinho…hahahahah

    Bjo

  9. Regina Says:

    Olá,
    Maverick não joga as cinzas de Goose no mar.
    O que ele atira são as dog tags (placas militares de identificação) de Goose, que Maverick havia guardado consigo.

    • Roberto Siqueira Says:

      Olá Regina.
      Me lembro dele atirando as cinzas no mar, mas se não era tudo bem. Obrigado pela contribuição.
      Seja bem vinda ao Cinema & Debate e volte sempre.

    • Regina Says:

      Obrigada vc!
      Visitarei sempre o site.
      Abraços

    • Roberto Siqueira Says:

      Fico feliz.
      Abraço.

    • Caio Pinho Says:

      sim, são as dog tags que são atiradas ao mar, no final do filme. A queda do protagonista acontece com a morte do melhor amigo, e acho que esta dor e conflito em continuar fazendo seu trabalho sem seu braço direito e fiel escudeiro, de seguir adiante o sonho que também pertencia ao amigo, é bem retratada pela a atuação e por essa parte do roteiro. O clichê maior ocorre no momento em que Maverick está em combate, após se formar na TOP GUN e está com medo, mas realiza uma manobra, e volta a ser o ás indomável que era, detona 4 caças dos 5, e recebe os louros da vitória. Não acho o filme fraco como disse, acho que poderia ser mais explorado o trauma de infancia e perda do pai, retratar mais os desafios dos pilotos na academia, mas, considerando a época, duração do filme, acho um filme clássico o suficiente para estar no rol da fama. Red Tails é um excelente filme, mas me deu mais sono do que Top Gun, talvez pelo enredo conhecido e clichês também (derivados de Top Gun, ao meu ver).

      Abçs

  10. Bruno Jungle Says:

    “Eu tenho necessidade… necessidade de voar!”

  11. Felipe Says:

    O filme é otimo, vc nao tem visão.

    • Roberto Siqueira Says:

      Olá Felipe,
      Seja bem vindo ao Cinema & Debate.
      Fiquei curioso em saber seus argumentos para dizer que não tenho visão e defender seu ponto de vista. Quando quiser dar uma opinião com base em argumentos, fique à vontade. Caso contrário, melhor nem dizer nada ok?
      Abraço.

  12. Lourran Machado Says:

    Há quem tenha este filme como seu favorito. Não eu.

    • Roberto Siqueira Says:

      Até tem boas cenas, mas o roteiro é fraco. Não está entre meus favoritos também…
      Abraço Lourran.

  13. Brasil Inteligente Says:

    Não lembro muito bem do filme, mas curti a crítica…
    Parabéns!

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