A FRATERNIDADE É VERMELHA (1994)

(Trois Couleurs: Rouge)

 

Videoteca do Beto #99

Dirigido por Krzysztof Kieslowski.

Elenco: Irene Jacob, Jean-Louis Trintignant, Jean-Pierre Lorit, Teco Celio, Jean Schlegel, Frédérique Feder, Juliette Binoche, Benoít Régent, Julie Delpy, Zbigniew Zamachowski, Samuel Le Bihen e Marion Stalens.

Roteiro: Krzysztof Kieslowski e Krzysztof Piesiewicz.

Produção: Marin Karmitz.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após falar sobre a liberdade e a igualdade, Krzysztof Kieslowski encerra a excelente trilogia das cores com este “A Fraternidade é Vermelha”, abordando o tema da amizade através da relação sincera entre um juiz aposentado e uma jovem modelo. Mantendo o apuro visual e a sensibilidade dos outros dois filmes, o longa apresenta ainda um fechamento perfeito para a trilogia, que amarra toda a narrativa com elegância e deixa o espectador com a sensação de que toda a jornada realmente valeu a pena.

A modelo Valentine (Irene Jacob) atropela um cachorro e descobre, através do endereço em sua coleira, que o cão pertence a um juiz aposentado (Jean-Louis Trintignant). Ao devolver o animal, ela descobre também que o juiz tem o estranho hábito de escutar as conversas telefônicas de seus vizinhos, o que provoca repulsa na garota. Mas, com o passar do tempo, eles acabaram desenvolvendo uma bela amizade, que passaria por cima dos defeitos de cada um.

Após empregar um tom bastante melancólico em “A Liberdade é Azul” e flertar com o bom humor (na realidade, humor negro) em “A Igualdade é Branca”, Krzysztof Kieslowski equilibra tudo neste “A Fraternidade é Vermelha”, que narra à história da alegre Valentine e do amargo juiz aposentado que ela conhece. E depois da direção econômica de “A Igualdade é Branca”, Kieslowski volta a empregar movimentos de câmera muito elegantes, como os travellings que saem da rua e vão até os apartamentos de Valentine e Auguste (Jean-Pierre Lorit) no inicio do filme e logo após ela sair chorando da casa do juiz, além dos curiosos planos subjetivos que acompanham o som através dos fios de telefone na abertura do longa, indicando a importância deste aparelho na trama, ou o plano do farol do carro dela, momentos antes do atropelamento que mudaria tantos destinos. O diretor cria ainda belos planos, como quando Valentine recusa o beijo do fotógrafo (Samuel Le Bihen) sob o domínio das sombras na tela ou durante o ensaio fotográfico da garota, além de apresentar um interessante movimento de câmera, simulando a queda do livro que ajudou o juiz a passar numa importante prova no passado. E assim como nos filmes anteriores, Kieslowski repete o curioso momento em que uma velinha tenta jogar uma garrafa no lixo. Só que aqui, ao contrário de Karol e Julie, Valentine ajuda a velha senhora, numa ação que reflete sua própria felicidade, o que não acontecia com os outros dois personagens citados. O que a velinha estava fazendo em Genebra se nos outros dois filmes ela estava em Paris? Não importa. Como já afirmei antes, vejo o cinema de Kieslowski como um cinema de sensações. Não precisamos entender certas coisas, apenas sentir. E são as sensações provocadas no espectador e os sentimentos dos personagens que ligam os três filmes, não apenas a história deles.

Mantendo o apuro visual e o rigor estético da trilogia, a excelente fotografia de Piotr Sobocinski obviamente destaca o vermelho neste último filme, completando as cores da bandeira francesa e o lema da revolução. Além disso, a ótima direção de arte espalha pela narrativa diversos objetos vermelhos, como a fachada do café na rua, o carro de Auguste, a saia de Valentine na academia, os assentos do teatro, os detalhes das fotos no ensaio dela e, principalmente, o fundo da foto da propaganda de chicletes protagonizada pela garota. Além disso, a velha e mal cuidada casa do juiz, pouco iluminada e com cores sem vida, reflete a personalidade sombria de seu dono, que fica evidente quando ao ouvir Valentine dizer pra ele que “só falta parar de respirar”, o juiz responde que “é uma boa idéia”. Também mantendo o padrão da trilogia, a trilha sonora de Bertrand Lenclos é bela e econômica, pontuando apenas alguns momentos especiais, como o choro de Valentine após ouvir o juiz falar do problema de seu irmão com as drogas ou quando o tom sombrio da trilha acompanha a escalada de Auguste no apartamento da ex-namorada Karin (Frédérique Feder), momentos antes de vê-la transando com outro pela janela.

Com inteligência, o roteiro escrito por Krzysztof Kieslowski e Krzysztof Piesiewicz intercala as histórias de Valentine e Auguste, duas pessoas que sequer se conhecem, mas que se cruzam pelo caminho em diversos momentos da vida, e acertadamente mantém o foco da narrativa na garota, o que é mérito também da excelente montagem de Jacques Witta, que emprega um ritmo mais dinâmico que o adotado em “A Liberdade é Azul” e mais lento que o empregado em “A Igualdade é Branca”, reforçando o tom equilibrado de “A Fraternidade é Vermelha”. Desta forma, podemos acompanhar a trajetória da bela Valentine, interpretada por Irene Jacob, que se sai bem com seu jeito dócil, bastante coerente com a espirituosa personagem. Sempre sorridente e apaixonada pelo ciumento namorado Michel (que está viajando), Valentine transforma o velho juiz com seu espírito alegre e a atriz demonstra isto com competência em seu semblante. Esta mudança começa no momento em que Valentine atropela um cachorro, que ela descobriria ser do cético juiz, iniciando um relacionamento que se transformaria numa grande amizade em pouco tempo. Só que a relação não começa bem. Ao descobrir que o juiz escuta as conversas telefônicas dos vizinhos, ela decide contar para um deles (que tem um caso extraconjugal), mas desiste da idéia ao ver a família do homem na casa. Em seguida, o juiz fala sobre os problemas do irmão dela e Valentine desaba, num choro que faria o juiz se arrepender e se entregar, desencadeando diversas mudanças na vida deles e de outros personagens. Jean-Louis Trintignant também está muito bem, demonstrando a amargura do velho juiz em sua voz e seu semblante pesado, se transformando lentamente através do convívio com Valentine. Traumatizado pela profissão que escolheu e pelas decisões que tomou no passado, o juiz tenta justificar sua atitude ao dizer que antes não sabia quem estava certo, mas agora sabe quem tem razão, graças à escuta telefônica. Este trauma fica ainda mais evidente quando ele afirma, numa conversa tocante com Valentine, que poderia ter feito como no caso do marinheiro absolvido (que era culpado), que acabou construindo uma família depois (“Quantos outros eu poderia ter salvado?”, questiona). Mas, de alguma forma misteriosa, o juiz se comove com a reação de Valentine e se entrega, provocando a revolta dos vizinhos, que começam a atirar pedras na casa dele. Só que ele não guarda mágoa. Parece compreender aquelas pessoas e até guarda as pedras, como uma espécie de troféu, que simboliza sua atitude corajosa ao se entregar (“No lugar deles eu faria a mesma coisa”, diz, se referindo também aos que foram condenados por ele no passado). E nestas enormes coincidências da vida (o tema principal da trilogia), a decisão do juiz transformaria também a vida de Auguste, agora formado e responsável por julgar o caso do velho juiz, que, por sua vez, determinou o fim de seu namoro ao decidir se entregar – algo indicado num plano sutil no boliche, quando um travelling para a esquerda revela um copo de cerveja quebrado e o local abandonado (momentos antes, nós acompanhamos Auguste e a namorada combinando a ida ao boliche, mas ele não compareceu e ela acabou conhecendo outro homem).

Como podemos notar, a presença do acaso é ainda mais forte neste terceiro filme da trilogia. O que teria acontecido com todas aquelas pessoas se Valentine não tivesse atropelado o cachorro? Nunca saberemos. Kieslowski parece acreditar que a vida é feita de uma sucessão de coincidências, moldadas por uma força maior, que podemos interpretar como Deus, como destino ou como o que quer que seja. Mas o fato é que nos três filmes, acreditamos estar vendo pessoas reais e não personagens, que enfrentam problemas do cotidiano e que estão sujeitas ao acaso, seja este um acidente de carro, uma amizade feita no metrô ou uma amizade que surge de um atropelamento. E a verdade é que a amizade entre Valentine e o velho juiz se consolida naturalmente, como acontece na vida e não como usualmente acontece nos filmes. A prova da consolidação da amizade acontece quando o juiz vai assistir ao desfile de Valentine, onde uma conversa franca entre eles revelará muito sobre aquele homem. A traição da esposa o deixou amargo, mas, em outra coincidência da vida, o homem que conquistou sua mulher seria julgado e condenado por ele, que se aposentaria logo em seguida. Nesta mesma conversa, a linha tênue entre a amizade e o amor fica evidente quando o juiz diz que talvez não tenha conhecido Valentine na época certa, ao falar dos traumas amorosos do passado. Ao associar a cor vermelha, que simboliza a paixão, ao filme que aborda o tema da amizade, “A Fraternidade é Vermelha” parece dizer que a distancia entre o sentimento de amor e o de amizade não é tão grande assim. São sentimentos que exigem comprometimento, respeito, compreensão, admiração e muitas outras qualidades, e só se diferenciam pela questão da atração física, nada mais.

E assim como no boliche, um close num copo (agora no teatro) indica um evento futuro, revelando a tempestade que se aproxima e que ligará definitivamente os personagens dos três filmes. E da mesma forma que Valentine sabe que o juiz se entregou através de uma notícia no jornal, é no jornal que ele lê sobre a tempestade e a tragédia envolvendo a balsa na qual Valentine viajava no canal da Mancha, que também afundou um iate, com a ex-namorada de Auguste e seu novo parceiro. Observe novamente a sutileza da narrativa ao abordar as surpresas do destino, ao constatar que o sofrimento de Auguste por perder a namorada agora se transformaria em alívio ao descobrir que era ele quem deveria estar no iate ao lado dela. E é aí que a trilogia das cores se torna ainda mais intrigante e a razão para a escolha destas três histórias faz ainda mais sentido, quando os sete sobreviventes do acidente da balsa são anunciados na televisão. São eles: Julie, Karol, Dominique, Olivier, o barman Steven, o juiz Auguste e Valentine. É mágico ou não é? Kieslowski amarra toda a trilogia com elegância e, pra completar, compõe um plano belíssimo com a imagem de Valentine saindo do barco, que remete ao cartaz da propaganda que ela fez e encerra a trilogia das cores.

Tratando de seres humanos, com qualidades e defeitos, e também do acaso (ou destino) que afeta todos nós, a bela trilogia das cores é cinema da mais alta qualidade, destes que não explicam muita coisa, preferindo deixar o espectador interpretar cada obra à sua maneira. Com sensibilidade e competência, Kieslowski fecha sua trilogia nesteA Fraternidade é Vermelha”, questionando os valores da revolução francesa e mostrando que os seres humanos são imperfeitos, mas é justamente nesta imperfeição que está a graça de todos nós, seres capazes de amar e odiar, chorar e sorrir, se alegrar e sofrer. Isto nada mais é do que viver.

Texto publicado em 29 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira

A IGUALDADE É BRANCA (1994)

(Trois Couleurs: Blanc)

 

Videoteca do Beto #98

Dirigido por Krzysztof Kieslowski.

Elenco: Zbigniew Zamachowski, Julie Delpy, Janusz Gajos, Jerzy Stuhr, Aleksander Bardini, Jerzy Trela, Jerzy Nowak, Cezary Harasimowicz, Michel Lisowski e Juliette Binoche.

Roteiro: Krzysztof Kieslowski e Krzysztof Piesiewicz.

Produção: Marin Karmitz.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após associar a sensação de liberdade à perda no belo “A Liberdade é Azul”, Krzysztof Kieslowski resolveu abordar o segundo tema do lema da revolução francesa, através da história de um casal em separação, formado por uma jovem francesa e por um polonês. Mas, ao apostar numa narrativa mais leve e bem humorada, o diretor faz deste “A Igualdade é Branca” o filme mais fraco da trilogia, o que não significa dizer que o longa não tenha muitas qualidades.

O polonês Karol (Zbigniew Zamachowski) decide voltar à Polônia após se divorciar de sua esposa Dominique (Julie Delpy), com quem vivia em Paris. Apósvoltar à terra natal, Karol consegue ganhar muito dinheiro e decide se vingar da esposa de uma maneira bastante diferente e criativa.

Ao contrário do triste filme inicial da trilogia das cores, este “A Igualdade é Branca” apresenta uma história mais leve, apesar de também conter muitos momentos intimistas, que demonstram a dor de seu personagem principal, um homem completamente apaixonado por sua esposa, mas que não consegue consumar esta paixão sexualmente. Claramente investindo num tom mais cômico, o roteiro escrito pela dupla Krzysztof Kieslowski e Krzysztof Piesiewicz, responsável por toda a trilogia, aborda sutilmente a dificuldade que cidadãos estrangeiros enfrentam tanto em Paris como em Varsóvia (e na maioria das grandes cidades do mundo), como fica evidente na dificuldade tanto de Karol quanto de Dominique quando são interrogados fora de seu país. Quando Karol questiona se o fato de não falar francês é motivo para não ouvir seus argumentos, na realidade o longa está questionando onde está a igualdade pregada pelo lema da revolução francesa. A igualdade existe para aqueles que são iguais, não para os que são diferentes. Só que o lado crítico não tem grande destaque na narrativa, que pende mais para o bom humor que nos outros dois filmes, com muitos momentos de alivio cômico, como quando Karol diz para Mikolaj (Janusz Gajos) sobre sua esposa apontando para um prédio ao sair do metrô e Mikolaj pergunta se sua ex-esposa é “Brigitte Bardot”, por causa do cartaz de “O Desprezo” ao lado do apartamento dela. Além deste momento, podemos citar muitos outros em que o riso contido é inevitável no espectador, como quando Mikolaj diz que havia um amigo dentro da mala extraviada no aeroporto e quando Karol diz que está em casa, após apanhar muito dos homens que roubaram sua mala e o encontraram lá dentro.

Também fugindo um pouco do padrão estabelecido no longa anterior, Kieslowski apresenta uma direção convencional, com poucos movimentos de câmera estilizados, apresentando planos mais discretos e menos inspirados que nos outros dois filmes. Ainda assim, o longa inicia com um curioso plano subjetivo, que acompanha uma mala pelas esteiras de um aeroporto, intercalando com imagens do polonês Karol, que se dirige a um tribunal de Paris, onde será confirmado o seu divórcio, para sua tristeza e dor. Mas nem tudo é tão diferente em “A Igualdade é Branca” e novamente Kieslowski abusa de closes e planos mais fechados, que realçam as reações dos personagens e nos aproximam deles, além de novamente utilizar o close para destacar objetos, como um copo de vodka e uma lista telefônica. Também estão presentes os momentos que remetem aos outros filmes da trilogia, como a rápida aparição de Julie (Juliette Binoche) no tribunal e a velinha que tenta colocar uma garrafa de vidro no lixo, observada atentamente pelo triste Karol, que tinha acabado de se separar e ouvir o banco dizer que seu cartão de crédito expirou. Assim como Julie, ele não tinha forças para ajudar aquela senhora (o que não aconteceria com a protagonista do terceiro filme da trilogia), mas pelo menos Karol notou sua presença, algo que Julie não fez. Auxiliado pela montagem de Urszula Lesiak, o diretor procura manter o foco da narrativa na vida de Karol, deixando Dominique de lado na maior parte do tempo, mas faz questão de ressaltar a importância que ela ainda tem na vida dele através de pequenos momentos simbólicos, como quando Karol beija uma estátua, evidenciando sua solidão numa cena silenciosa e tocante. Aliás, o silêncio predomina grande parte da narrativa graças à ausência da trilha sonora de Zbigniew Preisner, que, por outro lado, sempre que aparece, procura ilustrar os sentimentos dos personagens, como quando embala os felizes amigos poloneses na neve, após a tocante cena em que um tiro de festim tirou a idéia de suicídio da cabeça de Mikolaj. Após o tiro de Karol, ambos estavam aliviados e prontos para seguir em frente, algo reforçado pela fotografia clara de Edward Klosinski, que destaca o branco através da neve. Aliás, mantendo o rigor estético da trilogia, a cor branca tem destaque na maior parte da narrativa, numa óbvia referência ao nome do filme (o que também contribui para o citado clima leve do longa). Ainda assim, Klosinski sabe variar do tom leve para momentos sombrios, como quando Karol caminha sozinho na beira de um rio após chegar à Polônia ou quando ele compra um cadáver para simular a própria morte. E curiosamente, ainda que priorize a cor branca, o visual pouco colorido e os figurinos tristes e sem vida, que normalmente usam cores escuras, mantém uma atmosfera melancólica sob aquela superfície bem humorada, que ilustra bem o personagem principal, feliz e bem sucedido em sua volta à Polônia, mas ainda sofrendo por sua amada esposa.

Interpretada pela bela Julie Delpy, Dominique é a mulher responsável por todo este sofrimento de Karol, que só acontece porque, após o casamento, ele não consegue consumar a relação sexualmente, fazendo com que a jovem exija a separação. Após conseguir o divórcio na justiça, ela se vê livre para buscar outra pessoa, mas ainda tem um último encontro com Karol quando volta pra casa, numa tentativa desesperada daquele homem de manter a mulher que ama – o que não acontece porque ele novamente não consegue transar com ela. Demonstrando bem o quanto Dominique ainda deseja Karol através de seu olhar, sofrendo por não tê-lo como gostaria, Delpy mistura este olhar fatal com um ar de crueldade, evidenciando que ela certamente ama Karol, mas não se conforma com a falta de sexo e por isso decide deixá-lo. Esta crueldade vem à tona quando Dominique geme enquanto conversa com o ex-marido por telefone, deixando clara a razão pela qual o deixou pra trás. Triste e deprimido, Karol acaba pedindo esmola no metrô de Paris e, ironicamente, esta atitude mudaria novamente o seu destino e o de sua mulher, pois será ali que ele conhecerá o amigo Mikolaj. Após retornar à Polônia, Karol decide recomeçar a vida e, mostrando esperteza para lidar com o mundo dos negócios, acaba comprando um terreno antes dos interessados e revendendo por um valor dez vezes maior (“Só preciso de dinheiro”, responde ao ser acusado de ser desonesto), o que lhe permite abrir uma empresa e convidar o amigo Mikolaj, cedendo 30% do negócio pra ele. Momentos antes, ele havia acabado de salvar o amigo, que estava decidido a suicidar-se e desiste da idéia após um disparo com bala de festim, numa bela cena, conduzida em câmera lenta e sem trilha sonora por Kieslowski, que, desta forma, mantém uma atmosfera fria e realista e evita o melodrama. Aliás, a amizade entre Karol e Mikolaj é vital para o sucesso da narrativa é a dupla Zbigniew Zamachowski e Janusz Gajos se sai muito bem na tarefa. Aqueles dois homens sofrem por razões diferentes, e encontram nesta amizade uma força extra para sobreviver (“Todos nós sofremos”, diz Karol, e Mikolaj responde: “Eu sei, mas quero sofrer menos”).

Só que mesmo bem sucedido, Karol ainda pensa em Dominique e sofre por ela, como atesta o momento em que liga somente para escutar sua voz – e Zamachowski demonstra bem a emoção do personagem neste momento, especialmente quando ela desliga e o deixa novamente sozinho. Sem alternativa e desesperado para chamar a atenção dela, Karol decide simular a própria morte e deixar toda sua herança para Dominique, num momento de puro humor negro que novamente atesta o tom leve de “A Igualdade é Branca”. Para isto, conta com a ajuda de Mikolaj, que retribui a ajuda de Karol na hora de sua “morte” (repare que ambos colaboram com a suposta morte do outro, mas nos dois casos eles continuam vivos). Mas quando Karol observa a tristeza de Dominique no enterro, ao invés de se sentir bem (como provavelmente imaginou que aconteceria) ele fica triste, ao constatar que ela realmente o amava e não veio apenas por causa da herança. Por isso, decide aparecer para ela no quarto, provocando um susto enorme na moça, numa cena em que vale destacar a reação verossímil de Delpy ao vê-lo, bastante assustada e confusa com o que está acontecendo. Após o susto, eles se beijam e finalmente fazem amor, num momento em que as sombras tomam conta da tela, chegando a escurecê-la completamente, mas ficando totalmente clara quando Dominique chega ao tão sonhado orgasmo, somente para voltar à escuridãoem seguida. Umplano então destaca as mãos dadas do casal, indicando uma volta da relação que não acontece, porque Karol ainda tinha o desejo de vingança dentro dele. Após o sexo, Dominique dorme em lençóis vermelhos que simbolizam a volta da paixão, mas Karol já havia sumido e armado a prisão da ex-mulher, agora suspeita de participar de sua “morte”, consumando sua vingança (que teve um sabor ainda mais especial porque ela confessou ao amigo Mikolaj que o ama no telefone).

Quando a polícia invade o quarto e prende Dominique por suspeitar de sua participação no “assassinato” do marido, temos também a chave para compreender o tema de “A Igualdade é Branca”. Assim como no julgamento de Karol em Paris, o idioma é uma barreira para Dominique, que escuta as palavras do policial em polonês e é obrigada a aguardar a tradução para o francês, numa situação inversa ao julgamento que determinou a separação do casal. Também sendo discriminada fora de sua terra natal, ela é condenada e vai para a prisão, onde é visitada por Karol a distancia. Só que ao vê-la gesticulando, dizendo que não vai fugir e vai ficar na Polônia com ele, Karol se emociona, comprovando que ainda a ama, assim como ela também o ama. Após a vingança, eles estavam “quites”, estavam “iguais” e livres novamente para amar.

Ligeiramente mais leve que os outros dois filmes da trilogia das cores, “A Igualdade é Branca” mantém as melhores características do cinema de Kieslowski, ao contar com sensibilidade a história de um casal que se ama de verdade, mas que não consegue consumar este amor por diversas situações inusitadas. Novamente, o acaso interfere na vida dos personagens, as imagens falam mais do que as palavras e as sensações transmitidas ao espectador valem mais do que qualquer outra coisa. Novamente, o diretor questiona um dos lemas da revolução francesa, mas não de maneira ácida, preferindo uma forma mais delicada e singela, em outro filme repleto de simbolismos que abre muitas possibilidades de interpretação. E novamente, é o espectador quem sai ganhando. Se Dominique e Karol agora estavam iguais, certamente os cinéfilos têm uma enorme dívida com o grande diretor polonês.

Texto publicado em 26 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira

Nova página: Charles Chaplin

Olá cinéfilos,

Há alguns meses, mais precisamente no fim do ano passado, fiz uma semana especial sobre “Chaplin” e escrevi sobre alguns dos filmes mais importantes de sua carreira. Só que, ao contrário do que fiz nas semanas Alfred Hitchcock e Disney, não preparei uma página a respeito deste gênio da história do cinema.

Por isso, corrijo esta falha hoje, divulgando a página oficial sobre Charles Chaplin, que vocês poderão acessar sempre que quiserem no link permanente (página inicial, lado direito).

Um abraço.

Texto publicado em 24 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira

Um dos melhores agradecimentos da história do OSCAR

Joe Pesci, no Oscar 1991.

Para ver o vídeo, clique aqui. O Youtube não autorizou a incorporação.

Grande abraço.

Texto publicado em 23 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira

Nova página: Walt Disney

Olá pessoal,

Assim como fiz com o especial sobre Alfred Hitchcock, decidi transformar em página o post original sobre a semana “Disney”. Desta forma, sempre que vocês quiserem, poderão acessar a matéria e até mesmo as críticas divulgadas direto no link (página inicial, lado direito).

Um abraço.

Texto publicado em 20 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira

TRAMA MACABRA (1976)

(Family Plot)

 

Filmes em Geral #67

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: Barbara Harris, Bruce Dern, William Devane, Karen Black, Ed Lauter, Cathleen Nesbitt, Katherine Helmond, Edith Atwater e William Prince.

Roteiro: Ernest Lehman, baseado em obra de Victor Canning.

Produção: Alfred Hitchcock.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Em seu filme de despedida, Alfred Hitchcock entrega um thriller divertido, que, se não alcança a mesma qualidade de suas grandes obras, também está longe de ser uma decepção. Com sua atmosfera leve e personagens carismáticos, “Trama Macabra” consegue agradar ao espectador, além de apresentar cenas memoráveis, com a marca registrada do mestre do suspense.

Arrependida por ter forçado sua irmã já falecida a doar o filho na juventude, a Sra. Julia Rainbird (Cathleen Nesbitt) oferece uma recompensa para a médium Madame Blanche (Barbara Harris) reencontrá-lo. Com a ajuda de seu parceiro George Lumley (Bruce Dern), a falsa vidente começa a procurar o sobrinho, numa busca que trará à tona acontecimentos macabros do passado. Paralelamente, o joalheiro Arthur Adamson (William Devane) e sua parceira Fran (Karen Black) seguem fazendo fortuna com seqüestros muito bem orquestrados. De alguma maneira, os caminhos destes dois casais se cruzarão.

Ainda que tenha cenas tensas, “Trama Macabra” apresenta uma narrativa leve, recheada de humor negro e bastante divertida. Escrito por Ernest Lehman, baseado em romance de Victor Canning, o roteiro é repleto de tiradas, muito bem exploradas pelo elenco, especialmente por Barbara Harris, que aproveita os aspectos cômicos da profissão de Madame Blanche Tyler, nos fazendo rir com seus olhares por entre os dedos e gritos durante as sessões, além de se sair muito bem, por exemplo, ao mal conseguir conter a euforia com a oferta da Sra. Rainbird, logo na primeira cena. Demonstrando excelente química com Harris, Bruce Dern vive o engraçado taxista Lumley, que se divide entre ajudar sua amante maluca e tentar manter o emprego que, afinal de contas, garante seu sustento. Dern se destaca, entre outros momentos, quando Lumley finge ser um advogado, interrogando pessoas na busca de informações (sua pose, com o cachimbo no canto da boca, é hilária). Quem também se sai bem é William Devane, com seu tom de voz baixo e seu aspecto sempre sereno, que demonstra um autocontrole coerente com o metódico Arthur, um ser capaz de planejar a morte dos pais e simular a própria morte. E, fechando os destaques do elenco, Karen Black vive Fran, a falsa loira gelada da vez (repare que ela guarda a peruca dentro da geladeira), que tenta convencer o amante a deixar aquela vida criminosa ao mesmo tempo em que não consegue deixar de se envolver em seus próximos seqüestros.

Apesar do tom sombrio durante a primeira sessão de Madame Blanche, a trilha sonora de John Williams emprega um tom alegre na maior parte do tempo, o que soa coerente com o humor negro que recheia a trama. Também na primeira sessão, o sofá e as flores vermelhas da sala da Sra. Rainbird tornam o ambiente aconchegante e, ao mesmo tempo, indicam o futuro violento daquele pedido dela, o que, somado ao criativo cativeiro na garagem da casa de Arthur, demonstra o bom trabalho de direção de arte de Henry Bumstead. Ainda na parte técnica, destaque para os figurinos da eterna colaboradora de Hitchcock, Edith Head, que, com as roupas coloridas e espalhafatosas de Blanche, reforça o clima leve do longa.

Na direção, além de extrair boas atuações de todo o elenco, Alfred Hitchcock conduz a narrativa de maneira direta, o que sempre facilita a compreensão da platéia. Apesar disso, a descida sem freios de Lumley e Blanche pela estrada (uma das melhores seqüências do longa) pode soar datada, talvez pelos efeitos pouco verossímeis, que dão a sensação de que o veículo passa dentro dos carros e motos que sobem o monte. Por outro lado, é inegável que a cena ainda consegue prender a respiração daqueles que embarcam no clima leve da história, sem levar tudo muito a sério. Também merece destaque o interessante plano geral que mostra a viúva de Maloney (Katherine Helmond) tentando escapar de Lumley no cemitério. Pressionada pelo taxista, ela acaba confessando o crime do marido e entregando o segredo de Arthur. Hitchcock demonstra ainda seu enorme domínio da linguagem cinematográfica quando, através de uma freada, nos apresenta ao outro casal importante da narrativa, num movimento de câmera interessante que deixa o carro de Lumley para trás e segue os passos da misteriosa loira negociante, quase atropelada pelo taxista. A “negociante” em questão é Fran, a companheira de Arthur Adamson, que recolhe um diamante como pagamento pela libertação de uma pessoa e parte para encontrar o comparsa seqüestrador. Já em casa, ela pergunta onde Arthur escondeu o diamante e Hitchcock nos revela o local através de outro interessante movimento de câmera.

E se exibe excelente forma nos elegantes movimentos, Hitchcock também demonstra habilidade na condução da narrativa, sugando o espectador pra dentro de uma história que ganha força no segundo ato, quando somos envolvidos pela investigação de Lumley sobre o passado de Eddie Shoebridge, introduzido personagens interessantes na trama, como o mal encarado dono de um posto Joseph P. Maloney (Ed Lauter). O diretor conta também com a boa montagem de J. Terry Williams, que jamais deixa cair o ritmo da trama, intercalando bem as duas linhas narrativas principais, com a investigação de Lumley e Blanche e a preocupação de Arthur e Fran com o aparecimento deles. Vale mencionar também a direção de fotografia de Leonard J. South, que evita cores sombrias na maior parte do longa (especialmente quando Blanche está em cena), o que é coerente com o clima divertido da trama. Já quando as cenas envolvem Arthur e Fran, a fotografia normalmente é mais sombria, assim como no terceiro ato, onde predominam cenas noturnas e o uso das sombras, criando uma atmosfera tensa e interessante para a seqüência final.

Quando Lumley entende a ligação entre Maloney e Eddie Shoebridge, ele chega a Arthur Adamson e as duas linhas narrativas finalmente se cruzam. Antes alvos da investigação, agora Arthur e Fran também passam a investigar a vidente e o taxista – o curioso é que eles pensam que o casal sabe dos seqüestros e não do passado de Arthur. E esta deliciosa confusão nos leva ao terceiro ato, que se passa praticamente dentro da casa de Arthur, prendendo a atenção do espectador em diversos momentos até o inteligente desfecho. Com muito bom humor e algumas cenas tensas, como quando Lumley anda só de meias na casa até encontrar o cativeiro, Hitchcock nos conduz até o encontro final entre os casais e fecha a trama com uma solução rápida e criativa. O bom humor ainda volta no último plano, com a piscada de Madame Blanche para a tela.

Alfred Hitchcock se despediu das telas de cinema com este divertido “Trama Macabra”, um longa que não figura entre as obras-primas deixadas pelo diretor, mas que é digno de pertencer à sua gloriosa filmografia. Se os poderes de Madame Blanche realmente funcionassem, quem sabe ela poderia contatar o mestre e dizer que não queremos mais nada, apenas agradecê-lo por tudo o que fez. Foi mais que suficiente.

Texto publicado em 17 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira

Imagens: Frenesi (1972)

Continuando o especial Hitchcock, transformei em crítica os comentários divulgados anteriormente sobre “Frenesi”. Para ler, basta clicar aqui.

Um abraço.

Texto publicado em 16 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira

TOPÁZIO (1969)

(Topaz)

 

Filmes em Geral #65

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: Frederick Stafford, Dany Robin, John Vernon, Karin Dor, Michel Piccoli, Philippe Noiret, Claude Jade, Michel Subor, Per-Axel Arosenius e Roscoe Lee Browne.

Roteiro: Samuel Taylor, baseado em livro de Leon Uris.

Produção: Alfred Hitchcock e Herbert Coleman.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Apesar de seu notável controle sobre a narrativa e de todo o conhecimento que tinha da linguagem cinematográfica, nem mesmo Alfred Hitchcock conseguiu salvar “Topázio”, que, com sua trama sem graça, se estabelece como um dos piores filmes da carreira do diretor. Pra piorar, alguns dos principais nomes do elenco não conseguem atuações convincentes. Ou seja, assim como os espiões que vivem em países inimigos, trata-se de um peixe fora d’água na filmografia de Hitchcock.

Boris Kusenov (Per-Axel Arosenius) deixa a Rússia e viaja para os Estados Unidos, levando informações preciosas ao governo norte-americano em plena guerra fria. Após sua chegada, o francês André Devereaux (Frederick Stafford) é enviado a Cuba para acompanhar rumores sobre a chegada de mísseis russos. Em meio a tudo isto, surge à informação de que um espião chamado “Topázio” estaria infiltrado na OTAN em Paris, enviando informações sigilosas aos russos.

Assim como em “Cortina Rasgada”, em “Topázio” a guerra fria é novamente o pano de fundo da narrativa. Só que desta vez, nem mesmo o talento de Hitchcock consegue salvar o fraco roteiro de Samuel Taylor. Baseada em livro de Leon Uris, a trama de “Topázio” jamais consegue empolgar o espectador, apesar do bom início na Dinamarca, que mantém o foco na fuga da família de Kusenov da cortina de ferro, com um pequeno momento de tensão, quando eles tentam despistar agentes do governo. Nem mesmo o dinâmico jogo entre espiões, com diálogos ágeis e ambíguos, consegue tornar a narrativa mais interessante. Na verdade, desta vez Hitchcock explora mais os aspectos políticos da guerra fria, apresenta um pequeno conflito entre dois homens que gostam da mesma mulher, tenta inserir um conflito no ato final em Paris, mas nada funciona e o resultado é um filme pouco atraente e sem cenas marcantes, com exceção da impressionante morte de Juanita (Karin Dor), onde o plano em plongèe nos mostra sua dor enquanto o vestido se espalha pelo chão.

Também como em “Cortina Rasgada”, o plano da conversa entre Devereaux e seu amigo cubano Philippe (Roscoe Lee Browne) não nos permite escutar as falas, pois já sabemos o conteúdo da conversa, assim como acontece quando Philippe tenta convencer Uribe (Don Randolph) a entregar um importante documento, entrando e saindo do prédio com ele seguidas vezes. Aliás, outra cena tensa acontece quando Philippe conversa com o oficial Rico Parra (John Vernon), enquanto Uribe tenta roubar a mala vermelha que contém o documento que Devereaux precisa. Somados a fuga do prédio, com Parra atirando enquanto Philippe some na multidão e entrega a máquina para o amigo, estes momentos em território cubano certamente são os melhores do filme. Empregando constantemente o close para realçar as atuações do elenco, Hitchcock também busca destacar alguns objetos, numa tentativa de chamar a atenção para os curiosos métodos utilizados para enviar informações pra fora do país – repare, por exemplo, o interessante trajeto de uma máquina fotográfica, que sai de um piquenique, se esconde numa ponte e chega ao destino dentro de um frango. Apesar do criativo processo, este tráfico de informações é muito pouco para sustentar a narrativa. Nestes momentos, vale destacar o trabalho do montador William H. Ziegler, que também demonstra inteligência ao indicar a passagem do tempo e o local onde se passará a ação através da companhia aérea – sabemos que Devereaux chegou a Paris ao ver o avião da Air France, por exemplo.

E apesar da seriedade da missão de Devereaux, a trilha sonora divertida de Maurice Jarre e fotografia mais clara no segundo ato deixam a narrativa leve, numa contradição que compromete o resultado final. Além disso, a fotografia de Jack Hildyard transita entre o leve e o pesado sem muita coerência, empregando cores dessaturadas em ambientes fechados, sem jamais conseguir criar uma atmosfera sombria. Apesar disto, vale mencionar os belos cenários, muito bem decorados, como o interior das casas com imponentes mesas de jantar, que realçam o trabalho de direção de arte de Henry Bumstead. E novamente, a responsável pelos figurinos e pela caracterização dos oficiais cubanos e dos espiões americanos e franceses é Edith Head.

Entre o elenco, o papel principal é de Frederick Stafford, que vive Devereaux de maneira fria, ciente da seriedade de sua missão em Cuba, mas que jamais consegue criar empatia com a platéia e nem mesmo com as mulheres com quem se envolve. Pra piorar, Stafford não consegue transmitir com eficiência a aflição que o personagem pede, afinal de contas, ambas poderiam complicar sua missão – a esposa francesa, por ciúmes, e a amante cubana, por se envolver no envio de informações para os Estados Unidos. Por outro lado, Karin Dor consegue conferir carisma e sensualidade a Juanita, saindo-se bem no tenso jantar em que é questionada por Rico Parra, numa cena em que John Vernon também soa ameaçador na pele do oficial cubano. Karin se destaca ainda na despedida de Devereaux, demonstrando a dor da personagem por saber que dificilmente veria o amante novamente. Pra finalizar, o Henri Jarre de Philippe Noiret mal consegue esconder seu segredo e compromete a operação russa em Paris e Per-Axel Arosenius tem uma atuação bastante “robotizada” como o russo Boris Kusenov.

Infelizmente, apesar dos esforços de seu diretor, o roteiro de Samuel Taylor nunca empolga, tornando a trama bastante previsível e sem graça. Nem mesmo o conflito final em Paris consegue provocar tensão, pois imaginamos com antecedência que o agente russo será desmascarado e que Devereaux se sairá bem. Em resumo, o fraco roteiro, aliado às atuações irregulares e a uma surpreendente falta de imaginação de Hitchcock fazem de “Topázio” um filme esquecível.

Bem abaixo da média para um diretor como Hitchcock, “Topázio” apresenta uma trama desinteressante, mal conduzida e com um desfecho previsível. Com apenas algumas cenas que funcionam bem isoladamente, o longa certamente figura entre os piores trabalhos de um diretor cujo padrão de qualidade está muito acima do normal.

Texto publicado em 15 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira

CORTINA RASGADA (1966)

(Torn Curtain)

 

Filmes em Geral #64

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: Paul Newman, Julie Andrews, Lila Kedrova, Hansjörg Felmy, Wolfgang Kieling, Ludwig Donath, Günter Strack, David Opatoshu, Gisela Fischer, Mort Mills, Carolyn Conwell, Arthur Gould-Porter, Tamara Toumanova e Alfred Hitchcock.

Roteiro: Brian Moore.

Produção: Alfred Hitchcock.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Apesar de algumas boas cenas, “Cortina Rasgada” não consegue empolgar o espectador, especialmente em sua metade final, repleta de situações irreais que buscam justificar a fuga dos “mocinhos”. Ainda assim, Hitchcock consegue construir bons momentos, utilizando a guerra fria como pano de fundo deste thriller de espionagem, que conta também com o ótimo Paul Newman, desta vez numa atuação sem grande inspiração.

O cientista americano Armstrong (Paul Newman) viaja para Copenhagen para participar do congresso internacional de física acompanhado de sua noiva Sarah (Julie Andrews), que descobre, já em território dinamarquês, que o noivo está indo para a Alemanha Oriental, na tentativa de levantar fundos para seu projeto rejeitado nos EUA. Decepcionada com a traição do marido ao país, ela decide segui-lo.

Escrito por Brian Moore, “Cortina Rasgada” coloca seu protagonista numa situação complexa, utilizando a guerra fria como pano de fundo para o thriller de espionagem que guia a narrativa. Dividida claramente em duas partes, a trama inicia abordando a suposta traição de Armstrong ao seu país, mas toma outro rumo completamente diferente quando ele revela que é, na verdade, “quase” um agente secreto americano infiltrado. Apesar do roteiro de Moore ir de encontro ao ufanismo norte-americano tão comum durante a guerra fria, Hitchcock inteligentemente evita discutir política, focando seus esforços na criação de situações que deixem a platéia em frangalhos. Ainda assim, o mestre aproveita para expor alguns problemas da época, como a dificuldade de entrar e sair da Alemanha Oriental. Mas é na condução da narrativa e nos movimentos de câmera que o diretor se destaca, como quando realça o livro retirado por Armstrong e a letra “” através do zoom quando ele se tranca no banheiro, indicando a importância deste “codinome” na trama – algo reforçado também pela trilha sonora de John Addison, que substituía Bernard Herrmann após anos de parceria entre o compositor e Hitchcock. Além disso, Hitchcock explora bem os belos cenários da Berlin Oriental, como os parques, o museu e a casa de campo onde se encontra o misterioso “”.

Apesar da falta de química entre o ótimo Paul Newman (que se desentendeu nas filmagens com Hitchcock porque queria seguir o método e não as orientações do diretor) e Julie Andrews, a relação inicial do casal serve para criar empatia com a platéia e, desta forma, fazer com que o espectador se importe com o risco que o casal corre em território alemão. E mesmo estranhamente apático, Paul Newman parece sempre esconder algo, o que é essencial para que o personagem funcione e deixe o espectador em dúvida quanto as suas reais intenções. Por outro lado, a loira da vez Julie Andrews demonstra bem o incômodo de Sarah com a “traição” de Armstrong, algo destacado pelo diretor através de um close na reação dela ao vê-lo discursando na Alemanha Oriental. Em outro momento, um curioso plano distante nos mostra um diálogo entre o casal, onde não precisamos escutar o que Armstrong fala, pois já sabemos que ele está revelando a verdade pra ela – e a reação dela apenas confirma isto. E apesar do desempenho irregular da dupla principal, o elenco de “Cortina Rasgada” apresenta dois destaques especiais. Wolfgang Kieling está excelente na pele de Gromek, sempre convicto e convincente, e, com poucos minutos em cena, Lila Kedrova entrega uma boa atuação como a Condessa Luchinska.

Um verdadeiro mestre na arte de criar suspense, Hitchcock constrói um momento bastante tenso somente através do som dos passos de Armstrong e Gromek durante uma perseguição no museu de Berlin. O diretor acerta ainda ao utilizar o idioma alemão, que confere realismo à narrativa e ainda nos deixa na mesma situação do protagonista, sem entender o que as pessoas falam. E graças à montagem de Bud Hoffman, que imprime um ritmo interessante ao longa, o diretor consegue criar uma empolgante seqüência quando alterna entre a investigação sobre a morte de Gromek e a conversa de Lindt e Armstrong sobre a fórmula secreta, ampliando a tensão na platéia, que é reforçada também pela trilha dinâmica de John Addison. E apesar dos esforços de Hoffman e Hitchcock, a segunda parte da narrativa é claramente inferior a primeira. Após a revelação do segredo de Armstrong e a saída de Gromek, a narrativa enfraquece e se torna menos interessante, limitando-se a mostrar os malabarismos do casal na tentativa de furar a cortina de ferro e voltar ao seu país. Ainda assim, é interessante acompanhar a tensa fuga de Armstrong de um prédio, após o professor Lindt descobrir sua verdadeira intenção.

Verdadeira intenção? Pois é. Como esperado (até mesmo pela postura de Newman), Armstrong escondia algo, que é revelado em sua conversa com “Pí” num belo passeio pelo campo. Só que ao voltar para a casa de “”, ele encontra Gromek, o agente alemão designado para persegui-lo, que descobre a farsa e tenta entregá-lo para os alemães, mas é interrompido pelo ataque de Armstrong e da dona da casa, numa cena violenta e realista. Lenta e detalhista, a cena da morte de Gromek demonstra a dificuldade para matar um homem naquelas condições. Por outro lado, retira cedo demais da narrativa um dos personagens mais interessantes. Além desta cena, Hitchcock conduz muito bem a seqüência do ônibus, com cada parada funcionando como agente provocador de mais tensão, justamente porque podemos ver o outro ônibus se aproximando ao fundo. A cada nova parada, o coração do espectador parece acelerar, e o mestre sabe disto, prolongando ao máximo o momento. Finalmente, o clímax acontece no teatro, com a câmera de Hitchcock nos mostrando a chegada dos policiais enquanto Armstrong tenta se esconder no meio da platéia. A solução simples e inteligente para o caso, com o grito de “fogo!” e a fuga nas cestas, encerra bem a trama. Mas, como podemos notar, as boas cenas de “Cortina Rasgada” não são suficientes para torná-lo um grande filme. Se considerarmos que este é um filme dirigido por Hitchcock, terminamos a sessão com a sensação de que faltou algo.

“Cortina Rasgada” é um thriller de perseguição e espionagem interessante, mas longe da qualidade vista em muitas outras obras de Hitchcock, talvez pela atuação desinteressada de Newman, talvez pela propaganda política dos Estados Unidos. O fato é que o longa não figura entre os melhores do mestre do suspense. Ainda assim, não podemos dizer que é um filme ruim. Trata-se de um entretenimento menor, o que, em se tratando de Alfred Hitchcock, chega a ser decepcionante.

Texto publicado em 14 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira

OS PÁSSAROS (1963)

(The Birds)

 

Filmes em Geral #63

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: Rod Taylor, Jessica Tandy, Suzanne Pleshette, Tippi Hedren, Veronica Cartwright, Ethel Griffies, Charles McGraw, Ruth McDevitt, Lonny Chapman, Doodles Weaver, Malcolm Atterbury e Alfred Hitchcock.

Roteiro: Evan Hunter, baseado em história de Daphne Du Maurier.

Produção: Alfred Hitchcock.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Durante muitos anos, “Os Pássaros” ficou marcado como o início da fase decadente de Alfred Hitchcock, o que é uma tremenda injustiça. É verdade que o longa não tem a mesma qualidade de obras-primas como “Psicose” ou “Janela Indiscreta”, mas está longe de ser um filme decepcionante. Apesar de alguns problemas, Hitchcock consegue criar a costumeira atmosfera crescente de tensão e, ainda que hoje alguns de seus efeitos visuais pareçam datados, é na força da narrativa e em suas grandes cenas que “Os Pássaros” se sustenta.

Após conhecer Mitch Brenner (Rod Taylor) numa loja, a jovem Melanie (Tippi Hedren) decide visitá-lo na pacata cidade de Bodega Bay, mas terá que enfrentar o ciúme de sua ex-namorada Annie (Suzanne Pleshette) e de sua mãe Lydia (Jessica Tandy). Junto com ela, milhares de pássaros misteriosamente se instalam na cidade e começam a atacar as pessoas nas ruas.

Baseado em história de Daphne Du Maurier, o roteiro de Evan Hunter narra os ataques dos pássaros sob a perspectiva de Melanie Daniels, uma jovem que se apaixona por um desconhecido e decide lhe entregar um presente sugestivo em sua cidade natal: um casal de “pássaros do amor”. Logo no início, Hitchcock ambienta o espectador e prepara a atmosfera ideal ao nos mostrar uma grande quantidade de pássaros no céu e a loja especializada em pássaros onde Mitch e Melanie se encontram pela primeira vez. Depois disto, o diretor evita nos mostrar os pássaros por algum tempo, limitando-se a inserir o som deles em alguns momentos, além de frases que chamam nossa atenção (“Eles não param de migrar?”), o que serve para aumentar nossa expectativa (Hitchcock sabia, mais do que ninguém, como prolongar ao máximo esta sensação no espectador). O primeiro ataque só acontece aos 25 minutos de projeção, quando um pássaro fere Melanie no barco. Mesmo assim, o primeiro fato realmente estranho surge apenas quando uma gaivota ataca a porta de Annie. “Pássaros não saem por aí atacando pessoas”, diz um policial, e é justamente aí que reside o terror psicológico da narrativa, pois vemos algo incomum e inesperado. Por ser um animal inofensivo, o pássaro torna-se ainda mais assustador, ainda mais quando uma especialista diz que existem bilhões de pássaros e que uma eventual guerra resultaria num massacre. E o mais interessante é que o longa jamais explica a razão dos ataques, o que torna tudo ainda mais misterioso e assustador.

Obviamente, um filme baseado no ataque de milhares de pássaros depende bastante da qualidade dos efeitos visuais. E apesar de hoje os efeitos soarem datados em algumas cenas, de forma geral o resultado é satisfatório e cumpre bem sua função, graças também ao excelente design de som, que cria uma atmosfera perfeita nos ataques dos pássaros, como podemos notar nas impressionantes seqüências da festa de Cathy (Veronica Cartwright) e da invasão da casa de Mitch através da lareira. Vale ressaltar ainda a ausência de trilha sonora durante todo o filme, que utiliza apenas o som diegético para provocar tensão, o que é muito interessante.

Hitchcock aproveita ainda a paisagem local para criar belos planos, por exemplo, quando Melanie atravessa o rio para chegar à casa de Mitch. Além disso, utiliza a câmera para nos transmitir sensações, como quando Mitch questiona a história do chafariz em Roma, surgindo poderoso na tela ao ser filmado em ângulo baixo, enquanto Melanie aparece intimidada no plano. Além disso, o diretor cria planos aterrorizantes, como aquele que destaca centenas de pássaros nos fios, além de conduzir com precisão cenas marcantes, como quando Lydia visita a casa de Dan, onde a xícara quebrada e um pássaro morto na janela indicam a tragédia, confirmada em seguida, quando vemos aquele homem morto com os olhos arrancados. O diretor é hábil ainda na condução da narrativa, utilizando o interesse de Melanie por Mitch para nos prender durante todo o primeiro ato, distraindo a platéia enquanto prepara a chegada dos grandes vilões. Observe também como no início a fotografia de Robert Burks é mais leve e repleta de cenas diurnas, o que contrasta diretamente com o final sombrio e até mesmo com o segundo ato, onde a fotografia emprega cores mais frias, reforçadas pelos dias nublados e pelo maior número de cenas noturnas quando comparado ao primeiro ato.

Além da fotografia, a própria casa de Mitch se revela aconchegante inicialmente, tornando-se sombria e sufocante na parte final da narrativa, o que é mérito da boa direção de arte. Da mesma maneira, as roupas tristes de Lydia indicam sua melancolia ao ver o filho se envolvendo com Melanie, o que só é reforçado pela boa atuação de Jessica Tandy, que ilustra bem o incomodo da personagem em seu rosto aflito, como podemos notar numa conversa que ela tem com o filho na cozinha. É também através de uma conversa entre ela, Melanie e Mitch, que Lydia revela seu ciúme doentio pelo filho, inserindo na trama um dos temas caros ao diretor, a relação conturbada entre mãe e filho. Tandy se destaca ainda quando Lydia fala sobre o marido falecido na cama, demonstrando fraqueza e reforçando seu lado possessivo e protetor ao falar sobre o filho, além de escancarar o trauma pela morte do marido ao dizer para Mitch que tudo seria diferente “se o seu pai estivesse aqui”.

Por outro lado, se o romance entre Mitch e Melanie não empolga é porque Hedren não consegue empatia com Taylor, que até tem uma boa atuação, mas é claramente prejudicado pela companheira. Infelizmente, Tippi Hedren (a loira da vez de Hitchcock) tem uma atuação muito fraca e inexpressiva, representada especialmente nos momentos que exigem tensão, como quando ela reage “assustada” ao incêndio provocado pelos pássaros num posto – numa cena, aliás, muito mal montada por George Tomasini. Ao contrário de Hedren, Suzanne Pleshette se sai bem como Annie, revelando seu ciúme por Mitch numa conversa com Melanie (repare o zoom no rosto dela na hora que Melanie cita o nome dele), evidenciando seu antigo caso com ele. Por isso, quando a professora Annie pergunta se “surgiu algo inesperado” para que Melanie fique na cidade, a tensão do diálogo é notável, já que ambas tem interesse por Mitch, e isto é mérito da boa atuação de Pleshette, como acontece também quando Melanie aceita o convite para a festa de Cathy e Annie balança a cabeça negativamente, evidenciando seu descontentamento – e Hitchcock faz questão de ressaltar a reação dela na cena.

Mas apesar do elenco irregular, Hitchcock consegue criar momentos marcantes, como na excelente seqüência em que Melanie espera Cathy na escola, enquanto os pássaros vão pousando lentamente no brinquedo atrás dela. O silêncio da cena, quebrado apenas pelo canto das crianças, é essencial para torná-la ainda mais angustiante. Quando as crianças começam a sair, um plano assustador revela a quantidade de pássaros que cercaram a escola, forçando as crianças a fugir em disparada – repare que no momento em que elas começam a correr, Hitchcock foca os pássaros, dando a exata noção da importância do som naquele instante, afinal, é o som dos passos que chama a atenção deles. Esta perseguição, no entanto, é um dos momentos em que os efeitos visuais hoje soam datados. Ainda assim, Hitchcock cria um plano fantástico no inicio da corrida, onde vemos as crianças saindo em disparada e os pássaros surgindo atrás da escola. Outro plano marcante é o que revela a morte de Annie, com o exterior da casa completamente tomado pelos pássaros e Cathy escondida lá dentro. Ao sair deste ambiente assustador, Hitchcock emprega um plano subjetivo, que nos coloca na mesma posição dos personagens enquanto deixam aquele local hostil. Vale destacar ainda nesta cena a boa atuação da garota Veronica Cartwright, que convence com o choro sentido de Cathy.

A narrativa chega ao clímax quando Mitch, Lydia, Cathy e Melanie estão trancados na agora sombria casa dos Brenner, encurralados pelos pássaros e em absoluto silêncio. Este silêncio será quebrado somente pelo inicio do ataque, numa cena eletrizante, acentuada pela queda da energia, que torna o ambiente ainda mais sombrio. E após reencontrar os pássaros no alto da casa, todos eles sairão dali durante a calmaria dos animais, num final tenso e impressionante, com o carro deixando a casa e as centenas de pássaros lentamente para trás. É no conflito entre a lógica e o inexplicável, no confronto misterioso entre o homem e a natureza, que reside o componente mais atraente da narrativa. Existem interpretações distintas, como a teoria que defende o ataque dos pássaros como um simbolismo para o ciúme doentio de Lydia pelo filho (o único homem em sua vida) e até mesmo uma teoria que enxerga a fúria da natureza como uma punição à ousadia de Melanie de ir atrás de um homem explicitamente, explicada em detalhes no livro “Os Pássaros”, de Camille Paglia. Mas, como afirmei, entendo que este mistério a respeito da natureza dos ataques é benéfico, abrindo possibilidades diversas de interpretações.

Ainda que tenha problemas, especialmente por causa de Tippi Hedren e alguns efeitos hoje datados, “Os Pássaros” cumpre muito bem sua função e assusta ao transformar um animal inofensivo num predador feroz, capaz de caçar os seres humanos como se fossem alimentos para seus filhotes. Com grandes cenas e uma narrativa envolvente, Hitchcock entrega mais um bom filme, já na fase final de sua gloriosa carreira.

Texto publicado em 13 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira