Desejo a todos vocês um feliz 2012, repleto de saúde e paz!
See you…
Texto publicado em 31 de Dezembro de 2011 por Roberto Siqueira
Desejo a todos vocês um feliz 2012, repleto de saúde e paz!
See you…
Texto publicado em 31 de Dezembro de 2011 por Roberto Siqueira
(The Bridges of Madison County)
Videoteca do Beto #122
Dirigido por Clint Eastwood.
Elenco: Meryl Streep, Clint Eastwood, Annie Corley, Victor Slezak, Jim Haynie, Sarah Kathryn Schmitt, Christopher Kroon, Phyllis Lyons, Debra Monk, Richard Lage e Michelle Benes.
Roteiro: Richard LaGravanese, baseado em livro de Robert James Waller.
Produção: Clint Eastwood e Kathleen Kennedy.
[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].
Normalmente associado a filmes “viris” por causa de sua trajetória no western e nos filmes do policial “Dirty Harry”, Clint Eastwood já apontava em “Um Mundo Perfeito” os caminhos que trilharia como diretor. Mas pouca gente podia esperar que ele dirigisse um longa como “As Pontes de Madison” com tamanha sensibilidade, confirmando seu enorme talento ao abordar com maturidade temas universais como o amor proibido e o sacrifício.
Baseado em livro de Robert James Waller e roteirizado por Richard LaGravanese, “As Pontes de Madison” narra a história de amor entre Francesca (Meryl Streep), uma proprietária rural do interior do Iowa, e Robert (Clint Eastwood), um fotógrafo da revista National Geographic, à partir de flashbacks que acompanham a leitura dos diários dela, entregues aos seus filhos após sua morte. Enquanto eles lêem e se envolvem com sua história, o espectador acompanha os quatro dias que ela passou com o fotógrafo durante uma viagem da família, vivendo um romance maduro e tocante, mas marcado por difíceis decisões.
Na época ainda marcado pelos papéis durões do passado, Clint Eastwood surpreendeu o público ao abordar com sensibilidade a história de renúncia de Francesca, uma mulher de meia-idade que, segundo ela mesma, largou os sonhos para priorizar o marido e os filhos. Emprestando um tom clássico à narrativa, o diretor emprega elegantes movimentos de câmera, como no plano-seqüência que acompanha Francesca correndo pra fora da casa para ver o carro de Robert sair na última noite, num dos momentos comoventes do longa. Auxiliado pela montagem de Joel Cox, Eastwood acerta ao alternar num bom ritmo entre planos médios e closes, evitando que a narrativa se torne cansativa, além de priorizar corretamente a linha narrativa do caso entre Robert e Francesca em detrimento daquela que acompanha os filhos dela. Explorando ainda a beleza da paisagem local com seus planos aéreos que destacam as fazendas e plantações da região, o diretor entrega um filme poético e repleto de planos simbólicos, como aquele em que Francesca fala com o marido ao telefone enquanto vê Robert partindo pela janela na primeira noite, indicando seus sentimentos conflitantes e sua melancólica situação. E não é belo notar que as próprias pontes de Madison simbolizam a possibilidade de alcançar novos caminhos? Não é à toa também que um crucifixo tem papel fundamental na trama, simbolizando o sacrifício da protagonista.


Quem também ressalta a melancolia da narrativa é a linda trilha sonora de Lennie Niehaus, especialmente em sua música tema, que embala os momentos especiais do casal. De maneira inteligente, Niehaus evita tornar a trilha repetitiva, utilizando as canções que tocam no rádio para embalar de maneira diegética o romance. Já a casa simples, típica do interior dos EUA (direção de arte de Jay Hart), e as roupas modestas dos personagens (figurinos de Colleen Kelsall) ambientam perfeitamente o espectador à época da narrativa, o que é importante para compreender o drama de Francesca, numa época em que largar marido e filhos para trás seria até mesmo uma afronta aos valores familiares – e o drama de uma mulher maltratada num restaurante porque traiu o marido só ressalta o pensamento dominante naquela pequena cidade do interior.


Empregando cores suaves e coerentes com a decoração da casa, a fotografia de Jack N. Green realça a sutileza com que Richard e Francesca se envolvem. Não existe um grande acontecimento que justifique a paixão repentina deles, não é um sentimento movido por algum acontecimento dramático, mas sim uma atração natural entre duas pessoas que enxergam na outra algo que não encontraram até então. Nada mais próximo da realidade e mais humano. Na medida em que a despedida se aproxima, Green passa a priorizar cenas noturnas e locais fechados, como um bar, refletindo a angústia do casal. Na cena do bar, aliás, o tom avermelhado também ressalta a paixão incandescente misturada ao sentimento de culpa de Francesca, indecisa entre seguir com Robert ou ficar com a família.


Interpretados por Victor Slezak, que vive Michael, e Annie Corley, que vive Caroline, os filhos de Francesca inicialmente se mostram revoltados com a carta e o pedido inusitado da mãe (ela quer ser cremada e ter as cinzas jogadas numa ponte). Michael é o mais inconformado e a situação só piora durante a leitura do diário. Caroline parece mais complacente, compreendendo o drama da mãe. Lentamente, ambos começam a refletir também sobre seus casamentos. Da mesma forma, eles descobrem que jamais notaram a vida triste que a mãe levava. Repare, por exemplo, o almoço em que Francesca se mostra sempre solícita aos pedidos do marido, enquanto os filhos, ainda que não percebam o que estão fazendo, sequer conversam com ela. Mas se por um lado eles podem se sentirem culpados, por outro eles se sentem traídos em certo momento da leitura, não pela paixão de Francesca, mas pela contradição entre seus ensinamentos e o que ela sentia.


Estes sentimentos contraditórios não são restritos aos filhos de Francesca, já que ela mesma viveu um complicado dilema. De maneira inteligente, o roteiro jamais apresenta seu marido Richard como um vilão (“Não consigo dormir sem você”, diz ele antes de viajar), o que só aumenta seu drama e evita que o espectador seja manipulado. Interpretado por Jim Haynie, Richard é um homem bom, que não percebe a infelicidade da esposa ou, como deixa claro no leito de morte, talvez até perceba, mas não sabe o que fazer para mudar esta situação. Sendo assim, como simplesmente largar sua família e fugir? O sofrimento de Francesca é compreensível, ainda mais numa época tão opressora. As mulheres de hoje, já muito mais independentes, podem se revoltar com a postura passiva dela. Porém, é importante relembrar a época e o local em que se passa a narrativa.
Responsável por balançar os alicerces de Francesca, o misterioso Robert é interpretado pelo diretor Clint Eastwood com desenvoltura e carisma, demonstrando com eficiência o sentimento que cresce no fotógrafo (“Não sei se consigo… Espremer toda uma vida entre hoje e sexta”, diz ele). Mas o grande destaque vai mesmo para Meryl Streep, que entrega uma atuação fabulosa desde os primeiros instantes, quando demonstra a timidez de Francesca no carro de Robert através da insegurança naquele primeiro contato mais próximo. Aliás, nesta seqüência vale destacar dois momentos especiais, quando ele toca a perna dela acidentalmente e quando ela não resiste e sorri ao ouvir que ele já esteve em Bari, sua cidade natal. Usando um sotaque convincente e coerente com a origem italiana da personagem, ela lentamente se solta e cria ótima química com Eastwood, chegando a fazer piada com as flores que ele colhe. Juntos, eles conseguem tornar os diálogos do ótimo roteiro ainda mais interessantes. Reforçando o cuidado na composição da personagem com pequenos detalhes, como ao tocar o corpo indicando que está com calor, Streep cria uma personagem trágica, demonstrando com competência a luta de Francesca para resistir àquela paixão. Observe, por exemplo, a tristeza com que ela afirma que os filhos “crescem” ou sua respiração ofegante, quase de adolescente, antes do primeiro beijo de Richard. Estes são apenas alguns momentos de uma atuação memorável.


A evolução do romance é lenta e verossímil, mas após o impulso inicial, Francesca parece saber o caminho que aquele relacionamento irá seguir. Ainda assim, ela não resiste e vive momentos inesquecíveis, sempre conduzidos com sensibilidade por Eastwood, como a dança na cozinha e a conversa ao lado da lareira. E se acerta nas cenas românticas, o diretor confirma sua habilidade nos momentos dramáticos, como o tocante diálogo na última noite em que as velas iluminam o melancólico jantar, chegando ao auge na última vez em que eles se vêem ao realçar a tristeza através da chuva e captar cada reação de Francesca com perfeição, em outro momento sublime da atuação de Streep. O nó na garganta é quase inevitável naquela troca de olhares, com Robert debaixo de uma forte chuva, que mais parece um lamento dos céus. E se toda a seqüência é emocionante, o plano da mão de Francesca ameaçando abrir a caminhonete é de partir o coração, numa cena que sintetiza a complexidade da situação. Por isso, assim como seus filhos, nós também compreendemos as ações dela e, mais do que isso, nos sentimos incapazes de julgá-la. E, no fim das contas, ninguém pode afirmar que ela seria feliz fugindo com ele. Como sabemos, o amor “idealizado” é sempre perfeito.


Com seu tom pessimista, “As Pontes de Madison” é um filme tocante, que aborda uma relação amorosa proibida entre duas pessoas da meia-idade de maneira sensível e verdadeira, sem jamais soar melodramático. Com grandes atuações – especialmente de Meryl Streep -, deixa inúmeros questionamentos ao final da projeção e confirma o talento de Eastwood na condução de dramas extremamente humanos. Na visão dele, a vida também é feita de sacrifícios. E ele tem razão.
Texto publicado em 27 de Dezembro de 2011 por Roberto Siqueira
Desejo a todos um feliz natal e, principalmente, que tenham sempre pessoas especiais para curtir cada momento marcante como a noite de hoje.
FELIZ NATAL!
PS: Deixo a dica de dois vídeos interessantes sobre o Natal, aqui e aqui.

Texto publicado em 24 de Dezembro de 2011 por Roberto Siqueira
(Apollo 13)
Videoteca do Beto #121
Dirigido por Ron Howard.
Elenco: Tom Hanks, Bill Paxton, Kevin Bacon, Gary Sinise, Ed Harris, Kathleen Quinlan, Bryce Dallas Howard, Mary Kate Schellhardt, Emily Ann Lloyd, Miko Hughes, Max Elliott Slade, Jean Speegle Howard, David Andrews e Michele Little.
Roteiro: William Broyles Jr. e Al Reinert, baseado em livro de Jim Lovell e Jeffrey Kluger.
Produção: Brian Grazer.
[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].
Inspirado em fatos reais, “Apollo 13” é um filme interessante não apenas como entretenimento, mas também como registro de um momento importante da história das missões espaciais. Demonstrando segurança na condução da narrativa e contando ainda com um excelente trabalho técnico e um bom elenco, Ron Howard entrega um filme competente, que retrata com realismo as horas de aflição que aqueles astronautas provavelmente enfrentaram.
Escrito por William Broyles Jr. e Al Reinert, a partir de livro de Jim Lovell e Jeffrey Kluger, “Apollo 13” narra a história real da terceira missão tripulada do projeto Apollo à lua. Após uma inesperada explosão no módulo de serviço, os astronautas Jim Lovell (Tom Hanks), Fred Haise (Bill Paxton) e Jack Swigert (Kevin Bacon) se vêem obrigados a retornar a Terra sem sequer pisar na lua, correndo o risco de ficarem sem oxigênio no caminho, além da ameaça real de danificar a nave na reentrada na órbita terrestre.
Potencialmente tensa, a história da Apollo 13 certamente resultaria num bom filme nas mãos de um diretor competente. Felizmente, este é o caso de Ron Howard, que consegue imprimir uma escala crescente de tensão à narrativa do segundo ato em diante. Antes disso, no entanto, o filme escorrega levemente ao exagerar no ufanismo, quando os americanos comemoram a vitória na corrida espacial – e este patriotismo é reforçado pela trilha sentimental que embala o homem pisando na lua e pelo close em Jim, claramente emocionado com o que vê. Ainda no primeiro ato, chama a atenção como a imprensa não demonstra interesse pela Apollo 13, refletindo a progressiva falta de interesse do público pelos programas espaciais. Neste aspecto, vale lembrar que até mesmo a NASA questionava o alto investimento feito nestas missões depois do sucesso da Apollo 11, algo que o filme também retrata com fidelidade. Porém, quando a viagem se transforma numa tragédia potencial, a imprensa imediatamente se interessa pelo caso (“Agora ficou mais emocionante”, afirma um idiota da NASA), provocando a indignação de Marilyn (Kathleen Quinlan), a esposa de Jim.


Trabalhando com inteligência e cuidado em todo o primeiro ato, Ron Howard busca estabelecer o relacionamento entre os personagens e criar expectativa para o lançamento da nave. E apesar dos muitos termos técnicos, o espectador jamais se perde durante a narrativa, graças à clareza do roteiro e a condução do diretor. Observe, por exemplo, como ele usa a fase de testes para nos apresentar os possíveis problemas que a missão enfrentará e nos familiarizar com alguns destes termos. Por isso, quando Jack tenta acoplar o módulo de comando ao módulo lunar, o espectador sabe exatamente o perigo daquela operação. Também por isso, quando Jim Lovell diz a famosa frase “Houston, nós temos um problema”, o desespero toma conta da tela, pois sabemos que aquele problema não estava previsto.


Além da narrativa envolvente, “Apollo 13” apresenta também um espetáculo visual belíssimo, graças aos excelentes efeitos visuais da Digital Domain, que conferem realismo ao lançamento da nave, por exemplo. Nave, aliás, que é perfeitamente recriada pela direção de arte de David J. Bomba, Michael Coreblith e Bruce Alan Miller, assim como os uniformes são fiéis aos originais (figurinos de Rita Ryack), ambientando perfeitamente o espectador. Além disso, o ótimo design de som capta cada pequeno movimento dentro da nave, como quando o oxigênio estoura a lateral da Apollo 13 e provoca o acidente. Obviamente, o trabalho de câmera de Ron Howard é vital neste processo. Contando com a colaboração da fotografia de Dean Cundey, o diretor emprega movimentos de câmera estilizados e realiza verdadeiros malabarismos no espaço, acompanhando com fluência a perfeita movimentação dos astronautas nos módulos. Vale destacar ainda os giros em volta da nave e o elegante travelling de dentro pra fora dela, que dá a exata noção de onde os astronautas se encontram.


Ainda na parte técnica, merece destaque a excepcional montagem de Daniel P. Hanley e Mike Hill, que confere enorme dinamismo ao longa, intercalando o drama dos astronautas, o trabalho da NASA e o sofrimento dos familiares. Além disso, quando a Apollo 13 apresenta o grave problema, os montadores alternam rapidamente entre os planos, ampliando a angústia no espectador sem que este perca a noção do que está vendo. E ainda que usem descartáveis legendas para indicar a passagem do tempo, Hanley e Mill acertam ao usar o já ultrapassado fade, escurecendo a tela completamente e refletindo a angustia que predomina a narrativa. A trilha sonora de James Horner também acentua o clima de tensão, por exemplo, com a música agitada que embala os minutos prévios ao lançamento da nave. Por outro lado, a trilha parece exceder um pouco o tom adequado em certos momentos, soando melosa demais, como quando Jim se dá conta de que não vai pisar na lua.


E se exagera no melodrama neste aspecto, “Apollo 13” acerta na forma como aborda a preocupação da família Lovell, nos envolvendo com o sofrimento da esposa e dos filhos de Jim após a confirmação de sua ida à lua. Nós nos sentimos mais próximos dele justamente por acompanharmos seu relacionamento com a família, o que amplia a carga dramática quando os problemas surgem. É claro que as boas atuações de Tom Hanks e Kathleen Quinlan colaboram bastante. E além de estabelecer boa química com Quinlan, Hanks ainda transmite com precisão a crescente aflição do personagem, enquanto Bacon inicialmente parece mais tranqüilo e Paxton surge intimidado naquela difícil situação. Entretanto, quando os conflitos começam a surgir, os três atores se destacam, estabelecendo um clima palpável de tensão e refletindo muito bem o cansaço dos astronautas. Paxton, aliás, melhora ainda mais na medida em que Fred fica doente, transmitindo com competência o sofrimento do personagem.


No restante do ótimo elenco, Ed Harris se sai muito bem, demonstrando autoridade e liderança como Gene Kranz, e a citada Kathleen Quinlan está ótima como Marilyn Lovell, demonstrando muito bem a angústia da personagem com as notícias do marido. E se é emocionante o momento em que ela conta para a mãe de Jim o ocorrido, é ainda mais difícil conter as lágrimas quando ela dá a notícia de que a nave apresentou problemas para o filho e ouve a pergunta preocupada do menino: “Foi a porta?”. Finalmente, Gary Sinise confere realismo à decepção de Ken Mattingly quando é retirado da missão e se sai ainda melhor quando é convocado para auxiliar os companheiros, demonstrando muito profissionalismo e companheirismo.


Assim como antes do lançamento, os momentos prévios à volta para a Terra são bastante tensos. E o silêncio que predomina por alguns segundos só aumenta nossa expectativa, justificando a explosão de alegria de todos quando o paraquedas surge no céu. A emoção genuína dos personagens e do espectador comprova que a narrativa nos envolveu. Ainda nesta cena, não posso deixar de destacar a reação contida e emocionada de Gene, num momento sublime da atuação de Ed Harris. Se a história original já era potencialmente tensa e emocionante, Howard e sua equipe conseguiram traduzir estes sentimentos na tela com competência.
Excelente tecnicamente, “Apollo 13” narra um drama real de maneira envolvente, graças à eficiente direção de Howard e às boas atuações do elenco. Apesar da trilha sonora exagerada em alguns momentos e de não resistir ao ufanismo típico dos norte-americanos, o resultado é bastante agradável. Um bom exemplo do equilíbrio ideal entre a técnica e a emoção no cinema.
Texto publicado em 21 de Dezembro de 2011 por Roberto Siqueira
Trabalhei muito pra isto. Planejei bastante também. E finalmente, minha videoteca tem um lugar à sua altura. Abaixo, vocês podem compartilhar a minha alegria e conhecer o novo local que adquiri para a minha coleção de filmes.
Como vocês, a nova Videoteca do Beto (clique na imagem para ampliar):
Texto publicado em 13 de Dezembro de 2011 por Roberto Siqueira
(Before Sunrise)
Videoteca do Beto #120
Dirigido por Richard Linklater.
Elenco: Ethan Hawke, Julie Delpy, Andrea Eckert, Hanno Pöschl, Karl Bruckshwaiger, Tex Rubinowitz, Dominik Castell, Haymon Maria Buttinger e Harold Waiglein.
Roteiro: Richard Linklater e Kim Krizan.
Produção: Anne Walker-McBay.
[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].
Fugindo dos clichês e convenções do gênero, Richard Linklater apresenta um romance maduro, que acompanha o exato momento em que dois jovens se apaixonam de maneira natural e realista. Narrando uma história que poderia acontecer com qualquer um de nós, a obra-prima “Antes do Amanhecer” nos conquista por sua simplicidade, mas também pelas atuações magníficas da dupla principal. Durante quase duas horas, acompanhamos mais do que um momento mágico na vida dos protagonistas. Este é, na verdade, um momento mágico do cinema como forma de arte.
O norte-americano Jesse (Ethan Hawke) e a francesa Celine (Julie Delpy) se encontram casualmente num trem. Ele voltará para os Estados Unidos no dia seguinte. Ela deveria seguir para Paris, mas ele a convence a descer em Viena e acompanhá-lo no restante daquele dia. Enquanto passeiam pela capital austríaca, os dois se apaixonam lentamente. Mas a manhã se aproxima e, junto com ela, o momento de dizer adeus.
Escrito pelo próprio Richard Linklater junto com Kim Krizan, “Antes do Amanhecer” narra a apaixonante história de dois jovens que se conhecem casualmente e descobrem ter mais afinidade do que podiam imaginar. Repleto de diálogos interessantes, o excepcional roteiro nos dá a sensação de estarmos acompanhando um encontro em tempo real, testemunhando aquelas duas pessoas se apaixonando de verdade, simplesmente porque demonstram empatia enquanto conversam. Isto acontece porque Linklater e sua equipe trabalham em cada detalhe para tornar a narrativa realista, a começar pela montagem de Sandra Adair, que emprega o ritmo correto, transitando com elegância entre os planos e evitando a sensação de que estamos saltando no tempo, ainda que isto eventualmente aconteça. Além disso, são raros os momentos em que a trilha sonora não pertence ao universo do filme, como após a cena na cabine, em que a música continua tocando enquanto eles caminham pela cidade. Esta trilha diegética na maior parte do tempo reforça a sensação de realismo, aproveitando as músicas que tocam nos lugares que eles passam para embalar os momentos do casal.


Desde a primeira conversa no trem, Linklater nos coloca na posição de espectadores privilegiados, com sua câmera próxima aos personagens e atenta em todos os detalhes de suas reações. O diretor também reforça a atmosfera realista da narrativa, por exemplo, ao empregar um plano-seqüência que acompanha o interessante diálogo sobre as diferenças entre homens e mulheres ou quando a câmera fica parada enquanto eles passeiam pela cidade num bonde. Linklater sabe ainda destacar as excelentes atuações da dupla em momentos chave, como na linda cena na cabine de música, onde um evita o olhar do outro e a câmera nos permite observar aquele interessante jogo de sedução. Além disso, Linklater explora muito bem a beleza de Viena, escolhendo locações que ressaltam o charme especial que só algumas cidades européias têm. E é maravilhoso notar como um simples passeio na margem do rio Danúbio, uma música num bar, um passeio noturno no parque e até mesmo uma visita a um cemitério se tornam momentos especiais por causa da pessoa ao lado.


Em “Antes do Amanhecer”, este momento mágico surge naturalmente. Após uma discussão de um casal de alemães, Celine se sente incomodada e muda de lugar no trem, permitindo que Jesse inicie um diálogo com ela. A empatia do casal é imediata e a platéia percebe isto porque Ethan Hawke e Julie Delpy têm atuações simplesmente perfeitas, estabelecendo uma química extraordinária na tela. Impressiona também como eles dialogam com naturalidade, tornando tudo mais real sem jamais dar a sensação de que estão atuando. Acredite, apesar de parecerem improvisados, os diálogos de Jesse e Celine soam verdadeiros graças ao talento dos atores. Ao chegar a Viena, Celine tem que decidir entre seguir viagem e deixar a oportunidade de conhecer uma pessoa especial para trás ou ficar em Viena e arriscar viver uma experiência marcante. Felizmente, ela decide ficar, e a fotografia inicialmente clara de Lee Daniel ilustra a euforia daqueles jovens e o momento mágico que eles estão vivendo. Não por acaso, ele destaca a cor verde, simbolizando a esperança de um futuro feliz de Jesse e Celine. Com o passar do tempo e o cair da noite, Daniel e Linklater exploram a beleza da noite vienense, criando uma atmosfera ainda mais romântica sem jamais tornar a narrativa melosa ou piegas.


Duas pessoas inteligentes e cheias de idéias interessantes, Jesse e Celine são jovens normais, com dúvidas, aflições e questionamentos, mas também agradáveis e apaixonantes. E é interessante acompanhar a forma como eles desenvolvem cada raciocínio, a maneira como eles enxergam questões universais como a vida após a morte, o amor, os relacionamentos entre pais e filhos e até mesmo a religião. Também existe espaço para momentos descontraídos, como quando ela brinca com o fato dele falar apenas um idioma, numa alusão às diferenças entre norte-americanos e europeus. Celine demonstra ainda uma conexão especial com a avó, enquanto Jesse relata uma experiência que viveu ainda pequeno, relacionada com sua bisavó. E são estes momentos que tornam Jesse e Celine personagens tão reais, tão próximos do espectador. Ao ouvir o pensamento deles, suas histórias e a maneira como eles vêem a vida, nos tornamos íntimos e compartilhamos de suas angústias e sonhos.


Num momento divertido, uma cigana lê a mão de Celine, que se empolga com as palavras dela. Mas este instante, junto com o adorável poema do “vagabundo” à beira do Danúbio, expõe o lado cético de Jesse. E antes mesmo que ele diga alguma coisa, o espectador percebe seu incômodo, somente pelo semblante do ator. São estes pequenos detalhes na composição dos personagens que tornam as atuações de Julie Delpy e Ethan Hawke perfeitas. Repare, por exemplo, como Delpy ri espontaneamente quando Jesse pergunta se a avó de Celine está bem, demonstrando satisfação pelo interesse dele. Da mesma forma, quando eles percorrem a cidade num bonde, Jesse ameaça tirar o cabelo da frente do rosto dela, recolhendo a mão rapidamente quando ela se vira pra ele. Esta hesitação em tocá-la demonstra sua atração ao mesmo tempo em que evidencia sua timidez. Timidez que surge novamente na cabine e, especialmente, na linda cena do primeiro beijo na roda gigante.


Lindo também é o plano que surge após a divertida conversa num telefone imaginário. Como dizem os próprios personagens, tudo parece um sonho. Momentos antes, durante um jantar no Danúbio, eles evitam falar abertamente, mas dão indícios claros de que desejam ficar juntos e quebrar o “acordo racional e adulto”. Pra encerrar a noite, outra cena tocante acontece no parque, quando eles decidem não transar e apenas curtir o final de um momento especial. Por isso (e por tudo que acompanhamos), quando a manhã chega, o espectador compartilha com os personagens um sentimento de tristeza ao saber que o momento da despedida se aproxima. A seqüência de planos dos lugares em que eles estiveram cria um enorme vazio no coração do espectador e a despedida triste e ambígua fecha à narrativa, deixando a platéia livre para decidir o que aconteceria seis meses depois. Os céticos podem acreditar que tudo terminou ali, enquanto os românticos podem idealizar um novo encontro (a verdade só seria revelada na continuação “Antes do pôr-do-sol”, nove anos depois de “Antes do Amanhecer”). Mas o que importa é que aqueles momentos foram mágicos, não apenas para os personagens, mas também para o espectador.


Além das várias questões abordadas em cada diálogo, deixamos a projeção refletindo sobre o tema principal da narrativa. Quantas pessoas especiais passam pelas nossas vidas sem que a gente perceba? Será que estas pessoas continuariam especiais após anos de convivência? Não existe outra forma de descobrir a verdade que não seja “arriscar” viver ao lado delas, ainda que isto possa destruir a visão idealizada que criamos.
“Antes do Amanhecer” é uma história de amor que nos cativa e nos faz torcer contra um final que se anuncia logo em seus primeiros minutos. Ao longo da narrativa, nos tornamos íntimos de Jesse e Celine, torcemos por eles e nos entristecemos quando a anunciada separação finalmente chega. Ainda assim, a mensagem principal já foi gravada em nossas mentes: o amor vale à pena, mesmo que seja só por uma noite.
Texto publicado em 04 de Dezembro de 2011 por Roberto Siqueira