BAMBI (1942)

(Bambi)

 

Filmes em Geral #50

Videoteca do Beto #149 (Filme comprado após ter a crítica divulgada no site e transferido para a Videoteca em 06 de Janeiro de 2013)

Dirigido por David Hand.

Elenco: Vozes de Bobby Stewart, Donnie Dunagan, Hardie Albright, John Sutherland, Stan Alexander, Sterling Holloway, Sam Edwards, Peter Behn, Tim Davis, Cammie King, Ann Gillis, Mary Lansing, Margaret Lee, Thelma Boardman, Will Wright, Paula Winslowe, Fred Shields, Janet Chapman, Jack Horner, Dolyn Bramston Cook, Marion Darlington e Bobette Audrey.

Roteiro: Perce Pearce e Larry Morey, baseado em livro de Felix Salten.

Produção: Walt Disney.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Os primeiros anos da Walt Disney Pictures no cinema foram impressionantes. Após a bem sucedida estréia de “Branca de Neve e os Sete Anões”, os estúdios comandados por Walt Disney emplacaram um sucesso atrás do outro, conseguindo agradar público e crítica e dando a sensação de que eles eram simplesmente incapazes de errar. E entre as marcantes obras daquele período está “Bambi” (que na realidade só se confirmou como um sucesso cinco anos depois, em seu relançamento), a encantadora história do “príncipe” da floresta, que mantém o alto padrão de qualidade dos filmes do estúdio, conseguindo agradar jovens e adultos.

Momentos após o seu nascimento, o filhote de cervo “Bambi” já chamava a atenção dos outros animais, sendo chamado de “Príncipe da Floresta”. Com o passar do tempo, ele aprende a andar, correr, faz amizade com outros animais e descobre, ao lado de sua carinhosa mãe, como sobreviver na floresta e, principalmente, como amar. Mas esta relação fraternal acaba no dia em que caçadores chegam ao local, obrigando o jovem cervo a se tornar tão corajoso quanto o seu pai, o mais respeitado cervo da região, e liderar sua espécie na busca por um local mais seguro.

Se a qualidade da narrativa de “Bambi” mantém o padrão Disney estabelecido em filmes como “Pinóquio” e “Dumbo”, o mesmo pode ser dito das animações em si, que também apresentam um trabalho bastante crível e realista, notável desde os primeiros planos que nos levam pelas árvores, sob o som dos pássaros e da bela trilha sonora de Edward H. Plumb e Frank Churchill, nos ambientando a floresta. Em seguida, o nascimento do príncipe Bambi marca o início da bela trajetória do protagonista, num evento que chama a atenção de muitos animais que, com seu visual colorido, trazem vida à tela. E estas deliciosas imagens permanecerão até que, aos 5 minutos de filme, a primeira fala aconteça, dando inicio ao processo de desenvolvimento do jovem cervo que será acompanhado de perto pelo espectador, deixando claro desde o início o interessante paralelo traçado pela narrativa entre a formação de “Bambi” e a de um ser humano. Como todos nós, ele aprenderá a andar e falar, sempre demonstrando muita curiosidade, da mesma maneira que qualquer “criança” faria (repare como Bambi se destaca dos demais por causa de sua cor, numa estratégia visual inteligente). Esta curiosidade será responsável por aproximar os laços entre Bambi e sua mãe, que pacientemente ensina os caminhos da vida ao filho, numa relação que é desenvolvida com muito cuidado, preparando o espectador para o trágico momento em que o cervo será obrigado a seguir sozinho, deixando uma lição de vida emblemática que as crianças dificilmente esquecerão. Só que o roteiro escrito por Perce Pearce e Larry Morey, baseado em livro de Felix Salten, não se resume a demonstrar o ciclo natural da vida apenas sob o aspecto da relação entre pais e filhos, mostrando também como os jovens se comportam diante do sexo oposto, numa aproximação que será essencial para perpetuar a espécie. Repare, por exemplo, a reação tímida de Bambi em seu primeiro contato com Faline, ainda quando era “criança”, e compare com a reação típica da maioria dos garotos, normalmente mais arredios diante do sexo oposto do que as meninas na infância. O propósito do longa é claro: ensinar as diversas etapas da vida que cada “bambino” deverá enfrentar, mais cedo ou mais tarde. E para evitar que esta jornada soe cansativa ou aborrecida, o roteiro inteligentemente insere alguns personagens que acompanharão Bambi, como o divertido e preguiçoso gambá Flor e o teimoso coelhinho Tambor, que é responsável pelos momentos de alivio cômico da narrativa.

Também como na maioria das animações da Disney, a trilha sonora de Edward H. Plumb e Frank Churchill preenche boa parte da narrativa, assim como os diversos números musicais, dentre os quais merece destaque o que acontece quando Bambi acompanha a primeira chuva de sua vida. Aliás, em “Bambi” o clima tem importante função narrativa, indicando a passagem do tempo através das estações, como o rigoroso inverno que “parece cumprido” e a colorida primavera que traz de volta a alegria à narrativa, após um momento melancólico. E já que citei a passagem do tempo, vale ressaltar que o longa, com apenas uma hora e dez minutos de duração, tem um bom ritmo, o que é mérito da montagem, essencial também nas cenas mais tensas, principalmente quando o homem começa a interferir na vida dos animais. Tensa também é a tempestade que assusta o protagonista, numa das seqüências que ilustram a boa condução de David Hand (sem trocadilhos), que cria uma atmosfera sombria através dos raios que iluminam a tela momentaneamente, voltando à escuridão em seguida e, após o fim da tempestade, estabelecendo um belo contraste através dos pássaros que repousam num galho com a luz do sol ao fundo. E são os pássaros (e a trilha agitada) que indicam a chegada de um temível predador, assustando o restante dos animais, que saem em disparada – e a tristeza é inevitável ao constatar que este predador é o homem quando o som dos tiros surge. Aliás, todas as cenas que envolvem a figura humana são tensas, justamente por causa do ritmo empregado pelo diretor, que mantém o espectador atento e sempre torcendo pelos animais através da alternância entre os planos que ilustram o desespero de todos com a presença daquele invasor. Por isso, quando Bambi pergunta “Porque todos nós corremos, mamãe?”, a resposta, triste e verdadeira, soa como uma facada no coração do espectador: “Porque o homem esteve na floresta”. Finalmente, vale destacar a bela composição de alguns planos, como o zoom que destaca o líder dos cervos ou quando Bambi e sua mãe caminham pela floresta, com suas imagens refletindo na água do rio.

Numa destas caminhadas, Bambi encontra um pouco de grama pra comer no meio da neve. Enquanto o filhote se delicia, a mamãe atentamente escuta algo que se aproxima. E quando ela ergue a cabeça e a trilha sombria volta a tocar, sentimos a tragédia iminente. Mamãe grita para Bambi correr, os dois saem em disparada e a cena caminha em ritmo alucinante até o emblemático plano em que vemos Bambi passando correndo e, em seguida, a tela vazia, segundos após outro som de tiro. A fotografia sombria da cena seguinte, que chega a deixar Bambi completamente cinza, dá o tom do momento em que o grande cervo anuncia: “Sua mãe não pode mais ficar com você, meu filho”. A lágrima dele e a trilha sonora melancólica encerram a eficiente cena, que emociona sem ser exageradamente melodramática.

Após o trauma, a vida segue e Bambi continua crescendo. Seus belos chifres simbolizam a chegada da adolescência, uma fase onde a vaidade está em alta e por isso ele se mostra orgulhoso de seu novo visual. Seus amigos Tambor e Flor também crescem e passam a escutar atentamente os ensinamentos da velha coruja, que fala aos jovens sobre como é se apaixonar, em outra cena bela. Cheios de orgulho, os três afirmam que isto nunca vai acontecer com eles, mas, obviamente, se apaixonam logo em seguida, afinal de contas, esta é a vida. E numa interessante rima narrativa, o segundo encontro entre Faline e Bambi acontece da mesma forma que o primeiro (quando eles ainda eram filhotes), com ambos se olhando através do reflexo na água. Mas desta vez a timidez de Bambi não impedirá que ela se aproxime e lamba o rosto dele, fazendo com que o casal se sinta nas nuvens, como ilustrado nas belas imagens seguintes, num momento único que pode ser comparado ao primeiro beijo de um adolescente. Apaixonado, Bambi lutará o quanto for preciso para defender a amada, o que nos leva à outra cena marcante, em que ele luta com outro cervo sob um visual sombrio, graças às cores escuras que predominam na tela.

Mas certamente as cenas mais sombrias acontecem no ato final, quando o homem parte para a caçada e Bambi finalmente assume o posto de líder do grupo, conduzindo os cervos para um local seguro ao mesmo tempo em que enfrenta o homem (e seus cachorros) no caminho, quando volta para salvar Faline. É verdade que Bambi não sairá ileso deste confronto, mas o tiro que leva felizmente não será fatal como o de sua mãe. Vale destacar ainda que toda a seqüência da fuga apresenta um visual deslumbrante, também por causa do incêndio (provocado pelo homem) que assola a floresta, que confere um aspecto infernal à cena, graças ao predomínio do vermelho e do amarelo, e serve como uma forte crítica à interferência do homem na natureza. Somos os demônios responsáveis por aquela tragédia e a cena ilustra isto – e a triste imagem dos animais tentando se recuperar na beira do rio, com a floresta destruída, reforça esta sensação. Mas a vida recomeça para todos e a natureza mais uma vez se renova com vigor, com a chegada dos novos príncipes cervos que recomeçam o ciclo da vida, ilustrado no zoom out que encerra o longa, destacando o agora poderoso Bambi, um adulto formado e com sua própria família, como fora seu pai um dia.

Além do belo visual e da narrativa coesa, “Bambi” aborda as diversas etapas da formação de seu jovem cervo, numa interessante metáfora para os próprios seres humanos. Acompanhamos Bambi aprendendo a andar, a falar, a brincar, a comer, a se proteger do perigo, a se apaixonar, constituir uma família e se tornar, com o passar do tempo, o que seus pais eram quando ele nasceu, assim como todos nós provavelmente fizemos ou faremos um dia.

Texto publicado em 07 de Abril de 2011 por Roberto Siqueira

DUMBO (1941)

(Dumbo)

 

Filmes em Geral #49

Videoteca do Beto #148 (Filme comprado após ter a crítica divulgada no site e transferido para a Videoteca em 06 de Janeiro de 2013)

Dirigido por Ben Sharpsteen.

Elenco: Verna Felton, Cliff Edwards, Herman Bing, Billy Bletcher, Edward Brophy, Jim Carmichael, Hall Johnson Choir e Noreen Gammill.

Roteiro: Joe Grant e Dick Huemer.

Produção: Walt Disney (não creditado).

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Apesar da qualidade de seus primeiros filmes, os estúdios Disney enfrentavam grande dificuldade financeira na época do lançamento de “Dumbo”. Em meio à forte crise provocada pela guerra mundial, as pessoas não freqüentavam mais o cinema como antes e nem mesmo o inovador “Fantasia” e a obra-prima “Pinóquio” conseguiram reverter este quadro, deixando “Branca de Neve e os Sete Anões” como o único sucesso efetivo de bilheteria do estúdio até então. Além disso, Walt empregou seus melhores recursos na produção de “Bambi”, que seria lançado apenas em 1942, após longos 6 anos em produção. Sobrou para “Dumbo” a equipe dos “velinhos” do estúdio, que ficou com a responsabilidade de criar um filme menor, mais barato e que, ironicamente, salvou o estúdio, tornando-se um grande sucesso de bilheteria.

Escrito por Joe Grant e Dick Huemer, “Dumbo” conta a história de um bebê elefante que nasceu com orelhas enormes e, por isso, é alvo do preconceito dos outros animais e até mesmo de seres humanos no circo onde vive. Após ser separado de sua mãe, que, desesperada para defender o filho, atacou um grupo de meninos, ele encontra o ratinho Timóteo, que o ajuda a recuperar a auto-estima perdida e dar a volta por cima, transformando-se no grande astro do circo.

Apesar da boa qualidade da animação, “Dumbo” apresenta um trabalho claramente mais rústico que “Pinóquio”, o que é reflexo da crise financeira que a Disney enfrentava na época, que forçou a redução do orçamento de “Dumbo”. Para compensar o menor nível de detalhes, o longa aposta inicialmente num visual alegre, repleto de cores fortes, além dos belos planos do diretor Ben Sharpsteen, notáveis, por exemplo, quando o trem viaja durante a noite ou na montagem do circo sob forte chuva. Além disso, “Dumbo” é repleto de momentos tocantes, sempre embalados pela linda trilha sonora de Frank Churchill e Oliver Wallace, como quando as cegonhas trazem os filhotes dos animais logo no início, conquistando o espectador imediatamente. A trilha sonora, aliás, é um dos destaques do filme, mantendo a tradição Disney de espalhar diversas canções pela narrativa, além de pontuar muito bem as cenas, como quando muda para um tom triste após as cegonhas irem embora, ilustrando o sentimento da elefanta que não recebeu seu bebê. E é justamente nestes momentos que tocam o coração e na simplicidade da narrativa que reside o sucesso do longa.

Observe, por exemplo, a linda cena do “nascimento” de Dumbo. Após acompanharmos o sofrimento da mamãe elefanta, a desajeitada e atrasada cegonha chega para entregar seu filhote, provocando a emoção genuína no espectador, que já partilhou com ela o sofrimento por não ter o seu bebê e agora é agraciado pela chegada de Dumbo. Pequeno e frágil, o personagem título conquista o espectador rapidamente, o que será essencial para o sucesso da narrativa (observe, por exemplo, que, assim como Bambi, Dumbo também tem medo dos raios e se protege da chuva embaixo de sua mãe). Por isso, quando suas enormes orelhas aparecem e provocam o espanto das outras elefantas, o espectador até pode estranhar, mas já foi conquistado pelo pequeno elefante e torcerá por ele até o final. Neste momento, aliás, tem inicio o tema principal do filme, que é o respeito (ou a falta dele) ao diferente. Para aqueles que acusam a Disney de ser conservadora, pode ser surpreendente constatar que Walt já debatia o preconceito naquela época.

Independente do que as pessoas pensam e de qualquer tipo de preconceito, uma mãe sempre amará seu filho (estou me referindo às mães de verdade, não a estes monstros que vemos nos telejornais hoje em dia). Por isso, é compreensível (e até mesmo previsível) que mamãe elefanta se revolte (repare o olho vermelho dela) e ataque os meninos que caçoam de Dumbo no circo, o que ocasionará sua prisão, acusada de ser louca. Na prisão, vale observar a composição visual dos planos que ilustram a sintonia entre mãe e filho, com as sombras da grade formando listras na elefanta, da mesma forma que a lona do circo aparece atrás de Dumbo. Esta conexão é reforçada ainda pelo movimento do corpo deles, que é idêntico. Solitário e abandonado, Dumbo encontrará auxilio no animado Timóteo, personagem que funciona como alívio cômico numa narrativa que caminhava para um clima pesado demais. Suas intervenções, como quando assusta as elefantas fofoqueiras, são sempre divertidas e quebram o ritmo denso da narrativa. E até mesmo o jovem Dumbo contribui para esta atmosfera bem humorada, quando destrói o circo ao participar de um número, mas este acidente acaba aumentando seu drama e iniciando o conflito principal da narrativa, o que traz de volta o clima pesado para a história. Transformado em palhaço, ele faz enorme sucesso, mas chora de tristeza. O longa alterna com eficiência entre os momentos divertidos e dramáticos, nos fazendo sorrir em cenas como esta do circo e nos emocionando em momentos belíssimos, como quando Dumbo visita a mãe na cela, momentos antes dos palhaços afirmarem que “elefantes não têm sentimentos”. Eles não podiam estar mais errados.

Ainda que na maior parte do tempo Ben Sharpsteen apresente uma direção discreta, ele é competente na condução de cenas marcantes, como a interessante seqüência em que Dumbo e o ratinho ficam bêbados, seguida por imagens psicodélicas de elefantes cor-de-rosa que simulam a bebedeira da dupla, confirmando novamente a ousadia de Walt Disney (lembre-se que em “Pinóquio” ele já havia mostrado os garotos fumando e jogando sinuca). E da mesma maneira que o ritmo da narrativa alterna entre momentos divertidos e dramáticos, a fotografia alterna das cores fortes do início para cores mais tristes no segundo ato, refletindo a tristeza de Dumbo e sua mãe até mesmo através do maior número de cenas noturnas, voltando para tons mais alegres no final. Se “Dumbo” não é um filme perfeito, seus pequenos problemas podem até passar despercebido diante da beleza da história narrada. É verdade que animais se comunicando verbalmente com seres humanos é algo que soa irreal mesmo num universo fantasioso (como acontece quando o ratinho conversa com o dono do circo). Além disso, é difícil acreditar no número que “empilha” sete elefantes no circo. Mas são problemas pequenos demais para atrapalhar um filme tão belo.

Quando Dumbo parece desolado e perdido, o sermão de Timóteo para os corvos serve também para atingir a platéia, num momento que resume a bela mensagem do filme. Através da pena mágica (um artifício usado para dar confiança ao protagonista), ele e os corvos conseguem devolver a auto-estima para o elefante, que aprende a voar. Pra finalizar, a seqüência ainda apresenta a melhor música do filme, a empolgante “When I See an Elephant Fly”, que em português tem o delicioso refrão: “fiquei um mês sem poder falar ao ver elefante voar”. Dumbo volta para o circo, faz sucesso, fica rico e recebe sua mãe de volta. Um final feliz, para um filme idem, que ainda consegue deixar uma bela mensagem para o espectador.

Com simplicidade e muita imaginação, “Dumbo” consegue agradar, mostrando que uma história simples pode ser tão eficiente quanto qualquer outra, dependendo da forma como é contada. É interessante que o filme que fala sobre o preconceito tenha tido pouco investimento do estúdio e poucos recursos técnicos, pois reafirma a mensagem de que a forma é menos importante do que o conteúdo. E não é o caso de dizer que ficarei um mês sem poder falar, mas de fato foi uma delícia ver este elefantinho voar.

Texto publicado em 06 de Abril de 2011 por Roberto Siqueira

FANTASIA (1940)

(Fantasia)

 

Filmes em Geral #48

Videoteca do Beto #147 (Filme comprado após ter a crítica divulgada no site e transferido para a Videoteca em 06 de Janeiro de 2013)

Dirigido por James Algar, Samuel Armstrong, Ford Beebe, Hamilton Luske, Jim Handley, Norman Ferguson, T. Hee, Wilfred Jackson, Bill Roberts, Paul Sattersfield.

Elenco: Leopold Strokowski, Deems Taylor, James Macdonald, Paul J. Smith, Walt Disney (Mickey Mouse – voz) e Julietta Novis (Soloist – voz).

Roteiro: Joe Grant e Dick Huemer (sequências de orquestra); Lee Blair, Elmer Plummer e Phil Dike (“Toccata and Fugue in D Minor”); Sylvia Moberly-Holland, Norman Wright, Albert Heath, Bianca Majolie e Graham Heid (“The Nutcracker Suite”); Perce Pearce e Carl Fallberg (“The Sorcerer’s Apprentice”); William Martin, Leo Thiele, Robert Sterner e John McLeish (“Rite of Spring”); Otto Englander, Webb Smith, Erdman Penner, Joseph Sabo, Bill Peet e George Stallings (“The Pastoral Symphony”); Campbell Grant, Arthur Heinemann e Phil Dike (“Night on Bald Mountain/Ave Maria”).

Produção: Walt Disney.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Walt Disney gostava de desafios. Não fosse assim, jamais teria lançado o primeiro longa metragem de animação da história, o clássico “Branca de Neve e os Sete Anões”. Felizmente, sua ousadia era acompanhada de uma genialidade ímpar, que lhe permitiu acertar em praticamente todos os projetos seguintes, como a obra-prima “Pinóquio”, “Bambi” e “Dumbo”. Mas em 1940, “Walt” ousou ainda mais, decidindo misturar animação e música clássica neste excelente “Fantasia”, que nos leva numa viagem belíssima e inesquecível.

“Fantasia” apresenta uma série de histórias distintas acompanhadas por grandes obras da música clássica, numa mistura bastante original e até mesmo ousada para a época (poucos anos antes, as pessoas sequer acreditavam que seria possível produzir um longa metragem de animação). Até por isso, “Fantasia” foi mal recebido pela crítica na época, mas acabou sendo merecidamente reconhecido com o passar dos anos, ainda que hoje, mais de 70 anos depois de seu lançamento, seu ritmo soe um pouco irregular. Basicamente, a narrativa apresenta pequenas histórias animadas, separadas pelas intervenções da orquestra da Filadélfia, que toca as seguintes canções: “Toccata and Fugue in D Minor”, de Johann Sebastian Bach, “The Nutcracker Suite”, de Peter Llich Tchaikovsky, “The Sorcerer’s Apprentice”, de Paul Dukas, “Rite of Spring”, de Igor Stravinsky, “Symphony No. 6”, de Ludwing Van Beethoven (na história “The Pastoral Symphony”), “Dance of the Hours”, de Almicare Ponchielli, “A Night on Bald Mountain”, de Modest Mussorgsky e “Ave Maria”, de Franz Schubert.

Com seu festival de sons e cores, “Fantasia” é uma verdadeira festa para os sentidos. Desnecessário dizer que a qualidade das animações é excepcional, já que estamos falando de uma produção com o padrão Disney, assim como não precisamos reafirmar a qualidade das músicas que embalam cada seqüência. Ainda assim, o longa não é perfeito, pois as interrupções da orquestra, necessárias na época até para explicar à platéia o que estava acontecendo, claramente quebra o ritmo da narrativa. Mas este pequeno deslize não tira o brilho deste grande filme, que corajosamente enfrentou o desafio de misturar animação e música clássica ainda nos anos 40, como fica evidente logo em seu início, quando as imagens da orquestra (com tonalidades fortes em vermelho, azul e amarelo) se transformam numa série de imagens abstratas sob o som da música “Toccata and Fugue in D Minor” de Sebastian Bach. Lentamente, saímos do concerto e passamos a viajar nos desenhos da turma de “Walt”, numa introdução correta, que funciona como apresentação do que veremos a seguir. Ainda assim, este primeiro número é claramente o mais fraco do longa e não consegue empolgar.

Já no segundo número, “The Nutcracker Suite” (música de Pyotr Ilyich Tchaikovsky), destacam-se a dança dos cogumelos, uma divertida alusão aos chineses, e a dança das flores, um verdadeiro deleite visual. Um pouco melhor que o número de abertura, “The Nutcracker Suite” atinge seu grande momento na valsa das folhas e termina preparando o espectador para os novos e empolgantes “curtas” que ele vai presenciar. Daqui pra frente, cada seqüência é uma verdadeira jóia, com exceção da chata e burocrática apresentação da “trilha sonora”, que serve apenas para separar os quatro primeiros números dos últimos. Antes dela, temos ainda duas seqüências fascinantes. “Aprendiz de Feiticeiro” (“The Sorcerer’s Apprentice”, de Paul Dukas), o terceiro número do longa, apresenta Mickey Mouse num dos papéis mais famosos de sua longa jornada, deixando uma lição sobre os perigos da ambição e trazendo seqüências visuais de tirar o fôlego, como quando as vassouras invadem o local para jogar água ou quando Mickey sonha controlar tudo com o chapéu do feiticeiro. O quadro seguinte é “Rite of Spring” (música de Igor Stravinsky), uma viagem deliciosa pela evolução da terra com imagens belíssimas, ousada tematicamente para um filme infantil (por mostrar a lei da vida sem maquiar a realidade), que apresenta animais se alimentando uns dos outros para sobreviver, como na aterrorizante chegada do T-Rex sob forte chuva (repare o visual sombrio da cena), em que ele mata outro dinossauro. O emblemático plano em que o sol queima as caveiras de dinossauros encerra a seqüência e simboliza o fim de uma era na Terra.

Após a desnecessária apresentação da “trilha sonora”, temos o sensacional “The Pastoral Symphony”, talvez o melhor número de “Fantasia”, que apresenta uma interessante história repleta de personagens da mitologia grega no Monte Olimpo sob o som da “Symphony No. 6”, de Beethoven. Aqui, novamente a ousadia temática aparece durante o “sensual” namoro dos centauros, seguida pela festa do vinho e pelo castigo de Zeus. Os raios que castigam aqueles “pecadores”, simbolizados pelos meninos com chifres que enchem os tanques de vinho, são seguidos por uma forte tempestade, mas a calmaria chega, o arco-íris aparece e a noite recai sobre todos, num número marcante e inesquecível. Vale observar alguns detalhes, como a cor azul dos centauros solitários, que ilustra a tristeza que eles sentiam, e o local onde eles se encontram após a “ajuda” dos anjos (uma referencia ao “Templo do Amor”, em Versalhes), além do coração que fecha a seqüência com toques de romantismo. Repare ainda como durante a chuva, o visual sombrio é reforçado pela parte tensa da música de Beethoven enquanto Zeus castiga a todos com raios.

Chegamos então ao penúltimo número do longa. “Dance of the Hours”, com música de Amilcare Ponchielli, é claramente inferior aos dois anteriores, mas não chega a decepcionar. Vale notar como a cor e até mesmo os animais escolhidos remetem à passagem do dia, iniciando com o inofensivo Avestruz branco, passando pelos hipopótamos marrons, pelos elefantes mais escuros e fechando com os temíveis jacarés. E finalmente, o último número, acompanhado pelas músicas “A Night on Bald Mountain”, de Modest Mussorgsky, e “Ave Maria”, de Franz Schubert, comprova toda a ousadia de Walt Disney, tanto na escolha do projeto quando nos temas abordados, mostrando o confronto entre o demônio e seus seguidores e a igreja. O demônio, aliás, ainda hoje é aterrorizante, com um visual imponente e um olhar penetrante, mas ainda assim cai diante dos sinos que anunciam a chegada dos “religiosos” e nos levam ao final de toda esta bela viagem chamada “Fantasia”.

“Fantasia” é um grande filme, sem dúvida, mas seu ritmo lento, constantemente quebrado pelas interrupções da orquestra para apresentar o próximo número, pode desagradar às platéias mais jovens. Em todo caso, Walt Disney comprovou mais uma vez sua genialidade e sua coragem ao abraçar um projeto tão diferente e entregar um resultado agradável.

Texto publicado em 05 de Abril de 2011 por Roberto Siqueira

BRANCA DE NEVE E OS SETE ANÕES (1937)

(Snow White and the Seven Dwarfs)

 

Filmes em Geral #47

Dirigido por David Hand.

Elenco: Adriana Caselotti, Harry Stockwell, Lucille La Verne, Moroni Olsen, Billy Gilbert, Pinto Colvig, Otis Harlan, Scotty Mattraw, Roy Atwell e Stuart Buchanan.

Roteiro: Dorothy Ann Blank, Richard Creedon, Merrill De Maris, Otto Englander, Earl Hurd, Dick Rickard, Ted Sears e Webb Smith, baseado em história de Jacob Ludwig Carl Grimm e Wilhelm Carl Grimm.

Produção: Walt Disney.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Como já abordei na semana especial “Inovação”, a história do cinema é marcada por diversos momentos importantes, com o lançamento de filmes que influenciaram muitos outros e colaboraram para a evolução da linguagem cinematográfica. E entre tantos filmes importantes que podem ser encaixados nesta categoria, um dos meus favoritos é “Branca de Neve e os Sete Anões”, o primeiro longa-metragem de animação da história, responsável por esta técnica tão querida, que nos delicia todos os anos com lançamentos de ótima qualidade. Se hoje podemos assistir obras-primas como “Wall.E” ou “Toy Story” é porque um dia Walt Disney teve a coragem de desafiar o pessimismo geral e lançar um longa totalmente feito em animação.

Uma bela rainha (voz de Lucille La Verne) decide matar sua enteada quando descobre que ela é a mais linda de todas as mulheres. Mas o carrasco (voz de Stuart Buchanan) escolhido para executá-la desiste da idéia e permite que ela fuja. A jovem, chamada Branca de Neve (voz de Adriana Caselotti), encontra abrigo numa cabana, onde vivem sete anões que trabalham numa mina. Mas a rainha descobre seu paradeiro, se transforma numa bruxa e vai atrás dela, numa última tentativa de concretizar seu plano e se tornar a mais bela de todas as mulheres.

Contrariando a crença da época de que era impossível realizar um longa-metragem totalmente feito em animação, “Branca de Neve e os Sete Anões” foi um enorme sucesso de crítica e público e alavancou muitos dos projetos seguintes dos estúdios Walt Disney. Aliás, o longa fez mais do que isso, lançando uma técnica que faz sucesso até hoje e que até mesmo é, erroneamente, confundida como um gênero. Por isso, é bom deixar claro: animação não é gênero, é técnica. Um filme de animação pode ser um drama, uma comédia, uma aventura, um romance, ou até mesmo tudo isto ao mesmo tempo. No caso de “Branca de Neve”, temos um conto de fadas clássico (baseado na história dos irmãos Grimm, do século XIX), responsável por estabelecer alguns clichês do gênero (gênero “contos de fadas”, que fique claro), como a introdução através das páginas de um livro, a rainha malvada, a bela princesa, o príncipe encantado e o final em que “todos viveram felizes para sempre”. Além disto, o longa estabeleceu a estrutura narrativa ideal para animações (rápida e objetiva), graças à montagem fluída e a curta duração, prendendo a atenção de uma platéia normalmente dominada por crianças. Finalmente, a narrativa estabelece com clareza quem é a grande vilã, fazendo o espectador torcer pela mocinha e sofrer junto com ela até o final.

Além da estrutura narrativa, “Branca de Neve” também representou o passo inicial das animações tecnicamente falando. Por isso, é normal que a qualidade das imagens (excelente para a época) seja inferior aos filmes seguintes, como “Pinóquio” ou “Bambi”. Ainda assim, vale destacar o belo trabalho dos animadores da Disney e do diretor David Hand, que cria cenas de grande beleza plástica, como a primeira aparição da casa dos anões, a marcha da volta pra casa e a obscura perseguição à bruxa na chuva, que contrasta com o visual colorido predominante até então. E mesmo com uma direção econômica sob o ponto de vista técnico, vale destacar alguns movimentos de câmera interessantes, como o travelling que sai de Branca de Neve e vai até a rainha enquanto o príncipe canta pra ela no jardim ou o zoom out que nos distancia de Branca de Neve enquanto ela varre a frente da casa dos anões. Escrito por oito pessoas, baseado na citada história dos irmãos Grimm, “Branca de Neve” foi responsável por algumas frases clássicas da história da animação, como o inesquecível “Espelho, espelho meu, existe alguém mais bela do que eu?” da malvada rainha, além de mostrar coragem ao abordar sem floreios a inveja cruel da rainha e as conseqüências drásticas de sua maldade, o que pode impressionar as crianças. Aliás, é engraçado como a Disney, costumeiramente acusada de ser conservadora, demonstrava grande ousadia temática em seus primeiros anos, como podemos notar em “Pinóquio”, com os meninos fumando e jogando sinuca, e neste “Branca de Neve”, quando a rainha ordena a morte da enteada.

Estabelecendo o padrão Disney que duraria por muitas décadas, a narrativa é constantemente interrompida por canções, que felizmente sempre tem alguma função narrativa, como a famosa (e deliciosa) música cantada pelos anões no fim do dia de trabalho (“Eu vou, eu vou, pra casa agora eu vou…”) ou quando eles são “obrigados” a lavar as mãos antes de comer. Além disso, a trilha sonora de Frank Churchill, Leigh Harline, Paul J. Smith e Larry Morey preenche grande parte da narrativa, alternando entre momentos melódicos e agitados, como quando a protagonista foge para a floresta, sob um visual sombrio, com árvores escuras que mais parecem monstros, morcegos e troncos que parecem jacarés. Este contraste entre momentos obscuros e alegres também reforça a qualidade do trabalho dos animadores. Repare, por exemplo, a iluminação perfeita dentro da casa dos anões, que muda quando a luz se apaga, além da movimentação das sombras e do reflexo da luz que é alterado conforme os personagens se movimentam na casa. E, assim como em “Bambi”, os animais que rodeiam Branca de Neve na floresta trazem vida ao plano e devolvem o clima leve à narrativa, principalmente quando ajudam à donzela, dividindo as tarefas durante a limpeza da casa.

Charmosa por fora e sem vida por dentro, a casa dos anões reflete a personalidade deles através da bagunça, ganhando vida após a limpeza – o que provoca a irritação de quase todos eles. Aliás, assim como seus nomes, os anões são personagens graciosos, que conquistam o espectador desde o momento em que entram em cena. Como não se divertir quando eles se organizam para expulsar o invasor, mandando Dunga (tremendo) para o quarto? E depois, quando ele se assusta com o “fantasma” e sai correndo, sendo confundido com o invasor e agredido por todos? Os sete anões são personagens tão marcantes que até mesmo quem nunca assistiu ao filme (ou leu o conto) provavelmente sabe seus nomes. Mestre, Feliz, Atchim, Zangado, Dunga, Soneca e Dengoso são realmente fascinantes. Com inteligência, o roteiro aproveita os curiosos nomes dos personagens para criar gags divertidas, especialmente com Atchim, Dengoso e Soneca. E até mesmo Zangado consegue nos divertir, mostrando que não é tão zangado assim quando ganha um beijo da princesa, que, com sua beleza, encanta a todos eles. Aliás, o primeiro contato entre Branca de Neve e os anões só acontece com 35 minutos de filme e, mesmo com tão pouco tempo de relacionamento, eles conseguem criar empatia e fazer com que o espectador acredite no sofrimento dos anões após a tragédia.

Mas nem só de personagens graciosos vive “Branca de Neve” e a rainha malvada é certamente uma vilã temível e um dos personagens marcantes da história das animações. Mesmo em sua forma mais bela, a rainha consegue intimidar o espectador, com seu olhar penetrante e sua voz firme. Após sua transformação numa bruxa, ela se torna ainda mais ameaçadora e, acompanhada de terríveis urubus, parte para visitar a donzela e oferecer-lhe a maçã (sempre a maçã!) envenenada. E nem mesmo o aviso dos pássaros evita que Branca de Neve morda a maça e desmaie, numa seqüência sombria, reforçada pela chuva e pela noite, que cria a atmosfera perfeita para a morte da donzela. Desta forma, quando os anões chegam ao local e choram pela protagonista, nós também sofremos por ela e acreditamos na tragédia, sob influência do peso dramático da cena e do visual obscuro que predomina na tela. E a imagem de Branca de Neve sendo velada reforça a coragem da narrativa, com alguns momentos pesados dramaticamente para sua época e, principalmente, para o seu público alvo. Só que, felizmente, este é um conto de fadas (talvez o maior deles) e o tão aguardado príncipe encantado (voz de Harry Stockwell) aparece para beijar a donzela e devolvê-la à vida, ao mesmo tempo em que o sol volta a brilhar e nos leva ao clássico final em que “todos viveram felizes para sempre”.

E assim como os personagens, os fãs de cinema também viveram felizes para sempre graças a “Branca de Neve e os Sete Anões”, o filme responsável pelo surgimento de uma técnica tão bela, que nos brindou com inúmeros filmes marcantes desde então.

Texto publicado em 04 de Abril de 2011 por Roberto Siqueira

ARCA RUSSA (2002)

(Russkij Kovcheg / Russian Ark)

 

Filmes em Geral #46

Dirigido por Aleksandr Sokurov.

Elenco: Sergei Dontsov, Mariya Kuznetsova, Leonid Mozgovoy, David Giorgobiani, Aleksandr Chaban, Maksim Sergeyev, Anna Aleksakhina, Konstantin Anisimov, Aleksei Barabash, Vladimir Baranov, Valentin Bukin, Kirill Dateshidze, Yuli Zhurin e Natalya Nikulenko.

Roteiro: Boris Khaimsky, Anatoli Nikiforov, Svetlana Proskurina e Aleksandr Sokurov.

Produção: Andrei Deryabin, Jens Meuer, Jens Meurer e Karsten Stöter.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Aleksandr Sokurov nos leva numa viagem espetacular por trezentos anos da história russa neste impressionante “Arca Russa”, o primeiro filme da história do cinema a ser feito em um único plano-seqüência de 97 minutos, ou seja, sem um único corte, mas que apresenta muito mais do que um trabalho técnico excepcional ao propor reflexões a respeito da própria linguagem cinematográfica e também sobre a própria existência humana.

Um homem é misteriosamente enviado ao museu Hermitage, em São Petersburgo, no ano de 1700 e passa a percorrer o local, acompanhado de um diplomata europeu (Sergei Dontsov), fazendo uma verdadeira viagem através da história russa entre os séculos XVIII e XXI.

Tomadas longas não são novidade no cinema. Scorsese, Figgis, Altman, Welles, Hitchcock e, mais recentemente, Paul Thomas Anderson e Alejandro Cuarón já utilizaram com maestria o plano-seqüência em diversos filmes, normalmente com muita eficiência e em cenas de grande impacto. Mas o que o diretor Aleksandr Sokurov conseguiu realizar em “Arca Russa” é algo sem precedentes na história da sétima arte. Filmado no dia 23 de Dezembro de 2001 numa única tomada, “Arca Russa” poderia entrar para a história do cinema simplesmente pelo seu apuro e inovação técnica. Felizmente, o longa dirigido por Sokurov vai além, propondo também uma reflexão filosófica a respeito da própria existência humana (“estamos mesmo destinados a navegar pra sempre?”) e outra reflexão a respeito da linguagem cinematográfica (“Era mesmo necessário filmar o longa em um único plano-seqüência?”). O diretor mantém a câmera no nível dos ombros do personagem, nos colocando sob o ponto de vista do narrador e literalmente flutuando pelos ambientes (o que reforça a teoria de que todos são fantasmas, mas falaremos dela depois). Os movimentos de câmera impressionam, passando por escadas em caracol e por cima de uma orquestra, por exemplo, além de evitar os reflexos, o que é notável num ambiente propício como o Hermitage, revelando o excepcional trabalho de direção de fotografia de Tilman Büttner (que é também o operador da steadicam). Sokurov caminha com sua câmera pelo museu, mantendo sempre o mesmo ritmo, que jamais é apressado ou demasiadamente lento, e nós viajamos junto com ele.

“Arca Russa” tem uma atmosfera de sonho, reforçada pelas vozes que se misturam ao som diegético logo no inicio do longa, pelas pequenas distorções nos cantos da tela em alguns momentos e pelos personagens fascinantes que cruzam o caminho da dupla de protagonistas. O som, aliás, é excepcional, captando desde passos no chão até os pensamentos, cochichos, risadas e palavras do narrador e de seu companheiro de viagem, além de permitir escutar nitidamente, por exemplo, o som de rodas de madeira girando, de uma orquestra tocando e das diversas conversas paralelas que cruzam nosso caminho durante a jornada. Todo o trabalho técnico é impressionante, a começar pela direção de fotografia do citado Büttner que acerta a iluminação em todos os 35 ambientes filmados, alternando entre locais iluminados à luz de velas e salões amplamente iluminados, evitando reflexos e excessos de luz, o que poderia atrapalhar a composição do plano. Vale destacar também os belíssimos figurinos que garantem um ar pomposo ao longa, além do próprio cenário, o museu Hermitage, que nos brinda com imagens arrebatadoras.

Não é difícil imaginar o trabalho logístico gigantesco de Sokurov para coordenar a atuação dos mais de 2000 figurantes e atores, que não poderiam errar em nenhum momento sob a pena de comprometer toda a filmagem (e aqui, vale o registro de que foram necessárias apenas três tentativas para que o resultado final saísse corretamente), em 35 ambientes diferentes, tendo que caminhar através da complexa estrutura do museu Hermitage. De maneira surpreendente, graças ao citado excepcional trabalho técnico de toda equipe e, obviamente, às atuações de todo o elenco, o resultado final parece real e nos leva numa viagem que oscila entre o sonho e a realidade, passando por trezentos anos da história russa, com destaque para a época dos czares, passando por Pedro o Grande, Catarina a Grande, Catarina II e o casal Nicholas e Alexandra Romanov. Entretanto, é importante ressaltar que não é necessário conhecer a história do país para apreciar o longa, mas certamente é ainda mais agradável a experiência para aqueles que entendem e, de certa forma, já conhecem àqueles personagens que cruzam o caminho do narrador.

E então chegamos às duas discussões centrais de “Arca Russa”. A primeira delas, que interessa principalmente aos cinéfilos, tem como base a grande inovação técnica do longa. Será que se o filme fosse filmado de maneira convencional, com cortes e planos distintos, o resultado seria inferior ao que Sokurov apresenta? Será que a utilização de um único plano-seqüência, por mais fascinante que seja (e realmente é impressionante) altera o resultado final da obra? Pra não ficar em cima do muro, afirmo que, em minha opinião, a ousadia de Sokurov engrandece ainda mais o filme, por nos inserir de maneira singular na narrativa, fazendo com que o espectador se sinta totalmente imergido na história. Já a outra discussão, que fala a respeito da natureza da existência humana, interessa ao público em geral (e agora, voltamos à teoria dos fantasmas). Estaria o narrador simplesmente vagando pelo museu ao lado de diversos espíritos que habitam naquele lugar ou simplesmente estamos fazendo uma viagem no tempo sem qualquer explicação lógica a respeito? Um indício de que todos são fantasmas aparece logo no inicio do longa, quando o europeu diz que nunca falou russo antes, reforçado pela pergunta do narrador (“É um sonho?”) respondida com um “talvez” pelo europeu. Em todo caso, esta é uma resposta pouco relevante, diante da comovente reação do mesmo europeu ao final do último baile dos nobres russos, simbolizando o fim daquela era e indicando o caminho tortuoso que estaria por vir (algo simbolizado também pela longa escadaria que leva os figurantes à saída do museu, numa passagem apertada e sombria). O ator que interpreta o europeu com discrição e eficiência, Sergei Donstov, demonstra com competência a aflição do personagem, que sabe perfeitamente o destino que se aproxima (o que, por outro lado, enfraquece a teoria dos fantasmas e fortalece a viagem no tempo). O final dá um toque especial com a mensagem indicando o destino do narrador e de todos ali presentes. Frases como “O mar cerca tudo” e “estamos destinados a navegar/viver para sempre” abrem espaço para profundas reflexões a respeito da existência humana, tais como “para onde vamos e de onde viemos?”. Existe ainda uma interessante teoria de que a “Arca Russa” é uma alusão à arca bíblica (a arca de Noé), sendo responsável por salvar a cultura russa do período negro de sua história que estava por vir. É inegavelmente uma visão coerente, ainda mais com o plano que encerra o longa mostrando o mar em volta do museu.

Sokurov, “cansado da montagem”, segue um caminho oposto ao do mestre do cinema russo Eisenstein e faz cinema sem a justaposição de planos, criando um filme belíssimo e marcante. Mas se “Arca Russa” é pura arte, também propõe reflexões, o que o torna um verdadeiro presente para cinéfilos. É uma pena, portanto, que o resultado certamente não agrade espectadores que buscam a repetição de fórmulas de sucesso e evitam caminhar por novos caminhos. As próprias imagens do museu Hermitage comprovam que a arte é um valoroso bem da humanidade, que merece sempre sobreviver a qualquer dilúvio. E felizmente, o filme dirigido por Sokurov, assim como as obras do museu, resistirá ao tempo.

Texto publicado em 18 de Fevereiro de 2011 por Roberto Siqueira

AMNÉSIA (2000)

(Memento) 

 

 

Filmes em Geral #45

Dirigido por Christopher Nolan.

Elenco: Guy Pearce, Carrie-Anne Moss, Joe Pantoliano, Mark Boone Junior, Stephen Tobolowsky, Harriet Sansom Harris, Callum Keith Rennie, Larry Holden, Jorja Fox, Russ Fega e Kimberly Campbell.

Roteiro: Christopher Nolan, baseado em história de Jonathan Nolan.

Produção: Jennifer Todd e Suzanne Todd.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

“Acordado. Onde estou?”. A frase repetida seguidas vezes neste criativo “Amnésia” reflete bem o grave problema de memória que assola seu personagem principal. Mas o competente Christopher Nolan, auxiliado por sua ótima equipe técnica e um bom elenco, fez mais do que isto, colocando o espectador na mesma situação do protagonista e ilustrando, através de sua inovadora narrativa, como se comporta a memória do rapaz. Desta forma, assim como Leonard, nós também não sabemos o que aconteceu há poucos instantes, justamente porque na narrativa, o instante cronologicamente anterior só aparecerá nos momentos seguintes.

Após ver sua mulher ser estuprada e assassinada, Leonard (Guy Pearce), também atingido no crime, passa a sofrer de uma doença que o faz perder completamente a memória recente. Inconformado, ele parte em busca de respostas na tentativa de descobrir o assassino de sua mulher, o que obviamente se torna uma tarefa complicada diante de sua condição. A solução? Leonard anota tudo que pode, chegando a tatuar em seu próprio corpo as informações mais importantes como “John G. estuprou e matou minha esposa”. No caminho, ele contará com a ajuda do policial Teddy (Joe Pantoliano) e da garçonete Natalie (Carrie-Anne Moss), mas Leonard não sabe até que ponto pode confiar nestas pessoas.

Nos primeiros minutos de “Amnésia”, vemos algumas imagens sumirem de fotos tiradas pelo protagonista (um inteligente artifício, como descobriremos depois – ou antes? –, utilizado para gravar informações importantes), num indício de como funciona a memória dele. Em seguida, a imagem que acabamos de ver retrocede diante de nossos olhos, indicando como funcionará a narrativa, que, justamente por ser invertida, nos colocará na mesma situação de Leonard, evidenciando que a escolha do diretor não é apenas um exercício de estilo, tendo clara função narrativa. Desta forma, Christopher Nolan faz com que o espectador experimente a mesma agonia do personagem e passe a construir em sua mente diversas possibilidades de montagem do quebra-cabeça em que somos envolvidos. Para que esta estratégia criativa funcione, Nolan conta com a montagem excepcionalmente competente de Dody Dorn, responsável por fazer com que o espectador nunca saiba o que vai acontecer em seguida. Eu disse em seguida? Na realidade, cronologicamente falando, não sabemos o que aconteceu momentos antes daquilo que estamos vendo na tela, exatamente como o pobre Leonard. Além disso, Dorn inteligentemente insere no início de cada seqüência uma imagem que remete ao final da seqüência cronologicamente anterior (e que, na narrativa, veremos em seguida), funcionando como uma espécie de gancho que facilita nossa compreensão.

Escrito pelo próprio Christopher Nolan, baseado em história de seu irmão Jonathan Nolan, o bom roteiro de “Amnésia” apresenta uma séria de possibilidades durante a narrativa, fazendo com que o espectador desconfie de praticamente todos os personagens, não por ser intrincado, mas justamente por causa da condição do protagonista (e do espectador). Além disso, “Amnésia” apresenta pequenas reviravoltas que soam convincentes e interessantes, transformando personagens que pareciam vilões em amigos de Leonard e fazendo o caminho inverso, como no caso do policial Teddy e da misteriosa Natalie.

Além da interessante forma de narrar à história, “Amnésia” apresenta ainda uma segunda linha narrativa, que segue a ordem cronológica, envolvendo a curiosa história do casal Jankis, investigada por Leonard. E graças à excelente escolha do diretor de fotografia Wally Pfister, que utiliza imagens em preto e branco para diferenciar a segunda linha narrativa da primeira (que tem imagens coloridas), o espectador se situa perfeitamente na trama, sem jamais se sentir perdido ou confuso. Por isso, com este excelente trabalho técnico ao seu lado, Nolan fica à vontade para empregar uma direção segura, que prende o espectador desde o primeiro minuto de projeção através de escolhas acertadas, com o constante uso do close em objetos, que ressalta a importância das pequenas coisas na memória do ser humano. O diretor ainda demonstra sensibilidade nos poucos momentos em que nos permitimos ter compaixão de Leonard, como quando deitado numa cama e afundado nas sombras, ele lembra sua esposa e o lento zoom in de Nolan realça a tristeza do personagem. Observe ainda como este mesmo movimento serve para retirar Natalie do plano, como se Nolan quisesse que aquele momento fosse apenas de Leonard e suas lembranças – algo que fica evidente quando, ao citar a esposa, Nolan corta rapidamente para Natalie, que abre os olhos como quem se sente deslocada naquele instante. Além disso, a câmera sempre inquieta do diretor reflete a mente perturbada de Leonard por causa de sua doença, algo reforçado também pela evocativa trilha sonora de David Julyan (ainda assim, esta câmera inquieta é diferente da ágil câmera de mão que nos coloca dentro da cena quando Leonard foge do traficante Dodd). Observe também como Nolan insere imagens de uma injeção piscando rapidamente na tela, alertando para a possível confusão na mente de Leonard, apontada no terceiro ato por Teddy. E pra finalizar, não posso deixar de mencionar o maravilhoso momento em que as imagens em preto e branco se transformam em imagens coloridas e indicam a junção das duas linhas narrativas.

E se Leonard parece confuso e inseguro, é porque Guy Pearce consegue transmitir esta sensação de maneira discreta, porém bastante eficiente. Empregando um olhar compenetrado e até mesmo triste, que, associado ao tom de voz baixo, denota certa melancolia ao personagem, refletida até mesmo em suas roupas pouco coloridas (figurinos de Cindy Evans), Pearce compõe um Leonard complexo, que comove em sua luta para vingar a esposa, mas principalmente por acordar sempre nos “momentos seguintes” ao assassinato dela e, desta forma, sofrer eternamente. Constantemente tendo que explicar a natureza de sua doença (“Não é amnésia. Minha memória tem um problema, não me lembro de coisas recentes”), Leonard transita entre momentos de profunda concentração, quando precisa anotar correndo alguma informação para que não a esqueça completamente minutos depois, e momentos de angustia e aflição, como quando fala com um policial ao telefone – e o ator transmite este leque de sensações com muita competência. Com a plena consciência de que a “memória distorce as imagens”, Leonard luta para manter viva a lembrança de sua esposa e por isso fez de sua vingança uma razão para viver. Mas, como ele mesmo diz, como Leonard vai cicatrizar esta ferida se não consegue sentir o tempo? É, portanto, plausível que Teddy tenha razão, e que Leonard viva repetidas vezes esta fantasia, num ciclo contínuo e triste, ilustrado na tocante cena em que queima os objetos da esposa e pensa que ele já pode ter feito aquilo inúmeras vezes antes. E por falar em cena tocante, é impossível não se emocionar ao ver Leonard acordando e tentando falar com a esposa enquanto toca a cama vazia, somente para em seguida se lembrar que ela já não estava mais ali.

Justamente por estarmos na mesma situação de Leonard, não sabemos o que esperar das pessoas que o cercam, como o policial Teddy, interpretado por Joe Pantoliano e, principalmente, a misteriosa Natalie, muito bem interpretada por Carrie-Anne Moss. Num primeiro momento, pensamos, assim como o protagonista, que ela o ajuda por pena. Mas ela mesma esclarece a situação, dizendo que também perdeu alguém e que o ajuda porque ele a ajudou. Só que na realidade, Natalie é mais esperta do que parece, e descobriremos isto da pior maneira, vendo como ela utiliza a doença de Leonard a seu favor, criando situações para forçar um assassinato que lhe interessa, chegando ao ponto de usar informações extremamente pessoais para convencê-lo e até mesmo conquistá-lo (“Minha esposa me chamava de Lenny”, diz Leonard, ao ouvir Natalie chamá-lo desta maneira). Já Harriet Sansom Harris se sai muito bem como a Sra. Jankis, especialmente quando questiona Leonard, pedindo sua opinião “pessoal” e não sua opinião “profissional” a respeito de seu marido Sammy (Stephen Tobolowsky). Aliás, o casal Jankis vive uma das cenas mais dramáticas do longa, quando Sammy aplica a injeção de insulina seguidas vezes na esposa e provoca a morte dela. Ironicamente, a história de Sammy pode mesmo ser a história de Leonard. Ou não.

O final irônico, com Leonard utilizando a própria doença para se vingar do policial Teddy, fecha muito bem este criativo “Amnésia” (e abre outras possibilidades de interpretação, porque não?), filme que explorou com competência o conceito de montagem para entregar uma narrativa intrigante e, além disso, nos colocar na mesma situação desconfortável de seu protagonista. O cinema precisa de sopros de criatividade como este de vez em quando. E, felizmente, obras originais como esta só serão esquecidas por pessoas como Leonard. Ou não.

Texto publicado em 17 de Fevereiro de 2011 por Roberto Siqueira

O CANTOR DE JAZZ (1927)

(The Jazz Singer)

 

Filmes em Geral #44

Dirigido por Alan Crosland.

Elenco: Al Jolson, May McAvoy, Warner Oland, Eugenie Besserer, Richard Tucker, Robert Gordon (Jakie Rabinowitz – 13 anos), Otto Lederer e Cantor Joseff Rosenblatt.

Roteiro: Samson Raphaelson (peça), Alfred A. Cohn (adaptação) e Jack Jarmuth (legendas).

Produção: Não creditado.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Muitos nomes importantes da história do cinema eram declaradamente contrários a utilização do som. Entre eles, podemos destacar Charles Chaplin, que, inteligentemente, sabia que a fala poderia destruir seu principal personagem. Mas não eram apenas os interesses próprios que guiavam estas pessoas, já que muitas de fato acreditavam que o som poderia tirar parte da magia do cinema. Felizmente, o tempo se encarregou de mostrar justamente o contrário e o som chegou para acrescentar e abrir um leque de novas possibilidades para os cineastas. E o longa responsável por esta mudança é este “O Cantor de Jazz”, que apresenta mais do que a novidade do som, entregando também um intrigante estudo dos efeitos provocados pelo fanatismo religioso.

O jovem Jakie Rabinowitz (Al Jolson) desafia a tradição familiar de cinco gerações e decide sair de casa, numa tentativa de realizar seu sonho e se tornar um cantor de jazz, contrariando a intenção de seu pai (Warner Oland), que gostaria que ele cantasse na sinagoga. Após conseguir espaço no show bizz, ele retorna para sua cidade, mas a distancia não amenizou a amargura no coração de seu pai, ainda revoltado com o caminho que ele decidiu seguir.

O primeiro filme falado da história do cinema representaria de qualquer maneira um importante divisor de águas na indústria cinematográfica, independente de suas qualidades como filme. E sabendo da importância do que tinha nas mãos, o diretor Alan Crosland conduz esta transição com cuidado, buscando evitar o choque na platéia (como citado, nem todos acreditavam que o som vingaria no cinema). Por isso, o longa inicia no tradicional formado do cinema mudo, com trilha sonora ininterrupta, diálogos escritos na tela e as belas imagens em preto e branco narrando à história do jovem que queria cantar jazz. Mas aos 3 minutos de projeção, Crosland insere o momento que mudaria a história do cinema, permitindo ao espectador ouvir pela primeira vez a voz de um ator nas telonas quando o garoto Jakie (Robert Gordon) surge cantando uma bela canção. Desta forma, Crosland faz a transição do cinema mudo para o cinema falado de maneira lenta, com o som surgindo inicialmente nos versos das canções e, somente aos 17 minutos, através das primeiras frases de Jakie, no intervalo entre as músicas. O cinema finalmente tinha um diálogo (neste caso, monólogo) na tela (aliás, nesta cena Al Jolson tem um ótimo desempenho, se soltando e animando a platéia com assovios e muita energia). Em seguida, numa conversa com a Srta. Dale (May McAvoy), os diálogos voltam a aparecer escritos na tela e o som sai de cena, voltando somente quando Jakie canta para a mãe, já em seu retorno pra casa, quando novamente as frases aparecem no intervalo entre duas canções.

Conduzindo a narrativa de maneira bastante convencional, alternando planos médios, planos americanos e closes, Crosland mostra sensibilidade em momentos mais fortes, como quando a porta do quarto é fechada e indica a surra sofrida por Jakie, evidenciada em seguida com seu olho roxo, mas também se sai bem nos raros momentos bem humorados da narrativa, como quando um rabino entra no ensaio de Jakie e vê uma moça com as pernas desnudas, provocando seu espanto. O diretor também mostra habilidade na condução da narrativa, explorando os aspectos do interessante roteiro (creditado para Samson Raphaelson, Alfred A. Cohn e Jack Jarmuth), prendendo o espectador mesmo com poucas falas e sem utilizar os diálogos (e o som) em grande parte do tempo, mostrando a luta de Jakie para fazer sucesso e, principalmente, para seguir sua vida sem se apegar as tradições tão fortes de sua família. Este conflito interno do personagem é refletido até mesmo através da trilha sonora de Rosa Rio e Louis Silvers, que oscila bastante enquanto embala os momentos dramáticos e intensos da narrativa.

Como era costume na época, as atuações do elenco de “O Cantor de Jazz” soam exageradas, justamente pela dificuldade da falta da fala, que obrigava os atores a se expressarem de forma caricata. Ainda assim, a mensagem principal da narrativa é transmitida com precisão, mostrando os perigos do fundamentalismo religioso através do pai descontente com o filho que quer cantar jazz e não hinos na sinagoga, interpretado por Warner Oland. O Sr. Rabinowitz claramente valoriza mais a religião do que o próprio filho, o que se reflete em momentos intensos e desagradáveis, como quando ele surra o filho ou quando o expulsa de casa, funcionando como uma excelente crítica ao fanatismo religioso. Após passar muito tempo fora, Jakie retorna pra casa, mas ainda assim seu pai é incapaz de se comover, irritando-se com a música cantada pelo filho dentro de sua casa, o que motiva o jovem a dizer que “viverá a vida dele como quiser”. Como bem explicado por Jakie, suas músicas significam para o seu público o mesmo que os hinos para as pessoas da sinagoga, mas, infelizmente, esta explicação só revolta ainda mais seu fanático pai, que lhe expulsa definitivamente daquela casa, evidenciando mais uma vez a cegueira provocada pelo fanatismo religioso. E nem mesmo sua mãe Sara (interpretada por Eugenie Besserer), que claramente é mais compreensiva que seu pai, escapa de comentários arraigados no pensamento religioso, como quando ela se questiona aflita se ele estaria apaixonado por uma mulher não judia. Refletindo outro pensamento do período, após ganhar um belo presente do filho, ela pergunta se ele faz algo de errado, demonstrando uma curiosa desconfiança de seu sucesso, que é compreensível numa época em que ser artista não era sinônimo de ter dinheiro. E finalmente, quando invade o camarim de Jakie, com o olhar triste e desamparado de quem tem uma última esperança de que o filho volte para ver o pai, Besserer também demonstra bem a aflição de Sara Rabinowitz. E apesar da importante contribuição para a evolução do cinema através do uso do som, é neste interessante estudo das conseqüências do fanatismo religioso que reside o aspecto mais fascinante do longa.

E quais conseqüências seriam estas? As respostas podem ser encontradas através do comportamento de Jakie, um homem claramente atormentado pelo conflito entre agradar a família (e as tradições religiosas) e lutar para realizar o seu sonho. Este conflito aparece em diversos momentos do longa, como quando um homem canta e faz Jakie relembrar os tempos de sinagoga, mostrando o peso que a formação religiosa tem sobre ele e ressaltando o bom trabalho de montagem de Harold McCord, notável também antes do grande show de Jakie, quando ele olha no espelho e vê a sinagoga, também sentindo-se culpado por não fazer o que seu pai queria, num momento inspirado da atuação de Jolson, que ilustra bem a aflição do personagem. Esta situação o levará a viver um grande dilema no dia da reconciliação, o dia mais importante da sinagoga: ele deveria agradar ao pai ou priorizar sua carreira? E apesar de sua situação nada confortável, aparentemente ninguém parece se preocupar com seu conflito interno, revelando um egoísmo coletivo surpreendente, como fica evidente quando ele chega e sua mãe pergunta se ele “veio para cantar”, ouvindo um “Não mãe, vim para ver o papai” como resposta. Mas, por outro lado, sua mãe é a primeira e entender seu dilema e abrir mão de seus planos, pedindo para que o filho “faça o que seu coração mandar”. Já o produtor do espetáculo representa o típico pensamento americano de que o sucesso é mais importante que a família. Mesmo com o pai morrendo, ele exige que Jakie ensaie para o show que pode engrenar sua carreira de vez – o que Jakie de fato faz. Mas, após o ensaio, a tristeza e a aflição consomem Jakie, algo refletido na escuridão que toma conta da tela por alguns segundos. E então ele toma a amarga decisão de abrir mão da carreira para cantar no lugar de seu pai, que morre no exato momento em que ouve a voz do filho na sinagoga, provocando o desespero de Sara (num momento exagerado da atuação de Besserer). Só que, infelizmente, o politicamente correto era regra na época e, após a morte do pai, tudo volta a dar certo para Jakie, que volta a cantar e fazer sucesso, dedicando as músicas para a mãe.

Ainda que não tivesse uma narrativa interessante, “O Cantor de Jazz” já estaria marcado por ser o primeiro filme falado da história da sétima arte. Mas o longa vai além, apresentando uma história interessante, que aborda temas importantes como a tradição familiar, o fanatismo religioso e a luta para conseguir realizar os sonhos. E se hoje os avanços tecnológicos nos permitem sonhar ainda mais alto, é porque filmes como este tiveram a coragem de ousar, trazendo inovações para esta verdadeira fábrica de sonhos e transformando este mundo mágico chamado cinema.

Texto publicado em 16 de Fevereiro de 2011 por Roberto Siqueira

O ENCOURAÇADO POTEMKIN (1925)

(Bronenosets Potyomkin)

 

Filmes em Geral #43

Dirigido por Sergei Eisenstein.

Elenco: Aleksandr Antonov, Vladimir Barsky, Grigori Aleksandrov, Mikhail Gomorov, Ivan Bobrov, Sergei Eisenstein, Julia Eisenstein, Beatrice Vitoldi e N. Poltavseva.

Roteiro: Nina Agadzhanova.

Produção: Jacob Bliokh.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Pense na imagem de um copo d’água tremendo no painel de um carro. Agora imagine o rosto de uma criança apavorada. Finalmente, crie em sua mente a imagem imponente de um Tiranossauro Rex surgindo diante de um carro desligado, sob forte chuva. Agora junte estas três imagens na seqüência e terá uma das mais poderosas cenas do sucesso de Spielberg, “Jurassic Park”. Exemplos assim existem em praticamente todos os filmes da história da sétima arte. Mas nada disto existiria se Sergei Eisenstein não tivesse revolucionado o cinema com sua teoria da montagem semântica, a base dos formalistas, exemplificada com perfeição neste “O Encouraçado Potemkin”.

Os marinheiros do navio de guerra Potemkin se revoltam com os maus tratos recebidos durante uma viagem, onde tinham que comer carne estragada e dormir apertados em redes, e tomam conta do navio, jogando os oficiais da embarcação no mar. O fato ficou famoso na cidade de Odessa, o que inspirou as pessoas a marcharem para o porto pra recepcionar os heróis, porém uma trágica decisão do governo resultou num verdadeiro massacre e impediu a grande festa.

Antes de analisar “O Encouraçado Potemkin”, é importante entender os conceitos que fizeram seu diretor ser conhecido e que fizeram seus filmes serem considerados a grande influencia da montagem no cinema contemporâneo. Basicamente, para Eisenstein (sob influência da experiência de Lev Kuleshov) uma imagem complementa o significado da outra, mas quando analisadas separadamente, elas não significam muito. É na junção das imagens que o filme ganha vida, que aquelas imagens ganham sentido, ou seja, duas imagens juntas têm maior significado do que separadas. São as ovelhas de “Tempos Modernos” complementando a imagem anterior dos trabalhadores entrando na fábrica. E é exatamente a montagem que faz com que a imagem seguinte complemente o sentido da imagem anterior. Se fosse uma fórmula matemática, o russo diria que 1 + 1 é maior do que 2.

Utilizando seu conceito como base, Eisenstein apresenta a história real de uma embarcação conhecida como Potemkin, que em 1905 viu os seus marinheiros, cansados dos maus tratos recebidos, se revoltarem, dando início a um motim que tomaria o navio, numa das várias etapas que culminariam na revolução russa de 1917, formando a base do socialismo no país. Exatamente por isso, é evidente que o longa apresenta um subtexto político forte, mas diferentemente de “O Nascimento de uma Nação”, onde o racismo prejudica bastante a avaliação do filme, aqui o apelo político não tem força suficiente para depreciar a qualidade da obra. Em outras palavras, o longa dirigido por Griffith é importante, mas o longa dirigido por Eisenstein vai além, sendo importante sem tropeçar em preconceitos.

Apresentando todas as características do cinema mudo tradicional, com diálogos na tela, imagens em preto-e-branco e trilha sonora (de Edmund Meisel) ininterrupta (sempre pontuando as cenas, com um tom sombrio nos momentos dramáticos e acordes mais agitados na tensa cena da escadaria), o filme que revolucionou a montagem tem atuações exageradas, com exceção do tocante momento em que uma mãe implora com o olhar pela vida do filho, uma fotografia sombria (direção de Vladimir Popov e Eduard Tisse), que reflete inicialmente a vida dura daqueles marinheiros e, principalmente, uma direção ousada, que alterna entre closes e planos gerais, criando imagens belíssimas, como o impressionante plano com as pessoas marchando até o porto. Eisenstein, responsável também pela montagem, abusa dos cortes, como na revolta dos marujos no navio, onde apresenta planos de objetos (por exemplo, uma cruz aparece logo após a imagem do padre), colocando em prática sua teoria ao buscar complementar o sentido da imagem anterior com a imagem seguinte. A revolta, aliás, é uma cena muito poderosa, quando momentos antes do fuzilamento, os marinheiros e aqueles que atirariam neles se unem e tomam conta do navio, expulsando os oficiais autoritários. Fica evidente a defesa da causa socialista (não é a toa que Lenin é citado logo no inicio), a revolta contra as classes dominantes e o forte subtexto político da narrativa.

Mas é na famosa cena da escadaria, homenageada por Brian de Palma em “Os Intocáveis”, que Eisenstein mostra todo seu talento. Toda a seqüência da escadaria de Odessa é marcante, começando pela câmera lenta do diretor que em certo momento acompanha as pessoas, realçando o desespero de homens, mulheres e crianças caídos no chão, sendo pisoteados e buscando fugir dos tiros dos oficiais. Quando as autoridades começam a atirar, num massacre repugnante que não poupa mulheres e crianças, é difícil conter a revolta, o que motiva a reação dos marinheiros do Potemkin contra as autoridades logo em seguida. Eisenstein constrói a cena com cuidado, alternando entre os planos numa dinâmica incrível e, com muita sensibilidade, nos emocionando com as imagens de uma mãe morrendo com seu filho no colo e de um carrinho de bebê descendo as escadarias debaixo de tiros. E a própria composição dos planos, com os soldados posicionados acima e as pessoas abaixo na escada, simboliza as posições de cada um na pirâmide social que imperava na época. Finalmente, vale ressaltar que apesar das atuações exageradas (algo normal no cinema mudo, devido à falta de diálogos), o longa é bastante realista, tocando o espectador através daquelas fortes expressões de sofrimento.

Poucos são os cineastas que podem se orgulhar de terem influenciado a história da sétima arte. Poucos são os filmes que fazem parte desta seleta lista de obras importantes. E por tudo que representou e ainda representa até os dias de hoje, “O Encouraçado Potemkin” merece fazer parte desta lista, assim como o seu grande idealizador.

Texto publicado em 15 de Fevereiro de 2011 por Roberto Siqueira

O NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO (1915)

(The Birth of a Nation)

 

Filmes em Geral #42

Dirigido por D.W. Griffith.

Elenco: Lillian Gish, Mae Marsh, Henry B. Walthall, Mirian Cooper, Mary Alden, Ralph Lewis, George Siegmann, Walter Long e Robert Harron.

Roteiro: Thomas F. Dixon Jr., D.W. Griffith e Frank E. Woods.

Produção: D.W. Griffith.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

É uma pena que o filme responsável por estabelecer os padrões narrativos do cinema, o primeiro a contar uma história através das telonas da maneira que conhecemos e, verdadeiramente, o primeiro épico da história da sétima arte, seja também um filme nojento, moralmente desprezível e que apresenta um racismo tão descarado que chega a dar náuseas. É ainda mais difícil escrever sobre um filme assim, pois ao mesmo tempo em que repudio sua “ideologia” míope, sou obrigado a reconhecer os enormes avanços que este “O Nascimento de uma Nação” trouxe para a linguagem cinematográfica sob a condução de D.W. Griffith, responsável pela produção, roteiro e direção do longa.

Os irmãos Stoneman, do norte abolicionista, visitam os amigos da família Cameron em Piedmont, na Carolina do Sul e, portanto, escravagistas, mas sua amizade é afetada pela guerra civil americana, colocando as famílias amigas em lados distintos da batalha (enquanto os Stoneman defendem o exército da União, os Cameron se juntam ao exército confederado). Após a batalha, a derrota do sul trará grandes mudanças na vida daquelas pessoas. Mas o coronel Ben Cameron (Henry B. Walthall) já tinha se apaixonado por Elsie Stoneman (Lillian Gish), que também conquistara o coração de Silas Lynch (George Siegmann), principal representante político de Austin Stoneman (Ralph Lewis) e responsável por mudanças que beneficiavam os negros no sul escravagista. Revoltado, Ben Cameron decide fundar uma organização para combater os “abusos” de Lynch na região.

Escrito pelo próprio Griffith, “O Nascimento de uma Nação” utiliza a história das famílias Cameron e Stoneman para cobrir acontecimentos marcantes da história norte-americana, como a Guerra da Secessão, o assassinato do presidente Lincoln e o nascimento da Ku Klux Klan, mas, infelizmente, o faz de maneira míope, defendendo o racismo declaradamente e chegando ao absurdo de declarar a Ku Klux Klan como a organização responsável por salvar o sul. Mas deixemos o aspecto moral do longa pra depois e vamos focar em sua enorme contribuição técnica para a evolução do cinema. Além do tradicional formato dos filmes mudos (diálogos escritos na tela, imagens em preto e branco e trilha sonora incessante), Griffith estabeleceu o padrão narrativo vigente ainda hoje, alternando entre planos médios, americanos, gerais e até mesmo closes, chegando a usar o foco para destacar algo, além de utilizar locações externas e mostrar ações paralelas, o que garantiu um ritmo fluído ao longa, graças também ao bom trabalho de montagem dele próprio, auxiliado por Joseph Henabery, James Smith, Rose Smith e Raoul Walsh. Além disso, o diretor abusa de planos e movimentos de câmera ousados para a época, como os impressionantes planos gerais da marcha para o mar e dos campos de batalha, além do uso de travellings. Aliás, as batalhas são um ponto alto do trabalho de Griffith, que mantém um ritmo dinâmico embalado pela agitada trilha sonora, mostrando imagens fortes para a época, com homens feridos e uma pilha de mortos depois da guerra, assim como no confronto final ele utiliza um grande número de figurantes para mostrar outra batalha épica entre os negros e a Ku Klux Klan, novamente bastante violenta e repleta de tiros a queima roupa e assassinatos a sangue frio. Vale destacar também o plano em que duas mulheres brancas conversam ao lado de uma árvore e o capitão negro Gus (Walter Long) observa atrás da cerca, que refletirá na tensa seqüência em que ele persegue a moça e provoca a morte dela, em outra cena impressionante visualmente, com a moça despencando nas pedras. Griffith alterna planos gerais e closes, conduzindo com perfeição a cena até o absurdo momento em que a garota, após despencar e se arrebentar no chão, levanta ainda com vida, somente para morrer nas mãos do irmão, gerando enorme tristeza na família – algo refletido na própria tela, que escurece lentamente ao som da triste trilha sonora.

Além do inteligente uso da câmera para contar a história, o diretor mostra sensibilidade em cenas marcantes, como o tocante momento em que uma mãe visita o filho ferido num hospital e descobre que ele foi condenado a forca, acusado de ser guerrilheiro. Ela apela de joelhos ao presidente Lincoln e ele atende ao seu pedido, escrevendo uma carta libertando seu filho. Retratado como um homem bom, Lincoln é assassinado (por motivações políticas) num teatro, em outra cena muito bem conduzida por Griffith, que, por exemplo, usa o foco da câmera para destacar a visão do assassino. Este virtuosismo técnico é ainda mais notável graças aos impecáveis figurinos de Robert Goldstein e Clare West (não creditados), que ambientam perfeitamente o espectador, além da ótima trilha sonora de Joseph Carl Breil e D.W. Griffith, repleta de melodias diferentes que pontuam a narrativa, como quando a notícia da morte de um dos Cameron chega à família e a trilha melancólica ilustra a tristeza de todos. E não posso deixar de mencionar a excelente direção de fotografia de G.W. Bitzer, que utiliza filtros com cores diferentes para transmitir sensações, como o filtro azul empregado em cenas mais tristes, que também aparece sempre que o presidente Lincoln toma uma decisão, denotando seriedade ao momento. Observe ainda como quando os Cameron perdem outro filho na guerra a imagem sequer utiliza filtro, e o preto e branco, acompanhado novamente pela trilha melancólica, reforça ainda mais a tristeza deles. Já a vida no sul é constantemente filmada com um filtro amarelo, que confere uma atmosfera brilhante e iluminada, coerente com a visão do diretor (um sulista de berço) de que aquela vida era melhor e mais bela. Por outro lado, as celebrações com fogos de artifício e as cenas de batalha utilizam um filtro vermelho, também utilizado durante a invasão do “regimento negro”, claramente como forma de intensificar a violência destes confrontos.

Mas apesar de toda sua qualidade técnica, “O Nascimento de uma Nação” é bastante comprometido pela visão política extremamente racista que defende. Frases como “a chegada dos africanos trouxe a semente da discórdia” e “a minoria branca desamparada” são apenas pequenos exemplos das atrocidades cometidas pelo longa, que mesmo sendo realizado em 1915, não tem qualquer justificativa para sua incrível cegueira (na época, provocou protestos acalorados de órgãos norte-americanos como a NAACP). Este racismo declarado aparece logo no início, quando a vida no sul (onde os negros eram escravos) é mostrada como um verdadeiro paraíso, onde, nas palavras do narrador, “não há nada melhor” – e um plano onde cão e gato brincam num cesto simboliza esta pretensa paz. Mas como, em sã consciência, pessoas que são escravizadas e trabalham das 6 da manhã às 6 da tarde poderiam estar felizes e dançando junto aos brancos, como se a vida fosse um mar de rosas? Estas mesmas pessoas, aparentemente incapazes de se rebelar, são retratadas posteriormente como selvagens quando ganham o direito de votar, por exemplo, colocando os pés descalços em cima da mesa na eleição e castigando cruelmente um criado, matando seu senhor em seguida com um tiro a queima roupa. Aliás, na ridícula visão de Griffith, esta parece ser a única maneira de um negro enfrentar um branco, como fica claro quando um homem branco briga com um monte de homens negros e sai ileso, sendo assassinado friamente com um tiro pelas costas. O roteiro de Griffith é tão maniqueísta e racista que chega ao absurdo de chamar o personagem Silas Lynch de traidor por lutar para igualar os direitos de brancos e negros – e justamente por apoiar os negros ele é eleito vice-governador. Além disso, usa o romance entre Elsie e Ben como pretexto para “demonizar” Lynch e tentar ganhar o apoio do espectador. Mas o pior ainda estava por vir, pois a segunda parte da narrativa foca na reconstrução do sul após a guerra e piora ainda mais o racismo nojento do filme, apresentando os membros da Ku Klux Klan como salvadores da nação (um grupo de crianças brincando com lençóis inspiram Ben Cameron, que funda o absurdo chamado Ku Klux Klan, a organização que “salvou o sul”). Em outras palavras, o roteiro não apenas justifica como também glorifica esta organização, alegando que eles lutavam em “defesa dos direitos de nascença” dos brancos (“Aryan Rights”). E após uma sangrenta batalha, eles “salvam” o sul e restabelecem a paz, sendo ovacionados numa marcha triunfal pela cidade.

É triste, portanto, que um dos filmes mais importantes da história do cinema seja tão repugnante. Não posso deixar de reconhecer seu valor, mas não sou obrigado a aceitar sua mensagem repulsiva (e espero que ninguém concorde com ela). Em todo caso, vale como registro de um pensamento menor, que já dominou grande parte das pessoas não só nos Estados Unidos, mas em grande parte do planeta, e que, infelizmente, ainda aparece arraigado na mente de pessoas insignificantes. Não é a cor, nem a crença, nem a orientação sexual que definirá quem é capacitado ou não, quem é respeitável ou não, quem é digno de ser chamado ser humano ou não. O importante é o que vem de dentro do homem, de dentro do seu coração e da sua mente. E o pior é que às vezes a mesma mente é responsável por idéias tão distintas. Por tudo isto, “O Nascimento de uma Nação” é um filme indispensável para qualquer cinéfilo sob o ponto de vista técnico. E só.

Texto publicado em 14 de Fevereiro de 2011 por Roberto Siqueira

EMBRIAGADO DE AMOR (2002)

(Punch-Drunk Love)

 

Filmes em Geral #41

Dirigido por Paul Thomas Anderson.

Elenco: Adam Sandler, Emily Watson, Philip Seymour Hoffman, Luis Guzmán, Mary Lynn Rajskub e Lisa Spector.

Roteiro: Paul Thomas Anderson.

Produção: Paul Thomas Anderson, Daniel Lupi e Joanne Sellar.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após dirigir os maravilhosos “Boogie Nights” e “Magnólia”, o talentoso diretor Paul Thomas Anderson decidiu escrever, dirigir e produzir este interessante “Embriagado de Amor”, uma estranha comédia romântica que se destaca pelos personagens e situações pouco convencionais. E ainda que jamais alcance o resultado formidável dos dois filmes citados, o longa consegue ao menos cumprir o seu propósito e diverte o espectador, fugindo completamente dos clichês tão comuns neste tipo de filme.

O pequeno empresário Barry Egan (Adam Sandler) passa por dificuldades financeiras, mas encontra uma falha numa promoção de uma grande companhia aérea e vê nela a chance de garantir milhas para o resto de sua vida. Único homem de uma casa onde convive com sete irmãs, ele demonstra claro desconforto na presença das mulheres, algo que fica evidente quando ele conhece Lena (Emily Watson), a misteriosa mulher por quem se apaixona. O problema é que para ficar com ela, ele terá de superar uma gangue que entrou em sua vida após uma infeliz ligação feita por ele, um homem carente e solitário.

Escrito pelo próprio Paul Thomas Anderson, o criativo roteiro de “Embriagado de Amor” aborda temas universais como a solidão e a busca pelo amor verdadeiro, além de conter frases muito interessantes, que ajudam a definir a personalidade dos personagens (“Eu não sei se existe um problema, porque não sei como as outras pessoas são”, diz Barry, logo após quebrar o vidro da sala diante de suas irmãs). Mostra ainda como a carência afetiva pode levar o ser humano a correr riscos desnecessários, como fornecer dados pessoais por telefone, simplesmente para saciar a ânsia de finalmente ter companhia, nem que seja através da voz de uma mulher contratada para este tipo de serviço. Na direção, Anderson mantém sua característica principal, utilizando elegantes movimentos de câmera, como o freqüente uso da panorâmica e dos travellings. Além disso, suas tomadas geralmente são longas, ou seja, têm poucos cortes, o que é mérito também da boa montagem de Leslie Jones e Dylan Tichenor. Seus tradicionais planos-seqüência (tão marcantes em “Boogie Nights” e “Magnólia”) também aparecem em diversos momentos, como na saída do casal do restaurante, na chegada de Barry em casa com suas irmãs à espera e no jantar romântico do casal no Havaí. Observe ainda como Anderson também utiliza o segundo plano, como num dos momentos em que Barry faz suas peculiares compras no mercado, onde podemos notar uma pessoa vestida de vermelho ao fundo e, ainda que apareça totalmente fora de foco, podemos presumir que é Lena.

Outro plano emblemático é aquele em que Barry, solitário e carente, espera ansiosamente pela ligação da moça do tele sexo. Aqueles segundos parecem horas para Barry e para o espectador, graças ao silêncio da cena, que evita utilizar a trilha sonora, refletindo a sensação de angústia e solidão do personagem. Quando finalmente o telefone toca, Barry se mostra arredio às palavras sensuais da moça, preferindo simplesmente conversar com ela, o que evidencia ainda mais sua carência afetiva, algo também notável através da pilha de diferentes jornais em sua mesa. Não que seja algo anormal ter vários jornais na mesa, mas neste caso fica evidente que o rapaz procura toda e qualquer forma de distração para amenizar sua solidão. Observe o nervosismo de Barry durante esta conversa telefônica, especialmente no momento em que ele diz que sua “namorada” está fora da cidade. No dia seguinte, quando fala com a garota novamente pela manhã, ele começa a andar pra trás, tenso com o desenrolar da conversa. Desesperado e arrependido, Barry cancela o cartão, mas seus problemas haviam apenas começado. O nervosismo e a timidez de Barry são quase palpáveis, o que demonstra a qualidade da boa atuação de Adam Sandler. Repare sua revolta incontida ao responder para Lena que sua irmã era uma mentirosa durante um jantar, dando claros indícios da veracidade da história. Sandler alterna muito bem os momentos dóceis de Barry, especialmente ao lado de Lena, e os momentos explosivos, como quando soca um objeto até se machucar ou quando destrói o banheiro de um restaurante. Único homem da casa, Barry é constantemente sufocado pela pressão de suas sete irmãs, como podemos perceber quando tenta atender um cliente em seu trabalho e é constantemente interrompido por chamadas telefônicas de irmãs diferentes. “Quantas irmãs você tem?”, pergunta o cliente após a terceira ligação. “Sete”, responde ele, provocando o desespero no cliente e o riso no espectador. Em outro momento, o close de Anderson em seu rosto, durante uma discussão com uma de suas irmãs na loja, reflete o sentimento de sufoco de Barry. Finalmente, vale destacar também que Emily Watson se sai muito bem na pela da igualmente estranha Lena. Também tímida, como podemos notar nas conversas do casal, ela se revela o par perfeito para Barry, um jovem com claras dificuldades para se relacionar.

A tristeza do personagem principal é refletida até mesmo através dos aspectos técnicos do longa, como a direção de fotografia de Robert Elswit que, apesar de utilizar bastante o branco, destaca claramente o azul, normalmente associado à tristeza, algo reforçado pelo próprio terno constantemente utilizado por Barry (mérito também dos figurinos de Mark Bridges). Por isso, quando Lena surge em sua vida, sua roupa vermelha simboliza a paixão que se aproxima, dando vida aquele ambiente pouco colorido. E até mesmo o presente deixado por ela serve para alegrar a vida de Barry, introduzindo um pouco de música em seu triste cotidiano (Lena nunca assume explicitamente que deu o piano para Barry, mas uma conversa do casal sutilmente sugere que foi ela). E já que citamos a música, repare como a trilha sonora de Jon Brion adota um tom de urgência, principalmente nas discussões do rapaz com suas irmãs, transmitindo bem a aflição do personagem. Por outro lado, nos momentos em que ele está feliz, a trilha muda completamente, adotando um tom mais leve e descontraído. Já quando Barry é perseguido por uma caminhonete, sua fuga desesperada é embalada por uma trilha repleta de sons estranhos, refletindo sua confusão mental naquele instante. Esta fuga amedrontada, aliás, servirá de contraponto para o melhor momento do longa, quando Barry, agora fortalecido pelo amor que encontrara no Havaí, reage violentamente contra seus agressores da caminhonete. A câmera girando junto com o carro atordoa o espectador, que se choca com a explosiva reação de Barry. Por outro lado, o temperamento do rapaz já havia deixado indícios de que ele poderia, a qualquer momento, ter uma reação como aquela. Esta mudança de atitude também faz com que Barry viaje em busca da empresa que lhe provocou tantos problemas, o que resulta em outra cena fabulosa, que o coloca frente a frente com o cínico Dean Trumbell (Philip Seymour Hoffman, sempre ótimo). A expressão dissimulada de Trumbell contrasta com suas fortes palavras no telefone quando este discute com Barry, revelando o quanto aquele homem era imprevisível, mas ainda assim ele não se atreve a enfrentar a fúria do rapaz.

Obviamente, os momentos bem humorados não poderiam faltar numa comédia romântica, e eles aparecem, por exemplo, quando Lena diz para Barry que quis beijá-lo, fazendo com que ele saia correndo pelo prédio para encontrá-la (e neste momento, a montagem dinâmica colabora muito para o sucesso da cena). Além disso, a própria descoberta de Barry a respeito de uma promoção revela-se uma divertida sacada do rapaz (algo que Paul Thomas Anderson retirou de uma história real, acontecida nos EUA). O romantismo fica por conta da bela cena do beijo, embalada pela linda trilha sonora, que consolida o amor verdadeiro destas duas pessoas diferentes e que, justamente por isso, são encantadoras.

Paul Thomas Anderson utiliza seu talento como diretor para narrar a surreal história do estranho Barry neste divertido “Embriagado de Amor”, que apesar de eficiente, jamais alcança o resultado magnífico das outras obras do diretor. Mas nem por isso o resultado final deve ser depreciado, pois se trata de um filme imprevisível, repleto de personagens igualmente estranhos e encantadores, que cumpre muito bem o que se propõe a fazer e diverte o espectador. E assim como os personagens, o filme também parece estranho, mas satisfaz justamente por não repetir as desgastadas fórmulas de um gênero incapaz de se renovar.

Texto publicado em 28 de Janeiro de 2011 por Roberto Siqueira