STAR WARS EPISÓDIO V: O IMPÉRIO CONTRA-ATACA (1980)

(Star Wars: Episode V – The Empire Strikes Back)

 

Videoteca do Beto #70

Dirigido por Irvin Keshner.

Elenco: Mark Hamill, Harrison Ford, Carrie Fisher, Billy Dee Williams, Alec Guinness, Anthony Daniels, Kenny Baker, David Prowse, Peter Mayhew, James Earl Jones (Darth Vader – voz), Frank Oz (Yoda – voz), Jeremy Bulloch e Clive Revill (Imperador Cos Palpatine – voz).

Roteiro: Leigh Brackett e Lawrence Kasdan, baseado em história de George Lucas.

Produção: Gary Kurtz.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Adotando um tom sensivelmente mais sombrio e desenvolvendo melhor os personagens que em “Star Wars Episódio IV: Uma Nova Esperança”, George Lucas, que abriu mão até mesmo da direção para assumir a produção executiva e ter maior controle sobre a obra, entrega o melhor filme da trilogia neste maravilhoso “Star Wars Episódio V: O Império Contra-Ataca”, que além de ter uma narrativa ainda mais interessante, conta com uma revelação bombástica que abalou os alicerces de toda a trilogia e certamente fez muitos fãs saltarem das cadeiras nos cinemas de todo o mundo.

Comandadas pelo temível Darth Vader (David Prowse, voz de James Earl Jones), as forças do império atacam impiedosamente os membros da resistência que se encontram refugiados num planeta distante. Após conseguir escapar, os membros partem para o ponto de encontro, mas Luke Skywalker (Mark Hamill) decide alterar sua rota na tentativa de encontrar o mestre jedi Yoda (voz de Frank Oz), que poderá ensiná-lo a dominar “a força” e torná-lo um cavaleiro jedi. Ao mesmo tempo, Darth Vader parte em busca do rapaz com a intenção de convencê-lo a mudar para o lado negro da “força”.

Conforme planejado por George Lucas antes mesmo do início da trilogia, “Star Wars Episódio V: O Império Contra-Ataca” apresenta uma narrativa mais elaborada que seu antecessor, ao nos revelar outros aspectos e motivações daqueles interessantes personagens apresentados no primeiro filme. Sendo assim, algumas respostas vagamente respondidas anteriormente agora aparecem de maneira bastante clara, como os motivos do grande interesse de Vader por Skywalker e as razões pelas quais Kenobi (Alec Guinness) praticamente adota o jovem no início da jornada. Este aspecto da narrativa claramente ajuda os atores a explorarem ainda mais o potencial dramático de seus personagens e praticamente todos oferecem um desempenho memorável. Hamill, por exemplo, se sai muito bem na pele de Skywalker, demonstrando com exatidão a determinação daquele jovem na tentativa de se tornar um jedi, mas principalmente, sua obstinação em defender seus parceiros das forças do mal. O ator se destaca ainda nos momentos bem humorados, como quando Luke ganha um beijo de Leia na frente de Han Solo (Harrison Ford) e cruza os braços atrás da cabeça com um ar de satisfação. Já Harrison Ford confirma que é de longe o melhor ator do elenco, interpretando de maneira firme e determinada o simultaneamente durão e carismático Han Solo. Além disso, o ator se destaca naquela que é uma de suas maiores especialidades (o que ficaria claro na série “Indiana Jones”) ao provocar o riso de maneira natural, principalmente durante suas brigas com a princesa Leia. Leia que é novamente interpretada por Carrie Fisher, que demonstra empatia com Ford, apesar de não saber se quer mesmo ficar com Han ou Luke. Mudando para o lado negro da “força”, Darth Vader continua ameaçador, com sua capa preta e sua voz poderosa (voz de James Earl Jones) mantendo sua enorme capacidade de intimidar seus adversários. Sua crueldade aparece, por exemplo, quando mata sem hesitar um comandante que falhou numa missão. A partir dali, o espectador já sabe que pode esperar qualquer coisa deste temível vilão. E fechando os destaques do elenco, Alec Guinness novamente demonstra serenidade nas poucas aparições de Kenobi, Anthony Daniels garante os momentos de alivio cômico com as tiradas do robô C3PO e Frank Oz é o responsável pela marcante voz do mestre Yoda.

No comando de toda esta gente está Irvin Keshner, o homem escolhido por Lucas para tocar seu grande projeto. Felizmente, o diretor dá um verdadeiro show, especialmente nas sensacionais cenas no espaço, onde as naves cortam o universo em alta velocidade com a câmera acompanhando seu trajeto. Keshner nos leva por dentro de asteróides e em volta de planetas com incrível realismo, graças também ao excepcional trabalho de efeitos visuais da Industrial Light & Magic, além da montagem ágil de Paul Hirsch e Marcia Lucas, que aumenta o clima de urgência. Os montadores continuam utilizando os fades e as transições de imagens que remetem aos seriados de TV, mantendo o tom episódico da trilogia, apresentam um interessante raccord através da neve quando Luke e Han estão esperando resgate, mas se destacam mesmo nas cenas de perseguição no espaço, alternando com dinamismo entre os interessantes planos de Keshner. Nestas seqüências, vale prestar atenção também no incrível trabalho de som e efeitos sonoros, que nos permite identificar cada barulho de tiro, cada fala dita pelos personagens e o som das naves cortando o espaço. O som se destaca também na tensa seqüência do congelamento de Han, através do barulho das máquinas trabalhando. Voltando a Keshner, o diretor ainda utiliza a câmera para nos transmitir as sensações dos personagens, por exemplo, na cena em que Han, Leia, os robôs e Chewbacca (Peter Mayhew) sentem um tremor num suposto asteróide e descobrem, minutos depois, que na realidade estão dentro da barriga de um monstro espacial.

E se “O Império Contra-Ataca” nos transporta para lugares fascinantes, é porque a boa direção de Keshner conta também com o excelente apoio de sua equipe técnica. Além dos já citados fabulosos efeitos visuais da Industrial Light & Magic, merece destaque a direção de fotografia de Peter Suschitzky, que realça inicialmente cores frias (com muito gelo e neve na seqüência inicial) que gradualmente são alteradas para tons obscuros (com a predominância do preto), realçando o clima mais sombrio deste segundo filme. Os figurinos de John Mollo, além de criarem o visual marcante de Darth Vader, ajudam na ambientação do espectador ao universo “Star Wars”, através das roupas espaciais dos personagens. Obviamente, a direção de arte (créditos para Leslie Dilley, Harry Lange e Alan Tomkins) também colabora, ao criar o visual arrebatador de cidades incríveis, como aquela em que vive o divertido e ambíguo Lando Calrissian, interpretado com carisma por Billy Dee Williams. Finalmente, a trilha sonora marcante de John Williams está novamente presente, agora com uma variação interessante (e sombria) quando Darth Vader está em cena.

Escrito por Leigh Brackett e Lawrence Kasdan (baseado em história de George Lucas), o roteiro mostra logo na introdução seu tom obscuro, quando informa que as forças do império forçaram a fuga dos membros da resistência de seu planeta, contrariando o final alegre do primeiro filme. Além disso, introduz de maneira correta dois personagens importantes na narrativa. O primeiro (e menos importante deles) é o imperador Cos Palpatine (voz de Clive Revill), que dita às regras para Darth Vader e deixa claro sua importância somente pelo fato do grande vilão temê-lo e respeitá-lo. O segundo é o fascinante Yoda, uma espécie de guru espiritual que não aparenta ter a força que realmente tem. Seu aspecto físico provoca até mesmo um choque no espectador, que esperava, com base nas respeitosas menções anteriores ao seu nome, alguém imponente. Porém Yoda prova que a verdadeira força do ser humano está na mente e encanta o espectador durante o treinamento de Luke. E ao contrário de “Uma Nova Esperança”, desta vez o roteiro desenvolve muito bem os personagens, nos mostrando suas verdadeiras motivações e deixando claro que Vader e Skywalker são os dois lados da mesma força, numa interessante representação do bem e do mal existente no universo. Além disso, o arco dramático de Luke Skywalker finalmente se completa, no momento da bombástica revelação de Darth Vader, que explica uma série de situações insinuadas sutilmente até então. A importância do pai de Luke para Kenobi e para o universo fica clara e o jovem sabe, a partir daquele instante, que passará a viver um intenso conflito interior na busca da defesa do universo (e Hamill demonstra bem este choque na cena, auxiliado também pelo close de Keshner). Vale observar como toda a composição da cena aumenta ainda mais o impacto da revelação. Após um intenso duelo de sabres de luz (repare que até mesmo as cores das armas representam a luta entre o bem e o mal), os dois personagens, à beira de um abismo, discutem até que Vader, filmado em ângulo baixo para aumentar a sensação de poder, diz a famosa frase “Eu sou sei pai!”. Luke está em choque e o espectador também.

“Star Wars Episódio V: O Império Contra-Ataca” apresenta um momento histórico do cinema, parodiado inúmeras vezes desde então, que é capaz até hoje de chocar aqueles que jamais ouviram falar desta revelação. Com sua atmosfera sombria e seu final obscuro que, ao contrário do longa anterior, deixa o terreno preparado para sua continuação, George Lucas arrebatou de vez os corações cinéfilos e os deixou mais que ansiosos para acompanhar o encerramento desta verdadeira saga espacial.

Texto publicado em 12 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira

STAR WARS EPISÓDIO IV: UMA NOVA ESPERANÇA (1977)

(Star Wars: Episode IV – A New Hope)

 

Videoteca do Beto #69

Dirigido por George Lucas.

Elenco: Mark Hamill, Harrison Ford, Carrie Fisher, Peter Cushing, Alec Guinness, Anthony Daniels, Kenny Baker, Peter Mayhew, David Prowse, Phil Brown, Shelagh Fraser, Alex McCrindle, Eddie Byrne e James Earl Jones (Darth Vader – Voz).

Roteiro: George Lucas.

Produção: Gary Kurtz.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Com uma narrativa simples, que serve de introdução ao complexo universo da trilogia Star Wars, efeitos especiais magníficos e personagens que personificam a eterna luta ente as forças do bem e do mal, “Star Wars Episódio IV: Uma Nova Esperança” é o marco inicial de um momento histórico do cinema, quando os grandes estúdios perceberam a importância do público jovem e passaram a priorizar produções voltadas para este público. Mas ao contrário da maioria das produções contemporâneas, o longa dirigido por George Lucas exala criatividade, levando o espectador numa viagem inesquecível por cenários e personagens fascinantes.

O jovem Luke Skywalker (Mark Hamill) se vê envolvido numa verdadeira guerra intergaláctica quando seu tio (Phil Brown) compra os robôs C3PO (Anthony Daniels) e R2D2 (Kenny Baker) e encontra com eles uma mensagem da princesa Leia Organa (Carrie Fisher) para Obi-Wan Kenobi (Alec Guinness), alertando sobre os planos do poderoso império liderado pelo temível Darth Vader (David Prowse, voz de James Earl Jones). Luke e Kenobi se juntam então ao mercenário Han Solo (Harrison Ford) e ao feioso Chewbacca (Peter Mayhew) e partem para enfrentar as forças do mal.

“Star Wars Episódio IV: Uma Nova Esperança” é uma grande aventura. Falar sobre ele hoje, mais de trinta anos após o seu lançamento, não é tarefa fácil, principalmente porque não é possível medir o tamanho de seu impacto na cultura cinematográfica com exatidão. Mas para se ter uma pequena idéia da importância do filme, basta dizer que a ópera espacial de George Lucas marca (ao lado de Tubarão, de seu amigo Spielberg) o inicio dos blockbusters, com sua narrativa ágil, voltada para o público jovem, repleta de efeitos especiais e muita ação. Mas ao contrário de muitos dos filmes atuais do gênero, a narrativa de “Uma Nova Esperança” é muito interessante e os efeitos especiais, ainda que impecáveis, não são um fim, mas apenas um meio utilizado para colaborar com o andamento da trama. “Uma Nova Esperança” é também o responsável por nos apresentar aos encantadores personagens do universo “Star Wars”. Alguns deles nos acompanharão por toda a trilogia, enquanto outros ficarão pelo caminho, mas é incrível notar como praticamente todos conseguem deixar sua marca na memória do espectador. Neste primeiro filme da trilogia, estes personagens não são plenamente desenvolvidos e, por isso, nós pouco sabemos sobre seu passado e suas motivações. Sabemos que a princesa Leia se rebela contra o império e que Darth Vader quer destruir determinado planeta, mas não sabemos por que o vilão deseja fazer aquilo. E qual a natureza da relação entre Kenobi e o pai de Skywalker? Algumas respostas até começam a aparecer de maneira sutil, mas o primeiro filme serve mesmo apenas como preparação para o restante da trilogia.

Ainda assim, os personagens de “Uma Nova Esperança” se destacam. A começar pelo vilão da história, provavelmente presente em quase todas as listas de grandes vilões da história do cinema. A caracterização de Darth Vader é perfeita, desde o figurino completamente preto (figurinos de John Mollo), passando pela voz firme e ameaçadora de James Earl Jones e terminando com seu sabre de luz vermelha, numa completa personificação do mal. Já Luke Skywalker é exatamente o oposto do vilão e seu figurino branco ajuda a reforçar esta idéia. Interpretado pelo carismático Mark Hamill, Luke é a força que equilibra o universo na eterna luta do bem contra o mal. Hamill demonstra muito bem a gradual transformação do personagem, inicialmente inocente, no grande herói da narrativa. No entanto, ainda que algumas dicas sejam dadas no primeiro filme, seu arco dramático só se completará mesmo no segundo filme (mas vamos deixar este assunto para a crítica de “O Império Contra-Ataca”). Já a princesa Leia, além de corajosa e determinada, demonstra um interessante conflito de sentimentos ao não saber se gosta mais de Han Solo ou de Luke Skywalker e Carrie Fisher demonstra este dilema com competência. Além disso, suas constantes discussões com Han servem como alívio cômico para a narrativa, desafogando a tensão em diversos momentos (e nestas cenas, Fisher consegue contracenar muito bem com o talentoso Harrison Ford). Ford, aliás, que aparece somente com quase uma hora de projeção, o que é suficiente para que ele roube a cena e demonstre todo seu talento, compondo um Han Solo egoísta, representando com exatidão o estereótipo do malandro, ao buscar sempre uma solução que melhor lhe convenha, independente de prejudicar os outros ou não. E finalmente, Alec Guinness demonstra segurança na pele do jedi Obi-Wan Kenobi, transmitindo muita segurança nos ensinamentos do veterano para o jovem Luke. Seu duelo de sabres de luz com Darth Vader é tenso, porém jamais alcança a intensidade de outro duelo similar que aconteceria no segundo filme da trilogia, não por causa do ator e sim por causa da carga dramática infinitamente maior no segundo duelo. Vale citar ainda os apaixonantes robôs C3PO e R2D2, interpretados por Anthony Daniels e Kenny Baker, além de Chewbacca, vivido por Peter Mayhew, cuja aparência assustadora é inversamente proporcional à bondade de seu coração.

Além dos fascinantes personagens, “Uma Nova Esperança” conta ainda com a empolgante trilha sonora de John Williams, tão marcante que até mesmo quem nunca assistiu ao filme é capaz de reconhecê-la. A fotografia de Gilbert Taylor destaca cores sem vida no planeta Tatooine, conferindo um visual árido, que reflete a vida dura daquelas pessoas constantemente ameaçadas pelo império. Por outro lado, quando a ação se passa na nave de Darth Vader, a fotografia sombria, que destaca o azul escuro e o preto, representa a maldade que paira sobre o local. Todo este cuidado com o aspecto visual é impressionante, desde as inúmeras criaturas que cruzam pela narrativa (como o perigoso Jabba) até as imponentes naves que cortam em alta velocidade o espaço sideral, atestando a qualidade dos sensacionais efeitos visuais da Industrial Light & Magic. E obviamente, as seqüências de perseguição e combate no espaço marcam alguns dos grandes momentos do longa, graças à condução segura e competente de George Lucas.

E chegamos então ao grande idealizador de “Star Wars”. O criativo cineasta pertence à geração que marcou o cinema norte-americano, no movimento que ficou conhecido como “nova Hollywood”. Mas ao contrário de Coppola e Scorsese, que seguiram outro caminho, preferindo filmes sombrios e personagens extremamente complexos, Lucas (assim como o amigo Spielberg) seguiu pelo caminho do chamado “cinema-pipoca”, voltado para o público jovem, mas que nem por isso subestima a inteligência de seu espectador. Neste primeiro episódio da velha trilogia, Lucas nos apresenta um visual esplêndido nas cenas espaciais, graças aos belos planos e enquadramentos do diretor. Repare também como quando Luke e Kenobi chegam numa vila para negociar com Han a utilização de uma nave, o plano geral de Lucas destaca o belo trabalho de direção de arte de Leslie Dilley e Norman Reynolds, que cria uma vila diferente e impressionante, repleta de detalhes em cada uma de suas imponentes construções. Lucas é responsável também pelo bom roteiro de “Uma Nova Esperança”, que além de conter interessantes reviravoltas, como quando Han inesperadamente retorna para ajudar Luke, faz pequenas menções ao pai de Skywalker, deixando claro o peso que sua ausência tem na vida do rapaz. A narrativa é coesa e muito bem conduzida pelo diretor, auxiliado também pela boa montagem do trio Richard Chew, Paul Hirsch e Marcia Lucas, que imprime um ritmo mais lento no primeiro ato, acelerando a partir do segundo e chegando ao clímax no terceiro, já num ritmo de tirar o fôlego bastante coerente com uma aventura. Colabora com esta sensação de urgência a câmera ágil de Lucas, especialmente nas batalhas espaciais, alternando, sem jamais soar confusa, entre os planos abertos que nos mostram as naves e os planos fechados que ilustram a tensão dos pilotos. A montagem utiliza ainda com freqüência o fade e a transição de imagens que se sobrepõem na tela, dando um ar episódico proposital à narrativa. O diretor queria que o filme se parecesse com os seriados norte-americanos e este efeito dá esta sensação. Talvez o único problema de “Uma Nova Esperança” seja o seu final pouco aberto à continuação, que não deixa a sensação de “quero mais” esperada para um primeiro filme de trilogia. Além disso, sua narrativa não consegue desenvolver os personagens completamente, mas este não chega a ser um problema, já que este desenvolvimento seria feito com maestria no segundo filme e foi planejado pelo diretor. Ainda assim, o longa consegue um resultado bastante satisfatório, se estabelecendo como uma aventura capaz de nos transportar para outro universo de maneira mais que eficiente.

Responsável por criar uma verdadeira legião de fãs e preparar o terreno para o maravilhoso “O Império Contra-Ataca”, “Star Wars, uma nova esperança” jamais alcança os níveis de tensão e o aspecto sombrio de sua seqüência, mas ainda assim consegue agradar o espectador ao nos apresentar personagens importantes, cenários magníficos e uma história capaz de prender a atenção com sua narrativa ágil, inteligente e bem conduzida. Assim como o poderoso ataque da estrela da morte, George Lucas deixou sua marca neste importante filme de estréia da trilogia “Star Wars”.

Texto publicado em 10 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira

GREASE – NOS TEMPOS DA BRILHANTINA (1978)

(Grease)

 

Videoteca do Beto #68

Dirigido por Randal Kleiser.

Elenco: John Travolta, Olivia Newton-John, Stockard Channing, Jeff Conaway, Barry Pearl, Michael Tucci, Kelly Ward, Didi Conn, Jamie Donnelly, Dinah Manoff, Eve Arden, Edd Byrnes, Sid Caesar, Susan Buckner, Lorenzo Lamas e Michael Biehn.

Roteiro: Bronte Woodard e Allan Carr, baseado em peça teatral de Jim Jacobs e Warren Casey.

Produção: Allan Carr e Robert Stigwood.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A história é simples, talvez até simples demais. O tema principal da narrativa também não é nada original. Mas o vigor empregado pelo diretor Randal Kleiser e pelo afinado elenco liderado por John Travolta e Olivia Newton-John transforma o musical “Grease, nos tempos da brilhantina” num filme apaixonante, que conquista o espectador com sua energia.

É fim de verão na Califórnia quando o jovem Danny (John Travolta) e a bela Sandy (Olivia Newton-John) fazem juras de amor, pouco antes de a garota voltar para Sidney, na Austrália. Mas inesperadamente ela muda seus planos e acaba se matriculando na mesma escola de Danny. O problema é que lá o rapaz tem fama de garanhão, o que o leva a esnobá-la na frente dos amigos, somente para manter a fama ao não se “prender” numa garota só. Mas no íntimo, ele sabia que estava apaixonado por ela.

Logo nos créditos iniciais, “Grease” nos mostra sua característica mais marcante, através de uma divertida animação, embalada por uma bela canção, que dá o tom divertido e jovial do musical. É com esta abordagem alegre e enérgica que o diretor Randal Kleiser consegue salvar um roteiro apenas razoável, que na realidade apresenta uma história pouco atraente. Ainda assim, o roteiro da dupla Bronte Woodard e Allan Carr consegue ilustrar a fase da juventude, quando ainda estamos cheios de dúvidas e temos que começar a tomar decisões importantes em nossas vidas, além de ser também a época em que as paqueras no colégio se iniciam. Nesta complicada fase, começamos a deixar os amigos de infância em segundo plano e passamos a conviver mais com o sexo oposto, mas ainda não temos a segurança necessária para fazer esta transição tranquilamente. O conflito entre manter a moral diante dos amigos e entregar-se a uma paixão, aliás, é a única razão para que Danny renegue Sandy diante dos amigos. E se este dilema é ilustrado com muito charme e eficiência em “Grease”, os méritos são da boa direção de Kleiser, que emprega muita energia nas cenas e, esbanjando jovialidade, ameniza a fragilidade do roteiro. Não por acaso, o filme conquista o público jovem quase que instantaneamente. Por fim, a descoberta do sexo não poderia faltar num filme sobre jovens, e ela aparece, por exemplo, quando Betty (Stockard Channing) e Kenickie (Jeff Conaway) decidem seguir em frente sem um importante (hoje em dia vital!) acessório. Fica evidente a inocência daqueles jovens diante do tema neste episódio e em diversos outros, como quando um deles pergunta se a duração de uma relação é mesmo de apenas 15 minutos.

Como musical “Grease” é bastante eficiente, também porque as canções são orgânicas, ainda que oscilem entre aquelas apenas regulares e outras maravilhosas. Sendo assim, nenhuma canção soa artificial, como se fosse colocada na trama de qualquer maneira apenas para preencher espaço. Desta forma, quando ouvimos Danny contando vantagem para os seus amigos enquanto Sandy romantiza o encontro na excelente “Summer Nights”, a letra tem todo sentido dentro da narrativa, expondo os sentimentos de cada personagem. Talvez a seqüência musical mais famosa do longa, a bela “Summer Nights”, aliás, é também um dos momentos mais empolgantes do filme, graças à boa condução de Kleiser, ilustrando bem a diferença com que homens e mulheres encaram a paquera nesta fase da vida. Colabora também o show de Travolta, que mostra seu talento como dançarino, apesar da coreografia apenas razoável, que não atinge o mesmo nível de excelência de outros musicais como “Os Embalos de Sábado à Noite”, estrelado por ele próprio. O diretor também conduz bem as seqüências de humor, como quando Danny tenta sem sucesso praticar algum esporte para reconquistar Sandy ou quando o boato sobre a gravidez de Betty começa a correr pela turma. Em outro momento, a câmera de Kleiser acompanha Sandy com poucos cortes, criando uma seqüência elegante enquanto ela canta a música “Hopelessly Devoted To You”. E finalmente, a interessante música “Look At Me I’m Sandra Dee”, cantada por Betty Rizzo, claramente critica o puritanismo e serve, de maneira sutil, como uma alfinetada na “velha Hollywood”, ao citar Doris Day e Rock Hudson.

E se “Grease” caminha num ritmo extremamente agradável, é também devido à dinâmica montagem de John F. Burnett, bastante apropriada para um musical juvenil, e que, além disso, ainda utiliza com elegância a sobreposição de imagens em algumas canções para nos mostrar Danny e Sandy em locais diferentes simultaneamente. Já as cores quentes da fotografia de Bill Butler reforçam o tom alegre do filme, se destacando na ensolarada despedida do casal na praia, onde os raios solares reforçam o momento mágico. Os figurinos coloridos de Albert Wolsky, além de marcantes, certamente carregam a cara de sua geração. As roupas de couro, saias e perucas coloridas garantem um visual alegre e divertido, também coerente com o tom da narrativa. Vale notar ainda como em suas primeiras aparições, Betty, a garota pink mais cética, se veste de preto, representando visualmente seu estado de espírito. Betty, aliás, que é muito bem interpretada por Channing, que demonstra muito bem o jeito despojado da garota. Devo destacar ainda o carro preto que solta fogo pelo escapamento dos “Scorpions”, que deixa claro para o espectador quem são os rivais dos “T-Birds”, ainda mais quando estes últimos aparecem com um carro branco (lembrando as cores dos cavalos de Messala e Ben-Hur), revelando o bom trabalho de direção de arte.

E chegamos então à outra razão para o sucesso de “Grease”. Além da eficiente direção de Kleiser, é a energia do elenco que garante o sucesso do longa. Apesar de já ter aparecido em cena antes, a introdução de Danny na escola é cheia de estilo, graças à pose de John Travolta e a forma como a câmera vai buscá-lo em meio às garotas, ilustrando muito bem o poder de sedução do rapaz. Poder este que fica mais evidente graças ao carisma do ator, extremamente solto no papel. Travolta demonstra bem o típico comportamento adolescente de Danny, por exemplo, quando muda radicalmente a forma de tratar Sandy somente porque está na frente dos amigos. E apesar de se sair bem no papel dramático, ele se destaca mesmo como dançarino, demonstrando seu enorme talento nos números musicais. Já Olivia Newton-John conquista a empatia do espectador com seu charme, compondo uma Sandy praticamente irresistível com sua fragilidade e insegurança. E nem mesmo a improvável mudança de comportamento da garota no final compromete sua atuação, já que é fruto do roteiro e ela pouco poderia fazer a respeito. Pelo menos, a mudança radical rende mais um empolgante número musical, já que é praticamente impossível não balançar os pés com a deliciosa “You’re the one that I want”.

Ainda que tenha pequenos defeitos, “Grease, nos tempos da brilhantina” se destaca principalmente pela forma divertida e empolgante que ilustra uma fase marcante de nossas vidas. Apesar das incertezas que nos cercam, a época da escola certamente traz deliciosas lembranças de um tempo onde nossa maior preocupação era para onde e com quem iríamos passar o final de semana.

Texto publicado em 06 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira

PATTON – REBELDE OU HERÓI? (1970)

(Patton)

 

Videoteca do Beto #67

Vencedores do Oscar #1970

Dirigido por Franklin J. Schaffner.

Elenco: George C. Scott, Karl Malden, Michael Bates, Ed Binns, Stephen Young, Lawrence Dobkin, John Doucette, James Edwards, Frank Latimore, Richard Münch, Morgan Paull, Siegfried Rauch, Paul Stevens, Michael Strong, Karl Michael Vogler e Peter Barkworth.

Roteiro: Francis Ford Coppola e Edmund H. North, baseado em livros de Ladislas Farago e Omar N. Bradley.

Produção: Frank McCarthy.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A personalidade conturbada e a obstinação pela glória eram dois traços marcantes do famoso general norte-americano George Patton, que inspirou este “Patton, rebelde ou herói?”, dirigido por Franklin Schaffner e que faz um fascinante estudo deste ser humano complexo (e quem não é?). Talvez o único general dos aliados realmente temido pelos nazistas, era capaz de campanhas heróicas e históricas nos campos de batalha, mas falhava terrivelmente quando se relacionava com as pessoas, onde a “luta” não exigia tanques e estratégias, mas sim sensibilidade e humanismo.

O general George Patton (George C. Scott) assume o comando do exército norte-americano durante a segunda guerra mundial e, depois de seguidos triunfos, coloca sua reputação em risco ao agredir em público um soldado que passava por uma crise. Seus métodos inspiravam medo nos alemães, mas também provocavam ressentimentos nos aliados e, por isso, quase impediram que seu grande sonho se realizasse. Rebaixado, sem o comando do exército e impedido de participar do “dia D”, Patton é obrigado a rever seus conceitos, mas consegue retornar para comandar a caminhada do 3º exército americano pela Europa, que terminaria somente em território russo.

Logo no primeiro plano, em que o general aparece diante da imensa bandeira norte-americana, “Patton” mostra uma de suas principais forças: os enquadramentos perfeitos que exploram ao máximo a tela widescreen (cinemascope) e que serão responsáveis pelo visual deslumbrante do longa. Em seguida, os planos de cada detalhe do condecorado uniforme do general George Patton nos apresentam à outra característica marcante do filme: a obsessão de seu protagonista pela guerra e seu amor pelos campos de batalha. O discurso que segue apenas resume o pensamento típico norte-americano sobre a guerra e demonstra também o “ódio à derrota”, a cultura dos “vencedores”, que se por um lado motiva as pessoas a seguirem em busca de seus ideais, por outro é responsável por uma legião de frustrados espalhados pelo mundo por não terem conseguido alcançar o “sucesso” imaginado.

Escrito por Francis Ford Coppola e Edmund H. North (baseado em livros de Ladislas Farago e Omar N. Bradley), “Patton” cobre praticamente toda a trajetória do general homônimo durante a segunda guerra mundial e, apesar de glorificar o pensamento belicista na maior parte do tempo, se redime na última frase do filme (“Toda glória é efêmera”), ao questionar a validade de tudo aquilo. Além disso, o roteiro faz uma crítica sutil à imprensa sensacionalista quando Patton se esquece de mencionar os russos, provocando uma verdadeira tormenta nos jornais do dia seguinte. Coppola e North ainda inserem pequenos alívios cômicos que balanceiam bem a narrativa, como quando alguém diz para Patton que ele “não verá mais aviões alemães” e, no minuto seguinte, um bombardeio se inicia. Após este bombardeio, aliás, Patton se sente derrotado e o plano de Schaffner demonstra bem este sentimento, diminuindo o general na tela enquanto este imagina um duelo no estilo western com tanques de guerra. Patton é diminuído em cena ainda em outros momentos, como quando recebe as instruções num hotel de Londres e no último e solitário plano do longa. Schaffner cria ainda lindos planos nas exóticas locações situadas na Tunísia, Marrocos e Argélia, além de utilizar planos gerais que nos situam com precisão nas batalhas. O diretor também emprega repetidas vezes o zoom out, como quando os animais pressentem o ataque dos alemães no deserto ou quando Patton e Montgomery (Michael Bates) se cumprimentam em Messina, nos afastando lentamente da cena. Finalmente, o diretor acerta ao filmar por diversas vezes o general em ângulo baixo, especialmente em seus discursos inflamados, representando o poder que aquele homem tinha (ou pensava ter), mas peca ao apresentar um plano óbvio demais, quando mostra dois soldados mortos de mãos dadas após o general ouvir que a batalha foi hand to hand.

Como filme de guerra “Patton” é eficiente, graças também ao bom trabalho técnico coletivo. A montagem de Hugh S. Fowler trabalha muito bem nas batalhas, alternando entre os belos planos gerais e os planos que nos colocam muito próximos dos soldados, mas desliza ao estender demais algumas cenas desnecessárias, como os inúmeros discursos do general. Acerta ainda ao inserir uma espécie de telejornal, que atualiza as notícias e dá seguimento à narrativa sem parecer falso ou deslocado. Os figurinos recriam perfeitamente os uniformes dos soldados, tanto de americanos como de marroquinos e alemães, e a direção de arte de Urie McCleary e Gil Parrondo é responsável pelo contraste entre as luxuosas instalações alemãs e do alto comando norte-americano e, por exemplo, a desgastada base no Marrocos, com paredes descascadas e claramente deterioradas. Além disso, capricha nos detalhes que compõem o exército, como os equipados tanques de guerra, e em pequenos objetos que exemplificam a personalidade do general Patton, como o revólver pouco comum que ele carregava. O som é excepcional, se destacando nas batalhas, mas trabalhando de maneira eficiente, por exemplo, quando a oscilação do som da sirene dá a noção da posição do carro que traz o general em sua chegada ao Marrocos. A chegada dos tanques no primeiro combate também merece destaque, fazendo literalmente o chão tremer. Já a fotografia de Fred J. Koenekamp evolui do visual empoeirado do deserto, onde destaca cores como o verde musgo e o marrom, para o gélido terceiro ato em território russo, onde as cores frias e a própria neve criam um contraste interessante, que reflete também os sentimentos do general. Nas palavras de um alemão, a aproximação do fim da guerra significava também o seu próprio fim. Koenekamp acerta ainda quando envolve o general em sombras no momento em que ele é notificado que Bradley assumiu o comando, representando visualmente sua angústia. Finalmente, a trilha sonora do bom Jerry Goldsmith oscila entre momentos melancólicos, como quando um soldado americano morre num bombardeio, e momentos triunfais, como quando Patton volta a comandar uma divisão do exército.

Mas se é eficiente como filme de guerra, “Patton” se destaca mesmo como um minucioso estudo de personagem. Extremamente temido, o general George Patton era capaz de gerar pânico nos soldados, como quando um deles diz “Que Deus nos ajude” ao saber de sua chegada. O temor se justifica logo em sua primeira “vistoria” no local, quando arranca um pôster de mulher e ordena que todos vistam o uniforme do exército, incluindo os médicos. Quando questionado por um médico sobre a impossibilidade de utilizar o material de trabalho por causa do capacete, ele responde: “Faça dois furos”, mostrando seu lado pratico e nada humanista. E até mesmo seu lado espiritual era apenas mais uma arma em suas mãos, como fica evidente quando ele ordena que o capelão peça para Deus melhorar o clima. George Scott encarna o general com extrema competência, demonstrando sua obstinação pela vitória com fervor. A expressão séria, como quando se olha no espelho antes da primeira batalha contra os alemães, poucas vezes saía de seu rosto, mas Scott sabe bem os momentos em que a cena pede uma oscilação em sua feição, como quando Bradley questiona seus métodos pouco éticos e ele coça os olhos olhando para os céus. Sua capacidade de mover exércitos era proporcional à sua falta de tato, exemplificada em suas declarações, como quando compara o Marrocos a uma “mistura da Bíblia com Hollywood”. O único local capaz de aflorar emoções em Patton era mesmo o campo de batalha. Profundo conhecedor da história das guerras, sabia da importância de conhecer o inimigo e, por isso, lia o livro de seu adversário apenas para antecipar suas táticas. Na busca incessante pela vitória e pela glória, Patton utilizava todas as armas possíveis, ainda que pra isso tivesse que atropelar a ética e a moral, como quando pede para que seus lideres enviem novamente uma mensagem, somente para ganhar tempo e desobedecer à ordem que estava por vir, invadindo a cidade de Palermo. Era capaz de prejudicar seu aliado inglês e provocar a morte de soldados do próprio exército somente para chegar a Messina antes de seu aliado e ter toda a glória para si. E se o ser humano pouco importava pra ele, o que dizer então de pobres animais que atrapalhavam sua marcha em cima de uma ponte? A solução foi rápida. O horror da guerra não lhe comovia nem um pouco, como podemos notar no plano em que Patton sequer olha para os lados enquanto diversos soldados feridos passam ao redor. Já a “covardia” era capaz de lhe tirar do sério, fazendo com que ele humilhasse um soldado em crise no hospital, o que lhe custou muito caro depois. Nesta cena, aliás, Scott está estupendo, demonstrando com exatidão a raiva que Patton sentia diante daqueles que considerava covardes. É interessante notar também que nem mesmo os alemães acreditavam que uma agressão a um soldado fosse motivo para afastar o general. Após a queda, Patton se esforça muito para conter os nervos, como quando é provocado por um repórter e, após hesitar, resolve seguir em frente sem reagir. Mas o tato não era seu forte, como fica claro em sua fria despedida dos companheiros de batalha após o fim do conflito.

“Patton” pode parecer um filme de guerra e até cumpre bem esta função quando necessário, mas na realidade, o longa dirigido por Franklin J. Schaffner é um belo estudo de personagem (como sugere o próprio nome do filme), que esmiúça a mente de um dos grandes generais norte-americanos, sem jamais temer mostrar seus piores defeitos. George Patton não era um político, o ser humano pouco lhe importava e é apropriado que no último plano ele apareça pequeno e solitário, acompanhado somente por um cachorro. Em sua busca obstinada pela glória, ele descobriu que estas coisas são passageiras. O que realmente importa na vida talvez ele jamais tenha tido.

Texto publicado em 03 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira

PINÓQUIO (1940)

(Pinocchio)

 

 

Videoteca do Beto #66

Dirigido por Hamilton Luske e Ben Sharpsteen.

Elenco: Vozes de Dickie Jones, Mel Blanc, Walter Catlett, Don Brodie, Christian Rub, Evelyn Venable, Cliff Edwards e Frankie Darro. 

Roteiro: Carlo Collodi (história), Ted Sears (adaptação), Otto Englander (adaptação), Webb Smith (adaptação), William Cottrell (adaptação), Joseph Sabo (adaptação) e Erdman Penner (adaptação).

Produção: Walt Disney (não creditado).

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após revolucionar o cinema com seu filme de estréia “Branca de Neve e os Sete Anões”, contrariando todas as expectativas e provando ser possível realizar um longa-metragem de animação, Walt Disney conseguiu, já em seu segundo filme, alcançar a perfeição. “Pinóquio” é um triunfo cinematográfico belíssimo, com uma estrutura narrativa perfeita, que se estabeleceu como o padrão a ser seguido pelo gênero animação até os dias de hoje. Além dos triunfos técnicos, o longa consegue ainda ser extremamente emocionante, tocando de maneira uniforme os corações de crianças e adultos.

Um grilo falante (voz de Cliff Edwards) invade uma velha casa numa cidade pequena para se esconder do frio. Lá encontra o velho Gepeto (voz de Christian Rub) e suas únicas companhias, o gato Fígaro e a peixe Cleo (ambos, voz de Mel Blanc). Após Gepeto construir um boneco de madeira e desejar que este se torne um menino de verdade, uma bela fada azul (voz de Evelyn Venable) invade a casa durante a noite e dá vida ao boneco chamado Pinóquio (voz de Dickie Jones), prometendo lhe transformar num menino de verdade se ele demonstrasse coragem e altruísmo.

“Pinóquio” fala para crianças de todas as idades, mas certamente sua mensagem é direcionada diretamente aos meninos. O menino de madeira, como qualquer garoto, é inocente ao ponto de acreditar numa promessa de um estranho (“Vou ser ator famoso”, diz eufórico para o grilo) e curioso o suficiente para colocar o dedo no fogo ou atrapalhar o sono do “pai” com suas perguntas (“Por quê? Por quê? Por quê?”) – repare a divertida irritação de Fígaro neste momento. Por isso, o roteiro (adaptado da história de Carlo Collodi) não perde a oportunidade e deixa diversas lições, como não confiar em estranhos (raposa João Honesto), saber escolher as amizades (Espoleta), não mentir (nariz crescendo) e sempre suspeitar do caminho fácil para o sucesso (Stromboli). Por mais que sejam óbvias, é inegável que são mensagens sempre eficientes e atuais. Além disto, a narrativa flui de maneira muito agradável, graças à estrutura harmoniosa que acompanha todo o arco dramático do menino de madeira, transformado de garoto curioso e inocente em herói corajoso e altruísta. Outra sacada interessante do roteiro, inexistente no conto original de Collodi, é o grilo falante, um personagem chave para o sucesso da narrativa, que funciona como elo entre o espectador e o universo do longa. Além de narrador, o grilo serve também como alivio cômico numa trama repleta de momentos nebulosos, como quando lê a carta entregue por uma pomba ou quando ameaça brigar com Espoleta (voz de Frankie Darro). Inicialmente, ele não confia muito nos conselhos que dá, como quando testemunha o sucesso de Pinóquio e se retira, dizendo que “atores não precisam de consciência”. No entanto, assim como Pinóquio aprende muitas coisas ao longo da narrativa, o grilo também aprende a ser mais incisivo e confiar nos seus princípios.

Mas “Pinóquio” impressiona também pela qualidade da animação em si. Vale lembrar, em tempos de animação digital, que o desenho foi criado a partir de pinturas feitas à mão por dezenas de artistas que trabalhavam para Walt Disney. O lindo visual, repleto de detalhes como as ranhuras na madeira ou o correto deslocamento das sombras quando a fada aparece ou em cenas iluminadas por velas, é resultado do trabalho manual destes grandes artistas, o que engrandece ainda mais a qualidade do que vemos na tela. Observe a riqueza de detalhes, como os olhos imóveis de Pinóquio, quando ainda era um boneco de madeira, contrastando com o vivo e inquieto olhar do mesmo Pinóquio após receber “o dom da vida”. Repare também a qualidade das imagens no fundo do mar, simulando a dificuldade para caminhar no oceano. Este cuidado extremo com cada detalhe, sempre misturando um rico universo de cores e tons, inevitavelmente conquista a empatia de crianças e adultos. Os movimentos de câmera também são extremamente ousados para uma animação de 1940, como quando a câmera simula os pulos do grilo enquanto ele se aproxima da casa de Gepeto ou no impressionante travelling que nos leva por toda a cidade até chegar à porta da casa onde Pinóquio se prepara para o seu primeiro dia de aula. Os diretores Hamilton Luske e Ben Sharpsteen confirmam o conhecimento da linguagem cinematográfica quando empregam um zoom para aumentar o impacto da cena, quando Pinóquio, após salvar Gepeto, aparece caído na água. Além disso, alteram o foco para transmitir sensações, como quando Pinóquio fuma e, em seguida, vê a bola 8 e o grilo completamente distorcidos. Finalmente, os diretores mostram talento até mesmo para situar o espectador em ações que acontecem fora de campo, como na tensa seqüência da perseguição da baleia Monstro, onde mesmo sem ver a baleia no plano, o espectador sente sua aproximação somente através das reações de Pinóquio e Gepeto.

O festival de sensações provocadas no espectador é ainda mais forte graças à bela trilha sonora, que além de pontuar muito bem as cenas (observe o tom sombrio da música que acompanha a terrível transformação de Espoleta e Pinóquio em burros), ainda contém excelentes canções, algo tradicional nos filmes da Disney e que certamente facilita a comunicação com as crianças. E o mais interessante é que as canções são sempre orgânicas, fazendo a narrativa andar através da mensagem de cada letra, além de utilizar o som diegético como parte da música, como na divertida “Give a little whistle”, cantada pelo grilo falante, onde os pequenos sons produzidos na casa de Gepeto contribuem com a canção. E o que dizer então da belíssima “When you wish upon a star”, composta por Leigh Harline e Ned Washington, que de tão encantadora, ultrapassou os limites do filme e tornou-se a música tema da própria Disney? Além da linda melodia, a letra resume perfeitamente a mensagem do longa. Ainda no aspecto sonoro, o belo trabalho de efeitos sonoros fica evidente através dos relógios, do som da batida na madeira de Pinóquio e da água do mar na perseguição da baleia Monstro.

E se Pinóquio acaba perseguido pela baleia Monstro, é porque quando finalmente volta pra casa, ele a encontra vazia e abandonada, e os tons azulados da imagem refletem sua imensa tristeza. Estes momentos sombrios não faltam no longa, como a cena em que Gepeto procura por Pinóquio sob um clima chuvoso e obscuro, o momento em que Pinóquio é preso, onde a tempestade representa a angústia dele, e a transformação de Espoleta em burro, com a sombra refletida na parede que remete às perturbadoras imagens do expressionismo alemão (repare a engraçada reação de Pinóquio jogando a cerveja e o cigarro fora, num excelente exemplo de alivio cômico eficiente). Além disso, o próprio visual da Ilha dos Prazeres após a prisão dos garotos é capaz de provocar calafrios em qualquer espectador. E por falar na Ilha dos Prazeres, o parque de diversões idealizado pelo cocheiro (que se transforma em demônio ao revelar seus planos para João Honesto), repleto de doces e sorvetes, mas que conta também com tabaco, cerveja, e locais como a “casa da briga” ou a “casa modelo” para ser destruída, revela-se um verdadeiro lugar de sonhos para meninos travessos como Espoleta. E não demora muito para que Pinóquio perceba o fascínio desta vida, o que faz com que diga para seu mais novo amigo que “ser malvado é divertido”. A imagem dos garotos bebendo, fumando e jogando sinuca chega até mesmo a ser chocante, mas consegue perfeitamente transmitir a idéia de rebeldia, resumida na frase de Espoleta citada por Pinóquio (“Só se vive uma vez”). Obviamente, o roteiro se encarrega de pregar outra lição nos meninos teimosos, ensinando o perigo das más companhias, simbolizado na terrível transformação dos meninos em burros. Finalmente, não poderiam faltar cenas marcantes neste verdadeiro clássico da Disney, como a dança de Pinóquio com as marionetes, a perseguição da baleia Monstro e, principalmente, a histórica cena em que seu nariz cresce. Até mesmo quem nunca assistiu ao filme sabe a conseqüência da mentira do garoto.

O boneco Pinóquio representava a chegada da alegria naquele lar. Gepeto, solitário e carente de crianças, investia o tempo em seu hobby favorito, criando diversos e interessantes bonecos de madeira. Mas o menino-marionete era a sua maior criação, e até mesmo o gato Fígaro sabia disto, o que justifica seu ciúme imediato, ao imaginar que o menino substituiria o seu lugar no coração do velho homem. No fundo, “Pinóquio” não trata simplesmente de deixar mensagens educativas para as crianças (algo que faz muito bem). Ilustra também, de forma tocante, a imensa alegria que um homem (e uma mulher) sente quando é presenteado com a chegada de uma criança, enchendo o lar com a mais pura alegria. E Gepeto sabia que esta alegria lhe faltava, tanto que quando tem a oportunidade de fazer um desejo, não hesita em pedir que o seu menino seja um “menino de verdade”. A transformação em sua vida é tão grande que jamais o velho Gepeto culpa Pinóquio pela tragédia que se abateu em sua vida e, mesmo engolido por uma baleia, é capaz de dizer “Pobre Pinóquio, era um garoto tão bom”. E no fundo, Gepeto tinha razão, porque na realidade, Pinóquio sempre foi um menino de verdade, inocente, curioso, às vezes atentado, mas sempre com um coração puro e a alegria encantadora de uma verdadeira criança. Portanto, quando a fada finalmente lhe transforma num menino de carne e osso (provocando uma explosão de alegria nos personagens, incluindo Fígaro, e no espectador), está apenas oficializando algo que na prática, no coração dele, já existia. E então, a bela trilha sonora surge apenas para fechar com chave de ouro esta obra-prima da história do cinema.

“Pinóquio” pode parecer um filme destinado a ensinar valores para as crianças, mas como indica a canção principal, sua verdadeira mensagem atinge mesmo o coração dos adultos, ao ensinar a importância de acreditarmos em nossos sonhos. E o que mais poderia representar o sonho de um adulto do que a chegada de uma criança em seu lar? Walt Disney sabia disto, assim como sabia tocar no coração do espectador, e provou isto mais uma vez nesta verdadeira obra-prima, que ainda hoje soa atual e emociona.

Texto publicado em 29 de Setembro de 2010 por Roberto Siqueira

O HOMEM QUE AMAVA AS MULHERES (1977)

(L’ Homme qui Aimait les Femmes)

 

Filmes em Geral #14

Dirigido por François Truffaut.

Elenco: Charles Denner, Brigitte Fossey, Nathalie Baye, Sabine Glaser, Valérie Bonnier, Jean Dasté, Leslie Caron, Geneviève Fontanel, Nelly Borgeaud e Henri Agel.

Roteiro: François Truffaut, Suzanne Schiffman e Michel Fermaud.

Produção: Marcel Berbert e François Truffaut.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

François Truffaut era um homem apaixonado pelas mulheres. Famoso por se apaixonar por muitas atrizes com quem trabalhava, o grande diretor francês tinha também uma mágoa pela forma como sua mãe o tratou na infância, algo que ele fez questão de ressaltar em alguns de seus filmes. Neste delicioso “O homem que amava as mulheres”, Truffaut junta as duas coisas para celebrar o seu amor pela figura da mulher e, através do olhar de seu personagem principal, estudar o amor de maneira filosófica. O resultado é uma bela e merecida homenagem à beleza feminina.

Após inúmeros casos e paixões, o conquistador de mulheres Bertrand (Charles Denner) decide escrever uma autobiografia sobre sua vida amorosa, cobrindo desde a sua primeira relação sexual num bordel, ainda quando era muito jovem, até a sua fase atual, já na casa dos 40 anos.

“O homem que amava as mulheres” tem início durante um enterro, onde diversas mulheres, de todos os tipos e idades, seguem um caixão. Não é preciso muito tempo para que o espectador identifique quem está lá dentro. Através da voz de uma de suas amantes, a bela Geneviève Bigey (Brigitte Fossey), somos levados a conhecer o passado deste misterioso homem. E é através de cada palavra e pensamento deste conquistador chamado Bertrand que o longa dirigido por Truffaut exala sensualidade. Esta sensualidade, misturada a um erotismo insinuado, era uma das marcas da nouvelle vague, que destacava como deusas absolutas as musas de sua época. E apesar de estar distante do período da nouvelle vague, “O homem que amava as mulheres” bebe direto desta fonte, servindo também como poderosa ferramenta para compreender o cinema de Truffaut, que refletia nas telas a sua própria personalidade. Seus personagens eram um reflexo do próprio diretor desde seu filme de estréia e aqui mais uma vez isto se repete.

Tecnicamente, “O homem que amava as mulheres” não chega perto dos revolucionários filmes da nouvelle vague. Apesar disso, destaca-se a direção de fotografia de Néstor Almendros, que cria um visual colorido, refletindo a empolgação de Bertrand ao ver todas aquelas mulheres andando pela rua. Repare como Almendros muda para o preto e branco durante os flashbacks, refletindo a tristeza do personagem naquele período de sua vida. Observe também como na cena do aeroporto, enquanto Bertrand olha para a sala de espera cheia de homens o visual é pouco colorido, ao passo em que quando ele olha para as pernas femininas a tela se enche de cores, graças também ao auxílio dos figurinos de Monique Dury. Ainda na parte técnica, a montagem dinâmica de Martine Barraqué também colabora para que o filme tenha um ritmo leve e delicioso, reforçado pela trilha sonora de Patrice Mestral.

Além da costumeira elegância na direção, sempre dando enorme importância ao desenvolvimento dos personagens, Truffaut também é o responsável, ao lado de Suzanne Schiffman e Michel Fermaud, pelo maravilhoso roteiro. Repleto de diálogos interessantes e reflexões a respeito da natureza masculina, o roteiro é praticamente um poema que exalta o fascínio dos homens pelas mulheres, como fica evidente no belíssimo momento em que Bertrand narra a sensação que sente ao ver as mulheres andando pelas ruas, “desde que com um vestido ou saia que mexa no ritmo de seus passos”. Truffaut escapa ainda do tom melancólico que a vida solitária de Bertrand poderia provocar através dos alívios cômicos, como as deliciosas conversas entre ele e a moça que telefona todas as manhãs para acordá-lo. Nem todo homem é como Bertrand, mas todos podem admirar sua devoção pela figura feminina. E apesar de muitos se identificarem com o jeito mulherengo do personagem, é possível também que homens “monogâmicos” apreciem as suas palavras, afinal de contas, Bertrand nada mais é do que um completo apaixonado pela mulher em sua essência, com a diferença de que, como disse Geneviève Bigey (interpretada com charme e sensualidade pela bela Brigitte Fossey) em sua reflexão final, ele não encontrou em uma única mulher tudo o que procurava. Talvez essa fosse sua maior tristeza.

Vale observar um truque do diretor que é vital para entender a personalidade de Bertrand. Em um dos flashbacks de sua infância, o homem lembra o jeito apressado de uma prostituta de caminhar – segundo ele buscando enganar os clientes – e em seguida lembra que sua mãe caminhava exatamente da mesma forma. Repare como as duas mulheres são interpretadas pela mesma atriz. Está aí a chave para entender o personagem. O complexo de Édipo nunca foi tão trágico como neste caso. Repetindo uma das características de seus filmes, Truffaut busca inspiração em sua própria história de vida, pois assim como Bertrand, ele também tinha problemas de relacionamento com sua mãe (algo que ficou evidente desde “Os Incompreendidos”) e é provável que esta relação conturbada com sua mãe tenha gerado o seu amor incondicional pelas mulheres (“Minha mãe costumava andar seminua na minha frente, não para me provocar, mas para ter a impressão de que eu não existia”, diz Bertrand).

Fica evidente, portanto, que Bertrand pode ser considerado mais uma versão cinematográfica de seu diretor. Ele vive para conquistar as mulheres e vê a beleza existente em cada uma delas. “Algumas são tão belas vistas por trás que hesito em ultrapassá-las, temendo ficar decepcionado. Porém, nunca me desaponto. Quando elas não me agradam de frente, me sinto aliviado de certa maneira; pois, infelizmente, não posso ter todas elas.”, reflete. E por mais cafajeste que possa parecer, o personagem conquista o espectador com sua maneira simples e sincera de ver a situação. “Mas o que têm todas essas mulheres? O que têm a mais do que todas as outras que conheço? Bem, justamente, o que têm a mais é isso: elas ainda me são desconhecidas”. Esta frase resume Bertrand perfeitamente. Ele não quer compromisso com uma mulher, ele quer todas elas. E se mesmo com sua “cafajestagem” Bertrand conquista a empatia do espectador é também graças à boa atuação de Charles Denner, que demonstra a inquietação e os desejos do conquistador com competência, além de emocionar o espectador no único momento em que parece sofrer de verdade por uma mulher, quando reencontra uma amante em Paris enquanto negociava a divulgação de seu livro. O dilema do personagem é tragicamente belo. Ao mesmo tempo em que parece amar toda mulher que aparece em sua frente, Bertrand, na realidade, se sente incompleto por não conseguir encontrar um amor de verdade.

“O homem que amava as mulheres” pode até ser acusado de ser um filme machista. Mas esta acusação seria, no mínimo, de uma injustiça sem tamanho. A história do “conquistador” Bertrand, na realidade, revela a profunda admiração e o amor infindável que Truffaut nutria pelas mulheres. Através das palavras e pensamentos do homem galanteador, o diretor revela parte de sua personalidade e entrega um filme impecável. Por tudo isto, podemos dizer que, além de amar profundamente as mulheres, Truffaut também amava perdidamente o cinema.

Texto publicado em 25 de Setembro de 2010 por Roberto Siqueira

ALPHAVILLE (1965)

(Alphaville, Une Étrange Aventure de Lemmy Caution)

 

Filmes em Geral #13

Dirigido por Jean-Luc Godard.

Elenco: Eddie Constantine, Anna Karina, Akim Tamiroff, Jean-Louis Comolli, Jean-André Fieschi, Howard Vernon e Michel Delahaye.

Roteiro: Jean-Luc Godard, baseado em poema de Paul Éluard.

Produção: André Michelin.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Dirigida por Jean-Luc Godard, “Alphaville” é uma ficção científica diferenciada, claramente inspirada pelos filmes noir, que foca mais nos aspectos filosóficos e existenciais do que nos avanços tecnológicos que o futuro pode proporcionar. Com seu costumeiro apreço pelo aspecto técnico, Godard consegue criar um longa futurista extremamente sombrio, que remete diretamente ao lado negro da humanidade, quando esta deixa de dar o devido valor aos sentimentos e a relação humana para favorecer a tecnologia.

A estranha cidade de Alphaville é o alvo de uma investigação comandada pelo agente Lemmy Caution (Eddie Constantine), que parte para o local após o insucesso de outros agentes na região. Ao chegar à cidade, controlada pelo computador Alpha 60 – que age como um ser onipresente, capaz de ver a tudo e a todos -, o agente parte em busca do professor Von Braun, para convencê-lo a destruir a famosa máquina, que simplesmente aboliu os sentimentos dos habitantes locais. Curiosamente, Caution encontra em seu caminho a jovem Natacha (Anna Karina), filha do professor, que servirá como guia em sua empreitada.

Jean-Luc Godard reafirma em “Alphaville” sua atração pelo cinema experimental, abusando de planos ousados, como uma curiosa tomada aérea durante uma perseguição automobilística, e conduzindo interessantes seqüências, como as que se passam dentro de um quarto de hotel, onde o espectador jamais sabe o que esperar quando os personagens passam por trás da cama onde Caution se deita. Demonstra ainda mais ousadia ao apresentar quebras de eixo, quando Caution abre a porta do guarda-roupa de Henri Dickson (Akim Tamiroff), personagens procurando a posição da câmera, na cena do poema entre Natacha e Caution, imagens em negativo, quando Caution luta com um segurança na garagem, e desrespeito pela continuidade de tempo e espaço, quando Caution abre seguidas portas, sempre com Natacha escondida atrás delas. Além disso, o diretor conta com a montagem nada convencional de Agnès Guillemot, que, por exemplo, alterna planos convencionais com expressões algébricas que piscam na tela.

Ao contrário do visual arrebatador da avançada “Metropolis” de Fritz Lang, Godard cria uma cidade futurista decadente, bastante parecida com qualquer grande cidade dos anos sessenta, nos jogando pra dentro daquele ambiente sombrio e amargo de maneira eficiente. Para isto, conta com o excelente trabalho de direção de arte, que, por exemplo, capricha nos detalhes da enorme central de controle de Alphaville, e com a obscura direção de fotografia de seu costumeiro colaborador Raoul Coutard, que mergulha o espectador em ambientes pouco iluminados, refletindo a angústia de Caution naquele local nada hospitaleiro. A narrativa é conduzida por uma espécie de narrador, que somado ao visual sombrio e predominantemente noturno do longa, revela a clara inspiração nos filmes noir. Vale notar também que de maneira mais explícita e menos sutil que no cinema de Truffaut, o erotismo e a sensualidade também estão presentes nos filmes de Godard. Em “Alphaville” não é diferente e, ainda que neste caso a maioria das mulheres tenha um papel apenas secundário numa sociedade que aboliu o amor, a carga erótica se faz presente, por exemplo, através das acompanhantes que se oferecem à Caution ou da mulher presa nua dentro de um vidro, que serve também para revelar a forma como aquelas pessoas olhavam para a mulher. Numa sociedade sem sentimentos, a mulher se tornou mero objeto sexual. Finalmente, a trilha sonora de Paul Misraki pontua os momentos de suspense, algumas vezes de maneira exagerada, e os momentos românticos, sempre que Natacha está em cena.

Godard é responsável também pelo excepcional roteiro, baseado em poema de Paul Éluard, que não mede esforços para criticar duramente uma sociedade voltada para o pensamento puramente racional, que não abre espaço em nenhum momento para a emoção e para a criação, inibindo os sentimentos e resultando numa sociedade sem conteúdo. Em “Alphaville”, Godard prova que a ciência (razão), por mais importante e necessária que possa ser (e realmente é), não substituirá jamais o sentimento humano (emoção) – e a busca do homem pelo entendimento de coisas sem lógica alguma é algo que a ciência jamais explicará. Na cidade onde é proibido ter sentimentos, fazer questionamentos e criar algo que não siga a “lógica”, o amor inexiste, o que a transforma numa cidade amedrontadora, onde cada cidadão é apenas um número e a sociedade acaba sendo dominada por uma incrível falta de propósitos ou objetivos individuais. Num mundo dominado pela lógica, a criação inexiste, pois não há espaço para a busca do diferente e ninguém ousa “tentar o que não foi tentado ainda”. Sendo assim, inexiste também a arte, e “Alphaville” crítica duramente o racionalismo exagerado no excepcional diálogo entre Caution e Alpha 60, quando a máquina pergunta “O que transforma as trevas em luz?” e o homem responde “a poesia”.

A interpretação de Eddie Constantine como Lemmy Caution, aliás, é bastante competente, transmitindo segurança naquilo que busca e jamais esmorecendo diante daquela cidade tão ameaçadora. Uma espécie de detetive futurista destemido que parte em busca de respostas na racional e fria Alphaville, Caution se mostra um homem inabalável, inteligente e, exatamente por isso, difícil de ser decifrado pelo inteligente computador. Em todo momento Caution mostra que será difícil convencê-lo a seguir as regras locais, o que o transforma numa séria ameaça para o controle da cidade e torna seus deliciosos diálogos com o computador Alpha 60 em momentos tensos e imprevisíveis. E por falar no responsável pelo controle de Alphaville, a perturbadora voz do temível “Alpha 60” é destas coisas que só o cinema é capaz de produzir e ficam na memória do espectador eternamente. Ainda dentro das atuações, vale destacar a charmosa Anna Karina, que transmite toda a insegurança de Natacha von Braun, uma mulher afetada pelo rígido método de controle local e que foi obrigada a “apagar” da memória todo e qualquer registro de sentimento que pudesse carregar. Mas até mesmo onde tudo é cuidadosamente controlado, sempre existirá espaço para o amor. Inconscientemente, Natacha sabe que Caution é sua única esperança de mudar sua situação, o que permite com que a paixão floresça entre ambos e Caution acabe sendo o responsável por sua redenção.

De maneira proposital, Godard mostra um futuro não muito distante da Paris dos anos sessenta neste interessante “Alphaville”, que faz uma crítica à sociedade de sua época e às limitações impostas por regras, inclusive dentro da indústria cinematográfica. Num local onde até mesmo as palavras eram controladas, não existia espaço para os sentimentos e para a arte. Felizmente, Godard não seguia regras pré-estabelecidas e era capaz de produzir grandes filmes, como é o caso de “Alphaville”.

Texto publicado em 24 de Setembro de 2010 por Roberto Siqueira

O DESPREZO (1963)

(Le Mépris)

 

Filmes em Geral #12

Dirigido por Jean-Luc Godard.

Elenco: Brigitte Bardot, Michel Piccoli, Jack Palance, Fritz Lang e Giorgia Moll.

Roteiro: Jean-Luc Godard, baseado em romance de Alberto Moravia.

Produção: Georges de Beauregard e Carlo Ponti.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Neste excelente “O Desprezo”, estrelado por Michel Piccoli e pela sex symbol da época Brigitte Bardot, Godard utiliza o relacionamento conturbado de um casal para mostrar, nas entrelinhas, seu modo de ver o cinema como arte ao mesmo tempo em que critica o cinema estritamente comercial.

O roteirista Paul Javal (Michel Piccoli) vai a Roma para trabalhar numa adaptação da obra “A Odisséia”, que contará com o diretor alemão Fritz Lang (interpretado pelo próprio Lang). Enquanto acerta os últimos detalhes para aceitar o trabalho e assinar o contrato, sua relação com sua bela esposa Camille (Brigitte Bardot) começa a desmoronar, principalmente após a aparição do produtor de cinema Jeremy Prokosch (Jack Palance).

O criativo e experimental Jean-Luc Godard já inicia “O Desprezo” inovando ao apresentar os créditos com sua própria voz, sem os tradicionais caracteres na tela. Mais contido que o habitual, o diretor ainda assim consegue criar planos interessantes, como durante uma conversa em que o casal Javal, sentado frente a frente, expõe a verdade quanto aos sentimentos de um pelo outro e a razão pela qual cada um está magoado. A câmera se movimenta de um lado para o outro horizontalmente, dando ao espectador a sensação de estar acompanhando um duelo entre os dois personagens. Depois desta discussão, eles saem de carro e Camille aparece envolvida pela escuridão, refletindo o sentimento de tristeza da personagem e revelando o bom trabalho do diretor de fotografia Raoul Coutard. Coutard e Godard também aproveitam muito bem a beleza estonteante da paradisíaca Ilha de Capri, criando planos belíssimos. Vale destacar ainda a cena em que Paul grita por Camille numa escadaria, já na ilha, em que Godard filma de muito longe, diminuindo o personagem na tela e, desta forma, refletindo sua pequena importância pra Camille naquele momento. Finalmente, o diretor francês utiliza a metalingüística para alfinetar os produtores de cinema, como podemos observar na cena em que todos estão na sala de projeção e o produtor diz que entende como os deuses se sentem. A crítica vem na frase de Fritz Lang: “não foram os deuses que criaram os homens, mas os homens que criaram os deuses”.

O excelente roteiro do próprio Godard é repleto de ácidos diálogos entre o casal principal, intercalados com críticas à figura do produtor que só pensa no lucro em detrimento da qualidade do espetáculo (“Quando ouço a palavra ‘cultura’ puxo o talão de cheques”, diz Prokosch). Ao mesmo tempo em que faz uma interessante análise sobre a natureza imprevisível das relações humanas, Godard mostra sua visão diferenciada sobre cinema e sua insatisfação com o cinema puramente comercial. Além disso, utiliza a história da Odisséia para traçar dois inteligentes paralelos. O primeiro é com a própria história de Paul e Camille, como fica evidente numa conversa entre Paul e Lang sobre Ulisses e Penélope, que claramente faz alusão à relação do casal. O segundo paralelo traçado fala a respeito da relação entre produtores (deuses) e diretores (homens), na citada cena da sala de projeção. O desprezo de Paul por Camille, agravado por sua brincadeira ousada com Francesca Vanini (Giorgia Moll), provocou a traição e o fim do desejo de sua esposa por ele e a narrativa consistente de Godard mostra este processo naturalmente. Mas Godard também quer falar, ainda que de forma sutil, sobre outro tipo de “desprezo”. É o desprezo dele próprio pela forma convencional de fazer cinema, em especial pela figura do produtor que favorece o dinheiro em detrimento da arte, como fica claro na conturbada relação entre produtor, diretor e roteirista exposta no longa.

A montagem dinâmica de Agnès Guillemot insere, em determinado momento, imagens já vistas anteriormente em forma de flashbacks, visando reforçar a curiosa narração em off dos personagens. Além disso, divide a narrativa claramente em três partes. Na primeira, a relação do casal começa a ter problemas graças ao convite de Prokosch, enquanto a segunda foca as discussões acaloradas do casal. Finalmente, o terceiro ato mostra o trágico desfecho deste conturbado relacionamento. A progressiva e lenta destruição do relacionamento do casal é pontuada ainda pela melancólica e tragicamente bela trilha sonora de Georges Delerue.

Entre as atuações, vale destacar Michel Piccoli, que se sai muito bem como Paul, com destaque para os duelos verbais com Bardot. Jack Palance interpreta o detestável Prokosch com elegância, enquanto Fritz Lang interpreta a si mesmo, o que obviamente facilita muito seu trabalho. Giorgia Moll complementa o elenco vivendo Francesca Vanini, que apesar da discreta participação, tem papel fundamental na briga do casal Javal. Mas quem rouba mesmo a cena é Brigitte Bardot, que exala sensualidade em praticamente todas as cenas em que aparece, mas também demonstra talento nos momentos dramáticos. Cínica e destemida, ela transmite com exatidão o quanto Camille está magoada com o marido, supostamente porque ele não demonstrou ciúme por ela. Tudo que Camille queria era que o marido demonstrasse que se importa com ela, como na primeira cena da ilha, quando Paul parece não se importar com sua saída com Prokosch. Repare como no momento em que diz “pode ir”, Godard dá um close em seu rosto, destacando sua frieza. O desprezo dele fez com que a paixão de Camille lentamente se esfriasse.

Godard aproveita muito bem a presença da principal musa da época para preencher o longa com diversos momentos repletos de sensualidade, seja através das constantes cenas de nudez total de Bardot, seja através do excepcional roteiro, como durante uma leitura de Paul sobre um diferente concurso ou na primeira conversa do casal deitado numa cama. Além disso, o erotismo sugerido e pouco explícito característico da nouvelle vague aparece, por exemplo, quando Bardot sai da banheira e deixa a toalha escapar mostrando parte das costas e coxas. Ousadia pura para a época, que também se fazia presente no roteiro, por exemplo, através dos palavrões de Camille numa discussão com Paul.

O lindo plano final que destaca o mar azul de Capri, seguido pela palavra “silêncio” gritada por Lang, reflete a sensação do espectador diante do trágico final de “O Desprezo”. O vazio que sentimos é por saber que aquela relação caminhava naturalmente para o final, assim como tantas outras que conhecemos, e nada podíamos fazer a respeito. Não bastasse este interessante estudo do relacionamento humano, o diretor ainda aproveitou para deixar, de forma sutil, sua crítica ao cinema convencional. Palmas pra ele.

Texto publicado em 23 de Setembro de 2010 por Roberto Siqueira

JULES E JIM – UMA MULHER PARA DOIS (1964)

(Jules et Jim) 

 

Filmes em Geral #11

 

Dirigido por François Truffaut.

Elenco: Jeanne Moreau, Oskar Werner, Henri Serre, Vanna Urbino, Boris Bassiak, Anny Nelsen, Sabine Haudepin, Marie Dubois, Christiane Wagner e Michel Subor (Narrador).

Roteiro: François Truffaut e Jean Gruault, baseado em livro de Henri-Pierre Roché.

Produção: Marcel Berbert.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A ousadia temática da narrativa, característica da nouvelle vague, aparece com força total neste delicioso “Jules e Jim”, dirigido com maestria por François Truffaut, que narra à história de um divertido triangulo amoroso envolvendo uma mulher e dois melhores amigos. Novamente mostrando seu enorme talento no desenvolvimento dos personagens, Truffaut nos mostra as diferentes formas de amar e o nosso constante medo de perder as pessoas que amamos.

O germânico Jules (Oskar Werner) e o francês Jim (Henri Serre), dois grandes amigos que vivem em Paris, conhecem a extrovertida Catherine (Jeanne Moreau) e passam a conviver diariamente com ela, vivendo momentos inesquecíveis que acabam resultando no interesse de ambos pela garota. Só que Jules pede ao amigo Jim que não interfira e acaba se casando com Catherine. Mas após lutarem na guerra, ambos retornam para viver um curioso triangulo amoroso.

François Truffaut confirma novamente seu talento nesta adaptação para o cinema da obra literária de Henri-Pierre Roche, que exemplifica perfeitamente o espírito libertário dos jovens nos anos 60. O roteiro do próprio Truffaut, auxiliado por Jean Gruault, alterna muito bem entre a linguagem despojada, quando os personagens estão felizes, e o diálogo mais ácido, quando acontecem os conflitos, além de manter uma narração em off que remete diretamente à obra literária que originou o longa. Em “Jules e Jim”, o diretor/roteirista analisa com carinho os diversos tipos de amor e amizade que todo ser humano pode ter ao longo da vida, mostrando que em algumas vezes o sentimento de amizade pode ser até mesmo mais forte que o próprio amor. Afinal de contas, Jules e Jim, por mais que sentissem ciúmes de Catherine, nunca entraram em conflito por respeitarem demais a amizade que tinham. Já Catherine, ainda que tivesse o amor de ambos, não sabia lidar com o ciúme quando Jim se relacionava com Gilberte (Vanna Urbino), por exemplo. E apesar de todos eles demonstrarem insegurança e medo em determinados momentos, Catherine claramente era a que tinha mais dificuldade para lidar com este sentimento.

Truffaut também ousa um pouco mais na direção do que em seu excepcional filme de estréia, criando planos ousados, como aquele em que a tela fica escura e podemos ver apenas um quadro focando um dos personagens, além de conduzir com fluidez a narrativa, graças ao auxílio da boa montagem de Claudine Bouché, que faz pequenos cortes durante algumas cenas, quebrando a sensação de continuidade e dando agilidade ao longa. Também merecem destaque a fotografia leve de Raoul Coutard e a deliciosa trilha sonora de Georges Delerue, que reforçam o clima descontraído do longa.

Mas se “Jules e Jim” é corajoso tecnicamente, utilizando inclusive imagens congeladas e telas dividas (algo pouco comum na época), sua ousadia temática é ainda superior, pois falar abertamente de um triângulo amoroso não é algo fácil nem mesmo nos dias de hoje. E para que esta diferente relação funcione junto ao espectador, Truffaut conta com a estupenda atuação do trio principal formado por Jeanne Moreau, Oskar Werner e Henri Serre. Catherine, interpretada com charme e competência por Moreau, é uma mulher decidida, ousada, provocativa e sensual – o que certamente provocou um choque nos conservadores da época. Extremamente instável emocionalmente, ela simboliza perfeitamente a mensagem principal de “Jules e Jim”, pois como dizia o próprio Truffaut, o longa queria celebrar a intensidade das paixões mais incendiárias, e Catherine representa perfeitamente esta montanha russa de sentimentos graças ao bom desempenho de Moreau. Como bem define Jules em certo momento, “ela é uma força da natureza”. Personagem marcante, pode até ter provocado diretamente os mais conservadores, mas seu comportamento foi de encontro aos anseios das jovens européias e norte-americanas da época, determinadas a mudar sua posição na sociedade com seu espírito libertário e a mensagem do amor livre, tão fortes nos anos sessenta. Pra fechar com chave de ouro sua grande atuação, a belíssima música cantada por Catherine em certo momento fica ainda mais encantadora graças ao carisma de Jeanne Moreau. Já a dupla formada pelo germânico Jules e o francês Jim consegue criar uma empatia singular graças à boa atuação de Oskar Werner e Henri Serre, fazendo com que o espectador acredite na amizade entre eles, o que é determinante para o sucesso da narrativa. Por mais que amassem Catherine, era a amizade que um nutria pelo outro que eles mais prezavam e nada poderia fazer este sentimento se abalar. Não é sempre, afinal, que vemos um homem pedir a outro que se case com sua mulher para vê-la feliz (o que revela também um amor altruísta da parte de Jules). E é tocante notar que nem mesmo o horror da guerra esfriou o sentimento de ambos, que mais se preocupavam em não matar um ao outro nos campos de batalha do que em tentar sobreviver àquele inferno.

Em “Jules e Jim”, Truffaut aborda um tema difícil e polêmico, conseguindo trazer o espectador pra dentro da trama com extrema habilidade e sensibilidade. Sem julgar os personagens, criamos empatia pelo trio e torcemos pelo improvável sucesso daquela relação. Somos levados pela narrativa e até mesmo tocados por ela em diversos momentos, como na reveladora conversa entre Catherine e Jim numa bela noite pelos jardins. Amar não é fácil, e compreender a pessoa que amamos é ainda mais difícil. Jules e Jim conseguiram entender perfeitamente este complicado sentimento, mas Catherine infelizmente não soube lidar com a perda e seu trágico fim era uma conseqüência até mesmo previsível. Pena que Jim não pensava desta maneira.

François Truffaut conduz com segurança este divertido “Jules e Jim”, abordando com sua costumeira sensibilidade um tema realmente complexo. O amor, a amizade e o medo que todo ser humano tem de perdê-los é o fio condutor de uma narrativa ágil, marcante e, graças também ao bom desempenho do elenco, inesquecível.

Texto publicado em 22 de Setembro de 2010 por Roberto Siqueira

ACOSSADO (1959)

(À Bout de Souffle)

 

Filmes em Geral #10

Dirigido por Jean-Luc Godard.

Elenco: Jean-Paul Belmondo, Jean Seberg, Daniel Boulanger, Jean-Pierre Melville, Henri-Jacques Huet, Van Doude, Claude Mansard, Jean-Luc Godard, Richard Balducci e Roger Hanin.

Roteiro: Jean-Luc Godard, baseado em história de François Truffaut.

Produção: Georges de Beauregard.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Ágil, verborrágico, ousado tanto tecnicamente quanto tematicamente, “Acossado” fez parte da safra de filmes lançados nos cinemas em 1959, que inaugurou a nouvelle vague e representou o sopro de novidade que o cinema francês (e mundial) precisava. Nele, Godard narra a história de um assassino em fuga e sua conturbada convivência com uma bela jovem, filmando pelas ruas de Paris com muito realismo e agressividade, numa direção estilizada que influenciou muitas obras dali em diante.

Michel Poiccard (Jean-Paul Belmondo) parte em alta velocidade para Paris após roubar um carro em Marselha e matar um policial no caminho. Ao chegar à capital francesa, encontra a estudante americana Patricia Franchisi (Jean Seberg) e consegue convencê-la a escondê-lo até que receba um dinheiro que lhe devem. Mas Michel começa a se perder com o tempo, passando a agir sem o menor cuidado até encontrar seu trágico e inevitável destino.

Para entender a repercussão de “Acossado” é importante entender o contexto da época de seu lançamento. No final dos anos cinqüenta, o mundo vivia o inicio de uma revolução cultural, com os jovens se rebelando de diversas maneiras, por exemplo, através da música, com a evolução natural do rock e, alguns anos depois, com a formação de novos grupos, como os hippies, que surgiam com ideais baseados na liberdade, na paz e no amor. No cinema – ainda preso ao modelo clássico de narrar histórias, recheado de paradigmas estéticos e temáticos -, foi a nouvelle vague que iniciou este movimento de renovação. E foi “Acossado” (ao lado de “Os Incompreendidos”, de Truffaut e de “Hiroshima, meu amor” de Alain Resnais) o responsável direto por isto, com sua linguagem jovem, sua direção estilizada e sua temática bastante ousada para a época.

O roteiro do próprio Godard (baseado em história de François Truffaut) narra à vida de um homem que rouba um carro, assassina um policial e passa a viver pelas ruas de Paris, fugindo da polícia ao mesmo tempo em se relaciona com uma jovem norte-americana. Podemos notar que, obviamente, não se trata de um exemplo de ética e moral. Aliás, ousar na temática era uma das principais características da nouvelle vague e “Acossado” é um grande exemplo disto. Mas a ousadia não se resumia apenas à temática. A narrativa é acidentada, com cortes secos que dão a sensação de acelerar a história e evidenciam o estilo experimental de Godard, que obviamente contou com o auxilio do bom trabalho de montagem de Cécile Decugis e Lila Herman para conseguir este efeito. A dupla de montadores inova, por exemplo, fazendo pequenos cortes durante algumas cenas (os chamados jump-cuts), dando a impressão de que um pedaço do filme se perdeu. Na verdade, esta técnica serve para aumentar a sensação de urgência no espectador, o que trabalha a favor da narrativa, transmitindo a constante inquietação do fugitivo Poiccard. Na direção, Godard explora ao máximo sua câmera, criando planos diferentes e criativos, como na seqüência em que Poiccard conversa com Patricia dentro de um conversível, onde só podemos ver a nuca da moça enquanto ouvimos a conversa do casal. Mas Godard também sabe ser sutil, e é interessante notar como muita coisa não precisa ser dita para que o espectador compreenda o que acontece, como no momento em que Patricia pergunta a Poiccard que parte do corpo dela ele mais gosta e a resposta não vem com palavras, mas sim com uma carícia no local escolhido. É um momento rápido, seguido por um corte seco, mas o espectador mais atento percebe a sutileza. Esta cena, aliás, finaliza uma longa e interessante conversa do casal sobre coisas do cotidiano, algo também pouco comum na época. Eles brigam, fazem as pazes, se amam, se divertem e o espectador testemunha tudo isto através da câmera de Godard.

Ainda na parte técnica, vale destacar a direção de fotografia de Raoul Coutard, que evita o tom carregado, garantindo o clima leve e descontraído do longa. Observe como a maior parte do filme se passa durante o dia, sempre com a predominância das luzes em relação às sombras, o que também colabora para que o espectador não veja Poiccard como um personagem sombrio. A natureza jovial do longa é complementada pela trilha sonora alegre de Martial Solal e pela já citada montagem acidentada de Cécile Decugis e Lila Herman.

A boa atuação da dupla formada por Jean-Paul Belmondo, que interpreta Michael Poiccard, e Jean Seberg, que interpreta Patricia, se destaca principalmente nos momentos mais íntimos do casal, que acontecem dentro do apartamento de Patricia, quando as brincadeiras se misturam às dúvidas que ambos sentem com relação à natureza daquela relação. Belmondo e Seberg demonstram com competência a insegurança dos personagens e transmitem uma sensação de imprevisibilidade, através das respostas repentinas e constantes mudanças de comportamento, fazendo com que o espectador jamais possa prever a reação de qualquer um deles. E este perigoso estado constante de alerta acaba alimentando as dúvidas que temos a respeito das motivações de cada personagem. Dúvidas estas que ambos também nutrem em relação ao outro, e que serão vitais para o trágico destino de Poiccard. Afinal de contas, Patricia o ama, mas não tem certeza de que é correspondida, o que a leva a questionar, por exemplo, se ele aceitaria ter um filho com ela. Já Poiccard, que também a ama, de igual forma não tem certeza de que é correspondido, e a situação se agrava quando ele descobre o affair entre Patricia e um homem que pode ajudá-la na carreira. E este casal bomba relógio, prestes a explodir, caminha pelas ruas de Paris desfilando charme e, curiosamente, conquista a empatia da platéia, independente do comportamento amoral de ambos.

Patricia, aliás, é o símbolo da mulher independente, com seu corte de cabelo curto e suas provocantes minissaias. Dormir com diversos homens diferentes não era problema pra ela, mas certamente era chocante para a sociedade puritana da época (ainda hoje existe este tipo de pensamento). Poiccard, por sua vez, também não é um exemplo de retidão, afinal de contas, roubar um carro, assassinar um policial e fugir em alta velocidade, conversando com a câmera e xingando o espectador que não gosta da praia, do campo e de outras coisas mais, não é um comportamento comum. Os personagens, portanto, personificam o cinema transgressor que nascia ali.

Em seu filme de estréia, Godard agitou de vez a indústria cinematográfica. “Acossado” é a prova definitiva de que o cinema francês passa bem longe do estereótipo “filme arrastado feito por intelectuais”. Na realidade, trata-se de um filme agitado, agressivo, que não tem medo de ousar e inovar, experimentando novas técnicas e formas de narrar uma história pouco convencional. Certamente, está na lista dos filmes mais influentes da história da sétima arte.

Texto publicado em 21 de Setembro de 2010 por Roberto Siqueira