Videoteca do Beto: novas aquisições

Olá pessoal,

A última novidade em DVD da Videoteca, resultado de uma das poucas ofertas que achei realmente interessantes no último Black Friday.

COLEÇÃO 007: CELEBRANDO AS CINCO DÉCADAS DE JAMES BOND

007 Contra O Satânico Dr. No (1962)

Moscou Contra 007 (1963)

007 Contra Goldfinger (1964)

007 Contra a Chantagem Atômica (1965)

Com 007 só se vive duas vezes (1967)

007 – A Serviço Secreto de sua Majestade (1969)

007 – Os Diamantes São Eternos (1971)

Com 007 Viva e deixe Morrer (1973)

007 Contra o Homem com a Pistola de Ouro (1974)

007 – O Espião que me Amava (1977)

007 Contra o Foguete da Morte (1979)

007 – Somente para seus Olhos (1981)

007 Contra Octopussy (1983)

007 – Na Mira dos Assassinos (1985)

007 – Marcado para a Morte (1987)

007 – Permissão para Matar (1989)

007 Contra Goldeneye (1995)

007 – O Amanhã Nunca Morre (1997)

007 – O Mundo não é o Bastante (1999)

007 – Um Novo Dia para Morrer (2002)

007 – Cassino Royale (2006)

007 – Quantum Of Solace (2008)

007 – Operação Skyfall (2012)

*Como quase todos os filmes da coleção pertencem a anos anteriores ao atual da Videoteca (1998), decidi criar um especial James Bond, que irá de 1962 a 2002, deixando apenas os três filmes mais recentes para serem divulgados quando chegarem seus respectivos anos. Obviamente, os filmes entrarão na sequência normal da Videoteca, que independe da ordem cronológica em casos como estes.

Um abraço.

Videoteca James BondTexto publicado em 05 de Maio de 2014 por Roberto Siqueira

20 anos

Lembro muito bem daquela manhã, mas não quero falar a respeito dela. Prefiro lembrar momentos como este do vídeo abaixo.

Para as novas gerações, talvez seja difícil dimensionar o tamanho de Ayrton Senna para o brasileiro. País recém-saído de uma ditadura e carente de ídolos, o Brasil encontrou em Senna um símbolo, alguém para colocar as esperanças nas manhãs de domingo e esquecer, mesmo que momentaneamente, os problemas do cotidiano. Competente e carismático, Senna elevou a autoestima de um povo sofrido e, morto precoce e tragicamente, transformou-se em mito.

Senna foi meu primeiro ídolo no esporte. Não faço parte do time que detrata os feitos de Schumacher para elevar ainda mais o mito Ayrton Senna. Sou fã dos dois gênios. Até por isso, aquela fatídica manhã de domingo me tirou mais do que o ídolo. Tirou também a possibilidade de curtir aquele que seria o maior duelo da história da Fórmula 1.

Continuei acompanhando as corridas, curti os sete títulos de Schumacher e só deixei mesmo de acompanhar a Fórmula 1 recentemente. Mas aquela manhã me tirou algo especial. Lembro-me das corridas que assistia ao lado do meu pai, que pegava o copo de cerveja sem olhar para a mesa para não perder um instante sequer das corridas. Depois da tragédia, poucas vezes assistimos corridas juntos novamente.

Senna se foi. Mas a quantidade de homenagens prestadas no dia de hoje demonstram o quanto ele foi importante. E isto é o bastante. Melhor de todos os tempos? Não importa. Senna foi o maior mito do esporte brasileiro.

Texto publicado em 01 de Maio de 2014 por Roberto Siqueira

OSCAR 1999: SHAKESPEARE APAIXONADO X ALÉM DA LINHA VERMELHA

Seguindo minha comparação entre o vencedor do Oscar de Melhor Filme e aquele que eu considerei como a melhor produção do ano, chega à vez do ano de 1998 (Premiação em 1999).

Um efeito curioso que acontece com muitos filmes que vencem o OSCAR de Melhor Filme é que, com o passar dos anos, eles passam a serem vistos de outra maneira (normalmente com desprezo) em virtude dos filmes que derrotaram na premiação. O fato é que o inteligente e criativo “Shakespeare Apaixonado” não é tão fenomenal quanto a Academia pensou que era na época em que venceu 7 prêmios, mas também não é tão desprezível quanto a maioria da crítica (e muitos cinéfilos) o consideram hoje. Merecia o prêmio de Melhor Filme? Não. Mas nem por isso merece ser considerado um filme fraco, já que tem inúmeras qualidades, a começar pelo criativo roteiro, além da excelente direção de arte e dos belos figurinos, sem falar nas boas atuações de praticamente todo o elenco.

O problema é que o longa dirigido por John Madden venceu não um, mas três longas claramente superiores. São eles: “O Resgate do Soldado Ryan”, “O Show de Truman” (que sequer foi indicado à Melhor Filme) e o meu favorito “Além da Linha Vermelha”. Pra piorar as coisas, Gwyneth Paltrow venceu Fernanda Montenegro (injustamente) no prêmio de Melhor Atriz e a antipatia em terra Brasilis se tornou inevitável. Em todo caso, reafirmo que gosto do longa e até daria o prêmio de Melhor Roteiro Original (que ele venceu), mas não daria o prêmio de Melhor Filme.

Porque “Além da Linha Vermelha” é melhor?

E então chegamos ao longa dirigido por  Terrence Malick. Longo, em ritmo lento e repleto de reflexões, “Além da Linha Vermelha” não é um filme fácil. E nem era pra ser. O que vemos ali não é um simples filme de guerra, mas sim um filme “sobre a guerra”, ou seja, sobre os efeitos dela no ser humano. Os questionamentos, reflexões e medos dos soldados são palpáveis ao espectador, que ao término das quase três horas de filme, sai com a mente fervilhando em pensamentos sobre a insanidade dos conflitos bélicos. São muitos os momentos sublimes que fazem deste o grande filme de 1998. Os grandes atores sabiam da qualidade do trabalho de Malick e, por isso, aceitaram até mesmo pequenas participações no longa (como fizeram George Clooney e John Travolta). Apesar da excepcional qualidade de “O Resgate do Soldado Ryan” e do genial “O Show de Truman”, meu coração se rende ao brilhantismo de “Além da Linha Vermelha”, que mereceria meu voto para Melhor Filme.

E pra você, qual o melhor filme de 1998 e por quê?

Um abraço e bom debate.

Shakespeare ApaixonadoAlém da Linha VermelhaTexto publicado em 29 de Abril de 2014 por Roberto Siqueira

VIDA DE INSETO (1998)

(A Bug’s Life)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #190

Dirigido por John Lasseter e Andrew Stanton.

Elenco: Dave Foley, Kevin Spacey, Julia Louis-Dreyfus, Hayden Panettiere, Phyllis Diller, Richard Kind, Madeline Kahn, David Hyde Pierce, Joe Ranft, Denis Leary, Bonnie Hunt, John Ratzenberger, Brad Garrett, Michael McShane e Jonathan Harris.

Roteiro: Andrew Stanton, Don McEnery e Bob Shaw.

Produção: Darla K. Anderson e Kevin Reher.

Vida de Inseto[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Em 1995, a Pixar entrou com o pé direito no mundo cinematográfico, assombrando o mundo com o revolucionário “Toy Story”. Era previsível, portanto, que o próximo projeto do estúdio viesse cercado de grande expectativa, o que talvez justifique a recepção fria de parte do público e da crítica a este divertido “Vida de Inseto”, que, numa destas coincidências que só acontecem em Hollywood, ainda teve que concorrer com o ótimo filme-gêmeo “Formiguinhaz”, da rival Dreamworks.

Escrito a seis mãos pelo co-diretor Andrew Stanton ao lado de Don McEnery e Bob Shaw, “Vida de Inseto” nos apresenta ao criativo e atrapalhado Flik (voz de Dave Foley), uma formiga inventora que se vê em apuros após derrubar toda a comida recolhida por seus companheiros que seria oferecida para os temíveis gafanhotos liderados por Hopper (voz de Kevin Spacey). Lideradas pela Princesa Atta (voz de Julia Louis-Dreyfus), as ameaçadas formigas decidem mandar Flik em busca de ajuda, visando na verdade tirá-lo do local para poderem recolher a comida em paz. Mas, para a surpresa de todos, ele retorna acompanhado de um grupo de insetos que pode ser a salvação do formigueiro.

Mantendo o padrão de qualidade ímpar das animações apresentado em seu filme de estreia, os animadores da Pixar criam um universo rico e colorido em “Vida de Inseto”, que se torna ainda mais interessante graças aos movimentos de câmera dos diretores John Lasseter e Andrew Stanton, que passeiam pelos cenários com leveza, especialmente durante as sequências de voo dos personagens. Além disso, os diretores utilizam a linguagem com propriedade e não apenas como exercício estilístico, buscando nos transmitir sensações como no zoom que realça o desespero de Flik após a aranha Rosie (voz de Bonnie Hunt) revelar que eles eram apenas insetos de circo.

Essencial na criação deste visual, a fotografia de Sharon Calahan realça o colorido das cenas dentro e fora do formigueiro, o que, por contraste, destaca cenas como a convenção dos gafanhotos num chapéu mexicano, que surge em tons áridos e amarelados que deixam o ambiente mais seco e sem vida. Da mesma forma, a primeira chegada dos gafanhotos ao formigueiro é acompanhada por um visual mais sombrio, com raros fachos de luz vazando pelo teto, numa abordagem que se repetirá de maneira ainda mais notável no clímax da narrativa.

Universo rico e coloridoDesespero de FlikConvenção dos gafanhotosEmbalado pela empolgante trilha sonora de Randy Newman, este primeiro contato entre formigas e gafanhotos, aliás, revela também o ótimo design de som, que realça o perigo que os gafanhotos representam ampliando o barulho de cada movimento deles no formigueiro, o que também ocorre no ato final, quando o som da chuva é ampliado para ilustrar o forte impacto que cada gota provoca naquele universo.

Empregando um tom de voz ameaçador, Kevin Spacey faz de Hopper um ótimo vilão, liderando os gafanhotos com autoridade durante quase toda a narrativa e assumindo o papel de antagonista com afinco, como ilustram perfeitamente os vários planos em que ele surge em frente às chamas no ato final, realçando sua natureza cruel. Além disso, seu politizado discurso sobre a diferença entre uma formiga e centenas delas provoca uma ótima reflexão sobre os métodos opressores de controle das massas.

Grande vítima da opressão, a criatividade consegue encontrar pouco espaço em ambientes dominados pelo medo, o que faz o inventivo Flik ser podado pela ignorância das demais formigas. Ganhando vida na voz de Dave Foley, Flik é o herói atrapalhado que busca redenção (“Vou encontrar os insetos mais fortes do mundo”, diz ele) e parece encontrá-la após conhecer o simpático grupo de insetos artistas de circo. Mas, quando a verdade é revelada, o divertido protagonista se vê novamente em conflito com sua própria capacidade – e o sol só volta a brilhar em “Vida de Inseto” no instante em que Flik é convencido a voltar e tentar defender o formigueiro pelos amigos circenses.

Natureza cruelHerói atrapalhadoJoaninha machoNo entanto, momentos tristes como este são raridade em “Vida de Inseto”. Quase sempre alegre e divertido, o longa traz uma série de sacadas inteligentes, como a Joaninha macho que tenta provar sua masculinidade (voz de Denis Leary), a inventiva cidade concebida pelo design de produção de William Cone, com direito a transito, um semáforo comandado por um vagalume, um mendigo e até um bar, a engraçada “La Cucaracha” tocada no encontro dos gafanhotos e os também inspirados erros de gravação que surgem nos créditos finais.

Lasseter e Stanton também trabalham muito bem na construção de cenas tensas, como no primeiro ataque do pássaro, uma sequência eletrizante que também ecoa no clímax da narrativa. Contando com o apoio do montador Lee Unkrich, eles imprimem um ritmo sempre agradável ao longa, economizando tempo em instantes como na montagem dinâmica do pássaro falso, revelada num elegante zoom out e concretizada em planos rápidos e eficientes que demonstram todo o processo de construção – e aqui vale observar o movimento de câmera que realça a folha de oferendas vazia enquanto todos admiram o pássaro, seguido pelo plano que traz uma placa com a palavra “Perigo”.

Primeiro ataque do pássaroFolha de oferendas vaziaAparição do verdadeiro pássaroApós a chegada do irritante P.T. (voz de John Ratzenberger) e a revelação que choca a população de formigas, os tons acinzentados do outono e o conflito entre Flik e sua comunidade confirmam que chegamos ao clímax de “Vida de Inseto”. Anunciando a aproximação dos gafanhotos em meio à neblina através do design de som, que realça os passos e as asas batendo com uma distorção que ilustra a ameaça que eles representam para as formigas, os diretores criam uma sequência final também empolgante, repleta de planos interessantes que nos levam ao ataque do pássaro mecânico, a aparição do verdadeiro pássaro e, posteriormente, ao esperado final feliz. E assim como ocorre em “Formiguinhaz”, um zoom out revela que toda aquela história se passa num pequeno espaço de terra.

Confirmando que a expectativa é um potencial combustível da frustração, “Vida de Inseto” está longe de ser um filme ruim, ainda que não alcance o nível de excelência de seu antecessor na quase impecável filmografia da Pixar.

Vida de Inseto foto 2Texto publicado em 21 de Abril de 2014 por Roberto Siqueira

Feliz Aniversário!

Flores Niver Dri 2014Imagem publicada em 15 de Abril de 2014 por Roberto Siqueira

UM CRIME PERFEITO (1998)

(A Perfect Murder)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #189

Dirigido por Andrew Davis.

Elenco: Michael Douglas, Gwyneth Paltrow, Viggo Mortensen, David Suchet, Sarita Choudhury, Michael P. Moran, Novella Nelson e Constance Towers.

Roteiro: Patrick Smith Kelly, baseado em peça de Frederick Knott.

Produção: Anne Kopelson, Arnold Kopelson, Peter Macgregor-Scott e Christopher Mankiewicz.

Um Crime Perfeito[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Refilmar um grande clássico do passado é quase sempre um grande desperdício de tempo e dinheiro em minha opinião. Ao invés de investir em versões “modernas” de filmes que já são excelentes, a indústria do cinema deveria mesmo é buscar oferecer ao público novas histórias que pudessem se transformar em filmes clássicos também. Por outro lado, refilmar um clássico é também uma oportunidade de aguçar a curiosidade das novas gerações, chamando a atenção para filmes que, talvez, muitos sequer se interessariam em conhecer, mesmo numa época em que temos fácil acesso à filmografia de diversos grandes diretores e alguns festivais homenageando filmes do passado. Dito isso, é com grande surpresa e satisfação que afirmo: “Um Crime Perfeito” é destas exceções que confirmam a regra, revelando-se uma versão bem interessante de “Disque M para Matar”, clássico inesquecível do grande mestre do suspense – curiosamente, Hitchcock teria outro grande clássico refilmado em 1998, desta vez sem a mesma eficiência.

Adaptado por Patrick Smith Kelly com base na peça de Frederick Knott que, por sua vez, serviu como base para o filme de Hitchcock, “Um Crime Perfeito” nos apresenta ao milionário Steven Taylor (Michael Douglas), um acionista da bolsa de valores que descobre que sua esposa Emily (Gwyneth Paltrow) está tendo um caso com um artista chamado David (Viggo Mortensen). Após descobrir o passado criminoso do rapaz, Steven decide fazer uma proposta milionária para que o amante mate sua mulher, mas algo inesperado coloca em risco toda a operação.

Como podemos notar, “Um Crime Perfeito” tenta reciclar aspectos pontuais de “Disque M para Matar”, trazendo a narrativa para a época atual como forma de facilitar a identificação do espectador. Construindo uma atmosfera de tensão que cresce na medida em que a situação se complica mais e mais, o diretor Andrew Davis obtém sucesso na principal missão da narrativa, chamando a atenção da plateia ainda pelas diversas reviravoltas que contribuem para deixar o espectador sempre grudado na tela.

Por outro lado, o diretor peca pela falta de sutileza em diversos momentos, como na postura desconfiada do Detetive na noite do crime e nos avisos que Steven dá para Emily sobre seus planos (“E se não houver amanhã?”, diz ele em tom ameaçador). Além disso, a sombria trilha sonora de James Newton Howard pontua praticamente todas as cenas de suspense, numa abordagem exagerada que poderia ser evitada – ao menos, a composição de Howard é inspirada e de fato realça a tensão em outros instantes, como na apresentação do bagunçado e obscuro apartamento de Steven concebido pelo design de produção de Philip Rosenberg, que cria logo de cara a atmosfera pretendida pelo diretor. E finalmente, Andrew Davis investe até mesmo em sustos baratos criados puramente através do design de som, como quando Steven surge no espelho enquanto Emily se veste no quarto, acertando ao menos ao homenagear “Disque M para Matar” através do altíssimo toque do telefone.

Visualmente, “Um Crime Perfeito” segue as convenções do gênero, primeiro com a fotografia quase sempre sombria de Dariusz Wolski, que aposta em lugares fechados e no posicionamento estratégico dos pontos de luz, como na cena da proposta em que o rosto dos personagens é parcialmente coberto pelas sombras, numa ilustração visual da personalidade de Steven e David, duas pessoas que escondem seu lado obscuro sob a faceta iluminada que demonstram diante da sociedade.

Bagunçado e obscuro apartamentoSteven surge no espelho enquanto Emily se vesteA proposta

Saindo-se outra vez bem no costumeiro papel do acionista milionário, Michael Douglas impõe respeito com sua voz firme e sua postura corporal sempre agressiva, criando um Steven ameaçador. Desconfiado desde o início, ele lentamente cede espaço para que o ciúme o consuma, demonstrando também uma habilidade ímpar para sair das complicadas situações que surgem em seu caminho após o crime dar errado. Convincente também é a atuação de Gwyneth Paltrow, que surge apaixonada e até mesmo inocente no início, mas transforma-se numa pessoa assustada e deprimida após ser atacada – e o fato dela falar o mesmo idioma do Detetive dá a sensação de que isto teria alguma importância na solução da trama, mas este artifício parece ser descartado pelo roteiro.

Ainda muito jovem, Vigo Mortesen consegue criar razoável empatia com Paltrow, criando um David sedutor e misterioso, numa composição totalmente coerente com o histórico de crimes do personagem. Demonstrando talento nos duelos verborrágicos com Douglas, Mortesen estabelece o equilíbrio de forças entre os integrantes do triângulo amoroso, o que é essencial para que a narrativa funcione tão bem. Desta forma, os três personagens demonstram forças e fraquezas suficientes para que nenhum pareça se sobressair, o que cria a atmosfera de incerteza e tensão ideal. Talvez o único ponto negativo neste aspecto seja o ciúme injustificável e pouco verossímil de David ao vê-la voltando do almoço com o marido, num comportamento que vai contra os princípios do personagem. Por outro lado, os pequenos momentos de alivio cômico funcionam muito bem, como quando Steven brinca com o fato de pagar 100 mil dólares adiantados para David (“Aposto 400 mil que você não foge”).

Steven ameaçadorApaixonada e inocenteDavid sedutor e misteriosoContando com o auxilio de seus montadores Dov Hoenig e Dennis Virkler, Andrew Davis se sai muito bem na condução das cenas chave de “Um Crime Perfeito” – e aqui evito qualquer comparação com Alfred Hitchcock, já que seria não apenas injusto, como também totalmente fora de propósito. Destacando com um plano detalhe o objeto que será essencial na cena do crime, o diretor prolonga a tensão ao máximo até que Emily atenda ao telefone (e aqui sim quem já assistiu “Disque M para Matar” fica na expectativa do ataque repentino), dando início através de um forte susto ao tenso ataque na cozinha, que passará por uma feroz luta corporal até que o mencionado objeto salve a pele dela, num desfecho previsível para o espectador mais atento, mas ainda sim interessante.

Plano detalheEmily atende o telefoneFeroz luta corporalLogo após o assassinato do invasor, alguém diz a seguinte frase na mesa em que Steven joga cartas: “Novo jogo, novo vencedor”, num tipo de sutileza sempre interessante que poderia aparecer mais vezes em “Um Crime Perfeito”. Andrew Davis se sai bem ainda na revelação de que o invasor não era David, estendendo a cena ao máximo até revelar o rosto de outra pessoa debaixo da toca, mas peca pelo exagero nos confrontos extremamente físicos que fecham a narrativa entre David e Steven e entre o casal, mas estes pecadilhos não são suficientes para derrubar a qualidade do longa.

Repaginada inferior, mas eficiente de “Disque M para Matar”, “Um Crime Perfeito” comprova que com criatividade e talento, até mesmo as refilmagens podem se tornar interessantes, desde que tragam uma nova abordagem que justifique a empreitada. É uma pena, portanto, que Gus Van Sant não tenha assistido a este trabalho de Andrew Davis antes de cometer uma heresia que deve ter revirado o mestre do suspense em seu caixão.

Um Crime Perfeito foto 2Texto publicado em 13 de Abril de 2014 por Roberto Siqueira

Momento mágico

Arthur assistindo “E.T. – O Extraterrestre” pela primeira vez.

Adorou.

Arthur assiste ET pela primeira vezImagem publicada em 30 de Março de 2014 por Roberto Siqueira

SHAKESPEARE APAIXONADO (1998)

(Shakespeare in Love)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #188

Vencedores do Oscar #1998

Dirigido por John Madden.

Elenco: Joseph Fiennes, Gwyneth Paltrow, Geoffrey Rush, Colin Firth, Judi Dench, Tom Wilkinson, Ben Affleck, Martin Clunes, Simon Callow, Imelda Staunton, Steven O’Donnell, Tim McMullan, Rupert Everett, Steven Beard, Antony Sher, Patrick Barlow, Sandra Reinton, Nicholas Boulton, Jim Carter e Roger Morlidge.

Roteiro: Tom Stoppard e Marc Norman.

Produção: Donna Gigliotti, Marc Norman, David Parfitt, Harvey Weinstein e Edward Zwick.

Shakespeare Apaixonado[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Num ano em que tivemos tantas produções interessantes, “Shakespeare Apaixonado” está longe de merecer todos os prêmios que recebeu, assim como Gwyneth Paltrow jamais deveria vencer o Oscar de Melhor Atriz concorrendo, entre outras grandes atrizes, com a grande atuação de Fernanda Montenegro em “Central do Brasil”. No entanto, a temporada de premiações não justifica o ódio coletivo que tomou conta de cinéfilos por todo o mundo pelo longa dirigido por John Madden. Criativo, envolvente e com ótimas atuações (sim!), a história fictícia do romance que inspirou William Shakespeare a escrever seu maior clássico é um filme delicioso, que merece ser admirado pelo que é, ou seja, um bom filme e nada mais.

Escrito por Tom Stoppard e Marc Norman, “Shakespeare Apaixonado” nos traz o famoso personagem título (Joseph Fiennes) no auge de uma crise criativa, impossibilitado de escrever sua nova peça que, inicialmente, deveria se chamar “Romeu e Ethel, a filha do pirata”. No entanto, sua inspiração volta com força total quando ele conhece a bela Viola De Lesseps (Gwyneth Paltrow), uma moça da alta sociedade com quem ele vive um intenso romance proibido, que servirá como base para o seu novo trabalho.

Extremamente bem estruturado e criativo, o roteiro de Stoppard e Norman emprega um tom de fábula à narrativa, trazendo um Shakespeare até mesmo engraçado em seu desespero diante do bloqueio criativo que o acomete. Desenvolvendo ainda outros personagens interessantes como a própria Viola e o espalhafoso, mas adorável Philip Henslowe de Geoffrey Rush, o roteiro escorrega apenas ao criar um Lord Wessex extremamente unidimensional e desprezível, deixando pouco espaço para que Colin Firth demonstre seu talento. Já Tom Wilkinson transmite toda a insegurança de Hugh Fennyman antes de sua participação na peça, num momento singelo e tocante que humaniza um personagem até então pouco significativo, enquanto Judi Dench encarna a poderosa Rainha da Inglaterra com autoridade, transmitindo segurança em cada frase pronunciada, numa participação rápida e eficiente que, ainda assim, jamais justificaria o Oscar que ela recebeu.

Espalhafoso, mas adorável Philip HensloweLord Wessex unidimensionalInsegurança de Hugh FennymanRepleto de diálogos elegantes inspirados na obra de Shakespeare, o roteiro utiliza diversos momentos do romance entre o dramaturgo e Viola como inspiração para passagens famosas da história de Romeu e Julieta, como o encontro na sacada e a noite de amor, que surgem logo após ele viver estas experiências com sua musa inspiradora. O texto faz ainda uma curiosa menção a John Webster, dramaturgo contemporâneo de William Shakespeare que se especializou em peças trágicas como “The White Devil” e “The Duchess of Malfi”.

Conduzindo esta narrativa envolvente com segurança, John Madden tem méritos ainda por tornar crível a relação central da narrativa, já que o sucesso deste romance é essencial para que “Shakespeare Apaixonado” funcione. Obviamente, a boa química entre os atores colabora muito neste sentido. Muito menos talentoso que o irmão famoso, Joseph Fiennes confere leveza e carisma ao dramaturgo, saindo-se muito bem em momentos especiais, como quando conta o final da peça num ensaio, no qual a expressão de alívio misturada com ressentimento em seu rosto transmite a satisfação do autor por ter concluído sua obra e, simultaneamente, a aflição do homem por trás do artista por estar perdendo a mulher amada.

Noite de amorDramaturgoDonzela apaixonadaMulher amada que é vivida por Gwyneth Paltrow, que se sai bem como a donzela apaixonada, pronunciando as lindas frases escritas por Shakespeare com fervor e transmitindo os sentimentos da personagem com precisão. E nem mesmo seu disfarce risível compromete sua atuação, já que a narrativa claramente brinca com este aspecto que poderia soar incômodo, como quando o barqueiro afirma que o disfarce dela “não enganaria uma criança” após revelar para Shakespeare que Thomas Kent, na verdade, é uma mulher. Completando o elenco, Ben Affleck tem uma pequena participação como Ned, que vive Mercutio na peça e é também quem sugere o famoso título “Romeu e Julieta”, enquanto Imelda Staunton vive a engraçada Ama de Viola, remetendo à atuação igualmente simpática de Pat Heywood no filme de Franco Zeffirelli.

Ajudando em nossa completa imersão naquele ambiente, a excepcional reconstituição de Londres concebida pelo design de produção de Martin Childs recria as ruas sujas da cidade com precisão e ainda cria ambientes grandiosos como os teatros e a casa de Viola, assim como a figurinista Sandy Powell capricha nas vestimentas portentosas das pessoas da alta classe, contrastando diretamente com as roupas rasgadas e maltrapilhas da fatia pobre da população, utilizando ainda vestimentas nos ensaios da peça que remetem diretamente ao citado clássico “Romeu e Julieta”, de 1968.

Disfarce risívelReconstituição de LondresVestimentas nos ensaiosAtravés da composição dos planos e da paleta de cores escolhida, Madden e seu diretor de fotografia Richard Greatrex também fazem diversas referências visuais a “Romeu e Julieta”, como na cena do baile e na conversa do casal na sacada. Explorando muito bem a beleza dos cenários, a fotografia de Greatrex se sai ainda melhor nas belas cenas noturnas, que ganham um colorido especial graças às escolhas dos diretores, como na conversa entre Shakespeare e Viola num barco, onde os rostos deles surgem iluminados enquanto o restante do plano é dominado pelas sombras. Madden também compõe belos planos na primeira noite de sexo deles, numa clássica cena de amor hollywoodiana que funciona muito bem aqui pelo carisma dos personagens e pelas escolhas estilísticas do diretor.

Ainda na parte técnica, a montagem de David Gamble confere um ritmo agradável ao longa, servindo também para escancarar a fonte de inspiração de Shakespeare ao intercalar cenas do ensaio da peça e do romance deles, numa sequência elegante que funciona ainda melhor graças à trilha sonora delicada de Stephen Warbeck. Outro momento inspirado acontece quando os atores ensaiam o duelo de espadas e são atacados pela turma do outro teatro, passando a misturar ensaio e realidade num balé coreografado com destreza pelo diretor. Nesta mesma sequência, quando Shakespeare e Viola se escondem embaixo do palco e se beijam, repare como o som ao redor praticamente some, num interessante recurso narrativo que ilustra a percepção deles naquele instante. É como se o mundo tivesse parado para que eles curtissem aquele momento.

Conversa entre Shakespeare e Viola num barcoDuelo de espadasSe escondem embaixo do palco e se beijamEmbalada por uma trilha sonora agora sombria, a tragédia toma conta da tela quando Viola descobre a existência da esposa de Shakespeare e, segundos depois, a morte de Marlowe (Rupert Everett) é anunciada, num momento chave da narrativa que começa a preparar o clímax. Esta sensação é ampliada pelo fechamento do teatro e a revelação de que ela é uma mulher no último ensaio, criando o conflito que nos levará ao desfecho empolgante de “Shakespeare Apaixonado”. Preparado com cuidado, o clímax no teatro é conduzido com precisão por John Madden e engrandecido pelas atuações apaixonadas. Assim, quando a interpretação da peça termina e os aplausos surgem efusivos após um breve silêncio, o espectador também está eufórico pela beleza do que vê na tela, num ótimo exemplo de como utilizar clichês com eficiência. Por mais previsível que seja, funciona muito bem.

O final bem amarrado ainda abre a deixa para a próxima obra de Shakespeare conhecida como “Noite de Reis” e protagonizada justamente por uma mulher chamada Viola, o que atesta a qualidade do roteiro, que aproveita muito bem a interessante ideia de misturar a obra de William Shakespeare com acontecimentos fictícios de sua vida pessoal.

Criativo, leve e muito bem interpretado, “Shakespeare Apaixonado” não é o melhor filme de 1998, mas nem por isso devemos fechar os olhos para os seus méritos. Misturando fatos e personagens reais com acontecimentos fictícios, o longa nos diverte com graça e leveza enquanto nos permite acompanhar um verdadeiro gênio em pleno processo criativo. E que sentimento pode nos dar mais inspiração do que o amor?

Shakespeare Apaixonado foto 2Texto publicado em 23 de Março de 2014 por Roberto Siqueira

O SHOW DE TRUMAN – O SHOW DA VIDA (1998)

(The Truman Show)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #187

Dirigido por Peter Weir.

Elenco: Jim Carrey, Laura Linney, Noah Emmerich, Ed Harris, Paul Giamatti, Natascha McElhone, Holland Taylor, Brian Delate, Harry Shearer, Blair Slater, Peter Krause e Philip Baker Hall.

Roteiro: Andrew Niccol.

Produção: Edward S. Feldman, Andrew Niccol, Scott Rudin e Adam Schroeder.

O Show de Truman - O Show da Vida[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Mundialmente reconhecido por seu talento como comediante, Jim Carrey encontrou em “O Show de Truman” uma das suas primeiras oportunidades de demonstrar que também poderia ser um bom ator em papéis dramáticos – ainda que, neste caso, seus engraçados trejeitos marquem presença constante, o que não ocorreria com a mesma frequência, por exemplo, no subestimado “O Mundo de Andy” e no excepcional “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”. Felizmente, Carrey aproveitou muito bem a chance, favorecido também por um roteiro extremamente criativo e pela direção dotada de grande sensibilidade de Peter Weir, num conjunto coeso que faz deste um dos grandes filmes daquele ano.

Escrito por Andrew Niccol, “O Show de Truman” nos apresenta a Truman Burbank (Jim Carrey), um homem comum que vive tranquilamente numa pequena cidade dos Estados Unidos, trabalhando como corretor de seguros e passando o restante do dia na companhia de sua esposa Meryl (Laura Linney) e de seu amigo Marlon (Noah Emmerich). O que ele não sabe, no entanto, é que sua vida é transmitida ao vivo para todo o planeta, 24 horas por dia, desde quando ele ainda era um bebê se desenvolvendo dentro da barriga de sua mãe. Idealizado pelo visionário Christof (Ed Harris), o programa se tornou um sucesso sem precedentes na história da televisão, mas as reflexões de Truman e seu desejo de conhecer outros lugares podem colocar tudo a perder.

Extremamente bem estruturado e inteligente, o roteiro de Niccol faz uma crítica frontal aos reality shows, que ainda engatinhavam na época do lançamento do filme e viriam a se tornar febre nos anos seguintes. Nem por isso, a narrativa se torna pesada, já que a abordagem leve adotada por Peter Weir praticamente transforma “O Show de Truman” numa fábula, o que é correto, já que dificilmente o programa faria tanto sucesso mundialmente se não funcionasse como uma espécie de terapia para um público que quer esquecer-se dos problemas em frente da televisão. Além da leveza, a narrativa tem também um ritmo empolgante, graças à montagem eficiente de William Anderson e Lee Smith, que inicialmente foca no cotidiano do protagonista até que, lentamente, nos apresente aos bastidores por trás daquele grande show.

Apostando em ângulos inusitados e posicionamentos de câmera que emulam o programa de televisão e suas microcâmeras escondidas, Peter Weir é bem sucedido na tarefa de estabelecer uma atmosfera leve sem que, por isso, perca o teor crítico da narrativa. Além disso, o diretor consegue extrair ótimas atuações de seu elenco, começando pelas grandes estrelas como Jim Carrey e Ed Harris e chegando aos papéis secundários como os de Noah Emmerich como o amigo Marlon e Natascha McElhone como Sylvia, a charmosa namoradinha do protagonista que é expulsa do programa, destacando-se também pelo ótimo controle da misè-en-scene, notável na precisa coordenação da movimentação dos figurantes em diversos instantes, como quando eles tentam impedir que Truman identifique seu pai (Brian Delate).

Ângulos inusitadosCharmosa namoradinhaEles tentam impedir que Truman identifique seu paiSempre sorridentes e vestidos com as roupas engomadas escolhidas pela figurinista Marilyn Matthews, os moradores locais ajudam a criar a imagem da “vida perfeita”, reforçada pelas belas casas e edifícios da cidade concebida pelo design de produção de Dennis Gassner, que mais se parece com os luxuosos condomínios que vemos em revistas. Além disso, os dias lindos e ensolarados se tornam ainda mais brilhantes nas mãos do diretor de fotografia Peter Biziou, que realça as cores das cenas diurnas e também se destaca nas noites banhadas pela lua artificial, reforçando a atmosfera fabulesca pretendida pelo diretor. E até mesmo a delicada trilha sonora de Burkhard Dallwitz trabalha neste sentido, pontuando cenas belíssimas como o encontro escondido de Truman e Sylvia na praia.

Roupas engomadasBelas casas e edifícios da cidadeNoites banhadas pela lua artificialA pureza de Truman, aliás, chega a ser tocante. Encarnando o papel com seriedade e talento, Jim Carrey aproveita sua oportunidade de ouro na carreira, compondo um personagem ingênuo, simultaneamente divertido e trágico, o que o distancia bastante dos personagens cômicos que ele havia vivido até então. Em sua envolvente busca pela verdade, Truman oscila entre o rapaz afugentado pela maneira como foi moldado naquele contexto e homem que deseja conhecer o mundo, buscando força para enfrentar seus medos – como o pavor da água provocado pelo trauma da perda do pai.

Neste confinamento, “O Show de Truman” tangencia temas polêmicos de maneira sutil, traçando um paralelo com políticas governamentais que desencorajam as pessoas que desejam sair de seus países para conhecer o mundo, em alguns casos com propagandas das belezas locais ou, como acontece aqui de maneira propositalmente exagerada, através do engraçado cartaz em que um raio parte um avião ao meio numa agência de turismo e que traz a frase: “Pode acontecer com você”.

Apresentada como Lauren até revelar seu verdadeiro nome durante o curto e quase adolescente romance que vive com Truman, a Sylvia de McElhone não aceita a manipulação do programa e tenta contar a verdade para o protagonista, sendo retirada sumariamente da produção comandada por Christof. É ela também quem escancara o debate central de “O Show de Truman”, numa discussão em rede nacional com Christof durante uma entrevista, logo após a esclarecedora sequência em que somos apresentados à história de Truman.

Ingênuo, simultaneamente divertido e trágicoPode acontecer com vocêEmoção de ChristofExalando sua costumeira autoridade, Ed Harris domina o ambiente sempre que entra em cena, compondo um personagem claramente centralizador que se coloca no papel de Deus daquele microuniverso, decidindo os destinos dos personagens, o clima e até mesmo quando começa e termina o dia – e, obviamente, o nome do personagem faz clara alusão ao nome de Cristo. No entanto, o ator foge da abordagem unidimensional ao nos fazer acreditar que Christof realmente pensa estar agindo corretamente. Durante uma conversa entre Marlon e Truman na ponte, por exemplo, acompanhamos pela primeira vez o diretor ditando as palavras no ponto para que Marlon as repita, revelando parte do mecanismo do programa para o espectador. Em seguida, Harris demonstra muito bem a emoção de Christof enquanto conduz a cena do reencontro de Truman com o pai, num momento excepcional que diz muito sobre o personagem. Ele ama aquilo acima de tudo.

Peça fundamental na engrenagem imaginada por Christof, a Meryl vivida por Laura Linney de maneira propositalmente falsa e forçada parece estar vivendo num comercial (e às vezes está mesmo!), falando com um sorriso largo no rosto e soando totalmente alheia aos conflitos internos de Truman. Ainda que penda para o overacting e torne Meryl detestável, Liney tem uma atuação coerente com a proposta da personagem, demonstrando humanidade somente quando não aguenta o tranco e quebra, gritando assustada ao ser ameaçada por Truman (“Façam alguma coisa!”, “Não é profissional!”). Enquanto isso, Noah Emmerich tem boa atuação, compondo um Marlon sereno, centrado e que funciona como o ponto de equilíbrio que mantém o “amigo” sob controle.

E por falar em controle, voltamos a Peter Weir, que conduz a narrativa com enorme segurança e precisão, sendo hábil também na construção de momentos marcantes, como aquele em que Truman começa a perceber o que acontece ao seu redor. O bom humor também encontra seu espaço, como nas engraçadas reações do público ao programa que nos faz refletir quanto ao nosso próprio comportamento diante da telinha. Somos assim? Já a sequência da fuga de Truman traz um componente de tensão que engrandece ainda mais a narrativa, com o diretor colocando o espectador na mesma posição dos personagens enquanto tentamos saber o que teria acontecido com o astro do show.

Ao descobrir seu paradeiro, a tensão também é notável no rosto do diretor de televisão vivido por Paul Giamatti e de todos aqueles presentes na sala quando Christof ordena que aumente a tempestade, saindo do controle e arriscando a vida de Truman de maneira cega, como se tivesse o direito de decidir como e quando ele deve morrer. O plano que destaca os raios solares entre as nuvens e a voz distorcida de Christof no diálogo final escancara a crítica ao dono do programa que se coloca na posição de Deus daquele universo. Ele sentia-se dono de Truman e de tudo ao seu redor.

Sorriso largo no rostoFuga de TrumanDeus daquele universoO final inteligente, com um dos vigias noturnos perguntando “onde está o Guia de TV” após o fim do programa, reforça a crítica ao espectador moderno, à maneira como a televisão trabalha na caça a audiência e também à própria mídia, que se mantém em busca da atenção do espectador, ainda que pra isto tenha que passar por cima da moral e da ética.

Antevendo os caminhos que a televisão caminharia na eterna busca pela audiência, “O Show de Truman” é uma pequena fábula sobre uma sociedade que valoriza mais a vida de uma pessoa na televisão do que aquelas que estão ao seu redor. Qualquer semelhança com os tempos em que reality shows dominam a grade de programação das principais emissoras não é mera coincidência.

O Show de Truman - O Show da Vida foto 2Texto publicado em 16 de Março de 2014 por Roberto Siqueira

OSCAR 2014 – Vencedores

Gosto da ideia de Ellen DeGeneres como apresentadora do Oscar, mas não posso negar, neste ano ela não foi bem. Aliás, “não foi bem” chega a ser um eufemismo neste caso. Ela foi péssima.

Mas nem tudo estava perdido. Tivemos o belo discurso de Jared Leto e o emocionante agradecimento de Lupita Nyong’o, além do interessante (e longo) discurso de Matthew McConaughey.

Quanto aos meus palpites, acertei 19 das 24 categorias, o que não é motivo pra festa alguma, já que com a experiência acabamos nos acostumando a compreender o Oscar e seus mecanismos. Errei sabendo que ia errar na categoria Melhor Roteiro Original, mas eu tinha que apontar “Antes da Meia-Noite”. Eu simplesmente tinha. Além disso, errei com gosto em Melhor Direção, pois foi ótimo ver o excepcional Alfonso Cuarón finalmente sendo reconhecido – aliás, o primeiro latino americano a ganhar o prêmio de Melhor Diretor.

Entre os melhores momentos da cerimônia, os prêmios honorários homenagearam nomes importantes como Steve Martin, Claudia Cardinale e Angelina Jolie (por seu marcante trabalho humanitário), mas é uma pena que os discursos foram relegados a um evento a parte e não puderam ser feitos no próprio Oscar. Se tivessem cortado metade das piadas envolvendo pizza e selfies, quem sabe…

Emocionante como sempre, a sessão In Memoriam lembrou as trágicas perdas de James Gandolfini, Philip Seymour Hoffman, Paul Walker, Peter O’Toole, Roger Ebert, Eduardo Coutinho, entre tantos outros nomes queridos… Triste. Muito triste.

E fechando a noite, Brad Pitt finalmente levou seu primeiro Oscar, mas não como ator e sim como produtor de “12 Anos de Escravidão” ao lado de Steve McQueen e mais cinco pessoas. Mas o grande vencedor da noite foi mesmo “Gravidade”, somando 7 estatuetas, entre elas a de Melhor Diretor.

Vocês podem conferir os vencedores do Oscar 2014 aqui:

Melhor filme

“12 Anos de Escravidão”

Melhor direção

Alfonso Cuarón, “Gravidade”

Melhor ator

Matthew McConaughey, “Clube de Compras Dallas”

Melhor atriz

Cate Blanchett, “Blue Jasmine”

Melhor ator coadjuvante

Jared Leto, “Clube de Compras Dallas”

Melhor atriz coadjuvante

Lupita Nyong’o, “12 Anos de Escravidão”

Melhor roteiro original

“12 Anos de Escravidão”, de John Ridley

Melhor roteiro adaptado

“Ela”, de Spike Jonze

Melhor animação

“Frozen”

Melhor filme estrangeiro

“A Grande Beleza” (Itália)

Melhor design de produção

Catherine Martin e Beverley Dunn, por “O Grande Gatsby”

Melhor fotografia

Emmanuel Lubezki, por “Gravidade”

Melhor figurino

Catherine Martin, por “O Grande Gatsby”

Melhor montagem

Alfonso Cuarón e Mark Sanger, por “Gravidade”

Melhor maquiagem

Clube de Compras Dallas

Melhor trilha sonora original

Steven Price, por “Gravidade”

Melhor canção original

Let it Go”, de “Frozen – Uma Aventura Congelante”

Melhores efeitos visuais

“Gravidade”

Melhor mixagem de som

“Gravidade”

Melhor edição de som

“Gravidade”

Melhor documentário

“A Um Passo do Estrelato”

Melhor documentário em curta-metragem

The Lady in number 6: Music saved my life

Melhor curta-metragem

Helium

Melhor curta-metragem de animação

“Mr. Hublot”

E aí, o que você achou dos vencedores do Oscar 2014?

Um abraço e bom debate.

Texto publicado em 03 de Março de 2014 por Roberto Siqueira