Imagens: O Poderoso Chefão (1972)

Seguindo o projeto de atualização das críticas com imagens, chegou à vez da crítica de O Poderoso Chefão (1972) ser devidamente ilustrada. Vale lembrar que o texto permanece o mesmo do dia de divulgação.

Um abraço.

Texto publicado em 27 de Setembro de 2010 por Roberto Siqueira

O HOMEM QUE AMAVA AS MULHERES (1977)

(L’ Homme qui Aimait les Femmes)

 

Filmes em Geral #14

Dirigido por François Truffaut.

Elenco: Charles Denner, Brigitte Fossey, Nathalie Baye, Sabine Glaser, Valérie Bonnier, Jean Dasté, Leslie Caron, Geneviève Fontanel, Nelly Borgeaud e Henri Agel.

Roteiro: François Truffaut, Suzanne Schiffman e Michel Fermaud.

Produção: Marcel Berbert e François Truffaut.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

François Truffaut era um homem apaixonado pelas mulheres. Famoso por se apaixonar por muitas atrizes com quem trabalhava, o grande diretor francês tinha também uma mágoa pela forma como sua mãe o tratou na infância, algo que ele fez questão de ressaltar em alguns de seus filmes. Neste delicioso “O homem que amava as mulheres”, Truffaut junta as duas coisas para celebrar o seu amor pela figura da mulher e, através do olhar de seu personagem principal, estudar o amor de maneira filosófica. O resultado é uma bela e merecida homenagem à beleza feminina.

Após inúmeros casos e paixões, o conquistador de mulheres Bertrand (Charles Denner) decide escrever uma autobiografia sobre sua vida amorosa, cobrindo desde a sua primeira relação sexual num bordel, ainda quando era muito jovem, até a sua fase atual, já na casa dos 40 anos.

“O homem que amava as mulheres” tem início durante um enterro, onde diversas mulheres, de todos os tipos e idades, seguem um caixão. Não é preciso muito tempo para que o espectador identifique quem está lá dentro. Através da voz de uma de suas amantes, a bela Geneviève Bigey (Brigitte Fossey), somos levados a conhecer o passado deste misterioso homem. E é através de cada palavra e pensamento deste conquistador chamado Bertrand que o longa dirigido por Truffaut exala sensualidade. Esta sensualidade, misturada a um erotismo insinuado, era uma das marcas da nouvelle vague, que destacava como deusas absolutas as musas de sua época. E apesar de estar distante do período da nouvelle vague, “O homem que amava as mulheres” bebe direto desta fonte, servindo também como poderosa ferramenta para compreender o cinema de Truffaut, que refletia nas telas a sua própria personalidade. Seus personagens eram um reflexo do próprio diretor desde seu filme de estréia e aqui mais uma vez isto se repete.

Tecnicamente, “O homem que amava as mulheres” não chega perto dos revolucionários filmes da nouvelle vague. Apesar disso, destaca-se a direção de fotografia de Néstor Almendros, que cria um visual colorido, refletindo a empolgação de Bertrand ao ver todas aquelas mulheres andando pela rua. Repare como Almendros muda para o preto e branco durante os flashbacks, refletindo a tristeza do personagem naquele período de sua vida. Observe também como na cena do aeroporto, enquanto Bertrand olha para a sala de espera cheia de homens o visual é pouco colorido, ao passo em que quando ele olha para as pernas femininas a tela se enche de cores, graças também ao auxílio dos figurinos de Monique Dury. Ainda na parte técnica, a montagem dinâmica de Martine Barraqué também colabora para que o filme tenha um ritmo leve e delicioso, reforçado pela trilha sonora de Patrice Mestral.

Além da costumeira elegância na direção, sempre dando enorme importância ao desenvolvimento dos personagens, Truffaut também é o responsável, ao lado de Suzanne Schiffman e Michel Fermaud, pelo maravilhoso roteiro. Repleto de diálogos interessantes e reflexões a respeito da natureza masculina, o roteiro é praticamente um poema que exalta o fascínio dos homens pelas mulheres, como fica evidente no belíssimo momento em que Bertrand narra a sensação que sente ao ver as mulheres andando pelas ruas, “desde que com um vestido ou saia que mexa no ritmo de seus passos”. Truffaut escapa ainda do tom melancólico que a vida solitária de Bertrand poderia provocar através dos alívios cômicos, como as deliciosas conversas entre ele e a moça que telefona todas as manhãs para acordá-lo. Nem todo homem é como Bertrand, mas todos podem admirar sua devoção pela figura feminina. E apesar de muitos se identificarem com o jeito mulherengo do personagem, é possível também que homens “monogâmicos” apreciem as suas palavras, afinal de contas, Bertrand nada mais é do que um completo apaixonado pela mulher em sua essência, com a diferença de que, como disse Geneviève Bigey (interpretada com charme e sensualidade pela bela Brigitte Fossey) em sua reflexão final, ele não encontrou em uma única mulher tudo o que procurava. Talvez essa fosse sua maior tristeza.

Vale observar um truque do diretor que é vital para entender a personalidade de Bertrand. Em um dos flashbacks de sua infância, o homem lembra o jeito apressado de uma prostituta de caminhar – segundo ele buscando enganar os clientes – e em seguida lembra que sua mãe caminhava exatamente da mesma forma. Repare como as duas mulheres são interpretadas pela mesma atriz. Está aí a chave para entender o personagem. O complexo de Édipo nunca foi tão trágico como neste caso. Repetindo uma das características de seus filmes, Truffaut busca inspiração em sua própria história de vida, pois assim como Bertrand, ele também tinha problemas de relacionamento com sua mãe (algo que ficou evidente desde “Os Incompreendidos”) e é provável que esta relação conturbada com sua mãe tenha gerado o seu amor incondicional pelas mulheres (“Minha mãe costumava andar seminua na minha frente, não para me provocar, mas para ter a impressão de que eu não existia”, diz Bertrand).

Fica evidente, portanto, que Bertrand pode ser considerado mais uma versão cinematográfica de seu diretor. Ele vive para conquistar as mulheres e vê a beleza existente em cada uma delas. “Algumas são tão belas vistas por trás que hesito em ultrapassá-las, temendo ficar decepcionado. Porém, nunca me desaponto. Quando elas não me agradam de frente, me sinto aliviado de certa maneira; pois, infelizmente, não posso ter todas elas.”, reflete. E por mais cafajeste que possa parecer, o personagem conquista o espectador com sua maneira simples e sincera de ver a situação. “Mas o que têm todas essas mulheres? O que têm a mais do que todas as outras que conheço? Bem, justamente, o que têm a mais é isso: elas ainda me são desconhecidas”. Esta frase resume Bertrand perfeitamente. Ele não quer compromisso com uma mulher, ele quer todas elas. E se mesmo com sua “cafajestagem” Bertrand conquista a empatia do espectador é também graças à boa atuação de Charles Denner, que demonstra a inquietação e os desejos do conquistador com competência, além de emocionar o espectador no único momento em que parece sofrer de verdade por uma mulher, quando reencontra uma amante em Paris enquanto negociava a divulgação de seu livro. O dilema do personagem é tragicamente belo. Ao mesmo tempo em que parece amar toda mulher que aparece em sua frente, Bertrand, na realidade, se sente incompleto por não conseguir encontrar um amor de verdade.

“O homem que amava as mulheres” pode até ser acusado de ser um filme machista. Mas esta acusação seria, no mínimo, de uma injustiça sem tamanho. A história do “conquistador” Bertrand, na realidade, revela a profunda admiração e o amor infindável que Truffaut nutria pelas mulheres. Através das palavras e pensamentos do homem galanteador, o diretor revela parte de sua personalidade e entrega um filme impecável. Por tudo isto, podemos dizer que, além de amar profundamente as mulheres, Truffaut também amava perdidamente o cinema.

Texto publicado em 25 de Setembro de 2010 por Roberto Siqueira

ALPHAVILLE (1965)

(Alphaville, Une Étrange Aventure de Lemmy Caution)

 

Filmes em Geral #13

Dirigido por Jean-Luc Godard.

Elenco: Eddie Constantine, Anna Karina, Akim Tamiroff, Jean-Louis Comolli, Jean-André Fieschi, Howard Vernon e Michel Delahaye.

Roteiro: Jean-Luc Godard, baseado em poema de Paul Éluard.

Produção: André Michelin.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Dirigida por Jean-Luc Godard, “Alphaville” é uma ficção científica diferenciada, claramente inspirada pelos filmes noir, que foca mais nos aspectos filosóficos e existenciais do que nos avanços tecnológicos que o futuro pode proporcionar. Com seu costumeiro apreço pelo aspecto técnico, Godard consegue criar um longa futurista extremamente sombrio, que remete diretamente ao lado negro da humanidade, quando esta deixa de dar o devido valor aos sentimentos e a relação humana para favorecer a tecnologia.

A estranha cidade de Alphaville é o alvo de uma investigação comandada pelo agente Lemmy Caution (Eddie Constantine), que parte para o local após o insucesso de outros agentes na região. Ao chegar à cidade, controlada pelo computador Alpha 60 – que age como um ser onipresente, capaz de ver a tudo e a todos -, o agente parte em busca do professor Von Braun, para convencê-lo a destruir a famosa máquina, que simplesmente aboliu os sentimentos dos habitantes locais. Curiosamente, Caution encontra em seu caminho a jovem Natacha (Anna Karina), filha do professor, que servirá como guia em sua empreitada.

Jean-Luc Godard reafirma em “Alphaville” sua atração pelo cinema experimental, abusando de planos ousados, como uma curiosa tomada aérea durante uma perseguição automobilística, e conduzindo interessantes seqüências, como as que se passam dentro de um quarto de hotel, onde o espectador jamais sabe o que esperar quando os personagens passam por trás da cama onde Caution se deita. Demonstra ainda mais ousadia ao apresentar quebras de eixo, quando Caution abre a porta do guarda-roupa de Henri Dickson (Akim Tamiroff), personagens procurando a posição da câmera, na cena do poema entre Natacha e Caution, imagens em negativo, quando Caution luta com um segurança na garagem, e desrespeito pela continuidade de tempo e espaço, quando Caution abre seguidas portas, sempre com Natacha escondida atrás delas. Além disso, o diretor conta com a montagem nada convencional de Agnès Guillemot, que, por exemplo, alterna planos convencionais com expressões algébricas que piscam na tela.

Ao contrário do visual arrebatador da avançada “Metropolis” de Fritz Lang, Godard cria uma cidade futurista decadente, bastante parecida com qualquer grande cidade dos anos sessenta, nos jogando pra dentro daquele ambiente sombrio e amargo de maneira eficiente. Para isto, conta com o excelente trabalho de direção de arte, que, por exemplo, capricha nos detalhes da enorme central de controle de Alphaville, e com a obscura direção de fotografia de seu costumeiro colaborador Raoul Coutard, que mergulha o espectador em ambientes pouco iluminados, refletindo a angústia de Caution naquele local nada hospitaleiro. A narrativa é conduzida por uma espécie de narrador, que somado ao visual sombrio e predominantemente noturno do longa, revela a clara inspiração nos filmes noir. Vale notar também que de maneira mais explícita e menos sutil que no cinema de Truffaut, o erotismo e a sensualidade também estão presentes nos filmes de Godard. Em “Alphaville” não é diferente e, ainda que neste caso a maioria das mulheres tenha um papel apenas secundário numa sociedade que aboliu o amor, a carga erótica se faz presente, por exemplo, através das acompanhantes que se oferecem à Caution ou da mulher presa nua dentro de um vidro, que serve também para revelar a forma como aquelas pessoas olhavam para a mulher. Numa sociedade sem sentimentos, a mulher se tornou mero objeto sexual. Finalmente, a trilha sonora de Paul Misraki pontua os momentos de suspense, algumas vezes de maneira exagerada, e os momentos românticos, sempre que Natacha está em cena.

Godard é responsável também pelo excepcional roteiro, baseado em poema de Paul Éluard, que não mede esforços para criticar duramente uma sociedade voltada para o pensamento puramente racional, que não abre espaço em nenhum momento para a emoção e para a criação, inibindo os sentimentos e resultando numa sociedade sem conteúdo. Em “Alphaville”, Godard prova que a ciência (razão), por mais importante e necessária que possa ser (e realmente é), não substituirá jamais o sentimento humano (emoção) – e a busca do homem pelo entendimento de coisas sem lógica alguma é algo que a ciência jamais explicará. Na cidade onde é proibido ter sentimentos, fazer questionamentos e criar algo que não siga a “lógica”, o amor inexiste, o que a transforma numa cidade amedrontadora, onde cada cidadão é apenas um número e a sociedade acaba sendo dominada por uma incrível falta de propósitos ou objetivos individuais. Num mundo dominado pela lógica, a criação inexiste, pois não há espaço para a busca do diferente e ninguém ousa “tentar o que não foi tentado ainda”. Sendo assim, inexiste também a arte, e “Alphaville” crítica duramente o racionalismo exagerado no excepcional diálogo entre Caution e Alpha 60, quando a máquina pergunta “O que transforma as trevas em luz?” e o homem responde “a poesia”.

A interpretação de Eddie Constantine como Lemmy Caution, aliás, é bastante competente, transmitindo segurança naquilo que busca e jamais esmorecendo diante daquela cidade tão ameaçadora. Uma espécie de detetive futurista destemido que parte em busca de respostas na racional e fria Alphaville, Caution se mostra um homem inabalável, inteligente e, exatamente por isso, difícil de ser decifrado pelo inteligente computador. Em todo momento Caution mostra que será difícil convencê-lo a seguir as regras locais, o que o transforma numa séria ameaça para o controle da cidade e torna seus deliciosos diálogos com o computador Alpha 60 em momentos tensos e imprevisíveis. E por falar no responsável pelo controle de Alphaville, a perturbadora voz do temível “Alpha 60” é destas coisas que só o cinema é capaz de produzir e ficam na memória do espectador eternamente. Ainda dentro das atuações, vale destacar a charmosa Anna Karina, que transmite toda a insegurança de Natacha von Braun, uma mulher afetada pelo rígido método de controle local e que foi obrigada a “apagar” da memória todo e qualquer registro de sentimento que pudesse carregar. Mas até mesmo onde tudo é cuidadosamente controlado, sempre existirá espaço para o amor. Inconscientemente, Natacha sabe que Caution é sua única esperança de mudar sua situação, o que permite com que a paixão floresça entre ambos e Caution acabe sendo o responsável por sua redenção.

De maneira proposital, Godard mostra um futuro não muito distante da Paris dos anos sessenta neste interessante “Alphaville”, que faz uma crítica à sociedade de sua época e às limitações impostas por regras, inclusive dentro da indústria cinematográfica. Num local onde até mesmo as palavras eram controladas, não existia espaço para os sentimentos e para a arte. Felizmente, Godard não seguia regras pré-estabelecidas e era capaz de produzir grandes filmes, como é o caso de “Alphaville”.

Texto publicado em 24 de Setembro de 2010 por Roberto Siqueira

O DESPREZO (1963)

(Le Mépris)

 

Filmes em Geral #12

Dirigido por Jean-Luc Godard.

Elenco: Brigitte Bardot, Michel Piccoli, Jack Palance, Fritz Lang e Giorgia Moll.

Roteiro: Jean-Luc Godard, baseado em romance de Alberto Moravia.

Produção: Georges de Beauregard e Carlo Ponti.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Neste excelente “O Desprezo”, estrelado por Michel Piccoli e pela sex symbol da época Brigitte Bardot, Godard utiliza o relacionamento conturbado de um casal para mostrar, nas entrelinhas, seu modo de ver o cinema como arte ao mesmo tempo em que critica o cinema estritamente comercial.

O roteirista Paul Javal (Michel Piccoli) vai a Roma para trabalhar numa adaptação da obra “A Odisséia”, que contará com o diretor alemão Fritz Lang (interpretado pelo próprio Lang). Enquanto acerta os últimos detalhes para aceitar o trabalho e assinar o contrato, sua relação com sua bela esposa Camille (Brigitte Bardot) começa a desmoronar, principalmente após a aparição do produtor de cinema Jeremy Prokosch (Jack Palance).

O criativo e experimental Jean-Luc Godard já inicia “O Desprezo” inovando ao apresentar os créditos com sua própria voz, sem os tradicionais caracteres na tela. Mais contido que o habitual, o diretor ainda assim consegue criar planos interessantes, como durante uma conversa em que o casal Javal, sentado frente a frente, expõe a verdade quanto aos sentimentos de um pelo outro e a razão pela qual cada um está magoado. A câmera se movimenta de um lado para o outro horizontalmente, dando ao espectador a sensação de estar acompanhando um duelo entre os dois personagens. Depois desta discussão, eles saem de carro e Camille aparece envolvida pela escuridão, refletindo o sentimento de tristeza da personagem e revelando o bom trabalho do diretor de fotografia Raoul Coutard. Coutard e Godard também aproveitam muito bem a beleza estonteante da paradisíaca Ilha de Capri, criando planos belíssimos. Vale destacar ainda a cena em que Paul grita por Camille numa escadaria, já na ilha, em que Godard filma de muito longe, diminuindo o personagem na tela e, desta forma, refletindo sua pequena importância pra Camille naquele momento. Finalmente, o diretor francês utiliza a metalingüística para alfinetar os produtores de cinema, como podemos observar na cena em que todos estão na sala de projeção e o produtor diz que entende como os deuses se sentem. A crítica vem na frase de Fritz Lang: “não foram os deuses que criaram os homens, mas os homens que criaram os deuses”.

O excelente roteiro do próprio Godard é repleto de ácidos diálogos entre o casal principal, intercalados com críticas à figura do produtor que só pensa no lucro em detrimento da qualidade do espetáculo (“Quando ouço a palavra ‘cultura’ puxo o talão de cheques”, diz Prokosch). Ao mesmo tempo em que faz uma interessante análise sobre a natureza imprevisível das relações humanas, Godard mostra sua visão diferenciada sobre cinema e sua insatisfação com o cinema puramente comercial. Além disso, utiliza a história da Odisséia para traçar dois inteligentes paralelos. O primeiro é com a própria história de Paul e Camille, como fica evidente numa conversa entre Paul e Lang sobre Ulisses e Penélope, que claramente faz alusão à relação do casal. O segundo paralelo traçado fala a respeito da relação entre produtores (deuses) e diretores (homens), na citada cena da sala de projeção. O desprezo de Paul por Camille, agravado por sua brincadeira ousada com Francesca Vanini (Giorgia Moll), provocou a traição e o fim do desejo de sua esposa por ele e a narrativa consistente de Godard mostra este processo naturalmente. Mas Godard também quer falar, ainda que de forma sutil, sobre outro tipo de “desprezo”. É o desprezo dele próprio pela forma convencional de fazer cinema, em especial pela figura do produtor que favorece o dinheiro em detrimento da arte, como fica claro na conturbada relação entre produtor, diretor e roteirista exposta no longa.

A montagem dinâmica de Agnès Guillemot insere, em determinado momento, imagens já vistas anteriormente em forma de flashbacks, visando reforçar a curiosa narração em off dos personagens. Além disso, divide a narrativa claramente em três partes. Na primeira, a relação do casal começa a ter problemas graças ao convite de Prokosch, enquanto a segunda foca as discussões acaloradas do casal. Finalmente, o terceiro ato mostra o trágico desfecho deste conturbado relacionamento. A progressiva e lenta destruição do relacionamento do casal é pontuada ainda pela melancólica e tragicamente bela trilha sonora de Georges Delerue.

Entre as atuações, vale destacar Michel Piccoli, que se sai muito bem como Paul, com destaque para os duelos verbais com Bardot. Jack Palance interpreta o detestável Prokosch com elegância, enquanto Fritz Lang interpreta a si mesmo, o que obviamente facilita muito seu trabalho. Giorgia Moll complementa o elenco vivendo Francesca Vanini, que apesar da discreta participação, tem papel fundamental na briga do casal Javal. Mas quem rouba mesmo a cena é Brigitte Bardot, que exala sensualidade em praticamente todas as cenas em que aparece, mas também demonstra talento nos momentos dramáticos. Cínica e destemida, ela transmite com exatidão o quanto Camille está magoada com o marido, supostamente porque ele não demonstrou ciúme por ela. Tudo que Camille queria era que o marido demonstrasse que se importa com ela, como na primeira cena da ilha, quando Paul parece não se importar com sua saída com Prokosch. Repare como no momento em que diz “pode ir”, Godard dá um close em seu rosto, destacando sua frieza. O desprezo dele fez com que a paixão de Camille lentamente se esfriasse.

Godard aproveita muito bem a presença da principal musa da época para preencher o longa com diversos momentos repletos de sensualidade, seja através das constantes cenas de nudez total de Bardot, seja através do excepcional roteiro, como durante uma leitura de Paul sobre um diferente concurso ou na primeira conversa do casal deitado numa cama. Além disso, o erotismo sugerido e pouco explícito característico da nouvelle vague aparece, por exemplo, quando Bardot sai da banheira e deixa a toalha escapar mostrando parte das costas e coxas. Ousadia pura para a época, que também se fazia presente no roteiro, por exemplo, através dos palavrões de Camille numa discussão com Paul.

O lindo plano final que destaca o mar azul de Capri, seguido pela palavra “silêncio” gritada por Lang, reflete a sensação do espectador diante do trágico final de “O Desprezo”. O vazio que sentimos é por saber que aquela relação caminhava naturalmente para o final, assim como tantas outras que conhecemos, e nada podíamos fazer a respeito. Não bastasse este interessante estudo do relacionamento humano, o diretor ainda aproveitou para deixar, de forma sutil, sua crítica ao cinema convencional. Palmas pra ele.

Texto publicado em 23 de Setembro de 2010 por Roberto Siqueira

JULES E JIM – UMA MULHER PARA DOIS (1964)

(Jules et Jim) 

 

Filmes em Geral #11

 

Dirigido por François Truffaut.

Elenco: Jeanne Moreau, Oskar Werner, Henri Serre, Vanna Urbino, Boris Bassiak, Anny Nelsen, Sabine Haudepin, Marie Dubois, Christiane Wagner e Michel Subor (Narrador).

Roteiro: François Truffaut e Jean Gruault, baseado em livro de Henri-Pierre Roché.

Produção: Marcel Berbert.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A ousadia temática da narrativa, característica da nouvelle vague, aparece com força total neste delicioso “Jules e Jim”, dirigido com maestria por François Truffaut, que narra à história de um divertido triangulo amoroso envolvendo uma mulher e dois melhores amigos. Novamente mostrando seu enorme talento no desenvolvimento dos personagens, Truffaut nos mostra as diferentes formas de amar e o nosso constante medo de perder as pessoas que amamos.

O germânico Jules (Oskar Werner) e o francês Jim (Henri Serre), dois grandes amigos que vivem em Paris, conhecem a extrovertida Catherine (Jeanne Moreau) e passam a conviver diariamente com ela, vivendo momentos inesquecíveis que acabam resultando no interesse de ambos pela garota. Só que Jules pede ao amigo Jim que não interfira e acaba se casando com Catherine. Mas após lutarem na guerra, ambos retornam para viver um curioso triangulo amoroso.

François Truffaut confirma novamente seu talento nesta adaptação para o cinema da obra literária de Henri-Pierre Roche, que exemplifica perfeitamente o espírito libertário dos jovens nos anos 60. O roteiro do próprio Truffaut, auxiliado por Jean Gruault, alterna muito bem entre a linguagem despojada, quando os personagens estão felizes, e o diálogo mais ácido, quando acontecem os conflitos, além de manter uma narração em off que remete diretamente à obra literária que originou o longa. Em “Jules e Jim”, o diretor/roteirista analisa com carinho os diversos tipos de amor e amizade que todo ser humano pode ter ao longo da vida, mostrando que em algumas vezes o sentimento de amizade pode ser até mesmo mais forte que o próprio amor. Afinal de contas, Jules e Jim, por mais que sentissem ciúmes de Catherine, nunca entraram em conflito por respeitarem demais a amizade que tinham. Já Catherine, ainda que tivesse o amor de ambos, não sabia lidar com o ciúme quando Jim se relacionava com Gilberte (Vanna Urbino), por exemplo. E apesar de todos eles demonstrarem insegurança e medo em determinados momentos, Catherine claramente era a que tinha mais dificuldade para lidar com este sentimento.

Truffaut também ousa um pouco mais na direção do que em seu excepcional filme de estréia, criando planos ousados, como aquele em que a tela fica escura e podemos ver apenas um quadro focando um dos personagens, além de conduzir com fluidez a narrativa, graças ao auxílio da boa montagem de Claudine Bouché, que faz pequenos cortes durante algumas cenas, quebrando a sensação de continuidade e dando agilidade ao longa. Também merecem destaque a fotografia leve de Raoul Coutard e a deliciosa trilha sonora de Georges Delerue, que reforçam o clima descontraído do longa.

Mas se “Jules e Jim” é corajoso tecnicamente, utilizando inclusive imagens congeladas e telas dividas (algo pouco comum na época), sua ousadia temática é ainda superior, pois falar abertamente de um triângulo amoroso não é algo fácil nem mesmo nos dias de hoje. E para que esta diferente relação funcione junto ao espectador, Truffaut conta com a estupenda atuação do trio principal formado por Jeanne Moreau, Oskar Werner e Henri Serre. Catherine, interpretada com charme e competência por Moreau, é uma mulher decidida, ousada, provocativa e sensual – o que certamente provocou um choque nos conservadores da época. Extremamente instável emocionalmente, ela simboliza perfeitamente a mensagem principal de “Jules e Jim”, pois como dizia o próprio Truffaut, o longa queria celebrar a intensidade das paixões mais incendiárias, e Catherine representa perfeitamente esta montanha russa de sentimentos graças ao bom desempenho de Moreau. Como bem define Jules em certo momento, “ela é uma força da natureza”. Personagem marcante, pode até ter provocado diretamente os mais conservadores, mas seu comportamento foi de encontro aos anseios das jovens européias e norte-americanas da época, determinadas a mudar sua posição na sociedade com seu espírito libertário e a mensagem do amor livre, tão fortes nos anos sessenta. Pra fechar com chave de ouro sua grande atuação, a belíssima música cantada por Catherine em certo momento fica ainda mais encantadora graças ao carisma de Jeanne Moreau. Já a dupla formada pelo germânico Jules e o francês Jim consegue criar uma empatia singular graças à boa atuação de Oskar Werner e Henri Serre, fazendo com que o espectador acredite na amizade entre eles, o que é determinante para o sucesso da narrativa. Por mais que amassem Catherine, era a amizade que um nutria pelo outro que eles mais prezavam e nada poderia fazer este sentimento se abalar. Não é sempre, afinal, que vemos um homem pedir a outro que se case com sua mulher para vê-la feliz (o que revela também um amor altruísta da parte de Jules). E é tocante notar que nem mesmo o horror da guerra esfriou o sentimento de ambos, que mais se preocupavam em não matar um ao outro nos campos de batalha do que em tentar sobreviver àquele inferno.

Em “Jules e Jim”, Truffaut aborda um tema difícil e polêmico, conseguindo trazer o espectador pra dentro da trama com extrema habilidade e sensibilidade. Sem julgar os personagens, criamos empatia pelo trio e torcemos pelo improvável sucesso daquela relação. Somos levados pela narrativa e até mesmo tocados por ela em diversos momentos, como na reveladora conversa entre Catherine e Jim numa bela noite pelos jardins. Amar não é fácil, e compreender a pessoa que amamos é ainda mais difícil. Jules e Jim conseguiram entender perfeitamente este complicado sentimento, mas Catherine infelizmente não soube lidar com a perda e seu trágico fim era uma conseqüência até mesmo previsível. Pena que Jim não pensava desta maneira.

François Truffaut conduz com segurança este divertido “Jules e Jim”, abordando com sua costumeira sensibilidade um tema realmente complexo. O amor, a amizade e o medo que todo ser humano tem de perdê-los é o fio condutor de uma narrativa ágil, marcante e, graças também ao bom desempenho do elenco, inesquecível.

Texto publicado em 22 de Setembro de 2010 por Roberto Siqueira

ACOSSADO (1959)

(À Bout de Souffle)

 

Filmes em Geral #10

Dirigido por Jean-Luc Godard.

Elenco: Jean-Paul Belmondo, Jean Seberg, Daniel Boulanger, Jean-Pierre Melville, Henri-Jacques Huet, Van Doude, Claude Mansard, Jean-Luc Godard, Richard Balducci e Roger Hanin.

Roteiro: Jean-Luc Godard, baseado em história de François Truffaut.

Produção: Georges de Beauregard.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Ágil, verborrágico, ousado tanto tecnicamente quanto tematicamente, “Acossado” fez parte da safra de filmes lançados nos cinemas em 1959, que inaugurou a nouvelle vague e representou o sopro de novidade que o cinema francês (e mundial) precisava. Nele, Godard narra a história de um assassino em fuga e sua conturbada convivência com uma bela jovem, filmando pelas ruas de Paris com muito realismo e agressividade, numa direção estilizada que influenciou muitas obras dali em diante.

Michel Poiccard (Jean-Paul Belmondo) parte em alta velocidade para Paris após roubar um carro em Marselha e matar um policial no caminho. Ao chegar à capital francesa, encontra a estudante americana Patricia Franchisi (Jean Seberg) e consegue convencê-la a escondê-lo até que receba um dinheiro que lhe devem. Mas Michel começa a se perder com o tempo, passando a agir sem o menor cuidado até encontrar seu trágico e inevitável destino.

Para entender a repercussão de “Acossado” é importante entender o contexto da época de seu lançamento. No final dos anos cinqüenta, o mundo vivia o inicio de uma revolução cultural, com os jovens se rebelando de diversas maneiras, por exemplo, através da música, com a evolução natural do rock e, alguns anos depois, com a formação de novos grupos, como os hippies, que surgiam com ideais baseados na liberdade, na paz e no amor. No cinema – ainda preso ao modelo clássico de narrar histórias, recheado de paradigmas estéticos e temáticos -, foi a nouvelle vague que iniciou este movimento de renovação. E foi “Acossado” (ao lado de “Os Incompreendidos”, de Truffaut e de “Hiroshima, meu amor” de Alain Resnais) o responsável direto por isto, com sua linguagem jovem, sua direção estilizada e sua temática bastante ousada para a época.

O roteiro do próprio Godard (baseado em história de François Truffaut) narra à vida de um homem que rouba um carro, assassina um policial e passa a viver pelas ruas de Paris, fugindo da polícia ao mesmo tempo em se relaciona com uma jovem norte-americana. Podemos notar que, obviamente, não se trata de um exemplo de ética e moral. Aliás, ousar na temática era uma das principais características da nouvelle vague e “Acossado” é um grande exemplo disto. Mas a ousadia não se resumia apenas à temática. A narrativa é acidentada, com cortes secos que dão a sensação de acelerar a história e evidenciam o estilo experimental de Godard, que obviamente contou com o auxilio do bom trabalho de montagem de Cécile Decugis e Lila Herman para conseguir este efeito. A dupla de montadores inova, por exemplo, fazendo pequenos cortes durante algumas cenas (os chamados jump-cuts), dando a impressão de que um pedaço do filme se perdeu. Na verdade, esta técnica serve para aumentar a sensação de urgência no espectador, o que trabalha a favor da narrativa, transmitindo a constante inquietação do fugitivo Poiccard. Na direção, Godard explora ao máximo sua câmera, criando planos diferentes e criativos, como na seqüência em que Poiccard conversa com Patricia dentro de um conversível, onde só podemos ver a nuca da moça enquanto ouvimos a conversa do casal. Mas Godard também sabe ser sutil, e é interessante notar como muita coisa não precisa ser dita para que o espectador compreenda o que acontece, como no momento em que Patricia pergunta a Poiccard que parte do corpo dela ele mais gosta e a resposta não vem com palavras, mas sim com uma carícia no local escolhido. É um momento rápido, seguido por um corte seco, mas o espectador mais atento percebe a sutileza. Esta cena, aliás, finaliza uma longa e interessante conversa do casal sobre coisas do cotidiano, algo também pouco comum na época. Eles brigam, fazem as pazes, se amam, se divertem e o espectador testemunha tudo isto através da câmera de Godard.

Ainda na parte técnica, vale destacar a direção de fotografia de Raoul Coutard, que evita o tom carregado, garantindo o clima leve e descontraído do longa. Observe como a maior parte do filme se passa durante o dia, sempre com a predominância das luzes em relação às sombras, o que também colabora para que o espectador não veja Poiccard como um personagem sombrio. A natureza jovial do longa é complementada pela trilha sonora alegre de Martial Solal e pela já citada montagem acidentada de Cécile Decugis e Lila Herman.

A boa atuação da dupla formada por Jean-Paul Belmondo, que interpreta Michael Poiccard, e Jean Seberg, que interpreta Patricia, se destaca principalmente nos momentos mais íntimos do casal, que acontecem dentro do apartamento de Patricia, quando as brincadeiras se misturam às dúvidas que ambos sentem com relação à natureza daquela relação. Belmondo e Seberg demonstram com competência a insegurança dos personagens e transmitem uma sensação de imprevisibilidade, através das respostas repentinas e constantes mudanças de comportamento, fazendo com que o espectador jamais possa prever a reação de qualquer um deles. E este perigoso estado constante de alerta acaba alimentando as dúvidas que temos a respeito das motivações de cada personagem. Dúvidas estas que ambos também nutrem em relação ao outro, e que serão vitais para o trágico destino de Poiccard. Afinal de contas, Patricia o ama, mas não tem certeza de que é correspondida, o que a leva a questionar, por exemplo, se ele aceitaria ter um filho com ela. Já Poiccard, que também a ama, de igual forma não tem certeza de que é correspondido, e a situação se agrava quando ele descobre o affair entre Patricia e um homem que pode ajudá-la na carreira. E este casal bomba relógio, prestes a explodir, caminha pelas ruas de Paris desfilando charme e, curiosamente, conquista a empatia da platéia, independente do comportamento amoral de ambos.

Patricia, aliás, é o símbolo da mulher independente, com seu corte de cabelo curto e suas provocantes minissaias. Dormir com diversos homens diferentes não era problema pra ela, mas certamente era chocante para a sociedade puritana da época (ainda hoje existe este tipo de pensamento). Poiccard, por sua vez, também não é um exemplo de retidão, afinal de contas, roubar um carro, assassinar um policial e fugir em alta velocidade, conversando com a câmera e xingando o espectador que não gosta da praia, do campo e de outras coisas mais, não é um comportamento comum. Os personagens, portanto, personificam o cinema transgressor que nascia ali.

Em seu filme de estréia, Godard agitou de vez a indústria cinematográfica. “Acossado” é a prova definitiva de que o cinema francês passa bem longe do estereótipo “filme arrastado feito por intelectuais”. Na realidade, trata-se de um filme agitado, agressivo, que não tem medo de ousar e inovar, experimentando novas técnicas e formas de narrar uma história pouco convencional. Certamente, está na lista dos filmes mais influentes da história da sétima arte.

Texto publicado em 21 de Setembro de 2010 por Roberto Siqueira

OS INCOMPREENDIDOS (1959)

(Les Quatre Cents Coups)

 

Filmes em Geral #9

Dirigido por François Truffaut.

Elenco: Jean-Pierre Léaud, Claire Maurier, Albert Rémy, Guy Decomble, Georges Flamant, Patrick Auffay, Richard Kanayan, Yvonne Claudie, Robert Beauvais, Jacques Monod, Pierre Repp e Henri Virlojeux.

Roteiro: François Truffaut e Marcel Moussy, baseado em história de François Truffaut.

Produção: François Truffaut.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

François Truffaut estarreceu a platéia do festival de Cannes quando lançou este impressionante “Os Incompreendidos”, considerado o marco inicial da nouvelle vague, narrando à história de um jovem adolescente, que tranquilamente pode ser interpretada como a sua própria história, apesar dele não gostar de falar sobre isto. Com incrível talento, o diretor consegue conquistar o espectador de forma genuína e, ainda hoje, mais de cinqüenta anos depois, seu belíssimo filme de estréia ainda é capaz de emocionar.

Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud) é um aluno disperso, rebelde, que prefere ficar perambulando pelas ruas de Paris a ir para a escola, o que certamente é reflexo da relação conturbada que tem com sua mãe Gilberte Doinel (Claire Maurier) e com seu pai não-biológico Julien (Albert Rémy). Após sucessivos problemas na escola e em seu lar, o adolescente resolve fugir de casa e complica sua vida de vez quando realiza pequenos furtos pela cidade.

A semelhança entre as histórias de Antoine Doinel e François Truffaut não é mera coincidência. Na realidade, o personagem é uma espécie de alter-ego do diretor francês, que voltaria a utilizar Antoine em outros filmes durante a carreira. Responsável, ao lado de Marcel Moussy, pelo ótimo roteiro e pela produção de “Os Incompreendidos”, Truffaut canalizou sua triste história de vida para brindar os cinéfilos com este presente de primeira qualidade. Filmado nas ruas de Paris com realismo e enorme sensibilidade, o longa tem o mérito de olhar para a adolescência com carinho, sem julgamentos, e consegue exibir em celulóide muitas das complicações costumeiras desta difícil fase de nossas vidas.

“Os Incompreendidos” é um filme vigoroso e sua impressionante jovialidade se deve à excelente direção de Truffaut, que filma a adolescência com um olhar carinhoso e honesto, é verdade, mas também com extrema ousadia para a época. Como dito, em sua primeira experiência atrás das câmeras (antes era crítico da revista “Cahiers Du Cinéma”), levou às telas a sua própria história, pois assim como Doinel, o diretor também tinha problemas na escola, fazia pequenos furtos em Paris e ficou preso num reformatório para delinqüentes. Não é difícil, portanto, entender porque o talentoso diretor conduz a narrativa com tamanha segurança e conhecimento de causa, sem jamais glorificar ou julgar as atitudes do jovem Doinel. Truffaut consegue ainda o mérito de evitar o melodrama quando este poderia se fazer presente, além de evitar exponenciar os potenciais momentos cômicos do longa. Em outras palavras, o diretor acerta o tom da narrativa com exatidão. Sua direção também é discreta, sem enquadramentos ou movimentos de câmera muito estilizados, como costumava fazer com propriedade seu colega Jean-Luc Godard. Ainda assim, em alguns momentos o diretor nos brinda com imagens belíssimas, como a cena em que os garotos vão saindo da fila indiana em que praticam exercício pelas ruas de Paris e se perdendo nas ruelas da cidade, matando a aula sem que o professor percebesse. A escolha pela câmera afastada transforma uma cena que poderia soar engraçada em algo poético, distante e sensivelmente mais belo, graças à acertada escolha do diretor.

Tecnicamente, Truffaut conta com o auxilio da montagem de Marie-Josèphe Yoyotte para alternar entre o ritmo pungente das aventuras do garoto e os momentos contemplativos, de pura reflexão, como na cena em que ele, deitado na cama na escuridão de seu quarto, escuta a discussão dos pais ou no momento em que Doinel vaga pela noite à procura de algo para comer ou beber. Aliás, Doinel solitário tomando leite às pressas para que ninguém o capture é um dos momentos tocantes do filme. A trilha sonora nostálgica de Jean Constantin reforça o clima melancólico, enquanto a fotografia obscura (direção de Henri Decaë) reflete a visão angustiada de Doinel diante daquele mundo tão hostil. Merece destaque também a boa direção de arte de Bernard Evein, que mostra o contraste do lado belo de Paris, com sua imponente torre e seu ar glamoroso, e suas ruas degradadas e pouco convidativas, por onde Doinel caminha solitário durante a noite em que foge de casa, por exemplo.

Antoine Doinel não é uma pessoa necessariamente boa ou má. É apenas um jovem, com sonhos, desejos, pensamentos e reflexões, e que pouco se adapta aos métodos tradicionais de ensino. Também não se sente confortável em seu lar, onde convive entre sorrisos e discussões com seus complicados “pais”, interpretados com eficiência por Claire Maurier e Albert Rémy. E se pais está entre parênteses, não é apenas pelo fato de Julien não ser o pai biológico de Doinel, mas é também por causa da falta de atenção destes para com o garoto. Garoto que é interpretado de maneira espetacular por Jean-Pierre Léaud, que transmite toda revolta misturada com ingenuidade do jovem Doinel – ingenuidade esta que fica evidente com a desculpa que ele inventa para suas seguidas faltas na escola. Vale destacar, entre tantos momentos brilhantes de Léaud, seu sorriso incontido quando a psicóloga pergunta se ele já teve experiência com mulheres. Aliás, seu desempenho durante todo este diálogo é digno de aplausos, demonstrando com destreza a simplicidade do jovem, que não enxergava nada de errado no que fazia. Doinel era apenas um adolescente que, como bem diz a feliz tradução do filme em português, não era compreendido pelos adultos com quem convivia.

O último plano de “Os Incompreendidos” reflete muito bem a solidão que o adolescente sente em muitos momentos de sua vida. Afinal de contas, a adolescência é uma fase bastante complicada, pois já não somos mais crianças para poder viver praticamente sem responsabilidades, mas tampouco somos adultos para ter completa autonomia e decidir nossos caminhos. Além disso, não é nada fácil ter que começar a identificar seu lugar na sociedade, pensar no futuro, começar a assumir responsabilidades e tomar decisões determinantes para o resto de sua vida. Por isso, entender perfeitamente os dilemas de Doinel e mostrá-los sem máscara e sem julgamentos talvez seja o maior dos muitos méritos de Truffaut neste belíssimo filme.

Texto publicado em 20 de Setembro de 2010 por Roberto Siqueira

Semana: Nouvelle Vague

Durante esta semana divulgarei críticas de cinco grandes filmes da nouvelle vague, a nova onda francesa, que se iniciou em 1959 com o sensível “Os Incompreendidos”, dirigido por François Truffaut, além do poético “Hiroshima, meu amor”, dirigido por Alain Resnais e do excepcional “Acossado”, dirigido por Jean Luc-Godard. Além destes cinco filmes, também pretendo divulgar a crítica de um filme “extra”, que sequer pertence ao período oficial do movimento, mas serve como base para compreender a personalidade e o cinema de um de seus diretores. Apesar de muitos diretores da “nova onda” terem registrado obras importantes em sua filmografia, durante a “semana Nouvelle Vague” divulgarei críticas somente de filmes dos dois principais nomes do movimento (três de Truffaut e três de Godard) para melhor tentar entender a teoria do autor.

Aproveito também para lançar a página “Nouvelle Vague”, que você pode acessar na página inicial (lado direito da tela), onde faço um pequeno resumo sobre este movimento e descrevo suas principais características.

Posso adiantar aos leitores que foi extremamente prazeroso assistir e avaliar os filmes destes dois excepcionais cineastas, assim como dos outros diretores também. Espero que pra vocês também seja (ou tenha sido) um grande prazer assistir a estas grandes obras.

Um abraço.

Texto publicado em 19 de Setembro de 2010 por Roberto Siqueira

Transformando filmes comentados em críticas

Quando criei a categoria “Filmes comentados”, fiz questão de ressaltar que este projeto só existiria graças à minha falta de tempo para escrever críticas de todos os filmes que eu gostaria. Também deixei claro no texto que no futuro os filmes comentados poderiam ser transformados em críticas, com um texto estruturado ao invés dos tópicos, que confesso, não são nada elegantes.

Mas a situação mudou e o que aconteceu nos últimos meses me levou a refletir profundamente a respeito. Estava levando o mesmo tempo para escrever os filmes comentados do que levo normalmente para escrever uma crítica. Além disso, os últimos filmes comentados tinham tantos tópicos que muitos deles alcançavam a mesma quantidade de palavras de uma crítica normal. Sendo assim, pensei bem e resolvi encerrar esta categoria (graças também ao conselho do Pablo Villaça, que gentilmente me alertou sobre a má impressão que este tipo de texto deixa), como informei neste post que faria. Quanto aos filmes que já foram divulgados neste formato, decidi seguir a regra que eu mesmo criei e, aproveitando os próprios tópicos, escrever críticas para cada um deles. Desta forma, todos estes filmes serão deslocados para a categoria “Filmes em Geral” e a categoria “Filmes Comentados” deixará de existir oficialmente no dia em que eu transformar o último destes comentários em crítica.

Obviamente este projeto levará um bom tempo para ser concluído e, mais do que isso, me obrigará a assistir a estes filmes novamente para poder escrever com propriedade – o que em certos casos, como os de “Pacto de Sangue” ou “Rastros de Ódio” será prazeroso, mas por outro lado, me torturará quando tiver que assistir novamente à “Meu nome não é Johnny”.

Finalmente, é importante registrar que sempre que um filme comentado for transformado em crítica eu deixarei um aviso, para que possam ler o novo texto (feito com base nas velhas argumentações dos tópicos, que fique bem claro).

Espero que compreendam as razões que me levaram a esta mudança.

Um grande abraço.

Texto publicado em 17 de Setembro de 2010 por Roberto Siqueira

Videoteca do Beto: novas aquisições

E a videoteca segue crescendo… Abaixo a foto dos 14 novos integrantes da Videoteca do Beto:

Pinóquio (1940)*

Patton – Rebelde ou Herói (1970)*

Star Wars Episódio IV – Uma Nova Esperança (1977)*

Grease – Nos Tempos da Brilhantina (1978)*

Star Wars Episódio V – O Império Contra-Ataca (1980)*

Star Wars Episódio VI – O Retorno de Jedi (1983)*

Toy Story (1995)

Formiguinhaz (1998)

Toy Story 2 (1999)

Antes do Pôr-do-Sol (2004)

Kill Bill: Volume 2 (2004)

A Noiva Cadáver (2005)

Diamante de Sangue (2006)

Coraline e o Mundo Secreto (2008)

*Os filmes que chegaram depois de sua posição na ordem cronológica das críticas “Videoteca do Beto” serão assistidos e avaliados na medida do possível e serão encaixados na seqüência da Videoteca. Por exemplo, se a Videoteca estiver no filme #65 e eu divulgar em seguida a crítica do filme “Pinóquio”, este será o filme Videoteca do Beto #66.

Um abraço.

Texto publicado em 16 de Setembro de 2010 por Roberto Siqueira