OSCAR 2004: O SENHOR DOS ANÉIS – O RETORNO DO REI X DOGVILLE

Seguindo minha comparação entre o vencedor do Oscar de Melhor filme e aquele que eu considerei como a melhor produção do ano, chega à vez do ano de 2003 (Premiação em 2004). O OSCAR 2004 foi o responsável pelo novo recordista absoluto de estatuetas (ao lado de Titanic e Ben-Hur), com as 11 premiações para o longa dirigido por Peter Jackson. “O Senhor dos Anéis” é realmente uma trilogia impecável, agradável tanto tecnicamente como em sua interessante e bem conduzida narrativa. Mesmo assim, o único dos três filmes em que eu votaria como Melhor Filme seria o primeiro deles, “A Sociedade do Anel”, que realmente considero o melhor do ano. Já este “O Retorno do Rei”, apesar de ser um filme maravilhoso, não seria merecedor de meu voto. Aliás, considero o longa de Peter Jackson inferior a pelo menos três filmes daquele ano: “Sobre Meninos e Lobos”, “Cidade de Deus” e o meu escolhido “Dogville”. Além destes, merece ser citado o ótimo “21 Gramas”, fechando assim os meus cinco indicados daquele ano.

Porque “Dogville” é melhor?

A originalidade do longa de Lars Von Trier já seria motivo suficiente para agradar aos cinéfilos mais exigentes. Um dos melhores representantes do movimento “Dogma 95”, que tinha regras muito específicas na realização de longas-metragens, “Dogville” se passa num único cenário, com divisórias desenhadas no chão e até mesmo um cachorro imaginário. O longa é um incrível exercício de imaginação e criatividade e fascina os amantes do cinema. Mas “Dogville” não é só isso. Sua temática escancara de forma direta e nada sutil como o ser humano pode ser egoísta, numa crítica nada velada à natureza humana. O polêmico diretor dinamarquês anunciou que este seria o primeiro filme de uma trilogia sobre os Estados Unidos, claramente criticando o “american way of life”. Mas “Dogville” vai além, demonstrando um pessimismo gigantesco não somente pelos americanos, mas pelo ser humano de uma forma geral. O diretor atingiu em cheio o seu objetivo – o que inclusive provocou o solene “esquecimento” de “Dogville” na cerimônia do OSCAR. Felizmente, a premiação hollywoodiana é apenas uma diversão e, por mais que tenha peso, não é capaz de determinar os filmes que ficarão para a história. “Dogville” é um destes filmes e seria o meu escolhido naquele ano.

E pra você, qual o melhor filme de 2003 e por quê?

Um abraço e bom debate.

Texto publicado em 18 de Março de 2010 por Roberto Siqueira

Cinema & Debate pergunta: OSCAR

Ainda com relação às tradicionais perguntas feitas no Cinema & Debate, adicionei agora o link para as diversas perguntas feitas sobre o OSCAR. Para acessá-las, basta clicar no link da sessão “Cinema & Debate pergunta: OSCAR” no lado direito da pagina inicial (logo abaixo de Cinema & Debate pergunta).

Um abraço.

Texto publicado em 17 de Março de 2010 por Roberto Siqueira

Cinema & Debate pergunta

Dando continuidade às novidades do Cinema & Debate em 2010, adicionei no lado direito da página inicial o link para as diversas perguntas que fiz durante o ano de 2009. Também adicionarei as perguntas que forem feitas em 2010. Desta forma, qualquer leitor pode participar das pesquisas do blog de maneira muito mais fácil e interativa.

Para acessar as perguntas, basta clicar no link da sessão “Cinema & Debate pergunta” no lado direito da pagina inicial (logo abaixo de Filmes Comentados). Espero que gostem.

Um abraço.

Texto publicado em 16 de Março de 2010 por Roberto Siqueira

MÁQUINA MORTÍFERA (1987)

(Lethal Weapon)

 

Videoteca do Beto #49

Dirigido por Richard Donner.

Elenco: Mel Gibson, Danny Glover, Gary Busey, Mitch Ryan, Tom Atkins, Darlene Love, Traci Wolfe, Jackie Swanson, Damon Hines e Ebonie Smith.

Roteiro: Shane Black.

Produção: Richard Donner e Joel Silver.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Misturar elementos de ação e comédia é algo sempre bem vindo, pois estes dois gêneros costumam casar muito bem quando a junção é realizada corretamente, ainda mais em filmes policiais. Felizmente, Richard Donner acertou a mão neste primeiro longa da marcante e divertida série estrelada por Mel Gibson e Danny Glover, que viria ainda a ter três continuações de boa qualidade. Repleto de realistas e empolgantes cenas de ação, guiadas por um roteiro inteligente e recheado de bom humor, “Máquina Mortífera” é diversão garantida e, mais importante, de ótima qualidade.

Roger Murtaugh (Danny Glover), um policial à beira da aposentadoria e responsável pela investigação de um misterioso suicídio de uma garota, é obrigado a aceitar seu novo e ensandecido parceiro de trabalho chamado Martin Riggs (Mel Gibson). A investigação da dupla levará a um perigoso grupo de ex-militares do Vietnã que comanda o tráfico de drogas local, ao mesmo tempo em que servirá para consolidar a amizade entre eles.

O travelling inicial de “Máquina Mortífera” nos leva ao apartamento de Amanda Hunsaker (Jackie Swanson) ao som da animada música natalina “Jingle Bells”. Ao entrar no apartamento, porém, a realidade é bem diferente da alegria que o natal traz. A jovem loira, drogada e aparentemente fora de si, caminha até a sacada aonde sua vida chegará ao fim. A chocante cena da queda é muito bem realizada por Donner, que mostra o impacto de forma bastante realista, encerrando a seqüência com um impressionante plano feito de dentro do carro atingido. O diretor também capricha nas sensacionais seqüências de ação, com destaque para a explosão de uma casa, a invasão de uma mansão e, principalmente, toda a seqüência final, que se inicia com a pesada tortura aos policiais (observe as dolorosas reações de Riggs e Murtaugh) e só termina na luta entre Riggs e Joshua (Gary Busey, em atuação apenas razoável) em frente à casa de Roger. Apesar de exagerada, a luta final é belíssima visualmente, acentuada pela fotografia obscura, a chuva e a câmera agitada que alterna closes (realçando a dor dos personagens) e planos distantes, que permitem apreciar os elaborados golpes desferidos. Em outro momento, logo após o seqüestro de Rianne (Traci Wolfe), Donner cria um belo plano onde Roger e Riggs conversam em frente à árvore de natal. Observe como o diretor de fotografia Stephen Goldblatt utiliza o forte domínio do tom vermelho na cena, ilustrando visualmente o inferno astral da dupla naquele momento. Finalmente, na tensa e espetacular seqüência do deserto, Donner inicia e termina com um travelling, ambientando o espectador ao local. Observe como a excelente montagem de Stuart Baird garante um ritmo empolgante à cena sem jamais soar confusa. Baird, aliás, mantém a narrativa ágil e o ritmo empolgante durante todo o tempo, o que é essencial em um filme de ação.

A empatia que “Máquina Mortífera” provoca no espectador se deve em grande parte ao fato dos dois policiais serem pessoas comuns, com muitos problemas e completamente vulneráveis. Além disso, obviamente as atuações de Danny Glover e Mel Gibson colaboram bastante. A dinâmica da dupla é impressionante e os atores estão à vontade em seus papéis. Observe como Riggs cantarola durante a sessão de tiro ao alvo enquanto acerta todos os tiros, provocando espanto em Roger, ao passo que o amigo demonstra firmeza ao confrontar o trauma de Riggs quando é preciso. A verdadeira amizade aparece nos momentos alegres e tristes. A excelente introdução dos personagens situa muito bem o espectador na trama. Logo de cara, sabemos que Murtaugh enfrenta problemas com sua idade através de sua reação às piadas da família em seu aniversário, reforçada pela frase “Estou velho demais para isso”, repetida seguidas vezes durante o longa. Também sabemos, logo em sua primeira aparição, que Riggs é uma pessoa largada na vida, vivendo em um trailer e parecendo não ligar muito pra bagunça que o cerca (na realidade, esta bagunça reflete seu estado psicológico, revelando o bom trabalho de direção de arte). Vale ressaltar também que ter participado da guerra do Vietnã talvez seja o único ponto em comum entre os dois policiais. Enquanto um busca a calmaria da aposentadoria e tem uma família estável, o outro procura a morte de todas as formas após ter a sua família destruída, o que faz dele um perigo constante pra todos que cruzam seu caminho. Na impressionante cena em que Riggs coloca a arma na cabeça e na boca, fica evidente a razão de sua dor – e Gibson transmite muito bem este sentimento, chorando e lutando contra a vontade de largar tudo e deixar esta vida. O roteiro espalha evidências ao longo da narrativa, mas jamais dá muitas explicações sobre o drama de Riggs, o que é elegante e correto. As imagens falam mais que as palavras.

Mas o longa dirigido por Richard Donner não é perfeito. Os vilões jamais soam ameaçadores, talvez pelas fracas atuações de praticamente todos eles. Além disso, a primeira negociação entre Riggs e os traficantes, apesar de engraçada, é pouco verossímil. Dificilmente traficantes negociariam drogas ao ar livre, em plena luz do dia, em local de fácil acesso e totalmente desarmados como este três fizeram. O que atenua um pouco estes problemas é o fato do longa ser bastante voltado para o bom humor, fazendo com que esta cena, por exemplo, não soe tão deslocada na narrativa. O bom roteiro de Shane Black não resiste ao clichê “os dois se odeiam inicialmente e viram grandes amigos com o tempo”. Mas com exceção deste pecado, é bem amarrado e utiliza muito bem o mundo do tráfico de drogas como pano de fundo para a ação, chegando inclusive a mostrar as conseqüências graves do tráfico na sociedade logo no inicio, com a morte de Amanda. Além disso, utiliza inteligentemente o bom humor, tornando a narrativa mais leve e descontraída. Destaque para o inusitado (e cômico) método de Riggs para evitar um suicídio, os engraçados olhares entre Rianne e Riggs vigiados por Murtaugh durante um jantar e o diálogo dos dois amigos em cima de um barco, que marca também o momento em que a amizade se consolida de verdade. Os diálogos, aliás, evidenciam o entrosamento da dupla, como podemos notar também quando eles vão de carro até uma mansão.

“Máquina Mortífera” conta ainda com a deliciosa trilha sonora de Eric Clapton e Michael Kamen, que utiliza elementos de jazz durante o cotidiano da dupla e adota um tom pesado e tenso no deserto, oposto às notas rápidas utilizadas nas perseguições. Além disso, o longa inicia e termina com canções de natal (“Jingle Bells” e “I’ll be home for Christmas”), já que a depressão que muitas pessoas sentem nesta época tem muita influência na narrativa. Depressão, aliás, é a palavra que define muito bem Martin Riggs. Felizmente, o aparecimento de uma grande amizade amenizou os efeitos desta doença em sua vida, como fica evidente no momento em que Riggs entrega a “bala especial” nas mãos de Rianne, como um presente de natal para o amigo Roger.

Em resumo, “Máquina Mortífera” é um bom filme policial, que mistura doses corretas de ação, humor e suspense, e ainda encontra espaço para mostrar, mesmo que de forma superficial, os efeitos de uma doença que ataca muitas pessoas nos dias de hoje. Bem dirigido por Richard Donner, conta também com a força da entrosada dupla principal, extremamente dinâmica e responsável direta pela empatia do espectador. As maravilhosas seqüências de ação são a cereja no bolo deste filme que tem seus defeitos, mas garante a diversão sem ofender a inteligência da platéia.

Texto publicado em 14 de Março de 2010 por Roberto Siqueira

Cuidado com os burros motivados – Entrevista de Roberto Shinyashiki para a Revista ISTO É

Recebi por e-mail nesta semana a entrevista de Roberto Shinyashiki para a Revista ISTO É e achei sensacional. Eu me identifiquei muito com o que Shinyashiki disse e por isso, decidi dividir com vocês (para ler a entrevista completa, clique aqui). É um retrato verdadeiro do jogo de aparências da sociedade moderna. Vale à pena a leitura completa.

Espero que gostem.

Grande abraço.

Texto publicado em 13 de Março de 2010 por Roberto Siqueira

Luto

Me sinto mal. Muito mal. Mas jamais vou me esquecer de você contando histórias pra nós e cantando “I Feel Good, tananan, tananan”. É muito difícil perder um amigo de infância. Não consigo sequer escrever sobre o que sinto. Por isso, deixo registrados os meus sentimentos, com um vazio enorme no peito. Ficam as boas lembranças… E a saudade.

Descanse em paz meu amigo, que Deus o tenha.

Texto publicado em 12 de Março de 2010 por Roberto Siqueira

DIRTY DANCING – RITMO QUENTE (1987)

(Dirty Dancing)

 

Videoteca do Beto #48

Dirigido por Emile Ardolino.

Elenco: Patrick Swayze, Jennifer Grey, Jerry Orbach, Cynthia Rhodes, Jack Weston, Jane Brucker, Kelly Bishop, Lonny Price, Max Cantor, Charles “Honi” Coles, Neal Jones e Wayne Knight.

Roteiro: Eleanor Bergstein.

Produção: Linda Gottlieb.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A seqüência final de “Dirty Dancing – Ritmo Quente” dá ao espectador uma sensação de satisfação plena com o que viu. A bela coreografia, a música empolgante e a boa performance dos atores conferem aos últimos minutos do longa dirigido por Emile Ardolino um status que infelizmente o restante da narrativa faz questão de derrubar, graças à um roteiro falho, pouco criativo e que, por muitas vezes, ignora a inteligência do espectador. Por outro lado, o filme nos brinda com maravilhosas canções durante toda a projeção e seu final extremamente empolgante parece apagar da memória de muitos espectadores as falhas que o roteiro apresenta.

Durante uma viagem da família para um resort em Catskills, a jovem Frances Houseman, conhecida como Baby (Jennifer Grey), conhece o dançarino Johnny Castle (Patrick Swayze), por quem se apaixona perdidamente. Ao mesmo tempo, Penny Johnson (Cynthia Rhodes), a parceira de dança de Johnny, se envolve com o garçom Robbie Gould (Max Cantor) e engravida, fazendo com que Baby se ofereça para aprender a dançar e substituir Penny, o que desagrada totalmente seu pai, o Dr. Jake Houseman (Jerry Orbach), que pensa ser Johnny o responsável pela gravidez da garota.

Os grandes destaques de “Dirty Dancing” são inegavelmente a dança e a trilha sonora. Os números muito bem coreografados, que contam com o talento de Swayze para dançar, são realmente espetaculares. Desde os ensaios até as duas apresentações oficiais, podemos notar a qualidade do trabalho dos atores neste sentido. Durante os ensaios também podemos observar o trabalho apenas razoável do diretor Emile Ardolino, por exemplo, quando cria planos dos pés de Baby, demonstrando a dificuldade da garota em seguir os ensinamentos de Johnny, ou quando ela e Penny ensaiam ao som de “Hungry Eyes”, onde o plano inicia nos pés e vai subindo lentamente, até deixar as duas moças nas laterais com Johnny sentado ao fundo e no meio do plano, apenas observando o desenvolvimento do ensaio, simbolizando o quanto Johnny estava envolvido com aquelas duas garotas, obviamente, por razões diferentes. Em outro momento, o diálogo que precede a sensual dança seguida por sexo entre Baby e Johnny é repleto de closes, enfatizando a paixão do casal. A excepcional trilha sonora, repleta de músicas deliciosas e empolgantes, complementa perfeitamente as cenas de dança em “Dirty Dancing”, além de pontuar momentos importantes da trama, como quando Johnny começa a se apaixonar por Baby. Fechando a parte técnica, a fotografia alegre e cheia de cores de Jeff Jur e a montagem ágil de Peter C. Frank criam o clima perfeito para atrair o público jovem.

Obviamente, os atores são extremamente importantes para que os números de dança funcionem. E felizmente, o elenco não decepciona, conseguindo bom desempenho até mesmo nas cenas dramáticas, que por outro lado, são claramente prejudicadas pelo fraco roteiro de Eleanor Bergstein. Patrick Swayze tem uma atuação bastante convincente como o dançarino Johnny, destacando-se, obviamente, nas seqüências em que dança. Mas o ator consegue convencer também nos momentos dramáticos, como na discussão que tem com Baby durante os ensaios, quando ela, por sinal, também reage muito bem (“Estou salvando sua pele!”). Em outro momento, o ator demonstra a emoção do renegado Johnny ao dizer que jamais sentiu que Baby tivesse vontade de contar ao pai sobre a relação dos dois. A baixa estima do dançarino fica ainda mais evidente quando diz que sonhou que o pai dela o havia aceitado. Swayze chega até mesmo a cantar uma das músicas do longa, a bela “She is like the wind”, demonstrando que de fato o filme é dele. Jennifer Grey, por sua vez, vive Baby com extremo carisma e charme. Observe como a atriz disfarça olhando para o alto quando Johnny olha pra ela após conversar com a oferecida Vivian. Minutos depois, ela sorri satisfeita ao ver seu amado dispensar a mulher sem pensar duas vezes. Baby demonstra interesse por Johnny através do olhar assim que o vê, e principalmente quando se preocupa com o que fala pra ele no primeiro contato entre os dois (“Eu trouxe as melancias…”). Graças ao bom desempenho dos atores, o casal Baby e Johnny tem uma excelente química, o que ajuda a criar empatia com o espectador, como fica nítido durantes os ensaios da dupla, especialmente nas cenas em cima do tronco de uma árvore e dentro de um rio, onde evidentemente a paixão começa a florescer também no coração de Johnny (e observe como a trilha sonora pontua bem o momento, tocando a música tema lentamente no piano). A primeira apresentação em público do casal é um aperitivo para o grande final. Observe como Swayze demonstra segurança no olhar, guiando Baby o tempo todo, e Grey também transmite, através do olhar ansioso, o nervosismo da jovem antes da dança, que vai lentamente sendo transformado em confiança nos braços do parceiro.

No restante do elenco, Jane Brucker vive Lisa Houseman de forma detestavelmente unidimensional, dando a sensação de que sua razão de existir é discordar da irmã. Já Jerry Orbach atua muito bem como o ambíguo Dr. Jake Houseman. Inicialmente cheio de carinho pra dar à filha Baby, o médico muda radicalmente ao perceber seu envolvimento com o dançarino Johnny. Sua divisão de sentimentos fica evidente em dois momentos. No primeiro deles, Jake volta atrás na decisão de ir embora do acampamento após os apelos da esposa e da filha Lisa, algo que normalmente não aconteceria com um pai rígido como ele. E no segundo e mais tocante momento, Orbach expressa com competência o sofrimento de Jake ao ver Baby chorando, o que arranca lágrimas do médico também. E finalmente, Cynthia Rhodes demonstra muito bem o drama de Penny quando fica grávida, transmitindo sofrimento através de seu choro e do olhar triste. O problema é que o roteiro falho trata a questão de forma absurdamente superficial, tornando a amarga e difícil decisão de abortar um bebê (algo que jamais aprovo, mas isto é outra questão) em algo simples. A dor que Penny sente se refere apenas ao fato do médico ser um “açougueiro” e jamais retrata o sofrimento que se espera de alguém que interrompeu uma vida.

E é exatamente no roteiro que reside a grande falha de “Dirty Dancing”. Observe como o festival de clichês se inicia logo no primeiro encontro do casal principal, quando Johnny trata Baby muito mal, questionando a origem dos 250 dólares que ela trouxe e dizendo que a garota jamais conseguiria dançar no lugar de Penny (o que obviamente acontecerá). Também impressiona a facilidade com que Baby consegue os tais 250 dólares com o pai, como se fosse uma quantia irrisória solicitada para comprar sorvetes. Dando continuidade a mediocridade, o conflito entre Johnny e o Dr. Houseman jamais convence, soando como um artifício forçado do roteiro para criar a costumeira dificuldade que os casais românticos precisam superar para viver suas paixões. Parece que Eleanor Bergstein entende que as pessoas são incapazes de se comunicar ou explicar os mal-entendidos, criando uma série de situações absurdas para gerar conflito entre os personagens. Afinal de contas, por que Baby desiste de contar a verdade sobre a gravidez de Penny ao pai logo após a primeira tentativa? Porque Johnny, já que estava de saída, simplesmente não conta a verdade para o médico, preferindo aceitar a injusta culpa pela gravidez da dançarina? Porque Lisa jamais se esforça em ouvir o que a irmã tem pra falar a respeito de Robbie, deixando para descobrir a verdade somente próximo do final do filme? Da mesma forma, Bergstein deixa a descoberta de Jake sobre Robbie para os últimos momentos do longa, como se isto fosse necessário para a excelente seqüência final. E pior, mesmo sabendo que foi Robbie quem engravidou Penny, Jake ameaça levantar-se ao ouvir o discurso de Johnny ao lado de Baby no palco (“Sente-se, Jake”, diz sua esposa), como se este falasse mal de sua filha, quando na verdade fazia elogios à garota. E até mesmo na única vez em que o roteiro permite que algum personagem diga a verdade e evite novos problemas – quando Baby diz que Johnny não roubou as carteiras porque estava com ela e decepciona seu pai – Bergstein não resiste ao suspense barato, adiando por alguns segundos a revelação (“Eu sei que ele não roubou”. “E como sabe?” “Não posso dizer…”).

Misturando a mediocridade do roteiro com o talento dos atores para a dança, “Dirty Dancing” caminha para o final dando a sensação de que nada demais acontecerá. E de fato não acontece, mas mesmo assim, o longa surpreendentemente consegue agradar, mostrando o que o espectador já esperava, mas de forma bastante interessante. O final clichê é óbvio e previsível, mas confesso que é absolutamente fascinante ver os dois dançando no encerramento, graças à excelente química do casal, à ótima performance de ambos dançando (especialmente Swayze) e, claro, à maravilhosa trilha sonora, embalada pela excelente música tema “I’ve had the time of my life”. Observe também como o bom trabalho de som capta muito bem a reação do público aos passos inspirados da dupla, o que dá um clima ainda mais alegre para a cena, realçado pela fotografia em tons de rosa de Jeff Jur. O espectador se sente absolutamente satisfeito com o desfecho da narrativa, o que não pode servir como desculpa para que este aceite o restante dela.

Bastante falho ao criar inúmeras situações desnecessárias para justificar os conflitos que levam ao extasiante final, “Dirty Dancing” se salva pelas ótimas e muito bem coreografadas seqüências de dança e pelo grande desempenho da dupla principal, além da excelente qualidade da trilha sonora. Infelizmente, isto não é suficiente para conferir ao filme dirigido por Emile Ardolino uma avaliação melhor do que razoável. Felizmente, por outro lado, a seqüência final tem qualidade suficiente para evitar que o filme seja avaliado como um desastre.

Texto publicado em 11 de Março de 2010 por Roberto Siqueira

OSCAR 2005: MENINA DE OURO X O AVIADOR

Aproveitando a semana do OSCAR para seguir com minha comparação entre o vencedor do Oscar de Melhor filme e aquele que eu considerei como a melhor produção do ano, chega à vez do ano de 2004 (Premiação em 2005). Diferentemente dos anos já comentados (2006, 2007, 2008 e 2009), em que discordei da decisão da Academia e expliquei os motivos para isso, em 2004 eu seria mais um a votar no longa de Clint Eastwood. Portanto, este é o primeiro ano em que concordo com o vencedor do prêmio de melhor filme. Por isso, vou buscar expor argumentos que expliquem minha escolha comparando com seu grande rival na disputa pela estatueta daquele ano (O Aviador, de Martin Scorsese). Mas 2004 teve ainda outras excelentes produções, como “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”, “Diários de Motocicleta”, “Os Incríveis” e “Sideways – Entre Umas e Outras”. Uma excelente safra, que pode gerar ótimas discussões a respeito do melhor longa do ano.

Porque “Menina de Ouro” é melhor?

A construção dos personagens do excepcional roteiro de Paul Higgins, associada à segura direção de Eastwood, conduz a narrativa por um caminho aparentemente já percorrido inúmeras vezes em filmes sobre boxe. As interpretações impecáveis de Hilary Swank, Morgan Freeman e do próprio Eastwood contribuem para que o longa caminhe de forma segura até certo momento. Mas algo indicava desde o princípio (talvez a fotografia obscura, talvez a trilha melancólica) que aquele não seria apenas mais um filme de superação no esporte. E o momento da grande reviravolta é chocante, jogando o espectador para um buraco negro e sem saída, levantando inúmeros questionamentos e trazendo um amargor para a alma. O longa de Eastwood é triste, sombrio, mas profundamente tocante e belo. Quanto à “O Aviador”, com certeza é de um primor técnico invejável, e conta ainda com excelentes interpretações de Leonardo Di Caprio e Cate Blanchet. A história é interessante e muito bem conduzida (como sempre) por Scorsese e com certeza, trata-se de um ótimo filme. Mas quando comparado à “Menina de Ouro”, “O Aviador” perde força. O longa de Eastwood é humano, toca a alma, é belo. Por isso, ganharia meu voto em 2004.

E pra você, qual o melhor filme de 2004 e por quê?

Um abraço e bom debate.

Texto publicado em 10 de Março de 2010 por Roberto Siqueira

OSCAR 2010 – Vencedores

Apesar da chatíssima cerimônia, com um dos piores textos que já vi na noite de entrega do OSCAR (infelizmente, pois a dupla de apresentadores formada por Stevie Martin e Alec Baldwin é muito talentosa), gostei bastante dos vencedores da noite. Como já disse anteriormente, gostei bastante de “Guerra ao Terror” e sua vitória como Melhor Filme me agradou muito. Ainda mais agradável foi a vitória de Kathryn Bigelow, a primeira mulher a vencer o prêmio de direção na história (um marco na história da Academia). O longa foi o grande vencedor da noite, com 6 prêmios (Filme, Direção, Roteiro Original, Montagem, Som e Efeitos Sonoros). Destes prêmios, as vitórias na categoria Roteiro Original e, principalmente, Som e Efeitos Sonoros me surpreenderam. Apesar de gostar da escolha, achava que “Bastardos Inglórios” venceria Roteiro e “Avatar” Som e Efeitos Sonoros. O blockbuster de James Cameron, aliás, levou 3 prêmios técnicos (Efeitos Especiais – que surpresa hein!, Fotografia e Direção de Arte), enquanto “Preciosa” levou dois importantes prêmios (Atriz Coadjuvante – Mo’Nique, aplaudida de pé – e Roteiro Adaptado). O mais que favorito Christoph Waltz garantiu o único prêmio de “Bastardos Inglórios”. E finalmente, adorei ver Jeff Bridges e Sandra Bullock (também aplaudidos de pé) vencerem os prêmios de Melhor Ator e Melhor Atriz. Gosto muito de ambos. Vale citar também a vitória de “Up – Altas Aventuras” na categoria animação (“Sério? A Pixar ganhou? Não acredito…”) e do filme argentino “O Segredo de seus Olhos” na categoria Filme Estrangeiro. Neste último caso, não assisti ao filme – bastante elogiado pela crítica e que, pelo elenco, promete ser realmente muito bom. É a segunda vez que os hermanos conseguem o prêmio da Academia.

Segue a lista completa dos vencedores do OSCAR 2010:

Melhor filme

Guerra ao terror

Melhor direção
Kathryn Bigelow, Guerra ao terror

Melhor ator
Jeff Bridges, Coração louco

Melhor ator coadjuvante
Christoph Waltz, Bastardos inglórios

Melhor atriz
Sandra Bullock, Um sonho possível

Melhor atriz coadjuvante
Mo’Nique, Preciosa

Melhor animação
Up – Altas aventuras

Melhor filme estrangeiro
El secreto de sus ojos (Argentina)

Melhor direção de arte
Avatar

Melhor fotografia
Avatar

Melhor figurino
The young Victoria

Melhor montagem
Guerra ao terror

Melhor maquiagem
Star trek

Melhor trilha sonora
Up – Altas aventuras

Melhor canção
The weary kind, Crazy heart

Melhor roteiro original
Guerra ao terror

Melhor roteiro adaptado
Preciosa

Melhores efeitos visuais
Avatar

Melhor som
Guerra ao terror

Melhor edição de som
Guerra ao terror

Melhor documentário
The cove

Melhor documentário em curta-metragem
Music by Prudence

Melhor curta-metragem
The new tenants 

Melhor curta-metragem de animação
Logorama

E você, gostou dos vencedores do OSCAR 2010?

Um grande abraço e bom debate.

Texto publicado em 08 de Março de 2010 por Roberto Siqueira

CORAÇÃO SATÂNICO (1987)

(Angel Heart)

 

Videoteca do Beto #47

Dirigido por Alan Parker.

Elenco: Mickey Rourke, Robert De Niro, Lisa Bonet, Charlotte Rampling, Brownie McGhee, Stocker Fontelieu, Michael Higgins, Elizabeth Whitcraft, Eliott Keener, Katheleen Wilhoite e George Buck.

Roteiro: Alan Parker, baseado em livro de William Hjortsberg.

Produção: Elliot Kastner e Alan Marshall.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Profundamente perturbador, “Coração Satânico” jamais apela para a trilha sonora ou monstros repugnantes que saltam na tela como forma de provocar o medo no espectador. Seu mérito está no excelente roteiro e na firmeza com que Alan Parker conduz a narrativa, utilizando sua categoria como diretor para criar um visual cheio de estilo, levando o espectador a descobrir junto com o protagonista o trágico destino que este inevitavelmente encontrará. Durante esta intrigante jornada, seremos envolvidos por um clima sombrio e macabro, repleto de imagens chocantes e, o que é melhor, presenteados com um final incrivelmente surpreendente.

Em 1955, na cidade de Nova York, o detetive particular Harry Angel (Mickey Rourke) é contratado pelo misterioso cliente Louis Cyphre (Robert De Niro) para encontrar um cantor, conhecido como Johnny Favorite, que sumiu há doze anos. O problema é que quanto mais se aprofunda na investigação, mais confuso Harry fica, envolvendo-se com pessoas estranhas, que curiosamente morrem logo após entrar em contato com ele. Nesta jornada, Harry conhecerá um mundo místico e encontrará um caminho sem volta.

Desde o início sombrio, numa rua suja em que um gato olha o corpo de um homem morto, a obscura e excelente fotografia (Direção de Michael Seresin) cria um ambiente sombrio e macabro, que se estenderá por toda a narrativa. Observe a quantidade de vezes em que a cena é iluminada apenas pelo vão existente nos ventiladores, que aparecem constantemente e remetem ao momento em que Johnny rouba a vida de Harry dentro de um hotel, como se fizessem questão de lembrá-lo de algo que ele aparentemente esqueceu. Além disso, sempre que aparecem, os ventiladores tem a função narrativa de indicar o próximo assassinato. A ótima direção de arte de Armin Ganz e Kristi Zea transporta o espectador para o ano de 1955, através do visual sujo da cidade, dos carros velhos e das casas antigas, além é claro de contar com os ótimos figurinos de Aude Bronson-Howard e a excelente trilha sonora de Trevor Jones que abusa do blues, música típica do período e da região de New Orleans. Todo este bom trabalho técnico auxilia o diretor Alan Parker na criação de cenas absolutamente marcantes e de um impacto visual incrível, com destaque para o macabro ritual envolvendo dança e a morte de uma galinha, e para a cena de sexo entre Harry e Epiphany Proudfoot (Lisa Bonet), banhada pela água da chuva que se transforma em sangue e repleta de imagens aterrorizantes. Além destas cenas, vale ressaltar que todas as mortes também são bastante realistas e comprovam o cuidado com o visual por parte do diretor.

Mas “Coração Satânico” também é um filme de atores. E que atores. O excelente Mickey Rourke oferece uma atuação sutil em diversos momentos e extremamente visceral em outros, demonstrando sua enorme capacidade de interpretação. Um dos melhores atores de sua geração, o minimalista Rourke demonstra em seus sorrisos, olhares desconfiados e pequenos gestos (como quando joga sal por cima do ombro quando conversa com Louis) o cuidado que teve ao compor o personagem. Rourke está bem solto no papel e transmite com perfeição ao espectador a angústia de Harry na busca pelo cantor desaparecido. Sua explosão final ao saber da verdade, quando chora de raiva e reflete no olhar a dúvida e perplexidade com o que ouve, só ratifica a qualidade da grande atuação de Rourke. Já Robert De Niro tem uma atuação bastante misteriosa, olhando sempre com firmeza para o detetive e dando dicas de sua verdadeira identidade. Desde sua primeira aparição, demonstra seu talento criando um Louis Cyphre completamente sombrio e enigmático. Suas unhas enormes, sua roupa preta e o ar superior soam completamente coerentes com o personagem, ainda mais quando sua verdadeira identidade é revelada. O grande ator também demonstra talento no único momento em que existe espaço para o humor – mesmo que de forma irônica – quando diz sorrindo para Harry “olhar o linguajar” dentro de uma igreja.

É interessante notar também como as dicas do final surpreendente são espalhadas por todo o excelente roteiro do próprio Alan Parker (baseado em livro de William Hjortsberg), como o fato de todas as pessoas morrerem ao se envolver com Harry. Repare como Louis Cyphre (em inglês, junte os nomes e terá o som de Lúcifer) se diz estrangeiro (ora, o inferno não fica nos EUA até que se prove o contrário) e ironicamente se apresenta em cima de uma igreja, dizendo que seu contrato com Johnny Favorite seria executado somente após a morte dele e afirmando ter ajudado em sua carreira, o que é bastante lógico e coerente. Em outro momento, ele diz que em algumas tribos o ovo simboliza a alma e em seguida devora o ovo, simbolizando o que faria com a alma de Harry no futuro. Mesmo assim, o inteligente roteiro é sutil o suficiente para não permitir que o espectador descubra a verdadeira identidade de Harry até o espetacular momento em que é revelada. Até mesmo o próprio Harry vive uma série de situações que sinalizam seu destino, como quando descobre um altar macabro dentro da Igreja onde conheceu Louis. Observe também como as crianças e os animais (especialmente os frangos, mas também os cachorros) não gostam de Harry, talvez por enxergar sua verdadeira e nada bela natureza. As crianças choram ao vê-lo, enquanto os animais atacam.

O ambiente sombrio em que a trama se passa mais parece pertencer a um pesadelo, onde todas as ações tomadas pelo protagonista parecem levar a um novo caminho, ainda mais tortuoso que o anterior. A cada descoberta de Harry o espectador fica ainda mais intrigado e se vê ansioso pela resolução da investigação. Quanto mais próximo da verdade o detetive chega, mais temeroso o espectador se torna, praticamente pressentindo o trágico destino de Harry Angel. E a revelação final, irônica e absolutamente nocauteante, é de uma genialidade impar, daquelas que dá vontade de ver o filme novamente assim que os créditos começam a aparecer na tela, enquanto Harry desce pelo elevador e vai de encontro ao seu inferno particular.

Utilizando um ambiente sombrio e uma cidade ainda mais tenebrosa como pano de fundo para uma narrativa inteligente e surpreendente, que mistura elementos místicos à tradicional estrutura dos thrillers de suspense, e contando ainda com dois dos maiores atores de sua geração em grandes atuações, o diretor Alan Parker brinda o espectador com um trabalho fantástico, que merece ser apreciado nos mínimos detalhes. E felizmente, o diretor, ao menos pelo que se sabe, não precisou vender sua alma para conseguir este feito.

Texto publicado em 06 de Março de 2010 por Roberto Siqueira