A FELICIDADE NÃO SE COMPRA (1946)

(It’s a Wonderful Life)

5 Estrelas

 

Obra-Prima 

Filmes em Geral #107

Dirigido por Frank Capra.

Elenco: James Stewart, Donna Reed, Thomas Mitchell, Lionel Barrymore, Henry Travers, Beulah Bondi, Frank Faylen, Ward Bond, Samuel S. Hinds, Todd Karns e H.B. Warner.

Roteiro: Frances Goodrich, Albert Hackett e Frank Capra, baseado em história de Philip Van Doren Stern.

Produção: Frank Capra.

A Felicidade não se Compra[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O otimismo e a exaltação do estilo de vida norte-americano são marcas registradas da filmografia de Frank Capra. Por vezes exagerado, o diretor ítalo-americano não hesitava um segundo antes de rechear seus longas com mensagens positivas e esperançosas, o que lhe garantiu uma carreira de sucesso numa época tão marcada por conflitos e até mesmo pela Segunda Guerra Mundial. No entanto, foi na obra-prima “A Felicidade não se Compra” que Capra conseguiu alcançar seu melhor resultado, equilibrando o riso e o drama com precisão e realizando um filme simplesmente encantador, capaz de inspirar gerações ao longo de décadas.

Baseado no conto “The Greatest Gift” de Philip Van Doren Stern, o roteiro escrito pelo próprio Capra ao lado de Frances Goodrich e Albert Hackett narra a vida de George Bailey (James Stewart), um jovem que queria deixar a cidade natal para estudar na universidade e depois viajar pelo mundo, mas que se vê obrigado a ficar e tocar os negócios da família após a morte do pai (Samuel S. Hinds). Após casar-se com a bela Mary Hatch (Donna Reed) e enfrentar credores como o cruel Sr. Potter (Lionel Barrymore) ao longo dos anos, George finalmente se vê numa situação muito complicada quando seu tio Billy (Thomas Mitchell) perde uma importante quantia que poderia levar o negócio a falência, o que faz George pensar no suicídio. Mas uma intervenção divina promete mudar o rumo desta história.

Capra nunca foi um diretor preocupado com a estilização da imagem. Seus filmes normalmente tinham um visual clássico, sem invencionismos e técnicas mais ousadas, limitando-se aos tradicionais planos americanos, closes e alguns raros planos gerais. Para ele, importava muito mais a história que seria contada do que o estilo visual. Em alguns casos, o diretor pesava demais a mão na abordagem sentimentalista (como no fraco “Adorável Vagabundo”), mas por outro lado, Capra sabia como poucos inserir o bom humor em suas narrativas, realizando filmes divertidos e marcantes (como o pioneiro “Aconteceu Naquela Noite”). Contudo, em nenhuma outra ocasião ele foi tão feliz como aqui.

Criando uma atmosfera natalina no início, Capra mantém o estilo discreto na movimentação da câmera, mas abusa da criatividade na construção da narrativa, como fica evidente desde a divertida conversa entre Deus, José e o anjo Clarence. Auxiliado pela montagem de Dimitri Tiomkin, Capra cria uma estrutura narrativa interessante, utilizando a conversa divina como ponto de partida para um enorme flashback que narra a vida do protagonista desde a infância até a noite de natal que abre o filme – e vale destacar o divertido momento em que Capra congela a imagem do adulto George para que Jose explique para Clarence o que aconteceu na vida dele. A ousadia do diretor não para por aí, já que a cena em que o Sr. Gower (H.B. Warner) bate na orelha do pequeno George traz uma carga de violência incomum para a época.

Mas este é um raro momento mais pesado numa narrativa predominantemente marcada pela leveza e pelo alto astral. Este espírito alegre pode ser notado em diversos momentos, como na recepção de Harry Bailey (Todd Karns) na estação de trem quatro anos depois que ele partiu para estudar no lugar do irmão, na divertida cena da dança numa festa que acaba num banho coletivo na piscina e no jantar de despedida de George em que ele e o irmão carregam a mãe (Beulah Bondi) nos braços. Mais interessante, no entanto, é a maneira como Capra equilibra este bom humor com momentos extremamente humanos, como a conversa entre pai e filho antes da suposta saída de George da cidade, que de tão sincera chega a comover.

A boa relação com os pais, aliás, é um reflexo de um traço marcante da personalidade de George, um homem que parece incapaz de pensar somente em si mesmo, ainda que tenha seus sonhos e tente correr atrás deles por diversas vezes. Somente esta benevolência já justificaria a simpatia do espectador pelo personagem, mas o enorme carisma de James Stewart torna a tarefa ainda mais fácil. Ao lado da encantadora e charmosa Donna Reed, que surge pela primeira vez num close que só realça sua beleza, Stewart oferece uma atuação vibrante, convencendo como o homem simples e de coração puro que enfrenta os credores para continuar oferecendo aos cidadãos locais a possibilidade de conquistar a casa própria. Juntos, George e Mary protagonizam cenas belíssimas como aquela em que ele promete laçar a lua e dar pra ela (num diálogo icônico imortalizado ao longo dos anos) ou a engraçada sequência que culmina com Mary nua num arbusto, que tem seu clima totalmente quebrado pela triste notícia do derrame que levou o pai de George a morte.

Conversa entre Deus, José e o anjoBanho coletivo na piscinaGeorge promete laçar a lua e dar pra elaIntercalando estes momentos doces com outros amargos, Capra reflete em sua fábula a própria situação do protagonista, um homem feliz na maior parte do tempo, mas que é levado pelos caminhos da vida a desistir de sonhos como estudar na universidade e viajar pelo mundo – algo simbolizado sutilmente pelos panfletos de viagem que ele joga fora. Poucos temas são mais humanos que a renúncia, algo que constantemente faz parte de nossas vidas. O próprio visual do longa reflete esta gangorra de sentimentos através do contraste entre os dias ensolarados e os chuvosos; e a própria chuva tem papel simbólico em muitos instantes, como no belo plano em que o casal acompanha pelo vidro molhado do carro a multidão que se forma em frente a empresa de George, indicando que mais uma vez ele deixaria seus sonhos de lado para ajudar as pessoas. Seguindo esta estratégia, a fotografia de Joseph Biroc e Joseph Walker lentamente abandona as cenas mais claras e iluminadas da primeira metade do filme para ceder lugar aos tons mais sombrios conforme a narrativa avança, chegando ao auge na assombrosa sequência em que George pensa em suicidar-se debaixo de neve.

“A Felicidade não se Compra” conta ainda com sua porção de cenas marcantes, como aquela em que George e Mary seguram um aparelho telefônico e acabam se beijando, numa cena típica do cinema clássico de Hollywood que funciona muito bem. Além dela, vale citar também a noite de núpcias preparada pelos amigos para o casal, numa decoração criativa que reforça o bom trabalho de direção de arte de Jack Okey. E finalmente, podemos citar a interessante explicação dada pelo protagonista sobre como funciona o crédito concedido por sua empresa para que as pessoas consigam comprar suas casas, num raciocínio que ainda hoje pode ser aplicado ao sistema bancário.

A escalada dramática do protagonista começa a ganhar força quando Potter tenta contratá-lo – e Stewart demonstra com precisão o conflito de sentimentos do personagem, que inicialmente se mostra surpreso e feliz com a proposta, mas depois percebe as reais intenções de Potter e se revolta. Mesmo se negando a aceitar a proposta, a possibilidade de oferecer uma vida melhor para sua família fica martelando em sua mente por um bom tempo. Assim, não nos surpreendemos quando ele explode e quase agride seu tio após descobrir que ele perdeu uma importante quantia em dinheiro, voltando transtornado para casa para chorar com os filhos no braço antes de maltratar sua amada esposa e as próprias crianças. Prestes a ser enviado para a cadeia por Potter, ele decide sair da casa e suicidar-se, numa cena que parte o coração da plateia.

Casal acompanha pelo vidro molhado do carroGeorge e Mary acabam se beijandoPotter tenta contratá-loEm seguida, o zoom que nos aproxima de seu rosto suado no bar praticamente nos permite sentir seu desespero. Bêbado, ele perambula pela cidade e a neve que cai só reforça o sentimento de angústia da plateia. E então chegamos à sequência mais genial do longa, quando o anjo Clarence finalmente entra em cena e mostra como seria a vida sem George, provocando reflexões não apenas no personagem, mas no próprio espectador. Sua alegria genuína quando “volta à vida” e ao lar é comovente, assim como a inesperada ajuda dos amigos e as doces palavras deixadas pelo anjo no livro: “Lembre-se, George: nenhum homem é um fracasso quando tem amigos”. Por isso, é quase inevitável chegar ao fim de “A Felicidade não se Compra” com o ânimo renovado e os olhos marejados.

Realizando um filme otimista como quase todos de sua longa carreira, Capra acertou em cheio neste “A Felicidade não se Compra”, uma obra-prima humana, sensível e capaz de lavar nossa alma e elevar nosso espírito como poucos filmes foram capazes até hoje.

A Felicidade não se Compra foto 2Texto publicado em 23 de Maio de 2013 por Roberto Siqueira

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ADORÁVEL VAGABUNDO (1941)

(Meet John Doe)

2 Estrelas 

 

Filmes em Geral #106

Dirigido por Frank Capra.

Elenco: Gary Cooper, Barbara Stanwyck, Walter Brennan, Edward Arnold, Spring Byington, Gene Lockhart, Sterling Holloway, James Gleason, Rod La Rocque e Regis Toomey.

Roteiro: Robert Riskin, baseado em história de Richard Connell e Robert Presnell Sr.

Produção: Frank Capra e Robert Riskin (não creditados).

Adorável Vagabundo[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Reconhecido pela capacidade de conduzir filmes com mensagens otimistas que ilustravam como poucos o sonho norte-americano daquela época, Frank Capra era um diretor popular, é verdade, mas que tinha também o reconhecimento da crítica justamente pela maneira como utilizava estas características marcantes para realizar bons filmes. Infelizmente, isto não é o que acontece em “Adorável Vagabundo”, longa sofrível estrelado por Gary Cooper e Barbara Stanwyck que, além de narrar uma história extremamente previsível, ainda peca pela abordagem exageradamente melodramática do diretor.

O roteiro escrito por Robert Riskin com base em história de Richard Connell e Robert Presnell Sr. até parte de uma premissa interessante: após ser demitida pelo novo editor do jornal onde trabalhava, Ann Mitchell (Barbara Stanwyck) publica sua última matéria contando a história de John Doe, um homem amargurado que iria suicidar-se na noite do natal como um protesto contra o que ele achava que estava errado na sociedade. A coluna chama a atenção do público e de toda a mídia, mas o problema é que Ann tinha inventado toda a história e, diante da enorme repercussão da matéria, ela é chamada de volta ao jornal. Após decidirem levar a farsa adiante, eles passam a procurar por alguém que personifique este personagem inventado e escolhem John Willoughby (Gary Cooper), que assume a nova personalidade e passa a rodar o país levando adiante a ideologia criada para o personagem.

Nos primeiros planos de “Adorável Vagabundo”, Capra faz questão de mostrar centenas de pessoas felizes trabalhando ou servindo ao exército, passando a ideia que será à base da narrativa: a força do cidadão comum. Em seguida, a simples troca de uma placa com dizeres sobre a imprensa livre já anuncia a mudança no comando de um jornal que culminará na demissão de todos os 40 funcionários e levará Ann a escrever a matéria que revolucionará o país. E então os diversos problemas do longa vem à tona, a começar por piadas nada inspiradas como no embaraçoso monólogo de Bert (Regis Toomey) na prefeitura e na chegada de John ao jornal, quando um dos presentes diz que não se suicidaria no natal por ser supersticioso.

Capra também erra a mão quando tenta colocar peso dramático na narrativa, apelando para a trilha sonora de Dimitri Tiomkin em diversos momentos desnecessários e acertando em raras ocasiões, como quando a trilha inspiradora embala o momento em que a mãe de Ann entrega o diário do pai contendo o texto que inspiraria o discurso de esperança de John Doe. Aliás, esta abordagem melodramática ganha força no próprio visual do filme. Repare, por exemplo, como Capra e seu diretor de fotografia de George Barnes procuram valorizar os rostos das pessoas comuns, expondo suas imperfeições através da maneira como iluminam as cenas e forçando nossa identificação com eles, até por contrastar diretamente com as cenas dominadas pelos tons mais escuros que acompanham os homens poderosos como Norton (Edward Arnold), o dono do jornal.

Pessoas felizes trabalhandoRostos das pessoas comunsHomens poderososPor outro lado, “Adorável Vagabundo” também tem sua parcela de acertos. É interessante, por exemplo, acompanhar a guerra nos bastidores da imprensa e os interesses de Norton naquela manifestação popular. Repare também como os instantes que antecedem o primeiro discurso de John Doe são tensos justamente pela maneira que Capra conduz a sequência, não permitindo que o espectador antecipe qual dos dois textos ele vai ler – e aqui vale notar o trabalho de Cooper, que gagueja no início, como se não soubesse exatamente o que fazer, mas com o passar do tempo ganha confiança e começa a gostar da reação das pessoas àquelas palavras, falando com mais firmeza e empolgação. Seria uma grande cena, não fosse o conteúdo da mensagem, que joga para o próprio povo a responsabilidade de buscar soluções para a resolução de seus problemas, praticamente isentando os políticos de seus deveres diante da sociedade.

O problema do roteiro está justamente em seu discurso previsível e apelativo, que dificulta bastante o trabalho dos atores, ainda que o elenco tenha gente talentosa como Gary Cooper e Barbara Stanwyck. Vivendo a esperta e ambiciosa Ann, Stanwyck oscila entre bons momentos, como quando se emociona ao ouvir as palavras de seu pai sendo lidas por Doe, e cenas embaraçosas, como aquela que encerra o longa (voltaremos a ela em instantes). Já a atuação mais contida de Gary Cooper cai bem no personagem, um homem simples que é lentamente sugado pra dentro daquele turbilhão e acaba se envolvendo sem perceber exatamente o que estava acontecendo. Repare, por exemplo, como Cooper olha para a comida com desejo e para os objetos de decoração com deslumbramento quando chega ao jornal, saindo-se bem numa das raras vezes em que o longa consegue nos fazer rir, quando Doe está distraído mexendo na estatua de uma mulher nua e se assusta ao ouvir um empolgado “Olá!”, sem notar que Ann havia chegado ao local.

No restante do elenco, Edward Arnold compõe um Norton imponente com sua voz grave e em tom sempre controlado, destacando-se em momentos especiais como o jantar em que presenteia uma desconfiada Ann e anuncia seu plano eleitoral, provocando a mesma reação nela e na plateia: “Uau!”. Além disso, tanto Arnold quanto Cooper têm um bom desempenho na forte discussão entre John e Norton durante a reunião do poderoso dono do jornal com importantes homens da cidade que precede o clímax da narrativa. Mas o grande destaque do elenco vai mesmo para a atuação de James Gleason na cena em que Connell revela o plano de Norton para Doe num bar, soando convincente como um homem amargurado diante de tudo que estava prestes a acontecer e emocionando quando menciona a morte do pai. No entanto, o problema desta cena reside no teor nacionalista e recheado pelo idealismo norte-americano tão comum na filmografia de Capra, evidenciado nas diversas menções do personagem ao “país livre” e à liberdade de expressão.

Primeiro discurso de John DoeSe emociona ao ouvir as palavras de seu paiForte discussão entre John e NortonEssencial para o sucesso de sequências como aquela que acompanha as viagens de John sobrepondo planos e imagens do mapa dos EUA num ritmo empolgante, a montagem de Daniel Mandell é responsável também pela sensação de desconforto causada no tumulto durante a “Convenção John Doe”, obtida através da rápida justaposição de planos e dos próprios enquadramentos confusos de Capra – que, se soam deselegantes, ao menos tem função narrativa. Além do rápido plano geral empregado por Capra que revela o grande número de pessoas no local, o que impressiona durante a “Convenção John Doe” é o design de som, que capta com precisão o burburinho da plateia, a chuva e a distorção do microfone, além da revolta que explode na multidão após os homens comandados por Norton cortarem os microfones e incentivarem as vaias.

Infelizmente, Capra pesa demais a mão no ato final e, além do visual exageradamente escuro da última cena no alto do prédio, o tom carregado pelo melodrama excessivo e a atuação over de Stanwyck criam um dramalhão típico das novelas mexicanas.

Conhecido como um grande defensor dos ideais norte-americanos, o ítalo-americano Frank Capra desta vez pesou a mão e fez deste “Adorável Vagabundo” um longa decepcionante, com uma mensagem óbvia demais e incrivelmente piegas.

PS: A ideologia associada a John Doe torna o assassino de “Seven” ainda mais especial pela ironia que a escolha de seu nome naturalmente carrega.

Adorável Vagabundo foto 2Texto publicado em 22 de Maio de 2013 por Roberto Siqueira

A MULHER FAZ O HOMEM (1939)

(Mr. Smith Goes to Washington)

5 Estrelas 

Filmes em Geral #105

Dirigido por Frank Capra.

Elenco: James Stewart, Jean Arthur, Claude Rains, Ruth Donnelly, Eugene Pallette, H.B. Warner, Beulah Bondi, Thomas Mitchell, Guy Kibbee, Edward Arnold, Harry Carey e Grant Mitchell.

Roteiro: Sidney Buchman, baseado em história de Lewis R. Foster.

Produção: Frank Capra (não creditado).

A Mulher faz o Homem[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Segundo filme da famosa e bem sucedida parceria entre o diretor Frank Capra e o ator James Stewart, “A Mulher faz o Homem” é também um dos mais notáveis trabalhos realizados por ambos em suas marcantes carreiras no cinema. Mais uma vez trazendo a história de um homem comum que enfrenta os poderosos com sua determinação e moral inabalável, Capra realizou um filme corajoso, que já na década de 30 debatia o conturbado e complexo jogo político e seus bastidores recheados de interesses escusos – um tema que, como sabemos, continua bastante atual.

O roteiro escrito por Sidney Buchman com base em história de Lewis R. Foster nos apresenta a curiosa trajetória de Jefferson Smith (James Stewart), um homem do interior que é convidado a se tornar senador dos Estados Unidos somente porque sua falta de experiência serviria como uma luva para que seus companheiros pudessem levar adiante um corrupto projeto. O problema é que Smith, auxiliado pela inteligente secretária Clarissa Saunders (Jean Arthur), acaba se empolgando com sua posição e propõe outro projeto social que, por ironia, inviabilizaria o primeiro, criando um conflito de interesses que leva o senador Joseph Paine (Claude Rains), um amigo de seu falecido pai, a acusá-lo em plena câmara do senado de se beneficiar do projeto para enriquecer, o que faz com que Smith passe a questionar os valores e os ideais dos líderes de seu país.

Apesar de um garoto dizer em certo momento que Smith é “o melhor americano que nós temos”, os valores norte-americanos tão presentes na filmografia de Capra são questionados em boa parte de “A Mulher faz o Homem”, o que chega a ser surpreendente. É verdade que no final o homem justo e idealista acaba vencendo os poderosos corruptos e a mensagem otimista do diretor ganha força, mas em grande parte do longa a sensação que temos é a de que aquele complexo jogo político realmente seria capaz de minar aquele pobre homem; e o fato é que mesmo saindo vitorioso, Smith certamente não mantém a visão pura e simplista que tinha quando chegou a Washington. Assim, se este suposto ufanismo é aparentemente reforçado pelo clipe que apresenta as estátuas de ex-presidentes dos EUA intercaladas com trechos da constituição e embalado pelos hinos da Inglaterra e dos Estados Unidos na chegada do protagonista à capital, esta reverência à história norte-americana terá reflexo no impecável terceiro ato, quando o próprio Smith questiona onde aqueles valores estavam.

É fascinante também como Capra aborda o jogo de interesses políticos nos bastidores do senado desde o início frenético do longa, quando, auxiliado pela montagem ágil de Al Clark e Gene Havlick, anuncia a morte de um importante senador e, através da maneira acelerada com que a notícia se espalha, evidencia para o espectador a importância daquele cargo para o qual Smith seria escolhido. Observe também como o movimento de câmera que revela a imponente câmara do senado concebida pela direção de arte de Lionel Banks nos insere naquele ambiente sob a perspectiva do protagonista, assim como o lento travelling que apresenta o grande número de pessoas presentes no local, fazendo com que o espectador perceba como aquilo tudo poderia intimidar Smith e forçando nossa identificação com ele.

Da mesma forma, Capra faz questão de engrandecer o Presidente do Senado durante o juramento de Smith, novamente nos colocando em sua posição e fazendo com que o espectador sinta a pressão que o próprio personagem sente por estar ali. O diretor usa a câmera com inteligência também em outros momentos, como numa conversa com Susan, a filha do senador Paine por quem Smith se apaixona, na qual Capra sequer mostra o rosto dele, ilustrando seu nervosismo através de planos de suas mãos mexendo no chapéu, o que só realça a timidez do rapaz.

Refletindo a euforia de Smith e a sua visão romantizada da capital, a fotografia de Joseph Walker prioriza os tons mais claros, o que torna ainda mais triste a sequência em que ele pensa em desistir e voltar para sua cidade, com o personagem afundado nas sombras após voltar ao Memorial de Lincoln e constatar que os valores de seu povo não passavam de ideais distantes da realidade. Por outro lado, observe como as sombras encobrem o rosto de Jim Taylor quando este discute o nome que será indicado para o cargo no senado, num contraste interessante que reforça a estratégia visual adotada. Já o design de som apresenta oscilações ainda mais fortes, especialmente nos debates no senado, o que vira motivo de piada, por exemplo, quando Smith fala pela primeira vez na câmara.

Estátuas de ex-presidentes dos EUAImponente câmara do senadoVolta ao Memorial de LincolnE se de maneira geral as atuações parecem um pouco exageradas (o que era comum na época), alguns nomes conseguem se destacar, como o manipulador Jim Taylor interpretado por Edward Arnold, que impõe respeito com seu corpo avantajado e sua expressão ameaçadora – aliás, é interessante como muitos políticos surgem gordos e envelhecidos, num indício da vida farta e sedentária que levam. Vale citar também o simpático Presidente do Senado interpretado por Harry Carey, que sorri constantemente, mas nem por isso deixa de contar com o respeito de todos, além é claro do imprevisível senador Paine de Claude Rains, que demonstra bem o conflito do personagem diante daquele ambiente obscuro e corrompido. É ele quem protagoniza um dos momentos tocantes do longa, quando explica para Smith que pra conseguir realizar coisas boas na política é preciso se comprometer e jogar o jogo, demonstrando um incômodo que será essencial para que sua mudança de comportamento no final faça sentido. Até por isso, é chocante o momento em que ele acusa Smith no senado e muda o foco dos debates, provocando a investigação do amigo e a proposta de expulsão dele.

Enojada diante deste desgastante jogo de interesses – especialmente após a paixão por Susan ser usada contra Smith – e cansada daquela vida vazia, a determinada Clarissa Saunders vivida com intensidade por Jean Arthur reencontra alguma razão para seguir naquela jornada somente após a chegada de Smith, que, com seu jeito simples e sonhador, devolve os valores outrora perdidos por ela diante de tanta corrupção. Conhecido como a personificação do homem comum, Stewart cai muito bem no papel do interiorano Smith, surgindo com a voz oscilante, gaguejando e evitando o olhar no início, demonstrando estar claramente assustado diante de tantas mudanças repentinas em sua vida.

Talentoso como poucos, Stewart realiza aqui um de seus melhores trabalhos, encarnando muito bem o tipo caipira que chega a cidade grande e se encanta, demonstrando deslumbramento, por exemplo, diante de obras como a estátua de Lincoln ou o Capitólio dos Estados Unidos. Além disso, os diálogos ágeis da maioria dos personagens só reforçam a grande atuação dele, que fala pausadamente no inicio, evidenciando seu deslocamento naquele local e criando uma aura de inocência que, por exemplo, faz a imprensa se aproveitar para espalhar notícias sensacionalistas com base em pequenas declarações, o que leva o protagonista a distribuidor socos e pontapés – num momento crucial que marca a perda da inocência de Smith, que passa a enxergar a dura realidade da política.

Quando Saunders explica o complexo sistema para aprovar um projeto no senado, Smith demonstra fascínio com seu queixo apoiado em suas mãos, enquanto ela demonstra tédio diante de tamanha burocracia. No entanto, com o passar do tempo o idealismo dele emociona a experiente secretária e a empatia entre eles começa a aflorar, assim como os melhores momentos da marcante atuação de Jean Arthur. Repare, por exemplo, como ela convence quando surge bêbada conversando com Diz ou quando revela a verdade para Smith sobre o esquema de propinas que impediria seu projeto de sair do papel. Já na apresentação do projeto ao senado é Stewart quem dá um show, novamente surgindo nervoso com sua voz trêmula e expressão retraída, o que torna sua postura no ato final ainda mais impressionante, quando surge confiante, determinado e se mantém firme até cair exausto após horas defendendo sua posição, numa atuação soberba e digna de aplausos.

Paine acusa SmithDeterminada Clarissa SaundersConfiante, determinado e se mantém firmeApoiando-se na força de Saunders (daí a origem do inventivo nome do filme em português), Smith encontra forças para defender-se das acusações que sofre no senado, numa batalha comovente que gruda o espectador na cadeira durante todo o eletrizante ato final, quando o poder de Taylor fica ainda mais evidente, controlando a máquina, a imprensa e praticamente todos os integrantes do estado no senado, numa verdadeira luta de gigantes contra um mero cidadão comum – o que, por razões óbvias, força ainda mais nossa identificação com o protagonista e nos leva a torcer por seu sucesso.

Assim, “A Mulher faz o Homem” é um grande filme sobre o complexo jogo de interesses que move a política desde a origem da humanidade. Como podemos perceber, este não é um problema recente, ainda que isto não sirva de desculpa para justificar nossa acomodação diante dos escândalos que de tempos em tempos surgem por aí. Ao que parece, no embate entre o idealismo e os interesses obscuros, foi o primeiro quem levou a pior e ficou esquecido no passado.

A Mulher faz o Homem foto 2Texto publicado em 21 de Maio de 2013 por Roberto Siqueira

ACONTECEU NAQUELA NOITE (1934)

(It Happened One Night)

5 Estrelas 

Filmes em Geral #104

Vencedores do Oscar #1934

Dirigido por Frank Capra.

Elenco: Clark Gable, Claudette Colbert, Walter Connolly, Roscoe Karns, Jameson Thomas, Alan Hale, Arthur Hoyt, Blanche Friderici, Charles C. Wilson, Irving Bacon, Ward Bond e Eddy Chandler.

Roteiro: Robert Riskin e Samuel Hopkins Adams.

Produção: Frank Capra.

Aconteceu Naquela Noite[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Primeiro filme da história a vencer os cinco principais prêmios da Academia de Hollywood, “Aconteceu Naquela Noite” marcou época também por ser a primeira comédia-romântica de sucesso da história do cinema, misturando dois gêneros com forte apelo popular de maneira orgânica e bastante divertida. Apoiando-se no ótimo texto e nas boas atuações de Gable e Colbert, Frank Capra realizou um longa delicioso, repleto de cenas memoráveis e responsável por estabelecer alguns padrões narrativos que são religiosamente seguidos no gênero ainda hoje.

Escrito por Robert Riskin e Samuel Hopkins Adams, “Aconteceu Naquela Noite” tem início quando o jornalista desempregado Peter Warren (Clark Gable) encontra Ellie (Claudette Colbert), a filha foragida do milionário Alexander Andrews (Walter Connolly) que abandonou seu iate após este não aprovar seu casamento com o também bem sucedido King Westley (Jameson Thomas). Interessado no potencial jornalístico da trajetória da moça, Peter decide acompanhá-la numa longa viagem, mas acaba se envolvendo com ela no caminho.

Determinada e convicta desde os primeiros segundos em cena, Claudette Colbert compõe a arredia Ellie como uma mulher de personalidade forte, dedicada a conquistar seus objetivos independentemente do que seja preciso para alcançá-los, mas sem jamais perder seu lado frágil e sensual por causa disto. Assim, não surpreende o fato de Peter se apaixonar por ela, já que o próprio espectador é fisgado pelo carisma da personagem. Encarnando um protagonista típico da filmografia de Capra (o homem comum que se vê numa situação desconfortável, mas consegue mudar seu destino através do esforço), Gable se sai bem ao ilustrar como Peter vê em Ellie a grande chance de dar uma resposta ao seu antigo chefe após perder o emprego sem que, para isto, precise adular a moça, o que faz com que os primeiros contatos entre eles sejam rudes, já que ambos têm personalidades muito marcantes.

No entanto, lentamente eles começam a se aproximar, e Capra conduz este processo com exatidão, tornando esta aproximação verossímil e praticamente inevitável – e repare a expressão de Gable quando ela coloca as mãos no peito dele no ônibus que, assim como a reação dela ao acordar, evidencia como eles gostam do contato, ainda que evitem demonstrar isso para o outro. Assim como é fácil entender porque ele é atraído por ela, também não é difícil compreender o que chama a atenção da garota, já que Gable cria um Peter estiloso, com seu charme natural sendo realçado por pequenos detalhes como o uso constante do chapéu e pela aura misteriosa conferida pela fumaça de seu charuto. Determinado a escrever sobre a aventura dela (“Vou escrever um livro sobre isso”, diz sempre que algo lhe interessa), Peter deixa claro que não é tão bom quando parece quando ameaça entregar a garota para o pai, mas este traço só enriquece o personagem e torna sua mudança de comportamento ainda mais interessante.

Arredia EllieHomem comumExpressão de GableSeu conflito de sentimentos começa a ganhar força quando ele decide ajudar Ellie a cuidar de seu dinheiro, num dos primeiros sinais de preocupação por parte dele. Com o passar dos dias, este interesse vai se tornando evidente na medida em que ambos demonstram mudanças no comportamento. Prisioneira da vida luxuosa que levava, ela se encanta com coisas simples da vida como uma música popular cantada por todos no ônibus; e Peter meio que simboliza esta mudança pra ela. Obviamente, tudo isto soa verdadeiro graças à empatia entre Gable e Colbert, que mantém uma dinâmica muito boa e carregam a narrativa com facilidade.

Mas “Aconteceu Naquela Noite” se beneficia também dos excelentes momentos de bom humor espalhados pela narrativa, como o passageiro que ronca e o que fala sem parar no ônibus, a sequência em que Peter e Ellie roubam o carro do homem que roubava quem pedia carona (uma ousadia para a época) e a hilária cena em que Peter explica sua teoria dos polegares pedindo carona, na qual Ellie encontra uma solução prática que realça o lado sensual de sua personagem, também evidenciado em outros momentos como quando ela pendura as roupas no cobertor que separa as camas deles – uma barreira física que simboliza muito bem a tensão sexual existente entre eles. Aliás, Capra procura valorizar sua atriz em diversos momentos, utilizando o rack focus nos closes em seu rosto, numa técnica que era muito usada para amenizar imperfeições na pele das atrizes.

Esta, no entanto, é uma das raras técnicas utilizadas por Capra que chamam a atenção, já que o diretor preza pela discrição adotando poucos movimentos de câmera inventivos e preferindo os planos estáveis que, reforçados pela iluminação da fotografia de Joseph Walker, buscam valorizar os atores, tornando raros os movimentos mais ousados como o travelling que acompanha Ellie indo do quarto para o banho pelo ambiente externo; mas, por outro lado, criando cenas visualmente belíssimas como aquela em que as luzes refletem na água enquanto Peter e Ellie atravessam um rio durante a noite. Obviamente, a montagem de Gene Havlick é importante neste processo, surgindo igualmente discreta apesar do uso constante dos fades com deslocamento lateral da imagem.

Solução práticaCobertor que separa as camas delesPeter e Ellie atravessam um rioCapra encontra espaço ainda para uma pequena crítica social na sequência em que uma mãe passa fome com seu filho no ônibus, mas acerta mesmo na condução de cenas memoráveis, como aquela em que Peter e Ellie fingem ser um casal discutindo diante dos detetives e aquela em que Peter finge ser o sequestrador dela para protegê-la do ambicioso Oscar Shapeley (Roscoe Karns), assustando o pobre homem que desiste de seguir viagem com eles. Além disso, o diretor se sai ainda melhor nas cenas românticas, como quando eles quase se beijam deitados na palha, numa cena em que o silêncio que predomina torna tudo ainda mais interessante, acertando também na bela cena em que ela sai detrás do cobertor e se declara.

Após uma sequência de mal entendidos, “Aconteceu Naquela Noite” finalmente chega ao seu clímax, gerando um conflito que separa o casal e traz tensão à narrativa – um recurso narrativo criado na época e utilizado tantas vezes em filmes do gênero desde então que se tornou um clichê quase insuportável, mas que funciona bem aqui justamente pelo contexto histórico. Desesperado, Peter quase desiste de Ellie – e um plano do pneu de seu carro murchando ilustra perfeitamente seu sentimento diante da eminente perda da amada. Mas, pra sua sorte, uma conversa entre pai e filha antes da cerimônia de casamento com Westley não apenas confirma a inteligência e o grande coração do homem interpretado com carisma por Walter Connolly como abre caminho para que Ellie siga seu desejo, nos levando a divertida e surpreendente fuga da cerimônia que fecha tão bem a narrativa e garante o final feliz.

Comédia leve e repleta de boas atuações, “Aconteceu Naquela Noite” é um marco na história do cinema, exercendo influência num dos gêneros mais conhecidos e rentáveis de Hollywood até os dias de hoje.

Aconteceu Naquela Noite foto 2Texto publicado em 20 de Maio de 2013 por Roberto Siqueira