FARGO (1996)

(Fargo)

Videoteca do Beto #139

Dirigido por Joel Coen.

Elenco: Frances McDormand, William H. Macy, Steve Buscemi, Peter Stormare, Harve Presnell, Kristin Rudrüd, Tony Denman, Gary Houston, Bain Boehlke e Sally Wingert.

Roteiro: Ethan Coen e Joel Coen.

Produção: Ethan Coen e Joel Coen.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Mestres na arte de contar uma boa história através das câmeras cinematográficas, os irmãos Coen costumam se destacar por características muito peculiares, como a economia narrativa, as pitadas de humor negro que permeiam seus filmes e a notável capacidade de criar cenas marcantes. Tudo isso pode ser encontrado no ótimo “Fargo”, longa que certamente merece um lugar de destaque entre os inúmeros trabalhos interessantes dos Coen, o que não é pouco, considerando a vasta e qualificada filmografia da dupla.

Sob a superfície de thriller de suspense e investigação policial, o roteiro de “Fargo” (escrito, como de costume, pelos próprios Ethan e Joel Coen) narra à história do desesperado Jerry (William H. Macy), um gerente de uma revendedora de automóveis que enfrenta dificuldades financeiras e resolve planejar o sequestro da própria esposa Jean (Kristin Rudrüd). O problema é que as coisas não saem tão bem quanto o planejado e, quando os sequestradores Carl (Steve Buscemi) e Grimsrud (Peter Stormare) cometem vários assassinatos, a determinada policial Marge (Frances McDormand) começa a investigar o caso.

Responsáveis não apenas pelo roteiro, direção e produção, como também pela montagem de “Fargo” sob o nome fictício de Roderick Jaynes, os Coen confirmam a habilidade de manter o espectador atento aos intrigantes acontecimentos que se sucedem, conduzindo a narrativa de maneira direta e eficiente. Repleto de diálogos interessantes, o criativo roteiro abre um leque de possibilidades a cada instante, sempre trabalhando de maneira brilhante como o acaso influencia em nossas vidas. Só que, ao contrário dos personagens que jamais conseguem prever o que acontecerá em seguida, os Coen demonstram controle total sobre o que vemos na tela, criando momentos absolutamente eletrizantes (que voltarei a abordar em instantes) em meio ao mar de tranquilidade da pacata cidade de Brainerd. Entretanto, apesar de todo o suspense, “Fargo” também é recheado com muito humor negro, apresentando uma série de momentos hilários que servem para quebrar a tensão crescente da narrativa, como quando Jean sai correndo amarrada na chegada ao cativeiro ou na engraçada entrevista de Marge com as prostitutas.

Apostando na violência gráfica, como na cena do assassinato do policial, na entrega do dinheiro num hotel e na prisão de Grimsrud, os Coen criam uma cadeia de acontecimentos que só pioram a situação de Jerry e, justamente por mostrarem os trágicos resultados de seus atos, fazem com que o espectador se importe com o destino dos personagens. Entretanto, apesar de funcionar muito bem como thriller, “Fargo” apoia-se no humor negro para abordar outras questões, funcionando como um estudo sobre o estilo de vida daquela região peculiar dos EUA. Investindo em cores gélidas e explorando com maestria a crueza das vizinhas regiões de Minnesota e North Dakota, repletas de estradas rodeadas pela neve que se misturam à linha do horizonte e criam um visual ao mesmo tempo belo e assustador, a fotografia do ótimo Roger Deakins é crucial para ilustrar a solidão das pessoas que vivem no local. Este isolamento colabora até mesmo para aumentar a tensão em momentos chave da narrativa, como na noite dos assassinatos, onde sabemos que os inocentes que cruzam o caminho dos sequestradores raramente escaparão com vida naquela estrada fria e abandonada. Aliás, esta cena de perseguição está entre os grandes momentos do longa, fazendo o espectador grudar na cadeira enquanto acompanha seu desfecho.

Vestindo ternos sóbrios ou roupas que transmitem uma imagem austera (figurinos de Mary Zophres), os personagens de “Fargo” representam a força central da narrativa. Com seus sotaques arrastados e diálogos afiados que denunciam a maneira engraçada de falar, até mesmo coadjuvantes com pequenas participações transformam-se numa atração à parte, como o Sr. Mohra (Bain Boehlke), que nos delicia contando como ouviu do embriagado Carl onde ele estaria escondido. Por outro lado, esta graça dificilmente será percebida por um espectador que não tenha pelo menos alguma noção de inglês (seria como tentar explicar para um estrangeiro a graça de um sotaque de qualquer região do Brasil).

Divertida também é a atuação de Peter Stormare como Grimsrud, o parceiro mudo e ameaçador de Carl – que, como de costume, é interpretado com maestria por Steve Buscemi, um verdadeiro especialista na arte de viver criminosos. Surgindo frágil e hesitante na maior parte do tempo, o Jerry do ótimo William H. Macy parece incapaz de se impor em qualquer diálogo, parando de falar ao menor sinal de que será interrompido e gaguejando diversas vezes, num claro sinal de falta de confiança que o ator demonstra muito bem. Este sentimento, aliado à determinação do personagem de buscar uma saída para cada obstáculo que surge (e são muitos), é essencial para o desenvolvimento da narrativa, já que raramente podemos prever os próximos passos do personagem. Mas se todo o elenco tem um ótimo desempenho, o grande destaque é mesmo Frances McDormand, que confere enorme carisma e uma simplicidade desconcertante à Marge, uma mulher grávida de sete meses que se dedica ao trabalho e a família com a mesma intensidade, chamando a atenção sempre que entra em cena graças também ao ótimo desempenho da atriz. É ela quem acalma o espectador com seu raciocínio simples e sua forma direta de resolver os problemas, algo que fica claro, por exemplo, em sua visita ao escritório de Jerry e em sua conversa com um velho amigo da faculdade.

E voltamos então aos momentos eletrizantes, marca registrada dos Coen que não poderia faltar em “Fargo”. Entre tantos grandes momentos, vale destacar a excelente cena do sequestro, na qual vemos Jean paralisada diante da imagem do sequestrador que olha pela janela pra dentro da casa. Repare como Joel conduz a cena com precisão, investindo no humor negro para aliviar a tensão – afinal, só mesmo num filme dos Coen um sequestrador andaria calmamente pela casa procurando uma pomada enquanto a vítima, após tentar se esconder, sai enrolada numa cortina e se estatela no chão. Igualmente, a forma como o grandalhão Grimsrud tenta se desvencilhar do corpo do comparsa no terceiro ato chega a ser simultaneamente cômica e trágica.

O que nunca é trágico é o resultado do trabalho dos Coen, que, mesmo quando não acertam em cheio, conseguem realizar ótimos filmes. Quando estão inspirados então, o resultado só pode ser espetacular, e é isto que acontece em “Fargo”, um filme tenso e divertido, que conta com um elenco talentoso para se tornar um dos melhores exemplos do que os Coen são capazes.

Texto publicado em 28 de Outubro de 2012 por Roberto Siqueira

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PULP FICTION – TEMPO DE VIOLÊNCIA (1994)

(Pulp Fiction)

 

Videoteca do Beto #105

Dirigido por Quentin Tarantino.

Elenco: John Travolta, Samuel L. Jackson, Uma Thurman, Bruce Willis, Harvey Keitel, Tim Roth, Ving Rhames, Eric Stoltz, Rosanna Arquette, Christopher Walken, Maria de Medeiros, Steve Buscemi, Quentin Tarantino, Amanda Plummer e Joseph “Joe” Pilato.

Roteiro: Quentin Tarantino, baseado em história de Roger Avary e Quentin Tarantino.

Produção: Lawrence Bender.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Goste ou não de Quentin Tarantino, todo cinéfilo concorda: seu estilo de fazer cinema é bastante original. Profundo conhecedor e amante da sétima arte, o diretor investe na subversão de gêneros (ao mesmo tempo em que os homenageia), revelando a influência de grandes diretores do passado em seu trabalho. Além disto, Tarantino trouxe a tona o culto ao popular, ousando misturar elementos narrativos clássicos com referências à cultura pop, sempre com uma abordagem que varia entre o realista e o hiper-realista, recheada por diálogos deliciosos e espontâneos. E esta nova forma de fazer cinema chegou ao auge logo em seu segundo longa-metragem, o excelente “Pulp Fiction”, que ainda resgatou o astro John Travolta após anos de ostracismo.

Os criminosos profissionais Jules (Samuel L. Jackson) e Vicent Vega (John Travolta) saem para fazer uma cobrança em nome do traficante Marcellus (Ving Rhames). Vicent está preocupado, porque a noite deverá acompanhar a esposa do chefe, Mia (Uma Thurman). Enquanto isso, o boxeador Butch (Bruce Willis) deverá perder uma luta, para cumprir um acordo com Marcellus e sair rico da cidade.

“Pulp Fiction” começa num pequeno restaurante, com um casal conversando sobre a vida criminosa que pretende abandonar. Em instantes, eles anunciam um assalto, e a trilha sonora indica o começo do filme. Este interessante prólogo é então deixado de lado, e voltará à tona somente nos instantes finais da narrativa. Misturando com perfeição os elementos narrativos que já utilizara em seu filme de estréia (“Cães de Aluguel”), Quentin Tarantino alcança o ápice neste “Pulp Fiction”, com seus costumeiros diálogos ágeis e deliciosos sobre coisas do cotidiano, que nem sempre colaboram para o andamento da trama, mas sempre chamam a atenção do espectador, como na conversa entre Vicent e Jules sobre as diferenças entre EUA e Europa e sobre o McDonald’s. Tarantino também aborda a vida criminosa de maneira diferente do usual, auxiliado pela trilha sonora pop e empolgante, pela montagem não cronológica e dividida em capítulos – que prende a atenção da platéia – e pela narrativa que foge da tradicional causa e efeito que normalmente motiva os personagens, mantendo o foco na situação em que os eles estão envolvidos em detrimento dos objetivos de cada um. Em “Pulp Fiction”, a força do acaso em nossas vidas também ganha destaque, através de situações inesperadas que alteram o destino de todos envolvidos, como o fato de Marcellus cruzar o farol bem na frente do carro de Butch, que levará os dois a serem seqüestrados por estupradores e à redenção de Butch diante do traficante.

Obviamente, Tarantino conta muito com o excelente trabalho da montadora Sally Menke, que divide a narrativa em capítulos bem definidos, em ordem não cronológica, ajudando a criar a atmosfera mais realista pretendida pelo diretor através de cenas extensas, com poucos cortes, que confirmam a preferência dele já indicada no filme anterior. Além disso, Menke e Tarantino mostram inteligência ao esticar as histórias que envolvem Vicent e Jules, encurtando a trama que envolve Butch, claramente a menos atraente do roteiro. Escrito pelo próprio Tarantino (baseado em história dele com Roger Avary), o roteiro de “Pulp Fiction” usa artifícios interessantes, como o “macguffin” representado pela maleta de Marcellus, que, seguindo o mais puro sentido do termo popularizado por Hitchcock, não tem função narrativa alguma a não ser guiar os personagens na trama. Personagens, aliás, que falam a linguagem das ruas, cheia de palavrões e até mesmo preconceito contra estrangeiros, confirmando a abordagem realista que aproxima o espectador. E não posso deixar de citar os maravilhosos diálogos que se espalham pela narrativa, confirmando a criatividade de Tarantino, que cria situações muito interessantes, por exemplo, ao discutir algo banal como uma massagem no pé.

O longa ainda aborda com naturalidade o uso de drogas, mostrando os personagens usando cocaína e heroína, sem aliviar também nos efeitos deste uso, como quando Vicent vai buscar Mia, com os olhos praticamente fechados e um largo sorriso no rosto, claramente transformado (a trilha e a câmera lenta ilustram a sensação de relaxamento do personagem). Tudo isto, somado à fotografia natural de Andrzej Sekula, reforça a abordagem realista e ambienta o espectador ao mundo do crime. Sekula até chega a criar um visual estilizado, por exemplo, quando Butch visita Marcellus no bar, indicando através do tom vermelho a violência que predomina naquele meio, mas, em geral, a fotografia é mais crua e próxima da realidade. Realidade que nem sempre está presente, pois Tarantino também foge da abordagem realista, por exemplo, quando Mia faz um quadrado no ar e um efeito visual representa o quadrado na tela.

Além do excelente roteiro, Tarantino também mostra talento na condução da narrativa, conferindo um visual rico ao longa, além de constantemente fazer referências ao passado, seja dele próprio (o plano de dentro do porta-malas quando Vicent e Jules pegam as armas remete ao plano de “Cães de Aluguel” em que o policial é retirado do carro), seja do cinema em geral (na fuga de Butch, Tarantino homenageia uma velha técnica, o back projection, com o carro parado e as imagens movendo ao fundo). Além disso, o plano-seqüência que acompanha Vicent pelo “Jackrabbit Slim’s” serve como homenagem às estrelas do cinema dos anos 50, revelando os cartazes e as próprias atendentes locais, em outro momento de imersão na cultura pop, reforçado pela trilha sonora diegética com clássicos do período. Em outros momentos, Tarantino usa a handycam para conferir realismo às cenas, como quando Marcellus atira em Butch em plena luz do dia e quando Butch se dirige ao apartamento onde matará Vicent. Aliás, impressiona também a ausência de policiais e a predominância de cenas diurnas, o que confirma a subversão do cinema de gênero pretendida pelo diretor (nos filmes de crime, normalmente o visual é mais obscuro e os policiais estão no encalço dos criminosos). Finalmente, Tarantino não desvia a câmera nos momentos violentos e nem mesmo quando Mia confunde heroína com cocaína, mostrando o resultado trágico da droga na moça. O desespero toma conta da tela, Vicent sai em disparada para tentar salvá-la e o hiper-realismo novamente entra em cena. Neste momento, o espectador sente um misto de euforia e angústia, provocado pela mistura de humor negro e realismo, reforçado pela handycam utilizada na casa de Lance (Eric Stoltz). Quando Mia levanta gritando após a injeção de adrenalina, o hiper-realismo volta e o espectador ri. Este é o cinema de Tarantino. Por outro lado, este estilo cinematográfico dificilmente envolve a platéia emocionalmente, pois os personagens são praticamente caricaturas, o que é um ponto negativo em sua filmografia, mas que em “Pulp Fiction” funciona bem, dada a abordagem afastada da realidade em diversos momentos, como a citada “ressurreição” de Mia.

Com seu visual sensacional (figurinos de Betsy Heimann), que faz alusão aos anos 50, Vicent Vega – e suas roupas descoladas – e Jules – com seu cabelo “black power” – são personagens fascinantes, interpretados com grande carisma por John Travolta e Samuel L. Jackson. Apresentando um impressionante entrosamento, eles formam uma adorável dupla de criminosos, que tem um curioso código moral, revelado no diálogo que antecede a invasão de um apartamento. Para eles, é vital seguir o horário combinado, como se um ou dois minutos fossem extremamente importantes. Para Vicent, uma simples massagem no pé soaria como desrespeito ao chefe. Mas, para ambos, matar um inimigo de Marcellus a queima roupa é simplesmente normal. Travolta também demonstra com competência a aflição de Vicent por ter que sair a noite com Mia, aflição que só aumenta ao ouvir as risadas dos amigos quando ele pergunta se ela é bonita. As risadas se justificam quando surge a sensual e divertida Mia, interpretada pela ótima Uma Thurman. Demonstrando empatia com Travolta, Thurman está bem solta no papel. Na memorável cena em que eles dançam twist, além do desempenho marcante da dupla e da música empolgante (“Never can tell”, de Chuck Berry), o espectador que conhece um pouco da história do cinema sente uma ponta de nostalgia ao ver novamente John Travolta dançando, num momento que extrapola o filme e deixa a platéia em êxtase. Recheada de músicas marcantes, a trilha sonora ainda apresenta a bela “Girl, you’ll be a woman soon”, de Bruce Springsteen, numa cena em que Thurman novamente se destaca, dançando solta e cantarolando a música desafinada, ao mesmo tempo em que Travolta também dá um show, olhando para o espelho e treinando o autocontrole para evitar se envolver com a mulher do chefe.

Citar todos os nomes do elenco é até desnecessário diante de tantos bons atores que aparecem no longa. Mas alguns merecem destaque especial, como Christopher Walken, que tem uma pequena e estupenda participação ao contar a história do “Relógio de Ouro”. Já Bruce Willis, com seu jeito bruto e ameaçador, se sai muito bem como o boxeador Butch, se destacando em alguns momentos especiais, como a revolta de Butch ao saber que Fabienne (Maria de Medeiros) esqueceu o relógio de ouro, o olhar frio antes de matar Vicent, seu espanto ao ver Marcellus cruzar o farol e, principalmente, o momento surreal em que ele escolhe a arma antes de salvar Marcellus. Butch ainda é o autor de uma das frases marcantes do excelente roteiro – só que o seu “Zack is dead, baby” soa bem em inglês, mas perde a graça em português. E apesar de curtas, as participações de Tarantino, como Jimmy, e principalmente de Harvey Keitel, como Wolf, são excelentes, com o segundo exibindo a costumeira segurança e uma expressão ameaçadora, que confere credibilidade e respeito ao personagem.

Keitel e Tarantino surgem no último capitulo da narrativa. Repleto de humor negro e diálogos sarcásticos, “A situação de Bonne” conta com a cena mais violenta e engraçada do longa, que é o tiro acidental de Vicent em Marvin, mas é também o capitulo em que Jules escapa milagrosamente da morte, o que promove uma transformação no criminoso, que passa a acreditar na “intervenção divina” em sua vida. Esta interessante visão contrasta com a de seu colega Vicent, que vê no acaso a explicação para o que aconteceu. Bastante polêmica, esta discussão ideológica deixa a cargo de cada espectador tirar alguma conclusão. Após acompanhar todas estas histórias paralelas, o espectador se vê novamente no mesmo restaurante do início. Novamente, o grito de Honey Bunny (Amanda Plummer) ecoa em todo local e Pumpkin (Tim Roth) começa a recolher as carteiras, aterrorizando quase todas as pessoas presentes. “Quase” todas, porque o agora regenerado Jules está lá, sentado, com a arma na mão e a misteriosa maleta de Marcellus Wallace na mesa, enquanto Vicent está no banheiro, lendo uma revista tranqüilamente. E apesar de exagerar em alguns momentos anteriormente, Samuel L. Jackson está perfeito na cena final, demonstrando segurança e autoridade enquanto conversa com os assaltantes e explica a razão de sua regeneração. E assim como Leone fazia com maestria no western spaghetti, Tarantino conduz a cena com a costumeira habilidade, mantendo a tensão simplesmente ao prorrogar ao máximo o confronto (que, neste caso, sequer acontece), com os personagens mantendo as armas apontadas uns para os outros, como ele também fizera em “Cães de Aluguel”. Nada acontece de fato, mas a tensão que domina a cena é suficiente para nos deixar em transe.

Com seu visual estilizado, diálogos inesquecíveis, narrativa envolvente e cenas marcantes, “Pulp Fiction” marcou época e confirmou que Tarantino era o sopro de criatividade que faltava em Hollywood. Embalado por uma trilha sonora empolgante e por atuações inspiradas de um elenco excepcional, o longa revigorou o cinema dos anos 90, inspirando muitos trabalhos que surgiriam a seguir. Não foi apenas Jules que saiu regenerado, a própria Hollywood parece ter escapado milagrosamente de alguns tiros a queima roupa.

Texto publicado em 15 de Julho de 2011 por Roberto Siqueira

CÃES DE ALUGUEL (1992)

(Reservoir Dogs)

 

Videoteca do Beto #82

Dirigido por Quentin Tarantino.

Elenco: Harvey Keitel, Tim Roth, Michael Madsen, Steve Buscemi, Chris Penn, Lawrence Tierney, Kirk Baltz, Edward Bunker e Quentin Tarantino.

Roteiro: Quentin Tarantino.

Produção: Lawrence Bender.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Violência gráfica, narrativa não-linear, diálogos triviais e repletos de referências a cultura pop, trilha sonora de extremo bom gosto e atuações de grande nível. Todas as marcas registradas do cinema diferente e criativo de Quentin Tarantino podem ser percebidas em “Cães de Aluguel”, excelente filme que marcou a estréia de um dos diretores mais influentes da década de 90.

Seis criminosos profissionais são reunidos por Joe Cabot (Lawrence Tierney) para assaltar uma loja de joalherias que receberia uma valiosa carga de diamantes. Inesperadamente, algo dá errado e dois deles morrem quando os policiais cercam o local, mas todos os outros conseguem fugir. Mr. Orange (Tim Roth), ferido, é levado por Mr. White (Harvey Keitel), e em seguida Mr. Pink (Steve Buscemi) chega ao galpão onde todos combinaram de se encontrar, revoltado com a possibilidade de alguém ter traído o grupo. O último a chegar é Mr. Blonde (Michael Madsen), que provocou a ira dos parceiros ao começar a atirar durante o assalto por que algum funcionário da loja disparou o alarme. Caberá a Eddie (Chris Penn) tentar apaziguar a situação, mas o clima de desconfiança aumenta a cada minuto que passa.

Quentin Tarantino é certamente um dos diretores mais influentes dos últimos anos, imprimindo sua marca registrada em todos os seus filmes e conquistando fãs em cada canto do planeta. Reconhecidamente um grande diretor, Tarantino demonstra, no entanto, ainda mais talento como roteirista, algo notável desde este trabalho de estréia. Repleto de diálogos ágeis sobre coisas do cotidiano, humor negro e até mesmo piadas racistas, o roteiro de “Cães de Aluguel” chama a atenção justamente por conferir um realismo singular à narrativa, que definiu os padrões do cinema contemporâneo ao misturar elementos narrativos clássicos com diversas referências à cultura pop, a começar pelo divertido diálogo sobre as músicas da Madonna, passando pela constante menção ao programa de rádio “K-Billy, o som dos anos 70” e chegando até mesmo a citar “o quarteto fantástico”. Além disso, o fato dos personagens falarem de maneira informal, com muitos palavrões e piadas de humor negro, os torna ainda mais reais, aproximando-os do espectador, que se identifica com aqueles diálogos corriqueiros, afinal de contas, nós também passamos o dia comentando coisas banais. Só que em determinados momentos, a face criminosa de todos eles vem à tona (o que os diferencia da maioria dos espectadores), como no curioso diálogo entre Mr. White e Mr. Pink (“Matou alguém?”; “Tiras”; “Não matou pessoas de verdade?”; “Não, só tiras”), que revela também o lado ético daqueles “profissionais” do crime, revoltados com a morte de uma jovem de 20 anos. E os próprios codinomes dos personagens demonstram a criatividade de Tarantino, utilizando cores para evitar que eles se identifiquem e corram o risco de entregar os colegas numa eventual prisão.

Outra característica marcante do cinema de Tarantino que também surge pela primeira vez em “Cães de Aluguel” é a narrativa não-linear, sempre dividida em capítulos, que abusa dos flashbacks, neste caso para mostrar como cada integrante foi contratado por Joe. E se a estrutura narrativa não-linear normalmente prende a atenção do espectador, o vigor com que Tarantino conduz a trama desde o primeiro momento, quando sua câmera inquieta gira em torno da mesa e nos aproxima daquele grupo de criminosos, torna o longa ainda mais interessante. Os movimentos de câmera, aliás, confirmam o talento do diretor, como podemos notar no plano que se inicia num chão de banheiro, mostrando o lixo e a sujeira do local, seguido por um travelling que nos leva ao final do corredor onde Mr. White e Mr. Pink conversam, diminuindo os personagens na tela e ilustrando o quanto eles estavam perdidos naquele momento. Em outro momento, quando Joe diz para ninguém revelar o nome, Tarantino dá um close no rosto de Mr. White, indicando que aquele personagem quebraria esta sagrada regra. E finalmente, durante a briga entre Mr. White e Mr. Pink no galpão, Tarantino emprega um zoom out que lentamente revela a presença de Mr. Blonde escorado numa parede, apenas observando toda aquela confusão. Além disso, o diretor não hesita em nos apresentar cenas extremamente violentas, mantendo o espectador sempre atento a narrativa na expectativa de que algo surpreendente possa acontecer a qualquer momento, alcançando um nível de realismo bastante ousado para a época.

Profundo conhecedor (e amante) de cinema, Tarantino sabe também que não é preciso utilizar uma montagem acelerada para manter a atenção do espectador. Desta forma, a montagem de Sally Menke utiliza poucos cortes, prolongando bastante as cenas, o que serve também para mostrar o resultado nada agradável daquele ambiente violento, como quando a câmera passeia pelos corpos caídos após a troca de tiros entre Joe, Eddie e Mr. White. O trabalho de Menke se destaca ainda na interessante seqüência em que vemos Mr. Orange decorando a história do encontro com os policiais no banheiro, quando em poucos minutos ele passa do treinamento com seu amigo policial para o momento em que fala diante de Joe, Eddie e Mr. White – e aqui vale observar a inserção de um flashback de algo que nem existiu, conferindo legitimidade a história inventada pelo personagem. E o próprio local escolhido para acolher os criminosos confere ainda mais realismo ao que se passa na tela, com as paredes descascadas e os tijolos à mostra dentro do abandonado galpão, reforçado pela fotografia crua de Andrzej Sekula, que adota um visual granulado e cores sem vida que aproximam a imagem da realidade. Por outro lado, Sekula dá vida aos tons de vermelho, aumentando o choque das cenas de violência, sempre banhadas com muito sangue. E é curioso notar como a trilha sonora diegética, recheada com excelentes músicas dos anos 70, cria um paradoxo ao associar um som agradável à violência extremamente gráfica, deixando o espectador com um sentimento misto de prazer e repulsa.

As atuações, de forma geral, são bastante convincentes e mantém o clima constante de tensão de “Cães de Aluguel”, conseguindo criar personagens ameaçadores graças à firmeza de todo elenco. Observe, por exemplo, como Keitel e Roth soam extremamente convincentes no caminho do galpão, quando Mr. Orange grita de dor e Mr. White tenta acalmá-lo. Já no galpão, Roth convence Keitel e o espectador de que ele não sabe de nada sobre o traidor, o que aumenta o choque no momento em que ele revela a verdade. Keitel, por sua vez, se sai bem nas intensas discussões com os outros integrantes do grupo, como quando parte pra cima de Mr. Blonde logo após sua chegada ao galpão ou quando defende Mr. Orange diante das insinuações de Mr. Pink, interpretado com competência por Steve Buscemi. Já Michael Madsen está assustador como Mr. Blonde, com sua voz tranqüila e um olhar calmo que personificam o verdadeiro psicopata, capaz de provocar a ira em qualquer um – repare sua expressão de cinismo ao provocar Mr. White com a frase “Vai latir o dia inteiro, cachorrinho?”. Sua insanidade vem à tona na impressionante cena da tortura do policial Marvin Nash (Kirk Baltz), onde Tarantino evita mostrar a barbárie desviando a câmera no último instante, mas faz questão de mostrar as conseqüências daquele ato insano, através do rosto desfigurado de Nash, agora sem uma das orelhas, que pode ser vista na mão de Mr. Blonde – e aqui o diretor não resiste ao seu característico humor negro, personificado na brincadeira de Mr. Blonde com a orelha do rapaz. Observe ainda como a cena é pontuada pela deliciosa música tocada no rádio, dando uma estranha sensação de prazer ao espectador enquanto este assiste aquela repugnante cena de tortura. Através de um plano-seqüência, Tarantino ainda acompanha Mr. Blonde enquanto ele caminha tranquilamente pra buscar gasolina no carro, voltando ao galpão em seguida para incendiar o policial. Mas em outro momento surpreendente, Mr. Orange salva Marvin com tiros repentinos e revela que ele é o policial infiltrado no grupo. E fechando os destaques do elenco, Chris Penn e Lawrence Tierney também estão ótimos como Eddie e Joe, demonstrando entrosamento com Mr. Blonde na cena do escritório, mas mostrando-se firmes quando necessário, principalmente após tudo dar errado no assalto. Tierney se destaca ainda quando Joe passa as instruções para o grupo, em outro momento inspirado pelos afiados diálogos de Tarantino, que resultam na engraçada discussão a respeito dos codinomes de cada um. Já Penn se destaca quando Eddie fica furioso após Mr. Orange matar Mr. Blonde, expondo com competência a fúria do personagem.

“Cães de Aluguel” apresenta ainda duas seqüências marcantes, daquelas capazes de tirar o fôlego do espectador. A primeira delas é o flashback dos momentos anteriores e seguintes ao crime (o assalto em si nunca é mostrado), revelando como Mr. Orange foi atingido por uma civil e apresentando o momento em que ele chama Mr. White de Larry, num minuto de fraqueza que impediria o parceiro de levá-lo ao hospital posteriormente. Já o outro momento de extrema tensão acontece quando Eddie, Joe e Mr. White apontam as armas entre eles, resultando na morte de Eddie e Joe, na revelação da traição de Mr. Orange e na morte dos dois últimos integrantes do grupo. Estas duas cenas simbolizam a atmosfera de tensão que domina praticamente toda a narrativa.

Quentin Tarantino chamou a atenção da indústria cinematográfica ao introduzir elementos da cultura pop, misturados à violência extrema e realista, num roteiro coeso e inventivo que resultou neste intrigante “Cães de Aluguel”, um verdadeiro sopro de criatividade no cinema dos anos 90, que influenciou muito do que aconteceu nos anos seguintes.

Texto publicado em 09 de Janeiro de 2011 por Roberto Siqueira