ERA UMA VEZ NO OESTE (1968)

(Once Upon a Time in West) 

5 Estrelas

 

Obra-Prima

 

Videoteca do Beto #7

Dirigido por Sergio Leone.

Elenco: Henry Fonda, Charles Bronson, Claudia Cardinale, Jason Robards, Gabriele Ferzetti, Frank Wolff, Paolo Stoppa, Jack Elam, Woody Strode, Keenan Wynn e Lionel Stander. 

Roteiro: Sergio Donati e Sergio Leone, baseado em estória de Dario Argento, Sergio Leone e Bernardo Bertolucci. 

Produção: Fulvio Morsella.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Obra superior de um dos maiores diretores que já existiram no cinema mundial, Era uma vez no Oeste se estabelece como um festival de imagens belíssimas que narram uma história maravilhosa e emblemática, servindo de metáfora para o começo da modernização e o fim do mundo mítico do velho oeste. É um canto de despedida de personagens clássicos e de um estilo de vida característico de uma época distinta da sociedade americana. Nas palavras de um personagem em certo momento do filme, é algo que tem a ver com a morte (“Something to do with death”).

Um irlandês visionário compra uma propriedade afastada da cidade em um local que viria a ser no futuro a rota da estrada de ferro. Em virtude do lugar estratégico que se instalou, ele e toda sua família são assassinados por um matador de aluguel. O que ninguém sabia é que este homem havia se casado há pouco tempo atrás com uma prostituta de New Orleans que acaba de chegar à cidade e que passa a ser defendida por um misterioso homem solitário.

Com sua costumeira habilidade e perfeccionismo para construir cenas antológicas, Leone inicia o filme mostrando uma velha estação, protegida por um senhor de idade e uma índia. A trilha sonora sempre competente de Ennio Morricone cede lugar aqui ao som de um moinho de vento que, auxiliado pela lentidão da construção da cena, ajuda a criar um clima crescente e insuportável de tensão. As gotas caindo no chapéu de um pistoleiro, a mosca voando no rosto de outro e o som do telégrafo só aumentam o clima de expectativa. Quando ouvimos o barulho do trem chegando à estação já imaginamos o que está para acontecer. A excelente introdução do filme serve também para introduzir o personagem mais enigmático da narrativa: o Gaita (Charles Bronson). Sua primeira aparição já deixa bem claro para o espectador que se trata de alguém extremamente perigoso. Na cena seguinte, vemos a família que servirá de base para toda a trama e mais uma vez os momentos silenciosos falam mais que as palavras. Somente os olhares daquelas pessoas já nos indicam que algo se aproxima, o que de fato acontece minutos depois. Temos então outra excelente introdução de personagem. Observe como a câmera prolonga ao máximo o momento em que o rosto de Frank é revelado, criando uma enorme expectativa na platéia (movimento também utilizado em outra cena do filme, quando Jill abre uma porta). Além de ter muito estilo, esta introdução tem também um contexto histórico. Em uma época sem internet, as pessoas não sabiam quem faria qual papel nos filmes, e Fonda era um ator marcado por fazer papel de mocinho. Ao apresentá-lo em cena como o cruel bandido, Leone provocou um enorme choque na platéia. A cena termina com uma elipse maravilhosa que corta do som de um tiro para o som dos freios de um trem. Estes são apenas dois exemplos de mais uma espetacular direção de Sergio Leone. Ele alterna closes muito próximos dos rostos dos atores, que são capazes de revelar cada cicatriz, com planos gerais distantes que exploram muito bem as maravilhosas paisagens da região. Além da condução perfeita da narrativa, Leone abusa também da criação de planos e movimentos de câmera cheios de estilo. Em duas oportunidades Jill (Claudia Cardinale) chega à ambientes desconhecidos por ela, e o visual da cena já nos faz sentir isso. Observe como o foco se concentra no rosto da atriz e todo o ambiente atrás dela fica fora de foco. O diretor cria um contraste interessante com o ambiente em que ela está chegando, sempre filmado através de um plano geral e com foco em toda a cena, demonstrando o quanto ela está deslocada e intimidada, ao contrário das outras pessoas que já estavam ali. Leone cria ainda muitos momentos de tensão, como na cena em que a algema presa à Cheyenne (Jason Robards) é cortada.

O diretor italiano demonstra também seu talento na direção de atores, extraindo performances de alto nível. O grande destaque fica para Charles Bronson como o frio e determinado Gaita, sempre com a expressão séria e focado em seu objetivo. Suas introduções em cena com o som da gaita anunciando sua presença são maravilhosas. Henry Fonda também está muito bem como o expressivo vilão Frank. Seu olhar penetrante caiu como uma luva no personagem, que conta ainda com um jeito lento de andar, característico de quem é extremamente autoconfiante. O ponto alto da grande atuação de Jason Robards são os momentos de humor. Cheyenne é um vilão divertido e ambíguo, e Robards transmite essa idéia em muitas cenas com extrema habilidade. Sua conversa com Jill sobre a importância que tem para um trabalhador ver uma mulher linda como ela é hilária. Ele também tem um bom desempenho dramático, como na cena em que diz para Jill que ela o faz lembrar sua mãe. Sua expressão sincera é marcante e estabelece uma conexão com ela, além de conseguir respeito da parte dela. Claudia Cardinale está belíssima como Jill. Sua memorável última cena, quando ela se mistura aos trabalhadores para lhes dar água, é também extremamente simbólica. Seu olhar penetrante fascina os outros personagens, que vão descobrindo aos poucos o poder que aquela mulher tem naquele ambiente hostil. Ela é o centro da narrativa, tudo gira ao seu redor. Interessante notar como os três homens chave da trama têm alguma relação mais intima com ela de diferentes formas. O Gaita é mais violento, Frank mais romântico (com a concessão dela), e Cheyenne é mais bem humorado (e abusado também). Também merece destaque a cena em que Morton (Gabriele Ferzetti) vê o quadro do mar e sente que jamais conseguira ver o que tanto desejava, pois sabe que seu fim está próximo. Ferzetti transmite toda a angústia do personagem através do olhar triste e da respiração pausada.

O roteiro é coeso e aborda temas interessantes como a vingança e o poder do dinheiro, além de mostrar a corrupção que envolvia todo o processo de construção das ferrovias. Os deliciosos diálogos, sempre presentes nos filmes de Leone, não poderiam faltar aqui. Podemos destacar a sensacional conversa entre o Gaita e Cheyenne dentro do bar (“Eu vi três casacos como estes na estação. Dentro dos casacos haviam três homens. Dentro dos três homens, três balas.”), dois excelentes diálogos entre Jill e Cheyenne (quando ele sente que ela pensa em atacá-lo e quando ela explica porque decidiu morar no campo) e uma outra tirada sensacional que faz referência à Judas, recheada de bom humor. Temos também a seqüência em que o atendente de um bar diz que jamais gostou da idéia de morar em uma cidade grande pois prefere a vida tranqüila do campo, o que se revela uma engraçada ironia, já que aquele lugar é perigoso o bastante para não se ter uma vida tranqüila.

O filme conta também com um excelente trabalho de montagem, que permite à narrativa fluir de forma agradável e nunca arrastada. Observe as excelentes transições de planos, como na ocasião em que Cheyenne pergunta à Jill se o café dela é bom. A resposta “nada mal” vem em outra cena, com Morton fazendo uma outra pergunta a Frank. Tonino Delli Colli colabora significativamente para a criação daquele universo através de sua excelente direção de fotografia. As cores que predominam, como preto, bege e marrom, tornam ainda mais árido o ambiente. Ele também conseguiu tornar imperceptível a diferença de cor na poeira das locações, que ficavam em lugares totalmente diferentes (EUA e Espanha). Quando Jill deita em sua cama muito triste pela perda do marido, a fotografia a envolve em cores pretas, numa demonstração visual da escuridão que ela está mergulhada. O belo trabalho de direção de arte cria uma cidade em construção impressionante, vista pela primeira vez em um admirável travelling de Leone, além de cuidar de todos os detalhes dos cenários, como os envelhecidos talheres e toda a mobília da casa de Jill. Os figurinos sensacionais criam todo o ambiente característico do velho oeste, com botas, casacos e cinturões, além dos belos vestidos das mulheres. A maquiagem também é excelente, marcando aqueles rostos queimados pelo sol com perfeição. Ennio Morricone dá mais um show, compondo uma trilha sonora sensacional. Cada personagem tem sua própria e bem característica trilha. Jill tem um tema delicado e arrebatador, com uma melodia lenta e uma voz aguda. Frank tem um tema tenso, com notas pesadas e longas. O tema de Cheyenne é alegre, com notas rápidas e divertidas. Já o Gaita tem um tema sombrio, com notas contínuas e pesadas misturadas ao som de uma gaita estridente.

(se não viu o filme, pule este parágrafo) Como não poderia deixar de ser em um filme de Sergio Leone, o esperado duelo final é conduzido lentamente e com enorme brilhantismo. A câmera alterna planos gerais com closes no rosto dos atores, ao som de uma trilha primorosa que mistura os temas dos dois personagens. A movimentação é orquestrada, e eles vão se posicionando para o duelo lentamente. Os olhares fixos demonstram a tensão daquele momento e o auge acontece através de um close extraordinário que praticamente entra nos olhos do Gaita, seguido de um flash-back que explica porque ele evitou a morte de Frank antes. O prazer da vingança era o seu maior desejo. Observe que após o duelo, quando Frank é baleado, ele está numa posição de comando no plano, com a câmera filmando-o de baixo pra cima. Quando ele cai, imediatamente o Gaita assume esta posição, tomando assim o controle da situação. Frank, agora derrotado, passa a ser filmado de cima pra baixo, e seu último plano, com a gaita na boca, remete visualmente ao motivo de sua perseguição e morte. Toda esta composição visual característica de Leone demonstra sua enorme habilidade como diretor.

Os elementos característicos dos filmes dirigidos por Sergio Leone são utilizados de forma mais perfeita do que nunca nesta produção. O clima tenso e a sensação sempre presente de que aquelas pessoas dificilmente sobreviverão mantém o espectador sempre atento à narrativa. Extremamente bem fotografado e colecionando cenas inesquecíveis, Era uma vez no Oeste é uma fábula lenta e triste sobre o fim de uma era e o início de outra na sociedade americana. À chegada da ferrovia trouxe o progresso para aquelas pessoas, mas trouxe também o fim de um período memorável, recheado de personagens inesquecíveis. Todos estes elementos fazem do filme uma obra-prima marcante e eterna. 

Texto publicado em 18 de Julho de 2009 por Roberto Siqueira

Libertadores: Balanço da década

Nos anos 90 convencionou-se dizer que os times brasileiros só não eram os maiores vencedores da história da Taça Libertadores da América porque eles não davam importância pra ela nas primeiras edições. Só que a realidade não era bem essa. Com exceção do Santos, que realmente viajava pra Europa de olho na grana dos amistosos e mesmo assim venceu duas edições em 1962 e 1963, os outros times jogavam pra ganhar e inclusive tivemos um finalista logo na segunda edição da Taça (Palmeiras, em 1961). A base deste argumento era o balanço da década de 90 (quadro abaixo), já que claramente o Brasil teve um domínio no torneio durante este período.

Década de 90

Brasil                6 títulos (São Paulo 1992 e 1993, Grêmio 1995, Cruzeiro 1997, Vasco 1998 e Palmeiras 1999).

Argentina          2 títulos (Vélez Sarsfield 1994, River Plate 1996).

Paraguai           1 título (Olímpia 1990)

Chile                1 título (Colo-Colo 1991)

Década atual

Argentina          5 títulos (Boca Juniors 2000, 2001, 2003 e 2007, Estudiantes 2009).

Brasil                2 títulos (São Paulo 2005 e Internacional 2006).

Paraguai           1 título (Olímpia 2002).

Colômbia          1 título (Once Caldas 2004).

Equador            1 título (LDU 2008)

Ao encerrarmos mais uma década, na última quarta-feira, não só o quadro mudou totalmente como ainda criou um novo e preocupante panorama. Nas últimas 6 finais contra times estrangeiros, o Brasil perdeu simplesmente todas as disputas. E o mais incrível de tudo é que todas elas foram decididas no Brasil (Palmeiras 2000, São Caetano 2002, Santos 2003, Grêmio 2007, Fluminense 2008 e Cruzeiro 2009). A última vitória veio em 1999, quando o Palmeiras venceu o Deportivo Cali. O que estaria acontecendo com os times brasileiros na Taça Libertadores? A minha opinião é que existe no Brasil um pensamento coletivo de que somos os melhores do mundo no futebol, o que não é verdade. Somos muito bons sim, mas existem jogadores e times bons em outros países também. Este pensamento ajuda a provocar estas derrotas porque quando um time brasileiro precisa controlar os nervos, a pressão de “ser o melhor” joga contra. Temos que começar a reconhecer o valor dos estrangeiros também. O time do Estudiantes é bom sim, mereceu o título e temos que reconhecer isso.

E pra você, o que está acontecendo com os times do Brasil nas finais de Libertadores?

Um abraço.

Libertadores

 Texto publicado em 17 de Julho de 2009 por Roberto Siqueira

Qual o seu filme favorito?

Responder esta pergunta se tornou uma tarefa complicada pra mim nos últimos meses. Posso afirmar, com toda certeza, que o filme mais importante da minha vida é Coração Valente e vou publicar um post específico sobre isso em breve. Só que hoje eu não sei dizer se ele ainda é meu filme favorito, e a razão para isso é simples. Assisti muitos filmes que me agradaram infinitamente nos últimos dias e confesso que, no momento, o meu filme favorito é um posto ainda não ocupado, simplesmente porque estou em dúvida. Os favoritos por enquanto são: Cidadão Kane, 2001 – Uma Odisséia no Espaço e Laranja Mecânica. Mas ainda não tenho certeza qual destes será o vencedor. Vai depender de como cada um deles vai amadurecer ao longo do tempo em minha memória. Coração Valente continuará para sempre como o filme mais importante da minha vida, mas o meu filme favorito ele já não é mais.

Agora eu gostaria de saber: E pra você, qual é seu filme favorito e por quê?

Um abraço.

Texto publicado em 16 de Julho de 2009 por Roberto Siqueira

Filmes 5 estrelas

Fui questionado por algumas pessoas que acompanham meu blog porque a maioria dos filmes que eu divulguei minha crítica tem cotação boa. A explicação é bem simples. Primeiramente, neste momento em que não consigo acompanhar tão de perto os lançamentos no cinema (infelizmente!) decidi escrever sobre os filmes que vejo aleatoriamente (alugados ou em uma eventual ida ao cinema) e principalmente sobre os filmes que tenho em DVD. Ora, se o filme está na “Videoteca do Beto” é porque, salvo raras exceções, é um filme que me agrada. Estas raras exceções são filmes que comprei sem ter assistido simplesmente por algum impulso de momento ou filmes que eu tinha assistido há muito tempo e que hoje, em uma segunda assistida, podem cair em meu conceito. Além disso, como decidi rever minha videoteca em ordem cronológica, é óbvio que os primeiros filmes serão grandes clássicos do cinema, já que dificilmente um filme de 1939 sobreviveria até hoje se não estivesse nesta condição. Isto significa que os filmes mais antigos são melhores que os filmes de hoje em dia? Ou então que antigamente o cinema produzia mais filmes de qualidade que hoje? Não. O fato é que só resistem ao tempo os filmes de qualidade e, portanto, quando começo a ver minha videoteca, quanto maior a distância do filme para os dias de hoje, maior a chance de ser um filme que marcou época. Entre 1941 e 1942, por exemplo, foram produzidos muitos filmes, mas hoje só ouvimos falar de Cidadão Kane, O Falcão Maltês e Casablanca. Assim como daqui a muitos anos as pessoas se lembrarão de O Senhor dos Anéis ou Clube da Luta e sequer vão notar que um dia existiu um filme chamado A Dama na Água.

Portanto, depois de passar por este período de treinamento que eu mesmo me propus, revendo minha videoteca de forma crítica, vou começar a escrever sobre filmes mais recentes e lançamentos. Provavelmente vou passar a dar cotações mais baixas para mais filmes, já que dificilmente um ano terá somente filmes de qualidade lançados. Se tiver, vou dar nota alta com prazer. E o cinema agradecerá…

Texto publicado em 15 de Julho de 2009 por Roberto Siqueira

Futebol: A luta pela América

Amanhã Cruzeiro (Brasil) e Estudiantes (Argentina) decidirão quem é o melhor time da América do Sul no momento. Vou deixar aqui meu palpite registrado. Entendo que o Cruzeiro é mais time e conta com bons jogadores que podem desequilibrar a partida, como Kleber, Ramires, Wagner e o goleiro Fábio. O Estudiantes também é um bom time e é sempre bom ter cuidado com os perigosos times argentinos. Ano passado, venceram o Internacional dentro do Beira-Rio no tempo normal e só perderam a decisão da Copa Sul-Americana na prorrogação. Meu palpite é que com muita dificuldade, talvez até nos pênaltis, o Cruzeiro será campeão.

E pra você? Quem vence a Copa Libertadores da América 2009?

Um abraço e bom debate.

Final Libertadores 2009

 Texto publicado em 14 de Julho de 2009 por Roberto Siqueira

2001 – UMA ODISSÉIA NO ESPAÇO (1968)

(2001: A Space Odissey) 

5 Estrelas

 

Obra-Prima 

Videoteca do Beto #6

Dirigido por Stanley Kubrick.

Elenco: Keir Dullea, Gary Lockwood, William Sylvester, Leonard Rossiter, Margaret Tyrack, Robert Beatty, Sean Sullivan, Daniel Richter e Douglas Rain (voz de HAL 9000). 

Roteiro: Stanley Kubrick e Arthur C. Clarke. 

Produção: Stanley Kubrick. 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quando a famosa e poderosa trilha sonora tocou pela última vez e os créditos começaram a aparecer na tela, senti uma enorme sensação de inquietude e perturbação, misturadas a um sentimento de prazer e alegria por ter testemunhado uma obra-prima de um gênio em plena forma. 2001 – Uma Odisséia no Espaço é um filme genial, que caminha lentamente para um final capaz de criar um enorme ponto de interrogação na cabeça daqueles que não querem pensar mais a respeito do que acaram de ver. E, infelizmente, este é o perfil da maioria do público (o que explica bilheterias absurdas para filmes medíocres), que prefere narrativas mais mastigadas e óbvias por pura preguiça de pensar e refletir sobre o que assiste.

Há quatro milhões de anos, um misterioso objeto negro aparece na Terra causando furor naqueles que lá viviam. Já na era moderna, após aparecer misteriosamente no terreno lunar e ser investigado por especialistas, a conclusão é de que o objeto pode ser a chave para a descoberta de uma nova civilização fora do planeta. No século XXI, uma experiente tripulação, liderada por David Bowman (Keir Dullea) e Frank Poole (Gary Lockwood), é enviada ao planeta Júpiter para investigar a origem do misterioso objeto, viajando a bordo da nave espacial Discovery, controlada pelo computador mais perfeito do mundo, o Hall 9000 (voz de Douglas Rain).

No primeiro ato, Kubrick desenvolve lentamente e sem nenhuma palavra a base da narrativa. Com planos distantes que enquadram perfeitamente a linda paisagem (a cena do ataque da Onça é belíssima), alguns cortes secos e a utilização de fades, Kubrick representa visualmente a ascensão do homem sobre os outros animais. A cena do homem batendo com um osso em outros ossos de um animal morto representa visualmente o momento em ele já está ciente deste poder. Toda esta introdução leva a uma cena arrepiante, quando o misterioso objeto aparece no mundo do homem pré-histórico. A reação dos homens e a poderosa trilha com vozes misturadas são capazes de enlouquecer qualquer um. Este objeto será o elo de ligação da história.

Em um trabalho conjunto excepcional de direção e montagem, Kubrick cria uma elipse de milhões de anos e salta da pré-história para os anos de exploração do espaço através da queda de um osso que repentinamente é substituído por uma nave espacial. E a partir daí o filme explora o universo criado por Kubrick em um tempo onde a exploração do espaço era apenas um sonho. Incrível como ele conseguiu imaginar mecanismos tão próximos da realidade há tantos anos atrás. Todo o mundo criado, com portas automáticas, identificadores de voz, chamadas telefônicas através do espaço, movimentos de ponta cabeça entre outras coisas, é genial. O show de direção de Kubrick não para por aí. Observe por exemplo a cena em que dois funcionários revelam dados do objeto que acharam na superfície lunar. A câmera se mantém fixa dentro da nave, num plano sem cortes que torna o diálogo ainda mais interessante, pois nos permite acompanhar todos os movimentos dentro e fora da nave. Em outro momento, um astronauta está treinando dentro da nave e a câmera acompanha seus movimentos em círculos, chegando ao ponto de deixar o homem em posição vertical na tela. A coleção de planos criativos é tão grande que fica até cansativo citar todos eles. Temos momentos em que os personagens estão de ponta cabeça, temos o ponto de vista do computador Hall 9000, um plano que alinha o Sol, a Terra e a Lua, e tudo isto demonstra a genialidade de Kubrick ao nos jogar pra dentro da viagem pelo espaço com extrema elegância.

As atuações de todo o elenco são muito competentes. Com expressões sempre sérias e focadas, eles transmitem com sucesso ao espectador a importância da missão em que estão envolvidos. Keir Dullea é o grande destaque como o inteligente David Bowman. Preste atenção na cena em que ele tenta recuperar um colega perdido no espaço. Seu movimento brusco dos ombros pra cima e pra baixo demonstra a respiração ofegante e a tensão que ele está vivendo naquele momento. Gary Lockwood também tem boa atuação como Frank Poole, o parceiro de David. Observe como os dois conseguem transmitir através do tom de voz a preocupação eminente de ambos com as respostas do computador Hall 9000 às perguntas que eles fazem. Já Douglas Rain consegue dar vida ao computador Hall 9000 através de uma voz serena e ao mesmo tempo firme, que insinua em diversos momentos as intenções obscuras da máquina. Hall passa a sensação em certos momentos de que tem sentimentos próprios, como se fosse um ser humano, ou pelo menos um ser com vida.

Todo o trabalho técnico do filme é espetacular. A começar pelos efeitos visuais que nos dão à sensação de estarmos realmente explorando o espaço, quando na verdade o filme foi feito em estúdios. O trabalho se torna ainda mais espetacular se pensarmos que em 1968 o homem ainda não tinha realizado este feito. Kubrick criou todo aquele universo somente com sua imaginação. Através dos movimentos da nave e das pessoas fora da gravidade e da visão da Terra sob o ponto de vista de uma nave espacial podemos ter a exata noção da precisa visão que ele tinha do espaço. A fotografia destaca cores brancas criando uma atmosfera tranqüila no inicio da missão. Observe como as cores vão aparecendo na medida em que o filme avança para o momento mais tenso, destacando o amarelo primeiramente para gradualmente chegar ao vermelho. E finalmente, quando David está em seu momento de maior raiva, a fotografia destaca o vermelho, numa demonstração visual inteligente do sentimento do personagem. O som também merece destaque, participando decisivamente da narrativa em diversos momentos. Repare como o som da respiração de um astronauta é repentinamente cortado na cena em que ele é atacado, acompanhado de um movimento incomum de uma cápsula espacial, nos antecipando o que estava acontecendo sem a necessidade de palavras. O som da respiração, aliás, é inteligentemente utilizado para nos demonstrar quando os astronautas estão tensos (ofegantes) e quando estão tranqüilos (respiração mais pausada e longa). A estupenda maquiagem em David, demonstrando seu envelhecimento ao viajar pelo espaço, também merece destaque. Assim como toda a direção de arte e figurinos, que criam um mundo totalmente verossímil no espaço sideral, prestando atenção aos mínimos detalhes como a bandeja de alimentação dos astronautas e as roupas especiais que estes utilizam para sair da nave.

O filme aborda ainda temas interessantes como o confronto homem versus máquina e o sigilo máximo adotado pelas pessoas responsáveis quando o assunto é relacionado à vida inteligente fora do planeta, buscando evitar um pânico geral nos habitantes da Terra. Além disso, o festival de imagens belíssimas de naves bailando no espaço, ao som de músicas clássicas de valsa e balé, cria imagens difíceis de serem apagadas de nossa memória. É o cinema em seu estado mais puro, onde as imagens falam por si só. Como se não bastasse, Kubrick ainda criou uma obra enigmática. O final do filme é tão complexo que muitas pessoas sequer se esforçam em tentar interpretar o filme, concluindo precipitadamente que se trata de uma obra falha ou confusa. Muito pelo contrário, a quantidade enorme de possibilidades de interpretação que o filme abre em sua conclusão faz dele uma obra de arte, onde cada espectador tira suas próprias conclusões.

Após uma série de acontecimentos inesperados, o filme caminha para este final tão genial quanto perigoso, onde a minha perturbação citada no inicio do texto se justifica. (e a partir de agora, peço que se você ainda não viu o filme, pule para o último parágrafo). Após sobreviver ao ataque surpresa e assustador do computador Hall 9000, David se aproxima do planeta Júpiter para finalmente revelar o segredo do misterioso monolito. Quando ele finalmente entra no campo espacial de Júpiter, o misterioso objeto aparece repentinamente e um festival de imagens psicodélicas, que mais lembram um clipe do Pink Floyd, começa a aparecer na tela. A sensação de estar delirando é aumentada sensivelmente pelo som que acompanha a cena, que dura um tempo considerável. Quando a viagem (literal e mental) termina, temos uma curiosa imagem, supostamente sob o ponto de vista de David, de um local vazio, claro e limpo. A fotografia destaca o branco, como se estivéssemos em um local intocado, um local puro. Mas na medida em que a cena vai progredindo, David começa a se ver mais velho em outro ponto da casa e logo em seguida, seu ponto de vista se transfere para o que ele estava vendo anteriormente. Sucessivamente, ele vai caminhando até se ver deitado em um leito de morte, muito envelhecido e praticamente imóvel. Quando seu ponto de vista muda para o da cama, ele vê o misterioso monolito à sua frente, e repentinamente se transforma em um bebê dentro de uma bolha azul. A poderosa trilha sonora tema do filme começa a tocar e o bebê aparece pela última vez olhando para o planeta Terra. Este final tão misterioso abre diversas possibilidades de interpretação. A que mais me agrada é a de que Kubrick fez um resumo genial da existência do homem no universo, dividido em quatro etapas. Na primeira delas, o foco é o surgimento do homem na terra e sua ascensão até o domínio completo deste sobre as outras espécies. Na segunda parte, o homem parte para o espaço, chegando à Lua e, portanto, dominando o território mais próximo do planeta. Na terceira etapa, o homem enfrenta sua mais inteligente criação, a máquina, e consegue vencê-la. E na última fase, a mais enigmática, o homem tenta desvendar os mistérios do universo, mas acaba sendo derrotado por ele e sua era chega ao fim. O homem se torna uma estrela, ou apenas uma parte da história, e uma nova era se inicia com outra espécie. Assim como os dinossauros, o homem teve o seu tempo de domínio e um dia deixou de existir. Acredito que o misterioso final seja uma metáfora sobre a queda do homem no universo. Mas muitas outras possibilidades existem. Teria David, ao viajar pelo espaço, acelerado seu processo de envelhecimento e chegado ao fim de sua vida, dando origem a um novo ser que seria encarnado em seguida? Seria uma ilusão ou um estado alucinatório criado em sua mente através do impacto causado no momento em que entrou na atmosfera de Júpiter? Todas estas perguntas certamente são cabíveis, mas o mais importante é que o filme gera uma discussão infinitamente maior do que a existência de vida fora do planeta.

Utilizando a parte técnica como apoio para uma narrativa genial, Kubrick cria uma obra-prima intrigante, inteligente e perturbadora, que exige muito mais do que atenção do espectador e em troca devolve muito mais do que entretenimento. 2001 – Uma Odisséia no Espaço é o cinema puro, a imagem falando no lugar das palavras e o significado delas sendo absorvido por cada espectador de uma forma diferente. Uma obra eterna de um gênio no auge de sua forma.

 

Texto publicado em 13 de Julho de 2009 por Roberto Siqueira

A importância do final do filme

Venho pensando sobre o tema há algumas semanas e decidi compartilhar com vocês. Até que ponto o final do filme é determinante para dizer se ele é bom ou não? A maioria das pessoas tem o hábito de rotular filmes como sendo bons ou ruins com base no final deles. Se o filme inteiro for interessante e o final não estiver de acordo com sua expectativa, essas pessoas têm a tendência de dizer que o filme não é bom. Já em outros casos a narrativa não é sólida, é cheia de falhas, mas o final agrada a maioria das pessoas e por isso elas dizem que o filme é bom. Por que isso acontece? Será que as horas anteriores não têm peso algum no julgamento final do filme? É óbvio que o terceiro ato tem um peso significativo na narrativa e que um final sem coerência com o restante do filme ou que não amarre as pontas soltas do roteiro comprometerá seriamente a avaliação da obra. Mas será que quando este final tem coerência, mesmo sendo desagradável de se ver, é merecedor de uma avaliação ruim?

Muita gente criticou “Onde os fracos não têm vez” por entender que o final não lhe agradou. Acontece que o final tem tudo a ver com a proposta do filme e com a mensagem que ele quer passar, tendo total coerência com o restante da narrativa. Neste caso, o final pode ser desagradável sob o ponto de vista da torcida do espectador, mas entendo ser um ótimo final de um grande filme. Já em “Jogos Mortais III”, a narrativa é cheia de falhas, os personagens são pouco verossímeis, mas o final surpreendente leva muitas pessoas a avaliar o filme como bom (não sei até que ponto é surpreendente já que a série praticamente ficou refém dos finais surpreendentes, o que acaba neutralizando o impacto do final de seus filmes). Em resumo, o debate que quero deixar aqui é: Qual o peso do final do filme na avaliação de sua qualidade?

 Um abraço e bom debate.

Texto publicado em 12 de Julho de 2009 por Roberto Siqueira

O PLANETA DOS MACACOS (1967)

(The Planet of the Apes) 

4 Estrelas

 

Videoteca do Beto #5

Dirigido por Franklin J. Schaffner.

Elenco: Charlton Heston, Roddy McDowall, Maurice Evans, Kim Hunter, James Daly, James Whitmore, Robert Gunner, Lou Wagner, Buck Kartalian, Linda Harrison, Wright King, Jeff Burton e Woodrow Parfrey. 

Roteiro: Michael Wilson e Rod Serling, baseado em livro de Pierre Boulle. 

Produção: Arthur P. Jacobs. 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Grande sucesso no final dos anos 60 e responsável por quatro continuações inspiradas nele (De Volta ao Planeta dos Macacos em 1970, Fuga do Planeta dos Macacos em 1971, A Conquista do Planeta dos Macacos em 1972 e A Batalha do Planeta dos Macacos em 1973), O Planeta dos Macacos é um filme que, embora sua narrativa competente seja suficiente para agradar, para ser completamente entendido e para que sua qualidade seja totalmente absorvida pelo espectador, deve ser corretamente contextualizado.

Um grupo de astronautas viaja pelo espaço por séculos em estado de hibernação quando acidentalmente cai em um planeta desconhecido, avariando imediatamente a nave espacial, que demonstra no visor o ano de 3978. Sem contato com a Terra e com provisão somente para três dias, eles decidem explorar o planeta para descobrir se há vida. Logo após essa introdução, somos jogados dentro de um mundo estranho e proporcionalmente assustador. Os tons em marrom captados pela excelente fotografia de Leon Shamroy e os planos gerais, que buscam destacar as gigantescas planícies desertas e os montes áridos e desocupados, nos dão a sensação de estarmos testemunhando um terreno completamente desabitado. A sensação de solidão é tão grande que os protagonistas, ao avistarem uma árvore e um lago (com um zoom deselegante de Schaffner), ignoram algo importante que haviam avistado e se jogam na água para se divertir.

A primeira aparição de vida habitada no planeta desconhecido é extremamente bem realizada por Schaffner. Enquanto vemos os astronautas caminhando, podemos perceber no segundo plano, em tamanhos minúsculos devido a distância, a presença de seres que correm para acompanhar a caminhada deles. A tensão que começa a ser criada aqui só vai terminar quando o encontro inevitável acontece, e de uma forma contrária à expectativa criada, já que os habitantes do planeta, além de apresentarem uma aparência igual à do ser humano terrestre, demonstram ser extremamente inofensivos. Quando Taylor (Charlton Heston) faz uma piada sobre dominar o planeta em breve, os verdadeiros donos daquele lugar se apresentam em uma fantástica introdução de personagens. Somente o som vindo da selva é suficiente para causar verdadeiro pânico naqueles presentes (e um grande impacto no espectador), iniciando uma das belas cenas do filme, a feroz caçada dos seres humanos. Ao aparecerem pela primeira vez, os macacos que originam o título se mostram seres extremamente avançados, montados em cavalos, com armas poderosas e se comunicando através da fala. A partir daí o filme explora com competência dois temas interessantes: o tratamento dado aos animais por nós seres humanos e o confronto ciência versus religião.

A parte técnica é o grande destaque da produção. A direção de arte, em conjunto com os figurinos, consegue criar um planeta totalmente caracterizado como o habitat dos macacos evoluídos. Observe como as casas são feitas em um formato que lembra os locais onde os macacos normalmente ficam nos zoológicos. Os seres humanos, que não têm o dom da fala, se vestem com panos rasgados e pouco coloridos, lembrando muito o homem pré-histórico. As jaulas onde estes ficam presos passam a sensação de claustrofobia que os personagens sentem, graças também à câmera sempre próxima do rosto deles. A trilha sonora oscila momentos em que ajuda a criar tensão com momentos em que não consegue criar conexão com a cena. E finalmente, o grande trabalho técnico do filme fica por conta da maquiagem. O impressionante trabalho realizado para dar veracidade aos macacos hoje pode parecer estranho, mas na época foi uma verdadeira revolução causando grande impacto e gerando inclusive um prêmio Oscar honorário ao filme, muitos anos depois. Os macacos têm os traços perfeitos, falam e tem expressões faciais, como se fossem verdadeiros macacos falantes.

As atuações de todo o elenco de apoio são competentes. Repare como os seres humanos conseguem transmitir a sensação de serem selvagens através de expressões faciais e corporais. Eles se penduram nas jaulas, chacoalham e mexem as mãos, como verdadeiros homens primatas. Já entre o elenco principal, o destaque fica para o simpático casal de macacos cientistas formado por Dr. Cornelius (Roddy McDowall) e Dra. Zira (Kim Hunter). Observe a expressão de pena no rosto de Hunter quando Taylor é preso e a reação dela ao ler a frase escrita por Taylor em um papel. Da mesma forma, McDowall expressa suas emoções conflitantes de forma brilhante ao mudar de posição sobre determinado assunto em certo momento da projeção, nos causando grande impacto. Já Charlton Heston tem uma atuação apenas razoável, se limitando a gritar e correr em diversos momentos do filme. A sua última e emocionada aparição é o ponto alto de sua atuação.

O roteiro de Michael Wilson e Rod Serling, baseado em livro de Pierre Boulle, aborda (como já citado) dois temas extremamente interessantes e delicados. O primeiro deles, menos polêmico, é uma alusão à forma brutal que o ser humano trata todo e qualquer tipo de animal aqui na terra. Ao inverter os papéis, ele nos coloca numa situação desconfortável, nos sentindo ofendidos pela forma como os seres humanos são tratados no filme. Inteligentemente, nos leva a uma série de questionamentos através da simples inversão dos papéis. Observe a forma como os humanos são caçados com redes e laços, as jaulas, a forma de alimentação e de tomar banho, a escolha arbitrária de um casal para acasalamento e a forma como os humanos são utilizados “para o bem da ciência” em estudos experimentais. Tudo isto é uma crítica pouco sutil à forma que nós agimos contra os animais aqui na terra. Já o outro tema abordado é muito mais profundo e polêmico. O filme aborda o poder que a religião tem de controlar a sociedade, demonstrando como ela pode ser perigosa quando seguida cegamente e sem questionamentos. Neste caso foi o macaco quem criou uma religião para controlar sua população, contornando e moldando o mundo em que vivem de acordo com o que lhes interessa. E aqui também existe o conflito religião versus ciência quanto à teoria da evolução, só que a teoria se apresenta de forma invertida, o que se revela uma engraçada ironia.

[se você ainda não viu o filme, pule para o próximo parágrafo] Mas é o final de O Planeta dos Macacos que causa um impacto devastador no espectador. Confesso que durante o filme identifiquei diversos problemas no mundo criado: o planeta supostamente distante tinha luz do sol, plantas, água, cavalos, bonecas e óculos. Além disso, em determinado momento questionei uma frase dita por um macaco, que faz uma piada com a palavra “terno”. Como eles conheciam a existência do terno? Mas no último plano, o filme revela um dos mais surpreendentes finais que já tive oportunidade de testemunhar, causando uma enorme subversão de expectativa e corrigindo todos os problemas que apontei acima. O inteligente final torna o planeta em questão totalmente verossímil e amarra perfeitamente o roteiro de forma mais que brilhante. Como se não fosse suficiente, ainda aponta em 1967 para algo extremamente discutido nos dias de hoje, a falta de cuidado do homem com o seu planeta.

Discutindo temas polêmicos, utilizando um visual diferente e belo e contando ainda com uma atraente narrativa, é no último ato que O Planeta dos Macacos demonstra sua força de verdade, causando um forte impacto no espectador. Com inteligência e criatividade, o filme consegue prender a atenção e nos faz refletir sobre diversos temas controversos, o que é sempre agradável de se ver.

PS: Ao citar o perigo que a religião representa quando seguida cegamente e sem questionamentos, não pretendo ser interpretado como um ateu. Tenho minha fé, acredito em DEUS e no senhor Jesus Cristo. Só entendo que as pessoas jamais devem seguir qualquer religião que seja sem buscar esclarecer todas suas dúvidas e sem fazer questionamentos.

Texto publicado em 11 de Julho de 2009 por Roberto Siqueira

OSCAR 2009: QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO? X WALL.E

O primeiro prêmio que vou discutir aqui é o deste ano. Em minha opinião, o melhor filme do ano de 2008 foi Wall.E, genial obra-prima da Pixar dirigida por Andrew Stanton. Já para a Academia de Hollywood, o melhor filme do ano foi “Quem quer ser um milionário?”, de Danny Boyle.

Porque Wall.E é melhor?

Porque é uma obra mais completa, que aborda temas interessantes utilizando uma técnica impecável de direção, fotografia e efeitos sonoros, além de homenagear gênios eternos do cinema como Chaplin e Kubrick. Wall.E é mais cinema que o filme de Boyle, uma diversão inteligente que utiliza como pano de fundo uma Índia infinitamente mais bela do que a realidade apresenta. Tanto em qualidade técnica como narrativa “Wall.E” é superior à “Quem quer ser um milionário?” e pra mim se estabeleceu como a grande obra do ano passado.

Gostaria de saber sua opinião. Pra você, qual o melhor filme de 2008 e por quê?

Um abraço.

Texto publicado em 10 de Julho de 2009 por Roberto Siqueira

Ganância gera desigualdade social e violência

No último fim de semana fui visitar a casa do meu primo em Sumaré e na volta surgiu um interessante tema para debate a partir de uma afirmação que eu fiz. Entendo que a causa de muitos dos problemas sociais que enfrentamos no país vem da absurda desigual distribuição de renda que é feita no país. E de onde se origina esta má distribuição? Além dos políticos que ganham rios de dinheiro e ainda tem inúmeros benefícios, entendo que as próprias empresas são responsáveis por esta desigualdade, com políticas salariais no mínimo questionáveis. É claro que para chegar a um cargo mais alto às pessoas precisam ser competentes, se prepararem e se esforçarem bastante. Mas será que é justo um diretor de empresa ganhar 40 mil reais enquanto um peão de fábrica ou um analista ganha 1 mil ou 2 mil reais? Seria este competente diretor 40 vezes melhor que um peão ou analista? Seria seu trabalho 40 vezes mais importante que o outro? Entendo que os salários devem sim levar em conta a meritocracia e que a pessoa deva sim ir evoluindo ao longo de sua carreira, mas será que esta diferença não é grande demais? Será que se a diferença entre estes salários fosse menor o Brasil não proporcionaria maiores oportunidades e seria um pais melhor? Deixo o questionamento para que possam debater e espero gerar uma saudável e produtiva discussão.

Um abraço.

Texto publicado em 07 de Julho de 2009 por Roberto Siqueira