007 CONTRA GOLDFINGER (1964)

(Goldfinger)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #193

Dirigido por Guy Hamilton.

Elenco: Sean Connery, Gert Fröbe, Honor Blackman, Martin Benson, Harold Sakata, Tania Mallet, Shirley Eaton, Desmond Llewelyn, Bernard Lee e Victor Brooks.

Roteiro: Richard Maibaum e Paul Dehn, baseado em romance de Ian Fleming.

Produção: Albert R. Broccoli e Harry Saltzman.

007 Contra Goldfinger[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Terceiro filme da franquia, “007 Contra Goldfinger” preserva até hoje um lugar de destaque em qualquer lista dos melhores longas estrelados pelo agente secreto britânico, o que não é pouco, considerando a quantidade de bons filmes produzidos desde então. Recheado de personagens carismáticos, balanceando momentos divertidos com outros de alta tensão e engrandecido ainda por um bom vilão, o longa dirigido por Guy Hamilton conseguiu superar seus ótimos antecessores, conquistando lugar cativo no coração dos fãs da franquia.

Novamente baseado em romance de Ian Fleming, o roteiro escrito por Richard Maibaum e Paul Dehn traz James Bond (Sean Connery) sendo incumbido de investigar um excêntrico milionário conhecido como Goldfinger (Gert Fröbe), mas o seu envolvimento com a namorada do alvo acaba colocando-o em rota de colisão com o poderoso homem. Após ser capturado e preso, Bond descobre que os planos de Goldfinger são bem mais ousados do que ele imaginava anteriormente.

Seguindo a já clássica abertura em que um tiro é disparado em direção à tela, um travelling nos apresenta a bela locação da vez e nos transporta por Miami até encontrarmos James Bond recebendo uma massagem, obviamente, acompanhado de uma linda moça. No entanto, instantes depois o criativo roteiro de “007 Contra Goldfinger” já estabelece o caminho que vai seguir, apresentando o grande vilão logo de cara e sem mistério, numa quebra da estrutura adotada antes que funciona muito bem. Assim, fica evidente que os roteiristas se equilibrarão entre momentos que respeitam o padrão pré-estabelecido e outros que buscam novidades que injetem energia à franquia.

Entre as novidades, talvez a que mais chame a atenção seja a primeira aparição do Aston Martin DB-V repleto de acessórios interessantes criados pelo genial “Q”, novamente interpretado por Desmond Llewelyn. Concebidos de maneira engenhosa pelo design de produção de Ken Adam, os aparatos tecnológicos do veículo são muito criativos e permanecem atraentes ainda hoje. O inventivo roteiro traz ainda a primeira menção ao agente 008, além da célebre frase de James Bond sobre seu gosto refinado para bebidas (“Martini batido, não mexido”).

Recheado pelo típico humor irônico britânico, “007 Contra Goldfinger” não deixa de lado o que vinha funcionando até então, como as conversas cada vez mais divertidas e sarcásticas entre Bond e a secretária Moneypenny (Lois Maxwell), mantendo-se também fiel à composição do personagem através de sua paixão irresistível pelas mulheres e de sua preferência, por exemplo, pelo champanhe Dom Perignon 53. Assim, ao mesmo tempo em que delicia as novidades, o espectador aprecia as características marcantes de James Bond, jamais tendo a sensação de estar vendo outro personagem na tela. Esta sensação é reforçada pelo uso constante da trilha sonora de John Barry, que emprega variações da excelente música tema “Goldfinger”, de Shirley Bassey, para pontuar as cenas e, assim como nos filmes anteriores, inserindo esporadicamente o tema clássico composto por Monty Norman.

Também mantendo a coerência, a fotografia de Ted Moore mantém o padrão adotado até então, apostando num visual naturalista e predominantemente diurno, ainda que algumas cenas marcantes ocorram à noite, como o assassinato de Tilly (Tania Mallet) e a dinâmica perseguição de carros que a antecede. É interessante notar também como em diversos momentos temos a presença de objetos dourados em cena, como na decoração do avião que leva Bond para os EUA, no qual também as aeromoças usam roupas com tons que remetem ao vilão do longa. Estes pequenos detalhes do design de produção realçados pela fotografia servem para fixar inconscientemente na mente do espectador o perigo que ronda constantemente o protagonista.

Aston Martin repleto de acessóriosObjetos douradosHerói de carne e ossoCada vez mais a vontade na pele de James Bond, Sean Connery encarna o sujeito com a costumeira imponência, demonstrando também sagacidade, por exemplo, ao pensar rápido após ver um inimigo se aproximando através do reflexo na retina da moça que tenta beijar (!) – e é curioso notar como exageros como este jamais soam ofensivos e se tornam até mesmos charmosos pela maneira como são conduzidos pelo diretor e interpretados pelo ator. Conferindo humanidade ao personagem ao demonstrar seu conflito interno após ver a bela Tilly passar por ele de carro, equilibrando-se entre a atitude racional (continuar perseguindo Goldfinger) e a passional (ir atrás da moça), Connery evidencia também que estamos diante de um herói de carne e osso ao demonstrar medo diante da morte iminente quando Goldfinger ameaça cortar Bond com laser, numa cena muito tensa conduzida lentamente por Guy Hamilton na qual, assim como o apreensivo agente, o espectador praticamente gruda na cadeira até a conclusão da sequência.

Entre as bondgirls, o destaque fica mesmo para Honor Blackman, que compõe a bela e independente Pussy Galore com muito charme e firmeza, demorando a render-se ao charme de Bond e, justamente por isso, conquistando o galanteador agente com seu jeito descolado e a inteligência necessária para alguém que convive naquele meio repleto de homens poderosos e, ainda por cima, pilota aviões. Comandando a própria companhia aérea que, para a alegria de Bond, é composta somente por garotas, Pussy só cede quando é pega por Bond à força, num momento que foge do politicamente correto sem soar ofensivo, exatamente pela maneira como é conduzido pelo diretor e pela forma descontraída que é interpretado por Connery e Blackman.

Já as outras duas garotas de “007 Contra Goldfinger” não tiveram tanta sorte. Vivendo a primeira das irmãs que se apaixonam por Bond e são assassinadas, Shirley Eaton mal tem tempo de mostrar algo como Jill, mas ainda assim protagoniza uma boa cena quando revela a razão das vitórias seguidas de Goldfinger nas cartas, sendo dela ainda a icônica imagem da garota nua coberta pela tinta dourada. Já sua misteriosa e determinada irmã Tilly é interpretada por Tania Mallet de maneira obstinada, justificando sua postura após revelar que busca vingar a morte de Jill. No entanto, sua triste morte não apenas surpreende o espectador, como também evidencia que desta vez James Bond se encontra diante de um vilão realmente perigoso e ameaçador.

Soando inicialmente tão inofensivo inicialmente que chega a ser patético, o Goldfinger de Gert Fröbe se transforma ao longo da narrativa e se consolida como o melhor vilão da franquia até então, representando uma ameaça real ao protagonista. Poderoso, ele domina diversos negócios espalhados pelo mundo, mantendo até mesmo a máfia sob controle, como fica evidente quando ele elimina friamente alguns gângsteres de seu caminho. O mais curioso, no entanto, é que Goldfinger jamais se parece com os vilões caricatos que parecem acordar e esfregar as mãos pensando na próxima maldade que farão, soando até mesmo simpático em diversos momentos nos inúmeros diálogos que tem com Bond, que também servem para comprovar a inteligência do personagem. Observe, por exemplo, seu sorriso de canto de boca após ser elogiado por Bond, num momento sutil e muito interessante da composição de Fröbe, que, curiosamente, teve que ser dublado na versão final devido ao forte sotaque germânico. Fechando o elenco, o capanga Oddjob vivido por Harold Sakata representa outra séria ameaça, ainda que sua atuação seja extremamente caricata e destoe bastante.

Bela e independente Pussy GaloreMisteriosa e determinada TillyMelhor vilão da franquiaApós estabelecer o perigo que 007 corre e explicar detalhadamente o plano do grande vilão, o empolgante ato final começa com os aviões de Pussy Galore despejando o gás letal no forte que contém toda a reserva de ouro dos EUA. Fazendo questão de ressaltar o rosto dos parceiros de Bond no meio das vítimas, Guy Hamilton cria um plano que será essencial logo depois, quando ao ver os corpos se levantando e descobrir que eles estavam fingindo, a plateia se questiona como aquilo era possível, tendo a deliciosa tarefa de ligar os pontos e entender como James Bond havia contornado aquela complicada situação e derrotado Goldfinger. Momentos tensos como o confronto entre o exército e os comandados por Goldfinger, o duelo entre Bond e o forte Oddjob, a bomba desativada a sete segundos da explosão e a luta final entre herói e vilão no avião concluem este excelente filme de maneira empolgante.

Contando com um roteiro criativo, o carisma de seu protagonista e um vilão realmente ameaçador, além é claro de cenas marcantes e sequências empolgantes de ação, Guy Hamilton fez deste um filme superior aos anteriores, estabelecendo um padrão que seria seguido dali em diante. Aliás, justiça seja feita: “007 Contra Goldfinger” não é somente o melhor filme da franquia até então, como também é ainda hoje um dos melhores filmes do agente em seus mais de 50 anos de existência.

007 Contra Goldfinger foto 2Texto publicado em 14 de Maio de 2014 por Roberto Siqueira

MOSCOU CONTRA 007 (1963)

(From Russia with Love)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #192

Dirigido por Terence Young.

Elenco: Sean Connery, Daniela Bianchi, Pedro Armendáriz, Lotte Lenya, Robert Shaw, Bernard Lee, Eunice Gayson, Walter Gotell, Francis De Wolff, Desmond Llewelyn, Lois Maxwell, Anthony Dawson e Eric Pohlmann.

Roteiro: Richard Maibaum e Johanna Harwood, baseado em romance criado por Ian Fleming.

Produção: Albert R. Broccoli e Harry Saltzman.

Moscou contra 007[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Um ano após estrear com sucesso no cinema, o agente secreto James Bond ganhava seu segundo filme. Novamente dirigido por Terence Young e estrelado por Sean Connery, “Moscou contra 007” aposta em elementos narrativos fundamentais para o sucesso do longa anterior, estabelecendo também novos conceitos que seriam utilizados nos filmes seguintes. A diferença, no entanto, é que este segundo longa claramente apresenta um ritmo mais intenso, numa indicação sutil dos caminhos que a franquia seguiria ao longo das décadas.

Mais uma vez adaptado para a telona por Richard Maibaum e Johanna Harwood com base no romance escrito por Ian Fleming, “Moscou contra 007” traz o agente secreto James Bond (Sean Connery) numa missão em Istambul, onde ele terá que ajudar uma agente russa (Daniela Bianchi) a fugir e, de quebra, ainda poderá capturar uma desejada máquina chamada Lektor. Auxiliado pelo turco Kerim Bey (Pedro Armendáriz), ele se sai bem na missão até descobrir que na verdade está ajudando a executar o plano da temida organização SPECTRE.

Desta vez desfalcados de Berkely Mather, os roteiristas Maibaum e Harwood abusam de um artifício narrativo conhecido como dica e recompensa, com diversas ações e situações refletindo em momentos futuros da projeção, como a explicação sobre como a maleta poderia explodir se aberta incorretamente e a bota envenenada usada pelos agentes da SPECTRE, o que sempre chama a atenção do espectador mais atento, funcionando como uma piscadela que nos faz vibrar ao reconhecermos o artifício em questão. Beneficiado pelo roteiro relativamente mais elaborado, ainda que este desenvolva os personagens apenas superficialmente, desta vez o diretor Terence Young e seu montador Peter Hunt empregam um ritmo mais envolvente e dinâmico do que o adotado em “007 Contra o Satânico Dr. No”, mantendo a narrativa mais focada nos acontecimentos do que nos personagens.

Visualmente, “Moscou contra 007” também é claramente mais obscuro que seu antecessor, já que desta vez o diretor de fotografia Ted Moore aposta no predomínio de cenas noturnas e ambientes fechados para criar uma atmosfera de tensão. Além disso, a escolha de locações internacionais naturalmente belíssimas como Veneza e Istambul torna-se visualmente ainda mais interessante pela maneira como estas cidades são captadas pela fotografia de Moore, realçando em planos gerais a linda geografia local ao mesmo tempo em que nos revela detalhes obscuros, especialmente em Istambul onde acompanhamos a estrutura do subsolo, contrastando com o luxo e a beleza, por exemplo, do quarto de hotel em que Bond está hospedado. As locações internacionais, aliás, também se estabeleceriam como outra marca da franquia.

Vale destacar também a primeira aparição de Desmond Llewelyn como o genial “Q”, introduzindo pela primeira vez na franquia os famosos acessórios usados pelo agente através da maleta com diversas funções concebida pelo design de produção de Syd Cain, que acerta ainda na decoração dos cenários turcos, o que, somado aos caprichados figurinos de Jocelyn Rickards, transporta o espectador para aquele ambiente com precisão. Como curiosidade, observe ainda a máscara de disfarce facial que surge logo no início, que serviria de inspiração para outro famoso artifício usado na franquia “Missão: Impossível” muitos anos depois.

Estrutura do subsoloLuxo e belezaO genial “Q”Presença praticamente constante durante todo o longa, a trilha sonora de John Barry acerta quase sempre que utiliza o tema clássico composto por Monty Norman, pecando apenas pelo exagero que acaba desgastando um pouco a ótima composição e errando também na composição totalmente dissonante que acompanha o datado combate físico entre duas turcas na luta pelo amor de um homem. Quem também exagera é o design de som, que amplia consideravelmente o barulho natural de tapas e tiros numa tentativa de realçar o efeito daquelas ações.

Mas se tecnicamente o longa oscila, estas derrapadas são compensadas pela presença de características determinantes para o sucesso de James Bond como personagem, trazendo novamente sua inteligência e capacidade de prever situações perigosas, a elegância ao falar e andar e, obviamente, a incapacidade de resistir a belas mulheres (desta vez, até os créditos iniciais são apresentados no corpo de uma mulher). Obviamente, o talento e a imponência de Sean Connery são determinantes para que o personagem funcione tão bem, já que o ator escocês tem uma capacidade natural de transmitir segurança através da expressão corporal e da fala.

Criando boa empatia com Bond, a bela Daniela Bianchi transforma Tatiana Romanova numa moça frágil e apaixonada, jamais passando a impressão de que ela estava ali cumprindo uma missão, o que de certa forma é coerente, já que a personagem de fato se apaixona pelo agente britânico, como fica claro no ato final. Até hoje a mais nova dentre todas as bondgirls, a italiana Bianchi tinha apenas 21 anos na época do lançamento do filme e, assim como a suíça Ursula Andress em “007 Contra o Satânico Dr. No”, teve que ser dublada por causa do forte sotaque italiano falando inglês. Ainda entre os destaques do elenco, o carismático Pedro Armendáriz transforma Kerim Bey no verdadeiro braço direito de Bond na Turquia, numa atuação simpática que nos faz lamentar sua morte como se tivéssemos perdido um amigo de longa data.

E finalmente, os vilões de “Moscou contra 007” não representam uma ameaça real até os instantes finais do longa, passando quase desapercebidos não fosse pela caricatural composição de Lotte Lenya como a general russa Rosa Klebb e pela aparição misteriosa do líder da organização SPECTRE, que sequer chega a mostrar o rosto (voz de Ernest Blofeld). E nem mesmo a explosão de uma bomba no meio de um momento íntimo de Kerim Bey chega a ameaçar, provocando apenas um susto repentino no espectador. Mas este cenário muda completamente quando Robert Shaw entra em cena com seu assustador Donald Grant.

Romanova frágil e apaixonadaKerim Bey o verdadeiro braço direitoAssustador Donald GrantNum momento raro até então, a tensa sequência dentro do trem após a morte de Kerim Bey faz o espectador realmente temer pelo destino de Bond (o que é ótimo!), assim como a feroz luta entre ele e o agente da SPECTRE vivido por Shaw é claramente mais intensa e realista do que todas as outras realizadas até então. A partir daí, toda a sequência final mantém um ritmo intenso, com Bond fugindo de um helicóptero e de vários barcos até finalmente chegar a Veneza e, com a esperada ajuda de Romanova, despachar a última inimiga em seu caminho.

Mais empolgante que o longa anterior, “Moscou contra 007” é outra ótima aventura do agente britânico que, logo em seu segundo filme, já dava mostras de que tinha mesmo vindo pra ficar. Sorte nossa.

Moscou contra 007 foto 2Texto publicado em 13 de Maio de 2014 por Roberto Siqueira

007 CONTRA O SATÂNICO DR. NO (1962)

(Dr. No)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #191

Dirigido por Terence Young.

Elenco: Sean Connery, Joseph Wiseman, Ursula Andress, John Kitzmuller, Yvonne Shima, Lois Maxwell, Eunice Gayson, Zena Marshall, Jack Lord, Bernard Lee, Anthony Dawson, Colonel Burton, William Foster-Davis, Marguerite LeWars e Peter Burton.

Roteiro: Richard Mailbaum, Johanna Harwood e Berkely Mather, baseado em romance de Ian Fleming.

Produção: Albert R. Broccoli e Harry Saltzman.

007 Contra o Satânico Dr. No[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Criado pelo escritor Ian Fleming em 1953, o agente secreto 007 tornou-se febre no Reino Unido e em todo mundo. No entanto, sua primeira aparição nas telas de cinema só aconteceria em 1962, após passagens por séries de televisão e filmes feitos diretamente para a própria TV. O que os produtores Albert R. Broccoli e Harry Saltzman não sabiam era que, ao decidir levar o sedutor agente britânico para o cinema, estavam criando também uma das mais amadas, duradouras e lucrativas franquias da história da sétima arte. Com Terence Young na direção, a icônica trilha sonora composta por Monty Norman e Sean Connery no papel do astuto agente, nascia à lenda James Bond.

Adaptado para o cinema a seis mãos por Richard Mailbaum, Johanna Harwood e Berkely Mather, “007 Contra o Satânico Dr. No” traz o agente secreto James Bond (Sean Connery) durante a investigação do desaparecimento de um colega do serviço secreto britânico na Jamaica. Com a ajuda do cidadão local Quarrel (John Kitzmuller) e da jovem Honey Ryder (Ursula Andress), ele acaba descobrindo a ilha onde se esconde o temido Dr. No (Joseph Wiseman), um cientista de descendência germânico-chinesa extremamente inteligente que utiliza a radiação da região para desenvolver armas extremamente poderosas.

Estabelecendo o perigo que Dr. No representa através de seus capangas que assassinam friamente duas pessoas logo de cara, “007 Contra o Satânico Dr. No” é um exemplar genuíno do estilo marcante da série que ele próprio inaugurou, ainda que o ritmo empregado pelo montador Peter Hunt seja mais lento do que estamos acostumados nas aventuras contemporâneas. Mas se este ritmo lento jamais chega a incomodar, até porque esta é uma característica da época, as lutas corporais e a perseguição de carro na montanha soam totalmente datadas, cumprindo sua função narrativa sem grande destaque. Por outro lado, Terence Young acerta ao estender ao máximo a cena em que uma aranha anda pelo corpo de Bond, num dos raros momentos em que a tensão realmente toma conta da tela.

Os ambientes luxuosos concebidos pelo design de produção de Ken Adam tanto em Londres como na suntuosa mansão de Dr. No também criam uma atmosfera elegante e coerente com a postura do protagonista. Além disso, “007 Contra o Satânico Dr. No” tem o mérito de estabelecer características básicas da franquia que durariam décadas, começando pelo impactante tema composto por Monty Norman, identificável até mesmo por quem nunca assistiu a um filme sequer de James Bond (existe este ser?) e que se tornou clássico ao longo dos anos.

Aranha anda pelo corpo de BondSuntuosa mansãoHoney Ryder emerge da águaAlém da trilha, marcam presença também as mulheres sensuais que cruzam o caminho do agente e escancaram sua flagrante incapacidade de resistir ao charme delas. Tendo que ser dublada na pós-produção devido ao forte sotaque, a suíça Ursula Andress se destaca entre as primeiras bondgirls, criando empatia com Bond enquanto o auxilia na descoberta do esconderijo do Dr. No – e no momento em que ela conta sua história, juro que cheguei a pensar que ela poderia ser filha do grande vilão, mas descartei esta possibilidade instantes depois. A imagem de sua Honey Ryder emergindo da água é uma das mais icônicas de toda a franquia, sendo até mesmo homenageada décadas depois.

Imaginado por Ian Fleming para ser vivido por Cary Grant, James Bond ganhou vida mesmo na pele de Sean Connery, na época um ilustre desconhecido ator escocês. Alto e com seu porte físico esguio, Connery se saiu tão bem no papel que ainda hoje é o mais reverenciado intérprete de 007 no cinema. Logo em sua primeira aparição, ele surge dizendo a célebre frase “Bond. James Bond”, em outro momento icônico que ficaria marcado na história do cinema. Impondo-se naturalmente com sua postura elegante que combina perfeitamente com o classudo terno que veste, o Bond de Connery é extremamente astuto e inteligente, sendo capaz de farejar o perigo de longe, além de fugir do convencional estereótipo do “herói bonzinho” ao matar a sangue frio o geólogo Dent interpretado por Anthony Dawson.

Postura eleganteMata a sangue frio o geólogo DentMisterioso Dr. NoDiante de um herói tão competente, era necessária também a presença de um vilão que justificasse o temor gerado na plateia. Com seu nome sendo mencionado pela primeira vez já com mais de 30 minutos de projeção, o misterioso Dr. No ganha ares ainda mais ameaçadores na voz de Joseph Wiseman, que só surge em cena já no ato final, com seu rosto gélido e sua postura simultaneamente elegante e agressiva durante o ótimo diálogo no jantar com James Bond. É uma pena, portanto, que o final previsível e sem forte impacto enfraqueça um pouco este ótimo vilão.

Despretensioso e divertido, “007 Contra o Satânico Dr. No” vale muito também pela curiosidade de ser a primeira incursão de James Bond no cinema, tendo importante papel histórico nesta longa trajetória do agente secreto mais amado do planeta. Depois dele, o universo dos filmes de espionagem jamais seria o mesmo, pois agora todos já conheciam Bond. James Bond.

007 Contra o Satânico Dr. No foto 2Texto publicado em 12 de Maio de 2014 por Roberto Siqueira

VIDA DE INSETO (1998)

(A Bug’s Life)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #190

Dirigido por John Lasseter e Andrew Stanton.

Elenco: Dave Foley, Kevin Spacey, Julia Louis-Dreyfus, Hayden Panettiere, Phyllis Diller, Richard Kind, Madeline Kahn, David Hyde Pierce, Joe Ranft, Denis Leary, Bonnie Hunt, John Ratzenberger, Brad Garrett, Michael McShane e Jonathan Harris.

Roteiro: Andrew Stanton, Don McEnery e Bob Shaw.

Produção: Darla K. Anderson e Kevin Reher.

Vida de Inseto[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Em 1995, a Pixar entrou com o pé direito no mundo cinematográfico, assombrando o mundo com o revolucionário “Toy Story”. Era previsível, portanto, que o próximo projeto do estúdio viesse cercado de grande expectativa, o que talvez justifique a recepção fria de parte do público e da crítica a este divertido “Vida de Inseto”, que, numa destas coincidências que só acontecem em Hollywood, ainda teve que concorrer com o ótimo filme-gêmeo “Formiguinhaz”, da rival Dreamworks.

Escrito a seis mãos pelo co-diretor Andrew Stanton ao lado de Don McEnery e Bob Shaw, “Vida de Inseto” nos apresenta ao criativo e atrapalhado Flik (voz de Dave Foley), uma formiga inventora que se vê em apuros após derrubar toda a comida recolhida por seus companheiros que seria oferecida para os temíveis gafanhotos liderados por Hopper (voz de Kevin Spacey). Lideradas pela Princesa Atta (voz de Julia Louis-Dreyfus), as ameaçadas formigas decidem mandar Flik em busca de ajuda, visando na verdade tirá-lo do local para poderem recolher a comida em paz. Mas, para a surpresa de todos, ele retorna acompanhado de um grupo de insetos que pode ser a salvação do formigueiro.

Mantendo o padrão de qualidade ímpar das animações apresentado em seu filme de estreia, os animadores da Pixar criam um universo rico e colorido em “Vida de Inseto”, que se torna ainda mais interessante graças aos movimentos de câmera dos diretores John Lasseter e Andrew Stanton, que passeiam pelos cenários com leveza, especialmente durante as sequências de voo dos personagens. Além disso, os diretores utilizam a linguagem com propriedade e não apenas como exercício estilístico, buscando nos transmitir sensações como no zoom que realça o desespero de Flik após a aranha Rosie (voz de Bonnie Hunt) revelar que eles eram apenas insetos de circo.

Essencial na criação deste visual, a fotografia de Sharon Calahan realça o colorido das cenas dentro e fora do formigueiro, o que, por contraste, destaca cenas como a convenção dos gafanhotos num chapéu mexicano, que surge em tons áridos e amarelados que deixam o ambiente mais seco e sem vida. Da mesma forma, a primeira chegada dos gafanhotos ao formigueiro é acompanhada por um visual mais sombrio, com raros fachos de luz vazando pelo teto, numa abordagem que se repetirá de maneira ainda mais notável no clímax da narrativa.

Universo rico e coloridoDesespero de FlikConvenção dos gafanhotosEmbalado pela empolgante trilha sonora de Randy Newman, este primeiro contato entre formigas e gafanhotos, aliás, revela também o ótimo design de som, que realça o perigo que os gafanhotos representam ampliando o barulho de cada movimento deles no formigueiro, o que também ocorre no ato final, quando o som da chuva é ampliado para ilustrar o forte impacto que cada gota provoca naquele universo.

Empregando um tom de voz ameaçador, Kevin Spacey faz de Hopper um ótimo vilão, liderando os gafanhotos com autoridade durante quase toda a narrativa e assumindo o papel de antagonista com afinco, como ilustram perfeitamente os vários planos em que ele surge em frente às chamas no ato final, realçando sua natureza cruel. Além disso, seu politizado discurso sobre a diferença entre uma formiga e centenas delas provoca uma ótima reflexão sobre os métodos opressores de controle das massas.

Grande vítima da opressão, a criatividade consegue encontrar pouco espaço em ambientes dominados pelo medo, o que faz o inventivo Flik ser podado pela ignorância das demais formigas. Ganhando vida na voz de Dave Foley, Flik é o herói atrapalhado que busca redenção (“Vou encontrar os insetos mais fortes do mundo”, diz ele) e parece encontrá-la após conhecer o simpático grupo de insetos artistas de circo. Mas, quando a verdade é revelada, o divertido protagonista se vê novamente em conflito com sua própria capacidade – e o sol só volta a brilhar em “Vida de Inseto” no instante em que Flik é convencido a voltar e tentar defender o formigueiro pelos amigos circenses.

Natureza cruelHerói atrapalhadoJoaninha machoNo entanto, momentos tristes como este são raridade em “Vida de Inseto”. Quase sempre alegre e divertido, o longa traz uma série de sacadas inteligentes, como a Joaninha macho que tenta provar sua masculinidade (voz de Denis Leary), a inventiva cidade concebida pelo design de produção de William Cone, com direito a transito, um semáforo comandado por um vagalume, um mendigo e até um bar, a engraçada “La Cucaracha” tocada no encontro dos gafanhotos e os também inspirados erros de gravação que surgem nos créditos finais.

Lasseter e Stanton também trabalham muito bem na construção de cenas tensas, como no primeiro ataque do pássaro, uma sequência eletrizante que também ecoa no clímax da narrativa. Contando com o apoio do montador Lee Unkrich, eles imprimem um ritmo sempre agradável ao longa, economizando tempo em instantes como na montagem dinâmica do pássaro falso, revelada num elegante zoom out e concretizada em planos rápidos e eficientes que demonstram todo o processo de construção – e aqui vale observar o movimento de câmera que realça a folha de oferendas vazia enquanto todos admiram o pássaro, seguido pelo plano que traz uma placa com a palavra “Perigo”.

Primeiro ataque do pássaroFolha de oferendas vaziaAparição do verdadeiro pássaroApós a chegada do irritante P.T. (voz de John Ratzenberger) e a revelação que choca a população de formigas, os tons acinzentados do outono e o conflito entre Flik e sua comunidade confirmam que chegamos ao clímax de “Vida de Inseto”. Anunciando a aproximação dos gafanhotos em meio à neblina através do design de som, que realça os passos e as asas batendo com uma distorção que ilustra a ameaça que eles representam para as formigas, os diretores criam uma sequência final também empolgante, repleta de planos interessantes que nos levam ao ataque do pássaro mecânico, a aparição do verdadeiro pássaro e, posteriormente, ao esperado final feliz. E assim como ocorre em “Formiguinhaz”, um zoom out revela que toda aquela história se passa num pequeno espaço de terra.

Confirmando que a expectativa é um potencial combustível da frustração, “Vida de Inseto” está longe de ser um filme ruim, ainda que não alcance o nível de excelência de seu antecessor na quase impecável filmografia da Pixar.

Vida de Inseto foto 2Texto publicado em 21 de Abril de 2014 por Roberto Siqueira

UM CRIME PERFEITO (1998)

(A Perfect Murder)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #189

Dirigido por Andrew Davis.

Elenco: Michael Douglas, Gwyneth Paltrow, Viggo Mortensen, David Suchet, Sarita Choudhury, Michael P. Moran, Novella Nelson e Constance Towers.

Roteiro: Patrick Smith Kelly, baseado em peça de Frederick Knott.

Produção: Anne Kopelson, Arnold Kopelson, Peter Macgregor-Scott e Christopher Mankiewicz.

Um Crime Perfeito[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Refilmar um grande clássico do passado é quase sempre um grande desperdício de tempo e dinheiro em minha opinião. Ao invés de investir em versões “modernas” de filmes que já são excelentes, a indústria do cinema deveria mesmo é buscar oferecer ao público novas histórias que pudessem se transformar em filmes clássicos também. Por outro lado, refilmar um clássico é também uma oportunidade de aguçar a curiosidade das novas gerações, chamando a atenção para filmes que, talvez, muitos sequer se interessariam em conhecer, mesmo numa época em que temos fácil acesso à filmografia de diversos grandes diretores e alguns festivais homenageando filmes do passado. Dito isso, é com grande surpresa e satisfação que afirmo: “Um Crime Perfeito” é destas exceções que confirmam a regra, revelando-se uma versão bem interessante de “Disque M para Matar”, clássico inesquecível do grande mestre do suspense – curiosamente, Hitchcock teria outro grande clássico refilmado em 1998, desta vez sem a mesma eficiência.

Adaptado por Patrick Smith Kelly com base na peça de Frederick Knott que, por sua vez, serviu como base para o filme de Hitchcock, “Um Crime Perfeito” nos apresenta ao milionário Steven Taylor (Michael Douglas), um acionista da bolsa de valores que descobre que sua esposa Emily (Gwyneth Paltrow) está tendo um caso com um artista chamado David (Viggo Mortensen). Após descobrir o passado criminoso do rapaz, Steven decide fazer uma proposta milionária para que o amante mate sua mulher, mas algo inesperado coloca em risco toda a operação.

Como podemos notar, “Um Crime Perfeito” tenta reciclar aspectos pontuais de “Disque M para Matar”, trazendo a narrativa para a época atual como forma de facilitar a identificação do espectador. Construindo uma atmosfera de tensão que cresce na medida em que a situação se complica mais e mais, o diretor Andrew Davis obtém sucesso na principal missão da narrativa, chamando a atenção da plateia ainda pelas diversas reviravoltas que contribuem para deixar o espectador sempre grudado na tela.

Por outro lado, o diretor peca pela falta de sutileza em diversos momentos, como na postura desconfiada do Detetive na noite do crime e nos avisos que Steven dá para Emily sobre seus planos (“E se não houver amanhã?”, diz ele em tom ameaçador). Além disso, a sombria trilha sonora de James Newton Howard pontua praticamente todas as cenas de suspense, numa abordagem exagerada que poderia ser evitada – ao menos, a composição de Howard é inspirada e de fato realça a tensão em outros instantes, como na apresentação do bagunçado e obscuro apartamento de Steven concebido pelo design de produção de Philip Rosenberg, que cria logo de cara a atmosfera pretendida pelo diretor. E finalmente, Andrew Davis investe até mesmo em sustos baratos criados puramente através do design de som, como quando Steven surge no espelho enquanto Emily se veste no quarto, acertando ao menos ao homenagear “Disque M para Matar” através do altíssimo toque do telefone.

Visualmente, “Um Crime Perfeito” segue as convenções do gênero, primeiro com a fotografia quase sempre sombria de Dariusz Wolski, que aposta em lugares fechados e no posicionamento estratégico dos pontos de luz, como na cena da proposta em que o rosto dos personagens é parcialmente coberto pelas sombras, numa ilustração visual da personalidade de Steven e David, duas pessoas que escondem seu lado obscuro sob a faceta iluminada que demonstram diante da sociedade.

Bagunçado e obscuro apartamentoSteven surge no espelho enquanto Emily se vesteA proposta

Saindo-se outra vez bem no costumeiro papel do acionista milionário, Michael Douglas impõe respeito com sua voz firme e sua postura corporal sempre agressiva, criando um Steven ameaçador. Desconfiado desde o início, ele lentamente cede espaço para que o ciúme o consuma, demonstrando também uma habilidade ímpar para sair das complicadas situações que surgem em seu caminho após o crime dar errado. Convincente também é a atuação de Gwyneth Paltrow, que surge apaixonada e até mesmo inocente no início, mas transforma-se numa pessoa assustada e deprimida após ser atacada – e o fato dela falar o mesmo idioma do Detetive dá a sensação de que isto teria alguma importância na solução da trama, mas este artifício parece ser descartado pelo roteiro.

Ainda muito jovem, Vigo Mortesen consegue criar razoável empatia com Paltrow, criando um David sedutor e misterioso, numa composição totalmente coerente com o histórico de crimes do personagem. Demonstrando talento nos duelos verborrágicos com Douglas, Mortesen estabelece o equilíbrio de forças entre os integrantes do triângulo amoroso, o que é essencial para que a narrativa funcione tão bem. Desta forma, os três personagens demonstram forças e fraquezas suficientes para que nenhum pareça se sobressair, o que cria a atmosfera de incerteza e tensão ideal. Talvez o único ponto negativo neste aspecto seja o ciúme injustificável e pouco verossímil de David ao vê-la voltando do almoço com o marido, num comportamento que vai contra os princípios do personagem. Por outro lado, os pequenos momentos de alivio cômico funcionam muito bem, como quando Steven brinca com o fato de pagar 100 mil dólares adiantados para David (“Aposto 400 mil que você não foge”).

Steven ameaçadorApaixonada e inocenteDavid sedutor e misteriosoContando com o auxilio de seus montadores Dov Hoenig e Dennis Virkler, Andrew Davis se sai muito bem na condução das cenas chave de “Um Crime Perfeito” – e aqui evito qualquer comparação com Alfred Hitchcock, já que seria não apenas injusto, como também totalmente fora de propósito. Destacando com um plano detalhe o objeto que será essencial na cena do crime, o diretor prolonga a tensão ao máximo até que Emily atenda ao telefone (e aqui sim quem já assistiu “Disque M para Matar” fica na expectativa do ataque repentino), dando início através de um forte susto ao tenso ataque na cozinha, que passará por uma feroz luta corporal até que o mencionado objeto salve a pele dela, num desfecho previsível para o espectador mais atento, mas ainda sim interessante.

Plano detalheEmily atende o telefoneFeroz luta corporalLogo após o assassinato do invasor, alguém diz a seguinte frase na mesa em que Steven joga cartas: “Novo jogo, novo vencedor”, num tipo de sutileza sempre interessante que poderia aparecer mais vezes em “Um Crime Perfeito”. Andrew Davis se sai bem ainda na revelação de que o invasor não era David, estendendo a cena ao máximo até revelar o rosto de outra pessoa debaixo da toca, mas peca pelo exagero nos confrontos extremamente físicos que fecham a narrativa entre David e Steven e entre o casal, mas estes pecadilhos não são suficientes para derrubar a qualidade do longa.

Repaginada inferior, mas eficiente de “Disque M para Matar”, “Um Crime Perfeito” comprova que com criatividade e talento, até mesmo as refilmagens podem se tornar interessantes, desde que tragam uma nova abordagem que justifique a empreitada. É uma pena, portanto, que Gus Van Sant não tenha assistido a este trabalho de Andrew Davis antes de cometer uma heresia que deve ter revirado o mestre do suspense em seu caixão.

Um Crime Perfeito foto 2Texto publicado em 13 de Abril de 2014 por Roberto Siqueira

SHAKESPEARE APAIXONADO (1998)

(Shakespeare in Love)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #188

Vencedores do Oscar #1998

Dirigido por John Madden.

Elenco: Joseph Fiennes, Gwyneth Paltrow, Geoffrey Rush, Colin Firth, Judi Dench, Tom Wilkinson, Ben Affleck, Martin Clunes, Simon Callow, Imelda Staunton, Steven O’Donnell, Tim McMullan, Rupert Everett, Steven Beard, Antony Sher, Patrick Barlow, Sandra Reinton, Nicholas Boulton, Jim Carter e Roger Morlidge.

Roteiro: Tom Stoppard e Marc Norman.

Produção: Donna Gigliotti, Marc Norman, David Parfitt, Harvey Weinstein e Edward Zwick.

Shakespeare Apaixonado[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Num ano em que tivemos tantas produções interessantes, “Shakespeare Apaixonado” está longe de merecer todos os prêmios que recebeu, assim como Gwyneth Paltrow jamais deveria vencer o Oscar de Melhor Atriz concorrendo, entre outras grandes atrizes, com a grande atuação de Fernanda Montenegro em “Central do Brasil”. No entanto, a temporada de premiações não justifica o ódio coletivo que tomou conta de cinéfilos por todo o mundo pelo longa dirigido por John Madden. Criativo, envolvente e com ótimas atuações (sim!), a história fictícia do romance que inspirou William Shakespeare a escrever seu maior clássico é um filme delicioso, que merece ser admirado pelo que é, ou seja, um bom filme e nada mais.

Escrito por Tom Stoppard e Marc Norman, “Shakespeare Apaixonado” nos traz o famoso personagem título (Joseph Fiennes) no auge de uma crise criativa, impossibilitado de escrever sua nova peça que, inicialmente, deveria se chamar “Romeu e Ethel, a filha do pirata”. No entanto, sua inspiração volta com força total quando ele conhece a bela Viola De Lesseps (Gwyneth Paltrow), uma moça da alta sociedade com quem ele vive um intenso romance proibido, que servirá como base para o seu novo trabalho.

Extremamente bem estruturado e criativo, o roteiro de Stoppard e Norman emprega um tom de fábula à narrativa, trazendo um Shakespeare até mesmo engraçado em seu desespero diante do bloqueio criativo que o acomete. Desenvolvendo ainda outros personagens interessantes como a própria Viola e o espalhafoso, mas adorável Philip Henslowe de Geoffrey Rush, o roteiro escorrega apenas ao criar um Lord Wessex extremamente unidimensional e desprezível, deixando pouco espaço para que Colin Firth demonstre seu talento. Já Tom Wilkinson transmite toda a insegurança de Hugh Fennyman antes de sua participação na peça, num momento singelo e tocante que humaniza um personagem até então pouco significativo, enquanto Judi Dench encarna a poderosa Rainha da Inglaterra com autoridade, transmitindo segurança em cada frase pronunciada, numa participação rápida e eficiente que, ainda assim, jamais justificaria o Oscar que ela recebeu.

Espalhafoso, mas adorável Philip HensloweLord Wessex unidimensionalInsegurança de Hugh FennymanRepleto de diálogos elegantes inspirados na obra de Shakespeare, o roteiro utiliza diversos momentos do romance entre o dramaturgo e Viola como inspiração para passagens famosas da história de Romeu e Julieta, como o encontro na sacada e a noite de amor, que surgem logo após ele viver estas experiências com sua musa inspiradora. O texto faz ainda uma curiosa menção a John Webster, dramaturgo contemporâneo de William Shakespeare que se especializou em peças trágicas como “The White Devil” e “The Duchess of Malfi”.

Conduzindo esta narrativa envolvente com segurança, John Madden tem méritos ainda por tornar crível a relação central da narrativa, já que o sucesso deste romance é essencial para que “Shakespeare Apaixonado” funcione. Obviamente, a boa química entre os atores colabora muito neste sentido. Muito menos talentoso que o irmão famoso, Joseph Fiennes confere leveza e carisma ao dramaturgo, saindo-se muito bem em momentos especiais, como quando conta o final da peça num ensaio, no qual a expressão de alívio misturada com ressentimento em seu rosto transmite a satisfação do autor por ter concluído sua obra e, simultaneamente, a aflição do homem por trás do artista por estar perdendo a mulher amada.

Noite de amorDramaturgoDonzela apaixonadaMulher amada que é vivida por Gwyneth Paltrow, que se sai bem como a donzela apaixonada, pronunciando as lindas frases escritas por Shakespeare com fervor e transmitindo os sentimentos da personagem com precisão. E nem mesmo seu disfarce risível compromete sua atuação, já que a narrativa claramente brinca com este aspecto que poderia soar incômodo, como quando o barqueiro afirma que o disfarce dela “não enganaria uma criança” após revelar para Shakespeare que Thomas Kent, na verdade, é uma mulher. Completando o elenco, Ben Affleck tem uma pequena participação como Ned, que vive Mercutio na peça e é também quem sugere o famoso título “Romeu e Julieta”, enquanto Imelda Staunton vive a engraçada Ama de Viola, remetendo à atuação igualmente simpática de Pat Heywood no filme de Franco Zeffirelli.

Ajudando em nossa completa imersão naquele ambiente, a excepcional reconstituição de Londres concebida pelo design de produção de Martin Childs recria as ruas sujas da cidade com precisão e ainda cria ambientes grandiosos como os teatros e a casa de Viola, assim como a figurinista Sandy Powell capricha nas vestimentas portentosas das pessoas da alta classe, contrastando diretamente com as roupas rasgadas e maltrapilhas da fatia pobre da população, utilizando ainda vestimentas nos ensaios da peça que remetem diretamente ao citado clássico “Romeu e Julieta”, de 1968.

Disfarce risívelReconstituição de LondresVestimentas nos ensaiosAtravés da composição dos planos e da paleta de cores escolhida, Madden e seu diretor de fotografia Richard Greatrex também fazem diversas referências visuais a “Romeu e Julieta”, como na cena do baile e na conversa do casal na sacada. Explorando muito bem a beleza dos cenários, a fotografia de Greatrex se sai ainda melhor nas belas cenas noturnas, que ganham um colorido especial graças às escolhas dos diretores, como na conversa entre Shakespeare e Viola num barco, onde os rostos deles surgem iluminados enquanto o restante do plano é dominado pelas sombras. Madden também compõe belos planos na primeira noite de sexo deles, numa clássica cena de amor hollywoodiana que funciona muito bem aqui pelo carisma dos personagens e pelas escolhas estilísticas do diretor.

Ainda na parte técnica, a montagem de David Gamble confere um ritmo agradável ao longa, servindo também para escancarar a fonte de inspiração de Shakespeare ao intercalar cenas do ensaio da peça e do romance deles, numa sequência elegante que funciona ainda melhor graças à trilha sonora delicada de Stephen Warbeck. Outro momento inspirado acontece quando os atores ensaiam o duelo de espadas e são atacados pela turma do outro teatro, passando a misturar ensaio e realidade num balé coreografado com destreza pelo diretor. Nesta mesma sequência, quando Shakespeare e Viola se escondem embaixo do palco e se beijam, repare como o som ao redor praticamente some, num interessante recurso narrativo que ilustra a percepção deles naquele instante. É como se o mundo tivesse parado para que eles curtissem aquele momento.

Conversa entre Shakespeare e Viola num barcoDuelo de espadasSe escondem embaixo do palco e se beijamEmbalada por uma trilha sonora agora sombria, a tragédia toma conta da tela quando Viola descobre a existência da esposa de Shakespeare e, segundos depois, a morte de Marlowe (Rupert Everett) é anunciada, num momento chave da narrativa que começa a preparar o clímax. Esta sensação é ampliada pelo fechamento do teatro e a revelação de que ela é uma mulher no último ensaio, criando o conflito que nos levará ao desfecho empolgante de “Shakespeare Apaixonado”. Preparado com cuidado, o clímax no teatro é conduzido com precisão por John Madden e engrandecido pelas atuações apaixonadas. Assim, quando a interpretação da peça termina e os aplausos surgem efusivos após um breve silêncio, o espectador também está eufórico pela beleza do que vê na tela, num ótimo exemplo de como utilizar clichês com eficiência. Por mais previsível que seja, funciona muito bem.

O final bem amarrado ainda abre a deixa para a próxima obra de Shakespeare conhecida como “Noite de Reis” e protagonizada justamente por uma mulher chamada Viola, o que atesta a qualidade do roteiro, que aproveita muito bem a interessante ideia de misturar a obra de William Shakespeare com acontecimentos fictícios de sua vida pessoal.

Criativo, leve e muito bem interpretado, “Shakespeare Apaixonado” não é o melhor filme de 1998, mas nem por isso devemos fechar os olhos para os seus méritos. Misturando fatos e personagens reais com acontecimentos fictícios, o longa nos diverte com graça e leveza enquanto nos permite acompanhar um verdadeiro gênio em pleno processo criativo. E que sentimento pode nos dar mais inspiração do que o amor?

Shakespeare Apaixonado foto 2Texto publicado em 23 de Março de 2014 por Roberto Siqueira

O SHOW DE TRUMAN – O SHOW DA VIDA (1998)

(The Truman Show)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #187

Dirigido por Peter Weir.

Elenco: Jim Carrey, Laura Linney, Noah Emmerich, Ed Harris, Paul Giamatti, Natascha McElhone, Holland Taylor, Brian Delate, Harry Shearer, Blair Slater, Peter Krause e Philip Baker Hall.

Roteiro: Andrew Niccol.

Produção: Edward S. Feldman, Andrew Niccol, Scott Rudin e Adam Schroeder.

O Show de Truman - O Show da Vida[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Mundialmente reconhecido por seu talento como comediante, Jim Carrey encontrou em “O Show de Truman” uma das suas primeiras oportunidades de demonstrar que também poderia ser um bom ator em papéis dramáticos – ainda que, neste caso, seus engraçados trejeitos marquem presença constante, o que não ocorreria com a mesma frequência, por exemplo, no subestimado “O Mundo de Andy” e no excepcional “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”. Felizmente, Carrey aproveitou muito bem a chance, favorecido também por um roteiro extremamente criativo e pela direção dotada de grande sensibilidade de Peter Weir, num conjunto coeso que faz deste um dos grandes filmes daquele ano.

Escrito por Andrew Niccol, “O Show de Truman” nos apresenta a Truman Burbank (Jim Carrey), um homem comum que vive tranquilamente numa pequena cidade dos Estados Unidos, trabalhando como corretor de seguros e passando o restante do dia na companhia de sua esposa Meryl (Laura Linney) e de seu amigo Marlon (Noah Emmerich). O que ele não sabe, no entanto, é que sua vida é transmitida ao vivo para todo o planeta, 24 horas por dia, desde quando ele ainda era um bebê se desenvolvendo dentro da barriga de sua mãe. Idealizado pelo visionário Christof (Ed Harris), o programa se tornou um sucesso sem precedentes na história da televisão, mas as reflexões de Truman e seu desejo de conhecer outros lugares podem colocar tudo a perder.

Extremamente bem estruturado e inteligente, o roteiro de Niccol faz uma crítica frontal aos reality shows, que ainda engatinhavam na época do lançamento do filme e viriam a se tornar febre nos anos seguintes. Nem por isso, a narrativa se torna pesada, já que a abordagem leve adotada por Peter Weir praticamente transforma “O Show de Truman” numa fábula, o que é correto, já que dificilmente o programa faria tanto sucesso mundialmente se não funcionasse como uma espécie de terapia para um público que quer esquecer-se dos problemas em frente da televisão. Além da leveza, a narrativa tem também um ritmo empolgante, graças à montagem eficiente de William Anderson e Lee Smith, que inicialmente foca no cotidiano do protagonista até que, lentamente, nos apresente aos bastidores por trás daquele grande show.

Apostando em ângulos inusitados e posicionamentos de câmera que emulam o programa de televisão e suas microcâmeras escondidas, Peter Weir é bem sucedido na tarefa de estabelecer uma atmosfera leve sem que, por isso, perca o teor crítico da narrativa. Além disso, o diretor consegue extrair ótimas atuações de seu elenco, começando pelas grandes estrelas como Jim Carrey e Ed Harris e chegando aos papéis secundários como os de Noah Emmerich como o amigo Marlon e Natascha McElhone como Sylvia, a charmosa namoradinha do protagonista que é expulsa do programa, destacando-se também pelo ótimo controle da misè-en-scene, notável na precisa coordenação da movimentação dos figurantes em diversos instantes, como quando eles tentam impedir que Truman identifique seu pai (Brian Delate).

Ângulos inusitadosCharmosa namoradinhaEles tentam impedir que Truman identifique seu paiSempre sorridentes e vestidos com as roupas engomadas escolhidas pela figurinista Marilyn Matthews, os moradores locais ajudam a criar a imagem da “vida perfeita”, reforçada pelas belas casas e edifícios da cidade concebida pelo design de produção de Dennis Gassner, que mais se parece com os luxuosos condomínios que vemos em revistas. Além disso, os dias lindos e ensolarados se tornam ainda mais brilhantes nas mãos do diretor de fotografia Peter Biziou, que realça as cores das cenas diurnas e também se destaca nas noites banhadas pela lua artificial, reforçando a atmosfera fabulesca pretendida pelo diretor. E até mesmo a delicada trilha sonora de Burkhard Dallwitz trabalha neste sentido, pontuando cenas belíssimas como o encontro escondido de Truman e Sylvia na praia.

Roupas engomadasBelas casas e edifícios da cidadeNoites banhadas pela lua artificialA pureza de Truman, aliás, chega a ser tocante. Encarnando o papel com seriedade e talento, Jim Carrey aproveita sua oportunidade de ouro na carreira, compondo um personagem ingênuo, simultaneamente divertido e trágico, o que o distancia bastante dos personagens cômicos que ele havia vivido até então. Em sua envolvente busca pela verdade, Truman oscila entre o rapaz afugentado pela maneira como foi moldado naquele contexto e homem que deseja conhecer o mundo, buscando força para enfrentar seus medos – como o pavor da água provocado pelo trauma da perda do pai.

Neste confinamento, “O Show de Truman” tangencia temas polêmicos de maneira sutil, traçando um paralelo com políticas governamentais que desencorajam as pessoas que desejam sair de seus países para conhecer o mundo, em alguns casos com propagandas das belezas locais ou, como acontece aqui de maneira propositalmente exagerada, através do engraçado cartaz em que um raio parte um avião ao meio numa agência de turismo e que traz a frase: “Pode acontecer com você”.

Apresentada como Lauren até revelar seu verdadeiro nome durante o curto e quase adolescente romance que vive com Truman, a Sylvia de McElhone não aceita a manipulação do programa e tenta contar a verdade para o protagonista, sendo retirada sumariamente da produção comandada por Christof. É ela também quem escancara o debate central de “O Show de Truman”, numa discussão em rede nacional com Christof durante uma entrevista, logo após a esclarecedora sequência em que somos apresentados à história de Truman.

Ingênuo, simultaneamente divertido e trágicoPode acontecer com vocêEmoção de ChristofExalando sua costumeira autoridade, Ed Harris domina o ambiente sempre que entra em cena, compondo um personagem claramente centralizador que se coloca no papel de Deus daquele microuniverso, decidindo os destinos dos personagens, o clima e até mesmo quando começa e termina o dia – e, obviamente, o nome do personagem faz clara alusão ao nome de Cristo. No entanto, o ator foge da abordagem unidimensional ao nos fazer acreditar que Christof realmente pensa estar agindo corretamente. Durante uma conversa entre Marlon e Truman na ponte, por exemplo, acompanhamos pela primeira vez o diretor ditando as palavras no ponto para que Marlon as repita, revelando parte do mecanismo do programa para o espectador. Em seguida, Harris demonstra muito bem a emoção de Christof enquanto conduz a cena do reencontro de Truman com o pai, num momento excepcional que diz muito sobre o personagem. Ele ama aquilo acima de tudo.

Peça fundamental na engrenagem imaginada por Christof, a Meryl vivida por Laura Linney de maneira propositalmente falsa e forçada parece estar vivendo num comercial (e às vezes está mesmo!), falando com um sorriso largo no rosto e soando totalmente alheia aos conflitos internos de Truman. Ainda que penda para o overacting e torne Meryl detestável, Liney tem uma atuação coerente com a proposta da personagem, demonstrando humanidade somente quando não aguenta o tranco e quebra, gritando assustada ao ser ameaçada por Truman (“Façam alguma coisa!”, “Não é profissional!”). Enquanto isso, Noah Emmerich tem boa atuação, compondo um Marlon sereno, centrado e que funciona como o ponto de equilíbrio que mantém o “amigo” sob controle.

E por falar em controle, voltamos a Peter Weir, que conduz a narrativa com enorme segurança e precisão, sendo hábil também na construção de momentos marcantes, como aquele em que Truman começa a perceber o que acontece ao seu redor. O bom humor também encontra seu espaço, como nas engraçadas reações do público ao programa que nos faz refletir quanto ao nosso próprio comportamento diante da telinha. Somos assim? Já a sequência da fuga de Truman traz um componente de tensão que engrandece ainda mais a narrativa, com o diretor colocando o espectador na mesma posição dos personagens enquanto tentamos saber o que teria acontecido com o astro do show.

Ao descobrir seu paradeiro, a tensão também é notável no rosto do diretor de televisão vivido por Paul Giamatti e de todos aqueles presentes na sala quando Christof ordena que aumente a tempestade, saindo do controle e arriscando a vida de Truman de maneira cega, como se tivesse o direito de decidir como e quando ele deve morrer. O plano que destaca os raios solares entre as nuvens e a voz distorcida de Christof no diálogo final escancara a crítica ao dono do programa que se coloca na posição de Deus daquele universo. Ele sentia-se dono de Truman e de tudo ao seu redor.

Sorriso largo no rostoFuga de TrumanDeus daquele universoO final inteligente, com um dos vigias noturnos perguntando “onde está o Guia de TV” após o fim do programa, reforça a crítica ao espectador moderno, à maneira como a televisão trabalha na caça a audiência e também à própria mídia, que se mantém em busca da atenção do espectador, ainda que pra isto tenha que passar por cima da moral e da ética.

Antevendo os caminhos que a televisão caminharia na eterna busca pela audiência, “O Show de Truman” é uma pequena fábula sobre uma sociedade que valoriza mais a vida de uma pessoa na televisão do que aquelas que estão ao seu redor. Qualquer semelhança com os tempos em que reality shows dominam a grade de programação das principais emissoras não é mera coincidência.

O Show de Truman - O Show da Vida foto 2Texto publicado em 16 de Março de 2014 por Roberto Siqueira

O RESGATE DO SOLDADO RYAN (1998)

(Saving Private Ryan)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #186

Dirigido por Steven Spielberg.

Elenco: Tom Hanks, Adam Goldberg, Vin Diesel, Edward Burns, Tom Sizemore, Giovanni Ribisi, Barry Pepper, Matt Damon, Paul Giamatti, Ted Danson, Jeremy Davies, Dennis Farina, Max Martini, Dylan Bruno e Leland Orser.

Roteiro: Robert Rodat.

Produção: Ian Bryce, Mark Gordon, Gary Levinsohn e Steven Spielberg.

O Resgate do Soldado Ryan[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Cinco anos após abordar os efeitos trágicos do regime nazista sobre o povo judeu no belo “A Lista de Schindler”, Steven Spielberg resolveu voltar à Segunda Guerra Mundial, desta vez sob a perspectiva de soldados norte-americanos e a partir do momento chave do conflito, conhecido como o “Dia D”. No entanto, se no primeiro a abordagem era mais intimista e melancólica, desta vez o diretor foca a ação, criando cenas memoráveis enquanto acompanha uma missão de resgate no meio do combate. Semelhantes tematicamente e distantes no tom, o fato é que estes dois trabalhos servem para mostrar o talento e a versatilidade deste grande diretor.

Escrito por Robert Rodat, “O Resgate do Soldado Ryan” utiliza um longo flashback para narrar o desembarque do exército norte-americano na praia de Omaha, na França, no famoso dia 06 de Junho de 1944. Após sobreviver ao verdadeiro massacre imposto pelas metralhadoras alemãs, o capitão John Miller (Tom Hanks) é incumbido de liderar um pelotão em busca do jovem James Ryan (Matt Damon), único dentre quatro irmãos ainda vivo e, justamente por isso, escolhido para voltar para casa e amenizar parte da dor de sua mãe. O problema é que Ryan é paraquedista e seu paradeiro é incerto, o que leva os soldados a questionarem a validade daquela missão.

Ainda que tenha quase 3 horas de duração, “O Resgate do Soldado Ryan” mantém um ritmo sempre empolgante, graças a sua narrativa simples e eficiente, que não abre muito espaço para firulas desnecessárias e foca constantemente na missão daquele grupo e nos obstáculos que surgem no caminho. Para isto, Spielberg conta com a montagem intensa de seu habitual colaborador Michael Kahn, ditando este ritmo dinâmico ao intercalar as empolgantes cenas de batalha com pequenos momentos de refresco, como quando os soldados conversam na igreja ou quando eles se encontram com companheiros do exército que tentam se recuperar dos ferimentos de batalha.

Isto não impede que Spielberg crie belos momentos dominados pelo silêncio e a melancolia, como, por exemplo, na cena em que a mãe de Ryan recebe as três cartas informando a morte de seus filhos. Sem a necessidade de utilizar uma só palavra, o diretor transmite toda a carga dramática da cena, apenas pelas escolhas dos planos e pelo desempenho dos atores, numa abordagem eficiente que sequer necessitaria da trilha sonora melancólica que a embala. Hábil também na composição de planos impactantes, como o rápido plano geral que acompanha o enorme contingente norte-americano chegando ao litoral francês, Spielberg confirma sua genialidade na condução das cenas de batalha, com sua câmera instável nos colocando dentro do combate. Entre elas, é claro que se destaca a sequência de abertura, capaz de tirar o fôlego do espectador, deixando-o grudado na cadeira por mais de 20 minutos.

Mãe de Ryan recebe as três cartasEnorme contingenteInvasão à NormandiaConduzida com agilidade e extrema competência por Spielberg, a invasão à Normandia não é apenas o melhor momento de “O Resgate do Soldado Ryan”, como figura também entre os maiores momentos da carreira do diretor – o que, em se tratando de Steven Spielberg, não é pouca coisa. Colocando-nos dentro do combate através da câmera agitada (e muitas vezes subjetiva), do caprichado design de som e da montagem frenética e jamais confusa, Spielberg cria uma sequência simplesmente perfeita tecnicamente, apostando no realismo gráfico para demonstrar os violentos efeitos daquele conflito armado, espalhando corpos despedaçados pela praia e espirrando sangue por todo lado, numa abordagem corajosa e acertada que faz falta em seus trabalhos mais recentes.

Refletindo a hostilidade daquele cenário, a fotografia quase sempre acinzentada de Janusz Kaminski (outro parceiro de longa data de Spielberg) abre pouco espaço para cores mais vivas, o que não impede a criação de planos lindíssimos como quando os soldados caminham sob os raios que caem no horizonte ou no ato final quando um grupo deles conversa iluminado pelos raros raios solares que vencem o tempo nublado que paira na região. Esta abordagem torna as cenas de batalha ainda mais tensas e sufocantes, ainda mais quando reforçadas pela chuva que cai. E até mesmo em ambientes internos como numa igreja a fotografia é belíssima, permitindo que Spielberg crie planos marcantes em conversas intimistas que ressaltam o lado humano daqueles soldados.

Fotografia acinzentadaRaros raios solaresAmbientes internos como uma igrejaAo recriar com precisão os uniformes utilizados na segunda guerra mundial, os figurinos de Joanna Johnston colaboram na ambientação do espectador, assim como o ótimo design de produção concebido por Tom Sanders, que recria as armas e os equipamentos utilizados como os tanques de guerra, sendo responsável também pelos impressionantes cenários nas cidades destruídas pela guerra, como na pequena vila fictícia chamada Ramelle no ato final.

Este refinamento técnico é um dos grandes trunfos de “O Resgate do Soldado Ryan” e, neste aspecto, o espantoso design de som merece um capitulo a parte. Chamando nitidamente a atenção na sequência da invasão à Normandia, onde nos permite notar com clareza toda a gama de tiros e explosões presente naquele ambiente hostil, o meticuloso trabalho de som segue perfeito por todo o filme, seja em momentos simples como quando demonstra a doença do capitão Miller na mão através do barulho repetitivo da bússola, seja na sequência final em que novamente nos coloca dentro da batalha através do som dos tiros, tanques e gritos dos soldados. Além disso, alguns instantes merecem destaque, como quando o som simula o impacto de duas explosões no capitão Miller, colocando o espectador no lugar dele ao distorcer o som real, ou quando a câmera afunda no mar logo no início e o som dá a exata noção da agressividade do ambiente acima da água ao contrastar o silencio dentro do mar com o barulho ensurdecedor fora dele.

Mais uma vez confirmando seu talento na composição de trilhas marcantes, John Williams faz outro bom trabalho, ainda que exagere em alguns momentos em que parece ditar para o espectador o que ele deve sentir. Na maior parte das vezes, no entanto, Williams pontua as cenas dramáticas com precisão, como quando o capitão Miller finalmente revela sua origem ao pelotão e escancara sua vontade de voltar pra casa, igualando-se aos seus comandados e aproximando-se da plateia.

Naturalmente carismático, Tom Hanks compõe o capitão Miller como um líder nato, falando com segurança diante dos comandados, o que não o impede de transmitir todas as dúvidas e inseguranças que vêm com o peso de sua posição, como no tocante momento em que chora solitário após a triste morte de Wade (Giovanni Ribisi). Em certo instante, ele próprio chega a questionar à validade daquela missão, humanizando o personagem ao demonstrar uma preocupação genuína com seu pelotão. Este questionamento, aliás, por diversas vezes parte dos próprios soldados, irritados diante de uma missão nada racional que coloca em risco a vida de vários combatentes para salvar apenas um.

Repleto de atores talentosos, o grande elenco de “O Resgate do Soldado Ryan” oferece pouco espaço para que nomes como Paul Giamatti e Vin Diesel brilhem. Ainda assim, Vin Diesel confere mais carisma ao seu Caparzo em seus poucos minutos em cena do que muitos dos outros atores conseguem fazer, ainda que o relacionamento entre eles soe real na maior parte do tempo, graças aos conflitos e aos diálogos que revelam suas fraquezas e angústias, tornando-os mais humanos diante do espectador. Mas ainda que seus personagens não sejam tão bem desenvolvidos, os atores que vivem aquele grupo de soldados conseguem ao menos nos fazer acreditar naqueles jovens como indivíduos diferentes e não apenas peças de um jogo de tabuleiro, como acontece, por exemplo, com o religioso atirador Jackson vivido por Barry Pepper e com o inseguro e por vezes medroso Upham interpretado por Jeremy Davies.

Líder natoCarismático CaparzoReligioso atirador JacksonApesar de todos os questionamentos, Ryan finalmente surge no caminho do grupo de maneira casual. Quando isto acontece, observe como Spielberg demora alguns segundos antes de revelar o rosto de Matt Damon, já que somente a sua presença em cena já seria suficiente para o espectador identificá-lo como o procurado personagem. E com tão pouco tempo de tela, Damon pouco pode fazer, ainda que se saia bem na conversa com o capitão Miller sobre as lembranças da vida fora dali, num dos raros momentos em que Hanks e Damon contracenam.

Após encontrar Ryan e resolver o principal conflito da narrativa, o roteiro transforma o confronto com os alemães na ponte no grande clímax, o que até funciona corretamente, ainda que não tenha o mesmo peso da espetacular batalha de abertura. E novamente, o som tem papel fundamental, já que é ele quem anuncia a chegada dos tanques alemães ao local e dá início ao conflito extremamente realista e violento, mais uma vez filmado com destreza pela câmera agitada de Spielberg e conduzido com dinamismo pelo diretor e seu montador.

Rosto de Matt DamonConversa com o capitão MillerConfronto com os alemães na ponteTecnicamente perfeito, “O Resgate do Soldado Ryan” escorrega apenas quando tenta dizer algo sobre os horrores da guerra, abordando a questão de maneira excessivamente melodramática, como nos desnecessários instantes finais em que Ryan pergunta se sua vida valeu a pena. Por outro lado, o tocante desespero de um soldado alemão diante da morte infelizmente é jogado fora no ato final, quando o mesmo surge novamente na batalha como se nada tivesse acontecido. No entanto, estas são falhas menores que não tiram os méritos do filme.

Mais empolgante do que reflexivo, “O Resgate do Soldado Ryan” funciona muito bem ao seu modo, colocando o espectador dentro da batalha e nos fazendo sentir de perto os horrores da guerra, mesmo que, no fim das contas, tenha pouco a dizer sobre ela.

O Resgate do Soldado Ryan foto 2Texto publicado em 23 de Fevereiro de 2014 por Roberto Siqueira

MÁQUINA MORTÍFERA 4 (1998)

(Lethal Weapon 4)

3 Estrelas 

Videoteca do Beto #185

Dirigido por Richard Donner.

Elenco: Mel Gibson, Danny Glover, Joe Pesci, Rene Russo, Chris Rock, Jet Li, Steve Kahan e Kim Chan.

Roteiro: Channing Gibson.

Produção: Richard Donner e Joel Silver.

Máquina Mortífera 4[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Apostando na competente mistura de cenas de ação de tirar o fôlego com muito bom humor, a série “Máquina Mortífera” consolidou-se como uma franquia de sucesso que, obviamente, também contava com o enorme carisma de seus personagens para conquistar a plateia. No entanto, se os três primeiros trabalhos eram marcados pela eficiência e regularidade, este quarto filme traz uma leve queda neste aspecto, ainda que o tombo não seja suficiente para fazer de “Máquina Mortífera 4” um longa ruim, apenas um trabalho claramente mais preguiçoso que os anteriores.

Escrito por Channing Gibson (que não tem relação de parentesco com Mel Gibson), “Máquina Mortífera 4” nos traz os policiais Martin Riggs (Mel Gibson) e Roger Murtaugh (Danny Glover) já mais velhos e agora promovidos ao cargo de Capitão após causarem mais confusão pelas ruas de Los Angeles. O problema é que eles acidentalmente descobrem uma gangue chinesa que atua na cidade trazendo imigrantes ilegais, dando início a uma investigação que levará a novas descobertas que colocarão em perigo suas famílias e amigos, entre eles Lorna (Rene Russo), a namorada de Riggs, o falastrão Leo (Joe Pesci) e o novato Detetive Lee Butters (Chris Rock), especialmente quando se deparam com o perigoso Wah Sing Ku (Jet Li).

Logo em seus empolgantes instantes iniciais, “Máquina Mortífera 4” já deixa claro que estamos assistindo a um legítimo filme da série, nos colocando dentro da ação enquanto acompanhamos o divertido diálogo dos carismáticos personagens, numa sequência muito bem conduzida por Richard Donner e que conta ainda com o excepcional design de som para nos ambientar, permitindo distinguir a conversa em meio aos tiros e explosões com precisão. Ciente de que já somos familiarizados com os personagens e seus dramas, traumas, problemas familiares e qualidades, o roteiro economiza tempo e parte logo para a apresentação do conflito que moverá a narrativa, através da chegada dos chineses no porto.

O problema é que Channing Gibson infla demais a trama com um excesso desconfortável de personagens que busca arrumar espaço para cada estrela que compõe o elenco, se perdendo também através de “surpresas” extremamente previsíveis, como a revelação de que Butters engravidou uma das filhas de Murtaugh. Por outro lado, a mistura de humor e ação que marca toda a série aparece novamente com força, balanceada de maneira extremamente eficiente durante toda a narrativa, encontrando espaço também para criticar a exploração de imigrantes ilegais nos Estados Unidos.

Com tantos personagens, a montagem de Dallas Puett, Kevin Stitt, Eric Strand e Frank J. Urioste soa um pouco confusa em certos momentos, mas acerta ao focar a maior parte do tempo no núcleo de sucesso da série, que é a relação entre Riggs e Murtaugh. Vividos novamente por Gibson e Glover de maneira extremamente descontraída e entrosada, os dois policiais são os grandes destaques de um elenco recheado, garantindo os melhores momentos do longa através de suas brincadeiras. Com o passar dos anos e o conhecimento mútuo, a relação de amizade entre eles só melhora, e isto fica evidente em “Máquina Mortífera 4”, que traz ainda um momento marcante da série, quando Riggs finalmente diz que “está velho demais para isso”, num instante que sinaliza a nostalgia que tomará conta da tela no ato final.

Empolgantes instantes iniciaisRelação de amizade só melhoraEstou velho demais para issoE se a química entre Riggs e Murtaugh continua intacta, o mesmo pode se dizer da relação entre Riggs e Lorna, novamente interpretada por Rene Russo e agora auxiliada pelo charme que a gravidez traz. Já Joe Pesci surge ainda mais falastrão e caricato na pele do engraçado Leo, que agora ganha a companhia de outro falastrão, o nem tão engraçado Butters vivido por Chris Rock.

Lorna e o charme que a gravidez trazEngraçado LeoNem tão engraçado ButtersJá os vilões continuam sendo a pedra no sapato da série, já que novamente eles surgem enfraquecidos e raramente representam alguma ameaça aos protagonistas. Esta sensação é reforçada pelo momento em que Riggs ridiculariza quase todos eles no restaurante de Benny (Kim Chan), que serve ao menos para apresentar a rara exceção dentro daquele grupo. Obviamente, estou me referindo ao misterioso Wah Sing Ku, interpretado por Jet Li. Compondo o vilão mais perigoso de toda franquia, Li não escapa da natureza unidimensional que marca os antagonistas da série, mas ao menos consegue oferecer alguma ameaça aos protagonistas, o que claramente não acontece com os outros vilões de “Máquina Mortífera”. Inicialmente soando ameaçador somente através da expressão facial, ele apresenta o quanto é letal quando mata um integrante da gangue num telhado, demonstrando toda sua capacidade nas artes marciais.

A presença dos chineses oferece uma oportunidade para que a figurinista Ha Nguyen se divirta ao criar as típicas roupas orientais, ganhando destaque também por chamar a atenção para o contraste entre Riggs e Murtaugh, que antes associávamos às diferenças de estilo entre eles, mas agora passamos a associar ao suposto sucesso financeiro de Murtaugh que gera desconfiança em Riggs. Já a fotografia de Andrzej Bartkowiak aposta novamente em cenas diurnas e iluminadas, que contrastam com o ato final, claramente mais sombrio e banhado pela chuva (outra marca da série). E finalmente, a trilha sonora composta por Eric Clapton (sim, ele!), Michael Kamen e David Sanborn aposta novamente em toques de guitarra que remetem aos bons momentos da franquia, mas agora inova ao trazer uma composição que faz alusão à China na sequência em Chinatown, escorregando por outro lado pelo tom exagerado que emprega em certos instantes, como na chegada do navio que carrega os chineses logo no começo.

Misterioso Wah Sing KuCenas diurnasAto final sombrio e banhado pela chuvaConduzindo todo este trabalho com segurança, Richard Donner acerta novamente na criação de cenas marcantes, como a excelente perseguição de carros envolvendo um trailer numa autopista de Los Angeles, repleta de malabarismos absurdos dos personagens e conduzida de maneira ágil e nunca confusa pelo diretor. Já quando Riggs para o carro na beira do trilho do trem, a tensão toma conta da tela justamente por termos acompanhado um assassinato semelhante no início do filme – e o posicionamento idêntico da câmera ajuda nesta associação. Balanceando estes momentos de adrenalina e tensão, as cenas engraçadas surgem em profusão, mas a que mais se destaca é mesmo a hilária conversa entre Riggs, Murtaugh e Benny num consultório odontológico. E finalmente, Donner mantém-se fiel à estrutura narrativa clássica da série, nos levando ao confronto final entre Riggs e o vilão numa noite chuvosa, fotografada de maneira bem obscura para ampliar a tensão. Só que desta vez, a luta corporal conta também com a participação de Murtaugh e, obviamente, é reforçada pela presença de um oponente realmente ameaçador.

Excelente perseguição de carros envolvendo um trailerHilária conversa num consultório odontológicoConfronto final entre Riggs e o vilãoEscorregando especialmente no roteiro, “Máquina Mortífera 4” representa uma leve queda na qualidade da série, mas está longe de ser um fracasso. Ainda que falte um pouco mais de ação, a foto da “família” e a criativa apresentação dos créditos finais conferem uma atmosfera nostálgica ao desfecho do longa, garantindo o encerramento digno de uma série muito eficiente e divertida.

Máquina Mortífera 4 foto 2Texto publicado em 17 de Fevereiro de 2014 por Roberto Siqueira

FORMIGUINHAZ (1998)

(Antz)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #184

Dirigido por Eric Darnell e Tim Johnson.

Elenco: Vozes de Woody Allen, Sharon Stone, Gene Hackman, Sylvester Stallone, Danny Glover, Jennifer Lopez, Anne Bancroft, Dan Aykroyd, Christopher Walken, Paul Mazursky, Jane Curtin e John Mahoney.

Roteiro: Chris Weitz, Paul Weitz e Todd Alcott.

Produção: Brad Lewis, Aron Warner e Patty Wooton.

Formiguinhaz[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Centrado num personagem desconfortável com sua posição na sociedade, questionador e até mesmo um pouco neurótico, “Formiguinhaz” poderia tranquilamente ter sido escrito por Woody Allen. Sendo assim, nada mais natural do que escolhê-lo para dublar a voz do protagonista, numa escolha não apenas inteligente, mas vital para que a narrativa funcione tão bem. Apostando ainda em outros astros e na qualidade da animação, a Dreamworks acertou em cheio nesta aventura divertida que, de quebra, ainda provoca reflexões interessantes no espectador.

Escrito pelo trio Chris Weitz, Paul Weitz e Todd Alcott, “Formiguinhaz” nos traz o cotidiano de um formigueiro a partir do ponto de vista de Z (Woody Allen), uma formiga operária que passa a questionar a falta de individualidade de seus semelhantes dentro da Colônia, chamando a atenção da bela princesa Bala (Sharon Stone) e gerando desconforto no general Mandíbula (Gene Hackman), que comanda o exército onde atua Weaver (Sylvester Stallone), um grande amigo de Z.

A imagem de abertura de “Formiguinhaz” emula o skyline de Nova York, revelando segundo depois que na verdade estamos vendo o contorno das folhas que enfeitam o exterior do formigueiro onde se encontra o protagonista, revelado num interessante movimento de câmera que vai ao seu encontro dentro do formigueiro. A simples menção à cidade, seguida pelo tom pessimista do monólogo de Z deitado num divã, deixa claro para o cinéfilo mais ligado que este é um filme com a cara de Woody Allen.

Esta sensação é reforçada pelas constantes reflexões do personagem sobre pensamentos já arraigados em seu povo, como o de que o indivíduo tenha que ser sacrificado em prol da Colônia, além é claro dos interessantes diálogos que se tornam ainda mais atraentes graças à maneira com que as vozes famosas do elenco se entregam aos seus respectivos papéis. Conferindo às formigas rostos que remetem diretamente aos seus dubladores sem jamais perder os traços cartunescos, os animadores da Dreamworks realizam um excelente trabalho, criando ainda ambientes impressionantes dentro e fora do formigueiro que nos sugam pra dentro da narrativa.

Skyline de Nova YorkDeitado num divãIntelectual complexadoÉ interessante notar também como cada personagem adota a persona cinematográfica do astro por trás dele. Assim, temos Woody Allen na pele de um intelectual complexado, Sharon Stone como a bela que rouba o coração do protagonista, Stallone como o fortão camarada e Hackman como o general viril e cruel, além das pequenas participações de Danny Glover como um soldado amigável, Jennifer Lopez como a sensual Azteca e Anne Bancroft como a sábia Rainha – Dan Aykroyd como a abelha Chip e Christopher Walken dublando o Coronel Cutter completam os destaques do elenco.

A belaFortão camaradaGeneral viril e cruelEstabelecendo muito bem a geografia do impressionante formigueiro concebido pelo design de produção de John Bell através de movimentos de câmera elegantes, os diretores Eric Darnell e Tim Johnson exploram muito bem aquele universo, aproveitando também o ambiente externo para criar lindos planos, como durante a marcha das formigas rumo ao combate e na fuga de Z e Bala. Por outro lado, este próprio combate nos traz uma triste e forte imagem dos corpos caídos no campo de batalha, realçada pelo plano distante e silencioso dos diretores e pela fotografia totalmente sem vida. Fotografia que investe numa paleta sem muita variação de cores dentro do formigueiro para sinalizar a vida sem graça de Z ali, provocando um forte contraste com o mundo colorido que ele encontra fora da Colônia.

Impressionante formigueiroCorpos caídos no campo de batalhaMundo coloridoFinalmente, é interessante notar a bela e sutil homenagem prestada pelos diretores no quase beijo entre Z e Bala, através de um recurso técnico muito utilizado pelas atrizes da época de ouro do cinema. Trata-se do soft focus, uma distorção na lente que embaça levemente a imagem e não nos permite ver as imperfeições no rosto dela quando a câmera se aproxima, exatamente como ocorria no passado.

Outro aspecto técnico que merece destaque é o som. Observe, por exemplo, como o ótimo design de som ilustra perfeitamente o forte impacto que os pés de um ser humano provocam naquele universo, ampliando consideravelmente o volume quando ele se movimenta por ali. Já a trilha sonora também remete aos filmes de Woody Allen ao inserir um toque de jazz, mas também traz composições instrumentais interessantes, como a marcha triunfal que acompanha os soldados indo pra guerra ou a música acelerada que anuncia a presença humana em “Insetopia”.

Mas o que chama mesmo a atenção em “Formiguinhaz” são as reflexões que a narrativa provoca. Tomemos como exemplo o instante em que os operários, já inspirados por Z, questionam o trabalho e iniciam uma revolta, sendo rapidamente contidos por um discurso inflamado do general Mandíbula, numa abordagem corajosa e adulta que toca em feridas profundas da humanidade, como o nazismo, o fascismo e todos os regimes autoritários que já existiram e/ou ainda existem em nossa sociedade, provando como o povo pode facilmente ser manipulado quando não consegue pensar por si mesmo. Este ideal opressor fica ainda mais evidente no discurso em que o General fala sobre limpeza, afirmando que os mais fortes superariam os mais fracos e eliminariam o mal da Colônia. Somente este aspecto já seria suficiente para garantir pontos ao longa.

Quase beijoDiscurso inflamadoSequência final empolganteA sequência final eficiente e empolgante prende o espectador na cadeira e o último plano, além de trazer uma elegante rima narrativa com a abertura, ainda nos revela o skyline da verdadeira Nova York ao fundo e em primeiro plano o Central Park, que descobrimos ser o local onde se passa toda a narrativa. Mais Woody Allen que isso, impossível.

Apostando na temática favorita de Woody Allen, “Formiguinhaz” é uma aventura divertida, recheada de personagens carismáticos e que traz ainda reflexões interessantes provocadas pelo pensamento questionador de seu protagonista. Deslocado, inquieto e inconformado com sua posição na sociedade em que está inserido, Z pode até não ter sido criado por Woody Allen, mas se tivesse ele certamente não seria muito diferente.

Formiguinhaz foto 2Texto publicado em 10 de Fevereiro de 2014 por Roberto Siqueira