Comentários sobre o Oscar

No último domingo, comentei a cerimônia do Oscar online via Twitter. Para os leitores que não acompanharam, os comentários podem ser lidos clicando aqui. Se você ainda não é seguidor do Cinema & Debate, aproveite para juntar-se a nós no Twitter.

Também acompanhei o videocast ao vivo do crítico Pablo Villaça do site Cinema em Cena, que você também pode acessar clicando aqui. Vale destacar a reação do Pablo ao prêmio de melhor diretor, que, confesso, reflete meu estado de espírito no momento da derrota de David Fincher.

Um grande abraço e aguardem, pois a Videoteca voltará entre amanhã e domingo.

Texto publicado em 02 de Março de 2011 por Roberto Siqueira

OSCAR 2011 – Vencedores

Como sempre, a cerimônia do Oscar foi recheada de piadas sem graça, com alguns pequenos momentos de inspiração, especialmente quando Jude Law, Robert Downey Jr. e Billy Crystal subiram ao palco e salvaram os apresentadores da noite. Logo no começo, os prêmios de Direção de Arte e Fotografia indicavam uma noite não dominada por “O Discurso do Rei”, o que infelizmente não se confirmou.

Entre os destaques positivos da noite, ver “A Origem” levar quatro prêmios foi muito agradável, assim como novamente a homenagem aos que se foram no último ano foi um belo momento. Afinal de contas, John Barry, Tony Curtis, Gloria Stuart, Leslie Nielsen, Claude Chabrol, Arthur Penn e Dennis Hopper, entre outros, certamente deixaram saudades. O meu favorito da noite “A Rede Social” levou apenas montagem, roteiro adaptado e trilha sonora. Colin Firth e Natalie Portman confirmaram o favoritismo (merecido) e levaram os prêmios de melhor ator e atriz. Entre os coadjuvantes também não tivemos surpresa. Christian Bale levou por “O Vencedor” e Melissa Leo, mesmo com sua campanha nada simpática, levou o prêmio pelo mesmo filme. E finalmente, Tom Hopper (sério? mesmo?) levou melhor diretor, deixando David Fincher mais um pouco na espera. Aliás, depois de “Seven”, “Clube da Luta”, “Zodíaco” e “A Rede Social” o que mais Fincher terá que fazer para ser reconhecido pela Academia? E como previsto, “O Discurso do Rei” levou melhor filme e igualou “A Origem” com quatro estatuetas.

Não posso dizer que gostei dos premiados, mas “Touro Indomável” e “Cidadão Kane” também não levaram melhor filme. Ou seja, não é o fim do mundo.

E agora, segue a lista completa de vencedores do Oscar 2011:

Melhor filme

O Discurso do Rei

Melhor direção
Tom Hooper, O Discurso do Rei

Melhor ator
Colin Firth, O Discurso do Rei

Melhor atriz
Natalie Portman, Cisne Negro

Melhor ator coadjuvante
Christian Bale, O Vencedor

Melhor atriz coadjuvante
Melissa Leo, O Vencedor

Melhor animação
Toy Story 3

Melhor filme estrangeiro
Em Um Mundo Melhor / In a Better World (Dinamarca)

Melhor direção de arte
Alice no País das Maravilhas

Melhor fotografia
A Origem

Melhor figurino
Alice no País das Maravilhas

Melhor montagem
A Rede Social

Melhor maquiagem
O Lobisomem

Melhor trilha sonora
A Rede Social, Trent Reznor e Atticus Ross

Melhor canção
We belong together, de Toy Story 3

Melhor roteiro original
David Seidler, O Discurso do Rei

Melhor roteiro adaptado
Aaron Sorkin, A Rede Social

Melhores efeitos visuais
A Origem

Melhor mixagem de som
A Origem

Melhor edição de som
A Origem

Melhor documentário
Trabalho Interno

Melhor documentário em curta-metragem
Strangers No More

Melhor curta-metragem
God of Love

Melhor curta-metragem de animação
The Lost Thing

Um abraço.

Texto publicado em 28 de Fevereiro de 2011 por Roberto Siqueira

OSCAR 2011 – Palpites

Nunca é tarefa fácil prever os vencedores do Oscar, por mais que as premiações prévias (como o SAG e o DAG) indiquem o provável vencedor, especialmente nas principais categorias. Ainda assim, é muito comum ver sites especializados promovendo votações e oferecendo prêmios para quem acertar quem levará pra casa a mais famosa estatueta da indústria do cinema.

Como muitos cinéfilos, todos os anos eu participo de bolões pela internet e, desde o ano passado, do bolão do grupo de cinema que formamos após o curso do Pablo Villaça em São Paulo. Só que neste ano decidi registrar também no blog os meus palpites para o Oscar 2011, como forma de compartilhar com vocês as minhas “previsões” e até mesmo promover a brincadeira entre os leitores.

Vale ressaltar que os palpites se referem aos filmes que eu acho que irão vencer e não às minhas preferências em cada categoria. Portanto, trata-se apenas de uma brincadeira, para que vocês possam concordar ou discordar e, depois da premiação, tirar um barato dos meus erros.

Meus palpites para o Oscar 2011 são:

Melhor filme
O Discurso do Rei

Melhor direção
David Fincher, A Rede Social

Melhor ator
Colin Firth, O Discurso do Rei

Melhor atriz
Natalie Portman, Cisne Negro

Melhor ator coadjuvante
Christian Bale, O Vencedor

Melhor atriz coadjuvante
Hailee Steinfeld, Bravura Indômita

Melhor animação
Toy Story 3

Melhor filme estrangeiro
In a better world (Dinamarca)

Melhor direção de arte
A Origem

Melhor fotografia
Cisne Negro

Melhor figurino
O Discurso do Rei

Melhor montagem
A Rede Social

Melhor maquiagem
A Minha Versão Para o Amor

Melhor trilha sonora
O Discurso do Rei, Alexandre Desplat

Melhor canção
We belong together, de Toy Story 3

Melhor roteiro original
Christopher Nolan, A Origem

Melhor roteiro adaptado
Aaron Sorkin, A Rede Social

Melhores efeitos visuais
A Origem

Melhor mixagem de som
A Origem

Melhor edição de som
A Origem

Melhor documentário
Exit Through the Gift Shop

Melhor documentário em curta-metragem
Killing in the Name

Melhor curta-metragem
Na Wewe

Melhor curta-metragem de animação
Day & Nnight

Agora só resta aguardar a cerimônia.

Um abraço.

Texto publicado em 25 de Fevereiro de 2011 por Roberto Siqueira

Meu primeiro aniversário

Hoje faz um ano que Deus me deu o maior presente da minha vida!

Parabéns meu filho! Feliz aniversário Arthur!

Você é o bebê mais amado deste mundo e faz cada dia da nossa vida valer à pena! Nós te amamos muito!

Beijos do papai e da mamãe.

Texto publicado em 22 de Fevereiro de 2011 por Roberto Siqueira

ARCA RUSSA (2002)

(Russkij Kovcheg / Russian Ark)

 

Filmes em Geral #46

Dirigido por Aleksandr Sokurov.

Elenco: Sergei Dontsov, Mariya Kuznetsova, Leonid Mozgovoy, David Giorgobiani, Aleksandr Chaban, Maksim Sergeyev, Anna Aleksakhina, Konstantin Anisimov, Aleksei Barabash, Vladimir Baranov, Valentin Bukin, Kirill Dateshidze, Yuli Zhurin e Natalya Nikulenko.

Roteiro: Boris Khaimsky, Anatoli Nikiforov, Svetlana Proskurina e Aleksandr Sokurov.

Produção: Andrei Deryabin, Jens Meuer, Jens Meurer e Karsten Stöter.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Aleksandr Sokurov nos leva numa viagem espetacular por trezentos anos da história russa neste impressionante “Arca Russa”, o primeiro filme da história do cinema a ser feito em um único plano-seqüência de 97 minutos, ou seja, sem um único corte, mas que apresenta muito mais do que um trabalho técnico excepcional ao propor reflexões a respeito da própria linguagem cinematográfica e também sobre a própria existência humana.

Um homem é misteriosamente enviado ao museu Hermitage, em São Petersburgo, no ano de 1700 e passa a percorrer o local, acompanhado de um diplomata europeu (Sergei Dontsov), fazendo uma verdadeira viagem através da história russa entre os séculos XVIII e XXI.

Tomadas longas não são novidade no cinema. Scorsese, Figgis, Altman, Welles, Hitchcock e, mais recentemente, Paul Thomas Anderson e Alejandro Cuarón já utilizaram com maestria o plano-seqüência em diversos filmes, normalmente com muita eficiência e em cenas de grande impacto. Mas o que o diretor Aleksandr Sokurov conseguiu realizar em “Arca Russa” é algo sem precedentes na história da sétima arte. Filmado no dia 23 de Dezembro de 2001 numa única tomada, “Arca Russa” poderia entrar para a história do cinema simplesmente pelo seu apuro e inovação técnica. Felizmente, o longa dirigido por Sokurov vai além, propondo também uma reflexão filosófica a respeito da própria existência humana (“estamos mesmo destinados a navegar pra sempre?”) e outra reflexão a respeito da linguagem cinematográfica (“Era mesmo necessário filmar o longa em um único plano-seqüência?”). O diretor mantém a câmera no nível dos ombros do personagem, nos colocando sob o ponto de vista do narrador e literalmente flutuando pelos ambientes (o que reforça a teoria de que todos são fantasmas, mas falaremos dela depois). Os movimentos de câmera impressionam, passando por escadas em caracol e por cima de uma orquestra, por exemplo, além de evitar os reflexos, o que é notável num ambiente propício como o Hermitage, revelando o excepcional trabalho de direção de fotografia de Tilman Büttner (que é também o operador da steadicam). Sokurov caminha com sua câmera pelo museu, mantendo sempre o mesmo ritmo, que jamais é apressado ou demasiadamente lento, e nós viajamos junto com ele.

“Arca Russa” tem uma atmosfera de sonho, reforçada pelas vozes que se misturam ao som diegético logo no inicio do longa, pelas pequenas distorções nos cantos da tela em alguns momentos e pelos personagens fascinantes que cruzam o caminho da dupla de protagonistas. O som, aliás, é excepcional, captando desde passos no chão até os pensamentos, cochichos, risadas e palavras do narrador e de seu companheiro de viagem, além de permitir escutar nitidamente, por exemplo, o som de rodas de madeira girando, de uma orquestra tocando e das diversas conversas paralelas que cruzam nosso caminho durante a jornada. Todo o trabalho técnico é impressionante, a começar pela direção de fotografia do citado Büttner que acerta a iluminação em todos os 35 ambientes filmados, alternando entre locais iluminados à luz de velas e salões amplamente iluminados, evitando reflexos e excessos de luz, o que poderia atrapalhar a composição do plano. Vale destacar também os belíssimos figurinos que garantem um ar pomposo ao longa, além do próprio cenário, o museu Hermitage, que nos brinda com imagens arrebatadoras.

Não é difícil imaginar o trabalho logístico gigantesco de Sokurov para coordenar a atuação dos mais de 2000 figurantes e atores, que não poderiam errar em nenhum momento sob a pena de comprometer toda a filmagem (e aqui, vale o registro de que foram necessárias apenas três tentativas para que o resultado final saísse corretamente), em 35 ambientes diferentes, tendo que caminhar através da complexa estrutura do museu Hermitage. De maneira surpreendente, graças ao citado excepcional trabalho técnico de toda equipe e, obviamente, às atuações de todo o elenco, o resultado final parece real e nos leva numa viagem que oscila entre o sonho e a realidade, passando por trezentos anos da história russa, com destaque para a época dos czares, passando por Pedro o Grande, Catarina a Grande, Catarina II e o casal Nicholas e Alexandra Romanov. Entretanto, é importante ressaltar que não é necessário conhecer a história do país para apreciar o longa, mas certamente é ainda mais agradável a experiência para aqueles que entendem e, de certa forma, já conhecem àqueles personagens que cruzam o caminho do narrador.

E então chegamos às duas discussões centrais de “Arca Russa”. A primeira delas, que interessa principalmente aos cinéfilos, tem como base a grande inovação técnica do longa. Será que se o filme fosse filmado de maneira convencional, com cortes e planos distintos, o resultado seria inferior ao que Sokurov apresenta? Será que a utilização de um único plano-seqüência, por mais fascinante que seja (e realmente é impressionante) altera o resultado final da obra? Pra não ficar em cima do muro, afirmo que, em minha opinião, a ousadia de Sokurov engrandece ainda mais o filme, por nos inserir de maneira singular na narrativa, fazendo com que o espectador se sinta totalmente imergido na história. Já a outra discussão, que fala a respeito da natureza da existência humana, interessa ao público em geral (e agora, voltamos à teoria dos fantasmas). Estaria o narrador simplesmente vagando pelo museu ao lado de diversos espíritos que habitam naquele lugar ou simplesmente estamos fazendo uma viagem no tempo sem qualquer explicação lógica a respeito? Um indício de que todos são fantasmas aparece logo no inicio do longa, quando o europeu diz que nunca falou russo antes, reforçado pela pergunta do narrador (“É um sonho?”) respondida com um “talvez” pelo europeu. Em todo caso, esta é uma resposta pouco relevante, diante da comovente reação do mesmo europeu ao final do último baile dos nobres russos, simbolizando o fim daquela era e indicando o caminho tortuoso que estaria por vir (algo simbolizado também pela longa escadaria que leva os figurantes à saída do museu, numa passagem apertada e sombria). O ator que interpreta o europeu com discrição e eficiência, Sergei Donstov, demonstra com competência a aflição do personagem, que sabe perfeitamente o destino que se aproxima (o que, por outro lado, enfraquece a teoria dos fantasmas e fortalece a viagem no tempo). O final dá um toque especial com a mensagem indicando o destino do narrador e de todos ali presentes. Frases como “O mar cerca tudo” e “estamos destinados a navegar/viver para sempre” abrem espaço para profundas reflexões a respeito da existência humana, tais como “para onde vamos e de onde viemos?”. Existe ainda uma interessante teoria de que a “Arca Russa” é uma alusão à arca bíblica (a arca de Noé), sendo responsável por salvar a cultura russa do período negro de sua história que estava por vir. É inegavelmente uma visão coerente, ainda mais com o plano que encerra o longa mostrando o mar em volta do museu.

Sokurov, “cansado da montagem”, segue um caminho oposto ao do mestre do cinema russo Eisenstein e faz cinema sem a justaposição de planos, criando um filme belíssimo e marcante. Mas se “Arca Russa” é pura arte, também propõe reflexões, o que o torna um verdadeiro presente para cinéfilos. É uma pena, portanto, que o resultado certamente não agrade espectadores que buscam a repetição de fórmulas de sucesso e evitam caminhar por novos caminhos. As próprias imagens do museu Hermitage comprovam que a arte é um valoroso bem da humanidade, que merece sempre sobreviver a qualquer dilúvio. E felizmente, o filme dirigido por Sokurov, assim como as obras do museu, resistirá ao tempo.

Texto publicado em 18 de Fevereiro de 2011 por Roberto Siqueira

AMNÉSIA (2000)

(Memento) 

 

 

Filmes em Geral #45

Dirigido por Christopher Nolan.

Elenco: Guy Pearce, Carrie-Anne Moss, Joe Pantoliano, Mark Boone Junior, Stephen Tobolowsky, Harriet Sansom Harris, Callum Keith Rennie, Larry Holden, Jorja Fox, Russ Fega e Kimberly Campbell.

Roteiro: Christopher Nolan, baseado em história de Jonathan Nolan.

Produção: Jennifer Todd e Suzanne Todd.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

“Acordado. Onde estou?”. A frase repetida seguidas vezes neste criativo “Amnésia” reflete bem o grave problema de memória que assola seu personagem principal. Mas o competente Christopher Nolan, auxiliado por sua ótima equipe técnica e um bom elenco, fez mais do que isto, colocando o espectador na mesma situação do protagonista e ilustrando, através de sua inovadora narrativa, como se comporta a memória do rapaz. Desta forma, assim como Leonard, nós também não sabemos o que aconteceu há poucos instantes, justamente porque na narrativa, o instante cronologicamente anterior só aparecerá nos momentos seguintes.

Após ver sua mulher ser estuprada e assassinada, Leonard (Guy Pearce), também atingido no crime, passa a sofrer de uma doença que o faz perder completamente a memória recente. Inconformado, ele parte em busca de respostas na tentativa de descobrir o assassino de sua mulher, o que obviamente se torna uma tarefa complicada diante de sua condição. A solução? Leonard anota tudo que pode, chegando a tatuar em seu próprio corpo as informações mais importantes como “John G. estuprou e matou minha esposa”. No caminho, ele contará com a ajuda do policial Teddy (Joe Pantoliano) e da garçonete Natalie (Carrie-Anne Moss), mas Leonard não sabe até que ponto pode confiar nestas pessoas.

Nos primeiros minutos de “Amnésia”, vemos algumas imagens sumirem de fotos tiradas pelo protagonista (um inteligente artifício, como descobriremos depois – ou antes? –, utilizado para gravar informações importantes), num indício de como funciona a memória dele. Em seguida, a imagem que acabamos de ver retrocede diante de nossos olhos, indicando como funcionará a narrativa, que, justamente por ser invertida, nos colocará na mesma situação de Leonard, evidenciando que a escolha do diretor não é apenas um exercício de estilo, tendo clara função narrativa. Desta forma, Christopher Nolan faz com que o espectador experimente a mesma agonia do personagem e passe a construir em sua mente diversas possibilidades de montagem do quebra-cabeça em que somos envolvidos. Para que esta estratégia criativa funcione, Nolan conta com a montagem excepcionalmente competente de Dody Dorn, responsável por fazer com que o espectador nunca saiba o que vai acontecer em seguida. Eu disse em seguida? Na realidade, cronologicamente falando, não sabemos o que aconteceu momentos antes daquilo que estamos vendo na tela, exatamente como o pobre Leonard. Além disso, Dorn inteligentemente insere no início de cada seqüência uma imagem que remete ao final da seqüência cronologicamente anterior (e que, na narrativa, veremos em seguida), funcionando como uma espécie de gancho que facilita nossa compreensão.

Escrito pelo próprio Christopher Nolan, baseado em história de seu irmão Jonathan Nolan, o bom roteiro de “Amnésia” apresenta uma séria de possibilidades durante a narrativa, fazendo com que o espectador desconfie de praticamente todos os personagens, não por ser intrincado, mas justamente por causa da condição do protagonista (e do espectador). Além disso, “Amnésia” apresenta pequenas reviravoltas que soam convincentes e interessantes, transformando personagens que pareciam vilões em amigos de Leonard e fazendo o caminho inverso, como no caso do policial Teddy e da misteriosa Natalie.

Além da interessante forma de narrar à história, “Amnésia” apresenta ainda uma segunda linha narrativa, que segue a ordem cronológica, envolvendo a curiosa história do casal Jankis, investigada por Leonard. E graças à excelente escolha do diretor de fotografia Wally Pfister, que utiliza imagens em preto e branco para diferenciar a segunda linha narrativa da primeira (que tem imagens coloridas), o espectador se situa perfeitamente na trama, sem jamais se sentir perdido ou confuso. Por isso, com este excelente trabalho técnico ao seu lado, Nolan fica à vontade para empregar uma direção segura, que prende o espectador desde o primeiro minuto de projeção através de escolhas acertadas, com o constante uso do close em objetos, que ressalta a importância das pequenas coisas na memória do ser humano. O diretor ainda demonstra sensibilidade nos poucos momentos em que nos permitimos ter compaixão de Leonard, como quando deitado numa cama e afundado nas sombras, ele lembra sua esposa e o lento zoom in de Nolan realça a tristeza do personagem. Observe ainda como este mesmo movimento serve para retirar Natalie do plano, como se Nolan quisesse que aquele momento fosse apenas de Leonard e suas lembranças – algo que fica evidente quando, ao citar a esposa, Nolan corta rapidamente para Natalie, que abre os olhos como quem se sente deslocada naquele instante. Além disso, a câmera sempre inquieta do diretor reflete a mente perturbada de Leonard por causa de sua doença, algo reforçado também pela evocativa trilha sonora de David Julyan (ainda assim, esta câmera inquieta é diferente da ágil câmera de mão que nos coloca dentro da cena quando Leonard foge do traficante Dodd). Observe também como Nolan insere imagens de uma injeção piscando rapidamente na tela, alertando para a possível confusão na mente de Leonard, apontada no terceiro ato por Teddy. E pra finalizar, não posso deixar de mencionar o maravilhoso momento em que as imagens em preto e branco se transformam em imagens coloridas e indicam a junção das duas linhas narrativas.

E se Leonard parece confuso e inseguro, é porque Guy Pearce consegue transmitir esta sensação de maneira discreta, porém bastante eficiente. Empregando um olhar compenetrado e até mesmo triste, que, associado ao tom de voz baixo, denota certa melancolia ao personagem, refletida até mesmo em suas roupas pouco coloridas (figurinos de Cindy Evans), Pearce compõe um Leonard complexo, que comove em sua luta para vingar a esposa, mas principalmente por acordar sempre nos “momentos seguintes” ao assassinato dela e, desta forma, sofrer eternamente. Constantemente tendo que explicar a natureza de sua doença (“Não é amnésia. Minha memória tem um problema, não me lembro de coisas recentes”), Leonard transita entre momentos de profunda concentração, quando precisa anotar correndo alguma informação para que não a esqueça completamente minutos depois, e momentos de angustia e aflição, como quando fala com um policial ao telefone – e o ator transmite este leque de sensações com muita competência. Com a plena consciência de que a “memória distorce as imagens”, Leonard luta para manter viva a lembrança de sua esposa e por isso fez de sua vingança uma razão para viver. Mas, como ele mesmo diz, como Leonard vai cicatrizar esta ferida se não consegue sentir o tempo? É, portanto, plausível que Teddy tenha razão, e que Leonard viva repetidas vezes esta fantasia, num ciclo contínuo e triste, ilustrado na tocante cena em que queima os objetos da esposa e pensa que ele já pode ter feito aquilo inúmeras vezes antes. E por falar em cena tocante, é impossível não se emocionar ao ver Leonard acordando e tentando falar com a esposa enquanto toca a cama vazia, somente para em seguida se lembrar que ela já não estava mais ali.

Justamente por estarmos na mesma situação de Leonard, não sabemos o que esperar das pessoas que o cercam, como o policial Teddy, interpretado por Joe Pantoliano e, principalmente, a misteriosa Natalie, muito bem interpretada por Carrie-Anne Moss. Num primeiro momento, pensamos, assim como o protagonista, que ela o ajuda por pena. Mas ela mesma esclarece a situação, dizendo que também perdeu alguém e que o ajuda porque ele a ajudou. Só que na realidade, Natalie é mais esperta do que parece, e descobriremos isto da pior maneira, vendo como ela utiliza a doença de Leonard a seu favor, criando situações para forçar um assassinato que lhe interessa, chegando ao ponto de usar informações extremamente pessoais para convencê-lo e até mesmo conquistá-lo (“Minha esposa me chamava de Lenny”, diz Leonard, ao ouvir Natalie chamá-lo desta maneira). Já Harriet Sansom Harris se sai muito bem como a Sra. Jankis, especialmente quando questiona Leonard, pedindo sua opinião “pessoal” e não sua opinião “profissional” a respeito de seu marido Sammy (Stephen Tobolowsky). Aliás, o casal Jankis vive uma das cenas mais dramáticas do longa, quando Sammy aplica a injeção de insulina seguidas vezes na esposa e provoca a morte dela. Ironicamente, a história de Sammy pode mesmo ser a história de Leonard. Ou não.

O final irônico, com Leonard utilizando a própria doença para se vingar do policial Teddy, fecha muito bem este criativo “Amnésia” (e abre outras possibilidades de interpretação, porque não?), filme que explorou com competência o conceito de montagem para entregar uma narrativa intrigante e, além disso, nos colocar na mesma situação desconfortável de seu protagonista. O cinema precisa de sopros de criatividade como este de vez em quando. E, felizmente, obras originais como esta só serão esquecidas por pessoas como Leonard. Ou não.

Texto publicado em 17 de Fevereiro de 2011 por Roberto Siqueira

O CANTOR DE JAZZ (1927)

(The Jazz Singer)

 

Filmes em Geral #44

Dirigido por Alan Crosland.

Elenco: Al Jolson, May McAvoy, Warner Oland, Eugenie Besserer, Richard Tucker, Robert Gordon (Jakie Rabinowitz – 13 anos), Otto Lederer e Cantor Joseff Rosenblatt.

Roteiro: Samson Raphaelson (peça), Alfred A. Cohn (adaptação) e Jack Jarmuth (legendas).

Produção: Não creditado.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Muitos nomes importantes da história do cinema eram declaradamente contrários a utilização do som. Entre eles, podemos destacar Charles Chaplin, que, inteligentemente, sabia que a fala poderia destruir seu principal personagem. Mas não eram apenas os interesses próprios que guiavam estas pessoas, já que muitas de fato acreditavam que o som poderia tirar parte da magia do cinema. Felizmente, o tempo se encarregou de mostrar justamente o contrário e o som chegou para acrescentar e abrir um leque de novas possibilidades para os cineastas. E o longa responsável por esta mudança é este “O Cantor de Jazz”, que apresenta mais do que a novidade do som, entregando também um intrigante estudo dos efeitos provocados pelo fanatismo religioso.

O jovem Jakie Rabinowitz (Al Jolson) desafia a tradição familiar de cinco gerações e decide sair de casa, numa tentativa de realizar seu sonho e se tornar um cantor de jazz, contrariando a intenção de seu pai (Warner Oland), que gostaria que ele cantasse na sinagoga. Após conseguir espaço no show bizz, ele retorna para sua cidade, mas a distancia não amenizou a amargura no coração de seu pai, ainda revoltado com o caminho que ele decidiu seguir.

O primeiro filme falado da história do cinema representaria de qualquer maneira um importante divisor de águas na indústria cinematográfica, independente de suas qualidades como filme. E sabendo da importância do que tinha nas mãos, o diretor Alan Crosland conduz esta transição com cuidado, buscando evitar o choque na platéia (como citado, nem todos acreditavam que o som vingaria no cinema). Por isso, o longa inicia no tradicional formado do cinema mudo, com trilha sonora ininterrupta, diálogos escritos na tela e as belas imagens em preto e branco narrando à história do jovem que queria cantar jazz. Mas aos 3 minutos de projeção, Crosland insere o momento que mudaria a história do cinema, permitindo ao espectador ouvir pela primeira vez a voz de um ator nas telonas quando o garoto Jakie (Robert Gordon) surge cantando uma bela canção. Desta forma, Crosland faz a transição do cinema mudo para o cinema falado de maneira lenta, com o som surgindo inicialmente nos versos das canções e, somente aos 17 minutos, através das primeiras frases de Jakie, no intervalo entre as músicas. O cinema finalmente tinha um diálogo (neste caso, monólogo) na tela (aliás, nesta cena Al Jolson tem um ótimo desempenho, se soltando e animando a platéia com assovios e muita energia). Em seguida, numa conversa com a Srta. Dale (May McAvoy), os diálogos voltam a aparecer escritos na tela e o som sai de cena, voltando somente quando Jakie canta para a mãe, já em seu retorno pra casa, quando novamente as frases aparecem no intervalo entre duas canções.

Conduzindo a narrativa de maneira bastante convencional, alternando planos médios, planos americanos e closes, Crosland mostra sensibilidade em momentos mais fortes, como quando a porta do quarto é fechada e indica a surra sofrida por Jakie, evidenciada em seguida com seu olho roxo, mas também se sai bem nos raros momentos bem humorados da narrativa, como quando um rabino entra no ensaio de Jakie e vê uma moça com as pernas desnudas, provocando seu espanto. O diretor também mostra habilidade na condução da narrativa, explorando os aspectos do interessante roteiro (creditado para Samson Raphaelson, Alfred A. Cohn e Jack Jarmuth), prendendo o espectador mesmo com poucas falas e sem utilizar os diálogos (e o som) em grande parte do tempo, mostrando a luta de Jakie para fazer sucesso e, principalmente, para seguir sua vida sem se apegar as tradições tão fortes de sua família. Este conflito interno do personagem é refletido até mesmo através da trilha sonora de Rosa Rio e Louis Silvers, que oscila bastante enquanto embala os momentos dramáticos e intensos da narrativa.

Como era costume na época, as atuações do elenco de “O Cantor de Jazz” soam exageradas, justamente pela dificuldade da falta da fala, que obrigava os atores a se expressarem de forma caricata. Ainda assim, a mensagem principal da narrativa é transmitida com precisão, mostrando os perigos do fundamentalismo religioso através do pai descontente com o filho que quer cantar jazz e não hinos na sinagoga, interpretado por Warner Oland. O Sr. Rabinowitz claramente valoriza mais a religião do que o próprio filho, o que se reflete em momentos intensos e desagradáveis, como quando ele surra o filho ou quando o expulsa de casa, funcionando como uma excelente crítica ao fanatismo religioso. Após passar muito tempo fora, Jakie retorna pra casa, mas ainda assim seu pai é incapaz de se comover, irritando-se com a música cantada pelo filho dentro de sua casa, o que motiva o jovem a dizer que “viverá a vida dele como quiser”. Como bem explicado por Jakie, suas músicas significam para o seu público o mesmo que os hinos para as pessoas da sinagoga, mas, infelizmente, esta explicação só revolta ainda mais seu fanático pai, que lhe expulsa definitivamente daquela casa, evidenciando mais uma vez a cegueira provocada pelo fanatismo religioso. E nem mesmo sua mãe Sara (interpretada por Eugenie Besserer), que claramente é mais compreensiva que seu pai, escapa de comentários arraigados no pensamento religioso, como quando ela se questiona aflita se ele estaria apaixonado por uma mulher não judia. Refletindo outro pensamento do período, após ganhar um belo presente do filho, ela pergunta se ele faz algo de errado, demonstrando uma curiosa desconfiança de seu sucesso, que é compreensível numa época em que ser artista não era sinônimo de ter dinheiro. E finalmente, quando invade o camarim de Jakie, com o olhar triste e desamparado de quem tem uma última esperança de que o filho volte para ver o pai, Besserer também demonstra bem a aflição de Sara Rabinowitz. E apesar da importante contribuição para a evolução do cinema através do uso do som, é neste interessante estudo das conseqüências do fanatismo religioso que reside o aspecto mais fascinante do longa.

E quais conseqüências seriam estas? As respostas podem ser encontradas através do comportamento de Jakie, um homem claramente atormentado pelo conflito entre agradar a família (e as tradições religiosas) e lutar para realizar o seu sonho. Este conflito aparece em diversos momentos do longa, como quando um homem canta e faz Jakie relembrar os tempos de sinagoga, mostrando o peso que a formação religiosa tem sobre ele e ressaltando o bom trabalho de montagem de Harold McCord, notável também antes do grande show de Jakie, quando ele olha no espelho e vê a sinagoga, também sentindo-se culpado por não fazer o que seu pai queria, num momento inspirado da atuação de Jolson, que ilustra bem a aflição do personagem. Esta situação o levará a viver um grande dilema no dia da reconciliação, o dia mais importante da sinagoga: ele deveria agradar ao pai ou priorizar sua carreira? E apesar de sua situação nada confortável, aparentemente ninguém parece se preocupar com seu conflito interno, revelando um egoísmo coletivo surpreendente, como fica evidente quando ele chega e sua mãe pergunta se ele “veio para cantar”, ouvindo um “Não mãe, vim para ver o papai” como resposta. Mas, por outro lado, sua mãe é a primeira e entender seu dilema e abrir mão de seus planos, pedindo para que o filho “faça o que seu coração mandar”. Já o produtor do espetáculo representa o típico pensamento americano de que o sucesso é mais importante que a família. Mesmo com o pai morrendo, ele exige que Jakie ensaie para o show que pode engrenar sua carreira de vez – o que Jakie de fato faz. Mas, após o ensaio, a tristeza e a aflição consomem Jakie, algo refletido na escuridão que toma conta da tela por alguns segundos. E então ele toma a amarga decisão de abrir mão da carreira para cantar no lugar de seu pai, que morre no exato momento em que ouve a voz do filho na sinagoga, provocando o desespero de Sara (num momento exagerado da atuação de Besserer). Só que, infelizmente, o politicamente correto era regra na época e, após a morte do pai, tudo volta a dar certo para Jakie, que volta a cantar e fazer sucesso, dedicando as músicas para a mãe.

Ainda que não tivesse uma narrativa interessante, “O Cantor de Jazz” já estaria marcado por ser o primeiro filme falado da história da sétima arte. Mas o longa vai além, apresentando uma história interessante, que aborda temas importantes como a tradição familiar, o fanatismo religioso e a luta para conseguir realizar os sonhos. E se hoje os avanços tecnológicos nos permitem sonhar ainda mais alto, é porque filmes como este tiveram a coragem de ousar, trazendo inovações para esta verdadeira fábrica de sonhos e transformando este mundo mágico chamado cinema.

Texto publicado em 16 de Fevereiro de 2011 por Roberto Siqueira

O ENCOURAÇADO POTEMKIN (1925)

(Bronenosets Potyomkin)

 

Filmes em Geral #43

Dirigido por Sergei Eisenstein.

Elenco: Aleksandr Antonov, Vladimir Barsky, Grigori Aleksandrov, Mikhail Gomorov, Ivan Bobrov, Sergei Eisenstein, Julia Eisenstein, Beatrice Vitoldi e N. Poltavseva.

Roteiro: Nina Agadzhanova.

Produção: Jacob Bliokh.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Pense na imagem de um copo d’água tremendo no painel de um carro. Agora imagine o rosto de uma criança apavorada. Finalmente, crie em sua mente a imagem imponente de um Tiranossauro Rex surgindo diante de um carro desligado, sob forte chuva. Agora junte estas três imagens na seqüência e terá uma das mais poderosas cenas do sucesso de Spielberg, “Jurassic Park”. Exemplos assim existem em praticamente todos os filmes da história da sétima arte. Mas nada disto existiria se Sergei Eisenstein não tivesse revolucionado o cinema com sua teoria da montagem semântica, a base dos formalistas, exemplificada com perfeição neste “O Encouraçado Potemkin”.

Os marinheiros do navio de guerra Potemkin se revoltam com os maus tratos recebidos durante uma viagem, onde tinham que comer carne estragada e dormir apertados em redes, e tomam conta do navio, jogando os oficiais da embarcação no mar. O fato ficou famoso na cidade de Odessa, o que inspirou as pessoas a marcharem para o porto pra recepcionar os heróis, porém uma trágica decisão do governo resultou num verdadeiro massacre e impediu a grande festa.

Antes de analisar “O Encouraçado Potemkin”, é importante entender os conceitos que fizeram seu diretor ser conhecido e que fizeram seus filmes serem considerados a grande influencia da montagem no cinema contemporâneo. Basicamente, para Eisenstein (sob influência da experiência de Lev Kuleshov) uma imagem complementa o significado da outra, mas quando analisadas separadamente, elas não significam muito. É na junção das imagens que o filme ganha vida, que aquelas imagens ganham sentido, ou seja, duas imagens juntas têm maior significado do que separadas. São as ovelhas de “Tempos Modernos” complementando a imagem anterior dos trabalhadores entrando na fábrica. E é exatamente a montagem que faz com que a imagem seguinte complemente o sentido da imagem anterior. Se fosse uma fórmula matemática, o russo diria que 1 + 1 é maior do que 2.

Utilizando seu conceito como base, Eisenstein apresenta a história real de uma embarcação conhecida como Potemkin, que em 1905 viu os seus marinheiros, cansados dos maus tratos recebidos, se revoltarem, dando início a um motim que tomaria o navio, numa das várias etapas que culminariam na revolução russa de 1917, formando a base do socialismo no país. Exatamente por isso, é evidente que o longa apresenta um subtexto político forte, mas diferentemente de “O Nascimento de uma Nação”, onde o racismo prejudica bastante a avaliação do filme, aqui o apelo político não tem força suficiente para depreciar a qualidade da obra. Em outras palavras, o longa dirigido por Griffith é importante, mas o longa dirigido por Eisenstein vai além, sendo importante sem tropeçar em preconceitos.

Apresentando todas as características do cinema mudo tradicional, com diálogos na tela, imagens em preto-e-branco e trilha sonora (de Edmund Meisel) ininterrupta (sempre pontuando as cenas, com um tom sombrio nos momentos dramáticos e acordes mais agitados na tensa cena da escadaria), o filme que revolucionou a montagem tem atuações exageradas, com exceção do tocante momento em que uma mãe implora com o olhar pela vida do filho, uma fotografia sombria (direção de Vladimir Popov e Eduard Tisse), que reflete inicialmente a vida dura daqueles marinheiros e, principalmente, uma direção ousada, que alterna entre closes e planos gerais, criando imagens belíssimas, como o impressionante plano com as pessoas marchando até o porto. Eisenstein, responsável também pela montagem, abusa dos cortes, como na revolta dos marujos no navio, onde apresenta planos de objetos (por exemplo, uma cruz aparece logo após a imagem do padre), colocando em prática sua teoria ao buscar complementar o sentido da imagem anterior com a imagem seguinte. A revolta, aliás, é uma cena muito poderosa, quando momentos antes do fuzilamento, os marinheiros e aqueles que atirariam neles se unem e tomam conta do navio, expulsando os oficiais autoritários. Fica evidente a defesa da causa socialista (não é a toa que Lenin é citado logo no inicio), a revolta contra as classes dominantes e o forte subtexto político da narrativa.

Mas é na famosa cena da escadaria, homenageada por Brian de Palma em “Os Intocáveis”, que Eisenstein mostra todo seu talento. Toda a seqüência da escadaria de Odessa é marcante, começando pela câmera lenta do diretor que em certo momento acompanha as pessoas, realçando o desespero de homens, mulheres e crianças caídos no chão, sendo pisoteados e buscando fugir dos tiros dos oficiais. Quando as autoridades começam a atirar, num massacre repugnante que não poupa mulheres e crianças, é difícil conter a revolta, o que motiva a reação dos marinheiros do Potemkin contra as autoridades logo em seguida. Eisenstein constrói a cena com cuidado, alternando entre os planos numa dinâmica incrível e, com muita sensibilidade, nos emocionando com as imagens de uma mãe morrendo com seu filho no colo e de um carrinho de bebê descendo as escadarias debaixo de tiros. E a própria composição dos planos, com os soldados posicionados acima e as pessoas abaixo na escada, simboliza as posições de cada um na pirâmide social que imperava na época. Finalmente, vale ressaltar que apesar das atuações exageradas (algo normal no cinema mudo, devido à falta de diálogos), o longa é bastante realista, tocando o espectador através daquelas fortes expressões de sofrimento.

Poucos são os cineastas que podem se orgulhar de terem influenciado a história da sétima arte. Poucos são os filmes que fazem parte desta seleta lista de obras importantes. E por tudo que representou e ainda representa até os dias de hoje, “O Encouraçado Potemkin” merece fazer parte desta lista, assim como o seu grande idealizador.

Texto publicado em 15 de Fevereiro de 2011 por Roberto Siqueira

O NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO (1915)

(The Birth of a Nation)

 

Filmes em Geral #42

Dirigido por D.W. Griffith.

Elenco: Lillian Gish, Mae Marsh, Henry B. Walthall, Mirian Cooper, Mary Alden, Ralph Lewis, George Siegmann, Walter Long e Robert Harron.

Roteiro: Thomas F. Dixon Jr., D.W. Griffith e Frank E. Woods.

Produção: D.W. Griffith.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

É uma pena que o filme responsável por estabelecer os padrões narrativos do cinema, o primeiro a contar uma história através das telonas da maneira que conhecemos e, verdadeiramente, o primeiro épico da história da sétima arte, seja também um filme nojento, moralmente desprezível e que apresenta um racismo tão descarado que chega a dar náuseas. É ainda mais difícil escrever sobre um filme assim, pois ao mesmo tempo em que repudio sua “ideologia” míope, sou obrigado a reconhecer os enormes avanços que este “O Nascimento de uma Nação” trouxe para a linguagem cinematográfica sob a condução de D.W. Griffith, responsável pela produção, roteiro e direção do longa.

Os irmãos Stoneman, do norte abolicionista, visitam os amigos da família Cameron em Piedmont, na Carolina do Sul e, portanto, escravagistas, mas sua amizade é afetada pela guerra civil americana, colocando as famílias amigas em lados distintos da batalha (enquanto os Stoneman defendem o exército da União, os Cameron se juntam ao exército confederado). Após a batalha, a derrota do sul trará grandes mudanças na vida daquelas pessoas. Mas o coronel Ben Cameron (Henry B. Walthall) já tinha se apaixonado por Elsie Stoneman (Lillian Gish), que também conquistara o coração de Silas Lynch (George Siegmann), principal representante político de Austin Stoneman (Ralph Lewis) e responsável por mudanças que beneficiavam os negros no sul escravagista. Revoltado, Ben Cameron decide fundar uma organização para combater os “abusos” de Lynch na região.

Escrito pelo próprio Griffith, “O Nascimento de uma Nação” utiliza a história das famílias Cameron e Stoneman para cobrir acontecimentos marcantes da história norte-americana, como a Guerra da Secessão, o assassinato do presidente Lincoln e o nascimento da Ku Klux Klan, mas, infelizmente, o faz de maneira míope, defendendo o racismo declaradamente e chegando ao absurdo de declarar a Ku Klux Klan como a organização responsável por salvar o sul. Mas deixemos o aspecto moral do longa pra depois e vamos focar em sua enorme contribuição técnica para a evolução do cinema. Além do tradicional formato dos filmes mudos (diálogos escritos na tela, imagens em preto e branco e trilha sonora incessante), Griffith estabeleceu o padrão narrativo vigente ainda hoje, alternando entre planos médios, americanos, gerais e até mesmo closes, chegando a usar o foco para destacar algo, além de utilizar locações externas e mostrar ações paralelas, o que garantiu um ritmo fluído ao longa, graças também ao bom trabalho de montagem dele próprio, auxiliado por Joseph Henabery, James Smith, Rose Smith e Raoul Walsh. Além disso, o diretor abusa de planos e movimentos de câmera ousados para a época, como os impressionantes planos gerais da marcha para o mar e dos campos de batalha, além do uso de travellings. Aliás, as batalhas são um ponto alto do trabalho de Griffith, que mantém um ritmo dinâmico embalado pela agitada trilha sonora, mostrando imagens fortes para a época, com homens feridos e uma pilha de mortos depois da guerra, assim como no confronto final ele utiliza um grande número de figurantes para mostrar outra batalha épica entre os negros e a Ku Klux Klan, novamente bastante violenta e repleta de tiros a queima roupa e assassinatos a sangue frio. Vale destacar também o plano em que duas mulheres brancas conversam ao lado de uma árvore e o capitão negro Gus (Walter Long) observa atrás da cerca, que refletirá na tensa seqüência em que ele persegue a moça e provoca a morte dela, em outra cena impressionante visualmente, com a moça despencando nas pedras. Griffith alterna planos gerais e closes, conduzindo com perfeição a cena até o absurdo momento em que a garota, após despencar e se arrebentar no chão, levanta ainda com vida, somente para morrer nas mãos do irmão, gerando enorme tristeza na família – algo refletido na própria tela, que escurece lentamente ao som da triste trilha sonora.

Além do inteligente uso da câmera para contar a história, o diretor mostra sensibilidade em cenas marcantes, como o tocante momento em que uma mãe visita o filho ferido num hospital e descobre que ele foi condenado a forca, acusado de ser guerrilheiro. Ela apela de joelhos ao presidente Lincoln e ele atende ao seu pedido, escrevendo uma carta libertando seu filho. Retratado como um homem bom, Lincoln é assassinado (por motivações políticas) num teatro, em outra cena muito bem conduzida por Griffith, que, por exemplo, usa o foco da câmera para destacar a visão do assassino. Este virtuosismo técnico é ainda mais notável graças aos impecáveis figurinos de Robert Goldstein e Clare West (não creditados), que ambientam perfeitamente o espectador, além da ótima trilha sonora de Joseph Carl Breil e D.W. Griffith, repleta de melodias diferentes que pontuam a narrativa, como quando a notícia da morte de um dos Cameron chega à família e a trilha melancólica ilustra a tristeza de todos. E não posso deixar de mencionar a excelente direção de fotografia de G.W. Bitzer, que utiliza filtros com cores diferentes para transmitir sensações, como o filtro azul empregado em cenas mais tristes, que também aparece sempre que o presidente Lincoln toma uma decisão, denotando seriedade ao momento. Observe ainda como quando os Cameron perdem outro filho na guerra a imagem sequer utiliza filtro, e o preto e branco, acompanhado novamente pela trilha melancólica, reforça ainda mais a tristeza deles. Já a vida no sul é constantemente filmada com um filtro amarelo, que confere uma atmosfera brilhante e iluminada, coerente com a visão do diretor (um sulista de berço) de que aquela vida era melhor e mais bela. Por outro lado, as celebrações com fogos de artifício e as cenas de batalha utilizam um filtro vermelho, também utilizado durante a invasão do “regimento negro”, claramente como forma de intensificar a violência destes confrontos.

Mas apesar de toda sua qualidade técnica, “O Nascimento de uma Nação” é bastante comprometido pela visão política extremamente racista que defende. Frases como “a chegada dos africanos trouxe a semente da discórdia” e “a minoria branca desamparada” são apenas pequenos exemplos das atrocidades cometidas pelo longa, que mesmo sendo realizado em 1915, não tem qualquer justificativa para sua incrível cegueira (na época, provocou protestos acalorados de órgãos norte-americanos como a NAACP). Este racismo declarado aparece logo no início, quando a vida no sul (onde os negros eram escravos) é mostrada como um verdadeiro paraíso, onde, nas palavras do narrador, “não há nada melhor” – e um plano onde cão e gato brincam num cesto simboliza esta pretensa paz. Mas como, em sã consciência, pessoas que são escravizadas e trabalham das 6 da manhã às 6 da tarde poderiam estar felizes e dançando junto aos brancos, como se a vida fosse um mar de rosas? Estas mesmas pessoas, aparentemente incapazes de se rebelar, são retratadas posteriormente como selvagens quando ganham o direito de votar, por exemplo, colocando os pés descalços em cima da mesa na eleição e castigando cruelmente um criado, matando seu senhor em seguida com um tiro a queima roupa. Aliás, na ridícula visão de Griffith, esta parece ser a única maneira de um negro enfrentar um branco, como fica claro quando um homem branco briga com um monte de homens negros e sai ileso, sendo assassinado friamente com um tiro pelas costas. O roteiro de Griffith é tão maniqueísta e racista que chega ao absurdo de chamar o personagem Silas Lynch de traidor por lutar para igualar os direitos de brancos e negros – e justamente por apoiar os negros ele é eleito vice-governador. Além disso, usa o romance entre Elsie e Ben como pretexto para “demonizar” Lynch e tentar ganhar o apoio do espectador. Mas o pior ainda estava por vir, pois a segunda parte da narrativa foca na reconstrução do sul após a guerra e piora ainda mais o racismo nojento do filme, apresentando os membros da Ku Klux Klan como salvadores da nação (um grupo de crianças brincando com lençóis inspiram Ben Cameron, que funda o absurdo chamado Ku Klux Klan, a organização que “salvou o sul”). Em outras palavras, o roteiro não apenas justifica como também glorifica esta organização, alegando que eles lutavam em “defesa dos direitos de nascença” dos brancos (“Aryan Rights”). E após uma sangrenta batalha, eles “salvam” o sul e restabelecem a paz, sendo ovacionados numa marcha triunfal pela cidade.

É triste, portanto, que um dos filmes mais importantes da história do cinema seja tão repugnante. Não posso deixar de reconhecer seu valor, mas não sou obrigado a aceitar sua mensagem repulsiva (e espero que ninguém concorde com ela). Em todo caso, vale como registro de um pensamento menor, que já dominou grande parte das pessoas não só nos Estados Unidos, mas em grande parte do planeta, e que, infelizmente, ainda aparece arraigado na mente de pessoas insignificantes. Não é a cor, nem a crença, nem a orientação sexual que definirá quem é capacitado ou não, quem é respeitável ou não, quem é digno de ser chamado ser humano ou não. O importante é o que vem de dentro do homem, de dentro do seu coração e da sua mente. E o pior é que às vezes a mesma mente é responsável por idéias tão distintas. Por tudo isto, “O Nascimento de uma Nação” é um filme indispensável para qualquer cinéfilo sob o ponto de vista técnico. E só.

Texto publicado em 14 de Fevereiro de 2011 por Roberto Siqueira

Semana Inovação

Na próxima semana especial, divulgarei críticas de cinco filmes importantes para a evolução do cinema, ou seja, filmes que de alguma maneira contribuíram para a evolução da linguagem cinematográfica.

Como de costume, é importante reforçar que não se trata de uma lista dos filmes mais importantes neste quesito, até porque muitos deles já tiveram críticas divulgadas no Cinema & Debate, como “Cidadão Kane”, “Bonnie & Clyde – Uma rajada de balas” e “Acossado”, por exemplo. Até mesmo a dupla “Tubarão” e “Star Wars” mereceria um lugar nesta lista (não pela linguagem, mas por terem “inventado” o blockbuster nos moldes atuais), mas estes filmes também já tiveram críticas divulgadas. Quero deixar claro também que outros filmes importantes, como “Branca de Neve e os Sete Anões”, “Roma, Cidade Aberta”, “Toy Story”, “A Bruxa de Blair” e “Avatar”, não entraram na lista porque farão parte ou da Videoteca do Beto ou de alguma outra semana especial no futuro.

Entretanto, desta vez não poderei manter o costumeiro suspense porque preciso explicar a razão da escolha de cada filme e, por mais que eu aborde o tema nas próprias críticas, acho que vale um resumo neste post inicial. Portanto, pela primeira vez na história das “semanas especiais” do Cinema & Debate, divulgarei a lista dos cinco filmes escolhidos, que são:

O NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO (1915)
Escolhido pela inovação técnica e narrativa, pela forma de contar uma história através da tela de cinema, que determinou o padrão vigente até hoje e praticamente inaugurou o cinema espetáculo e o blockbuster, graças ao sucesso de bilheteria de um longa-metragem numa época dominada pelos curtas.

O ENCOURAÇADO POTEMKIN (1925)
Este entra na lista por causa da inovação no uso da montagem, utilizada a favor da narrativa e introduzindo o conceito de montagem semântica (uma imagem complementa o significado da outra, mas sozinhas não significam muito) e que também estabeleceu o padrão utilizado ainda nos dias de hoje.

O CANTOR DE JAZZ (1927)
Obviamente, o primeiro filme falado da história do cinema não poderia faltar nesta lista, já que hoje em dia, contrariando as pessimistas profecias da época, todos sabem da importância do som na história do cinema.

AMNÉSIA (2000)
A escolha de “Amnésia” pode parecer polêmica, mas certamente o longa dirigido por Christopher Nolan inovou ao apresentar uma narrativa que segue o caminho inverso do padrão, iniciando no final da história e regredindo até o começo. E melhor do que isso, o faz com função narrativa, nos colocando na mesma situação do protagonista.

ARCA RUSSA (2002)
Aleksandr Sokurov assombrou o mundo ao apresentar o primeiro filme feito num único plano-seqüência de 97 minutos, nos transportando por 300 anos da história recente da Rússia de forma original e magnífica. O primeiro filme sem cortes da história do cinema.

Após esta degustação, só resta aguardar pelas críticas. Mas não se desespere, começa amanhã!

Um grande abraço.

UPDATE: Por problemas particulares, não consegui divulgar este post ontem, como estava previsto inicialmente. Em todo caso, vou seguir a programação normal da “semana Inovação” e divulgar a primeira crítica ainda hoje.

Texto publicado em 14 de Fevereiro de 2011 por Roberto Siqueira