Imagens: Laranja Mecânica (1971)

Seguindo o projeto de atualização das críticas com imagens, já podem conferir a crítica de Laranja Mecânica (1971), agora devidamente ilustrada. Vale lembrar que o texto permanece o mesmo do dia de divulgação.

Um abraço.

Texto publicado em 15 de Agosto de 2010 por Roberto Siqueira

4 anos…

Exatamente há quatro anos, eu tive a felicidade de encontrar uma pessoa mais que especial e viver um momento mágico, que mudou minha vida para sempre. Após este dia, todos os meus sonhos, até mesmo aqueles que pareciam muito distantes, tornaram-se realidade.

Por isso, nada mais justo do que dizer um enorme muito obrigado e reafirmar o que digo diariamente: Eu te amo!

Um beijo especial, e que Deus abençoe a nossa família.

De seu eterno namorado,

Beto.

Texto publicado em 12 de Agosto de 2010 por Roberto Siqueira

DE VOLTA PARA O FUTURO 2 (1989)

(Back To The Future Part II)

 

Videoteca do Beto #61

Dirigido por Robert Zemeckis.

Elenco: Michael J. Fox, Christopher Lloyd, Lea Thompson, Thomas F. Wilson, Elisabeth Shue, James Tolkan, Jeffrey Weissman, Charles Fleischer, Darlene Vogel, Jason Scott Lee, Elijah Wood, Flea e Billy Zane.

Roteiro: Robert Zemeckis e Bob Gale.

Produção: Neil Canton e Bob Gale.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Apoiando-se num roteiro incrivelmente engenhoso e criativo e contando com um elenco muito afiado, o diretor Robert Zemeckis brindou os espectadores com uma verdadeira obra-prima quando lançou nos cinemas, em 1985, o primeiro filme da trilogia “De Volta para o Futuro”. Felizmente, este segundo filme da série mantém a qualidade primorosa do primeiro filme e presenteia os cinéfilos com uma continuação que consegue explorar a mesma premissa de forma original e igualmente criativa, renovando a trilogia e evitando que soe como algo repetitivo.

Após conseguir corrigir o passado e alterar o futuro, o cientista Doc Brown (Christopher Lloyd) volta desesperado ao ano de 1985 para levar Marty (Michael J. Fox) e sua namorada (Elisabeth Shue) para o ano de 2015, com o objetivo de evitar uma verdadeira tragédia familiar provocada pelos filhos do casal. Já no futuro, o velho Biff (Thomas F. Wilson) consegue entrar na máquina do tempo e voltar ao ano de 1955, somente para entregar a si mesmo o almanaque dos esportes, com todos os resultados esportivos do período entre 1950 e 2000. Por isso, quando Doc e Marty retornam ao ano de 1985, encontram um mundo completamente diferente, resultado do poder adquirido pelo milionário Biff ao longo dos anos. Desta forma, a única maneira de destruir esta realidade paralela e evitar este futuro sombrio é voltar ao ano de 1955 e impedir que o velho Biff entregue a si mesmo o tal almanaque.

Logo no inicio de “De Volta para o Futuro 2” podemos rever a cena que encerrou o primeiro filme, num dos inúmeros momentos em que o espectador poderá rever uma cena sob outra perspectiva, pois o longa é repleto de rimas narrativas entre os dois filmes (e até mesmo com o terceiro filme), o que é extremamente elegante. Ao chegarmos ao ano de 2015, até podemos questionar o avanço tecnológico apresentado num período tão curto de tempo (de 1989 para 2015 temos apenas 26 anos), mas é inegável que o longa aproveita mais uma vez as inúmeras oportunidades que a situação oferece, como podemos notar na inteligente justificativa para o não envelhecimento do professor, que explica sobre as avançadas clínicas de rejuvenescimento. Inteligente também é a forma como os dois Martys se cruzam embaixo do balcão, o que possibilita a troca entre eles e abre espaço para revivermos a grande cena, agora completamente renovada, em que Marty foge de Biff em cima de um skate. O bom humor também está novamente presente, como notamos quando Doc diz que a justiça ficou muito rápida depois que aboliram os advogados.

O longa de Robert Zemeckis também mantém o excelente nível técnico do filme anterior, com destaque especial para a bela direção de arte de Margie Stone McShirley, que recria a cidade de diferentes formas em cada período, sempre com muita criatividade, como fica evidente na evoluída cidade de 2015 através dos carros, do posto Texaco e da engraçada referência à Tubarão 19 (!) – sucesso de Spielberg, que é amigo de Zemeckis e também produtor executivo do longa. A fotografia colorida em 2015 de Dean Cundey e Jack Priestley dá lugar às tonalidades escuras do ambiente hostil e sombrio nos anos dominados por Biff e volta aos tons pastéis nostálgicos nos anos cinqüenta. Já a montagem ágil de Harry Keramidas e Arthur Schmidt reforça o clima de urgência da missão da dupla, que neste segundo filme é ainda maior que no primeiro, além de colaborar sensivelmente nas seqüências de ação, também mais freqüentes neste segundo longa. Também merece destaque a maquiagem, que permite com que o mesmo ator apareça duas ou três vezes na mesma cena de formas completamente diferentes, além, é claro, dos ótimos efeitos especiais, que trazem grande realismo às cenas. Finalmente, a bela trilha sonora de Alan Silvestri está novamente presente, com músicas joviais e com o imponente tema da série.

A direção de Robert Zemeckis é impecável, mantendo o ritmo ágil e criando um visual magnífico em todas as épocas da narrativa, além de criar seqüências muito interessantes sempre que um personagem encontra seu correspondente em cena, como nos encontros entre os dois “Docs”, “Biffs”, “Jennifers” e “Martys”. Zemeckis também acerta a mão na condução das cenas de ação, como a sensacional perseguição de Biff, com o carro, à Marty, que foge no skate, já próximo do final do filme. Finalmente, o diretor consegue sucesso mais uma vez na direção de atores, permitindo que o elenco apresente outro excelente desempenho. Michael J. Fox está novamente perfeito como Marty McFly. Devido a um acidente com seu carro que o impediu de continuar com a música, Marty se tornou um infeliz funcionário em seu trabalho, enquanto seu filho se tornou um verdadeiro idiota, como ele mesmo admite quando o vê. E o ator aproveita a excelente oportunidade de mostrar talento ao interpretar as diversas etapas da vida do personagem com competência, além de interpretar também seus próprios filhos. Thomas F. Wilson vai muito bem quando interpreta o cruel Biff, sempre ameaçador. Repare como o ator utiliza uma voz rouca que colabora com este poder de intimidação do personagem. E mesmo quando interpreta o velho Biff o ator convence, mostrando que a vida dura que levou após as mudanças no passado não tirou o seu apetite pelo poder. Já quando interpreta o jovem Griff, Wilson exagera e acaba soando caricato, mas nada que comprometa sua atuação. Quem também repete a excelente atuação do primeiro longa é Christopher Lloyd, com todos os trejeitos do maluco doutor Emmett. Seu “Doc” é um personagem extremamente carismático e o ator tem todo o mérito por isso. E finalmente, Elisabeth Shue pouco aparece com sua Jennifer, não permitindo uma atuação além de discreta.

Mas apesar de toda qualidade do elenco e do ótimo trabalho técnico, novamente o grande destaque do longa é o roteiro de Zemeckis e Bob Gale. Ainda mais intrincado que no primeiro filme, o roteiro permite uma viagem através do tempo e faz constantes referências ao primeiro e (melhor ainda) ao terceiro filme, provando a qualidade da engenhosa criação da trilogia por parte dos roteiristas. Não é raro notar menções ao velho oeste, como quando vemos um vídeo sobre o tio de Biff ou quando “Doc” diz que se arrepende de não ter visitado o velho oeste, o que já prepara o terreno para a parte final da trilogia. Zemeckis e Gale também aproveitam praticamente todas as oportunidades que a situação oferece para explorar ao máximo estas idas e vindas no tempo, como quando McFly comemora o fato de morar em determinado bairro que, na realidade, se tornou o mais perigoso da cidade devido às mudanças do passado, como fica evidente nas palavras de um taxista. O roteiro abusa ainda das elegantes rimas narrativas com o primeiro filme, como quando McFly sai com o skate pelas ruas da cidade sendo perseguido por Biff. Mais interessantes ainda são os momentos marcantes do primeiro longa que podemos reviver sob outra perspectiva, como quando Marty toca guitarra enquanto podemos ver o outro Marty andando por cima da estrutura do palco ao fundo.

Por tudo isto, “De Volta para o Futuro 2” pode ser considerado um filme tão qualificado quanto o primeiro da trilogia. Além disso, o longa tem ainda o mérito de preparar o espectador para a parte final da série, como podemos notar quando a Western Union entrega a carta de Doc para Marty com data de 1885. Isto acontece porque em outro momento muito importante, porém sutil, o acidente com o Deloren zera a máquina do tempo e altera a data para 1885, o que também reflete no terceiro filme da série. Desta forma, além de se deliciar com este segundo filme, o espectador praticamente se sente obrigado a assistir o terceiro, o que não deixa de ser inteligente.

Belíssima aventura que nos permite viajar através do tempo, passando pelos anos de 2015, 1985, 1955 e finalizando em 1855, “De Volta para o Futuro 2” é extremamente criativo e cativante, permitindo ao espectador notar claramente as diferenças entre cada época, tanto no aspecto cultural quanto no aspecto visual, além de proporcionar um delicioso exercício de imaginação por parte de cada espectador. É maravilhoso viajar com Marty e Doc através do tempo e por isso, mal podemos esperar pelo terceiro filme da série. Ainda bem que hoje em dia, com a trilogia disponível em DVD, não precisamos de um Deloren para avançar no tempo, como os espectadores certamente desejaram fazer quando o segundo filme foi lançado nos cinemas.

Texto publicado em 11 de Agosto de 2010 por Roberto Siqueira

Imagens: Era uma Vez no Oeste (1968)

Seguindo o projeto de atualização das críticas com imagens, já podem conferir a crítica de Era uma Vez no Oeste (1968), agora devidamente ilustrada. Vale lembrar que o texto permanece o mesmo do dia de divulgação.

Um abraço.

Texto publicado em 09 de Agosto de 2010 por Roberto Siqueira

Dia dos pais

Pra quem estava acostumado a dar presente neste dia especial, acordar recebendo presentes foi mágico. Em meu primeiro dia dos pais como pai, fui levado às lágrimas antes mesmo de sair da cama, graças a uma carta incrivelmente sensível, escrita com as mãos e com o coração de alguém que me ama. As palavras, vindas da mamãe (que revelou um talento incrível para tocar no fundo do meu coração através da escrita), representam os sentimentos dela e do Arthur por mim. E como é bom saber que temos importância na vida de quem amamos.

Meu príncipe foi responsável por mais um momento mágico da minha vida. Obviamente, não se trata de receber presentes (por mais que eu tenha recebido presentes que realmente estava precisando e me agradaram muito! 🙂 ), mas sim do simbolismo que este momento representa. Afinal de contas, este dia apenas representa que um sonho, o maior deles, foi realizado em minha vida e hoje eu posso dizer que sou pai, que tenho um filho lindo.

Não existe nada que se iguale ao momento em que chego em casa e corro para abraçá-lo e beijá-lo. É uma sensação indescritível, que todo pai sabe bem como é. E entre tantos papais especiais, obviamente está o meu, que um dia já teve este gostinho especial de ter o seu primeiro dia dos pais como pai, justamente comigo. Por isso, além de agradecer ao Arthur e a Dri pelo momento mágico de hoje, agradeço também ao meu pai por tudo que me proporcionou.

Espero que daqui muitos anos nós possamos repetir este lindo dia. Que todos nós possamos nos reunir e comemorar juntos, quem sabe até com meu primeiro (a) neto (a). Pode ser apenas uma data comercial, pode ser apenas um dia inventado, mas nada disto importa pra mim. O que importa é que sempre curti estes momentos ao lado do meu pai, e hoje descobri a deliciosa sensação de estar do outro lado também. E posso dizer que adorei.

Obrigado Arthur por me proporcionar este lindo momento. Obrigado Dri por estar sempre comigo e por me surpreender logo cedo de maneira tão bonita. Obrigado pai, por mais este dia especial que passamos juntos.

Que Deus abençoe todos nós.

Texto publicado em 08 de Agosto de 2010 por Roberto Siqueira

O fim dos filmes comentados

Os comentários divulgados ontem de “M – O Vampiro de Düsseldorf” foram os últimos do Cinema & Debate. A partir de agora, pretendo divulgar somente críticas completas, em textos estruturados como os da “Videoteca do Beto” ou dos “Filmes em Geral”, ao invés dos tópicos que caracterizavam a categoria “Filmes Comentados”. Ainda não decidi se eu vou transformar os tópicos dos filmes já divulgados em críticas, como avisei que faria na criação desta categoria. Isto vai depender exclusivamente do tempo disponível que terei para realizar este complicado trabalho. Pode ser que eu decida simplesmente deixar estes vinte e cinco filmes comentados como registro da história do blog, como também nada me impede de ir transformando os comentários em críticas ao longo do tempo.

Num primeiro momento, apenas vou inserir o aviso abaixo antes de cada um dos vinte e cinco filmes comentados, buscando deixar bem claro que não se trata de uma crítica. O modelo do aviso é este que segue:

[Antes de qualquer coisa, gostaria de esclarecer que os filmes comentados não são críticas. Tratam-se apenas de impressões que tive sobre o filme, que divulgo por falta de tempo para escrever uma crítica completa e estruturada de todos os filmes que assisto. Gostaria de pedir que só leia estes comentários se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Relevante mesmo é informar aos leitores que este formato pouco confortável não existirá mais. Ainda que escreva sobre menos filmes, vou priorizar a crítica da forma como deve ser. Um texto completo, coeso, que mostre claramente as minhas impressões sobre cada filme com base em argumentos que vocês podem ou não concordar. E só o tempo dirá se os antigos filmes comentados permanecerão como estão ou se estes tópicos serão transformados em críticas.

Espero que gostem.

Um grande abraço.

Texto publicado em 07 de Agosto de 2010 por Roberto Siqueira

M – O VAMPIRO DE DÜSSELDORF (1931)

(M)

 

Filmes em Geral #36

Filmes Comentados #25 (Comentários transformados em crítica em 06 de Janeiro de 2011)

Dirigido por Fritz Lang.

Elenco: Peter Lorre, Otto Wernicke, Gustav Grundgens, Friedrich Gnas, Theo Lingen.

Roteiro: Fritz Lang e Thea von Harbou.

Produção: Seymour Nebenzal (não creditado).

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O impressionante uso do som com função narrativa – e não apenas como reforço para as imagens que vemos na tela – é um dos grandes destaques deste magnífico “M – O Vampiro de Düsseldorf”, dirigido pelo mestre Fritz Lang, onde um simples assovio (um trecho da ópera “Peer Gynt”, de Edvard Grieg.) serve como aviso da aproximação do assassino. Além deste interessante detalhe, de uma narrativa cativante e uma atuação antológica, o longa ainda alertava de maneira sutil para algo que aconteceria pouco tempo depois na Alemanha e que mancharia eternamente a história da humanidade.

Uma onda de crimes assola a pequena cidade alemã de Düsseldorf, chamando a atenção da polícia. A população fica em estado de alerta quando suas crianças começam a desaparecer e, pior do que isso, ao descobrir que elas estão sendo assassinadas por um misterioso assassino conhecido como “M” (Peter Lorre). Paralelamente, os criminosos locais, incomodados com as constantes batidas da polícia em busca do assassino, resolvem se organizar para encontrá-lo.

Fritz Lang utilizou a história real de um assassino de crianças como metáfora para o nascimento de um monstro chamado nazismo, mostrando como a sociedade pode se organizar de diversas formas, seja para fazer o bem, seja para fazer o mau, além ilustrar os perigos de um regime ditatorial (e o futuro lhe daria razão, com a ascensão do partido nazista ao poder na Alemanha, que provocou a saída de Lang do país). “M – O Vampiro de Düsseldorf” alerta para isto de maneira sutil, com os bandidos e os policiais agindo de maneira parecida e a sociedade se organizando para combater o “inimigo público”, no caso, o assassino de crianças interpretado brilhantemente por Peter Lorre. Repare como a reunião dos policiais para discutir o caso é propositalmente intercalada com a reunião dos criminosos, e a semelhança entre aqueles dois grupos não é mera coincidência. A forma de se vestir, o alto tom de voz durante a conversa e os cigarros espalhando fumaça pela sala mostram que aqueles grupos são os dois lados de uma mesma moeda. Além disso, o longa apresenta, através de seu visual estilizado e sua atmosfera sombria, o mal estar que rondava a Alemanha na época. Mas Lang não demonstra sutileza apenas nesta questão do nazismo, sendo elegante, por exemplo, ao não mostrar o assassinato da garota, sugerindo o trágico destino daquela criança através do plano com o balão (comprado pelo assassino de presente pra ela) preso aos fios e a bola jogada no chão.

Tecnicamente, vale ressaltar ainda o uso carregado do contraste entre luz e sombras adotado pela excelente direção de fotografia, perceptível, por exemplo, quando “M” está acuado e em seu julgamento. Observe também como no momento em que a garota bate a bola no anúncio do assassino, a sombra do rosto dele indica sua presença – este uso da sombra é característico do movimento expressionista. É justamente através deste visual carregado que o longa cria a atmosfera perfeita e suga o espectador pra dentro daquele ambiente perigoso e hostil.

Todo este clima nebuloso é coroado por um vilão incrivelmente assustador, interpretado pelo excelente Peter Lorre. Sua atuação como o assassino Becker é impressionante, demonstrando toda a ambigüidade do personagem em seu inflamado discurso final. Ele sabe que está errado, mas não consegue conter o impulso, revelando-se um ser humano falho, como todos nós, mas tragicamente incapaz de se regenerar. Em dois momentos, Becker se vê acuado e Lorre demonstra claramente em seu rosto o desespero do personagem. O primeiro, quando sabe que seu esconderijo será fatalmente descoberto pelos criminosos que se aproximam, e o segundo – o melhor momento do longa – quando é “julgado” pelo grupo de criminosos num local de onde não pode fugir. Sua angústia diante daquelas faces raivosas e sedentas por vingança é praticamente palpável graças ao talento de Lorre. E é interessante (e irônico) notar como as pessoas, quando envolvidas numa multidão, rapidamente se transformam e passam a agir da mesma maneira que condenam, como quando um homem é acusado injustamente de ser o assassino e é cercado por diversas pessoas que desejam o seu fim e quando Becker é confrontado por todos aqueles criminosos que desejam a sua morte. No segundo caso, temos uma explicação plausível, já que aquele grupo é formado exclusivamente por criminosos, mas no primeiro caso esta “desculpa” não se aplica. Desta forma, Lang demonstra como a sociedade pode se comportar de maneira surpreendente e ambígua. O futuro daquela sociedade alemã, destruída após o fim da primeira guerra, mostraria que o ser humano é capaz de coisas terríveis, pois ainda que muitos não concordassem com as práticas nazistas, os alemães (e não só eles, mas todas as pessoas envolvidas naquele trágico período da humanidade) cometeram pelo menos um grave crime, que é o crime da omissão. Além de todas as qualidades citadas, “M – O Vampiro de Düsseldorf” foi o primeiro filme a falar abertamente sobre um “serial killer”, tema este que seria abordado exaustivamente em Hollywood, muitos anos depois.

O mestre Fritz Lang acertou novamente com este excelente “M – O Vampiro de Düsseldorf”, que além de ousar tecnicamente utilizando o som com função narrativa, abordou uma temática complicada com extrema coragem, realizando uma obra de enorme importância para a história do cinema.

PS: Comentários divulgados em 06 de Agosto de 2010 e transformados em crítica em 06 de Janeiro de 2011.

Texto atualizado em 06 de Janeiro de 2011 por Roberto Siqueira

METROPOLIS (1927)

(Metropolis)

 

 

Filmes em Geral #35

Filmes Comentados #24 (Comentários transformados em crítica em 06 de Janeiro de 2011)

Dirigido por Fritz Lang.

Elenco: Alfred Abel, Gustav Fröhlich, Brigitte Helm, Rudolf Klein-Rogge, Fritz Rasp, Theodor Loos, Heinrich George e Erwin Biswanger.

Roteiro: Fritz Lang e Thea von Harbou, baseado em livro de Thea von Harbou.

Produção: Erich Pommer.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Grande obra-prima do expressionismo alemão, “Metropolis” utiliza seu visual esplendoroso e sua história cativante para debater, ainda nos anos 20, a questão da desigualdade social, escancarando os problemas do capitalismo. Dirigido pelo brilhante Fritz Lang, o longa estabeleceu o padrão visual para o gênero ficção-científica, misturando com muita competência todo este visual estilizado às características do cinema expressionista.

Metropolis é uma mega cidade no ano de 2026 onde os poderosos vivem na superfície enquanto os operários trabalham duramente para manter o funcionamento local na chamada “cidade dos operários”, localizada na base daquela enorme estrutura. O governador local, Joh Fredersen (Alfred Abel), solicita ao inventor Rotwang (Rudolf Klein-Rogge) o desenvolvimento de um robô, buscando substituir o trabalho humano no futuro. Paralelamente, Maria (Brigitte Helm), uma espécie de líder espiritual, fala aos operários sobre a vinda de um mediador que irá salvá-los e pede que eles evitem o uso da violência. Mas o robô de Rotwang assumirá a forma de Maria para semear a discórdia entre eles. Só que Joh não imaginava que seu filho Freder Fredersen (Gustav Fröhlich) se apaixonaria por Maria.

Em “Metropolis”, Fritz Lang apresenta um visual assombroso, que definiu os padrões do gênero ficção-científica, entrelaçando arranha-céus (que na época praticamente inexistiam na Alemanha), ruas apertadas e carros voadores, aplicando a regra básica do expressionismo, onde o visual imponente dos prédios sufoca o espectador, transmitindo a angústia da vida naquela grande cidade e o sofrimento dos pobres trabalhadores que sustentavam aquela sociedade. E é interessante notar como o aspecto físico tem função narrativa, já que os operários, localizados no nível mais baixo de Metropolis, de fato sustentavam a fatia rica da cidade com seu trabalho duro. A arquitetura, aliás, tem função narrativa em praticamente todos os filmes do expressionismo. “Descer” fisicamente realmente significava ser rebaixado, estar abaixo na pirâmide social. Assim como a descida ao banheiro em “A Última Gargalhada” significava a queda do porteiro, a descida ao porão em “Nosferatu” significava a descoberta do caixão onde repousava o mau e a descida forçada do prédio onde se escondia representava a captura e prisão do criminoso em “M – O Vampiro de Dusseldorf”, em “Metropolis” a descida à cidade dos operários significava ser rebaixado na escala social, o que justifica o desespero de Josaphat (Theodor Loos) quando é despedido por Joh Fredersen.

As atuações em “Metropolis” são exageradas e caricatas, em parte porque no período era assim que se atuava, até pela dificuldade da falta do som (e da voz), mas muito por causa das características do expressionismo, que buscava externar de forma marcante os sentimentos dos personagens. Mas existe uma exceção. Maria, a pacífica líder espiritual dos operários, é interpretada com muito charme por Brigitte Helm, que também faz o papel do robô criado pelo cientista Rotwang a pedido de Joh Fredersen. Note a diferença na expressão de Helm quando interpreta o robô, sempre mais caricata, e quando interpreta Maria, com traços mais suaves no rosto.

Fritz Lang conduz com maestria as empolgantes seqüências da revolta dos operários, nos levando numa viagem pelas entranhas daquela gigantesca cidade, guiados pelo numeroso elenco de figurantes (36 mil, um número muito acima dos padrões da época e que ainda hoje pode ser considerado digno de superproduções). Destaque para a impressionante cena da inundação da casa das máquinas (outro cenário magnífico do longa) e para o encontro final entre os operários e a classe rica da cidade. Já a magnífica cena em que Freder tem uma alucinação e vê a máquina engolindo os operários simboliza a angústia daqueles homens de vida sofrida, algo bastante característico do expressionismo. Momentos antes, quando Freder observa aqueles operários mantendo a máquina a todo vapor, Lang cria uma metáfora inteligente para a integração homem-máquina, como se aqueles operários fizessem parte da estrutura daquela máquina, ou seja, como se fossem as veias que permitiam o funcionamento daquele enorme sistema. O curioso é que o futuro imaginado por Lang não está tão distante da realidade de hoje, tanto nas grandes corporações como nas próprias sociedades espalhadas pelos países mundo afora, onde a massa trabalhadora sustenta a fatia menor e mais rica da sociedade, que desfruta as regalias do poder. Felizmente, ainda não temos o robô, que era a esperança de Joh para substituir o trabalho humano e, desta forma, conseguir manter as máquinas sempre em funcionamento sem depender dos operários. Mas certamente muitos empresários ainda sonham com isso.

A bela mensagem deixada por “Metropolis” (o cérebro e as mãos se encontram através do coração) fecha com chave de ouro esta obra-prima do cinema. Fritz Lang, antes de deixar a Alemanha, brindou os cinéfilos com este presente magnífico, que impressiona pela qualidade técnica e pela temática, que ainda hoje, mais de oitenta anos depois, continua atual.

PS: Comentários divulgados em 05 de Agosto de 2010 e transformados em crítica em 06 de Janeiro de 2011.

Texto atualizado em 06 de Janeiro de 2011 por Roberto Siqueira

A ÚLTIMA GARGALHADA (1924)

(Der Letzte Mann)

 

Filmes em Geral #34

Filmes Comentados #23 (Comentários transformados em crítica em 06 de Janeiro de 2011)

Dirigido por F.W. Murnau.

Elenco: Emil Jannings, Maly Delschaft, Max Hiller, Emilie Kurz, Hans Unterkircher, Olaf Storm, Georg John, Emmy Wyda e Hermann Vallentin.

Roteiro: Carl Mayer.

Produção: Erich Pommer.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A triste história de um idoso porteiro do elegante hotel Atlantis, em Berlim, que é obrigado a deixar o cargo que ama por ser considerado velho demais, passando a exercer a função de criado do banheiro masculino do mesmo hotel, é contada neste tocante “A Última Gargalhada”, dirigido por F. W. Murnau.

Orgulhoso de seu trabalho, mas já sentindo o peso dos anos, um idoso porteiro (Emil Jannings) do hotel Atlantis, em Berlim, é afastado de seu cargo e realocado na função de criado do banheiro masculino, o que provoca grande impacto na auto-estima do velho homem, que até então era tratado com grande respeito por sua família, seus amigos e seus vizinhos.

Escrito por Carl Mayer, “A Última Gargalhada” toca diretamente na ferida do capitalismo, mostrando como a perda do emprego pode provocar sérios danos financeiros e psicológicos no cidadão, e, conseqüentemente, pode provocar um efeito desastroso na auto-estima da pessoa, dependendo do grau de afinidade que ela tinha com seu cargo. Este devastador efeito é ilustrado com competência por Murnau, que filma o porteiro em ângulo baixo (contra-plongèe) quando ele ainda está em seu pomposo uniforme, transmitindo a sensação de poder e respeito que o velho sentia, o que contrasta com a câmera em plongèe (filmado por cima) que passa a predominar a narrativa quando o porteiro é transferido para outro cargo, diminuindo o protagonista diante do espectador. Além disso, o diretor utiliza ainda em diversos momentos a câmera sob o ponto de vista do porteiro, num movimento interessante e até mesmo diferenciado para sua época. Vale à pena notar também como tudo em “A Última Gargalhada” é muito orgânico, ou seja, pertence ao universo diegético do filme, evitando que o longa soe artificial, como a mensagem no bolo que serve para nos informar sobre o casamento ou a notícia no jornal que informa ao espectador de que forma o porteiro irá se tornar rico, evitando letreiros e explicações, o que é muito elegante.

Além de sua interessante temática, “A Última Gargalhada” reserva ainda uma pequena brincadeira de Murnau, que gera muitas reflexões. O diretor insere um final alternativo, que apesar de parecer totalmente fora de propósito, acaba conseguindo nos confortar, ainda que de uma maneira estranha, pois sabemos que não estamos vendo o verdadeiro final da estória. E é aí que surge uma interessante questão para ser debatida: porque não nos sentimos completamente satisfeitos com o final alternativo se nas duas situações estamos falando de uma ficção? Porque assumimos que o primeiro final é verdadeiro e o segundo não é? Esta interessante discussão sobre a linguagem cinematográfica gerada pelo longa já seria razão suficiente para considerá-lo um grande filme.

Mas Murnau não para por aí, indo além da discussão sobre a linguagem cinematográfica ao apresentar, ainda que em menor escala do que em outros filmes como “O Gabinete do Dr. Caligari”, forte influencia do expressionismo alemão, como durante a chegada do porteiro em sua casa, com todos os vizinhos olhando, seguida pela inundação de olhos e bocas gargalhando que Murnau joga na tela, num momento que retrata muito bem o marcante visual do cinema expressionista. As características marcantes do expressionismo, com imagens distorcidas, como o prédio que parece estar caindo sobre o porteiro quando ele volta pra casa com o uniforme roubado, refletem muito bem o estado de espírito do personagem, que naquele momento sentia o mundo pesando em seus ombros. Além disso, a direção de fotografia de Robert Baberske e Karl Freund carrega nos tons escuros, fazendo com que o porteiro por muitas vezes desapareça na escuridão, como no primeiro final solitário no banheiro. Em contrapartida, o final “alternativo” feito para o espectador tem um tom mais leve e iluminado, que reflete a felicidade do protagonista. É interessante notar também como a cultura alemã está presente com muita força nos simbolismos da narrativa, como o uniforme, que remete ao cargo e é alvo de veneração do porteiro, e o botão caído, que simboliza a queda daquele homem. Esta adoração pelo status era algo tipicamente alemão no período. E além do aspecto visual, a própria atuação exagerada de Emil Jannings casa perfeitamente com o estilo expressionista, que buscava transmitir através de imagens fortes e distorcidas o sentimento dos personagens. A dor e a tristeza do porteiro ao perder o emprego que era seu grande orgulho ultrapassam os limites da tela e se instalam no coração do espectador, que sofre junto com ele.

Utilizando os aspectos marcantes do expressionismo para contar uma história tocante, “A Última Gargalhada” ainda abre espaço para uma interessante reflexão a respeito da linguagem cinematográfica, o que lhe garante um lugar de destaque entre as importantes obras do cinema expressionista.

PS: Comentários divulgados em 04 de Agosto de 2010 e transformados em crítica em 06 de Janeiro de 2011.

Texto atualizado em 06 de Janeiro de 2011 por Roberto Siqueira

NOSFERATU – UMA SINFONIA DE HORRORES (1922)

(Nosferatu, Eine Symphonie des Grauens)

 

Filmes em Geral #33

Filmes Comentados #22 (Comentários transformados em crítica em 06 de Janeiro de 2011)

Dirigido por F.W. Murnau.

Elenco: Max Schreck, Greta Schröder, Karl Etlinger, John Gottowt, Ruth Landshoff, Georg H. Schnell, Gustav von Wangenheim e Gustav Botz.

Roteiro: Henrik Galeen, baseado em livro de Bram Stoker.

Produção: Enrico Dieckmann e Albin Grau.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Filmes que contam histórias de vampiro não são raridades na história do cinema. Na realidade, existem filmes sobre vampiros aos montes e de todas as formas possíveis. Mas um vampiro em especial sempre chamou à atenção dos cineastas pelo mundo. Trata-se da lenda “Conde Drácula”, que já inspirou, segundo informação de Rodrigo Carreiro no site Cine Reporter, mais de 100 filmes ao longo dos anos. E toda esta longa história começou em 1922, com esta adaptação não autorizada do mestre F. W. Murnau para a obra de Bram Stoker, que no cinema recebeu o nome de “Nosferatu, uma sinfonia de horrores”.

Na adaptação de Murnau, Hutter (Gustav von Wangenheim) é um agente imobiliário que viaja até os temidos montes Cárpatos para vender um castelo. Só que numa visita aos porões do castelo, o agente encontra um caixão, onde o estranho conde Graf Orlock (Max Schreck) dorme, e descobre que o conde é na verdade um vampiro milenar. O agente volta para Bremen, na Alemanha, a sua terra natal, mas o conde também segue viagem no porão de um navio e sua chegada provoca pânico na cidade. Mas o conde acaba se apaixonando por Ellen (Greta Schröder), a esposa de Hutter, e esta será a chave para a solução dos problemas do agente.

Como podemos perceber, basta trocar os nomes dos personagens para identificar a tradicional história do Conde Drácula escrita por Bram Stoker. Dirigido por Murnau, o clássico fantasmagórico “Nosferatu, uma sinfonia de horrores” faz uma releitura da famosa história, com nomes trocados e pequenas modificações (o diretor não conseguiu autorização para adaptar a obra de Bram Stoker), criando imagens aterrorizantes sob a forte influência do expressionismo alemão. A atmosfera do filme é fantástica, criando um clima de terror através do belo texto (mérito do roteiro de Henrik Galeen, baseado na obra de Bram Stoker) e da pesada direção de fotografia, que pintou à mão a película do filme, tingindo a tela em tons de azul, amarelo e vermelho em muitas cenas, o que além de ter função narrativa (as cores dividem ambiente externo e interno, além de separar o dia da noite), aumenta o clima fantasmagórico do longa, que mais parece um pesadelo. Também colabora para a atmosfera de horror a bela direção de arte de Albin Grau, que capricha no visual sombrio dos lugares por onde o conde passa, infestando de ratos o navio, por exemplo, e criando um castelo assustador na Transilvânia, com cômodos enormes e um porão tenebroso, onde fica o caixão do vampiro.

Mas apesar de ser aterrorizante, “Nosferatu” não provoca sustos repentinos, daqueles que fazem o espectador saltar da cadeira (o que em muitos casos acaba soando artificial, pois o susto é provocado mais pela trilha sonora do que pelo que vemos na tela). Ainda assim, tem imagens perturbadoras o suficiente para ficar na memória por muito tempo, como a entrada de Orlock no quarto em que Hutter dorme, o momento em que Orlock acorda no porão do navio e a clássica imagem de sua sombra na parede enquanto sobe as escadas. Estas imagens fortes e horripilantes estabeleceram um padrão para o cinema de horror que viria a seguir. Outro grande destaque é a sombria trilha sonora, que aumenta o clima macabro e ainda pontua muito bem os momentos tensos do longa, como a citada visita de Orlock ao quarto de Hutter e sua subida pela escada refletida na parede.

Entre o elenco, vale destacar a espetacular atuação de Max Schreck como o conde vampiro Orlock, que nos dá a impressão de realmente estarmos vendo um vampiro na tela. Seu olhar penetrante e sua aparência nada agradável, aliado ao perfeito clima criado por Murnau, garantem uma atuação perturbadora e marcante. E aqui vale citar uma curiosidade. A atuação de Schreck é tão magnética que após o lançamento de “Nosferatu”, passou a correr no meio cinematográfico a lenda de que o ator alemão era um vampiro de verdade, interpretando a si mesmo, o que dá a exata idéia do impacto causado por sua grande atuação. Completam o elenco principal Gustav von Wangenheim, interpretando Hutter, e Greta Schröder, que interpreta com muito charme a bela Ellen Hutter, que assim como na obra de Bram Stoker, conquista o coração do vampiro. Só que ao contrário da lenda do conde Drácula, em “Nosferatu” é a própria moça quem salva a todos, num final diferente e muito interessante.

Com seu clima fantasmagórico e suas imagens perturbadoras, além de uma interpretação espetacular, “Nosferatu” influenciou praticamente todos os filmes de terror que surgiram depois. Certamente é a adaptação mais importante do Conde Drácula, ainda que não tenha utilizado os nomes da obra original. Repleto de imagens impressionantes, o longa dirigido por Murnau é referência obrigatória e entretenimento de primeira.

PS: Comentários divulgados em 03 de Agosto de 2010 e transformados em crítica em 06 de Janeiro de 2011.

Texto atualizado em 06 de Janeiro de 2011 por Roberto Siqueira