Imagens: Três Homens em Conflito

Seguindo o projeto de atualização das críticas com imagens, já podem conferir a crítica de Três Homens em Conflito, agora devidamente ilustrada. Vale lembrar que o texto permanece o mesmo do dia de divulgação.

Um abraço.

Texto publicado em 23 de Maio de 2010 por Roberto Siqueira

Minha teoria sobre Lost

Lost é fascinante. Disto não tenho dúvida. Por mais que existam defeitos (e eles existem, acredite), a série mostrou uma capacidade incrível de prender a atenção do espectador ao longo destes anos todos, graças a uma narrativa inteligente e muito bem construída, além de mostrar uma eficiência invejável na arte de se reinventar. Contando com um elenco coeso e muito competente, Lost usa e abusa de seus mistérios para mostrar a intrigante trajetória de personagens magníficos, utilizando com precisão o conflito fé x ciência, sem jamais pender definitivamente para um lado. E exatamente por isso, diversas teorias a respeito da natureza da ilha foram surgindo ao longo dos anos, e provavelmente a maioria delas ainda pode estar correta, graças ao leque incrível de possibilidades aberto pelos inventivos roteiristas da série.

Mas estamos chegando num momento crucial, que com certeza será um divisor de águas entre os fãs de Lost. O momento da definição final da série certamente deixará uma legião de fãs desapontados e tantos outros eufóricos, independente do caminho tomado pelos criadores. Isto porque obviamente os fãs não pensam da mesma forma e, portanto, será impossível agradar a todos. Existem aqueles que gostam de explicações sobre tudo (e que certamente ficarão revoltados caso algo não tenha uma explicação plausível) e outros tantos (como eu) que gostariam de ver a série terminando com muitos mistérios em aberto, abrindo assim a possibilidade de mais discussões e interpretações. Não sei qual será o caminho escolhido por Carlton Cuse e Damon Lindelof para concluir Lost, mas mal posso esperar para conferir.

Só que antes de assistir os últimos episódios da série, não posso deixar de compartilhar com os leitores do Cinema & Debate a teoria que desenvolvi nesta última temporada (com base em muita coisa que li e nos episódios que vi até hoje) e que já compartilhei com amigos e familiares. Deixo apenas um aviso, como de costume: é bom ter assistido pelo menos até o 15º episódio da série antes de ler, pois o texto contém spoilers.

TEORIA SOBRE LOST, por Roberto Siqueira

(Não leia se ainda não assistiu até o 15º episódio da 6º temporada de Lost)

De forma bem resumida, acredito que a ilha é mesmo uma espécie de purgatório, ou um local de transição entre a vida terrena e o céu/inferno. Para mim, os “losties” morreram na queda do Oceanic 815 (ora, tanta gente sobreviver a um acidente aéreo desta proporção seria algo no mínimo estranho…) e aqueles que tiveram uma vida atribulada foram enviados ao “purgatório” para uma segunda chance. Neste local, onde as regras da vida terrena pouco se aplicam, e por isso coisas absurdas eram possíveis, o foco verdadeiro deve ser dado na redenção destas pessoas (e repare como todos os losties tinham problemas na vida particular, como os “flashbacks” fizeram questão de reforçar ao longo de muitas temporadas) e não nos aspectos “sobrenaturais” da ilha.

Minha teoria ganhou corpo quando a sexta temporada introduziu a “realidade paralela”, que em minha opinião é, na realidade, o período pós-ilha, onde cada lostie viverá o seu paraíso ou inferno particular. Veja, portanto, que céu e inferno aqui são diferentes do que estamos acostumados a ouvir e ler a respeito. Nada de lagos e árvores no céu ou fogo no inferno. Trata-se de um “paraíso pessoal” para aqueles que foram aprovados na ilha, como Hurley (está bem com Libby), Jack (é feliz com seu filho), Sawyer (é feliz trabalhando na polícia e evitando golpes como o que acabou com sua vida ainda na infância) e o casal Jin e Sun (que vive um casamento feliz). Sun e Jin, aliás, reforçaram ainda mais a minha tese, quando, no 14º episódio, encerraram sua passagem pelo purgatório. Pense bem: o casamento estava por um fio quando os coreanos embarcaram rumo à Los Angeles, com Sun prestes a abandonar o marido. Mas após a queda na ilha, os dois tiveram a chance de se reconciliar e, no momento final, Jin não abandonou a mulher, ao passo em que ela não hesitou em pedir para que o marido salvasse sua pele. Ambos demonstraram amor verdadeiro e foram aprovados, passando a viver uma vida muito melhor no período pós-ilha.

Entendo também que alguns personagens, como Charlie e Kate, não deverão ser aprovados, passando a viver um verdadeiro “inferno pessoal” no período pós-ilha. Como podem perceber, ainda preciso raciocinar sobre a função de Widmore e Desmond nisto tudo, mas tenho a esperança de que Lost me dê estas pistas nos episódios finais. E a história da origem de Jacob e do homem de preto, a aparição da caverna de luz, as diversas referências bíblicas e a clara alusão à luta entre o bem e o mal foram dicas interessantes que serviram para me sentir ainda mais seguro com relação à minha teoria. Obviamente, posso estar redondamente enganado e ser desmentido já no episódio desta terça. E confesso que ficarei muito feliz caso os criadores de Lost apresentem uma explicação ainda mais interessante e provem que estou enganado. Mas também admito que ficarei muito satisfeito caso a série termine sem deixar muitas explicações, permitindo a cada espectador elaborar, assim como eu fiz, sua própria explicação sobre os mistérios da ilha.

Espero que gostem da teoria, por mais que não concordem com ela.

Um grande abraço.

Texto publicado em 17 de Maio de 2010 por Roberto Siqueira

NASCIDO PARA MATAR (1987)

(Full Metal Jacket)

 

Videoteca do Beto #58

Dirigido por Stanley Kubrick.

Elenco: Matthew Modine, Adam Baldwin, Vincent D’Onofrio, R. Lee Ermey, Dorian Harewood, Arliss Howard, Kevyn Major Howard, Ed O’Ross, John Terry, Kieron Kecchinis, Kirk Taylor, Jon Stafford, Ian Tyler, Papillon Soo e Bruce Boa.

Roteiro: Michael Herr e Stanley Kubrick, baseado em livro de Gustav Hasford.

Produção: Stanley Kubrick.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após dirigir uma seqüência incrível de grandes filmes entre 1960 e 1980, o genial Stanley Kubrick fez uma pausa de sete anos, voltando em grande estilo com este “Nascido para Matar”, visão peculiar do diretor sobre a guerra do Vietnã, conflito que inspirou tantas obras sensacionais na história recente do cinema. Apesar do ótimo resultado alcançado, o longa de Kubrick é claramente inferior aos excepcionais “Platoon”, lançado um ano antes, e à obra-prima “Apocalypse Now”, de 1979. Ainda assim, consegue ser um filme acima da média, que foca boa parte de sua narrativa em outro aspecto pouco explorado nos filmes do gênero, que é o treinamento que transforma jovens em verdadeiras máquinas de matar.

O rígido sargento Hartman (R. Lee Ermey) é o responsável pelo treinamento cruel, e por vezes até mesmo sádico, de jovens soldados norte-americanos que serão enviados para a guerra do Vietnã. Os métodos nada suaves do sargento transformarão aqueles jovens em combatentes impiedosos, mas nem todos eles têm estrutura psicológica para agüentar a pressão, o que leva a um resultado trágico. Após chegar ao Vietnã, os soldados terminarão seu processo de transformação total ao se deparar com os horrores da guerra. E aqueles que conseguirem voltar pra casa, já estarão mudados para sempre.

Se o espectador busca em “Nascido para Matar” um filme repleto de ação, com explosões e tiroteios ensandecidos, vai se decepcionar. O roteiro de Michael Herr e Stanley Kubrick, baseado em livro de Gustav Hasford, desenvolve os personagens com calma, permitindo ao espectador conhecer muitas de suas características durante o treinamento e acompanhar a completa transformação deles. Além disso, divide claramente a narrativa em duas partes: o treinamento e a guerra. Portanto, durante metade da projeção somos apresentados aos métodos cruéis utilizados para formar jovens soldados e somente na segunda metade é que os conflitos realmente entram em cena. Curiosamente, é na primeira metade que está a melhor parte da narrativa. É extremamente cativante acompanhar personagens fascinantes como o sargento Hartman e os soldados Pyle (Vincent D’Onofrio) e Hilário (Matthew Modine) durante a fase de treinamento. Ironicamente, o maior problema de “Nascido para Matar” acontece no ponto de virada entre o treinamento e a guerra, quando os dois melhores personagens do longa saem tragicamente de cena, o que claramente enfraquece a segunda metade do filme. Este problema poderia ser amenizado pela montagem de Martin Hunter, caso as duas histórias fossem contadas simultaneamente. Desta forma, o impacto da narrativa seria muito maior no espectador, que tentaria descobrir porque Pyle não seguiu com os outros para a guerra. “Teria ele desistido?” poderíamos pensar, e a surpresa viria no final com o impactante desfecho do treinamento. Infelizmente, este chocante final do treinamento é apresentado ainda na primeira metade do filme e deixa o espectador “órfão” dos melhores personagens até então. Apesar disto, a montagem trabalha muito bem durante toda a empolgante seqüência do treinamento, que segue num ritmo intenso e agradável, e também é competente nas seqüências no Vietnã, cheias de energia e realismo.

Mais uma vez, Kubrick extrai de sua equipe um trabalho técnico impecável que resulta no belíssimo visual do longa, como podemos notar através dos figurinos de Keith Denny e da direção de arte de Keith Pain, Nigel Phelps, Rod Stratfold e Leslie Tomkins, que ambientam com competência o espectador ao clima do filme tanto nos treinamentos quanto no combate, através dos uniformes de guerra e, principalmente, do excepcional visual dos destroços da cidade, já no terceiro ato. Vale ressaltar também a boa direção de fotografia de Douglas Milsome, que destaca o verde, cada vez menos vivo – assim como a esperança dentro daqueles corações endurecidos – misturado ao cinza, que simboliza a tristeza daqueles jovens soldados. Finalmente, vale destacar a boa trilha sonora de Vivian Kubrick, composta por excelentes canções.

Entre o elenco, vale destacar o citado trio de personagens, muito bem interpretados por Ermey, D’Onofrio e Modine. Kubrick costumava ser extremamente exigente com seus atores, repetindo tomadas inúmeras vezes até alcançar o resultado que desejava. Aqui, novamente o resultado é bastante competente. O close durante o corte de cabelo dos soldados, seguido por outro close, agora no tenente Hartman, serve como apresentação dos personagens e permite ao espectador se familiarizar com todos eles. E entre tantos interessantes personagens, o maior destaque vai mesmo para o sargento Hartman. A incrível capacidade de criar frases repletas de diversos palavrões deixam claro logo de cara o estilo durão do sargento, interpretado magnificamente por R. Lee Ermey, que utilizou seu conhecimento (ele era sargento de verdade) para improvisar todas aquelas frases. Firme e determinado a transformar aqueles jovens em soldados completos, o sargento não dá trégua para ninguém e busca enrijecer o coração de cada um deles. Hartman alcança seu objetivo, mas o resultado é trágico, principalmente pra ele. Outro interessante personagem é o recruta Hilário (Joker em inglês), que mostra sua capacidade de liderança durante o treinamento, conseguindo extrair melhores resultados do engraçado Pyle. Hilário, interpretado por Matthew Modine, será o fio condutor da narrativa e, apesar da boa atuação de Modine, claramente é um personagem sem a mesma força de Pyle e Hartman. Ainda sim, consegue a empatia do espectador. Finalmente, vale destacar a grande atuação de Vincent D’Onofrio na pele do gordinho Pyle (D’Onofrio teve que engordar muitos quilos para viver o personagem). Inicialmente tranqüilo e até mesmo inocente, o recruta vai lentamente sendo degradado pelo ambiente hostil e sua transformação se consuma quando é atacado de madrugada pelos companheiros, revoltados com as punições sofridas por sua culpa – observe como durante a surra dos soldados em Pyle, a fotografia azulada reflete a frieza de todos eles naquele momento. A partir deste instante, ele para de falar, muda o olhar e demonstra claramente sua revolta, numa atuação inspirada de Vincent D’Onofrio, acentuada ainda mais pela câmera de Kubrick, como no zoom em seu olhar raivoso, que simboliza sua completa transformação. O resultado daquele treinamento pesado foi trágico para Pyle, que enlouqueceu, e ainda mais trágico para Hartman.

Stanley Kubrick mantém em “Nascido para Matar” o seu costumeiro preciosismo na direção, com enquadramentos milimétricos e planos perfeitos. Mas o diretor também mostra competência nas cenas de combate, como podemos observar, por exemplo, durante uma invasão no Vietnã em que a câmera acompanha os soldados, conferindo bastante realismo à cena. Kubrick também estiliza o visual durante a morte de “Bola 8” (Dorian Harewood), utilizando a câmera lenta para aumentar o impacto do ataque enquanto o sangue jorra do corpo do soldado. O diretor cria ainda um belo plano, sob o ponto de vista de um atirador escondido num prédio, seguido por um zoom que nos aproxima da vítima segundos antes do tiro fatal. Além disso, demonstra sua competência também na condução das duas melhores seqüências do longa. A primeira delas, a sensacional seqüência dentro do banheiro (“7,62 milímetros, full metal jacket!”), é a melhor do filme, resultando na impactante morte de Hartman seguida pelo suicídio de Pyle. Infelizmente, acontece muito cedo e de certa forma esvazia o restante da narrativa. Mas o último ato reserva para o espectador outra grande seqüência, durante a tensa invasão do prédio em meio às chamas, que culmina com a execução da atiradora vietnamita em câmera lenta, num balé muito bem dirigido por Kubrick. Neste momento, Hilário encara sua hora da verdade e consuma sua completa transformação, assassinando a sangue frio a vítima indefesa. E seu pensamento final só confirma sua mudança, ratificando o único interesse de qualquer pessoa que se envolva desta maneira na guerra (“Estou num mundo de merda, mas estou vivo”), num contraponto excelente a frase dita por Pyle momentos antes de se suicidar (“Estou num mundo de merda!”) – o que reforça a tese de que se a montagem alternasse as duas histórias de forma paralela, o final seria ainda mais marcante.

Kubrick, assim como outros importantes cineastas ao longo da história do cinema, também fez seu estudo da guerra e dos efeitos que ela provoca na mente do ser humano. A insanidade da guerra levou, por exemplo, um fuzileiro a atirar em crianças e mulheres nos campos do Vietnã, em outra cena chocante do longa. Na visão do diretor, a distância entre a paz e a extrema violência é pequena na mente do ser humano. Basta que ele seja provocado e preparado para se transformar numa máquina assassina. Este pensamento é ilustrado no principal personagem do filme, através do broche da paz no peito e do capacete escrito “Nascido para Matar”, que simboliza perfeitamente a dualidade do homem, como o próprio Hilário diz em certo momento. Kubrick aborda também, de maneira mais sutil, a visão norte-americana do conflito, através da interessante entrevista dos soldados para uma televisão (“Estamos morrendo por eles…”).

“Nascido para Matar” mostra como o exército transforma jovens em verdadeiras máquinas de matar, assim como a guerra endurece seus corações, alterando sua visão do mundo para sempre. Dirigido e interpretado com competência, não deixa de ser um ótimo filme, mas poderia ser ainda melhor com alguns pequenos ajustes. De qualquer forma, deixa sua mensagem, ainda que não seja tão contundente como outras obras do excepcional diretor.

Texto publicado em 15 de Maio de 2010 por Roberto Siqueira

Breve comentário

Apareço hoje somente para dizer que estou muito empolgado com os últimos episódios de Lost. Hoje vou assistir o 15º episódio. Pretendo também fazer um comentário final assim que acabar a última temporada.

Bom por enquanto é isto, entre amanhã e sábado volto para postar a próxima crítica.

Um grande abraço.

Texto publicado em 13 de Maio de 2010 por Roberto Siqueira

Convocação da Seleção Brasileira

Antes de qualquer coisa, é bom adiantar aos leitores que de hoje até o dia 11 de Julho de 2010 este blog passará a comentar mais sobre futebol do que o costumeiro. Afinal de contas, Copa do Mundo é sempre Copa do Mundo. E pra começar, vamos falar sobre a convocação da seleção brasileira, anunciada hoje, às 13 horas, no Rio de Janeiro.

Infelizmente, Dunga foi coerente. E tomara que mais uma vez ele me faça quebrar a cara. Mas não consigo confiar num meio de campo formado por tantos volantes numa Copa do Mundo. E Kaká, o único meia de verdade que temos, está baleado, voltando agora e é muito mais um jogador para contra-ataque do que alguém que possa fazer um passe e furar uma retranca. Só nos resta torcer para que Dunga esteja certo mais uma vez. Mas tenho a sensação de que ele errou no pior momento possível ao não abrir espaço para um jogador diferenciado como Paulo Henrique.

Sorte para a seleção!

Um abraço.

Texto publicado em 11 de Maio de 2010 por Roberto Siqueira

OS GOONIES (1985)

(The Goonies)

 

Videoteca do Beto #57

Dirigido por Richard Donner.

Elenco: Sean Astin, Josh Brolin, Jeff Cohen, Corey Feldman, Kerri Green, Martha Plimpton, Jonathan Ke Quan, John Matuszak, Robert Davi, Joe Pantoliano, Anne Ramsey, Lupe Ontiveros, Mary Ellen Trainor, Keith Walker e Paul Tuerpe.

Roteiro: Chris Columbus, baseado em estória de Steven Spielberg.

Produção: Harvey Bernhard e Richard Donner.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Baseada em estória de Steven Spielberg, esta deliciosa aventura juvenil dirigida pelo versátil e competente Richard Donner brinda o espectador com uma narrativa muito interessante, capaz de prender a atenção durante todo o longa e que conta ainda com algumas cenas simplesmente inesquecíveis. A excelente interpretação coletiva de um elenco jovem e muito competente – que conta com nomes como Josh Brolin e Sean Astin – é a cereja do bolo deste leve e delicioso “Os Goonies”, que marcou toda uma geração de cinéfilos pelo mundo, abordando temas recorrentes da adolescência, como o fortalecimento das amizades e a descoberta do sexo.

Prestes a deixar o local onde vivem, um grupo de adolescentes que se intitula “os Goonies” resolve organizar uma cerimônia de despedida do local e dos próprios integrantes do grupo. Mas ao descobrir o mapa de um tesouro perdido, resolvem partir em busca do misterioso tesouro para evitar a venda e demolição das casas onde moram.

O inteligente roteiro de Chris Columbus, baseado em estória de Steven Spielberg, mistura muito bem a ação e o humor, algo que fica ainda mais evidente graças à dinâmica montagem de Michael Kahn, que imprime um ritmo ágil à narrativa, bastante apropriado para uma aventura juvenil. Além disso, o roteiro aborda temas marcantes da adolescência, como o estabelecimento de fortes laços de amizade e a descoberta da atração pelo sexo oposto. Afinal de contas, o que seriam “os goonies” senão um grupo de amigos, destes que, ainda que o tempo distancie, guardamos na memória para sempre? Já a descoberta da atração pelo sexo oposto, um momento muito importante na vida de qualquer adolescente, é ilustrada, por exemplo, quando Michael (Sean Astin) acidentalmente beija Andy (Kerri Green), que esperava pelo irmão dele (Brandon, interpretado por Josh Brolin), numa das muitas cenas bem humoradas do longa. A criatividade, marca registrada do filme, aparece logo no início da narrativa, através da forma inteligente com que um dos bandidos foge da prisão, deixando claro desde então quem serão os vilões da estória. A criatividade volta a aparecer em diversos outros momentos, como no interessante método utilizado para abrir o portão dos Walsh e, principalmente, durante toda a aventura dos adolescentes na busca pelo tesouro escondido dentro de uma casa aparentemente abandonada. Além disso, o bom humor permeia toda a narrativa, como na cômica tradução de “Bocão” (Corey Feldman) para as palavras em espanhol da empregada e na acidental quebra da estátua da Sra. Walsh. Neste sentido, também merece destaque a ligação de “Bolão” (Jeff Cohen) para a polícia, que serve como lição nada sutil para crianças mentirosas.

Richard Donner dirige “Os Goonies” com extrema segurança, criando belas seqüências em diversos momentos, como no plano aéreo em que os garotos andam de bicicleta, seguido por um pequeno travelling para a esquerda que revela o local onde a aventura se passará. Em outro momento, o diretor movimenta a câmera rapidamente para a esquerda enquanto cada “goonie” fala uma frase, formando um interessante jogral. Já durante a descida por uma espécie de toboágua, a câmera agitada nos leva pra dentro da cena, conferindo realismo e garantido a emoção. Mas o principal destaque no trabalho de Donner vai mesmo para a direção de atores, que consegue extrair uma performance coletiva de alto nível de um elenco extremamente jovem. O drama familiar da eminente perda da casa motiva os jovens a seguir na busca pelo tesouro. E se nos identificamos e compramos a idéia deles, é devido às boas e convincentes atuações. Todos os nomes do elenco merecem destaque, com atenção especial para Jeff Cohen, que interpreta o “Bolão” e é o dono das melhores cenas do longa. Josh Brolin como Brandon Walsh, Sean Astin como Michael Walsh, Corey Feldman vivendo o “Bocão”, Jonathan Ke Quan como “Data” e Kerri Green interpretando Andy completam o coeso elenco juvenil. Ainda nas atuações, o marcante e deformado Sloth é interpretado por John Matuszak e entre os vilões, o destaque fica para a engraçada Mama Fratelli, muito bem interpretada por Anne Ramsey.

Assim como outro herói de Spielberg (o arqueólogo Indiana Jones), os “goonies” cometem erros constantemente, o que aumenta a empatia do espectador e faz com que este realmente tema pelo destino dos aventureiros. Colabora com este sentimento o fato de Donner não abrir mão da utilização de ameaças reais, como o uso de armas de fogo por parte dos bandidos, o que aumenta a sensação de perigo e transforma os vilões em personagens mais realistas. Mas ainda que o perigo pareça real, o clima alegre e divertido é o que prevalece. Os figurinos coloridos de Linda DeScenna e a trilha sonora divertida e empolgante (típica de aventuras) de Dave Grusin – que conta com música de Cindy Lauper – reafirmam a cara oitentista do filme. A fotografia (Direção de Nick McLean), também bastante colorida, reforça o clima alegre do filme. Além disso, capricha na iluminação e no jogo de luz e sombra, já que boa parte do filme se passa dentro de uma caverna.

A frase de Michael “Willie, você é o primeiro goonie” ilustra muito bem o espírito aventureiro do filme, que agrada em cheio tanto as crianças como os adultos – adultos estes que já foram adolescentes um dia e viveram todas as sensações desta fase tão cheia de dúvidas e, ao mesmo tempo, tão marcante em nossas vidas. Nem mesmo os efeitos visuais que hoje soam ultrapassados devem ser levados em conta na avaliação, já que não são mais importantes que a criativa narrativa do longa. Talvez o único pecado de “Os Goonies” seja mesmo o extenso terceiro ato, que demora demais para encerrar a narrativa após a resolução do principal conflito da trama, que é a descoberta do tesouro. Não fosse este pequeno detalhe, a pérola dirigida por Richard Donner seria um filme praticamente perfeito dentro daquilo que se propõe a fazer.

Extremamente leve e divertido, “Os Goonies” conta com um roteiro criativo e a direção competente de Richard Donner para brindar o espectador com uma aventura juvenil bastante agradável. Abordando temas marcantes da adolescência durante a empolgante jornada, consegue prender a atenção do espectador, que se identifica com diversas situações vividas por aquele grupo de jovens e realmente torce pelo sucesso deles. Por isso, pode-se dizer que “Os Goonies” é uma aventura acima da média, que consegue entreter espectadores de todas as idades de maneira bastante original.

Texto publicado em 09 de Maio de 2010 por Roberto Siqueira

Paulo Henrique, o Ganso

Faço uma pequena pausa na seqüência de críticas que pretendo divulgar nos próximos dias para dizer que sou mais uma voz no meio da torcida brasileira que pede a convocação do craque “Ganso”. Não costumo concordar com movimentos deste tipo (que acontecem em todas as Copas), pois entendo que torcedores e jornalistas têm uma forte tendência a valorizar mais àqueles que estão fora da seleção (lembre de Romário em 2002). Ironicamente, os mesmos torcedores e jornalistas passam a desvalorizar aquele jogador quando este passa a ser convocado, como aconteceu com Ramires, por exemplo. Mas este é um caso especial, afinal de contas, estamos falando de um craque indiscutível, que merece um tratamento diferenciado. Por isso, entendo que deve ser convocado.

E pra você, o Dunga deveria convocar Paulo Henrique “Ganso” para a Copa do Mundo?

Um abraço e bom debate.

Texto publicado em 04 de Maio de 2010 por Roberto Siqueira

MAD MAX 2 – A CAÇADA CONTINUA (1981)

(The Road Warrior)

 

Videoteca do Beto #56

Dirigido por George Miller.

Elenco: Mel Gibson, Bruce Spence, Michael Preston, Max Phipps, Vernon Wells, Kjell Nilsson, Emil Minty, Virginia Hey, William Zappa, Steve J. Spears, Syd Heylen, Moira Claux, David Downer e Arkie Whiteley.

Roteiro: Terry Hayes, George Miller e Brian Hannat.

Produção: Byron Kennedy.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Goste ou não de “Mad Max 2 – A Caçada Continua”, segundo filme da trilogia apocalíptica dirigida por George Miller e estrelada por Mel Gibson, uma coisa é certa: o espectador não sairá indiferente ao que viu. Utilizando um impressionante visual, que se tornou cult com o passar dos anos, o decadente mundo futurista retratado por Miller incomoda, chegando até mesmo a ser repulsivo e sufocante. Incomoda também a falta de diálogos do longa, algo proposital num mundo onde o relacionamento humano está extremamente desgastado. Por isso, apesar da importância do primeiro “Mad Max”, que até mesmo confere bagagem dramática para esta seqüência, este segundo filme se estabelece como o melhor da trilogia, já que o terceiro “Mad Max – Além da Cúpula do Trovão” é o responsável pela queda vertiginosa de qualidade da série.

Num futuro não muito distante, o bem mais precioso da terra passa a ser a gasolina, em virtude de uma guerra nuclear que acabou com os campos petrolíferos do Oriente Médio. Com o precioso combustível é possível se deslocar, fugir ou perseguir alguém. Sem ele, não é possível conseguir nada. É quando Max (Mel Gibson), um homem misterioso e amargurado pelo terrível passado, decide ajudar uma comunidade a defender sua refinaria contra uma gangue de motoqueiros em troca de gasolina.

Todas as palavras que precisam ser ditas em “Mad Max 2” estão resumidas na pequena e excelente introdução do filme, através de um vídeo que recorda a estória do primeiro “Mad Max” e conta como a guerra nuclear devastou o planeta. A partir dali, toda e qualquer palavra será desnecessária. As ações falam por si. Pra piorar, Max é sabidamente um personagem amargurado, de poucas palavras, devastado pela tragédia do passado que retirou as duas pessoas mais importantes de sua vida. Portanto, é absolutamente coerente e compreensível que o roteiro de Terry Hayes, George Miller e Brian Hannat se ressinta de palavras, o que inteligentemente abre espaço para a ação, tão bem conduzida pelo diretor.

Logo na primeira cena George Miller aproveita para matar a sede dos fãs, numa seqüência de perseguição muito bem dirigida e de tirar o fôlego, ainda que momentos depois, ele não resista ao susto barato, quando Max examina um caminhão abandonado e uma mão, seguida por uma cabeça, aparece repentinamente com um acorde alto da trilha sonora, provocando o susto forçado no espectador. Miller também não poupa o espectador ao mostrar o resultado deste novo e violento mundo, com pedaços de corpos mutilados, um estupro coletivo e muitas mortes, como na forte cena em que o garoto-fera (Emil Minty) mata com o bumerangue um dos integrantes da gangue. E ainda que valorize bastante a parte visual, Miller também cria planos simbólicos, como na cena após o terrível estupro, em que Max aparece para vingar o casal e o plano demonstra a grandeza do personagem ao torná-lo gigante na tela. Finalmente, o diretor volta a utilizar, assim como no primeiro filme, uma quantidade menor de frames para transmitir a sensação de velocidade, além de expor todo o excelente trabalho técnico de sua equipe através de planos distantes da Refinaria, inteligentemente apresentados como sendo a visão de Max.

Ainda sobre o esplêndido aspecto visual de “Mad Max 2”, devemos destacar que o visual árido do longa é resultado da fotografia sem vida de Dean Semler, que explora muito bem as locações em meio ao deserto, além de captar com precisão as sensacionais perseguições nas estradas. A empoeirada refinaria e os remendados automóveis e motocicletas atestam o ótimo trabalho de Direção de Arte de Graham Walker. Repare como cada detalhe é bem trabalhado nos cenários, como o ônibus que funciona como portão e toda a estrutura interna da refinaria. Também merecem destaque os interessantes figurinos de Norma Moriceau, com adereços extravagantes nos selvagens motoqueiros e a roupa preta de Max (que como afirmei na crítica de “Mad Max”, simboliza o estado de espírito do personagem), além das roupas brancas das pessoas dentro da refinaria, numa clara alusão ao conflito entre o bem e o mal representado no longa. Finalmente, o excelente trabalho de som é notável nas perseguições, com o nítido som dos carros, motos, caminhões e até mesmo do “helicóptero” cortando o céu, e a trilha sonora de Brian May, até mesmo pela falta de diálogos, marca presença em boa parte da narrativa e mantém um ritmo frenético que colabora com o clima de tensão.

Entre o elenco, o principal destaque vai mesmo para Mel Gibson, que tem atuação discreta, porém muito coerente com o personagem. Este não é o tipo de papel que exige muito do ator, mas Gibson é competente dentro da proposta do personagem. Afetado pelo trágico passado, Max é alguém que praticamente não fala, e o ator transmite muito bem a amargura do nômade, que claramente evita o contato com outras pessoas, como podemos notar quando se recusa a ficar na Refinaria. Solitário por natureza, percebemos até mesmo através de seu carro que Max é alguém completamente adaptado ao mundo em que vive. Seu Interceptor V8 é preparado contra invasores, com faca escondida próximo ao tanque e dispositivo anti-roubo de gasolina, prestes a explodir ao primeiro toque que não seja do próprio Max. Sua única companhia é um cachorro, já que este não fará perguntas e nem forçará Max a pronunciar uma única palavra que não queira. Ainda assim, o desespero daquelas pessoas para encontrar um salvador fez com que apostassem tudo em Max, que inicialmente recusou o rótulo. Obviamente, ele não ajudaria ninguém a não ser que tivesse alguma compensação e só decidiu levar o caminhão quando perdeu tudo que tinha, inclusive seu carro.Sem mais nada a perder e com sede de vingança (novamente, o tema recorrente da série), finalmente resolve dirigir o caminhão. E observe como na conversa em que Pappagallo fala a respeito da fuga, o plano da areia descendo pelo marcador de tempo indica o surpreendente desfecho da perseguição, já que a areia teria papel fundamental na fuga. Dentro do elenco, podemos citar ainda Bruce Spence, com uma atuação modesta na pele do capitão Gyro, responsável pelo mais engenhoso meio de transporte do longa (uma espécie de helicóptero para duas pessoas, feito com resto de material) e Michael Preston, que tem boa atuação como Pappagallo, o líder dos habitantes da refinaria, com destaque para o momento em que questiona a razão da amargura de Max (“Você não é nada!”).

Numa das poucas vezes em que abre a boca pra falar algo, Max demonstra sua coragem (“Se quiserem sair daqui, falem comigo”), facilmente compreendida se pensarmos que este homem não tem mais o que perder na vida. Na realidade, temos a constante sensação de que Max desafia a morte, como quando vai buscar o caminhão sabendo que na volta enfrentará sozinho os perigosos motoqueiros. Esta, aliás, é uma das melhores seqüências do longa, extremamente bem conduzida por George Miller, que confere um ritmo frenético à cena, graças também aos cortes rápidos que revelam o bom trabalho de montagem do trio Michael Balson, David Stiven e Tim Wellburn. Acompanhada pela agitada trilha sonora, a perseguição alterna entre planos aéreos, que dão uma visão panorâmica da perseguição, e planos fechados do rosto de Max, que transmitem sua tensão na angustiante corrida para chegar à refinaria, o que permite ao espectador compreender perfeitamente o que se passa na tela. Já a espetacular seqüência da perseguição final inicia com um impressionante travelling aéreo e, a partir daí, exibe um festival de imagens em alta velocidade, alternando planos diversos de dentro e de fora do caminhão com o uso da câmera lenta, permitindo ao espectador apreciar cada detalhe da frenética perseguição, como atropelamentos e manobras (entre elas, um sensacional giro em 180 graus do caminhão em alta velocidade). Tudo isto, pontuado por uma trilha empolgante e coroado com um final surpreendente, que revela a inteligente estratégia adotada pelos integrantes da refinaria para conseguir fugir com o precioso bem.

Pra finalizar, é importante dizer que “Mad Max 2” é um excelente filme de ação, com um ritmo muito forte e imagens marcantes, baseadas num roteiro simples, mas que diz muito mais através de imagens do que de palavras. Exibindo um futuro ainda mais sombrio que no primeiro filme da série, conta com um visual singular para despejar no espectador uma chuva de sensações, e com isso, fazer com que ele jamais saia indiferente ao que viu.

Texto publicado em 30 de Abril de 2010 por Roberto Siqueira

OSCAR 2002: UMA MENTE BRILHANTE X O SENHOR DOS ANÉIS – A SOCIEDADE DO ANEL

Seguindo minha comparação entre o vencedor do Oscar de Melhor filme e aquele que eu considerei como a melhor produção do ano, chega à vez do ano de 2001 (Premiação em 2002). Inegavelmente, “Uma Mente Brilhante” é um grande filme, que conta ainda com uma atuação fenomenal do ótimo Russel Crowe – que ironicamente, perdeu o Oscar para o também muito competente Denzel Washington, talvez por ter vencido (injustamente) no ano anterior por “Gladiador”. Com certeza, seria meu filme favorito do ano, se não tivéssemos duas verdadeiras obras-primas produzidas em 2001. A primeira delas é o sensacional “Lavoura Arcaica”, dirigido por Fernando Carvalho e que, por razões que não cabem explicar aqui, não foi escolhido pelo Brasil para concorrer ao OSCAR. A outra obra-prima foi a responsável por nos transportar para outro universo, um mundo fantasioso que nos deliciou durante três anos seguidos ao mostrar a saga na Terra Média. “O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel” causou o impacto inicial, nos apresentou lugares e personagens fantásticos e marcou o cinema para sempre.

Porque “O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel” é melhor?

Poucas vezes os efeitos visuais trabalharam tão a favor do conjunto direção, interpretações, roteiro e montagem, entre outros aspectos técnicos. A harmonia do longa dirigido por Peter Jackson é perfeita, além da narrativa ser muito bem conduzida e prender o espectador pelas três horas de duração do filme. Além disso, o filme termina com o gostinho de quero mais, nos deixando ansiosos para ver a continuação da saga de Frodo e companhia. Por mais que tenham outros grandes filmes no ano (além do já citado “Lavoura Arcaica”, ainda tínhamos “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”), eu não deixaria de escolher “O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel”. My precious…

E pra você, qual o melhor filme de 2001 e por quê?

Um abraço e bom debate.

PS: Vale ressaltar que ainda não assisti “Cidade dos Sonhos”, filme bastante elogiado de 2001.

Texto publicado em 27 de Abril de 2010 por Roberto Siqueira

GOLPE DE MESTRE (1973)

(The Sting)

 

Videoteca do Beto #55

Vencedores do Oscar #1973

Dirigido por George Roy Hill.

Elenco: Paul Newman, Robert Redford, Robert Shaw, Charles Durning, Ray Walston, Eileen Brenann, Harold Gould, John Heffernan, Dana Elcar, Jack Kehoe, Dimitra Arliss e Robert Earl Jones.

Roteiro: David W. Maurer e David S. Ward.

Produção: Tony Bill, Julia Phillips e Michael Phillips.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quatro anos depois do sucesso “Butch Cassidy”, Paul Newman e Robert Redford voltaram a se reunir sob a direção de George Roy Hill para realizar este delicioso “Golpe de Mestre”, que conta com um roteiro primoroso e uma reconstituição de época impecável para narrar a interessante e divertida história de dois golpistas nos anos trinta.

Dois vigaristas dão um golpe num capanga de um importante chefe de quadrilha de Nova York, embolsando uma alta quantia em dinheiro que garantiria a aposentadoria de um deles. Não demora muito até que a reação chegue e, a pedido do “chefão” Doyle Lonnegan (Robert Shaw), um dos golpistas, conhecido como Luther Coleman (Robert Earl Jones), é assassinado. Johnny Hooker (Robert Redford), o outro golpista, consegue fugir e, seguindo o conselho do falecido Coleman, entra em contato com o experiente vigarista Henry Gondorff (Paul Newman), com quem arquiteta um gigantesco golpe contra o mafioso Lonnegan.

A seqüência de abertura de “Golpe de Mestre” dá o tom da narrativa, através da bem orquestrada simulação de um assalto, que resulta no primeiro golpe aplicado pelos vigaristas Luther e Hooker. Esta cena servirá também como base para todo o desenrolar da trama, que será contada através da divisão de capítulos, com transições como fade, zoom e páginas, garantindo uma característica de conto ou fábula ao longa e revelando o bom trabalho de montagem de William Reynolds, que além disso, ainda confere um ritmo delicioso à narrativa. O longa conta ainda com um excelente trabalho técnico, responsável pelo belíssimo visual. O conjunto formado pelos impecáveis figurinos de Edith Head, a excepcional Direção de Arte de Henry Bumstead e a fotografia dessaturada (Direção de Robert Surtees) criam uma reconstituição de época incrivelmente realista, ambientando perfeitamente o espectador à trama. Observe, por exemplo, os carros nas ruas de Nova York, a fachada das lojas e até mesmo os trajes utilizados pelos jogadores para notar como o trabalho técnico é irretocável. O diretor de fotografia Robert Surtees cria ainda um visual interessante nos ambientes internos, constantemente utilizando a sombra dos chapéus para encobrir o rosto dos personagens e usando o contraste luz e sombras de forma muito elegante. Finalmente, a ótima trilha sonora de Scott Joplin apresenta deliciosas canções e ainda utiliza o piano para compor divertidas melodias durante os jogos, o que reforça o clima leve e descontraído do longa.

A direção de George Roy Hill é segura e até mesmo discreta, apesar da freqüente utilização do zoom, como na espetacular jogada final de Gondorff durante o pôquer ou quando ele observa da janela a chegada de Lonnegan ao bar. Hill demonstra competência também na condução dos principais momentos do longa, como as cenas de pôquer, a falsa narração da corrida de cavalos e a perseguição de Snyder (Charles Durning) à Hooker. Outra seqüência muito bem dirigida é a fuga de Hooker do bar, que termina com o sugestivo plano da tampa do bueiro, indicando o esconderijo de emergência do rapaz. Finalmente, o diretor faz um interessante movimento de câmera que sai do quarto de Gondorff, corta para o quarto de Hooker e termina com o plano da misteriosa luva preta, que terá fundamental importância momentos depois, em outra cena surpreendente que termina com a morte de Loretta Salino (Dimitra Arliss).

Mas apesar da boa direção de George Roy Hill, o principal responsável pelo sucesso de “Golpe de Mestre” é o excepcional roteiro de David W. Maurer e David S. Ward. Inteligente e com ótimas reviravoltas, o delicioso texto da dupla prende a atenção do espectador e permite observar pacientemente como os dois vigaristas arquitetam cuidadosamente o grande golpe final. Mas ainda que seja interessante observar este aspecto da narrativa, para que ela funcionasse perfeitamente seria necessário algum tipo de ameaça ao plano. E a dupla Maurer e Ward insere este elemento na trama de forma muito inteligente, através do tenente William Snyder, interpretado corretamente por Charles Durning e que é o responsável pelo desequilíbrio da equação. Personagem chave para o sucesso da trama, Snyder é o responsável pelo temor gerado no espectador durante boa parte da narrativa – assim como sua participação é fundamental na espetacular seqüência final do longa, que reserva a maior e mais agradável surpresa do roteiro.

E que surpresas seriam estas? “Golpe de Mestre” é repleto de cenas em que o espectador é levado a acreditar que está vendo algo, somente para alguns minutos depois descobrir que foi enganado. E mesmo assim, jamais sabemos o que vai acontecer na próxima cena, graças à criatividade do roteiro e às ótimas interpretações do elenco, que tornam verossímeis personagens que poderiam soar cartunescos ou completamente irreais. Interpretado com muito carisma pelo ótimo Paul Newman, Gondorff, por exemplo, é um golpista experiente, que sabe cada passo necessário para alcançar seu objetivo. Extremamente irônico (repare como ele provoca o adversário durante o jogo de pôquer), Gondorff caminha com segurança pelo perigoso caminho que escolheu para viver e acreditamos nos ideais do personagem, por mais sem caráter que suas atitudes possam parecer. Já Robert Redford interpreta com competência o astuto Hooker, que apesar de sua esperteza, freqüentemente corre grande perigo durante suas escapadas. Observe, por exemplo, como Redford transmite muito bem a apreensão de Hooker dentro do quarto, momentos antes de supostamente trair o parceiro e entregá-lo aos federais. Após o surpreendente final, entendemos que sua apreensão pode ser interpretada como fruto da ansiedade pela resolução do plano (que aconteceria no dia seguinte) ou pela solidão do personagem, algo que fica claro quando este procura companhia para passar a noite. Mas inteligentemente, no momento em que vemos o personagem apreensivo, somos levados a pensar que ele realmente entregaria o parceiro, graças também à boa interpretação do ator. A química da dupla, aliás, é essencial para a empatia do público, pois mesmo sendo dois trapaceiros e golpistas, nos identificamos com os personagens graças às simpáticas atuações de Newman e Redford. Vale citar também a impressionante habilidade de Gondorff com as cartas na mão, notável quando as embaralha e sempre mostra o Às de Espadas. Fechando o elenco, além do já citado e importante personagem de Charles Durning, temos Robert Shaw, que vive o mal-humorado chefe da máfia Doyle Lonnegan. Determinado a recuperar o dinheiro que perdeu para os vigaristas (e mais do que isso, manter o respeito pelo seu nome), ele não mede esforços na caça ao astuto Hooker, raramente encontrando espaço para sorrisos e brincadeiras em seu cotidiano. Shaw é competente ao transmitir muito bem esta irritação constante do personagem, como podemos notar durante o jogo de pôquer no trem ou nas seguidas vezes em que ele entra para apostar na corrida de cavalos. Mesmo ganhando o prêmio, o homem é incapaz de sorrir, sempre mantendo um ar de desconfiado – o que não impede que ele sofra o incrível golpe no final.

Quando a última faceta do “golpe de mestre” é revelada ao espectador, sentimos uma gostosa mistura de desorientação e euforia. Apesar de acompanhar o engenhoso planejamento e a meticulosa execução do plano, descobrimos que um detalhe essencial foi ocultado e percebemos que a intenção era exatamente esta. O fato de não revelar propositalmente uma parte vital do golpe faz com que o espectador tema pelo futuro dos personagens, se envolva ainda mais com a trama e se surpreenda com o delicioso final. É como testemunhar um passe de mágica, com a diferença de que descobrimos os detalhes do truque segundos depois de sua execução.

Leve e descontraído, “Golpe de Mestre” soa como um delicioso truque que consegue ao mesmo tempo enganar e agradar ao espectador. Produzido numa época em que o termo “diversão sem compromisso” tinha outro significado, oposto às explosões e a ação frenética recheada de clichês narrativos dos dias de hoje, seu excelente roteiro, aliado às simpáticas interpretações, garante a diversão do espectador.

Texto publicado em 25 de Abril de 2010 por Roberto Siqueira