Videoteca do Beto: novas aquisições

Abaixo a foto dos 5 novos integrantes da Videoteca do Beto:

O Bebê de Rosemary (1968)*

Rocky, um Lutador (1976)**

Rambo – Programado para Matar (1982)

O Exterminador do Futuro 2 – O Julgamento Final (1991)

Munique (2005)

*Os filmes que chegarem depois de sua posição na ordem cronológica das críticas “Videoteca do Beto” serão assistidos e avaliados na medida do possível e serão encaixados na seqüência da Videoteca. Por exemplo, se a Videoteca estiver no filme #30 e eu divulgar em seguida a crítica do filme “O Bebê de Rosemary”, este será o filme Videoteca do Beto #31.

** “Rocky, um Lutador” já tem crítica divulgada. Por isso, será simplesmente encaixado na seqüência da Videoteca do Beto.

Um abraço.

 

Texto publicado em 24 de Novembro de 2009 por Roberto Siqueira

TEMPOS MODERNOS (1936)

(Modern Times) 

 

 

Filmes em Geral #20

Filmes Comentados #11 (Comentários transformados em crítica em 22 de Outubro de 2010)

Dirigido por Charles Chaplin.

Elenco: Charles Chaplin, Paulette Goddard, Henry Bergman, Tiny Sandford, Chester Conklin, Hank Mann, Stanley Blystone, Al Ernest Garcia, Cecil Reynolds, Mira McKinney, Murdock McQuarrie e Richard Alexander. 

Roteiro: Charles Chaplin.

Produção: Charles Chaplin.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

“Tempos Modernos” é uma fábula maravilhosa sobre a dificuldade de adaptação de uma pessoa racional e genial ao mundo mecânico e engessado das indústrias. Certamente é a crítica mais ácida de Chaplin ao capitalismo, feita de forma inteligente e bem humorada, mas sempre buscando demonstrar a visão de seu realizador a respeito da industrialização.

Um operário de uma linha de produção (Chaplin) é levado à loucura pela rotina frenética de seu trabalho, sendo internado num sanatório após uma crise nervosa. Desempregado, ela passa a tentar sobreviver num mundo caótico, onde uma crise generalizada, provocada pela falta de empregos, o leva a ser preso equivocadamente ao se misturar com um grupo que protestava nas ruas. Ao mesmo tempo, a jovem Ellen (Paulette Goddard), que roubava comida para matar a fome, tem seu pai assassinado e passa a viver vagando pela cidade, onde se encontrará com o operário. Juntos, eles tentarão encontrar um novo caminho para suas vidas.

Quando realizou “Tempos Modernos”, Chaplin ainda resistia à idéia de utilizar a fala, mas já abria espaço para o uso do som, ainda que em boa parte do filme este esteja restrito às máquinas e objetos, como uma tela onde podemos ouvir a voz do presidente, a porta que serve para atingir os bandidos ou o rádio da delegacia. Somente no final do longa é que Chaplin dá voz pela primeira vez ao seu querido vagabundo, o que indicava o caminho que ele seguiria dali em diante e, em contrapartida, apontava para o fim, cada vez mais próximo, deste marcante personagem em sua carreira. Com roteiro escrito pelo próprio Chaplin, o filme mostra de forma competente os problemas causados pelo desemprego, com grupos se formando para protestar e multidões na porta das empresas à procura de uma oportunidade. A importância de ter um trabalho para sobreviver no feroz mundo capitalista aparece novamente na cena em que um homem sai para trabalhar e sua esposa vem se despedir com um largo sorriso no rosto, contrastando com a pobreza do vagabundo e da órfã que estão sentados na grama em frente a casa. Outro problema causado pelo desemprego é a fome, que levou Ellen a roubar e ser presa, assim como levou o ex-companheiro de fábrica de Carlitos a roubar uma loja. Como podemos perceber, Chaplin não hesita em criticar duramente o capitalismo e à industrialização, que em nada valoriza o ser humano e visa somente o lucro para as grandes empresas. Finalmente, o roteiro não deixa de incluir os problemas com guardas e as cenas em que Carlitos mata sua fome, dois temas que sempre estiveram presentes nos filmes dele. Vale destacar também o curioso momento em que o presidente da empresa aparece montando um quebra cabeça e lendo jornal, enquanto os empregados trabalham arduamente o dia inteiro, confirmando as sutilezas com subtexto crítico costumeiras de Chaplin.

Responsável até mesmo pela alegre trilha sonora, Chaplin conduz a narrativa com segurança, mantendo um ritmo ágil através de sua direção e da montagem dinâmica, fazendo com que o espectador esteja sempre atento ao que se passa na tela. Sua tradicional montagem semântica aparece novamente aqui, intercalando imagens de ovelhas entrando aglomeradas no curral e de trabalhadores se amontoando na entrada da fábrica, ilustrando que o empregado não é tão diferente dos animais, tendo que seguir ordens e rotinas. Observe ainda como uma ovelha negra se destaca no meio das outras, simbolizando o personagem do vagabundo, que simplesmente não aceita o modo de vida imposto pela urbanização e industrialização e, portanto, é diferente dos demais. Chaplin faz ainda uma bela transição quando Ellen dança na rua e, em seguida, aparece vestida para dançar no salão.

Como dito, o vagabundo (assim como Chaplin) não se adapta facilmente ao mundo moderno e industrializado em que vive, o que o leva a se sentir melhor na prisão do que no mundo lá fora, onde as oportunidades eram escassas. Por isso, quando tem a chance, Carlitos aproveita para tirar uma casquinha dos policiais e matar sua fome sem pagar um centavo pela comida, o que resulta em seu retorno imediato para a prisão. É como se ele dissesse: “Eu quero comer, mas não tenho dinheiro, pois não me deram emprego. Portanto, pague você pra mim”. Os trabalhos de ajudante de mecânico e de auxiliar na construção de um navio servem para confirmar que o vagabundo, por mais que se esforce, não consegue se adaptar a nova realidade – e de quebra, ainda rendem duas cenas muito engraçadas. Em sua derradeira tentativa, ele tenta se ajeitar como garçom, mas sua atrapalhada (e engraçadíssima!) entrega de um pato assado para um cliente mostra que definitivamente ele não funciona como empregado. E se todas estas frustradas tentativas de se adaptar soam reais, é porque mais uma vez Chaplin confirma o seu talento como ator, provocando o riso e a emoção simplesmente através de suas expressões, sem necessitar das palavras. Já Paulette Goddard tem uma atuação bastante exagerada, algo justificável pela época em que o filme foi lançado e por ser um filme mudo, onde as expressões faciais têm um peso maior na representação.

Como é de se esperar num filme de Chaplin, o longa é repleto de gags visuais sensacionais, como a cena na linha de produção, em que Carlitos claramente satiriza a “revolucionária” forma de trabalhar que consagrou Taylor e Ford ao mostrar como uma simples coceira ou mosquito eram suficientes para atrapalhar todo o processo, ou quando ele sai na rua para apertar os botões da roupa de uma senhora que passava em frente à fábrica. Outro momento memorável é a engraçada cena da curiosa máquina auto-alimentadora, que também serve como crítica à produção em série, mostrando que por mais que inventem novas tecnologias, isto sempre se refletirá em mais trabalho para o homem comum. E é curioso notar como até hoje este raciocínio continua perfeito, já que por mais que tenham surgido diversas tecnologias capazes de acelerar nossa comunicação e até mesmo nossos métodos de produção, jamais o tempo de trabalho foi reduzido, resultando somente em pessoas cada vez mais atarefadas e conectadas o tempo inteiro ao seu ambiente de trabalho, seja através de celulares, de computadores ou de aparelhos como o Blackberry. Além da citada cena na linha de produção, outras duas merecem grande destaque. Aquela em que o vagabundo entra pela primeira vez na prisão, come o “pó proibido” e fica doido, culminando com o momento em que salva os guardas da cadeia de bandidos que vieram resgatar um preso. A outra cena é a casa imaginada por Chaplin e a Ellen, onde eles tiram o leite da vaca para beber, numa clara crítica à industrialização. É como se Chaplin quisesse dizer que ele não precisa de nada que estas fábricas produzem, apanhando frutas no pé e tirando leite da vaca para sobreviver. Já a famosa cena em que o vagabundo se move por dentro da máquina representa visualmente a integração homem-máquina, servindo também para ilustrar como o homem poderia ser engolido pelas máquinas neste ambicioso mundo das indústrias. Mas Carlitos não se entregaria fácil ao capitalismo e o surto de loucura do vagabundo serve também para que Chaplin se vingue das máquinas, destruindo-as e atacando a todos com seu óleo lubrificante. Finalmente, merece destaque a seqüência do conserto da máquina em que Carlitos auxilia o mecânico e a casa que Ellen consegue para viver com o vagabundo, que, como ela diz, não era exatamente o “palácio de Buckingham”.

Chegamos então ao momento histórico em que pela primeira vez foi possível ouvir a voz de um dos personagens mais icônicos da sétima arte. A dança final do vagabundo de Chaplin, improvisando a letra da música (inventando literalmente as palavras), é sensacional e confirma o enorme talento deste gênio da história do cinema. Comprova também que seu personagem se adaptava somente num único lugar neste novo mundo da industrialização: o palco. Ou seja, somente onde a imaginação e a criatividade são valorizadas é que ele era feliz, e não onde as pessoas são apenas peças de uma engrenagem maior que serve para dar lucro a alguns poucos escolhidos.

Divertido e inteligente, “Tempos Modernos” utiliza o humor para mostrar a visão de Chaplin sobre uma mudança na sociedade que resultou no mundo complicado que temos hoje. Percebe-se que desde aquela época alguém já alertava como a ganância, a luta por um lucro sempre crescente e a produção em série sem responsabilidade social e ambiental poderiam resultar num mundo pior. E resultou mesmo.

PS: Comentários divulgados em 23 de Novembro de 2009 e transformados em crítica em 22 de Outubro de 2010.

Texto atualizado em 22 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira

Álbuns da minha vida: 1# Blood Sugar Sex Magik (Red Hot Chili Peppers)

Sempre fui uma pessoa feliz. Enfrentei problemas, é verdade, mas sempre busquei olhar para o lado bom da vida e curtir cada dia como se fosse o último da minha passagem pela terra. Mas aconteceu que, em certa época da minha adolescência, os sonhos e as ilusões estavam se tornando algo escasso. A época dourada da escola estava acabando, a vida profissional se iniciava e eu não tinha nenhuma certeza de que aquele era o caminho que eu gostaria de seguir (eu trabalhava na área de informática na época). Eu estava seriamente ameaçado de entrar em depressão e não conseguia encontrar motivação pra sair desta situação. Saia com os amigos, tentava me divertir, mas faltava algo. Gostava muito de ouvir músicas pop e até um pouco de rock nacional, mas aquilo não era o que eu realmente necessitava.

Então, numa certa tarde de sábado minha vida mudou. Não me lembro exatamente o programa da MTV, mas acho que era algum especial com o Raimundos onde o Rodolfo dizia que o clipe que marcou os anos 90 pra ele era “Give it Away”. Ao ouvir aquela música, que eu já conhecia, mas não tinha parado ainda para realmente apreciar, percebi o que faltava pra mim. A energia dela (e da banda) me contagiou. A partir de então, os Red Hot Chili Peppers fizeram parte das minhas manhãs alegres de sábado, quando eu acordava depois da balada da sexta e colocava o som no máximo enquanto tomava banho e me arrumava para o resto do dia. E entre todos os álbuns da banda californiana (a minha banda preferida), o Blood Sugar Sex Magik é o meu favorito.

Em 2002 tive o imenso prazer de ir ao show deles no Pacaembu, em São Paulo, e valeu cada minuto. E até hoje os Peppers estão presentes no meu dia-a-dia. Em minha festa de casamento, escolhi a nova e bela “Snow (Hey Oh)” para entrar na festa e “Scar Tissue” para tocar enquanto passava a tradicional apresentação de fotos desde a infância. Durante a festa, não poderiam faltar “Give it Away” e “Suck my Kiss”. E sempre que algum tipo de tristeza se abate em mim, basta colocar alguma música dos Peppers pra tocar que eu começo a me revigorar. Esta é a magia da música, este belo dom que ela tem de nos reanimar e estar presente em diversos momentos de nossas vidas.

Análise do álbum:

Tecnicamente, os Chili Peppers sempre foram absolutamente perfeitos. Flea é certamente um dos maiores baixistas que já existiram e John Frusciante, quando está inspirado, consegue realizar trabalhos fantásticos. Em “Blood Sugar Sex Magik” ele estava no auge da inspiração. Chad Smith tem uma batida seca que se encaixa perfeitamente com o som divertido da banda e Anthony Kieds tem uma energia incrível para conduzir o grupo, além de sua voz anasalada inconfundível.

Rick Rubin teve a felicidade de ter os quatro integrantes do grupo no melhor momento de suas carreiras (que até hoje é bem sucedida) e conseguiu produzir um álbum praticamente perfeito. É um dos raros exemplos de álbum que eu consigo escutar todas as faixas sem pular nenhuma música. Nota 10 (ou 5 estrelas obra-prima, pra ficar mais com a cara do Cinema & Debate ;)).

 

Análise das músicas (Para ouvir a música, basta clicar no nome):

1 – The power of equality: palavras rápidas e agressivas, batidas secas, o baixo galopando e a guitarra repetindo o riff, até chegar ao refrão, mais lento nas palavras e mais rápido no som. De cara percebe-se a energia do álbum. Uma das minhas favoritas.

2 – If you have to ask: o riff inicial da guitarra de Frusciante tem um ritmo contagiante. Quando a voz de Kieds entra, a música ganha ainda mais força e caminha parecida com um rap até o engraçado refrão. Tem ainda um belo solo de Frusciante que encerra perfeitamente a música.

3 – Breaking the girl: o embalo delicioso do inicio segue até o fim, acompanhado da voz firme de Kieds e dos back vocals no refrão. Destaque para o belo contraste provocado pela batida seca de Smith e para a bela quebra de ritmo provocada na parte instrumental da música.

4 – Funky monks: o delicioso riff inicial se repete durante toda a música, mudando apenas no refrão, mais lento e com back vocals. Um belo solo de guitarra preenche o meio da canção e o final instrumental é maravilhoso.

5 – Suck my Kiss: o riff poderoso que inicia a música é capaz de tirar qualquer um do chão e o maravilhoso refrão completa esta que é uma das melhores músicas do álbum, e conseqüentemente, dos Peppers.

6 – I could have lied: a balada perfeita para uma pausa no agitado álbum, tem uma bela letra e uma ótima interpretação de Kieds.

07 – Mellowship slinky In B major: mais uma demonstração da enorme capacidade instrumental da banda, fica ainda melhor quando Kieds começa a destilar sua voz anasalada. Próximo ao refrão, os back vocals dão um toque especial à música, que tem um balanço delicioso. A velocidade das palavras, marca da banda, aparece com força nesta música.

08 – The righteous and the wicked: aqui o ritmo é inverso, após um solo de Frusciante, Kieds entra com o vocal lento e ritmado até chegar ao refrão, um pouco mais rápido e forte, sempre com a guitarra ao fundo e a perfeita harmonia entre o baixo de Flea e a bateria de Smith. Aqui também temos um bom solo de guitarra.

09 – Give it away: a energia desta música é inacreditável e o refrão demonstra a qualidade de Kieds como vocalista. Flea voa no baixo com um riff maravilhoso. A melhor música da banda.

10 – Blood Sugar Sex Magik: a tradicional estrutura da música de rock aparece aqui, com inicio mais lento e baixo e refrão forte e alto. O tema preferido da banda é a inspiração da letra, o sexo.

11 – Under the bridge: A balada favorita de muitos que sequer curtem o som dos Peppers, reflete um momento sério da vida de Kieds, carrega no tom melódico e abusa da habilidade de John e Flea. Uma bela canção, com uma letra igualmente maravilhosa.

12 – Naked in the rain: agressiva desde o começo, tem um ritmo contagiante e um refrão que pega fácil. Chad Smith manda muito bem na bateria e Flea, mais uma vez, detona no baixo. O bom solo de Frusciante encerra a música.

13 – Apache rose peacock: “Oh good brother just when I tought that I had seen it all, my eyes popped out, my dick got hard and I dropped my jaw, I saw a bird walkin’ down the block, name Apache Rose Peacock, I could not speak I was in shock, I told my knees to please not knock”. Este trecho, absolutamente divertido e delicioso de cantar, é um exemplo da criatividade dos Peppers, que fica melhor ainda ouvindo a batida e o ritmo da música. Maravilhoso.

14 – The greeting song: outra que começa cheia de energia e segue neste ritmo até o final. Kieds manda bem novamente no vocal, e o galope de Flea no baixo é contagiante. Os deliciosos back vocals aparecem novamente antes do ótimo refrão.

15 – My lovely man: rápida no inicio, segue com o ritmo acelerado do trio guitarra, baixo e bateria até o refrão mais dançante, principalmente devido ao toque especial da guitarra de Frusciante, que também faz um empolgante solo no meio da música.

16 – Sir psycho sexy: retrato do tema preferido da banda, a música descreve em detalhes o comportamento de um viciado em sexo. O ritmo lento é muito bem balanceado com as batidas fortes de Smith e o baixo pesado de Flea.

17 – They’re Red Hot: extremamente rápida, remete aos tempos em que os Peppers faziam canções curtas e que exploravam ao máximo a habilidade de Kieds em pronunciar muitas palavras em um curto espaço de tempo. Diverte.

Como se não bastasse, os Peppers produziram ainda uma infinidade de músicas que eu adoro, antes e depois de Blood Sugar, mas este é com certeza o marco da carreira deles. E é também um marco em minha vida.

Um abraço.

 

Texto publicado em 22 de Novembro de 2009 por Roberto Siqueira

BUTCH CASSIDY (1969)

(Butch Cassidy and the Sundance Kid) 

 

Videoteca do Beto #17

Dirigido por George Roy Hill.

Elenco: Paul Newman, Robert Redford, Katharine Ross, Strother Martin, Henry Jones, Jeff Corey, George Furth, Cloris Leachman, Ted Cassidy, Kenneth Mars e Donelly Rhodes. 

Roteiro: William Goldman.

Produção: John Foreman.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Extremamente alegre e divertido, a história da simpática e entrosada dupla de famosos bandidos do velho oeste norte-americano conquista pela leveza e inteligência que é contada. Recheada de diálogos deliciosos e cenas memoráveis, conta também com uma atuação marcante da dupla principal, além das belíssimas imagens captadas com competência pela câmera de George Roy Hill.

Butch Cassidy (Paul Newman) e Sundance Kid (Robert Redford) são dois amigos inseparáveis que lideram o Bando do Buraco na Parede e vivem de assaltar trens e bancos. Após escapar da perseguição implacável de um grupo formado pelo dono de uma poderosa companhia de trens, decidem mudar-se para a Bolívia, acompanhados de Etta (Katharine Ross), a namorada de Sundance. Quando chegam ao país sul-americano, descobrem que a vida não será tão fácil como imaginavam.

Logo na introdução dos personagens, durante um jogo de cartas no bar, percebemos o quanto a dupla de ladrões é respeitada no velho oeste, quando somente ao ouvir o nome de um deles, o adversário, durão até então, muda completamente de idéia e permite que a dupla leve o dinheiro. Esta cena, aliás, conclui a bela seqüência inicial do filme, feita com imagens antigas, em tom sépia, ocupando somente a metade esquerda da tela, enquanto os créditos são apresentados no lado direito. As imagens velhas e o som ao fundo dão à sensação de estar vendo um arquivo, como se fosse um jornal relatando os roubos de trem da gangue do buraco na parede. Em seguida, a fotografia (Direção de Conrad L. Hall) muda sutilmente para imagens coloridas, explorando ao máximo as lindas paisagens da região. Não são poucas as cenas em que salta aos olhos a beleza natural do local, como nas cachoeiras ou na fuga a cavalo da dupla. Mas não são apenas as paisagens que mostram a qualidade da boa direção de George Roy Hill. Observe como ele também faz interessantes movimentos de câmera, como no travelling que vai desde o Xerife (Jeff Corey) discursando para as pessoas sobre os assaltos do grupo até chegar ao ponto de vista de Butch e Sundance numa sacada, bem próxima dali. Posteriormente, vamos descobrir que o xerife e a dupla tem uma relação mais próxima do que imaginamos. Quando a dupla está de partida para a Bolívia, Hill cria um plano em close da bicicleta abandonada, simbolizando o fim da alegria na vida deles. Aquela bicicleta marcou um momento extremamente alegre do trio e agora é o gancho para uma mudança radical, demonstrada através de outro vídeo em tom sépia, desta vez com fotografias que aparentam antigas, embaladas por outra música ao fundo, mostrando o que aconteceu no período da viagem.

A citada cena da bicicleta nos apresenta também a linda canção “Raindrops Keep Fallin’ on My Head”, tão leve e deliciosa quanto o filme. Este momento em particular mostra como o cinema pode alcançar momentos únicos, com a mistura de imagens e som criando cenas de uma beleza magnífica na tela. Vemos os raios do sol passando entre o vão da madeira e a dupla Butch e Etta andando de bicicleta, num momento de extrema felicidade, que é praticamente palpável ao espectador. A trilha sonora, aliás, é um ponto de destaque no longa, pontuando momentos da narrativa. Além da bela canção, observe como no vídeo montado com fotos durante a viagem para a Bolívia a trilha inicia alegre e depois altera para um tom melancólico, indicando que o trio jamais voltaria a ser feliz como antes. Em outro momento, durante um assalto de Etta e Kid a um banco boliviano, a trilha acompanha exatamente o ritmo da cena, tornando-a ainda mais bem humorada. O filme, aliás, tem um humor refinado e bastante agradável, que casou muito bem com a simpática dupla de ladrões, facilitando a empatia com o público. Como exemplo de cenas divertidas, podemos citar aquela em que Woodcock (George Furth) não quer abrir o trem, o “tenso” primeiro encontro entre Kid e Etta, a hilária chegada à Bolívia e os problemas que Butch e Sundance enfrentam com o idioma espanhol.

É claro que para que tudo isto tivesse sucesso, seria necessária uma dupla de atores de talento. E felizmente este é o caso. Paul Newman está muito bem como o extremamente simpático Butch e Robert Redford é o parceiro perfeito, como o cínico Sundance. O entrosamento dos dois é essencial para o sucesso do longa. Juntos, formaram uma dupla graciosa e cativante. São muitas as cenas memoráveis, como o rosto de raiva de Redford antes de pular no rio, mostrando que ele, mesmo contrariado, seguia as idéias do amigo ou o engraçado momento em que demonstra com clareza sua surpresa e revolta ao descobrir que Butch não sabe falar espanhol tão bem quanto dizia. Finalmente, Katharine Ross interpreta com muito charme a apaixonada Etta, que larga sua profissão e sua vida pra trás para seguir os passos de Sundance, com a condição de não testemunhar a morte do amado. Quando decide voltar para os Estados Unidos, é por perceber que, por não conseguir largar aquela vida, a dupla está próxima de seu fim. As boas atuações do elenco deram ainda mais vida ao bom roteiro de William Goldman, repleto de diálogos maravilhosos e divertidos. Observe a franca conversa entre Butch e Woodcock, no segundo roubo de trem da Union Pacific. Os dois sabem que cada um está defendendo o seu lado e tratam a questão da forma mais direta possível, numa situação inusitada em se tratando de um assalto. Quando tentam escapar do grupo que os persegue implacavelmente, fugindo em um único cavalo e enviando o outro para despistá-los, Butch pergunta: “E se eles não seguirem o cavalo?”, e Kid responde: “Você é o cérebro Butch, vai pensar em algo”, demonstrando que Kid era habilidoso com a arma na mão, mas pouco se importava em utilizar o cérebro, deixando tudo com Cassidy. Outros trechos interessantes e divertidos que podemos citar são: “Se Hermann me pagasse o que ele gasta para me fazer parar de roubar, eu parava de roubar!”, “Quem sou eu, Smith ou Jones?”, dita na porta de um banco boliviano e a pergunta do general do exército boliviano indignado: “Dois homens??”, claramente espantado, já que o efetivo que trouxe era suficiente para uma guerra.

A discussão da dupla encurralada, cheia de brincadeiras irônicas, que acontece após o sensacional tiroteio contra os bolivianos, nos leva ao triste e coerente final. Os românticos e divertidos bandidos falam até com certa inocência de ir para a Austrália depois que saírem dali, mas no fundo já sabiam que aquele era o último momento deles. O elegante plano final nos poupa de ver o que o som nos indica e a cativante dupla de bandidos chega ao fim. Recheado de bom humor e com muito da áurea leve de sua época, “Butch Cassidy” é um western diferente, divertido e bastante agradável de assistir. Suas belas imagens, o delicioso roteiro e a talentosa dupla formada por Paul Newman e Robert Redford fazem deste filme uma maravilhosa experiência, conseguindo tornar graciosa a vida de dois bandidos e mostrando que o velho oeste tem mesmo um charme indiscutível na tela do cinema.

Texto publicado em 19 de Novembro de 2009 por Roberto Siqueira

TAXI DRIVER (1976)

(Taxi Driver) 

 

 

Videoteca do Beto #16

Dirigido por Martin Scorsese.

Elenco: Robert De Niro, Jodie Foster, Cybill Sheperd, Harvey Keitel, Albert Brooks, Leonard Harris, Peter Boyle, Norman Matlock, Diahnne Abbott e Martin Scorsese. 

Roteiro: Paul Schrader. 

Produção: Julia Phillips e Michael Phillips.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O homem solitário de Deus. A solidão nas grandes metrópoles, por mais paradoxal que possa parecer, é mesmo um mal comum. Mesmo com tantas pessoas em volta, por muitas vezes podemos nos sentir deslocados e sozinhos nestas enormes selvas de pedra, como é o caso de Nova York, São Paulo e tantas outras cidades. Em 1975, ano de produção deste maravilhoso “Taxi Driver”, esta sensação já existia, ainda mais em uma Nova York suja e repleta de viciados, criminosos e prostitutas. Logo no primeiro plano – um close no olhar do solitário taxista, seguido por imagens das ruas de Nova York – a obra-prima dirigida por Martin Scorsese mostra de forma sutil que o efeito daquele ambiente na mente desta pessoa será o fio condutor da narrativa.

O veterano de guerra do Vietnã Travis Bickle (Robert De Niro) decide se tornar taxista para ocupar seu tempo, já que não consegue dormir. Após se apaixonar pela bela Betsy (Cybill Sheperd), que trabalha na campanha política de um senador candidato à presidência, conhece a jovem Iris (Jodie Foster) a quem aconselha largar a prostituição e o cafetão Sport (Harvey Keitel) e retornar para a casa de seus pais. O problema é que durante este processo, Travis lentamente se revolta com o que vê à sua volta.

Scorsese gravou seu nome na história do cinema com esta direção impecável. O diretor abusa de planos criativos (a frente, o capô e o retrovisor do taxi, as ruas molhadas) sem medo de arriscar, conseguindo sucesso absoluto na firme condução da narrativa e utilizando os movimentos de câmera para traduzir sentimentos dos personagens. Repare, por exemplo, como o interessante plano do copo borbulhando pode ser considerado uma metáfora para o momento em que começam a borbulhar também idéias na cabeça de Travis. Outro exemplo é a seqüência de foras que Betsy dá no taxista por telefone, nos deixando em uma situação desconfortável. O movimento da câmera, que faz um travelling para a direita e mostra o corredor vazio enquanto ouvimos Travis, demonstra visualmente nosso embaraço com a situação. O diretor simboliza o que o espectador pensa no momento, como se dissemos: “Não quero mais ver isso…”.

O bom roteiro de Paul Schrader trabalha nos detalhes para demonstrar o sentimento crescente de revolta em Travis (“Só se é saudável quando se sente saudável”), além de fornecer a base para as ótimas atuações do elenco. A montagem de Thelma Schoonmaker abusa do estilo, como na caminhada de Travis após conseguir o emprego ou quando repete três vezes seguidas um semáforo verde, demonstrando a rotina que o sufoca e atenua sua solidão (os mesmos lugares, os mesmos problemas). Finalmente, temos transições que significam muito, como o salto do plano de Iris e Sport dançando para Travis treinando tiro ao alvo, demonstrando visualmente o embate que ocorreria depois entre os dois homens. A trilha sonora clássica de Bernard Herrmann tem muito da cara de Nova York e funciona bem como tema do solitário taxista. Na cena da chacina, por exemplo, o tema de Travis é corretamente alterado para um tom mais sombrio. O apartamento bagunçado, com a parede suja e decorado com panfletos de Palantine, diz muito sobre a personalidade atormentada de Travis, mostrando o bom trabalho de Direção de Arte de Charles Rosen. Finalmente, a fotografia granulada (Direção de Michael Chapman) reflete a mente conturbada dele, destacando o festival de cores e luzes da noite de Nova York. Chapman é sábio também ao destacar, por exemplo, a cor vermelha na dança entre Iris e Sport, refletindo a vida infernal da garota ali dentro.

Além da competente direção, Taxi Driver conta também com uma atuação antológica de Robert De Niro. Encarnando com perfeição o taxista solitário, ele é competente ao transmitir o aumento lento e gradual da revolta no personagem. Em seu primeiro diálogo, quando consegue o emprego de taxista, responde as perguntas com um sorriso debochado no rosto, pois a alegria ainda estava presente em sua vida. Travis, porém, é alguém com enorme dificuldade para conviver em sociedade, como podemos perceber no diálogo com a atendente do cinema pornográfico. Ele não sabe seguir as “regras” criadas para se comportar em público, chegando a ser ingênuo. Mas uma pequena esperança floresce quando conhece a bela Betsy. Seu modo direto de falar encanta a garota, que topa sair com ele (De Niro faz um gesto com o braço quando diz que vai protegê-la). Quando Betsy, por razões óbvias, o abandona na porta do cinema pornô, a desilusão se torna o estopim de sua eminente revolta (“Ei, imundos, aqui tem alguém que não agüenta mais. Sou um revoltado!”), já sinalizada anteriormente. Observe, por exemplo, como ele encara um viciado na rua sem piscar os olhos, mostrando seu desprezo por aquele mundo sujo e sua enorme vontade de tomar uma atitude (quando pôde, não hesitou em matar um assaltante). Também demonstra, em um diálogo com seu amigo taxista, que está se sentindo deprimido, tentando contar seus planos (“Estou tendo algumas idéias ruins”), mas o amigo não entende o que ele quer dizer, até mesmo pela sua enorme dificuldade em se expressar. Quando finalmente decide agir (a queima das flores simboliza sua decisão de eliminar de sua vida tudo que lhe incomoda), seu primeiro alvo é o senador, com quem teve uma conversa em seu taxi, causando espanto pela sua franqueza. É então que Travis compra quatro armas, entre elas a Magnum 44 citada por um passageiro (Scorsese, fazendo uma ponta na cena em que ameaça matar a mulher, em frente ao apartamento do amante), decide fazer musculação e não comer mais comidas “ruins”. Essa virada radical na vida simboliza também que ele está determinado a agir (“O germe de uma idéia está crescendo em mim”). O momento sublime da atuação de De Niro acontece aqui, na sensacional cena em que fala sozinho a famosa frase “Está falando comigo?”. Repare como ele olha pra trás quando fala “estou sozinho aqui”, mudando a feição e dando a sensação de que realmente está falando com alguém. Em seguida, Travis diz que descobriu “o único objetivo de sua vida”, e Scorsese, de forma inteligente, corta para o discurso de Palantine, dando a dica de sua intenção de matar o candidato. Na conversa com o agente do Serviço Secreto, De Niro para de falar enquanto dois rapazes passam, e seu sorriso sarcástico faz o homem se preocupar. A bela cena em que olha fixo para a televisão, com uma música triste ao fundo, simboliza muito bem sua solidão. Ao destruí-la, o taxista sinaliza que está enlouquecendo com aquelas idéias na cabeça. Finalmente, quando fala pela primeira vez com Sport, seu olhar fixo para o cafetão nos faz pressentir qual é sua vontade naquele momento (“É a pior escória do mundo”, diz para Iris). O problema com Betsy, a convivência com Iris e sua vivência nos guetos de Nova York criam um sentimento paranóico, dando um nó na cabeça de Travis.

Completando o elenco, podemos destacar Cybill Sheperd, como a bela Betsy. Repare como ela olha pra baixo quando Travis diz que “é a mulher mais linda que ele conheceu na vida”. Seu sorriso incontido e seu brilho no olhar demonstram sua satisfação ao ouvir aquilo. Betsy, porém, não consegue compreender Travis e, com razão, fica indignada ao sair do cinema, enquanto Travis não entende a ofensa que aquilo significa pra ela. Jodie Foster está muito bem como a garota revoltada que vende o corpo, solta, sorrindo e fazendo brincadeiras, em seu diálogo com Travis no café. Em sua primeira aparição, somos ambientados ao mundo sujo em que vive (repare que Travis guarda os 20 dólares amassados, mostrando a importância que a garota teve pra ele desde aquele momento). Harvey Keitel interpreta o cafetão que explora todas aquelas garotas e que curiosamente demonstra algum carinho por Iris quando dança com ela no quarto. Mesmo assim, não hesita em vender o corpo dela, como podemos observar em sua conversa com Travis.

Quando hesita em aceitar o convite de Iris para tomar café, podemos pensar que é efeito do trauma do último encontro com Betsy, mas na verdade Travis já tinha outro plano para o dia seguinte (matar o presidente). Ele não tinha intenções amorosas com Iris, como fica claro quando vai com a garota para o quarto apenas para conversar. O que Travis queria era tirá-la daquele lugar que ele tanto odiava. De Niro expõe a raiva de Travis ao pagar o homem na porta do quarto, dizendo que “voltará com certeza”. Mas apesar de sua atitude final, a conversa com Iris no café demonstra que Travis era uma boa pessoa.

O grande clímax do filme vai sendo construído lentamente. Observe como Scorsese gasta alguns segundos antes de finalmente mostrar o taxista com cabelo moicano, simbolizando sua mudança de atitude. A tensa seqüência em que tenta assassinar Palantine, sem sucesso, mostra que a diferença entre um herói e um monstro muitas vezes pode ser bem pequena. Se tivesse conseguido seu objetivo, Travis seria retratado perante a sociedade como um assassino cruel e lunático, e não como o herói que se transformou após “salvar” Iris. Quando o vemos em casa agitado e, posteriormente, saindo com o taxi sem parar pra ninguém, sabemos que está decidido a resolver seus “problemas”. Após a impressionante e realista seqüência em que mata Sport e entra atirando no prédio, Scorsese faz um excelente travelling, com a cena congelada, desde o quarto onde Travis termina sua chacina, passando pelos mortos e armas, até chegar à barulhenta rua cheia de pessoas curiosas. Este refinado visual do filme é fantástico e colabora para o impacto causado em nossas mentes.

Scorsese acertou em cheio neste maravilhoso estudo da solidão e do isolamento, nos oferecendo uma direção impecável, recheado com atuações maravilhosas e imagens de grande impacto. Taxi Driver se aprofunda na complicada questão do deslocamento social com sucesso absoluto. Diversas pessoas já se sentiram desta forma na vida (eu inclusive) e ao ver a emocionante história do taxista solitário na tela é inevitável a nossa identificação. O mecanismo da solidão é simples, porém perigoso. Gostamos do que não podemos ter, e não gostamos de nada que temos. Desta forma, a pessoa jamais está satisfeita, e a solidão funciona como um escudo, uma proteção contra tudo aquilo que julga estar errado. Todos nós temos momentos em que chegamos perto do nosso limite. A grande questão é como lidar com este sentimento. Travis escolheu a forma mais perigosa e por sorte saiu-se bem.

 

Texto publicado em 18 de Novembro de 2009 por Roberto Siqueira

AS VINHAS DA IRA (1940)

(The Grapes of Wrath)

 

 

Filmes em Geral #69

Filmes Comentados #10 (Comentários transformados em crítica em 10 de Agosto de 2011)

Dirigido por John Ford.

Elenco: Henry Fonda, Jane Darwell, John Carradine, Charley Grapewin, Dorris Bowdon, Russell Simpson, O.Z. Whitehead, John Qualen, Eddie Quillan, Zeffrie Tilbury, Frank Sully, Frank Darien, Darryl Hickman e Shirley Mills.

Roteiro: Nunnally Johnson, baseado em livro de John Steinbeck.

Produção: Darryl F. Zanuck.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A crise provocada pela grande depressão nos Estados Unidos é o pano de fundo para este “As Vinhas da Ira”, obra-prima humanista dirigida por John Ford, que escancara diversos problemas sociais provocados pela ganância de alguns numa época bastante difícil. Com um visual esplêndido, excelentes atuações e uma narrativa envolvente, o longa é acima de tudo um grito de liberdade de um povo sufocado pela opressão do sistema capitalista.

Tom Joad (Henry Fonda) volta para casa em liberdade condicional e encontra seu lar abandonado. Ao lado do pregador Casy (John Carradine), ele vai até a casa de seu tio John (Frank Darien) e descobre que sua família está sendo desabrigada por empresas que detém a propriedade daquelas terras. Sem ter onde ficar, eles partem para a Califórnia, empolgados com as promessas de emprego e de uma nova vida, mas a dura realidade era bem diferente do que eles imaginavam.

Escrito por Nunnally Johnson, baseado em livro de John Steinbeck, “As Vinhas da Ira” trata de um tema delicado com extrema sensibilidade enquanto acompanha a trajetória sofrida de migração de uma família simples do interior dos Estados Unidos. Acostumadas a um estilo de vida que a urbanização não permitiria existir mais, estas pessoas são forçadas a tentar a vida na cidade grande, numa mudança conturbada que só aumentará os problemas sociais do país, inchando ainda mais as metrópoles, já sem espaço para as pessoas que vivem lá. Por outro lado, como podemos esperar que estas pessoas fiquem num local sem oportunidades, tomado por grandes empresas que irão explorar aqueles que se aventurarem a ficar por lá? Como podemos perceber, os problemas gerados pelo sistema capitalista e, principalmente, pela ganância de alguns já ganhava espaço em 1940 e perdura até hoje. A urbanização e a evolução trouxeram mudanças drásticas na vida daquelas pessoas e infelizmente, ampliaram a pobreza e a miséria – e ainda bem que alguns cineastas, como Ford e Chaplin, tinham coragem de criticar este sistema já naqueles tempos.

Ford exalta o “amor a terra” logo no início da narrativa, quando um emocionado Muley (John Qualen) chora enquanto agarra a terra no chão (“Nasci aqui e vou morrer aqui!”, esbraveja). O diretor mostra também o outro lado da moeda, evidenciando os problemas causados pela migração quando um grupo de pessoas para o caminhão da família Joad e impede que eles entrem em determinada região, já repleta de pessoas famintas e desesperadas. Amontoados num caminhão caindo aos pedaços, a família Joad sofre durante praticamente toda a viagem, e a trilha sonora triste e melancólica simboliza a tristeza de quem teve que deixar a terra que ama. Nem todos agüentam o tranco e outra melodia triste surge para acompanhar o enterro do vovô, numa cena simples e comovente em que Ford demonstra toda sua sensibilidade. E o próprio caminhão simboliza a bagunça que aquela família estava vivendo longe de sua terra, num belo trabalho de direção de arte de Richard Day e Mark-Lee Kirk, que se destaca ainda no miserável acampamento que recebe os desabrigados na Califórnia.

Belos também são os movimentos de câmera de Ford, como aquele que inicia na família de Muley, passa pela casa destruída e, em seguida, corta para a sombra da família na terra, simbolizando que agora eles eram apenas sombra do que já foram um dia. Além disso, o diretor explora muito bem as longas planícies e plantações, sempre com a marcante linha do horizonte ao fundo, comprovando seu talento na composição de planos belíssimos. A bela direção de fotografia do ótimo Gregg Toland auxilia neste processo, especialmente durante a viagem da família. Além disso, a escolha do preto e branco reforça o tom melancólico da narrativa e ressalta a vida sofrida da família Joad. Repare ainda como quando Tom retorna pra casa, a fotografia sombria afunda o personagem nas sombras enquanto ele descobre o que aconteceu com seus vizinhos e familiares – e aqui vale destacar a atuação marcante de John Qualen como Muley, nos comovendo ao demonstrar sua paixão pela terra natal. Este clima sombrio é reforçado pela montagem de Robert L. Simpson, que utiliza alguns fades para fazer a transição das cenas, escurecendo completamente a tela por alguns segundos (o que hoje soa deselegante, mas na época não). Além disso, Simpson e Ford seguem uma linha narrativa clássica e, com exceção de um pequeno flashback no início, linear, em que a montagem jamais chama a atenção para si, numa decupagem cuidadosa que mostra apenas o que é necessário para o andamento da trama.

O curioso termo “cats” utilizado para os tratores Caterpillar que derrubam as casas não surge por acaso. Ele personifica uma empresa e a faz parecer algo palpável. Só que uma empresa não é uma pessoa e, portanto, não pode ser ameaçada (“Em quem nós atiramos?”, pergunta o filho de Muley). Naquele instante, as corporações passavam a dominar o cenário – e as terras que até então passavam de geração para geração – e ninguém podia fazer nada a respeito. E a situação só piorava. Tom começa a perceber isto quando um homem conta sobre sua experiência na cidade, onde as 800 vagas prometidas eram disputadas por milhares de pessoas, deixando muitos desempregados – e o momento em que ele fala sobre a morte dos filhos é tocante, revelando também a desonestidade do médico que apontou outra causa para a morte, evitando que as estatísticas de mortes por “fome” aumentassem. A fome também é o tema central de outra cena belíssima dentro de uma venda na beira da estrada, quando o dono (e depois a garçonete) percebe que a família está passando fome e vende os pães e doces por preços menores. Aliás, o rosto das crianças com fome, seja na venda ou no acampamento, é de cortar o coração de qualquer um.

Cativante e complexo desde sua introdução, quando revela seu passado criminoso e temperamento explosivo, o Tom Joad de Henry Fonda aprende lentamente a lidar com aquela situação, percebendo que o poder sempre esteve nas mãos do próprio povo. Esta mudança gradual é notável nas frases ácidas que demonstram o sentimento que crescia dentro dele, como quando diz que “o governo tem mais interesse pelos mortos do que pelos vivos” no enterro do avô. Ator talentoso e carismático, Fonda se destaca em diversos momentos, como quando reencontra sua mãe, partindo emocionado para abraçá-la (e o close de Ford em seu rosto realça sua bela atuação). Mas seu rosto aparentemente inofensivo esconde uma pessoa prestes a se revoltar contra tudo, como podemos notar quando ele responde rispidamente que seu nome “ainda” era Joad, após ser questionado diversas vezes num acampamento. “Não é preciso coragem se você não tem escolha”, diz para um policial antes de cruzar o deserto. O pior inimigo é aquele que não tem mais nada a perder e Tom estava nesta situação. Por isso, seu lado mais primitivo surge quando vê um homem atingir seu amigo Casy e ele volta a matar. Desesperado, se esconde nos braços da amada mãe, numa cena em que a simples visão da porta 63 abrindo e fechando, o som da sirene ao fundo e a posição da câmera de Ford – que não mostra o que se aproxima do local – criam muita tensão.

Além de Fonda, quem também dá um show é Jane Darwell como a mãe de Tom, emocionando a platéia com sutileza, como quando queima os objetos da família antes de partir. Sua conversa com o filho no final é uma linda cena, que simboliza o desmoronamento da família e, por outro lado, mostra o nascimento de um cidadão disposto a lutar por seus direitos e se opor a opressiva política das empresas capitalistas. Repare como ela olha para o horizonte com os olhos marejados, sabendo que seu filho estava partindo para, provavelmente, nunca mais voltar. Ela sabe que quando ele diz pensar em Casy, está deixando claro que lutará até o fim pela nova causa, assim como fez seu amigo – e as palavras de Tom (“Estarei em todo lugar…”) são marcantes e belíssimas, coroando a grande atuação de Fonda. Diretos e realistas, mãe e filho são muito parecidos, mas este jeito seco não os impede de amar um ao outro. Ao ouvir Ma Joad dizer que “Não somos do tipo que beija, mas…” e ver o abraço apertado deles, o espectador precisa segurar as lágrimas.

No restante do excelente elenco, merece destaque a atuação de Charley Grapewin como o vovô, especialmente quando ele se revolta antes de deixar sua casa. “Essa é a minha terra. Não é boa, mas é minha”, diz ele, numa excelente frase que sintetiza o quanto viver em sua própria terra era importante para aquelas pessoas. Também vale ressaltar a atuação de John Carradine como Casy, que se sai bem desde a primeira conversa com Tom e, principalmente, quando explica para o amigo o motivo da greve, momentos antes de morrer. A frase final “Nós viveremos para sempre, porque nós somos o povo!” deixa uma mensagem otimista, de que o povo, ainda que seja explorado, jamais deixará de existir (afinal, eles precisam do povo, não?). Seria interessante também que jamais deixasse de lutar por seus direitos.

“As Vinhas da Ira” é uma forte crítica ao sistema que tomou conta dos EUA depois da grande depressão, onde empregadores exploravam empregados, se aproveitando da situação para pagar salários insignificantes. De maneira tocante, John Ford entrega um filme humanista, melancólico e reflexivo, atingindo o coração do espectador. É preciso muita falta de sensibilidade para não se comover com a luta daquelas pessoas e não se revoltar com as atitudes dos mais favorecidos. A grande pergunta que fica é: depois de tantos anos, será que esta situação mudou?

PS: Comentários divulgados em 17 de Novembro de 2009 e transformados em crítica em 10 de Agosto de 2011.

Texto atualizado em 10 de Agosto de 2011 por Roberto Siqueira

Qual seu filme de comédia favorito?

Após muito tempo sem fazer as tradicionais perguntas do Cinema & Debate, volto para discutir sobre um gênero que costuma agradar a maioria das pessoas. Filmes de comédia, quando bem feitos, têm o poder de elevar nosso humor, nos deixar felizes e de bem com a vida. E por mais que eu goste de um bom drama, sempre existirá espaço em minhas sessões de cinema para uma comédia inteligente, seja ela sarcástica ou apenas uma diversão sem fundo crítico.

Meu filme de comédia favorito é “Debi & Lóide”, com Jim Carrey e Jeff Daniels. Sou fã do trabalho de Carrey, o considero um grande ator e “Debi & Lóide” é um filme que marcou minha juventude, me provocando gargalhadas até hoje. Também gosto muito dos filmes do grupo inglês Monty Python, mas “Debi & Lóide” ainda é, até hoje, o meu preferido.

E pra você, qual seu filme de comédia favorito?

Um abraço e bom debate.

 

 

 

 

 

 

 

 

Texto publicado em 16 de Novembro de 2009 por Roberto Siqueira

De volta…

Após um mês pouco produtivo no blog, devido às minhas férias no trabalho e, consequentemente, às viagens que fiz, volto à atividade hoje. Aproveitei minhas férias para ver muitos filmes e em breve publicarei críticas, ou comentários, de todos eles aqui. Espero conseguir um ritmo mais intenso de publicações de agora em diante, assim como alcançar meu objetivo de ver pelo menos um filme por dia, além de engrenar de vez as críticas da Videoteca do Beto.

Agradeço a todas as pessoas que, mesmo sem muitas novidades, continuaram acessando com freqüência o blog.

Um abraço a todos e bons debates!

Cadeiras 2

 

 

 

 

 

 

 

Texto publicado em 12 de Novembro de 2009 por Roberto Siqueira

28

Hoje entro na idade mais importante da minha vida. A idade em que serei pai. Obrigado Senhor por mais um ano de paz, amor, saúde, alegria e muita felicidade!

PS: Parabéns Thi, um dia atrasado! 😉

28 anos

 

 

 

 

Texto publicado em 06 de Novembro de 2009 por Roberto Siqueira 

FRANKENSTEIN DE MARY SHELLEY (1994)

(Mary Shelley’s Frankenstein)

 

Filmes em Geral #90

Filmes Comentados #9 (Comentários transformados em crítica em 17 de Outubro de 2012)

Dirigido Kenneth Branagh.

Elenco: Kenneth Branagh, Robert De Niro, Helena Bonham Carter, Ian Holm, Tom Hulce, Aidan Quinn, Richard Briers, John Cleese, Robert Hardy, Cherie Lunghi, Celia Imrie, Trevyn McDowell e Gerard Horan.

Roteiro: Steph Lady e Frank Darabont, baseado em livro de Mary Shelley.

Produção: Francis Ford Coppola, James V. Hart e John Veitch.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Extremamente criticado na época de seu lançamento, “Frankenstein de Mary Shelley” apresenta tantas qualidades que transforma o esforço para compreender sua má recepção numa tarefa inútil. Muito mais interessante é explorar a abordagem fiel de Branagh, as excelente atuações do elenco e a profundidade dramática do longa que, contando ainda com um visual arrebatador, se confirma como uma das melhores adaptações da obra de Mary Shelley.

Escrito por Steph Lady e Frank Darabont (que dirigiria a obra-prima “Um Sonho de Liberdade” naquele mesmo ano), “Frankenstein de Mary Shelley” chama a atenção desde sua excelente introdução, quando uma marcante voz narra o texto inicial da obra de Shelley. Através de um longo flashback que tem inicio no encontro casual entre Victor Frankenstein (Kenneth Branagh) e um determinado e inconsequente explorador no polo Ártico (Aidan Quinn), o filme narra à história do promissor médico que busca encontrar uma forma de trazer pessoas que já morreram de volta à vida, motivado especialmente pela morte precoce de sua mãe (Cherie Lunghi). Após conhecer o inteligente professor Walderman (John Cleese), seus experimentos finalmente funcionam e ele dá vida a uma Criatura (Robert De Niro) feita a partir dos restos mortais de um assassino e do cérebro de seu falecido mentor.

Além de desenvolver a narrativa e os personagens de maneira consistente, o elegante roteiro apresenta diversos diálogos interessantes, começando por aquele em que o capitão Walton de Aidan Quinn diz para Victor que deseja entrar para a história da humanidade e recebe uma resposta cheia de ressentimento: “Eu, mais do que ninguém, sei que você está errado”. Outro diálogo marcante acontece dentro de uma caverna gelada, quando a Criatura questiona Victor e nos leva a refletir sobre a situação: afinal, quem é o verdadeiro monstro? Incluindo ainda diversas menções ao nome de Deus para ilustrar a força da religião naquele período, o roteiro aborda com competência a questão do abandono, da falta de afeto, amor e carinho, mostrando também como as pessoas tendem a olhar para o exterior e não para o interior de seus semelhantes, numa atitude cruel capaz de destruir a autoestima de qualquer ser humano.

Auxiliado pela montagem dinâmica de Andrew Marcus, Branagh narra fatos importantes da história de maneira econômica, ganhando tempo para explorar seu melhor personagem, que é a Criatura interpretada por De Niro, assim como lhe permite dar mais foco à fase de estudos e experimentos que ressalta a obsessão de Victor. Juntos, diretor e montador abusam do virtuosismo técnico em momentos interessantes como o raccord que salta de Victor e Elizabeth brincando com água para o plano em que eles soltam pipa ou aquele em que Victor corta a corda do corpo enforcado do assassino e, em seguida, vemos um copo descendo na mesa de uma taverna como se continuasse o movimento de queda do cadáver. Ainda nos detalhes técnicos, chama a atenção como a trilha sonora de Patrick Doyle pontua muito bem as cenas, surgindo na maior parte do tempo para indicar momentos importantes, como quando a música triunfal acompanha a entrada de Victor no local onde ele dará vida à Criatura, acertando também no melancólico tema que embala a relação entre Victor e Elizabeth, que surge até mesmo na flauta da Criatura, indicando como esta interfere no relacionamento deles.

Utilizando inicialmente cores vivas, a fotografia de Roger Pratt demonstra bem a alegria de Victor até o momento em que perde sua mãe, criando um contraste marcante em sua obscura passagem por Inglostadt, que reflete sua mente conturbada e obstinada naquele instante, ressaltada inclusive pela bagunça generalizada do caótico local, repleto de objetos espalhados por todos os lados (design de produção de Tim Harvey). Branagh conta também com os figurinos coloridos e ricos em detalhes de James Acheson e com a decoração perfeita dos ambientes para dar um visual espetacular ao longa, escorregando apenas em alguns efeitos visuais, como na cena do monte em que os raios que caem sobre eles soam pouco verossímeis. Por outro lado, o diretor realça com sutileza momentos de importância narrativa, como quando o sapo testado por Victor quebra o vidro e indica a força que a nova criatura terá.

Demonstrando grande habilidade na direção, Branagh é responsável pela criação de inúmeros planos marcantes, como aquele que diminui o Barão Frankenstein (Ian Holm) na enorme escada azul logo após o trágico parto, indicando o quanto ele estava arrasado, o impressionante plano geral que acompanha a cruel morte de Justine (Trevyn McDowell) ou os planos belíssimos que exploram a beleza da região enquanto a Criatura caminha na neve. Observe ainda como o professor Krempe (Robert Hardy) é filmado por baixo de forma que fique imponente na sala durante a aula até o instante em que é questionado por Victor, quando a câmera inverte o eixo e o diminuí na cena, simbolizando que Frankenstein não respeita sua visão e quer ir além. Aliás, os movimentos de câmera tem grande importância na narrativa, algo ressaltado pelo simbolismo dos contra-plongès (filmado por baixo) que simbolizam a vida no nascimento da Criatura e de sua “Noiva” e dos plongès (filmado por cima) que simbolizam a morte do professor, do garoto Willie e de Elizabeth, numa lógica perfeita que demonstra o equilíbrio de maneira coerente na cena do parto, onde uma morte e um nascimento acontecem simultaneamente e a câmera se mantém no mesmo nível. Finalmente, Branagh confere energia à excelente sequência do nascimento da criatura, incluindo até mesmo uma referencia ao clássico da Universal de 1931 (“Está vivo! Está vivo!”).

Mas se tem grande destaque atrás das câmeras, na frente delas Branagh tem uma atuação apenas razoável, escancarando sua origem teatral ao exagerar nas expressões faciais, saindo-se bem apenas em raros momentos como quando Victor tenta convencer Elizabeth a ficar. Supostamente demonstrando grande apego à família, Victor lentamente revela-se um ser egoísta, que pensa somente em seu benefício sem levar em consideração as consequências de seus atos – o que o leva, por exemplo, a dizer “Graças a Deus” quando é informado que os recém-nascidos estão morrendo diante de uma epidemia, pensando apenas na Criatura e esquecendo-se das centenas de mães que choram naquele instante. Aliás, a própria obstinação de Victor em trazer os mortos de volta a vida revela um egoísmo profundo, já que este ato busca essencialmente a “sua” felicidade, esquecendo-se do que aquilo poderia provocar naqueles que já se foram – e neste sentido, a sequência em que Elizabeth é ressuscitada é crucial para compreender o mal que ele fez. Aliás, auxiliada pela excepcional maquiagem que torna as criaturas mais realistas, Helena Bonham Carter se sai muito bem nos poucos minutos em cena como a noiva de Frankenstein, convencendo e demonstrando em seu rosto expressivo a dor da personagem ao descobrir o que Victor tinha feito com ela.

Entretanto, o grande destaque do elenco fica mesmo para Robert De Niro, que surge inicialmente como o assassino do professor, o que é apropriado para dar credibilidade à Criatura que surgirá em seguida. Numa interpretação tocante, ele demonstra sensibilidade e raiva em proporções cavalares, destacando-se em diversos momentos como quando ajuda uma família de camponeses e recebe uma placa e uma flor como agradecimento, demonstrando uma alegria genuína capaz de nos levar as lágrimas. Aliás, toda esta sequência da família na floresta é linda e bastante simbólica, resumindo a mensagem do filme com precisão. Criando um ser ambíguo que, como ele mesmo diz, carrega amor e ódio em medidas iguais, De Niro cria um anti-herói que, mesmo cometendo atos insanos (como matar uma criança e incriminar a tia dela), consegue conquistar a empatia da plateia. Obviamente, o fato da Criatura já surgir indefesa, com as pessoas tentando agredi-la sob a alegação de que ela é a responsável pela terrível doença que assola a cidade, colabora bastante – e o plano em que a criatura se mistura aos mortos é muito simbólico, já que ele jamais deixa de ser uma espécie de morto-vivo, não por falta de humanismo, mas pela forma como é recebido pelos “seres humanos”.

Em certo momento, a Criatura afirma que “pela compaixão de um único ser humano, faria as pazes com todos”, nos levando a uma interessante reflexão. Porque não aceitamos aqueles que não entendemos ou que julgamos diferentes? O choro diante da morte de Victor e a frase “ele nunca me deu um nome” demonstram a dor e o ressentimento da Criatura diante da rejeição paterna. Já sua última e impactante frase, “Eu abandonei a humanidade”, demonstra seu ressentimento com toda a raça humana. Ele viu que as pessoas não seriam capazes de aceitá-lo. Nem o seu criador o fez.

Outras críticas interessantes sobre o filme você pode encontrar nos links abaixo:

– Análise completa por Pablo Villaça.

– Crítica de Alexandre Rivaben.

PS: Comentários divulgados em 03 de Novembro de 2009 e transformados em crítica em 17 de Outubro de 2012.

Texto atualizado em 17 de Outubro de 2012 por Roberto Siqueira