A influência da Rede Globo nos resultados do Brasileirão 2009

Um campeonato de futebol disputado no sistema de pontos corridos é decidido jogo a jogo, em pequenos detalhes diluídos ao longo de toda a competição, e aí é que está a graça deste tipo de campeonato em minha opinião. Gosto muito dos pontos corridos e acho que é mesmo o melhor sistema de disputa. O que quero discutir aqui é até que ponto os donos dos direitos de transmissão têm também o direito de interferir diretamente no campeonato, somente pelo fato de pagar pela transmissão dos jogos. Digo isto porque todos nós sabemos que a Rede Globo de televisão, dona dos direitos de transmissão dos jogos do campeonato brasileiro, se viu “obrigada” a mudar a data de alguns jogos para completar a sua grade nas quartas-feiras (pelo menos em São Paulo), já que nenhum time paulista está disputando a Copa Sul-Americana deste ano. Não quero nem entrar na questão ética que o poder da emissora fere. Prefiro falar da questão esportiva. Imaginemos as seguintes situações:

1 – O time A enfrentaria o time B no próximo domingo em jogo decisivo pela disputa do título. Acontece que na rodada passada, o melhor jogador deste time sofreu uma contusão leve, que o deixaria de fora da partida. Com o adiamento do jogo para a quarta-feira seguinte, este jogador terá condições de jogo. Ao chegar o dia do jogo, ele decide a partida. Imagine agora que este cara é o Rogério Ceni, o D’Alessandro, o Diego Souza ou o Ronaldo. Faz diferença?

2 – Vamos pensar o caminho inverso agora. O adiamento do jogo faz com que os times A e B tenham que jogar uma partida quarta-feira e quatro dias depois, jogar novamente na rodada do domingo. Neste jogo de quarta, o jogador citado acima sofre uma contusão leve e levaria 4 ou 5 dias para se recuperar. Se o jogo tivesse acontecido no domingo, ele poderia jogar na próxima rodada, mas como o jogo foi na quarta, ele não terá tempo de recuperação. Faz diferença?

3 – Talvez a situação mais comum. O time A teve seu jogo alterado de domingo para quarta, quando enfrenta o time B. O time C joga no domingo e tem a semana inteira para se preparar pro jogo decisivo, no outro domingo, contra o time A. Cansado, o time A terá uma dificuldade maior que o time C neste confronto. Você acha que esta alteração influenciou o resultado da partida?

Corinthians e Palmeiras sofreram recentemente com estas alterações. O time de Parque São Jorge chegou a ficar 2 semanas inteiras sem jogar, o que é um absurdo, quebra o ritmo do time. O Palmeiras teve um jogo alterado contra o Atlético Mineiro. Jogou na quarta contra o Galo e no sábado (sim, no sábado, não domingo) contra o Botafogo. Empatou, e este empate custou o título do primeiro turno, e mais importante que isto, custou 2 pontos na disputa do título. E a situação se repete agora, com o Palmeiras enfrentando o Cruzeiro na quarta e o Furacão no sábado.

Agora deixo a pergunta: Você acha que as alterações de data da Rede Globo têm influência direta no resultado do campeonato?

Um abraço e vamos debater.

Campeonato Brasileiro 2009

 

 

 

 

 

 

 

Texto publicado em 22 de Setembro de 2009 por Roberto Siqueira

PACTO DE SANGUE (1944)

(Double Indemnity)

 

Filmes em Geral #74

Filmes Comentados #5 (Comentários transformados em crítica em 22 de Novembro de 2011)

Dirigido por Billy Wilder.

Elenco: Fred MacMurray, Barbara Stanwyck, Edward G. Robinson, Porter Hall, Jean Heather, Tom Powers, Byron Barr, Richard Gaines, Fortunio Bonanova, John Philliber e James Adamson.

Roteiro: Billy Wilder e Raymond Chandler, baseado em livro de James M. Cain.

Produção: Buddy G. DeSilva.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Filme essencial para entender o que é o noir, “Pacto de Sangue” destaca-se pelo envolvente roteiro e pelos fascinantes personagens que povoam o universo obscuro e predominantemente noturno criado por Billy Wilder. Surgido numa época em que o público havia perdido a “inocência” devido aos acontecimentos do período (como a guerra mundial), o filme atingia os anseios de uma platéia que esperava por filmes mais próximos da realidade, com pessoas comuns agindo de formas inesperadas.

Escrito pelo próprio Billy Wilder em conjunto com Raymond Chandler e baseado em livro de James M. Cain, “Pacto de Sangue” narra a história de Walter Neff (Fred MacMurray), um competente vendedor de seguros que é seduzido pela esposa de um cliente, a charmosa Phyllis Dietrichson (Barbara Stanwyck), e convencido a assassinar o marido dela, tomando ainda o cuidado de fazer o crime parecer um acidente, para que ela possa receber o seguro em dobro. Mas, para isto, eles terão que enganar o chefe de Neff, o astuto Barton Keyes (Edward G. Robinson).

Ao contrário da maioria dos filmes que envolvem um assassinato, “Pacto de Sangue” já inicia revelando quem é o assassino. Isto acontece porque o foco do ótimo roteiro não está no exercício de descobrir quem cometeu o crime, mas sim em revelar como e porque ele cometeu aquele assassinato e o que ele fez para não ser descoberto – “Fiz por dinheiro e por uma mulher. Fiquei sem o dinheiro e também sem a mulher.”, diz Neff. Repleto de trechos deliciosos (“Seu homenzinho lhe tirou da cama?”, pergunta Neff. “Foi o Zelador”, responde Keyes) e sempre num ritmo acelerado, o roteiro apresenta um verdadeiro festival de diálogos marcantes, como o primeiro entre Neff e Phyllis ou o inteligente diálogo expositivo durante a caminhada até o trem, no qual apesar de Phyllis afirmar já saber todo o plano, Neff insiste em repassar cada etapa, o que permite ao espectador saber com antecedência como eles completarão o crime. Repleta de reviravoltas e surpresas, a interessante trama também nos permite acompanhar como funciona a empresa de seguros, que faz de tudo para não pagar o segurado investigando caso a caso com muito cuidado, mostrando ainda o outro lado, através das pessoas que buscam se beneficiar ilicitamente do seguro.

Este cuidadoso filtro é feito por Barton Keyes, interpretado por Edward G. Robinson e que conhece tudo sobre o ramo de seguros. Solteiro, extremamente confiante e viciado em trabalho, ele é o típico workaholic, que não larga sua profissão por nada e sente enorme prazer no que faz. Robinson está perfeito no papel, com falas rápidas que demonstram o conhecimento que Keyes tem do assunto, além de sua enorme confiança e ansiedade. O espectador é apresentado aos seus rígidos métodos de trabalho logo no início, através do caso do motorista do caminhão, que serve para aumentar a tensão quando ele começa a investigar o crime de Neff.

Mas nem mesmo o capcioso Keyes poderia imaginar que entre as pessoas que tentam burlar o sistema de seguros está Walter Neff, seu melhor corretor e profundo conhecedor do negócio. Justamente por conhecer os caminhos, Neff pensa em cada detalhe antes de executar o plano. E é sob a ótica dele que acompanhamos a trama, graças à narração que expõe seu ponto de vista durante toda a história e que é fundamental para que o espectador embarque na narrativa sob a perspectiva do criminoso. Com falas rápidas e muito cinismo, Fred MacMurray tem uma boa atuação na pele de Neff, demonstrando como o corretor vai lentamente se entregando ao plano de Phyllis até finalmente resolver ajudá-la. Repare, por exemplo, como na cena em que o Sr. Dietrichson (Tom Powers) assina o seguro sem saber, ele puxa o papel para ler enquanto fala e, cuidadosamente, Neff puxa o papel de cima de volta para encobrir o que estáem baixo. Atroca de olhares entre Neff e Phyllis neste momento chega a ser assustadora.

Os olhares entre eles, aliás, chamam bastante atenção em outros momentos também, como no primeiro contato, carregado de tensão sexual e que revela a atração mútua quase que imediatamente. O sexo, aliás, também é abordado de maneira sutil por Wilder, na cena em que ela vai pela primeira vez à casa de Neff e consegue convencê-lo a ajudá-la. Repare como ela aparece deitada nos ombros dele e, após um corte para a sala de Keyes, voltamos para a casa dele com Phyllis se maquiando num canto do sofá enquanto ele fuma um cigarro no outro canto. A cena sugere o sexo, mas não mostra nada, e é justamente neste momento que ele decide ajudá-la. Representando muito bem a mulher fatal, Barbara Stanwyck exala sensualidade, mas também se sai bem nos aspectos minimalistas de sua atuação, como quando ela mexe as mãos e evita olhar nos olhos dele ao insinuar sobre o seguro contra acidentes para o marido, demonstrando um nervosismo que denuncia sua intenção de matar o Sr. Dietrichson e receber o seguro desde aquele instante.

E como estamos falando de um film noir, os personagens não podem ser caracterizados como bons ou maus, e esta ambigüidade fica evidente especialmente em Neff e Phyllis. Repare, por exemplo, como inicialmente ele se irrita com a proposta dela (ela nunca fala diretamente, só sugere) e só depois, com a paixão crescente, é que aceita cometer o assassinato. Já Phyllis hesita na hora de cometer o crime perfeito ao descobrir que está apaixonada por Neff, mesmo com ele não acreditando nela. E o próprio Neff hesita na hora de se livrar e incriminar Zachetti (Byron Barr), deixando claro que ele não é uma pessoa ruim, apenas cometeu um erro grave, algo que fica evidente logo após a execução do crime, quando surge nervoso, trêmulo e sem saber como agir (“Coloco óculos ou não?”, se questiona). Por não ser um frio assassino, Neff evita até mesmo o contato com as pessoas, como quando não se posiciona de frente para o Sr. Jackson (Porter Hall) na sala de Keyes – em outro bom momento de MacMurray.

No aspecto visual, “Pacto de Sangue” segue a cartilha imaginaria do noir, com a fotografia obscura de John F. Seitz carregando no contraste entre o preto e o branco, sempre com claro predomínio dos pontos negros na tela, como acontece na cena do assassinato, desde a saída da casa dos Dietrichson até quando Neff e Phyllis saem de carro. Além disso, a trilha sonora de Miklós Rózsa também apresenta um tom obscuro que casa muito bem com a atmosfera do filme – e o beijo entre Neff e Phyllis dentro do carro depois da cena do crime é um exemplo da típica cena do filme noir, com o rosto dos dois encobertos pela sombra e a maior parte da tela em total escuridão.

Conduzindo todo este competente trabalho com firmeza, Wilder ainda cria planos magníficos, como na cenaem que Phyllise Keyes visitam Neff, onde podemos vê-la escondida atrás da porta, com Neff no meio do plano e Keyes em profundidade, conversando com o amigo sem ver a moça escondida. Quando ele se aproxima, a tensão aumenta e a trilha acompanha o momento com precisão. Wilder também insere elementos ao longo da narrativa que deixam a trama ainda mais interessante, como os encontros de Neff com Lola (Jean Heather), o ciúme de Phyllis e o caso dela com Zachetti. Auxiliado ainda pela montagem de Doane Harrison, Wilder conduz com perfeição a cena chave da trama, que é a simulação da morte do Sr. Dietrichson, onde a presença de um homem no fundo do trem só amplia a tensão, também reforçada pela trilha sonora. O clímax sombrio (com a mudança repentina de comportamento de Phyllis) e o encontro entre Keyes e Neff no escritório fecham o longa com perfeição.

“O cara que você procurava estava muito perto Keyes, do outro lado da sua mesa”, diz Neff. “Mais perto que isso Walter”, responde Keyes. “Também te amo Keyes”, conclui Neff. Este diálogo final mostra o quanto eles eram amigos, mas ainda assim Keyes cumpriu o seu dever e entregou Neff para a polícia. A amizade dos dois impediu que Keyes enxergasse a verdade. Com uma narrativa envolvente, personagens fascinantes e uma atmosfera única, “Pacto de Sangue” é um dos legítimos representantes do film noir que mereceram o seu lugar na galeria dos grandes filmes da sétima arte.

PS: Comentários divulgados em 21 de Setembro de 2009 e transformados em crítica em 22 de Novembro de 2011.

Texto atualizado em 22 de Novembro de 2011 por Roberto Siqueira

Oscar de todos os tempos: MELHOR DIRETOR

Depois da categoria Melhor Filme, vamos eleger agora o Melhor Diretor. Os critérios para a seleção dependem de cada um. Podemos escolher os cinco maiores diretores e indicar cada um deles por aquele que consideramos o seu melhor trabalho, ou então escolher os cinco melhores trabalhos de direção ao longo dos anos, mesmo que aquele determinado diretor não seja um dos cinco maiores em sua opinião. Ou seja, o diretor A fez um trabalho magnífico no filme X, só que no resto de sua carreira ele jamais sequer chegou perto de repetir o feito. Já o diretor B sempre fez grandes filmes, e mesmo que nenhum destes filmes supere o filme X do diretor A, você prefere votar nele e escolhe o melhor trabalho dele. Finalmente, se você quiser misturar os dois critérios, ou então utilizar outro critério de sua escolha, fique à vontade. A escolha é sua, o voto é seu.

Sendo assim, a pergunta de hoje é: Se você fosse convidado pela Academia para votar na escolha dos cinco indicados ao prêmio de melhor diretor de todos os tempos, quais seriam seus escolhidos?

Meu voto seria:

– Francis Ford Coppola, por O Poderoso Chefão.

– Stanley Kubrick, por 2001 – Uma Odisséia no Espaço.

– Sérgio Leone, por Era uma vez no Oeste.

– Oliver Stone, por JFK – A Pergunta que não quer calar.

– Steven Spielberg, por A Lista de Schindler.

Um abraço e bom debate.

Oscar Melhor Diretor 

Texto publicado em 20 de Setembro de 2009 por Roberto Siqueira

IRREVERSÍVEL (2002)

(Irreversible) 

5 Estrelas 

Filmes em Geral #6

Dirigido por Gaspar Noé.

Elenco: Monica Bellucci, Vincent Cassel, Albert Dupontel, Philippe Nahon, Jo Prestia, Stéphane Drouot, Mourad Khima, Jean-Luis Costes e Gaspar Noé.

Roteiro: Gaspar Noé.

Produção: Christophe Rossignon.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Poucas vezes me senti tão angustiado e incomodado por um período tão longo de tempo durante um filme como nesta impressionante obra dirigida pelo argentino Gaspar Noé. Durante 54 minutos somos bombardeados com uma dose cavalar de agonia e pura tensão, causando quase uma sensação de taquicardia. Poucas vezes também me senti tão impotente e incapaz, já que no decorrer da estória, meu coração ia se acalmando pelo ritmo cada vez menos angustiante da narrativa, mas sempre com o pensamento cruel de que o destino daquelas pessoas era irreversível.

Alex (Monica Bellucci) é a atual namorada de Marcus (Vincent Cassel) e ex-namorada de Pierre (Albert Dupontel). Os três convivem numa boa, apesar de esporádicas demonstrações de ciúme – como numa conversa dentro do metrô – até que um crime brutal altera o destino de todos eles para sempre.

Surpreendente desde o início, Irreversível apresenta os créditos da produção antes mesmo da primeira cena e, posteriormente, narra de forma invertida (do final pra o início) como uma pessoa normal pode se transformar no mais cruel assassino quando impulsionado pela paixão e pelo desejo de vingança. Ao percorrer este caminho, o espectador será surpreendido com duas cenas violentas, chocantes e incrivelmente realistas e terminará com a estranha sensação de alívio pelo que vê, misturada com uma angústia pelo que ele sabe que irá acontecer na vida daquelas pessoas.

Os primeiros minutos de Irreversível são muito difíceis de suportar, em grande parte por mérito de Noé, que utiliza uma câmera inquieta, que se movimenta aleatoriamente, fazendo até mesmo círculos e chegando a ficar de ponta-cabeça, além de diversas vezes utilizar um close em lâmpadas acesas que contrasta fortemente com o escuro ambiente. Auxiliado pelo ótimo trabalho de som, que simula o barulho de uma sirene aumentando e diminuindo o volume, e pela fotografia avermelhada, o espectador tem uma crescente sensação de náuseas que faz a cena parecer um pesadelo. Contribui também o ambiente extremamente pesado e incomodo dentro de uma boate gay, com cenas explícitas e uma linguagem extremamente ofensiva. Esta inquietação reflete também o estado mental de Marcus, que está completamente atordoado, fora de si. O diretor também demonstra sua capacidade ao controlar esta angústia que o espectador sente, diminuindo esta sensação na medida em que o filme vai passando (e a estória vai voltando). Noé é responsável também, ao lado de Benoît Debie, pelo excelente trabalho de direção de fotografia que é extremamente importante durante todo o filme, refletindo o estado psicológico dos personagens. Após o início obscuro e avermelhado, a fotografia passa a ser grossa e granulada na cena do ataque dentro da boate, o que ilustra bem o ambiente sujo e o momento obscuro que Marcus e Pierre estão vivendo. Já quando eles são perseguidos por travestis, a câmera de mão (handycam) cria o ar documental necessário à cena, o que a torna muito mais realista e tensa. Na casa de Alex e Marcus a fotografia é mais limpa, destacando a cor branca, e a câmera já se movimenta lentamente, o que nos dá uma sensação de paz. A trilha sonora também é extremamente diferente ao longo do filme, mudando de uma trilha pesada e alta no inicio (e até mesmo na festa heterossexual) para uma música romântica e lenta no lar do casal. Gradualmente o filme vai retirando aquele clima tenso e o trabalho em conjunto de direção, montagem e direção de fotografia é diretamente responsável por isto. Finalmente, Noé é inteligente até em pequenos detalhes, como nos interessantes movimentos de câmera em que ele circula objetos (sirene e a mangueira no jardim) no sentido anti-horário, o que é coerente com a narrativa que volta no tempo. A excelente montagem (também responsabilidade de Noé) acerta ao separar a narrativa em grandes blocos, o que evita confundir demais o espectador, já preocupado em remontar a história em sua cabeça. Completando o excelente trabalho técnico, podemos destacar o extraordinário resultado alcançado pelos efeitos visuais, como na cena do ataque com o extintor que cria o rosto do ator sendo massacrado com perfeição.

O excelente roteiro, escrito pelo próprio Noé, tem trechos sutis que refletem no restante da narrativa, como a cena em que Alex diz para Pierre que para ela o importante é saber que está dando prazer para o homem numa relação sexual. Obviamente as palavras dela devem ser corretamente interpretadas, já que na cena mais violenta do filme ela claramente só tem dor (física e psicológica). Em outro momento, Alex conta sobre o livro que está lendo, dizendo que o futuro já está definido e não temos o que fazer a respeito, numa clara alusão à própria estória contada pelo filme. O livro também diz que os sonhos revelam parte deste futuro, o que tem relação com o sonho de Alex sobre o túnel vermelho que se divide em dois. O roteiro coeso também serve de base para as impecáveis interpretações do elenco. Vincent Cassel explora muito bem a enorme transformação de Marcus. Típico machão, ele bebe muito e paquera todas as mulheres em uma festa, mas por outro lado, quando está normal, é um cara atencioso, carinhoso e engraçado. Ele não pensa duas vezes na hora de trair Alex no banheiro desta mesma festa, e ao mesmo tempo, vai até o fim do mundo em busca de vingança quando sua mulher é violentada. Quando Marcus vê Alex ensangüentada (em um incrível trabalho de efeitos visuais), por exemplo, o som do coração e o zoom da câmera refletem a angústia dele e a realista reação de Cassel é extremamente bem captada pelo close de Noé. Observe como ele estava bebendo água e sorrindo e, ao ver Alex, sua mudança no rosto causa um enorme impacto, complementada pelo seu comovente e angustiante choro, jogado em cima dela. Um pequeno detalhe nesta cena mostra como julgamos por aparências, quando uma pessoa comenta: “uma prostituta foi estuprada”. Alex não é prostituta, só estava no lugar errado na hora errada.

Pierre, interpretado com competência por Albert Dupontel, é o oposto do descolado Marcus. Centrado e inseguro, consegue o carinho de Alex, mas talvez pela diferença de gostos entre os dois (ela adora dançar e ele não gosta, por exemplo) não conseguiu manter o seu namoro com ela, se tornando “apenas um amigo”. Observe como Dupontel é hábil ao demonstrar que ainda é apaixonado por Alex através de pequenos detalhes como o seu jeito tímido de dançar com ela na festa, como se evitasse um contato maior para evitar ceder à paixão, e a frase preocupada (“É imprudência!”) que só falamos para pessoas que temos carinho, quando ela está saindo da festa. Pierre é também o personagem que tomará a mais surpreendente atitude, mostrando que até mesmo o mais centrado dos homens pode perder a cabeça em algum momento de sua vida. A cena do extintor é com certeza uma das cenas mais violentas e angustiantes que já presenciei em um filme. Completando o elenco principal, Monica Bellucci oferece uma interpretação segura como Alex, e é o grande destaque do longa. Observe a sutileza com que ela diz para uma amiga na festa que está vivendo um momento especial em sua vida. Posteriormente saberemos que ela está grávida, mas a dica já foi dada aqui. Quando faz o teste de gravidez, ela sai do banheiro lentamente, senta, coloca a mão na boca e, levantando os olhos, dá um sorriso. Ainda com a mão na boca, Bellucci dá um suspiro, apóia os cotovelos no joelho e pensa, olhando para o nada. Lentamente ela vai mudando para um olhar mais sério e uma feição de quem está pensativa, demonstrando que está ciente da grande mudança que estaria para acontecer na sua vida. Esta detalhada composição de Bellucci mostra o misto de alegria e preocupação tão comum neste momento. Em seguida ela acaricia a barriga, num movimento típico de quem sabe que está carregando um filho. Mas é na longa e angustiante cena do estupro que Bellucci demonstra todo o seu talento. Cometendo um erro típico das pessoas que estão com raiva, Alex age sem pensar e sai sozinha da festa, recusando o pedido do embriagado Marcus de acompanhá-la. E neste caminho ela irá encontrar o cruel destino que infelizmente estava reservado pra ela. Confesso que mesmo com a absurda cena do extintor, o momento que mais me incomodou foi esta longa cena do estupro, este crime abominável que é cometido contra a mulher. Nesta cena Noé fixa a câmera no chão, como se nós fossemos testemunhas impotentes do terrível ato de violência. E a interpretação de Bellucci é simplesmente perfeita, com as mãos trêmulas, os gritos e os olhos arregalados nos transmitindo com perfeição o tamanho de sua dor e desespero.

O final de Irreversível causa um interessante contraste de sentimentos no espectador. Ao ver Alex com a mão na barriga, Noé faz um travelling que passa pelo quadro de “2001 – Uma Odisséia no espaço”, numa alusão ao filme de Kubrick, que pode ser interpretada como uma referência ao ser que está sendo criado dentro da barriga dela, assim como o bebê do quadro. A referência se repetirá no final com as imagens em preto e branco piscando na tela, o que remete a outro momento de 2001, com a diferença de que lá eram imagens psicodélicas. Ao sair pela janela, o plano termina no jardim, com Alex lendo o citado livro e muitas crianças correndo em volta dela. A fotografia é colorida (toalha laranja, grama verde) e a câmera começa a girar no sentido horário em volta da mangueira, como se fosse o relógio voltando para a realidade. Esta bela cena nos causa uma sensação de alívio, ao ver aquela moça em paz, sonhando com o futuro, num ambiente tão tranqüilo. Porém, as imagens em preto e branco e a frase final “O tempo destrói tudo” nos faz voltar para a triste realidade, lembrando que o final daquela estória era mesmo irreversível. Alex, Pierre e Marcus teriam suas vidas destruídas em ambientes semelhantes, dentro de um corredor vermelho (eles quando entram no Rectum e ela quando entra na passagem subterrânea) e nós não podemos fazer nada a respeito.

Extremamente incômodo e desagradável, Irreversível é o tipo de filme que dificilmente queremos ver novamente. Ao mesmo tempo, é um exemplo claro de que um filme pode ser competente sem necessariamente ser agradável. O impacto provocado pelas cenas realistas, a qualidade das interpretações e a ótima direção nos garantem um filme impecável, que nos obriga refletir sobre importantes questões, mesmo que utilize o choque para isto. É inevitável o sentimento de desconforto quando o filme termina, mas com o passar do tempo, percebemos que é inegável também a grande qualidade da obra.

Irreversivel 

Texto publicado em 17 de Setembro de 2009 por Roberto Siqueira

Videoteca do Beto: novas aquisições

Abaixo a foto dos 15 novos integrantes da Videoteca do Beto:

Cantando na Chuva (1952)*

Doze Homens e uma Sentença (1957)*

O Exorcista (1973)*

Taxi Driver (1976)

Mad Max (1979)

Trilogia Indiana Jones (1981, 1984 e 1989)

Trilogia De Volta para o Futuro (1985, 1989 e 1990)

A Missão (1986)

Instinto Selvagem (1992)

À Espera de um Milagre (1999)

Batman Begins (2005)

Sin City (2005)

O Gangster (2007)

Ratatouille (2007)

Zodíaco (2007)

*Os filmes que chegarem depois de sua posição na ordem cronológica das críticas “Videoteca do Beto” serão assistidos e avaliados na medida do possível e serão encaixados na seqüência da Videoteca. Por exemplo, se a Videoteca estiver no filme #11 e eu divulgar em seguida a crítica do filme “Cantando na Chuva”, este será o filme Videoteca do Beto #12.

Um abraço.

Videoteca 007 

Texto publicado em 16 de Setembro de 2009 por Roberto Siqueira

Bodas de Algodão

Neste dia, oficializamos diante de Deus e da sociedade o nosso amor eterno. Tudo que eu desejo te dizer já disse pessoalmente. Deixo aqui apenas um registro e um feliz aniversário de casamento! Você é a pessoa da minha vida. Te amo demais!

Alianças Mil beijos.

Texto publicado em 15 de Setembro de 2009 por Roberto Siqueira

ROCKY, UM LUTADOR (1976)

(Rocky)

5 Estrelas 

Filmes em Geral #5

Vencedores do Oscar #1976

Videoteca do Beto #18 (Adquirido quando a Videoteca estava no filme #17; crítica já havia sido publicada na categoria “Filmes em Geral”).

Dirigido por John G. Avildsen.

Elenco: Sylvester Stallone, Talia Shire, Burt Young, Carl Weathers, Burgess Meredith, Thayer David, Joe Spinell, Jimmy Gambina, Bill Baldwin Sr. e Jodi Letizia.

Roteiro: Sylvester Stallone.

Produção: Robert Chartoff e Irwin Winkler.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quantas pessoas gostariam de ter uma chance na vida de mostrar o seu verdadeiro potencial e jamais conseguiram, somente porque a nossa sociedade e o nosso modo de viver raramente oferecem esta oportunidade? A tocante história do lutador amador que recebe a oportunidade de sua vida ao enfrentar o campeão mundial nos abre a possibilidade de refletir sobre este tema e observar como uma pessoa comum pode se tornar um verdadeiro campeão na vida, independente de ter ou não ter fama perante a sociedade. Escrito pelo próprio Sylvester Stallone, “Rocky, um Lutador” é muito mais que um filme sobre boxe, abordando questões delicadas de forma surpreendentemente competente.

Rocky Balboa (Sylvester Stallone) é um lutador amador de boxe que trabalha, paralelamente aos treinos, como cobrador (ou uma espécie de capanga) de um agiota na cidade de Filadélfia. A grande oportunidade de sua vida aparece quando o campeão mundial dos pesos-pesados Apollo Creed (Carl Weathers) decide, como uma estratégia de marketing, oferecer uma luta contra um desconhecido e Rocky é o escolhido. O “garanhão italiano”, como é chamado, decide se dedicar ao máximo para pelo menos sair do ringue ao término da luta sem ser nocauteado pelo campeão.

O grande trunfo do carismático filme é com certeza Sylvester Stallone. Escrito pelo próprio Stallone, Rocky é resultado de um projeto pessoal do astro, na época desconhecido do grande público. O roteiro trata basicamente da luta do homem comum para superar as adversidades em uma sociedade que não abre espaço para o seu crescimento. Podemos até considerar que existe um pouco da típica história americana, ou seja, se você trabalhar muito duro será um vencedor um dia. Mas a realidade do dia-a-dia daquelas pessoas é bem diferente, como podemos observar em pequenos detalhes da produção, como a vizinhança suja e arredia de Rocky e Paulie (Burt Young). Além disso, o filme conta com a segura direção de John G. Avildsen, que consegue criar alguns momentos inesquecíveis, como o treinamento de Rocky, recheado de belíssimos planos com o lutador correndo na beira da água e o sol nascendo, correndo pelo porto com o navio ancorado ao fundo e o belo plano no palácio da justiça da Filadélfia com Rocky subindo as escadarias e erguendo os braços lá em cima, com a bela cidade ao fundo. Ele também cria planos que dizem muito somente através da composição visual, como aquele em que Rocky está treinando no frigorífico ao vivo, enquanto Apollo e sua equipe (de costas para a televisão) fazem contas e debatem sobre o dinheiro ganho, demonstrando que para Apollo a luta contra Rocky é apenas um negócio menor. Ele é um astro e está mais preocupado com seus negócios do que com a luta em si, já que Rocky não é um adversário que o preocupe.

Stallone também é a grande força dentro do elenco do filme, oferecendo aquela que talvez seja a maior atuação de sua vida. Observe como ele vai dando pistas do temperamento explosivo de Rocky ao ficar irritado e começar a bater na carne crua no frigorífico ou quando ele reage e vence a primeira luta do filme. Observe como o ator soca o ar constantemente, como um lutador de boxe provavelmente faria, além de andar sempre com os ombros em movimento, como se estivesse prestes a desferir um soco em alguém. Além disso, ao ficar socando o ar ele também demonstra a determinação de Rocky em alcançar o seu objetivo na luta contra Apollo. Stallone também fala sempre com a boca mole, refletindo a personalidade de Rocky, que é alguém com pouco recurso intelectual, como ele mesmo diz na bela cena da patinação com Adrian. Até mesmo em cenas bem humoradas ele demonstra talento (em certo momento ele aperta uma carne crua e faz Mooo!). Repare como ele dá um leve sorriso ao ouvir as piadas de Apollo na televisão, e nem mesmo quando Paulie o repreende, dizendo que Apollo está tirando uma com a cara dele, ele para de sorrir, demonstrando que mal percebe o que está acontecendo, além de mostrar sua admiração pelo campeão. Rocky é um ser puro, simples e direto, que exatamente por ser assim, tem enorme dificuldade para viver em uma sociedade hipócrita e cheia de regras de comportamento. Finalmente, duas cenas refletem bem o talento de Stallone na composição deste personagem icônico em Hollywood. Na primeira delas, Rocky tenta conversar com Adrian, mas ela fica trancada no quarto e ele tem que falar com a porta. Stallone reflete bem o embaraço de Rocky, olhando para Paulie e depois pra baixo, indo e voltando em direção à porta e falando meio sem jeito com a garota, demonstrando sua hesitação e desconforto ao ter que passar por aquilo. A outra cena é quando Rocky discute com Mickey (Burgess Meredith). Ao ver Mickey sair, ele fica gritando e olhando para a porta com o canto do olho, demonstrando a revolta de Rocky com a vida que ele teve. Ele balança o corpo e soca a porta, explodindo em raiva quando Mickey sai, já que naquele momento Rocky estava expondo toda a dor que sentia por não ter conseguido o sucesso que seu talento permitia.

Talia Shire também tem uma grande atuação formando o par perfeito com Rocky. Nos primeiros contatos que ela tem com ele, na loja de animais, ela sorri de canto de boca com as piadas do rapaz, além de olhar quase sempre pra baixo, demonstrando a enorme timidez de Adrian. Ela só olha pra Rocky quando ele não está olhando pra ela. Na linda cena do primeiro beijo, observe como ela se entrega lentamente, recusando inicialmente o contato com ele até lentamente ir cedendo à paixão. O desajeitado beijo é extremamente realista e reflete a enorme dificuldade que aquelas duas pessoas têm de se relacionar com alguém. Burgess Meredith também está bem, demonstrando sua raiva por saber que Rocky desperdiçou a chance de ser alguém na vida, como ele deixa claro na discussão dentro da academia. O fracasso de Rocky reflete o próprio fracasso de Mickey, que também é uma pessoa amarga por não ter sido alguém no boxe, como ele deixa claro na discussão com Rocky na casa dele. Observe como nesta cena ele range os dentes, grita com raiva e olha sempre com os olhos arregalados, refletindo muito bem a ira do personagem. Carl Weathers está bastante caricato como o campeão mundial Apollo Creed, mais parecendo um astro pop entrando no palco do que um lutador de boxe entrando no ringue, provocando risos inclusive na equipe de seu adversário com a imitação de George Washington na luta final. Em todo caso, não compromete o filme. Burt Young completa o elenco principal como Paulie, o amigo fiel e explosivo de Rocky.

A dura caminhada do boxeador para chegar ao sucesso é extremamente bem refletida pelo bom trabalho técnico do filme. A começar pela direção de fotografia de James Crabe, que destaca propositalmente cores como o marrom e o preto, e cria muitos ambientes escuros. O filme se passa a maior parte do tempo à noite, refletindo a vida daquelas pessoas amarguradas e à margem da hipócrita sociedade, que parece se recusar a aceitar que existem pessoas que não são felizes com suas vidas e sequer tem a chance de mudar esta situação. Quando Rocky aconselha uma garota a parar de fumar e ficar por aí na rua até tarde, ela diz que ele não é ninguém pra falar isso pra ela. A trilha sonora toca o tema principal do filme com uma melodia lenta e triste, refletindo o momento de Rocky, que é mergulhado nas sombras da rua. Ele ficou mal com as palavras da garota, e o visual da cena, reforçado pela trilha sonora, reflete este estado psicológico do personagem. A excelente direção de arte de James H. Spencer cria ruas sujas, cheias de lixo e com paredes pichadas, mostrando um submundo de pessoas que vivem uma realidade muito diferente daquela pregada pelo “american way of life”. A casa de Rocky reflete bem sua decadência como pessoa. Observe o colchão rasgado perto da parede, as coisas bagunçadas, as paredes descascadas e a janela pichada. Ele não tem dinheiro pra nada. Os figurinos de Robert Cambel e Joanne Hutchinson colaboram na criação deste ambiente, com roupas pouco coloridas e sem vida. A trilha sonora, famosa nos dias de hoje, é muito empolgante. A música tema é cheia de energia e casa muito bem com a força do personagem. Finalmente, o trabalho de montagem de Scott Conrad e Richard Halsey mantém a narrativa sempre atraente ao focar a vida pessoal de Rocky (e não as lutas de boxe), além de colaborar com perfeição em dois momentos memoráveis do filme: o treinamento e a luta final.

Canalizando toda a frustração de sua vida para dentro do ringue, o lutador amador consegue transformar aquela simples luta em um verdadeiro embate entre as pessoas comuns e aquelas que têm o poder. Ao olhar para Rocky no ringue, a maioria dos espectadores reconhece características próprias e este é o segredo da empatia do personagem com a platéia (além é claro do carisma de Stallone). Torcemos loucamente pelo seu sucesso, mesmo sabendo da enorme dificuldade que ele precisa enfrentar para alcançá-lo. O filme acerta em cheio no realismo da luta final, já que Rocky, mesmo derrubando o campeão, perde por pontos após lutar todos os rounds. Seria difícil mesmo ele vencer o campeão mundial, mas a forma como é derrotado se torna uma vitória pessoal pra ele e, conseqüentemente, para o espectador também. O seu grito por Adrian no final da luta mostra o quanto ela foi importante para que ele buscasse forças e alcançasse seu objetivo, numa das mais belas cenas do filme.

Mostrando com extremo realismo como as pessoas comuns precisam lutar constantemente neste mundo que oferece tão poucas oportunidades para alcançar seus objetivos, “Rocky, um Lutador” consegue ser direto e ao mesmo tempo tocante. Com um personagem principal extremamente carismático, simples e inocente, mas cheio de força e garra, outros personagens muito bem desenvolvidos e boas interpretações, consegue se estabelecer como um filme maduro, que ultrapassa a barreira do esporte e simboliza a luta de toda uma vida. 

Texto publicado em 13 de Setembro de 2009 por Roberto Siqueira

OSCAR 2007: OS INFILTRADOS X FILHOS DA ESPERANÇA

Seguindo minha comparação entre o vencedor do Oscar de melhor filme e aqueles que eu considerei como a melhor produção do ano, chega a vez agora do ano de 2006 (Premiação em 2007). Considero esta uma das melhores safras do cinema nos anos recentes, com grandes filmes como O Labirinto do Fauno, Babel, Pequena Miss Sunshine, Cartas de Iwo Jima, Pecados Íntimos, Vôo United 93, Perfume: A História de um Assassino e Apocalypto. Foi neste ano também que a Academia resolveu reparar um erro histórico e premiar o grande Martin Scorsese, escolhendo o bom “Os Infiltrados” como o melhor filme do ano. Acontece que mais uma vez o filme de Scorsese, apesar de ter grande qualidade, não era o melhor filme do ano. E aqui ouso entrar em uma grande polêmica. Entendo que somente em dois anos Scorsese pode ser considerado injustiçado. Em 1976 (apesar de considerar Rocky, um Lutador um belo filme, entendo que Taxi Driver foi a grande produção daquele ano) e 1980 (Touro Indomável é mesmo o melhor do ano). Já nos outros anos, entendo que a escolha da Academia foi justa. O que não aconteceu em 2007. Considero O Labirinto do Fauno, Babel e Pequena Miss Sunshine filmes melhores que Os Infiltrados. E acima de todos eles, em minha opinião, está o belíssimo “Filhos da Esperança”.

Porque “Filhos da Esperança” é melhor?

Alfonso Cuarón conseguiu criar neste filme um futuro sombrio, sujo, decadente, que é exatamente a imagem que eu mesmo tenho do futuro do nosso planeta. Entendo que estamos cada vez mais gananciosos, mais preocupados em crescer, ganhar mais, e se esquecendo de cuidar do planeta e das próprias relações humanas. Além disso, o filme de Cuarón tem uma qualidade técnica invejável, que salta aos olhos até mesmo das pessoas que não prestam muita atenção nestes detalhes. Pra finalizar, conta uma estória envolvente, utilizando a técnica a favor da narrativa e abre um leque para discussões muito interessantes. O grande filme do ano.

Gostaria de saber sua opinião. Pra você, qual o melhor filme de 2006 e por quê?

Um abraço e bom debate.

Texto publicado em 10 de Setembro de 2009 por Roberto Siqueira

Você torce pela não classificação da Argentina para a próxima Copa do Mundo?

A extraordinária vitória da seleção brasileira no último sábado em Rosário, na Argentina, carimbou o passaporte do Brasil para a próxima Copa do Mundo, que será disputada o ano que vem na África do Sul. Além do Brasil, mais sete seleções já garantiram vaga para o mundial: Austrália, Japão, Coréia do Sul, Coréia do Norte, Holanda, Gana e o país sede. Por outro lado, a derrota pode comprometer e muito a campanha da seleção portenha dirigida pelo ex-craque Diego Maradona. Amanhã nossos hermanos enfrentam a perigosa seleção paraguaia em Assunção, onde sempre é muito difícil jogar. E nas duas rodadas finais, os argentinos recebem a lanterna seleção do Peru, em jogo que devem vencer, mas depois serão obrigados a visitar o eterno rival Uruguai em Montevidéu. Portanto, é bastante viável pensar que a Argentina corre um grande risco de pelo menos ter que enfrentar a repescagem para ir a Copa. Agora faço a pergunta:

Você torce pela não classificação da Argentina para a próxima Copa do Mundo?

Pergunto isto porque eu, particularmente, sempre torci para que as grandes seleções se classifiquem para o mundial, já que considero muito mais legal assistir um jogo entre Argentina e França, por exemplo, do que assistir um jogo entre Equador e Sérvia. Por isso, apesar de gostar de ver os nossos eternos rivais sofrendo um pouco, acabo torcendo para que eles consigam a vaga no mundial.

Espero que este assunto possa gerar uma boa e saudável discussão.

Um abraço e bom debate.

Brasil e Argentina em Rosário 

Texto publicado em 08 de Setembro de 2009 por Roberto Siqueira

TUBARÃO (1975)

(Jaws) 

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #11

Dirigido por Steven Spielberg.

Elenco: Roy Scheider, Robert Shaw, Richard Dreyfuss, Lorraine Gary, Jeffrey Voorhess, Chris Rebello, Murray Hamilton, Carl Gottlieb, Jeffrey Kramer, Susan Backlinie e Jay Mello. 

Roteiro: Carl Gottlieb, baseado em livro de Peter Benchley. 

Produção: David Brown e Richard D. Zanuck. 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quando Steven Spielberg lançou Tubarão, no verão americano de 1975, mal sabia ele que estava lançando também uma tendência que dura até os dias de hoje no cinema norte-americano: o blockbuster. Por causa de alguns problemas na produção, incluindo aí o Tubarão mecânico que teimava em não funcionar corretamente, o filme não pode ser lançado na época tradicional dos grandes filmes em Hollywood, o final do ano. Com o atraso no lançamento, Tubarão só chegou aos cinemas norte-americanos no meio do ano seguinte. Como a metade do ano marca o auge do verão e também o período de férias nas escolas, o cenário perfeito para o lançamento do filme estava construído sem que os produtores imaginassem. Resultado: sucesso absoluto de bilheteria.

Amity é uma pequena cidade no litoral dos Estados Unidos que recebe a inesperada visita de um tubarão branco em pleno verão. A ameaça que o feroz predador representa entra em conflito com os interesses econômicos da cidade. Após uma série de incidentes, o chefe da polícia Martin Brody (Roy Scheider) convence o prefeito Larry Vaugh (Murray Hamilton) a aceitar a proposta do pescador de tubarões Quint (Robert Shaw) e parte para caçá-lo, auxiliado também pelo oceanógrafo Matt Hooper (Richard Dreyfuss).

A trama de Tubarão é simples e muito bem conduzida pelo diretor. Spielberg trabalha lentamente na construção do suspense que alcançará níveis gigantescos ao longo do filme. Observe como ele vai inserindo pequenos detalhes como a mão de Michael Brody (Chris Rebello) sangrando, o close nas palavras “Shark Attack” datilografadas por Martin, o outdoor da moça na praia pichado com as palavras “Help! Shark!”, as figuras em um livro sobre tubarões e uma máquina de fliperama chamada Killer Shark. Estes detalhes colaboram para aumentar a expectativa pela aparição do tubarão (que só acontece de fato muito tempo depois) na mente do espectador. Ele também cria belos planos como na cena da conversa entre o prefeito, Martin e Hooper em um barco. Em um primeiro momento podemos ver quatro pessoas discutindo, mas posteriormente o prefeito e Martin ficam em primeiro plano, destacando aquele que seria o principal embate do filme: o duelo segurança versus economia da cidade. Ora, Amity é uma cidade litorânea que vive dos dólares que entram na cidade no mês de Julho, como podemos testemunhar na conversa entre o dono de uma loja de conveniências e um fornecedor de bolas, cadeiras de praia e outros materiais deste tipo. O prefeito deixa claro que se for divulgado um ataque de tubarão a cidade entrará em pânico e toda a economia vai por água abaixo, com as pessoas saindo da cidade e indo para outras praias. Martin, por outro lado, está preocupado com a segurança da cidade, e principalmente, de sua família.

Spielberg utiliza uma narrativa ágil, recheada de muito suspense e alguns momentos de alivio cômico, como a cena em que Martin pede pra seu filho sair do barco e Ellen diz que não tem problema ficar ali. Ela muda de idéia assim que vê uma figura sugestiva no livro de Martin. A habilidade de Spielberg na condução da narrativa pode ser observada em diversos momentos. Podemos destacar entre elas a sensacional cena da morte do menino Alex. A cena inicia com um cachorro brincando na beira da praia atrás de uma madeira, uma senhora boiando na água e Alex (que propositalmente está de sunga vermelha, o que o destaca dos demais) conversando com sua mãe. O chefe Martin está tenso, imaginando que aquele seria o cenário ideal para o tubarão atacar, com toda aquela agitação na água. Uma pessoa vem até ele para tentar conversar, mas ele não dá atenção e fica olhando por cima do ombro dela, mostrando sua preocupação. Um senhor nada por baixo da senhora que está boiando, e o seu gorro preto dá a falsa ilusão de que era um tubarão. Uma moça começa a gritar, o que já nos causa o primeiro susto, mas ela estava apenas brincando com o namorado. Quando Ellen (Lorraine Gary) começa a massagear o marido ao som de uma música relaxante, vemos a imagem da madeira boiando na água já sem o cachorro e em seguida, vemos seu dono gritar por ele. Este pequeno truque da madeira também é utilizado por Spielberg em “Jurassic Park”, com o copo de água. Nos dois casos, pequenos objetos simbolizam a chegada do temido predador. A trilha sonora começa a tocar. A câmera mostra as pernas das crianças por baixo da água (podemos identificar a bóia de Alex no meio delas) e vai se aproximando lentamente, ao passo que o ritmo da musica acelera. O plano seguinte mostra de longe o sangue espirrando e o angustiante desespero das pessoas saindo correndo da água aos gritos. A cena termina com a bóia rasgada, coberta de sangue na beira da praia, e a mãe de Alex desesperada procurando o filho na multidão e olhando para o mar. Como podemos perceber, a cena inicia com os personagens chave (o cachorro, a senhora boiando e Alex) e, utilizando pequenos detalhes (os sustos, a dica da madeira), vai aumentando lentamente o suspense até a angustiante conclusão.

O diretor (na época com 27 anos) também é extremamente eficiente na construção de diversas cenas de suspense absoluto, como a seqüência dos dois pescadores na plataforma, o mergulho de Hooper para examinar um barco, a brincadeira de mal gosto de duas crianças na praia e o cruel ataque contra um velejador. Nesta cena, aliás, podemos conferir um dos diversos momentos em que a câmera funciona como o ponto de vista do tubarão, passando a poucos metros de Michael no canal. Este truque de Spielberg (inspirado em Hitchcock), conhecido como ironia dramática, faz com que o espectador saiba mais do que os personagens sobre o que se passa na cena, o que aumenta e muito a aflição da platéia. Também é por causa desta cena que, ao ver seu filho em estado de choque, Martin decide partir pro tudo ou nada contra o animal. O desolado prefeito, igualmente chocado porque seus filhos também estavam na água, aceita a proposta e assina a autorização para contratar Quint. Finalmente, Spielberg demonstra sua competência (auxiliado pelo excelente trabalho de direção de fotografia de Bill Butler) ao acertadamente filmar a maior parte das cenas na água com a câmera no nível do mar, justamente como seria o ponto de vista de uma pessoa que estivesse nadando. O resultado é a sensação criada no espectador de que ele realmente está ali, o que causou um enorme medo da água em muitas pessoas logo após o lançamento do filme.

Um dos motivos para a empatia do espectador com o sofrimento dos personagens é que toda a trama é mostrada focando a vida de um personagem em especial, o chefe Brody. Ao fazer isto, Spielberg cria no espectador uma proximidade com o drama daquela família, que vive dividida entre voltar para a cidade grande ou tentar se adaptar a nova vida em Amity, como podemos perceber na primeira conversa do casal. E esta empatia não seria possível se a atuação de Roy Scheider não fosse tão eficiente. Scheider é extremamente competente no estabelecimento da conexão entre o espectador e o seu drama, que é defender sua família. Observe como ele demonstra todo o esforço de Martin na luta para impedir a liberação da praia na discussão que tem com o prefeito no barco. Quando a mãe de Alex lhe dá um tapa na cara, ele evita o olhar dela sutilmente (observe como o foco do seu olhar vai para baixo e volta seguidas vezes) e abaixa a cabeça quando ela vai embora, tamanho era o seu embaraço por entender a dor daquela mãe. Sua cena mais tocante acontece quando seu filho Sean Brody (Jay Mello) imita todos os seus gestos. Ele pede um beijo para o filho, que pergunta por que, e ele responde “Por que eu preciso”. A emoção de Ellen na cena também é muito bem representada por Lorraine Gary, com os olhos marejados e a feição de choro. Em outro momento, ao ver Ellen sair chorando pelo porto, na cena em que Martin parte para a caçada, o espectador sente o drama da esposa aflita com a possibilidade de perder o marido, o que é mérito também da boa atuação de Gary. Na belíssima cena do jantar em sua casa com Hooper, Ellen pergunta se Martin poderia abrir um tubarão que havia sido capturado e ele responde “Eu posso fazer tudo, sou o chefe da polícia” com uma cara cínica e um olhar superior típico de quem bebeu além da conta, demonstrando sua habilidade também nos momentos cômicos. Pra finalizar, Scheider improvisou uma das frases mais conhecidas do cinema. Ao ver o tubarão por inteiro pela primeira vez (assim como o espectador, que só tinha visto parte dele no ataque ao velejador), lentamente ele caminha para trás, entra na cabine do barco e diz: “Vamos precisar de um barco maior”. Richard Dreyfus também tem uma boa atuação como o oceanógrafo Matt Hooper. Observe a cena em que ele está fazendo o relatório da primeira vítima do tubarão. Ao puxar o pano, ele respira ofegante, como quem está assustado e também incomodado pelo cheiro, e demonstra através da fala ritmada e da respiração forte que está muito impressionado com o estrago que o tubarão fez na moça, pedindo um copo de água em seguida. O prefeito Larry, vivido com competência por Murray Hamilton, tem dois momentos de destaque. O primeiro é quando ele diz no porto que ali não é o lugar adequado para fazer uma autopsia no tubarão, com a sobrancelha levantada como quem está pedindo bom senso. O segundo é a cena em que ele assina, tremulo, fumando um cigarro e olhado pra baixo, a autorização para contratar Quint. Hamilton retrata muito bem o remorso do prefeito, dizendo que só pensou nos interesses da cidade, se esquecendo que seus filhos também estavam na praia. A ambigüidade do personagem fica evidente. Ele não é ruim ou bom, só é um ser humano que comete erros e acertos. Mas o grande destaque da produção fica para a grande interpretação de Robert Shaw, como o experiente caçador Quint. Desde sua brilhante introdução, na cena em que ele interrompe a discussão sobre o tubarão raspando a unha na lousa, podemos perceber sua enorme autoconfiança, ilustrada através do olhar fixo e da fala segura. Seu primeiro diálogo com Hooper já deixa claro o choque de estilos (modernidade versus experiência) que inevitavelmente acontecerá entre os dois. Em uma das melhores cenas do filme, Shaw demonstra toda sua capacidade, auxiliado também pelo ótimo trabalho de Dreyfus e Scheider. Eles começam a contar as histórias de suas cicatrizes e fazer piada até que, em certo momento, Dreyfus corta a risada ao saber a tatuagem que Shaw apagou, e passa a falar ofegante, sabendo a importância que teve aquele ato. Shaw olha fixo pra mesa, com os braços cruzados, como quem puxa na memória uma história inesquecível e marcante. Observe a alteração no tom de voz, o olhar penetrante, o ritmo lento e o tom melancólico dele enquanto conta sua aterrorizante experiência no mar quando entregou a bomba de Hiroshima. Sua descrição perfeita e detalhista sobre os ataques de tubarão cria no espectador o pavor e o pânico, e o prepara para o clímax do filme.

A trilha sonora de “Tubarão” é extremamente fundamental para o sucesso do filme. As duas notas criadas por John Williams aumentam de volume e velocidade à medida que o tubarão se aproxima, e o espectador instintivamente associa a trilha ao ataque do tubarão. Por isso o susto é enorme quando o Tubarão aparece por inteiro pela primeira vez, já que também é a primeira vez que ele entra em cena sem a trilha. Nossas mentes não estavam condicionadas para aquele momento. Williams também cria uma trilha agitada e empolgante, parecida com uma marcha triunfal, na seqüência da caça ao tubarão. Quando os barris afundam novamente a trilha termina repentinamente, o que ilustra muito bem a decepção dos personagens. O trabalho de som e efeitos sonoros é impressionante, captando cada pequeno barulho como, por exemplo, as braçadas da vitima na água, a bóia balançando e a mordida do tubarão no primeiro ataque do filme. A já citada direção de fotografia de Bill Butler utiliza uma paleta limpa com cores quentes, típico de uma cidade litorânea no verão, e evita ao máximo utilizar a cor vermelha, que só aparece em destaque após os ataques do tubarão. Butler também conseguiu desenvolver câmeras adaptadas para filmar melhor dentro da água, o que na época era um grande avanço e permitiu criar a já citada sensação de estar dentro do mar no espectador. Os coloridos figurinos completam o visual ideal para Amity. Outra grande responsável pelo enorme sucesso do filme foi Verna Fields, responsável pela montagem. Trabalhando em conjunto com Spielberg, ela cria seqüências empolgantes e auxilia na ágil e nunca confusa narrativa, que apesar de desenvolver bem os seus personagens, jamais deixa de focar o perigo que o tubarão representa naquela cidade e, desta forma, faz com que o público não desgrude os olhos da tela.

“Tubarão” conta ainda com dois fatores essenciais para o seu sucesso absoluto como obra cinematográfica. O primeiro deles é a nossa identificação com Martin, uma pessoa comum que luta para defender sua família, enfrentando sua vulnerabilidade. Até o seu medo da água colabora para esta afinidade com o espectador. Por isso, os ataques do tubarão são ainda mais temíveis. Se não existisse esta empatia, testemunhar um monte de gente que não conhecemos morrendo seria apenas um evento distante, como uma noticia no jornal. Mas ao nos deixar próximos de Martin, sentimos como se o seu drama fosse nosso também. O segundo fator essencial é que o tubarão demora muito para aparecer por inteiro no filme. Desta forma, nossa mente cria o mais temível dos vilões, já que a mente é o maior motor do suspense. Ao não mostrar o tubarão, Spielberg faz o espectador imaginar como ele é, e nada se compara ao que nossa mente cria.

Abordando de forma sensível o tema pai e filhos, “Tubarão” utiliza o drama de Martin para proteger sua família como o fio condutor de uma aventura eletrizante e cheia de suspense do melhor nível. Às vezes confundido injustamente com as péssimas continuações que inspirou, conta com ótimas atuações e uma direção impecável de Steven Spielberg. A narrativa direta não atrapalha o desenvolvimento dos personagens, que jamais soam rasos. Auxiliado pela marcante trilha sonora, é diversão garantida com roteiro inteligente. Se todo blockbuster tivesse esta qualidade, o cinema estaria salvo de bombas como “Transformers”.

Texto publicado em 07 de Setembro de 2009 por Roberto Siqueira