Imagens: Um Dia de Cão (1975)

Seguindo o projeto de atualização das críticas com imagens, chegou à vez da crítica do excelente Um Dia de Cão (1975) ser devidamente ilustrada. Vale lembrar que o texto permanece o mesmo do dia de divulgação.

Um abraço.

Texto publicado em 31 de Janeiro de 2011 por Roberto Siqueira

EMBRIAGADO DE AMOR (2002)

(Punch-Drunk Love)

 

Filmes em Geral #41

Dirigido por Paul Thomas Anderson.

Elenco: Adam Sandler, Emily Watson, Philip Seymour Hoffman, Luis Guzmán, Mary Lynn Rajskub e Lisa Spector.

Roteiro: Paul Thomas Anderson.

Produção: Paul Thomas Anderson, Daniel Lupi e Joanne Sellar.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após dirigir os maravilhosos “Boogie Nights” e “Magnólia”, o talentoso diretor Paul Thomas Anderson decidiu escrever, dirigir e produzir este interessante “Embriagado de Amor”, uma estranha comédia romântica que se destaca pelos personagens e situações pouco convencionais. E ainda que jamais alcance o resultado formidável dos dois filmes citados, o longa consegue ao menos cumprir o seu propósito e diverte o espectador, fugindo completamente dos clichês tão comuns neste tipo de filme.

O pequeno empresário Barry Egan (Adam Sandler) passa por dificuldades financeiras, mas encontra uma falha numa promoção de uma grande companhia aérea e vê nela a chance de garantir milhas para o resto de sua vida. Único homem de uma casa onde convive com sete irmãs, ele demonstra claro desconforto na presença das mulheres, algo que fica evidente quando ele conhece Lena (Emily Watson), a misteriosa mulher por quem se apaixona. O problema é que para ficar com ela, ele terá de superar uma gangue que entrou em sua vida após uma infeliz ligação feita por ele, um homem carente e solitário.

Escrito pelo próprio Paul Thomas Anderson, o criativo roteiro de “Embriagado de Amor” aborda temas universais como a solidão e a busca pelo amor verdadeiro, além de conter frases muito interessantes, que ajudam a definir a personalidade dos personagens (“Eu não sei se existe um problema, porque não sei como as outras pessoas são”, diz Barry, logo após quebrar o vidro da sala diante de suas irmãs). Mostra ainda como a carência afetiva pode levar o ser humano a correr riscos desnecessários, como fornecer dados pessoais por telefone, simplesmente para saciar a ânsia de finalmente ter companhia, nem que seja através da voz de uma mulher contratada para este tipo de serviço. Na direção, Anderson mantém sua característica principal, utilizando elegantes movimentos de câmera, como o freqüente uso da panorâmica e dos travellings. Além disso, suas tomadas geralmente são longas, ou seja, têm poucos cortes, o que é mérito também da boa montagem de Leslie Jones e Dylan Tichenor. Seus tradicionais planos-seqüência (tão marcantes em “Boogie Nights” e “Magnólia”) também aparecem em diversos momentos, como na saída do casal do restaurante, na chegada de Barry em casa com suas irmãs à espera e no jantar romântico do casal no Havaí. Observe ainda como Anderson também utiliza o segundo plano, como num dos momentos em que Barry faz suas peculiares compras no mercado, onde podemos notar uma pessoa vestida de vermelho ao fundo e, ainda que apareça totalmente fora de foco, podemos presumir que é Lena.

Outro plano emblemático é aquele em que Barry, solitário e carente, espera ansiosamente pela ligação da moça do tele sexo. Aqueles segundos parecem horas para Barry e para o espectador, graças ao silêncio da cena, que evita utilizar a trilha sonora, refletindo a sensação de angústia e solidão do personagem. Quando finalmente o telefone toca, Barry se mostra arredio às palavras sensuais da moça, preferindo simplesmente conversar com ela, o que evidencia ainda mais sua carência afetiva, algo também notável através da pilha de diferentes jornais em sua mesa. Não que seja algo anormal ter vários jornais na mesa, mas neste caso fica evidente que o rapaz procura toda e qualquer forma de distração para amenizar sua solidão. Observe o nervosismo de Barry durante esta conversa telefônica, especialmente no momento em que ele diz que sua “namorada” está fora da cidade. No dia seguinte, quando fala com a garota novamente pela manhã, ele começa a andar pra trás, tenso com o desenrolar da conversa. Desesperado e arrependido, Barry cancela o cartão, mas seus problemas haviam apenas começado. O nervosismo e a timidez de Barry são quase palpáveis, o que demonstra a qualidade da boa atuação de Adam Sandler. Repare sua revolta incontida ao responder para Lena que sua irmã era uma mentirosa durante um jantar, dando claros indícios da veracidade da história. Sandler alterna muito bem os momentos dóceis de Barry, especialmente ao lado de Lena, e os momentos explosivos, como quando soca um objeto até se machucar ou quando destrói o banheiro de um restaurante. Único homem da casa, Barry é constantemente sufocado pela pressão de suas sete irmãs, como podemos perceber quando tenta atender um cliente em seu trabalho e é constantemente interrompido por chamadas telefônicas de irmãs diferentes. “Quantas irmãs você tem?”, pergunta o cliente após a terceira ligação. “Sete”, responde ele, provocando o desespero no cliente e o riso no espectador. Em outro momento, o close de Anderson em seu rosto, durante uma discussão com uma de suas irmãs na loja, reflete o sentimento de sufoco de Barry. Finalmente, vale destacar também que Emily Watson se sai muito bem na pela da igualmente estranha Lena. Também tímida, como podemos notar nas conversas do casal, ela se revela o par perfeito para Barry, um jovem com claras dificuldades para se relacionar.

A tristeza do personagem principal é refletida até mesmo através dos aspectos técnicos do longa, como a direção de fotografia de Robert Elswit que, apesar de utilizar bastante o branco, destaca claramente o azul, normalmente associado à tristeza, algo reforçado pelo próprio terno constantemente utilizado por Barry (mérito também dos figurinos de Mark Bridges). Por isso, quando Lena surge em sua vida, sua roupa vermelha simboliza a paixão que se aproxima, dando vida aquele ambiente pouco colorido. E até mesmo o presente deixado por ela serve para alegrar a vida de Barry, introduzindo um pouco de música em seu triste cotidiano (Lena nunca assume explicitamente que deu o piano para Barry, mas uma conversa do casal sutilmente sugere que foi ela). E já que citamos a música, repare como a trilha sonora de Jon Brion adota um tom de urgência, principalmente nas discussões do rapaz com suas irmãs, transmitindo bem a aflição do personagem. Por outro lado, nos momentos em que ele está feliz, a trilha muda completamente, adotando um tom mais leve e descontraído. Já quando Barry é perseguido por uma caminhonete, sua fuga desesperada é embalada por uma trilha repleta de sons estranhos, refletindo sua confusão mental naquele instante. Esta fuga amedrontada, aliás, servirá de contraponto para o melhor momento do longa, quando Barry, agora fortalecido pelo amor que encontrara no Havaí, reage violentamente contra seus agressores da caminhonete. A câmera girando junto com o carro atordoa o espectador, que se choca com a explosiva reação de Barry. Por outro lado, o temperamento do rapaz já havia deixado indícios de que ele poderia, a qualquer momento, ter uma reação como aquela. Esta mudança de atitude também faz com que Barry viaje em busca da empresa que lhe provocou tantos problemas, o que resulta em outra cena fabulosa, que o coloca frente a frente com o cínico Dean Trumbell (Philip Seymour Hoffman, sempre ótimo). A expressão dissimulada de Trumbell contrasta com suas fortes palavras no telefone quando este discute com Barry, revelando o quanto aquele homem era imprevisível, mas ainda assim ele não se atreve a enfrentar a fúria do rapaz.

Obviamente, os momentos bem humorados não poderiam faltar numa comédia romântica, e eles aparecem, por exemplo, quando Lena diz para Barry que quis beijá-lo, fazendo com que ele saia correndo pelo prédio para encontrá-la (e neste momento, a montagem dinâmica colabora muito para o sucesso da cena). Além disso, a própria descoberta de Barry a respeito de uma promoção revela-se uma divertida sacada do rapaz (algo que Paul Thomas Anderson retirou de uma história real, acontecida nos EUA). O romantismo fica por conta da bela cena do beijo, embalada pela linda trilha sonora, que consolida o amor verdadeiro destas duas pessoas diferentes e que, justamente por isso, são encantadoras.

Paul Thomas Anderson utiliza seu talento como diretor para narrar a surreal história do estranho Barry neste divertido “Embriagado de Amor”, que apesar de eficiente, jamais alcança o resultado magnífico das outras obras do diretor. Mas nem por isso o resultado final deve ser depreciado, pois se trata de um filme imprevisível, repleto de personagens igualmente estranhos e encantadores, que cumpre muito bem o que se propõe a fazer e diverte o espectador. E assim como os personagens, o filme também parece estranho, mas satisfaz justamente por não repetir as desgastadas fórmulas de um gênero incapaz de se renovar.

Texto publicado em 28 de Janeiro de 2011 por Roberto Siqueira

VIVENDO NO LIMITE (1999)

(Bringing Out the Dead)

 

Filmes em Geral #40

Dirigido por Martin Scorsese.

Elenco: Nicolas Cage, Patricia Arquette, John Goodman, Ving Rhames, Tom Sizemore, Marc Anthony, Nestor Serrano, Cynthia Roman e Queen Latifah.

Roteiro: Paul Schrader, baseado em livro de Joe Connelly.

Produção: Barbara De Fina e Scott Rudin.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A vida noturna da cidade de Nova York, repleta de bêbados, drogados, prostitutas, tiros e todo tipo de situação desagradável, é retratada com fidelidade neste “Vivendo no Limite”, que por mais eficiente que seja, jamais alcança a força e o impacto das grandes obras de Martin Scorsese. Nem por isso, no entanto, podemos afirmar que se trata de um filme ruim, muito pelo contrário. Mas o fato é que o longa não apresenta o nível de excelência de “Taxi Driver” (que também abordava um homem atormentado pelo que via nas ruas de Nova York) ou “Touro Indomável” e marca o início de uma fase menos pungente do diretor, que ainda assim conseguiu realizar grandes filmes como “O Aviador” e “A Ilha do Medo”.

O paramédico Frank Pierce (Nicolas Cage) passa as noites rodando a cidade de Nova York dentro de sua ambulância, cumprindo a estressante rotina dos plantões noturnos, que consiste em tentativas seguidas de salvar os diversos tipos de pessoas que perambulam pela agitada madrugada da cidade norte-americana. Após a frustrada tentativa de salvar uma garota de rua (Cynthia Roman), Frank passa a ter alucinações com os pacientes que não conseguiu salvar e se vê muito perto de sofrer um verdadeiro colapso nervoso diante de sua rotina nada agradável.

Logo nos primeiros minutos de “Vivendo no Limite”, podemos notar o estilo marcante de Martin Scorsese, através do tenso plano-seqüência que nos leva pra dentro de um apartamento, onde Frank encontrará uma vítima de infarto. O desespero da família ao redor daquele homem praticamente pode ser sentido pelo espectador graças à câmera visceral de Scorsese. Entre estes familiares desesperados está Mary Burke (Patricia Arquette), a filha da vítima, que será a responsável pela mudança de comportamento de Frank. Scorsese também volta a apresentar seus tradicionais planos ousados, como o retrovisor, a sirene e o capô da ambulância, entre outros planos nada convencionais. O diretor também acerta a mão na condução dos momentos mais agressivos da narrativa, como o realista acidente sofrido por Frank e um parceiro com a ambulância. Finalmente, vale destacar outra seqüência dirigida com perfeição, quando Frank entra na companhia Daylight em câmera lenta, pisando no sangue esparramado pelo chão até chegar à moça morta e, finalmente, ao traficante preso na grade. As luzes da cidade ao fundo e os fogos de artifício queimando fazem do momento uma espécie de “poesia da cidade grande”, quebrada subitamente pela queda de Frank e do traficante, que ficam pendurados na grade.

O roteiro, escrito por Paul Schrader (baseado em livro de Joe Connelly), é carregado da tensão esperada neste tipo de profissão pouco tranqüila. Mas felizmente, Schrader sabe os momentos corretos de inserir o alivio cômico, através do bêbado que constantemente é atendido por Frank, por exemplo, quebrando a tensão e tornando a experiência mais suportável para o espectador. Schrader toca ainda, de forma curiosa, no complicado tema do conflito entre a fé e a razão, através de uma conversa informal de Frank e seu religioso parceiro Marcus (Ving Rhames) sobre uma jovem irlandesa que tentou o suicídio (“Foi o vento!” alega Frank, somente para ouvir Marcus afirmar que “Foi Jesus!”). A vida dura destes profissionais, que precisam de muita coragem e estômago forte para seguir em suas carreiras, é refletida através da fotografia escura do ótimo Robert Richardson, que em diversos momentos mistura a escuridão das ruas de Nova York com a frenética luz vermelha das sirenes piscando, aumentando a sensação de incomodo no espectador. Richardson e Scorsese utilizam ainda um velho artifício cinematográfico para melhorar a visão noturna, freqüentemente molhando as ruas da cidade, pois a água facilita a filmagem nesta fase do dia. Já a montagem dinâmica da colaboradora tradicional de Scorsese, Thelma Schoonmaker, aumenta o clima de urgência do longa, refletindo o constante estado de alerta daqueles profissionais. Repare como em diversos momentos a imagem é acelerada (uma decisão em conjunto do diretor e da montadora), refletindo a euforia de Frank, provocada pela bebida que ele toma constantemente, na busca de tentar sobreviver a mais uma noite e esquecer os traumas do passado. Scorsese reflete até mesmo nos planos o estado mental do personagem, a beira de um colapso nervoso, como quando enquadra a ambulância em alta velocidade de ponta-cabeça e de lado na tela, sempre embalando a seqüência com a trilha sonora agitada de Elmer Bernstein. Bernstein, aliás, que alterna muito bem entre o tom agitado da frenética profissão de Frank com o som tradicional da noite nova-iorquina, como no inicio do longa onde a trilha soul se mistura ao som da sirene da ambulância.

É evidente, portanto, que Frank é alguém claramente afetado pela vida que leva, sofrendo constantemente com problemas psicológicos, provocados por traumas do passado (em especial a garota Rose, primeira vítima que ele não conseguiu salvar). Nicolas Cage demonstra bem o sofrimento do personagem, através do olhar pesado, sempre baixo e com fortes olheiras, e da oscilação no tom de voz, externando uma instabilidade típica de quem enfrenta problemas e não suporta o peso que tem de carregar. Repare como o ator demonstra bem a revolta de Frank ao saber que não será demitido, socando a mesa e gritando, o que contrasta com a voz tranqüila que ele utiliza em outros momentos da narrativa. “Não salvo vidas. Sou testemunha na hora da morte deles”, diz Frank, refletindo sua descrença, que caminha em direção oposta ao que exige sua complicada profissão. Cage demonstra bem o cansaço de Frank, por exemplo, quando este toma uma pílula para relaxar (e a trilha sonora neste momento leva o espectador junto na viagem), explodindo em seguida devido às alucinações com Rose. Frank parte então com Mary nos braços e, no apartamento dela, se sente muito melhor, algo que se reflete no próprio visual do apartamento, muito mais claro e limpo (direção de arte de Robert Guerra), e na fotografia, menos sombria e destacando a cor branca. Frank diz então que acha que salvou alguém, mas não sabe quem. Podemos entender que ele salvou Mary, mas prefiro pensar que ele salvou a si próprio. Mas o grande momento da atuação de Cage acontece quando Frank, já cheio daquela vida, explode diante de um drogado suicida, dizendo que com tanta gente querendo viver, era um desperdício salvá-lo (“Se mate!”) e provocando a fuga desesperada do cidadão. No restante do elenco, vale destacar a boa atuação de John Goodman como Larry, um dos companheiros de Frank, em especial no momento em que eles atendem o bêbado no meio da rua (repare a cara de enjôo de Goodman), a divertida participação de Ving Rhames na pele do religioso Marcus, principalmente na engraçada cena em que “ressuscita” um jovem (e neste momento, Scorsese o filma por cima, como se fosse a visão divina daquele momento) e a contida participação de Patricia Arquette, bastante coerente com a sofrida Mary Burke.

Obviamente, não faltam momentos tensos em “Vivendo no Limite”, como o marcante atendimento de emergência a uma mulher grávida de gêmeos, que complica ainda mais a situação de Frank quando este, seguindo o seu carma, não consegue salvar um dos bebês, ao passo em que Marcus consegue salvar o outro e se sente renovado por isto. Mas a atitude final de Frank, provocando a morte de um paciente em estado vegetal (e abrindo espaço para discussões intermináveis a respeito da eutanásia), curiosamente o liberta de parte do seu sofrimento. E o plano final, com Frank deitado no colo de Mary até o amanhecer, mostra que finalmente ele encontrou alguma paz, ainda que esta se resuma aqueles minutos de consolo no colo de outra pessoa.

Em certo momento, a mensagem de “Vivendo no Limite” é resumida nas palavras de Frank. “Estamos todos morrendo”, diz ele, e o longa de Scorsese mostra a morte de diversas maneiras. Com algumas das principais marcas do diretor, como a violência, a culpa e um personagem central atormentado, o filme alcança um resultado agradável, mas não consegue ir muito além.

Texto publicado em 27 de Janeiro de 2011 por Roberto Siqueira

BUSCA FRENÉTICA (1988)

(Frantic)

 

Filmes em Geral #39

Dirigido por Roman Polanski.

Elenco: Harrison Ford, Betty Buckley, Emmanuelle Seigner, Gérard Klein, Djiby Soumare, Dominique Virton, Raoulf Ben Amor, Böll Boyer, David Huddleston, Alexandra Stewart, Robert Barr, Stéphane D’Audeville e Alan Ladd.

Roteiro: Roman Polanski e Gérard Brach.

Produção: Tim Hampton e Thom Mount.

[Antes um esclarecimento: Como todos sabem, costumo ler os textos do Pablo Villaça, Rodrigo Carreiro, Luis Carlos Merten e Roger Ebert, críticos que admiro e respeito e que considero os melhores na profissão. Por outro lado, obviamente, só leio algo sobre algum filme que escrevi após ter escrito o meu próprio texto, para evitar qualquer tipo de influência. Mas existem casos de críticas que li muito tempo antes de decidir criar o Cinema & Debate e, obviamente, algumas observações destes renomados críticos ficaram marcadas em minha memória. Em outros casos, como o deste “Busca Frenética”, eu assisti ao filme, li as críticas, e muito tempo depois, por ocasião de alguma semana especial, decidi escrever sobre o filme em questão – o que me obrigou a assistir ao filme novamente, para anotar minhas observações. Obviamente, alguma influência dos textos que li sempre irá existir nestas situações. No caso do Pablo Villaça esta influencia é ainda mais gritante, até porque fiz o seu curso de Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica e sou fã declarado deste importante crítico que tanto respeito e admiro, e não nego que ele tenha enorme influencia em meu trabalho. Por isso, quando terminei de escrever sobre “Busca Frenética”, constatei que grande parte das minhas “observações” pertencia à minha lembrança da crítica do Villaça (que você pode conferir na íntegra clicando aqui), que eu tinha lido muitos meses antes de decidir escrever sobre o filme. Confesso: cheguei a cogitar não divulgar este texto, mas entendo que não posso deixar de fazê-lo por causa disto, já que não plagiei o texto dele de maneira alguma, apenas escrevi minha visão sob influência do que aprendi com o próprio Pablo – algo, aliás, que já ocorreu em outros textos também, onde inclui observações aprendidas no próprio curso. Afinal de contas, muita coisa que escrevo tem forte influencia não só do Villaça, mas também do Rodrigo, do Merten e até mesmo do Ebert. Por isso, resolvi divulgar o texto na íntegra, do jeito que escrevi originalmente, mas não sem antes citar o crítico que primeiro observou todo o subtexto do filme – e quem, afinal, me chamou a atenção para esta interessante leitura do longa de Polanski. É bom poder escrever sobre os filmes que gosto, é bom começar a ter algum reconhecimento do público, mas é vital e no mínimo ético respeitar aqueles que, direta ou indiretamente, me impulsionaram a fazer este trabalho. Por isso, dou todo o crédito ao Pablo por muitas das observações a seguir – e vocês mesmos poderão observá-las comparando os textos.]

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A julgar pelo nome do filme (tanto em inglês, quanto em português), “Busca Frenética” parece ser um thriller daqueles de tirar o fôlego, com muita ação e repleto de situações inesperadas que levam o espectador ao completo desespero. Mas o filme dirigido pelo competente Roman Polanski apresenta, na realidade, um homem pacato que, através da procura por sua mulher desaparecida, acaba se descobrindo numa verdadeira jornada interior em busca de sua real identidade.

O médico Richard Walker (Harrison Ford) viaja com sua esposa Sondra (Betty Buckley) para participar de uma conferência em Paris. Porém, antes mesmo que eles desfrutem a beleza da cidade luz, sua esposa desaparece misteriosamente. Sem entender exatamente o que estava acontecendo, o médico parte em busca dela no sombrio submundo parisiense. Nesta busca, encontra a bela Michelle (Emmanuelle Seigner), que, envolvida numa trama internacional, decide ajudá-lo.

Apesar de utilizar a bela capital francesa como locação, “Busca Frenética” jamais explora os lindos pontos turísticos (ou deveria dizer, cartões postais?) da cidade, com exceção da distante Torre Eiffel que aparece no início e no fim do longa, limitando-se a percorrer as ruas apertadas e sujas do submundo local. Desta forma, a narrativa adota um tom sombrio bastante coerente com o drama do personagem principal, além de sutilmente indicar, através da distante torre, o tema principal da narrativa, simbolizando o romance perdido ao longo dos anos pelo letárgico Walker. A fotografia granulada de Witold Sobocinski, com predominância de tons pastéis e em especial da cor cinza, garante o distanciamento do espectador, confirmando o visual naturalista do longa e refletindo a frieza da narrativa, além de ilustrar o sentimento de tristeza de Walker. Em outro momento, Sobocinski mergulha Walker na escuridão quando este invade o apartamento de Dede (Böll Boyer) e a trilha sonora igualmente sombria indica o trágico desfecho daquela busca (e do próprio traficante procurado por Walker). Trilha sonora que é composta pelo sempre competente Ennio Morriconne, que utiliza uma trilha eficiente, aparecendo somente em raros momentos da narrativa e alterando o tom leve da chegada à Paris para uma trilha mais pesada, coerente com a tensão do decorrer do filme. Vale registrar também que o som é bastante eficiente e de suma importância no momento chave da trama, quando Walker não consegue escutar o que sua esposa tenta dizer enquanto ele toma banho. O espectador, estrategicamente colocado na mesma posição de Walker, através do inteligente plano de Polanski de dentro do boxe, percebe que algo acontece quando vê Sondra atendendo ao telefone, pegando um vestido e saindo de cena (e até mesmo a trilha sonora indica isto), mas não sabe exatamente o que é.

E estas são apenas algumas das muitas decisões acertadas de Polanski e sua equipe. O diretor, por exemplo, acertadamente investe um bom tempo no estabelecimento da relação estável do casal, fazendo com que o espectador perceba o quanto eles se sentem à vontade juntos (o que será vital para fazer com que o espectador sinta a mesma aflição de Walker quando sua mulher desaparecer). Por outro lado, as conversas do casal no hotel sutilmente indicam problemas no relacionamento, provavelmente provocados pela mudança de Walker ao longo dos anos, como quando Sondra reclama ao descobrir que ele avisou o organizador da conferência que estaria em Paris ou quando ela responde ironicamente à promessa de sexo do marido. Polanski ainda utiliza com freqüência o close e até mesmo o zoom, como quando Walker encontra a pulseira de Sondra, realçando o desespero do personagem principal. Além disso, conta com o auxilio do montador Sam O’Steen para evitar imprimir um ritmo frenético à narrativa (ao contrário do que sugere o nome do filme), o que se revela uma estratégia acertada ao impedir que o filme se transforme num simples thriller de suspense, focando na mudança gradual de comportamento de Walker. Finalmente, Polanski explora com competência o segundo plano em diversos momentos, mostrando ações vitais para o andamento da narrativa, como quando vemos Walker no telefone e Sondra, ao fundo, tentando abrir a mala sem sucesso.

Entretanto, se o ritmo do longa evita transmitir a sensação de dinamismo imaginada em um thriller de perseguição, é também porque a situação em que Walker se envolve é capaz de provocar tensão suficiente no espectador. Note, por exemplo, como poucas pessoas realmente se importam com seu drama (repare quantas pessoas insinuam uma traição) e até mesmo como a barreira do idioma dificulta sua busca, o que auxilia no desconforto provocado tanto no personagem quanto no espectador. Porém, “Busca Frenética”, como já afirmei anteriormente, não é um filme simplesmente de perseguição. O roteiro do próprio Polanski, auxiliado por Gérard Brach, aparentemente narra a trajetória de um homem em busca de sua mulher seqüestrada, mas na realidade faz um fascinante estudo de personagem, ao mostrar a busca de Walker por sua própria personalidade. E esta luta é simbolizada de maneira genial através de outra personagem, inserida na trama de maneira despretensiosa e sutil, praticamente impedindo que o espectador antecipe sua importância na trama. E o brilhantismo da personagem, que aparentemente existe somente para auxiliar Walker em sua busca, reside no simbolismo. Michelle é, na realidade, uma mulher que sutilmente remete a época em que Walker era jovem, impulsivo e muito diferente do homem pacato dos dias atuais, que não consegue lembrar nem mesmo de uma cidade marcante como Paris, como notamos no início do filme. E de que maneira Michelle poderia simbolizar esta época? As dicas, sutis, são espalhadas pelo roteiro, fazendo com que Michelle simbolize a jovem Sondra (não por acaso o nome de sua companheira de apartamento é Sonia), por quem Walker se apaixonou um dia, ainda nos tempos de juventude. Olhar para Michelle inconscientemente o faz lembrar esta época, hoje distante graças à passagem dos anos e, principalmente, ao rumo que ele tomou em sua vida, dedicando-se à profissão em detrimento da família. Por isso, não é apenas coincidência que, no terceiro ato, a moça apareça vestida com o mesmo vermelho que Sondra foi seqüestrada, algo reforçado também pela música tema do filme (“I´ve seen that face before”/“Eu já vi este rosto antes”), que embala a dança entre eles numa boate. Finalmente, quando Walker literalmente troca Michelle por Sondra no terceiro ato, esta escolha entre o passado vibrante e o presente seguro e pacato fica evidente, quando uma das duas é literalmente sacrificada, simbolizando a escolha feita por Walker pelo estilo de vida que mais lhe convém. Não por acaso também, a estátua da liberdade aparece diversas vezes durante a narrativa, simbolizando a busca do personagem principal por sua própria liberdade. É importante, no entanto, registrar que, de maneira inteligente, o roteiro jamais aborda a relação entre Michelle e Walker com conotações sexuais, mostrando, na realidade, uma relação carinhosa, como de pai e filha (algo que fica evidente quando Walker fecha a blusa da garota para que ela não passe frio e quando ele fecha a porta enquanto Michelle troca de roupa).

Obviamente, para que este conflito interior do andarilho Walker (que coincidência) seja verossímil, a atuação de Harrison Ford tem papel fundamental. E felizmente Ford oferece uma atuação brilhante na pele do homem comum, que se vê repentinamente forçado a mudar seu comportamento radicalmente. Inicialmente um homem pacato e acomodado (repare como é sua esposa quem pega os passaportes quando chegam ao hotel), Walker se vê obrigado a tomar a iniciativa e partir em busca da esposa, algo que claramente contraria sua natureza contida, refletida até mesmo em sua roupa palidamente cinza (figurinos de Anthony Powell). Sua mudança de comportamento começa a acontecer já no consulado americano, quando ele responde irritado que é de São Francisco, “como está escrito no passaporte”. Constantemente inseguro, o homem jamais se apresenta como o típico herói capaz de superar qualquer obstáculo, o que trabalha a favor da narrativa, pois o espectador teme constantemente por seu destino. E se o espectador teme pelo destino de Walker é porque Ford consegue transmitir esta insegurança do personagem em todo momento, como podemos notar através de sua tocante conversa com a filha pelo telefone ou em sua explosiva reação a um burocrático telefonista, com seu tom de voz trêmulo, o olhar inquieto e a voz ofegante demonstrando sua revolta, indicando claramente sua transformação. O próprio Walker, aliás, percebe o quanto está mudado quando se olha no espelho e vê um homem completamente diferente, o que é refletido até mesmo em seu figurino, quando ele começa a andar descalço e com a camisa pra fora da calça, algo totalmente impensável para um homem inicialmente metódico e pragmático. E o agente motivador desta mudança é indicado sutilmente, através da fotografia recortada que simboliza o racha na família de Walker, responsável por sua mudança de comportamento. E note como até mesmo o quarto do hotel bagunçado reflete o novo estado de espírito dele, cada vez mais distanciado do homem pacato que costumava ser, contrastando com o local limpo e organizado da chegada à Paris. Aliás, o apartamento bagunçado também serve para refletir a personalidade agitada de Michelle, interpretada com carisma por Emmanuelle Seigner.

Portanto, “Busca Frenética” foge do lugar comum ao retratar, através da busca de Walker por sua mulher, um conflito existente no interior daquele homem que, ao longo dos anos, deixou seu lado jovem e visceral lentamente ser substituído pelo pragmatismo e pelo comodismo de uma vida bem sucedida, porém pálida. E o mais interessante é que o longa não mostra isto claramente, mas indica através de simbolismos, o que é extremamente elegante e inteligente.

Roman Polanski oferece muito mais que um thriller de suspense neste “Busca Frenética”, que faz, na realidade, um interessante estudo de personagem e mostra, através da busca incessante por sua esposa, a luta interior de um homem para descobrir sua verdadeira personalidade.

Texto publicado em 26 de Janeiro de 2011 por Roberto Siqueira

OS DUELISTAS (1977)

(The Duellists)

 

Filmes em Geral #38

Dirigido por Ridley Scott.

Elenco: Keith Carradine, Harvey Keitel, Albert Finney, Edward Fox, Cristina Raines, Robert Stephens, Tom Conti, John McEnery e Diana Quick.

Roteiro: Gerald Vaughan-Hughes, baseado em conto de Joseph Conrad.

Produção: David Puttnam.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Com um orçamento modesto e um bom elenco, Ridley Scott colocou o seu nome no mapa com este “Os Duelistas”, filme que marca a estréia do diretor e que já apresenta muitas de suas principais características, como o visual deslumbrante (que seria aprimorado em “Alien, o oitavo passageiro” e, especialmente, em “Blade Runner”) e os elegantes movimentos de câmera. Além disso, apresenta a envolvente história de dois rivais que simplesmente não conseguiam viver sem a presença do outro e, principalmente, sem os duelos que fizeram a fama deles.

Após ferir o sobrinho do prefeito de Strasburgo, o oficial Gabriel Feraud (Harvey Keitel) é condenado e cabe ao também oficial do exército Armand D’Hubert (Keith Carradine) informá-lo da decisão. Mas Feraud não aceita sua condenação e se revolta contra D’Hubert, principalmente pela forma como foi comunicado, diante de seus colegas de exército. Ofendido, ele desafia o rival para um duelo pela honra que, inacabado, marcaria o inicio de uma inimizade que duraria muitos anos.

Já em seu primeiro filme, Ridley Scott demonstra todo seu cuidado extremo com o visual ao apresentar belíssimos planos e enquadramentos milimétricos que exploram ao máximo as esplêndidas paisagens na França, como podemos notar no lindo plano geral que precede o terceiro duelo entre Feraud e D’Hubert. Utilizando com freqüência o zoom in e o zoom out, repetindo o que Kubrick fez em seu belíssimo “Barry Lyndon”, ele valoriza a beleza das paisagens, como se fossem quadros vivos na tela. Aliás, também sob influência de “Barry Lyndon”, a fotografia de Frank Tidy consegue criar um visual admirável nas inúmeras cenas noturnas, filmadas em ambientes fechados e iluminadas apenas por velas, além de utilizar uma paleta dessaturada que confere um visual mais cru e realista às seqüências que se passam durante o dia, sem jamais deixar de explorar o já citado potencial do belo interior francês. Scott também demonstra bom humor quando D’Hubert pede Adele em casamento e os cavalos se tocam, simulando um beijo. E apesar de estar em plena decadência, a nova Hollywood ainda exerce influência sobre o filme, por exemplo, quando Feraud e D’Hubert começam um diálogo na casa de Madame Lionne e continuam a conversa na rua, numa típica quebra de continuidade dos filmes do período, claramente influenciada pela nouvelle vague francesa. Finalmente, Scott conduz com segurança as seqüências dos duelos, seguramente as mais empolgantes do longa, dentre as quais merece destaque o sensacional duelo a cavalo, onde o visual sombrio, coberto por uma névoa, confere uma atmosfera única ao combate, engrandecida pelas lembranças de D’Hubert que saltam na tela, aumentando a tensão e confirmando o excelente trabalho da montadora Pamela Power. O diretor também faz questão de mostrar os violentos resultados de cada duelo, algo notável já no primeiro combate entre Feraud e um importante cidadão, e, especialmente do segundo duelo em diante, nos joga pra dentro das lutas através de sua câmera inquieta.

O roteiro de Gerald Vaughan-Hughes, baseado em conto de Joseph Conrad, explora a curiosa relação entre D’Hubert e Feraud durante o período napoleônico (a narrativa inicia em 1800), cobrindo muitos anos da vida destes dois rivais que se detestam, mas que, como todo rival, não sabem viver sem a presença do outro. Eles precisam dos duelos para continuar vivendo, ou seja, é como se os duelos fizessem parte da essência deles. Até por isso, D’Hubert, o mais sensato da dupla, não mata o rival no duelo final – algo que, confesso, não tenho certeza de que Feraud faria, até porque é alguém que age muito mais com a emoção do que com a razão. O longa aborda muito bem este conflito interno vivido por D’Hubert, mostrando como ele, sempre que pode, recoloca seu inimigo em seu caminho, chegando ao ponto de solicitar que ele seja retirado de uma lista de traidores do rei, evitando sua prisão, justamente por saber que sem Feraud seus duelos estariam condenados ao fim. Por outro lado, em diversos momentos o complexo D’Hubert questiona a finalidade daqueles duelos, o que o leva a decretar o fim deles quando tem a oportunidade (mas sem matar Feraud, o que lhe permite voltar a duelar caso queira). Os duelos eram, basicamente, como um vício que ameaçava a vida promissora de D’Hubert. Para Feraud, eram a motivação de sua vida. Mas nem só de acertos vive “Os Duelistas”. É inegável, por exemplo, que o narrador soa pouco orgânico e a narrativa, com seus grandes saltos no tempo, é claramente episódica, além da subtrama que envolve o casamento de D’Hubert e Adele representar uma quebra no ritmo da narrativa. Mas nada que comprometa a boa avaliação do longa.

Para conceber as belíssimas imagens que vemos em “Os Duelistas”, Scott conta com um trabalho técnico de alto nível, a começar pela direção de arte de Bryan Graves e pelos figurinos de Tom Rand, que reconstituem muito bem a época em que se passa a narrativa, através da decoração interna das casas (com espelhos imponentes, lustres, talheres e taças) e dos impecáveis vestidos das mulheres e uniformes dos soldados. Colabora nesta ambientação a trilha sonora de Howard Blake, que utiliza flautas em boa parte do tempo, mas também pontua os momentos de tensão com acordes mais intensos ou através de batidas firmes, como nos momentos que precedem o duelo a cavalo. Aliás, os duelos demonstram também o bom trabalho de som, através do barulho das espadas cortando o vento ou se chocando. E apesar do som abafado de um tiro na neve, o som do vento na seqüência que se passa na Rússia só reforça o bom trabalho neste quesito.

Entre o elenco, vale destacar a dupla principal, formada pelo explosivo Harvey Keitel e pelo contido Keith Carradine. Vivendo o raivoso Feraud, Keitel demonstra bem a raiva que seu personagem carrega ao longo dos anos, além de expor com competência a ansiedade de Feraud para duelar com seu inimigo, algo notável quando, após atingir D’Hubert no terceiro duelo, ele salta e se movimenta para os lados com a espada, como quem mal espera para continuar aquele combate. Mas apesar de toda sua raiva, é curioso notar como Feraud espera o adversário espirrar e se recompor para começar o duelo, reforçando a ética destes confrontos. Além disso, ele claramente não sabe o que fazer quando é impedido de lutar com D’Hubert, o que fica evidente no plano final do longa, quando Feraud apenas observa a bela paisagem como se tudo aquilo nada significasse pra ele, repetindo um gesto de Napoleão Bonaparte, outro personagem que vivia dos conflitos. Já Keith Carradine confere carisma e nos faz acreditar em seu Armand D’Hubert, que, como já citado, vive sob o conflito entre se livrar de seu inimigo e continuar mantendo seus famosos duelos. Finalmente, a dupla se sai muito bem no sanguinário duelo em um estábulo, demonstrando bem o cansaço dos personagens, já incapazes de segurar as espadas por muito tempo no ar. Nesta cena, aliás, é notável também o nível de realismo empregado por Scott através dos graves ferimentos provocados nos duelistas, num combate muito bem orquestrado pelo diretor.

O tenso e esperado duelo final acontece após uma interessante rima narrativa, quando os mensageiros de Feraud dizem para D’Hubert que o confronto será com “pistolas”, lembrando o momento em que ele, na Rússia, disse para seu rival que o próximo duelo seria desta forma. E apesar de sua bela concepção visual e da alta carga de tensão, o duelo final não supera o sensacional duelo a cavalo, mas, ainda assim, consegue prender a atenção do espectador (neste momento, já ávido por aquele confronto final) e funciona como clímax de uma narrativa muito bem conduzida, mostrando o momento em que D’Hubert decreta o fim de seu “vício” e o início do sofrimento de Feraud, agora sem sua principal razão de viver.

Ainda que não tenha o impressionante visual de “Blade Runner” ou a eletrizante atmosfera de “Alien, o oitavo passageiro”, “Os Duelistas” é um bom filme, que serviu para colocar no mapa um diretor talentoso como Ridley Scott. Além disso, faz um interessante estudo sobre dois homens incapazes de se ver livres de seu pior inimigo, por causa de uma estranha obsessão: os duelos entre eles.

Texto publicado em 25 de Janeiro de 2011 por Roberto Siqueira

OSCAR 2011 – Lista de Indicados

Uma pequena pausa na semana especial “Bons filmes de grandes diretores” para comentar rapidamente os indicados ao Oscar. O favorito “A Rede Social” recebeu oito indicações, assim como o excelente “A Origem” (que poderia levar pelo menos Efeitos Visuais e Roteiro Original, não é mesmo?), enquanto “O Discurso do Rei” foi indicado em doze categorias e “Bravura Indômita” foi indicado em dez. Mas apesar de liderar no número de indicações, o longa de Tom Hooper não deve levar os principais prêmios da noite. Aposto em vitória de Fincher e o seu “A Rede Social” nas categorias Melhor Filme, Diretor e Roteiro Adaptado. Entre os atores, Natalie Portman e Colin Firth dificilmente perderão suas estatuetas, assim como aposto em Christian Bale e Melissa Leo. E na cada vez mais previsível categoria Melhor Animação, “Toy Story 3” deve garantir mais um prêmio para a estante da Pixar.

Segue a lista completa de indicados ao Oscar 2011:

Melhor filme
127 horas
A Origem
A Rede Social
Bravura indômita
Cisne negro
Inverno da Alma
Minhas mães e meu pai
O Discurso do Rei
O Vencedor
Toy Story 3

Melhor direção
Darren Aronofsky, Cisne Negro
David Fincher, A Rede Social
David O. Russell, O Vencedor
Joel e Ethan Coen, Bravura Indômita
Tom Hooper, O Discurso do Rei

Melhor ator
Colin Firth, O Discurso do Rei
James Franco, 127 horas
Javier Bardem, Biutiful
Jeff Bridges, Bravura Indômita
Jesse Eisenberg, A Rede Social

Melhor atriz
Annette Bening, Minhas Mães e Meu Pai
Jennifer Lawrence, Inverno da Alma
Michelle Williams, Namorados para Sempre
Natalie Portman, Cisne Negro
Bicole Kidman, Reencontrando a Felicidade

Melhor ator coadjuvante
Christian Bale, O Vencedor
Geoffrey Rush, O Discurso do Rei
Jeremy Renner, Atração Perigosa
John Hawkes, Inverno da Alma
Mark Ruffalo, Minhas Mães e Meu Pai

Melhor atriz coadjuvante
Amy Adams, O Vencedor
Hailee Steinfeld, Bravura Indômita
Helena Bonham Carter, O Discurso do Rei
Jacki Weaver, Animal Kingdom
Melissa Leo, O Vencedor

Melhor animação
Como treinar o seu dragão
O Mágico
Toy Story 3

Melhor filme estrangeiro
Biutiful (México)
Dogtooth (Grécia)
In a better world (Dinamarca)
Incendies (Canadá)
Outside the Law (Argélia)

Melhor direção de arte
A Origem
Alice no País das Maravilhas
Bravura Indômita
Harry Potter e as relíquias da morte Parte 1
O Discurso do Rei

Melhor fotografia
A Origem
A Rede Social
Bravura Indômita
Cisne Negro
O Discurso do Rei

Melhor figurino
A Tempestade
Alice no País das Maravilhas
Bravura Indômita
I am love
O Discurso do Rei

Melhor montagem
127 horas
A Rede Social
Cisne Negro
O Discurso do Rei
O Vencedor

Melhor maquiagem
A Minha Versão Para o Amor
Caminho da Liberdade
O Lobisomem

Melhor trilha sonora
127 horas, A.R. Rahman
A Origem, Hans Zimmer
A Rede Social, Trent Reznor e Atticus Ross
Como treinar seu dragão,  John Powell
O Discurso do Rei, Alexandre Desplat

Melhor canção
Coming home, de Country Strong
I see the light, de Enrolados
If I rise, de 127 horas
We belong together, de Toy Story 3

Melhor roteiro original
Christopher Nolan, A Origem
David Seidler, O Discurso do Rei
Lisa Cholodenko e Stuart Blumberg, Minhas Mães e Meu Pai
Mike Leigh, Another Year
Scott Silver, Paul Tamasy e Eric Johnson, O Vencedor

Melhor roteiro adaptado
Aaron Sorkin, A Rede Social
Danny Boyle e Simon Beaufoy, 127 horas
Debra Granik e Anne Rosellini, Inverno da Alma
Marguerite Roberts, Bravura Indômita
Michael Arndt, Toy Story 3

Melhores efeitos visuais
A Origem
Além da Vida
Alice no País das Maravilhas
Harry Potter e as relíquias da morte Parte 1
O Homem de Ferro 2

Melhor mixagem de som
A Origem
A Rede Social
Bravura Indômita
O Discurso do Rei
Salt

Melhor edição de som
A Origem
Bravura Indômita
Incontrolável
Toy Story 3
Tron: o legado

Melhor documentário
Exit Through the Gift Shop
GasLand
Trabalho Interno
Restrepo
Lixo Extraordinário

Melhor documentário em curta-metragem
Killing in the Name
Poster Girl
Strangers No More
Sun Come Up
The Warriors of Qiugang

Melhor curta-metragem

God of Love
Na Wewe
The Confession
The Crush
Wish 143

Melhor curta-metragem de animação
Day & Nnight
Let’s Pollute
Madagascar, carnet de voyage
The Gruffalo
The Lost Thing

Será que realmente chegou a vez de David Fincher? Espero que sim. E pra você, quem será o grande vencedor do Oscar 2011?
Um abraço e bom debate.

Texto publicado em 25 de Janeiro de 2011 por Roberto Siqueira

O GRANDE GOLPE (1956)

(The Killing)

 

Filmes em Geral #37

Dirigido por Stanley Kubrick.

Elenco: Sterling Hayden, Coleen Gray, Vince Edwards, Jay F. Clippen, Ted de Corsia, Marie Windsor, Elisha Cook Jr., Joe Sawyer e James Edwards.

Roteiro: Stanley Kubrick e Jim Thompson, baseado em livro de Lionel White.

Produção: James B. Harris.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Durante uma hora e vinte minutos, “O Grande Golpe”, segundo filme da bem sucedida carreira de Stanley Kubrick, é praticamente um filme perfeito. Infelizmente, seus últimos minutos deixam uma sensação de frustração não apenas em seu personagem principal, mas também no espectador, por perceber que, talvez pela pressão do estúdio na época por um final politicamente correto, a lição do “crime não compensa” entra em cena de maneira pouco orgânica e prejudica uma narrativa até então intrigante.

Após cumprir pena de 5 anos na cadeia, Johnny Clay (Sterling Hayden) resolve planejar um grandioso assalto a um hipódromo, que resolverá definitivamente os seus problemas e trará a desejada independência financeira para ele e para todos os integrantes do grupo. Mas para que tudo dê certo, ele terá que contar com o apoio do funcionário do hipódromo George (Elisha Cook Jr.), que simplesmente idolatra sua esposa Sherry (Marie Windsor). Só que Sherry tinha outras idéias, que poderão atrapalhar a execução do plano.

Escrito por Stanley Kubrick e Jim Thompson, baseado em livro de Lionel White, “O Grande Golpe” aborda temas ousados para sua época, a começar pelo próprio assalto, passando por traição e chegando até mesmo a incluir um suborno de um guarda num estacionamento. Esta cena, aliás, também aborda o preconceito racial, quando o atirador agride verbalmente o guarda local, rejeitando um presente que, ironicamente, provocaria a sua morte. E é interessante notar como em todos os casos citados a punição acontece. O grupo é punido pelo roubo e fica sem o dinheiro (muitos sem a vida), Sherry é punida por trair o marido com um tiro e o atirador também morre após agredir verbalmente o guarda. Ainda no inicio da carreira, Stanley Kubrick adota enquadramentos e movimentos de câmera convencionais, como durante uma conversa num bar, que alterna o tradicional plano médio entre os atores enquanto estes conversam. Mas o diretor se destaca especialmente na enérgica condução da narrativa, evitando nos deixar confusos ao mesmo tempo em que nos envolve completamente na trama – apesar da curiosa (e deslocada) voz do narrador -, apresentando todos os aspectos do intrigante plano com cuidado, mostrando cada etapa sendo executada separadamente e sempre parando em algum momento do assalto para voltar no tempo e mostrar como foi o dia de outro integrante do grupo. Obviamente, a excelente montagem de Betty Steinberg é fundamental para o sucesso desta estrutura narrativa pouco convencional na época, saltando no tempo e mostrando diversas ações paralelas que culminam no momento do assalto ao hipódromo.

Ainda assim, existem pequenos problemas, como a luta pouco realista que distrai os seguranças, que, por outro lado, mostra o ótimo trabalho de som, bastante convincente ao destacar os golpes e o barulho dos objetos quebrados no bar. Vale citar também os figurinos de Beaumelle, que adota o terno e gravata, conferindo profissionalismo ao grupo de ladrões, além da trilha sonora de Gerald Fried, que auxilia no ritmo empolgante da narrativa com suas batidas firmes, especialmente durante a execução do plano. Além disso, a direção de fotografia de Lucien Ballard utiliza muitas cenas noturnas para ilustrar o mundo obscuro daqueles ladrões profissionais através do constante uso das sombras.

Entre as atuações, vale destacar Sterling Hayden, que transforma o perigoso Johnny num personagem carismático e cria empatia com a platéia. Sempre convicto e com falas rápidas, ele se impõe naturalmente sobre o restante do grupo (“Pago muito para que não façam perguntas”, diz ele), e o ator tem grande mérito nisto. Também merece destaque o casal George e Sherry, cuja relação é fundamental para compreender a conclusão da narrativa, já que o excesso de confiança na esposa prejudicará não somente George, mas todo o grupo. Enquanto George é o verdadeiro marido “capacho”, Sherry é extremamente manipuladora, e Marie Windsor, abusando do cinismo, convence ao controlar o fraco George, interpretado por Elisha Cook Jr, que faz bem o papel de “homem dominado”. Observe, por exemplo, as trocas de olhares entre o casal, sempre com Sherry olhando com firmeza e George submisso, evitando o olhar e com o semblante apreensivo. Agora compare estas seqüências com o excelente momento em que Sherry sugere que foi assediada, quando George arregala os olhos ilustrando toda sua preocupação com a amada esposa. Esta devoção será fundamental na narrativa, pois permitirá que Sherry saiba do plano e resultará na matança geral do terceiro ato.

Após a meticulosa reconstituição do dia de cada integrante do grupo, chegamos então à conclusão do plano. Para sorte de todos, e também por mérito do excepcional trabalho em conjunto, o golpe é executado exatamente como planejado – e a cena em que Johnny invade o caixa com a máscara de palhaço é marcante, revelando também o bom trabalho de direção de arte de Ruth Subotka. O grupo só não contava com a traição de Sherry e a aparição de seu amante Val (Vince Edwards), que provoca um tiroteio e resulta na morte de praticamente todo o grupo. Nem mesmo Sherry escapa, pois George, furioso, volta para casa e, inconformado com a traição, atira na amada esposa. Após toda esta confusão, Johnny, o mais esperto de todos, conta com a sorte e sai ileso e com o dinheiro. Ele coloca toda a fortuna numa mala e parte com a esposa para o aeroporto, de onde pretende fugir para outra cidade. E este seria um final sensacional, mas, infelizmente, um cachorro (que funciona como um “deus ex machina”) termina com “o grande golpe” e nos deixa com a sensação de que tudo foi em vão – ou pior, de que aquela solução foi encontrada de qualquer maneira para evitar que o criminoso saísse como vencedor na história. Mas tudo bem, este final moralista é até compreensível pela época em que o filme foi realizado e o trabalho feito até então não pode ser desmerecido por causa desta falha.

Provavelmente sob forte supervisão do estúdio e com pouca liberdade, Stanley Kubrick mostra seu talento neste “O Grande Golpe”, prendendo nossa atenção com sua narrativa ágil e envolvente, mas se rende ao moralismo e entrega um final decepcionante. Felizmente, alguns anos depois o genial diretor teria total liberdade para nos brindar com inúmeras obras marcantes. Em todo caso, seu segundo filme tem o mérito de lançá-lo definitivamente na indústria do cinema, além de ser um dos precursores do delicioso subgênero dos filmes de roubo.

Texto publicado em 24 de Janeiro de 2011 por Roberto Siqueira

Semana: Bons filmes de grandes diretores

Quando falamos, por exemplo, em Martin Scorsese, os primeiros filmes que vêm à mente normalmente são “Taxi Driver”, “Touro Indomável” e “Os Bons Companheiros”. Só que, obviamente, a carreira de Marty não se resume a estes três filmes excepcionais e nem mesmo apresenta somente filmes de qualidade inquestionável. A mesma situação se repete na maioria dos grandes diretores da história do cinema. Em praticamente todos os casos, existem aqueles filmes que marcaram suas carreiras, aqueles que foram verdadeiras decepções e um terceiro grupo, formado por filmes de qualidade, mas que não conseguem alcançar o mesmo nível de excelência (ou de popularidade) dos filmes mais conhecidos destes cineastas.

É justamente desta fatia importante da filmografia destes diretores que retirei os cinco filmes que terão críticas divulgadas nos próximos dias. Obviamente, esta lista poderia ter muitos filmes, já que a quantidade de diretores importantes da história do cinema é enorme. Mas preferi escolher apenas cinco filmes de cinco diretores que eu gosto – e que se encaixam (em minha opinião) nesta categoria de “bons filmes”. Portanto, não se trata de uma lista de diretores importantes e nem mesmo dos “melhores filmes” desta categoria. É apenas, como de costume, uma seleção de filmes que me agradam e que se encaixam neste pré-requisito.

Como sabem, não costumo adiantar os nomes dos filmes que vou divulgar, mas desta vez vou adiantar pelo menos o nome dos cinco diretores. São eles: Stanley Kubrick, Ridley Scott, Roman Polanski, Martin Scorsese e Paul Thomas Anderson.

Quais serão os cinco filmes escolhidos? Que comecem as apostas! 😉

Um grande abraço.

Texto publicado em 23 de Janeiro de 2011 por Roberto Siqueira

Visite as locações de seus filmes favoritos

Você já se imaginou subindo a escadaria do Museu de Arte da Filadélfia como fez Rocky Balboa ou visitando a casa da família Corleone? Quem não gostaria de conhecer os castelos de “Coração Valente” ou as lindas praias de “A Praia”? Quem não gostaria de tirar uma foto e ter uma recordação do lugar onde grandes filmes foram filmados? Provavelmente você já se perguntou onde fica aquele lugar tão lindo que você viu em determinado filme, seja uma paisagem, um hotel, um bar ou restaurante.

Pois agora ficou mais fácil realizar esta vontade, graças ao ótimo site “Movie Locations” (para acessar, clique aqui). Ainda em desenvolvimento, o site mostra onde ficam as locações de muitos filmes famosos em todas as partes do planeta, permitindo consulta por nome do filme, por ator ou diretor e até mesmo por região.

Como eu achei muito interessante a idéia, resolvi compartilhar com vocês. Espero que gostem!

Um abraço.

Texto publicado em 22 de Janeiro de 2010 por Roberto Siqueira

LUA DE FEL (1992)

(Bitter Moon)

 

Videoteca do Beto #84

Dirigido por Roman Polanski.

Elenco: Hugh Grant, Kristin Scott Thomas, Emmanuelle Seigner, Peter Coyote, Victor Banerjee, Sophie Patel, Patrick Albenque, Luca Vellani e Stockard Channing.

Roteiro: Gérard Brach, John Brownjohn, Jeff Gross e Roman Polanski, baseado em livro de Pascal Bruckner.

Produção: Roman Polanski.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Durante grande parte de “Lua de Fel”, Roman Polanski faz um profundo e interessante estudo da paixão sem limites, revelando as melhores e as piores conseqüências de se entregar totalmente a uma pessoa, abdicando de si mesmo. Mas, infelizmente, o diretor escorrega no ato final, diminuindo parte do impacto de um filme que tinha tudo para deixar o espectador completamente atordoado com seu retrato pessimista da relação entre duas pessoas perdidamente apaixonadas. O resultado é um longa correto, que deixa a sensação de que Polanski, com um pouco mais de ousadia, poderia ter realizado uma obra marcante.

Casados há sete anos, os ingleses Nigel (Hugh Grant) e Fiona (Kristin Scott Thomas) decidem embarcar num cruzeiro marítimo, como forma de renovar a relação. Durante a viagem, eles conhecem a francesa Mimi (Emmanuelle Seigner) e seu marido norte-americano Oscar (Peter Coyote). Ao perceber o interesse de Nigel por sua esposa, Oscar decide contar sua história de paixão doentia pra ele, lentamente revelando como foi parar numa cadeira de rodas.

Roman Polanski é um diretor talentoso. Por isso, não surpreende que “Lua de Fel” apresente momentos marcantes, como a sensual dança de Mimi para Oscar, e tenha um ritmo envolvente, nos sugando pra dentro da história, especialmente nos momentos que envolvem o passado dos amantes. Também não faltam belos planos, como aquele em que Nigel olha para o mar durante a noite com a lua refletindo na água, e inteligentes mecanismos narrativos, como os planos do mar que antecedem as conversas entre Oscar e Nigel, que indicam a intensidade da história que será contada a seguir (ou seja, quanto mais agitado o mar, mais quente e ousada será a nova parte da história). Contando com a montagem de Hervé de Luze, o diretor cria ainda elegantes transições, como quando a imagem de Mimi na tela do computador se transforma na imagem dela dentro do ônibus, durante uma lembrança de Oscar. Além disso, conta também com a bela trilha sonora de Vangelis, com sua melodia triste se alternando com variações sombrias, coroada pelo lindo tema que embala o inicio da relação de Mimi e Oscar em Paris. Mas apesar destes belos momentos, Polanski deixa escapar a chance de realizar um grande filme e se perde no ato final, quando o longa assume contornos de lesbianismo e um clima festivo que contradizem radicalmente a atmosfera pessimista da narrativa até então, apesar do sutil indício de que isto poderia acontecer quando Mimi vê Fiona pela primeira vez e diz que ela é linda.

Para viver Mimi, a mulher que embalaria os melhores sonhos e os piores pesadelos de Oscar, Polanski escolheu sua esposa Emmanuelle Seigner, com quem já havia trabalhado em “Busca Frenética”. Inexpressiva em boa parte da narrativa, a atriz exagera em alguns momentos, como quando chora nas pernas de Oscar, e se sai bem em outros, como nas intensas discussões com Oscar ou quando se mostra insinuante no bar na ousada primeira conversa com Nigel, entregando uma atuação bastante irregular. Ainda assim, é interessante acompanhar a trajetória de sua personagem, que lentamente se transforma de jovem apaixonada numa mulher dominadora, caindo repentinamente ao fundo do poço e voltando para viver um misto de amor e ódio com Oscar. Com pouco tempo em cena, a talentosa Kristin Scott Thomas vive a entediada Fiona, para quem o momento mais excitante da viagem é uma conversa com um desconhecido no bar, que serve de aviso para seu distante marido (“Não há nada que você faça que eu não faça melhor”, ameaça). Observe o olhar ameaçador de Fiona para Nigel quando diz para o rapaz no bar o dito popular “azar no jogo, sorte no amor”, insinuando que não hesitaria em trair o marido caso ele continuasse agindo daquela maneira. Mas o aviso não surtiu efeito, e logo em seguida ele deixa Fiona passando mal na cabine e volta para ouvir o final da história de Oscar. Interpretado por Hugh Grant, o tímido Nigel é o típico homem de família inglês, sempre polido e educado, mas incapaz de se conter diante da insinuante Mimi. O ator demonstra bem a luta constante de Nigel para não demonstrar interesse no que ouve, enquanto claramente se mostra cada vez mais interessado nos detalhes mais obscenos da relação entre Oscar e Mimi (vale citar o engraçado momento em que Nigel se mostra incomodado com os detalhes escatológicos da história que ouve). Já Peter Coyote exagera em alguns momentos, como quando Mimi derruba Oscar da cama no hospital, mas vai bem em muitos outros, principalmente quando desafia Nigel na cabine a ouvir mais de sua história, além de prender a atenção do espectador com sua narração envolvente.

Escrito por Gérard Brach, John Brownjohn, Jeff Gross e Roman Polanski, baseado em livro de Pascal Bruckner, “Lua de Fel” faz um interessante estudo da paixão sem limites, utilizando uma narrativa que intercala a viagem de navio com os flashbacks que ilustram as memórias de Oscar. E é curioso acompanhar a mudança sistemática no relacionamento do casal apaixonado, ilustrada até mesmo através da fotografia de Tonino Delli Colli, mais clara e iluminada no inicio da narrativa, escurecendo na medida em que a relação avança e se afundando inteiramente nas sombras após a conversa deles numa praça, quando Oscar diz que é melhor cada um seguir o seu caminho. Este momento até mesmo tocante se contrapõe diretamente ao promissor inicio do romance, com direito a jantar de gala, brincadeiras e passeio no parque, terminando na belíssima cena da primeira relação sexual do casal, com lareira ao fundo e os closes de Polanski destacando a sensualidade e o erotismo do encontro. Após o romântico passeio no parque, a sensual dança a luz de velas e as brincadeiras com leite, o casal se mostra cada vez mais íntimo. Só que um pequeno corte feito por Mimi enquanto barbeia Oscar indica que a relação entraria em novos terrenos, explorando novas experiências e revelando o lado sádico da jovem. E após comprarem seus “brinquedos” e se trancarem por dias no apartamento para se divertirem, Oscar começa a perceber que a relação está entrando em decadência, e na tentativa de se renovar, sai com ela e os amigos, nos levando ao momento que mudaria pra sempre aquela história, quando uma crise de ciúmes de Mimi é o estopim para uma serie de atitudes entre eles que os levará ao outro extremo da paixão, o ódio. O choro compulsivo de Mimi após esta briga evidencia sua paixão doentia e desperta as piores idéias na cabeça de Oscar, reforçadas pelo momento em que ele bate nela e ela, após desmaiar, acorda e diz que o ama. Faltava amor próprio a Mimi (algo refletido até mesmo em seu visual dali em diante) e Oscar percebe isto, revelando sua pior faceta com verdadeiros requintes de crueldade. Mas um acidente viraria o jogo novamente, colocando Mimi numa posição favorável e abrindo a possibilidade de vingança pra ela. Revigorada (algo também refletido no visual dela), ela aproveita para devolver o amargo gosto do desprezo ao amante, que, incapaz de reagir, se afunda em solidão, algo ilustrado no obscuro plano em que olha pela janela a distante Torre Eiffel, simbolizando o romance perdido e fazendo-o sentir a humilhação que Mimi sentiu ao olhar para a lua no avião. Oscar finalmente chega ao fundo do poço na melancólica seqüência em que Mimi transa com outro na frente dele e o travelling de Polanski pelo quarto nos leva ao rosto incrédulo daquele homem em ruínas. A paixão tinha se transformado em ódio.

A triste história de Oscar e Mimi desperta Nigel, que finalmente compreende que sua relação com a esposa estava deteriorada, o que o leva a ensaiar uma conversa franca com ela (“Vamos ser adultos”, diz sozinho olhando para o mar). Em seguida, ele se entrega a paixão por Mimi, que não corresponde. Ela não queria sofrer mais, por isso, era melhor nem se envolver com alguém que quisesse mais do que sexo com ela. Assim como Oscar, ela já não acreditava mais no amor. E então o surpreendente (e até certo ponto incompreensível) final contraria toda a atmosfera amarga do longa, quando Mimi e Fiona se beijam na festa e dormem juntas. Embalada pela música “Slave to Love” (a mesma que embalou “9 ½ Semanas de Amor”, outro longa que aborda o tema “paixão sem limites”), a festa destoa do restante da narrativa e parece deslocada. Mas os tiros impiedosos de Oscar contra Mimi e na própria cabeça devolvem o pessimismo à “Lua de Fel”, deixando, com o perdão do trocadilho, um gosto amargo na boca do espectador, refletido no melancólico plano final, com Nigel e Fiona, solitários, diante do mar.

Com muito mais acertos do que erros, “Lua de Fel” apresenta um retrato cruel e pessimista da paixão avassaladora, mas, infelizmente, boa parte de seu impacto é reduzido pelo inexplicável terceiro ato. Talvez se Fiona tivesse ficado com o homem que conheceu no bar e Nigel tivesse perdido as duas mulheres em definitivo, o tom pessimista soaria homogêneo em toda a narrativa. Ainda assim, o longa faz jus ao fel de seu título.

Texto publicado em 19 de Janeiro de 2011 por Roberto Siqueira