INTRIGA INTERNACIONAL (1959)

(North by Northwest)

 

Filmes em Geral #62

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: Cary Grant, Eva Marie Saint, James Mason, Jessie Royce Landis, Leo G. Carroll, Josephine Hutchinson, Philip Ober e Martin Landau.

Roteiro: Ernest Lehman.

Produção: Herbert Coleman e Alfred Hitchcock (não creditado).

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Contando com muitos dos componentes narrativos clássicos de Alfred Hitchcock, “Intriga Internacional” é um empolgante thriller de perseguição, que apresenta ainda um curioso subtexto sexual, bastante ousado para a época. Com a loira fatal, o famoso macguffin (neste caso, o agente “Kaplan”), o conturbado relacionamento entre mãe e filho e cenas recheadas com o mais puro suspense, o longa se estabelece como uma obra marcante, ainda que inferior às obras-primas lançadas um ano antes (“Um Corpo que Cai”) e um ano depois (“Psicose”) pelo mestre do suspense.

Confundido com um agente do governo conhecido como Kaplan, o publicitário Roger (Cary Grant) acaba seqüestrado por uma gangue de espiões, que tenta assassiná-lo. Após escapar milagrosamente, ele se envolve em novos incidentes, passando a ser procurado não apenas pelos espiões, mas também pelo governo americano. Mas, no caminho, ele encontra o auxilio da misteriosa Eve (Eva Marie Saint), que parece querer ajudá-lo.

Escrito por Ernest Lehman, o bom roteiro de “Intriga Internacional” conta a história de Roger, um homem inocente envolvido acidentalmente numa trama complexa. Como podemos notar, trata-se de mais uma versão da história favorita de Alfred Hitchcock. Desta vez, o homem é confundido com uma pessoa que não existe, inventada pelo governo para despistar uma rede de espiões, que, numa das coincidências do destino, passa a achar que Roger é o agente secreto e tenta assassiná-lo. A partir daí, o complexo roteiro envolve o personagem numa série de situações que só pioram sua condição, até que ele encontre a loira fatal Eve, dando início a outro subtexto da trama, com clara conotação sexual. Estes dois aspectos tornam a narrativa ainda mais interessante, e Hitchcock conduz tudo isto com precisão, criando momentos marcantes, como o primeiro encontro entre Eve e Roger e a fuga desesperada dele do prédio das Nações Unidas. Além disso, o diretor emprega interessantes movimentos de câmera, como aquele que revela os dois homens que arrastarão Roger para dentro do carro após ouvirem a palavra chave “Kaplan”, além de criar planos impressionantes, como aquele em que vemos as ruas do alto do prédio de onde Roger foge.

Ainda na parte técnica, os ternos e gravatas escolhidos denotam seriedade e profissionalismo ao grupo de criminosos, tornando-os mais temíveis. Já os detalhes da mansão de Townsend, como a biblioteca gigante que intimida Roger, revelam a boa direção de arte de William A. Horning e Merrill Pye. E se a fotografia de Robert Burks emprega cores vivas na maior parte do tempo, tornando-se obscura na medida em que se aproxima do tenso final, a trilha sonora de Bernard Herrmann pontua as cenas com precisão, como quando indica que Roger está sendo seqüestrado e quando embala o beijo romântico de Eve e Roger no trem.

Inicialmente, temos dúvida se Roger é ou não é a pessoa procurada, mas rapidamente temos a certeza de que se trata de um engano, muito por causa da boa atuação de Cary Grant, que nos convence de sua inocência. Seqüestrado e perseguido por engano, Roger se vê numa situação inusitada, procurado pelos espiões e também pela polícia, vivendo sob constante aflição enquanto tenta provar sua inocência. Entre os bons momentos do ator, vale destacar a cena em que Roger é largado bêbado num carro, em que, apesar da falta de realismo (o back projection não envelheceu bem), Grant faz bem o papel do homem alcoolizado e salva a estranha seqüência na estrada. O ator transmite a segurança que o personagem exige, se saindo bem nas cenas que exigem esforço físico e exibindo ainda charme diante das mulheres. Outro aspecto interessante do personagem é o profundo respeito que Roger demonstra pela mãe, que não acredita nele durante a investigação do caso da bebedeira, fazendo o personagem perder crédito diante da polícia (outro tema muito abordado por Hitchcock, a conturbada relação entre mãe e filho).

Enquanto isto, Eve, a loira do trem interpretada com sensualidade por Eva Marie Saint, faz o típico papel da mulher fatal, envolvendo Roger ao mesmo tempo em que parece tentar salvá-lo. Seus diálogos picantes no trem têm clara conotação sexual, confirmando a ousadia do mestre já demonstrada em outros filmes e escancarada aqui. Só que o olhar dela após beijá-lo indica algo suspeito, confirmado pelo bilhete que ela lê em seguida. Eve trabalha para o falso “Townsend” e, por isso, evita o contato mais íntimo com Roger na despedida, pois não quer se envolver emocionalmente. Mas, no fim das contas, a moça já estava apaixonada por ele, passando a ajudá-lo ao mesmo tempo em que é obrigada a dormir com o principal perseguidor dele – e aí reside a ousadia temática do longa, que, assim como em “Interlúdio”, obriga a personagem a dormir com o inimigo.

Um dos problemas do longa está na montagem do costumeiro colaborador de Hitchcock, o bom George Tomasini, que desta vez erra a mão ao esticar demais algumas cenas. Por outro lado, Tomasini acerta e muito nas empolgantes seqüências de ação, como a famosa cena no milharal e a perseguição final no monte Rushmore, as duas melhores do longa, conduzidas com maestria por Hitchcock. Repare, por exemplo, a primeira delas. Enquanto Roger aguarda por “Kaplan”, o plano diminui o personagem na estrada, ilustrando o quanto ele estava isolado naquela situação, até que um avião surge no horizonte e inicia uma verdadeira caçada em campo aberto. Observe como Hitchcock constrói o momento com calma, primeiro fazendo alguns carros passarem pelo local, e depois, após a chegada de outro homem, prolongando ao máximo o momento enquanto Roger tenta puxar conversa até ser interrompido pela chegada do ônibus que levará aquele estranho – destaque para a composição visual da cena em que vemos aqueles dois homens solitários na estrada. Quando o avião repentinamente vem na direção dele, o susto é inevitável. Finalmente, vale destacar que toda a cena é conduzida apenas com o som diegético, sem apelar para a trilha sonora, o que é bastante interessante. O único problema está na irreal batida do avião num caminhão. Já na cena final, a fotografia obscura de Robert Burks aumenta a tensão enquanto Roger tenta resgatar Eve na mansão de Vandamm (James Mason), o falso “Townsend” que persegue “Kaplan”, em outra cena conduzida com precisão pelo diretor, que trabalha nos pequenos detalhes para aumentar o suspense até chegar à eletrizante perseguição noturna que fecha a narrativa.

Com pequenos problemas, especialmente no realismo de algumas cenas, “Intriga Internacional” é um thriller de perseguição eficiente, mas que nunca chega a ser brilhante. Ainda assim, diverte e apresenta cenas marcantes, dividindo a narrativa em duas vertentes claras: a ação física e empolgante durante a perseguição e a conotação sexual ousada da relação entre Roger e Eve. Por isso, mesmo com pequenos problemas, trata-se de um grande filme.

Texto publicado em 10 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira

UM CORPO QUE CAI (1958)

(Vertigo)

 

 

Filmes em Geral #61

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: James Stewart, Kim Novak, Barbara Bel Geddes, Tom Helmore, Raymond Bailey, Konstantin Shayne, Ellen Corby, Lee Patrick, Henry Jones e Alfred Hitchcock.

Roteiro: Samuel A. Taylor e Alec Coppel, baseado em livro de Pierre Boileau e Thomas Narcejac.

Produção: Alfred Hitchcock.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Alfred Hitchcock vivia uma fase muito especial nos anos 50, emendando uma série de filmes de excelente qualidade como “Disque M para Matar” e o “O Homem que sabia demais”, além de algumas obras-primas, como “Janela Indiscreta” e este “Um Corpo que Cai”, que marca o ponto alto de sua carreira, confirmado dois anos depois em outra obra-prima, “Psicose”. Curiosamente, por apostar numa faceta espiritualista, o longa estrelado por James Stewart e Kim Novak dá a sensação de fugir das principais características do cinema “hitchcockiano” durante grande parte da narrativa, revertida num momento chave que traz de volta a atmosfera de suspense, tão marcante nos melhores momentos do diretor.

O detetive John “Scottie” Ferguson (James Stewart) vê um colega morrer ao ficar pendurado num prédio, escancarando seu problema de acrofobia e forçando sua aposentadoria. Seu antigo conhecido Gavin Elster (Tom Helmore) entra em contato com ele e pede que “Scottie” vigie sua esposa Madeleine (Kim Novak), que apresenta claras tendências suicidas.

Escrito por Samuel A. Taylor e Alec Coppel, baseado em livro de Pierre Boileau e Thomas Narcejac, “Um Corpo que Cai” acertadamente concentra grande parte da primeira metade da narrativa na história de Carlotta, a suposta antepassada de Madeleine que cometeu suicídio, prendendo a atenção do espectador e desviando seu olhar do que realmente interessa: a farsa de Madeleine e seu “marido” Gavin. Observe, por exemplo, como quando um historiador local conta a vida de Carlotta, a fotografia sombria de Robert Burks reflete o tom triste da história, conquistando a empatia do espectador, que se sente tocado diante daquele passado trágico. Contando com a montagem de George Tomasini para dividir a história claramente em dois períodos, Hitchcock constrói com cuidado o relacionamento entre Madeleine e Scottie na primeira etapa (o que servirá para compreendermos as razões das atitudes de ambos no terceiro ato), para, em seguida, revirar a história com a suposta morte dela e nos apresentar a verdadeira mulher escondida sob aquela capa de loucura, deixando para a parte final da narrativa a reaproximação deles, já quando ela não está mais “disfarçada” de Sra. Elster. Com uma estrutura narrativa bem definida e personagens complexos e ambíguos, o mestre pôde conduzir a narrativa com a costumeira habilidade e construir momentos marcantes, apesar de um ou outro momento “inexplicável”, como quando Madeleine simplesmente some de um hotel – e que serve apenas para criar dúvida no espectador sobre a natureza, sobrenatural ou não, daqueles acontecimentos, reforçada pela fotografia de Burks, recheada de cores fortes que fazem o longa mais parecer um pesadelo.

Acertando ainda na escolha de belas locações externas, como um parque, um lago e até mesmo a aldeia da missão espanhola, que conferem melancolia à narrativa, é mesmo nos locais fechados que Hitchcock entrega as grandes seqüências do filme, como no belo restaurante, extremamente bem decorado (direção de arte de Henry Bumstead e Hal Pereira) e repleto de pessoas bem vestidas (figurinos de Edith Head), em que ele faz um elegante movimento de câmera que revelará Madeleine, de costas, com seu cabelo loiro e seu penteado marcante. Repare a inteligência do diretor ao destacar o rosto dela em perfil quando ela passa, num plano que teria reflexo em outro momento crucial da narrativa no futuro. O diretor sabe ainda inserir lentamente elementos importantes da trama, fazendo com que o espectador se familiarize com eles, mas sem permitir que este possa antecipar o que acontecerá na história. Repare, por exemplo, como quando Scottie chega ao cemitério onde Madeleine visita o túmulo de Carlotta, o plano em ângulo baixo mostra a torre da igreja, numa alusão a outro local que teria grande importância na trama. Em outro momento, a câmera vai até a flor que Madeleine segura, passa por seu cabelo e para no quadro de Carlotta, evidenciando a inspiração daquele visual e dando sinais dos “problemas” da moça. E finalmente, merece destaque o belo plano embaixo da ponte do rio em San Francisco, na cena em que Madeleine pula na água simulando uma tentativa de suicídio, embalada pela impactante trilha sonora de Bernard Herrmann, com acordes sombrios, refletindo durante boa parte da narrativa a atmosfera fantasmagórica do longa.

Em poucos minutos, James Stewart conquista a platéia com seu jeito carismático na pele de Scottie. Obviamente, o fato de o personagem sofrer de acrofobia colabora ainda mais, pois “Scottie” já surge em desvantagem, algo que sempre atrai a empatia do espectador. Além disso, os efeitos na câmera simulam a doença do personagem com eficiência, colocando a platéia em seu lugar, assim como quando a câmera simula o pesadelo de Scottie alterando seguidas vezes a cor da paleta, criando imagens psicodélicas. E se Stewart conquista a platéia, Kim Novak compõe Madeleine muito bem, mantendo um ar misterioso, coerente com a proposta da personagem. Com poucas expressões e palavras, ela cria uma “mulher fantasma”, colaborando bastante para que o espectador fique curioso com toda aquela história de “reencarnação” de Carlotta e não perceba o truque principal da narrativa. Além disso, o próprio Hitchcock colabora com este clima, criando planos que parecem embaçados ou nevoados, como quando Madeleine e Scottie passeiam pela floresta (repare a cor da roupa dela na cena, que reforça esta visão “fantasmagórica”) ou no próprio plano em que ela se joga no rio. Demonstrando fragilidade e parecendo emocionalmente abalada, Madeleine não encontra dificuldade para conquistar Scottie, que a beija com o mar ao fundo, num belo plano. Mas uma estanha conversa sobre um sonho no alto de uma igreja na Espanha deixará Scottie ainda mais preocupado com o destino daquela mulher, com clara tendência suicida. E quando o casal visita a aldeia da missão espanhola, o diálogo que precede a “morte” dela tem duplo sentido, pois, naquele momento, ela já amava Scottie, mas não podia desistir do plano de Gavin e por isso grita que “é tarde demais”.

A fria reação de Gavin após a morte da esposa começa a indicar a grande reviravolta da narrativa. E se o marido parece conformado com o acidente, Scottie sofre um grande choque e Stewart reflete bem o estado do personagem. Praticamente imóvel e sem fala, ele parece estar em transe após a tragédia. Quando sua amiga Midge (Barbara Bel Geddes) o visita no hospital, ele sequer parece notar sua presença (“Você nem sabe que eu estou aqui, mas estou”), o que é doloroso pra ela, que também o ama – e Hitchcock reflete isto no plano que diminui a personagem no corredor do hospital, escurecendo a tela em seguida. Atormentado, Scottie passa a ver Madeleine em todos os lugares, seja na mulher que comprou o carro dela, seja na loira do restaurante, seja na moça que olha o quadro no museu, e isto colabora bastante para que o espectador fique em dúvida quando ela de fato aparece, agora com seu visual verdadeiro, indo para o hotel Empire. Colabora também a excelente maquiagem, que diferencia as duas personagens vividas por Novak, mas mantém traços marcantes que permitem ao espectador mais atento reconhecê-la, especialmente quando ela passa de perfil, numa rima narrativa com sua aparição no restaurante, ainda no primeiro ato. Ciente disto, Hitchcock insere em seguida uma seqüência de lembranças dela, confirmando que Madeleine (na verdade, Judy) não morreu. A carta que ela escreve em seguida revela detalhes do audacioso plano de Elster, mas ela se arrepende e decide ficar. Elster planejou o crime perfeito, matou a esposa, usou a doença de Scottie pra não deixar vestígios e agora sairia livre. Mas ele não contava com a paixão que nasceria entre a mulher escolhida para representar sua esposa e Scottie.

Lentamente, Scottie fica obcecado pela idéia de deixar Judy igual à Madeleine – e Novak demonstra bem o incomodo da personagem nesta situação, com seu olhar aflito e suas reclamações -, e momentos como aquele em que ela senta em frente à janela, com sua silhueta remetendo à Madeleine, só colaboram para aumentar a obsessão dele. Enquanto Scottie aguarda por Judy (ou agora seria Madeleine?) no quarto, a fotografia verde simboliza a esperança no coração dele de reencontrar aquela mulher por quem se apaixonou. E ela surge sob uma névoa verde, somente para que os dois se beijem com a câmera girando e transportando o casal para o local da tragédia, voltando para o apartamento em seguida, ainda com o reflexo verde do neon do hotel ao fundo.

Tudo ia bem, mas Judy resolve colocar o colar de Madeleine e um zoom destaca a reação de Scottie, claramente incomodado. Ele muda repentinamente o comportamento e parece desconfiado. A narrativa ganha contornos sombrios, reforçados pela fotografia escura e pelo cair da noite. Scottie resolve então voltar ao local da tragédia, para subir novamente a escada e visitar o local do crime. A cena é conduzida com perfeição por Hitchcock, que cria uma atmosfera de suspense, reforçada pela trilha sinistra e pela fotografia sombria. O casal sobe pouco a pouco a escadaria, até chegar ao local onde a farsa se passou. Judy, assustada, tenta convencer Scottie, mas uma freira surge como um fantasma na escada e assusta a garota, que cai. E, desta vez, não vemos o corpo caindo, pois Hitchcock faz questão de destacar a reação de Scottie, que é mais impactante naquele momento do que ver o resultado da tragédia. Ele perdia a mulher da sua vida pela segunda vez, e no mesmo local.

Com sua atmosfera fantasmagórica, “Um Corpo que Cai” talvez seja o trabalho de Alfred Hitchcock que mais destoa do restante de sua filmografia. Obviamente, não estou me referindo à qualidade da obra, mas ao tom empregado pelo cineasta, que flerta com uma trama mais espiritualista, intimista, e afunda o espectador num drama sombrio na segunda metade da projeção. E, justamente por isso, este é um dos trabalhos mais marcantes do excepcional diretor inglês.

Texto publicado em 09 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira

O HOMEM ERRADO (1956)

(The Wrong Man)

 

Filmes em Geral #60

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: Henry Fonda, Vera Miles, Anthony Quayle, Harold Stone, John Heldabrand, Doreen Lang, Norma Connolly, Lola D’Annuzio, Robert Essen, Dayton Lummis, Charles Cooper, Esther Minciotti, Laurinda Barrett, Nehemiah Persoff, Kippy Campbell e Alfred Hitchcock.

Roteiro: Angus MacPhail, baseado em livro de Maxwell Anderson.

Produção: Alfred Hitchcock.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Apesar do tom sombrio e da atmosfera noir, “O Homem Errado” é, na realidade, um estudo de personagem interessante, que foge do estilo de suspense tradicional de Alfred Hitchcock, apresentando uma narrativa assustadora, não por causa da atmosfera criada ou de grandes cenas cuidadosamente orquestradas pelo diretor, mas sim por contar uma história verídica e que, exatamente por isso, poderia acontecer com qualquer um de nós.

Em Janeiro de 1943, o músico Manny (Henry Fonda) vai a um escritório de Nova York tentar um empréstimo para o tratamento dentário de sua esposa Rose (Vera Miles) e é identificado pelas funcionárias do local. Segundo elas, ele teria assaltado o escritório um ano antes, o que leva a polícia a investigar o caso e a prendê-lo. Libertado após o pagamento da fiança, ele passa a viver um drama familiar, vendo a esposa se afundar em depressão ao mesmo tempo em que negocia com um advogado para tentar livrá-lo da acusação que sofrera.

Escrito por Angus MacPhail, baseado em livro de Maxwell Anderson, “O Homem Errado” aborda o tema favorito de Hitchcock, mostrando a história real de um homem inocente acusado de um crime que não cometeu. Este apreço do diretor pelo tema fica evidente em grande parte de sua filmografia, e, neste caso em especial, ele escancara isto ao fazer a introdução do longa pessoalmente (o próprio Hitchcock afirmava que seu grande medo era ser acusado de um crime injustamente). Por isso, o longa tem uma atmosfera triste e reflexiva, refletindo a visão do diretor sobre o tema. Além disso, a escolha do diretor de fotografia Robert Burks pelo preto e branco torna o longa mais sombrio, ilustrando o sentimento amargo do protagonista, sublinhado ainda pela trilha sonora sombria e excelente do ótimo Bernard Herrmann.

Logo na apresentação de Manny e Rose, o casal cria empatia com a platéia, demonstrando carinho enquanto conversam na cama sobre as dificuldades financeiras que enfrentam e mostrando-se apaixonados e comprometidos na busca de soluções. Além disso, eles mostram preocupação com os filhos – e, inegavelmente, a preocupação com a família e com a saúde financeira é um tema universal. Obviamente, o carisma de Henry Fonda e Vera Miles colabora muito com este sentimento. Mas, após a conversa, vemos aquele homem olhando atentamente para o jornal e fazendo anotações, revelando seu vício: simular apostas em corrida de cavalos. Este pequeno momento será crucial para desconfiarmos, ainda que por pouco tempo, do protagonista num momento chave da narrativa. Desesperado para conseguir o dinheiro que a esposa precisa, ele parte para tentar um empréstimo e a reação da recepcionista ao vê-lo indica algo suspeito. Em seguida, um close na conversa das mulheres realça a expressão assustada delas, indicando que ele é o homem que assaltou o local (segundo afirmação das próprias mulheres). Tem inicio então uma fase de investigação que culminará na prisão de Manny.

Durante o interrogatório na delegacia, a posição da câmera agiganta os policiais, demonstrando o quanto Manny está intimidado, algo realçado pela boa atuação de Fonda, que transmite a aflição do personagem em seu rosto. Esta é a intenção do diretor: deixar o espectador incomodado, como o próprio personagem. Por isso, mesmo com tantas pessoas afirmando que ele é culpado, nós acreditamos em sua inocência – e Fonda transmite seriedade e parece mesmo assustado com as acusações que recebe, o que reforça este sentimento. Já na cela, as sombras da grade envolvem Manny e, pontuadas pela trilha sonora melancólica, sublinham muito bem sua solidão, assim como, quando ele dorme na cadeia, o giro da câmera e a trilha mais rápida ilustram o pesadelo do personagem. Hitchcock reforça esta estratégia através de um zoom no buraco da cela, que nos faz atravessar a porta e entrar com o personagem naquele local, num interessante movimento de câmera que nos faz compartilhar seu sofrimento.

Também colabora a montagem de George Tomasini, que emprega um ritmo correto à narrativa, dando uma sensação de lentidão no desenrolar da história, que reflete a aflição do personagem durante o árduo processo de julgamento e prisão. Além disso, a montagem emprega saltos eficientes na narrativa, quando Rose liga para o escritório do advogado O’Connor (Anthony Quayle) e quando a assistente do advogado anota a declaração de Manny, já que, nos dois casos, iríamos apenas escutar novamente uma história que já tínhamos acompanhado. Com este ritmo lento, a fotografia triste e a trilha melancólica, somados a grande atuação do elenco, Hitchcock consegue fazer com que o espectador se importe com o drama do protagonista e sinta-se angustiado. Sua estratégia é clara. Ele quer nos colocar na posição de Manny, algo reforçado pelo constante uso da câmera subjetiva, que faz com que o espectador sinta a mesma aflição daquele homem, supostamente acusado de um crime que não cometeu. Desta forma, sofremos com ele e torcemos por ele. Repare, por exemplo, como quando ele olha de relance para a esposa no tribunal, a câmera subjetiva nos coloca em seu lugar, vendo lentamente a esposa ficar pra trás enquanto Manny é levado pelos guardas. Da mesma maneira, vemos os sapatos dos presos enquanto ele caminha para a prisão, num plano que reflete seu olhar cabisbaixo, de quem realmente está deprimido.

Interpretada com competência por Vera Miles, Rose começa a dar sinais de que está cansada daquela situação no escritório de O’Connor, quando parece estar presente somente de corpo enquanto o marido e o advogado conversam. Sentindo-se culpada pelo que aconteceu com Manny, ela chega até mesmo a desconfiar do marido, o que, de maneira inteligente, serve para plantar também a dúvida no espectador, que até aquele instante confia plenamente que Manny é inocente. Mas Rose entra num caminho aparentemente sem volta e sua depressão se torna visível, o que leva Manny a interná-la num hospital psiquiátrico. Novamente, Fonda demonstra muito bem como o personagem está arrasado diante de toda aquela situação. E Miles dá um show no hospital, olhando para o vazio e transmitindo a desilusão da personagem, completamente afetada pela tragédia que assolou sua família e mostrando-se incapaz de reagir através do olhar e do tom de voz reprimido.

E quando tudo parece perdido, um plano sensacional de Hitchcock revela o verdadeiro assassino, sobrepondo seu rosto ao rosto de Manny, que reza em frente ao espelho. O homem caminha tranqüilamente pela rua e entra numa loja, para tentar um novo assalto que, desta vez, o levará à prisão (e, neste aspecto, a escolha do ator John Heldabrand para viver o assaltante Tomasini é perfeita, dada a semelhança entre ele e Fonda quando eles estão de chapéu). Ao ver aquele homem inocente saindo da delegacia e cruzando as mulheres que o acusaram no caminho, sentimos uma sensação de alívio e, porque não, nos sentimos vingados.

Baseado numa história real, “O Homem Errado” nem de longe tem a atmosfera de suspense costumeira na filmografia de Hitchcock, já que se concentra, de maneira eficiente, nos efeitos que aquela falsa acusação provocou na vida de Manny e sua família. Nem por isso, pode ser considerado um filme menor, pois cumpre muito bem o seu propósito, nos fazendo refletir sobre a confiabilidade das investigações policiais, especialmente quando se baseiam em testemunhos de seres tão falhos como nós.

Texto publicado em 08 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira

O HOMEM QUE SABIA DEMAIS (1956)

(The Man Who Knew Too Much)

 

Filmes em Geral #59

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: James Stewart, Doris Day, Brenda De Banzie, Bernard Miles, Ralph Truman, Daniel Gélin, Mogens Wieth, Alan Mowbray, Hillary Brooke, Christopher Olsen, Reggie Nalser, Noel Willman, Alix Talton, Carolyn Jones e Alfred Hitchcock.

Roteiro: John Michael Hayes, baseado em história de Charles Bennett e D.B. Wyndham-Lewis.

Produção: Alfred Hitchcock.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

As principais características que marcaram a carreira do mestre do suspense estão presentes neste ótimo “O homem que sabia demais”, remake superior ao filme original dirigido pelo próprio Hitchcock em 1934, no Reino Unido. Nas palavras dele próprio, o filme de 1956 é resultado do trabalho de um profissional, ao passo em que o filme de 1934 era o trabalho de um amador. E quando Hitchcock dizia que este thriller repleto de suspense era o trabalho de um profissional estava repleto de razão, pois o longa consegue prender o espectador de uma maneira que somente os filmes do mestre conseguiam fazer.

Viajando de férias pelo Marrocos, o casal Ben (James Stewart) e Jo McKenna (Doris Day), acompanhados do filho Hank (Christopher Olsen), se envolve acidentalmente numa trama internacional que planejava o assassinato de um líder político, quando o moribundo Bernard (Daniel Gélin), que o casal havia acabado de conhecer, sussurra no ouvido de Ben a terrível conspiração. Buscando evitar que o Dr. Ben conte à polícia o que ouviu do homem assassinado, os conspiradores resolvem seqüestrar seu filho.

Mantendo a mais pura tradição hitchcockiana, o roteiro de John Michael Hayes, baseado em história de Charles Bennett e D.B. Wyndham-Lewis, é bastante complexo e repleto de possibilidades, levando o espectador a temer constantemente pelo destino dos personagens. Hayes intercala muito bem as duas linhas narrativas principais, envolvendo o planejamento e execução do assassinato e o seqüestro do jovem Hank, auxiliado também pela montagem dinâmica de George Tomasini, que tem participação fundamental na melhor cena do longa, dentro do Albert Hall. A atmosfera de suspense que envolve “O homem que sabia demais” é construída minuciosamente através de pequenos detalhes, como a ajuda de Bernard, no incidente com o véu da mulher mulçumana no ônibus, que serve para levantar suspeita a respeito de seu caráter, como podemos notar na conversa entre Jo e Ben logo em seguida. Como sabemos, nos filmes de Hitchcock toda atitude é vista com certa desconfiança pelo espectador. Por isso, toda esta seqüência do Marrocos é repleta de mistério, graças também ao próprio ar enigmático do local – e neste sentido, vale destacar o bom trabalho de ambientação feito em conjunto pela direção de arte de Henry Bumstead e Hal Pereira e pelos figurinos de Edith Head. O roteiro de Hayes mantém ainda a principal característica dos filmes do mestre do suspense, apresentando um ponto de reviravolta completa na trama, através da ligação recebida por Ben na delegacia. Finalmente, as pessoas que ficam esperando o casal McKenna na casa deles servem de alivio cômico, algo essencial numa narrativa tão carregada, mas que infelizmente peca pelo exagero quando o casal volta pra casa e diz “Desculpem, tivemos que buscar Hank”. Apesar de divertido, este final não condiz com o clima tenso de todo o filme, mas este é apenas um pequeno deslize dentro de uma obra com importantes qualidades.

Colabora para o envolvimento do espectador com a trama a boa atuação de James Stewart, que transmite muito bem o crescente sentimento de desespero em Ben. Sempre carismático, o ator encarna perfeitamente o homem comum que de repente se vê numa situação inesperada e por isso provoca empatia imediata no espectador. E é comovente acompanhar sua gradual transformação num homem desesperado em busca do filho, ao mesmo tempo em que tenta controlar os seus nervos e os de sua esposa, interpretada por Doris Day. Cantora profissional, Day oferece uma atuação que, surpreendentemente, vai além do seu notável talento com a voz, destacando-se também nos momentos dramáticos, como quando recebe a notícia, já sob sedativos, de que seu filho havia sido seqüestrado, com um choro comovente e um desespero bastante verossímil. E até mesmo nos momentos que exigem uma atuação mais sutil a atriz se sai bem, como quando Bernard pergunta sobre seu passado e ela olha discretamente para o marido, com um ar de desconfiança. Observe também como a trilha misteriosa que sublinha a conversa dela com Bernard colabora com o clima de mistério, reforçado ainda pelo fato de Bernard falar o idioma local e tanto ela quanto o espectador ficarem sem entender nada quando ele conversa com os habitantes locais. Já o garoto Hank, interpretado por Christopher Olsen, oscila entre momentos de extremo carisma e simpatia, como na viagem de ônibus pelo Marrocos, e momentos em que é irritante, como no passeio pelas ruas de Marrakesh.

Completando o elenco, temos o misterioso casal Drayton, interpretado por Bernard Miles e Brenda De Banzie. Apresentados na engraçada cena do jantar, que mostra também os interessantes costumes locais, o casal Drayton se mostra bastante simpático e inicialmente não gera desconfiança em Jo e Ben, o que aumenta o choque no doutor (e no espectador) quando a bombástica notícia chega através do telefone. Mas, infelizmente, Miles não consegue jamais fazer com que seu personagem represente um perigo real como fez o sensacional Peter Lorre no filme original. Ainda assim, ele vive bons momentos, como na cena em que o Sr. Drayton diz que o bater de pratos é a deixa para o tiro, que faz o espectador se lembrar do inicio do filme, revelando uma elegante rima narrativa. Por outro lado, Brenda De Banzie oferece uma atuação ambígua na pela da Sra. Drayton, alternando entre a vontade de ajudar o marido e o sentimento maternal, que será elemento chave para a solução da trama. Quando Jo começa a cantar dentro da embaixada, nos lembrando da cena em que ela canta com Hank no hotel (outra rima narrativa interessante), a sugestão da Sra. Drayton para o garoto será responsável por sua salvação. E neste momento, vale observar atentamente a meticulosa condução da cena. Enquanto ouvimos a música de Jo, somos levados plano após plano até o quarto, ao mesmo tempo em que o som diminui o volume, dando a exata noção da importância da música naquela situação. Felizmente o som superou as barreiras e chegou ao quarto, assim como a Sra. Drayton superou suas convicções e abriu mão de seu plano para salvar aquele menino.

Obviamente, o mérito pela condução da cena citada é de Hitchcock, que conduz a câmera com segurança durante todo o filme, fazendo movimentos interessantes, como o travelling pelo quarto de hotel que mostra Jo e Hank cantando enquanto Bernard e Ben conversam. Além disto, ele utiliza a câmera para aumentar o suspense, como no plano em que podemos ver Ben caminhando pela rua enquanto um homem se aproxima dele e, logo em seguida, quando a câmera assume o seu ponto de vista e nos leva para dentro do local, mantendo a constante sensação de que algo aparecerá a nossa frente. Hitchcock sabia como poucos prolongar ao máximo o suspense e em “O homem que sabia demais” ele utiliza este artifício diversas vezes, como quando Ben telefona para Ambrose Chapel e algumas pessoas entram no apartamento, atrapalhando a conversa. O próprio trocadilho com o nome “Ambrose Chapel” serve para estender um pouco mais a trama, evitando que o casal vá direto à capela onde se encontra o jovem Hank. Mas o mestre reafirma toda sua qualidade como diretor em dois momentos especiais. O primeiro deles é a morte de Bernard, quando a câmera acompanha as costas do homem ferido até que este encontre o Dr. Ben e somente então revela seu rosto. O segundo e mais emblemático momento é a sensacional cena dentro do Albert Hall. Outra cena sensacional é o tenso encontro dentro da capela, onde a simples troca de olhares durante a ceia diz mais que qualquer palavra. Stewart e Day demonstram com competência a aflição dos personagens, algo que se repete com De Banzie e Miles. Vale destacar ainda aspectos menores, porém interessantes, da direção de Hitchcock, como o desmaio de Ben, que provoca uma distorção na imagem, transmitindo ao espectador a exata sensação do personagem (algo que seria ainda mais notável na obra-prima “Um corpo que cai”), assim como a utilização dos animais empalhados, que por si só colaboram com a aflição provocada no espectador (e que também seriam utilizados novamente por Hitchcock, na obra-prima “Psicose”). Observe ainda como o diretor encerra esta cena com um close no leão empalhado, simbolizando que Ben havia se transformado numa verdadeira fera em busca de seu filho.

Hitchcock conta ainda com a direção de fotografia de Robert Burks, que logo após o seqüestro de Hank, envolve o casal em sombras dentro do hotel, refletindo o abismo que eles haviam se metido, algo também ilustrado quando ambos conversam com Hank por telefone e o diretor filma em plongée (de cima pra baixo), diminuindo o casal na tela. Além de Burks, merece destaque o sempre excelente Bernard Herrmann, tradicional colaborador de Hitchcock e responsável pela boa trilha sonora do filme, que inclusive é homenageado através de um cartaz na entrada do Albert Hall. E já que citei a casa de espetáculos londrina, aproveito para voltar à cena mais sensacional de “O homem que sabia demais”, cuidadosamente planejada para aumentar lentamente o suspense até alcançar níveis insuportáveis. Hitchcock cria a atmosfera perfeita ao alternar entre os belíssimos planos gerais do teatro e os diversos planos que mostram a lenta construção do clímax. Observe, por exemplo, como apenas pela disposição das pessoas na platéia Jo pressente a execução do assassinato e gradualmente se desespera. Podemos ver a chegada de Ben, os preparativos do assassino, sua parceira acompanhando a letra da música, o primeiro ministro sentado, o coral cantando a ópera (a própria música confere uma aura épica à cena) e o homem responsável pelos pratos se ajeitando para entrar em ação, tudo isto numa seqüência angustiante e incrivelmente bem conduzida pelo diretor e pela montagem. Pra completar, temos o plano genial da arma aparecendo entre as cortinas e o surpreendente desfecho, quando Jo salva o ministro através de seu grito estridente.

Confirmando sua incrível capacidade de conduzir a narrativa, mantendo o espectador sempre atento ao que se passa na tela, Alfred Hitchcock nos brinda com outro grande filme neste “O homem que sabia demais”, que conta também com atuações inspiradas de James Stewart e, pasmem, Doris Day. O crescente clima de suspense e o desespero dos pais em busca do filho prendem o espectador do início ao fim. E assim como a perseverança de Hank é recompensada ao assoviar insistentemente a música tocada por sua mãe, o espectador se sente recompensado pelo tempo que investe neste ótimo filme feito “por um profissional”. Talvez, em se tratando de cinema, Hitchcock é quem deveria ser chamado de “o homem que sabia demais”.

Texto publicado em 07 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira

JANELA INDISCRETA (1954)

(Rear Window)

 

 

Filmes em Geral #58

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: Grace Kelly, James Stewart, Wendell Corey, Thelma Ritter, Raymond Burr, Judith Evelyn, Ross Bagdasarian, Georgine Darcy, Irene Winston e Alfred Hitchcock.

Roteiro: John Michael Hayes, baseado em estória de Cornell Woorich.

Produção: Alfred Hitchcock.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Um homem discute com a esposa na janela de seu apartamento. Algum tempo depois, ela se deita no quarto, também com a janela aberta, e ele se senta no sofá da sala. Durante a madrugada, a janela do quarto está fechada, e o homem sai de casa com uma maleta. Volta pra casa muito tempo depois, somente para sair novamente, com a mesma maleta, mais algumas vezes. O quarto permanece fechado. Quando o dia amanhece, a esposa já não está mais lá. E como você ficou sabendo de tudo isto? Você ficou lá, na janela, vendo tudo acontecer, sem conseguir desviar o olhar ou fechar as cortinas. Esta pequena (e importante) seqüência de “Janela Indiscreta” é uma síntese perfeita do filme. A obra-prima de Alfred Hitchcock funciona, ao mesmo tempo, como um eficiente suspense e, principalmente, como um espelho erguido diante do espectador, que se descobre um verdadeiro voyeur na tela do cinema.

O fotógrafo profissional Jeffries (James Stewart) está preso em seu apartamento após quebrar a perna enquanto trabalhava no campo. Sem ter muito que fazer, ele passa a observar a vida dos vizinhos, apesar dos avisos de sua enfermeira Stella (Thelma Ritter) e da encantadora Lisa (Grace Kelly), que deseja se casar com ele. Só que esta pequena diversão se transformará numa verdadeira investigação quando ele vê algo suspeito acontecer num dos apartamentos vizinhos.

Confirmando a genialidade de Hitchcock já exposta em “Festim Diabólico” e “Disque M para Matar”, toda a narrativa de “Janela Indiscreta” se passa num único cenário, exigindo muito do talentoso diretor, que conta também com a excelente montagem de George Tomasini para evitar que a narrativa se torne cansativa, alternando muito bem entre os momentos de investigação do suposto crime e as divergências de Jeffries e Lisa. Além do bom ritmo, os movimentos de câmera de Hitchcock tornam o longa mais atraente, como quando a câmera passeia pela vizinhança até chegar ao apartamento onde Jeffries se encontra, nos ambientando logo de cara ao cenário da narrativa. Em seguida, a câmera passeia pelo apartamento dele também, passando por sua perna quebrada, pela foto de Lisa e pela máquina fotográfica, todos elementos essenciais na trama. Além disso, tanto a arquitetura do prédio como os objetos espalhados pelo apartamento – que falam muito sobre Jeffries – atestam o bom trabalho de direção de arte de J. McMillan Johnson e Hal Pereira. Mas o toque especial do trabalho de Hitchcock está na câmera subjetiva, que nos coloca na posição de Jeffries em muitos momentos, reforçando a tese de que o longa é uma metáfora para o próprio cinema. Ou seja, Hitchcock nos faz compartilhar da curiosidade do personagem pelas vidas particulares dos vizinhos. Assim como Jeffries, também estamos observando a vida alheia. Seja sincero: não é exatamente isto que procuramos quando vamos ao cinema?

Ainda na parte técnica, a fotografia dessaturada de Robert Burks muda gradualmente para tons mais obscuros na medida em que a narrativa avança (repare como as cenas noturnas predominam na parte final do longa), como podemos observar na cena em que Lisa e Jeffries fazem diversas suposições sobre o assassinato da esposa do vendedor, onde a fotografia sombria reforça a atmosfera tensa. Em outra cena, o olhar de Lisa indica algo estranho lá fora – algo reforçado pelo zoom de Hitchcock – e o casal se aproxima da janela para ver uma caixa enorme no apartamento do vendedor. O espectador passa a acreditar nas suposições do casal. Vale destacar também a trilha sonora “diegética” de Franz Waxman, que utiliza somente o som produzido pelos personagens (um pianista, por exemplo) para pontuar as cenas e até mesmo refletir os sentimentos de Jeffries.

Hitchcock é competente também na condução do elenco, afinal de contas, as atuações são essenciais para que o suspense de “Janela Indiscreta” funcione. Um dos atores preferidos do mestre do suspense, James Stewart mistura bem seu lado carismático com um delicioso sarcasmo, especialmente quando fala sobre casamento, como quando Lisa afirma que o compositor é um homem triste e ele responde que ele “provavelmente já foi casado”. Além disso, ele personifica muito bem o homem comum, o que facilita a empatia da platéia e reforça a tensão quando ele corre perigo. Num diálogo sobre o futuro, Jeffries deixa claro seu jeito simples e, ao mesmo tempo, seu espírito livre, de quem não quer ficar preso a um escritório e muito menos a uma relação estável e prefere viver viajando pelo mundo, ao contrário de Lisa, que sonha com um casamento e não esconde o desejo de ver seu amado de terno e gravata. E até mesmo os figurinos de Edith Head refletem estas características dos personagens, pois enquanto Lisa jamais repete uma roupa e se mostra sempre bem vestida, Jeffries mostra pouca preocupação com suas vestimentas, mostrando-se mais desleixado. Grace Kelly também está muito bem, mostrando empatia com Stewart e esbanjando charme e delicadeza, ao mesmo tempo em que se mostra incomodada com o “desprezo” de Jeffries pela vida que ela sonha em ter. E quando o casal passa a suspeitar do assassinato, as entonações das vozes tanto de Stewart quanto de Kelly envolvem a platéia completamente, nos fazendo embarcar junto com eles naquela investigação. Finalmente, a conversa sobre Lisa dormir no apartamento tem clara conotação sexual, também por causa da boa atuação da dupla, que mostra afinidade em cena. Apesar do rígido controle do “Código Hays” na época, Hitchcock sabia driblar a censura com destreza.

Quem também tem uma excelente atuação é Thelma Ritter, que vive a enfermeira Stella, com suas palavras diretas e seu jeito falastrão, que, segundo ela mesma afirma, fareja confusão. E é interessante notar como praticamente todos os personagens secundários do longa são interessantes, como os recém-casados que não param de transar, a mulher dona do cachorrinho, a “Srta. Coração Solitário”, a dançarina de balé e, obviamente, o vendedor, que terá participação importante na trama. Se a triste cena do jantar da “Srta. Coração Solitário”, embalada pela canção do vizinho compositor que toca piano, serve para nos emocionar, a briga entre o vendedor e a esposa servirá para plantar uma dúvida que nos atormentará durante boa parte da narrativa.

Esta dúvida começa a existir quando Jeffries observa a movimentação no apartamento do vendedor durante a madrugada – repare o interessante raccord que mostra o relógio dele e indica quanto tempo passou entre a saída do vendedor e o momento em que ele volta pro apartamento com a maleta. A chuva aumenta a angústia enquanto o homem repete o processo algumas vezes e, na manhã seguinte, o sumiço de sua esposa parece confirmar o crime. Inteligentemente, Hitchcock espalha alguns indícios do assassinato pela narrativa, como quando o vendedor limpa a mala, enrola um facão e uma serra num papel e, principalmente, quando o cachorro começa a fuçar no terreno em que o vendedor plantava flores. Só que os indícios de que não houve crime também existem e aparecem especialmente nas palavras do cético Thomas Doyle (Wendell Corey), criando um conflito na mente do espectador. Assim como entramos em conflito com os questionamentos de Lisa a respeito do que Jeffries estava fazendo. Mesmo assim, quando Lisa fecha as cortinas, após questionar se é ético observar a vida particular das pessoas, o espectador se sente incomodado, pois já foi envolvido por aquelas histórias paralelas e interessantes. Por isso, quando um grito rompe o silêncio lá fora, nós, assim como os personagens, queremos abrir a cortina imediatamente. E quando Lisa o faz, o cachorro morto reascende a teoria do assassinato, pois o vendedor é o único que não sai para escutar os gritos desesperados da dona do pobre animal. A teoria ganha mais força quando Jeffries compara as flores com uma foto tirada dias atrás e, conseqüentemente, a narrativa cresce em tensão.

Como de costume nos grandes filmes de Hitchcock, o clímax da narrativa é construído com perfeição. Quando Lisa e Stella decidem investigar as flores do jardim, a caída da noite aumenta a angústia da platéia, que, estrategicamente, está assistindo tudo sob o mesmo ponto de vista de Jeffries. Ou seja, assim como ele, estamos impotentes naquela situação. Quando Lisa decide invadir o apartamento do vendedor, o máximo que ele e o espectador podem fazer é torcer para que aquele homem não chegue a tempo de vê-la lá dentro. E então Hitchcock constrói um plano sensacional, onde vemos, simultaneamente, Lisa dentro do apartamento e o vendedor chegando, do lado de fora. Felizmente, a polícia atende ao chamado desesperado de Jeffries e chega a tempo de evitar a tragédia, levando a garota para a delegacia, mas deixando o vendedor livre. E enquanto a polícia prende Lisa, observe como Hitchcock faz questão de destacar o olhar do vendedor na direção da câmera, deixando claro que ele “nos descobriu”. Por isso, quando ele invade o apartamento de Jeffries minutos depois – em outra seqüência tensa muito bem conduzida pelo diretor, apenas com o som diegético indicando sua aproximação -, sua frase “O que você quer de mim?” serve tanto para Jeffries quanto para o espectador.

“Janela Indiscreta” é uma metáfora para o próprio cinema, que mostra como todos nós espectadores somos uma espécie de voyeur. Quer dizer então que somos todos bisbilhoteiros da vida dos personagens? Parece que sim. Mais uma vez, o mestre do suspense prova que com talento e criatividade (e um bom elenco), um cenário simples é suficiente para realizar um grande filme.

Texto publicado em 06 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira

DISQUE M PARA MATAR (1954)

(Dial M For Murder)

 

Filmes em Geral #57

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: Ray Milland, Grace Kelly, Robert Cummings, John Williams, Anthony Dawson, Patrick Allen, Leo Britt, George Leigh e Robin Hughes.

Roteiro: Frederick Knott, baseado em peça de Frederick Knott.

Produção: Alfred Hitchcock.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Alfred Hitchcock sabia como poucos extrair suspense de maneira simples e eficiente, seja através de uma festa (“Festim Diabólico”), seja através de uma noite num hotel de beira de estrada (“Psicose”) ou, simplesmente, através das observações de um homem parado numa cadeira de rodas (“Janela Indiscreta”). Mais impressionante ainda era sua habilidade de criar momentos tensos através de objetos do cotidiano, como a xícara de café em “Interlúdio” e, no caso deste ótimo “Disque M para Matar”, um aparelho telefônico. Com a costumeira simplicidade narrativa e um bom elenco nas mãos, o mestre nos brindou com outro longa marcante, repleto de suspense e reviravoltas.

O ex-tenista profissional Tony Wendice (Ray Milland) decide matar sua esposa Margot (Grace Kelly), numa tentativa de herdar seu dinheiro e evitar que ela se separe, após descobrir seu caso extraconjugal com o escritor Mark Halliday (Robert Cummings), que, ironicamente, está visitando o casal. Para isto, ele chantageia um colega dos tempos de faculdade, que deveria assassiná-la em troca de uma boa quantia de libras. Só que o plano não sai conforme o planejado e Tony se vê obrigado a contornar a situação, sem jamais perder de vista sua real intenção de tirar a esposa de seu caminho.

“Disque M para Matar” é uma adaptação para o cinema da peça de Frederick Knott, que é também o responsável pelo excelente roteiro, apresentando, além de diálogos marcantes e muito bem elaborados, desconcertantes reviravoltas durante a narrativa. Rodado na maior parte do tempo em um único cenário, o filme jamais se torna cansativo, graças à boa montagem de Rudi Fehr e aos deliciosos diálogos do roteiro, que ficam ainda mais atraentes devido à boa atuação do elenco comandado por Hitchcock. Aliás, o diretor tem grande parcela de responsabilidade pelo ritmo empolgante do longa, graças à firme condução da narrativa, que não perde tempo e busca apresentar logo em sua introdução os conflitos entre os personagens, deixando o espectador ciente dos problemas entre Tony e Margot e do caso dela com Mark. Em poucos minutos, já sabemos do caso extraconjugal, das cartas de amor interceptadas e do sumiço da bolsa numa estação de trem. Nesta mesma cena, o vestido vermelho de Margot faz alusão ao futuro violento que a aguardava (além de destacar a personagem) e a luxuosa casa em que eles vivem nos mostra a boa situação financeira do casal, revelando o bom trabalho de direção de arte de Edward Carrere. Ou seja, numa única cena, Hitchcock nos apresenta elementos vitais para o andamento da trama e que terão reflexo futuro na narrativa.

Um exemplo claro da qualidade dos diálogos de “Disque M para Matar” é a longa conversa entre Tony e Swan (Anthony Dawson), que, num primeiro momento, serve para nos apresentar aquele novo personagem e seu passado, e, em seguida, nos mostrar o poder de persuasão de Tony, que convence o colega a matar sua esposa através da chantagem de maneira convincente. Inteligente, Tony já havia estudado por muito tempo a vida de Swan e sabia que ele não teria como recusar a proposta. A cena se desenrola com incrível naturalidade, graças também a excelente atuação de Milland e Dawson, que se movimentam e falam como se estivessem num verdadeiro jogo de xadrez, onde cada palavra pode significar uma vantagem para o “oponente”. Nesta cena, vale destacar ainda como a câmera acompanha os movimentos de Tony enquanto ele simula como o assassinato acontecerá, preparando o espectador para aquele momento marcante. Após o diálogo, Swan finalmente pega o dinheiro – e a trilha sombria de Dimitri Tiomkin surge para reforçar que ele aceitou a proposta.

Em outro momento, Hitchcock enquadra Margot, Mark e Tony, que se despede da esposa enquanto coloca a chave disfarçadamente embaixo do tapete. Mark observa tudo, mas não percebe o que está acontecendo. Na despedida, Margot estranha o beijo do marido, como se pressentisse o que estava acontecendo – e Grace Kelly demonstra isto com precisão através de sua feição preocupada. Momentos antes, a conversa sobre o crime perfeito ajuda a criar a atmosfera ideal para o momento da execução do plano, além de ter reflexo na última cena, quando Tony recorda uma frase de Mark. E então, conforme o planejado, os homens vão para a festa e ela fica sozinha, a mercê do cruel destino arquitetado por seu marido. A trilha ainda mais sombria indica a tragédia enquanto Swan se aproxima da casa dos Wendice e até mesmo a fotografia de Robert Burks, que até então apresentava tons mais claros, carrega nas sombras e cria um visual bastante obscuro, que aumenta a aflição e colabora com a atmosfera de suspense. Como de costume, Hitchcock trabalha sua grande cena em cada detalhe, a começar pela diferença de horário entre os relógios de Swan e Tony, percebida antes pelo espectador e só depois pelos personagens. São estes pequenos detalhes que podem atrapalhar todo o planejamento da dupla e que servem para aumentar ainda mais a tensão. Além do relógio, Tony se depara com um homem no telefone, justamente na hora em que ele vai ligar para a esposa. E então, o telefone toca e seu toque parece disparar o coração do espectador. Hitchcock sabia extrair tensão de coisas simples e, neste caso, um objeto comum como o telefone parece capaz de hipnotizar a platéia e deixá-la em frangalhos. Quando ela finalmente atende, não sabemos onde se encontra Swan, que é revelado através de um belo movimento de câmera, girando em todo o cenário até nos mostrar o assassino no local combinado, bem atrás de Margot. Mas ele não consegue estrangular a pobre vítima (e seu olhar hesitante, segundos antes de atacá-la, indica que Swan não era um assassino frio e cruel como Tony esperava) e, após lutar por sua vida, Margot consegue pegar uma tesoura e atingi-lo, matando-o imediatamente. “Disque M para Matar” sofre então uma grande reviravolta. O que Tony faria agora? É justamente a meticulosa e orquestrada ação dele que acompanharemos, durante a tensa investigação que, sem ter uma única cena de ação (além de se passar praticamente num único cenário), consegue deixar o espectador grudado na cadeira o tempo todo.

Além desta grande cena, “Disque M para Matar” apresenta ainda pequenos momentos de pura tensão, como quando Margot procura algo na bolsa e diz “Estou procurando minha… aspirina”. O espectador pensa, por poucos segundos, que ela descobriria que sua chave não estava lá. Repare ainda a lenta condução da cena em que Tony aguarda a chegada da polícia ao mesmo tempo em que “prepara” a cena do crime, buscando incriminar a esposa. Mais uma vez, o mestre do suspense prolonga ao máximo os momentos tensos. Esta aí o segredo do sucesso da narrativa.

Durante a investigação do astuto Inspetor Hubbard (John Williams), Tony faz o jogo correto, não deixando clara sua real intenção de incriminar a esposa – e Ray Milland se sai bem neste aspecto, demonstrando segurança em suas palavras. Repare como sempre que pode, ele procura se mostrar solícito e preocupado em defender Margot, quando, na verdade, sabemos que ele quer mesmo é condená-la. Hitchcock faz com que o espectador saiba mais que muitos personagens em cena, criando, como ele mesmo afirmava, o verdadeiro clima suspense. Enquanto isto, Grace Kelly faz muito bem o papel da esposa indefesa e, com seu jeito dócil e carismático, conquista o espectador, algo essencial para que o público se envolva com a história e torça por seu sucesso. Observe o seu desespero com as insinuações da polícia de que ela teria premeditado o crime e, especialmente, seu rosto de decepção quando finalmente se dá conta de que Tony havia planejado tudo. Pelo menos, para alivio do espectador, ela se salva, graças também ao bom trabalho do Inspetor Hubbard, interpretado com competência por John Williams, que jamais deixa transparecer para os outros personagens suas intenções em cada visita ao local. Repare que em diversos momentos ele espera que um personagem saia de cena para, em seguida, investigar algo suspeito sobre aquela pessoa na casa, como quando compara as chaves no momento em que Tony entra no quarto. Já Robert Cummings dá vida ao seu Mark Halliday justamente por mostrar força na luta por salvar Margot, mostrando-se indignado com a passividade de Tony após a condenação.

Condenada a morte, Margot pouco poderia fazer em sua defesa. Mas a insistência de Mark e, principalmente, o faro do Inspetor trabalham a favor dela, mesmo com o comportamento meticuloso de seu marido, que faz tudo certo, mas se esquece de um pequeno detalhe. A cena final é conduzida novamente com muita habilidade por Hitchcock, que nos coloca do lado de dentro da casa e nos faz, assim como os personagens, torcer fervorosamente para que Tony abra a porta e, quando isto acontece, nada mais precisa ser dito. Ele já sabe que foi pego. Como previsto, um pequeno detalhe é, literalmente, a chave para a solução do caso, levando o Inspetor a soltar Margot e prender Tony.

Com muita criatividade, um bom elenco e um roteiro maravilhoso, Alfred Hitchcock fez de “Disque M para Matar” mais um dos grandes filmes de sua gloriosa carreira. É realmente impressionante a qualidade de sua filmografia e, acima de tudo, a simplicidade com que ele fazia o seu trabalho. Seus filmes parecem fáceis, mas, na realidade, esta facilidade com que somos envolvidos pela narrativa é fruto de seu árduo trabalho e de sua genialidade.

Texto publicado em 03 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira

PACTO SINISTRO (1951)

(Strangers in a Train)

 

Filmes em Geral #56

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: Farley Granger, Ruth Roman, Robert Walker, Leo G. Carroll, Patricia Hitchcock, Kasey Rogers, Marion Lorne, Jonathan Hale, Howard St. John, John Brown, Norma Varden, Robert Geist e Alfred Hitchcock.

Roteiro: Raymond Chandler, Czenzi Ormonde e Whitfield Cook, baseado em romance de Patricia Highsmith.

Produção: Alfred Hitchcock.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A premissa de “Pacto Sinistro” é excelente e até certo ponto bem desenvolvida pelo roteiro. A atmosfera do longa, que flerta com o noir, também é bastante interessante. Mas, infelizmente, Alfred Hitchcock não consegue extrair grandes atuações de seu elenco e, o que mais surpreende, não consegue criar muitas cenas marcantes, algo incomum nos filmes do mestre do suspense. Além disso, o longa apresenta algumas cenas que soam falsas e irreais, prejudicando o resultado final. Assim, “Pacto Sinistro” revela-se um filme comum, especialmente por se tratar de uma obra de Hitchcock, e não consegue empolgar.

O tenista profissional Guy Haines (Farley Granger) viaja de trem quando conhece Bruno (Robert Walker), um estranho que sabe muitos detalhes da vida do jogador. Sabendo que Guy planeja se divorciar, Bruno inicia uma conversa, afirmando que odeia seu pai e que tem uma teoria sobre o crime perfeito, onde duas pessoas desconhecidas “trocariam assassinatos” e, desta forma, evitariam suspeitas sobre os crimes. Guy ri da teoria, se despede e vai embora, mas Bruno entende que o tenista concordou com seu plano e parte para matar a esposa dele Miriam (Kasey Rogers), dando inicio a uma dupla perseguição. Enquanto a policia vai atrás de Guy por causa do assassinato, Bruno persegue o tenista para exigir que ele cumpra sua parte no “acordo”.

Escrito pelo trio Raymond Chandler, Czenzi Ormonde e Whitfield Cook, baseado em romance de Patricia Highsmith, “Pacto Sinistro” parte de uma idéia criativa e interessante, criando uma situação inusitada para seu protagonista. A partir de um simples diálogo no trem a respeito da idéia maluca dos assassinatos “cruzados”, o longa desenvolve um thriller de perseguição dupla, pois Guy foge ao mesmo tempo da polícia e do estranho que conheceu no trem. Mas, infelizmente, o longa jamais decola, e confesso que uma idéia mal aproveitada é algo que sempre me incomoda num filme. Apesar de sua atmosfera interessante e da complicada situação do protagonista, muitas cenas soam irreais e comprometem a obra, assim como as atuações artificiais do elenco.

Tecnicamente, “Pacto Sinistro” tem bons momentos, como quando a montagem de William H. Ziegler salta da cena em que Guyafirma querer estrangular Miriam para o plano das mãos de Bruno, num indício do que aconteceria depois. Aliás, o trabalho de Ziegler merece destaque, especialmente no momento em que Guyjoga uma partida de tênis ao mesmo tempo em que Brunose dirige para o local do crime, buscando deixar um isqueiro que incriminaria o famoso jogador. Nesta cena, Hitchcock faz o espectador ficar ainda mais ansioso quando Guy perde o terceiro set, esticando ao máximo aquele momento tenso, que se arrastará pelo quarto set, quando ele vence a partida enquanto Bruno recupera o isqueiro caído no bueiro de maneira artificial, numa improvável trombada com um estranho no parque. Por sinal, é no parque que o longa tem um de seus bons momentos, quando Miriam passeia de barco e vemos a aproximação de Bruno através das sombras na parede, seguido pelo plano vazio na saída do túnel e pelo grito dela que garante o primeiro susto no espectador. Miriam estava apenas brincando com os rapazes no barco. Mas a brincadeira termina quando ela encontra Bruno, que a mata estrangulada, numa cena marcante, em que vemos o crime através do reflexo na lente dos óculos da moça caídos no chão. Esta atmosfera sombria é mérito também da boa direção de fotografia de Robert Burks, que remete aos filmes noir com suas cenas predominantemente noturnas, destacando-se nas seqüências no trem e em locais fechados, com pequenos fachos de luz entrando pelas persianas das janelas. Além disso, o crime, a investigação policial e a trilha sombria de Dimitri Tiomkin reforçam a aura noir do longa.

Diante da situação complicada em que se meteu, Guy é um personagem interessante, mas infelizmente a atuação de Farley Granger é artificial em diversos momentos, como quando ele reage a noticia da morte da esposa Miriam. Por mais que já soubesse do ocorrido, era de se esperar que ele fingisse alguma emoção diante do senador, até para não levantar mais suspeitas sobre ele. Granger até tem bons momentos, mas, em geral, jamais transmite o incômodo que o personagem exige. Interpretada por Patricia Hitchcock, Barbara é a dona dos comentários sarcásticos que garantem o humor negro e que, aliados aos diálogos sobre assassinatos – como aquele da festa entre Bruno e uma velha senhora –, reforçam o tema na mente do espectador. É ela também que faz Bruno lembrar Miriam, algo indicado através do zoom em seu rosto e da trilha sonora, exatamente a mesma do momento em que ele cometeu o assassinato. Esta semelhança física entre elas, acentuada pelos óculos, será essencial para a solução do crime, fazendo com que Anne, interpretada por Ruth Roman de maneira doce e sensata, perceba a real ligação entre Guy e Bruno. Já Kasey Rogers faz de sua Miriam uma personagem odiável mesmo com poucos minutos em cena, irritando Guy até o limite, numa discussão em que tanto ela como Granger soam caricatos. Pelo menos, Robert Walker se sai bem como Bruno, mostrando-se inconveniente e assustador enquanto persegue a conclusão de seu plano. Como é comum nos filmes de Hitchcock, a relação de Bruno com a mãe (Marion Lorne) tem importância e acaba refletindo em seu comportamento, como fica claro quando ela conversa com Anne, defendendo o filho com unhas e dentes. Já a relação de Bruno com o pai é bastante complicada, pois o Sr. Antony (Jonathan Hale) sabe da personalidade conturbada do filho, evidenciada quando, sem mais nem menos, ele estoura uma bexiga de um garoto no parque. Bruno é a sombra na vida de Guy, perseguindo-o por todo tempo, seja num museu ou numa quadra de tênis, onde todos olham para a bola e ele foca o olhar em seu “amigo”. Este aspecto poderia tornar o filme mais interessante, mas não é o que acontece, porque Granger não cria empatia com a platéia e, por isso, não nos importamos tanto com seu drama.

Ainda assim, o longa tem uma cena marcante, bem ao estilo de Hitchcock, quando Guy visita a casa de Bruno, subindo as escadas na completa escuridão, num momento de alta tensão, acentuada pela presença do cão de guarda. O visual da cena é assombrosamente obscuro e a trilha marca o momento com perfeição. Tensa também será a descida de Guy, com a arma de Bruno apontada para sua cabeça o tempo todo, até o momento em que ele diz que não vai atirar, porque pensará em “algo melhor”, numa promessa capaz de atormentar o protagonista (e o espectador). Como podemos ver, Hitchcock prolonga ao máximo o embate entre Bruno e Guy. Mas esta é uma feliz exceção num longa repleto de cenas artificiais, como quando Bruno ataca uma senhora numa festa – repare como ela aceita facilmente que ele aperte seu pescoço – e, aparentemente, ninguém faz nada a respeito por muito tempo. Pra piorar, o grande clímax no carrossel é pouco verossímil, graças à implausível luta em altíssima velocidade entre Guy e Bruno e à duração excessiva da cena. Tudo isto, somado às atuações exageradas de Granger e Walker naquele momento, faz com que a cena soe bastante falsa.

Em resumo, “Pacto Sinistro” é um bom filme, mas que apresenta apenas uma grande cena e, conseqüentemente, não consegue o mesmo nível de tensão das grandes obras de Hitchcock. Apesar dos sempre elegantes movimentos de câmera do diretor e da fotografia sombria, as atuações caricatas e a falta de uma atmosfera de suspense que funcione comprometem o resultado final. Ainda assim, um filme apenas razoável de Alfred Hitchcock normalmente é melhor que a grande maioria dos filmes do gênero.

Texto publicado em 02 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira

FESTIM DIABÓLICO (1948)

(Rope)

 

 

Filmes em Geral #55

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: James Stewart, Farley Granger, John Dall, Cedric Hardwicke, Constance Collier, Douglas Dick, Edith Evanson, Dick Hogan e Joan Chandler.

Roteiro: Hume Cronyn e Arthur Laurents, baseado em peça de Patrick Hamilton.

Produção: Alfred Hitchcock e Sidney Bernstein.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Até onde pode chegar a criatividade de um grande cineasta? No caso de Hitchcock, esta pergunta dificilmente poderá ser respondida, especialmente se observarmos a qualidade de sua celebrada filmografia e o número de soluções criativas que ele encontrava em seus filmes. Mas existiam momentos em que o mestre simplesmente se superava, brindando os cinéfilos com verdadeiras jóias, capazes de empolgar o mais cético dos críticos. Filmada em longos takes com cortes quase imperceptíveis, a obra-prima “Festim Diabólico” é um destes momentos fantásticos, em que o diretor emprega sua impressionante técnica para conduzir uma narrativa envolvente, recheada de grandes atuações e momentos eletrizantes.

Os amigos Brandon (John Dall) e Phillip (Farley Granger) matam o colega de escola David Kentley (Dick Hogan), apenas para sentir a sensação de cometer um assassinato. Na busca pelo crime perfeito, eles promovem uma festa com os amigos e a família do rapaz, servindo a comida em cima do baú onde está escondido seu corpo. Mas um dos convidados é o esperto professor Rupert Cadell (James Stewart), que começa a desconfiar de tudo na medida em que a festa se torna cada vez mais estranha.

Narrado em tempo real, durante um fim de tarde e num único cenário (o apartamento de Brandon), “Festim Diabólico” apresenta um caráter extremamente realista, reforçado pela técnica empregada por Hitchcock, que filma as cenas em oito tomadas, com pequenos cortes quase imperceptíveis a cada 10 minutos – e que só existem porque este era o tempo máximo que uma bobina podia filmar na época -, nos dando a sensação de estarmos vendo um único plano-seqüência (normalmente, Hitchcock dava um close num personagem ou objeto para poder inserir o corte). Na realidade, apenas em um momento o corte é perceptível, quando Phillip discute com Brandon e grita que “é mentira!” ao ser acusado de matar galinhas – um corte seco nos mostra a reação de Rupert em seguida. Mas, por estar prestando atenção na calorosa discussão, o espectador pode nem perceber este corte. Desta forma, somos sugados pra dentro da história de maneira única, como se estivemos dentro daquele cenário, vivendo a narrativa com incrível intensidade.

Escrito por Hume Cronyn e Arthur Laurents, baseado em peça de Patrick Hamilton, o roteiro de “Festim Diabólico” apresenta muitos diálogos marcantes, além de desenvolver a trama lentamente e com cuidado, tornando possível, por exemplo, que Rupert perceba, através de gestos sutis, o que está acontecendo, como quando Phillip fala sobre os livros mal amarrados e ele olha para a corda, já bastante desconfiado. Assim, na medida em que percebemos que o astuto convidado começa a captar o que se passa, o suspense aumenta e o longa se torna mais tenso. Obviamente, a condução excepcional de Hitchcock também é responsável por isso, desde o momento em que vemos uma rua tranqüila, com pessoas caminhando (Hitchcock é uma delas), e um movimento de câmera nos leva a janela do apartamento onde a narrativa se passará, interrompendo o silêncio com um grito antes de termos a imagem de David sendo enforcado por Brandon e Phillip. Hitchcock sabia que, ao nos mostrar o assassinato e onde o corpo de David estaria durante a festa, ficaríamos inquietos e apreensivos. Seguindo sua cartilha, o mestre faz o espectador saber mais do que a maioria dos personagens em cena, o que só aumenta a tensão e o suspense.

E ainda que comece tranqüilo durante a preparação para a festa, o relacionamento entre Brandon e Phillip já dá indícios das diferenças de temperamento entre eles, que será vital no grande clímax da narrativa. Se Brandon é mais sádico e controlado, Phillip se apresenta mais humano e, por conseqüência, assustado com tudo aquilo. Aliás, John Dall se sai muito bem na pele do cruel Brandon, um personagem extremamente racional, que parece não sentir emoção, a não ser quando acha que seu plano maquiavélico está saindo conforme planejou. Seu humor negro e sarcástico garante boas piadas a respeito da morte de David e de sua presença na festa, como quando Janet (Joan Chandler) diz que David pode chegar e surpreendê-la no quarto com Kenneth (Douglas Dick) e ele responde que seria “um choque” – e Dall tem mérito nisto, ao conferir um ar de cinismo na fala do personagem. Mas, no interessante diálogo sobre assassinatos, que faz referências a Nietzsche e Hitler, Brandon começa a dar sinais de seu plano diabólico e o astuto Rupert começa a perceber o que está acontecendo. Já Farley Granger está um pouco exagerado, mas funciona na pele do assustado Phillip, balanceando bem o destempero de seu personagem com o autocontrole absurdo de Brandon. Vale registrar também que na peça original de Patrick Hamilton, Brandon e Phillip eram homossexuais, mas devido ao controle rígido do Código Hays, Hitchcock foi obrigado a amenizar este aspecto da relação entre eles, tornando-o perceptível, mas de maneira muito sutil (a peça foi inspirada no caso dos jovens Leopold e Loeb, que, em 1924, raptaram e mataram o garoto Bobby, de 14 anos, na cidade de Chicago). Fechando os destaques do coeso elenco, James Stewart, sempre excelente, tem uma atuação muito boa, que cresce na medidaem que Rupert aumenta sua desconfiança diante do que vê. Repare com o ator consegue nos convencer de que o personagem está preocupado através de pequenos gestos como quando observa atentamente o comportamento de Phillip ao ver a corda. Além disso, o ator soa convincente quando confronta os autores do crime no terceiro ato, num monólogo belíssimo que escancara a mensagem do filme, numa crítica feroz ao sentimento de superioridade do ser humano que se julga capaz de tirar outras vidas supostamente “inferiores” (lembre-se que o filme é de 1948, pouco tempo depois do período de domínio nazista).

No restante do elenco, basta dizer que nenhum ator destoa e todos conseguem captar o espírito do longa, fazendo com que a festa soe bastante realista, apesar da absurda situação criada por Brandon e Phillip. E é interessante notar também como as roupas definem parte da personalidade dos personagens, num excelente trabalho da figurinista Adrian. Brandon, com seu comedido terno azul, é o mais controlado de todos. Janet, com seu vestido vinho, procura chamar a atenção dos rapazes e inclusive já namorou três dos quatro estudantes. Rupert esconde sob seu terno cinza muita sobriedade e inteligência, características vitais para que perceba o que está acontecendo. Kenneth, com seu terno marrom e apagado, é propositalmente o personagem mais apático da narrativa. Já Phillip procura se esconder sob seu terno marrom escuro, mas chama a atenção demais com seu jeito assustado. Discreta mesmo é a Sra. Wilson (Edith Evanson), com sua roupa preta de empregada que a torna quase imperceptível, ao ponto de Brandon repreender Phillip após o final da festa (“Calado, a Sra. Wilson ainda está aqui”). E finalmente, o Sr. Kentley (Cedric Hardwicke) exala seriedade em seu terno cinza claro, ao passo em que a Sra. Atwater (Constance Collier) chama a atenção para seu jeito espalhafatoso em seu vestido roxo.

Ainda na parte técnica, a trilha sonora de David Buttolph pontua os momentos de tensão, reforçada pela fotografia de William V. Skall e Joseph A. Valentine, que se torna mais sombria na medida em que a narrativa avança. E se o trabalho do montador William H. Ziegler se limita a inserir os pequenos e imperceptíveis cortes na narrativa devido à citada necessidade de trocar os rolos de filmagens, a direção de arte de Perry Ferguson merece ser citada por criar um cenário que permita o desenrolar da história de maneira tão eficiente, com a ampla sala da biblioteca servindo para recepcionar os convidados, o citado baú que esconde o segredo dos assassinos, o longo corredor que leva até a cozinha e a curiosa porta que divide os ambientes, com seu barulho irritante aumentando a tensão.

Finalmente, num filme dirigido por Hitchcock não poderiam faltar cenas marcantes e “Festim Diabólico” não seria diferente. A começar pela fantástica cena em que a câmera fica parada ao lado do baú, com os personagens conversando sobre David à direita da tela, nos permitindo ver apenas parte do corpo de Rupert e a Sra. Wilson limpando a mesa e trazendo os livros para guardar no baú. Observe a condução lenta da cena por parte de Hitchcock, criando um suspense crescente na medida em que se aproxima o momento que ela guardará os livros. A tensão chega ao auge quando ela começa a abrir o baú e é interrompida por Brandon, aumentado a suspeita de Rupert. Esta suspeita levaria aquele homem a voltar ao apartamento depois que todos foram embora, provocando pânico em Phillip e dando inicio a outra seqüência incrivelmente tensa. Determinado, Brandon se arma e abre a porta. O diretor então inicia a cena destacando a mão armada de Brandon dentro do bolso através de um zoom, enquanto quando Rupert fala sobre David. Em seguida, a câmera simula cada movimento do tenso diálogo em que ele diz como mataria o rapaz, da mesma maneira que Hitchcock fizera em “Rebecca”. Repare como a luz que pisca fora do apartamento e a noite que recai aumentam a tensão do momento, atingindo níveis insuportáveis até que Phillip, ao ver a corda nas mãos de Rupert, confessa tudo e ameaça matá-lo. Rupert consegue tomar a arma de sua mão e parte, sem querer acreditar no que verá, para abrir o baú. Neste momento, Stewart se destaca novamente, demonstrando a frustração de Rupert ao ver o corpo de David lá dentro e o incômodo por saber que Brandon havia distorcido suas palavras para fazer algo tão cruel. O longa termina num plano genial, com Phillip desolado no piano, Brandon tomando uma bebida tranqüilamente e Rupert sentado, aguardando a chegada da polícia.

Com sua narrativa envolvente, “Festim Diabólico” é uma obra-prima do suspense, conduzida com perfeição por Alfred Hitchcock, que desfila sua enorme capacidade de direção através dos criativos movimentos de câmera, da firme condução da narrativa e da excepcional composição da mise-en-scène, permitindo a excelente atuação coletiva do elenco, que transita no cenário de maneira eficiente, e entregando um filme marcante, criativo e incrivelmente tenso.

Texto publicado em 01 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira