AS DUAS FACES DE UM CRIME (1996)

(Primal Fear)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #167

Dirigido por Gregory Hoblit.

Elenco: Richard Gere, Edward Norton, Laura Linney, John Mahoney, Frances McDormand, Alfre Woodard, Terry O’Quinn, Andre Braugher, Steven Bauer, Joe Spano, Tony Plana, Maura Tierney e Jon Seda.

Roteiro: Steve Shagan e Ann Biderman, baseado em romance de William Diehl.

Produção: Gary Lucchesi.

As Duas Faces de um Crime[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após a desistência do então astro em ascensão Leonardo Di Caprio de participar de “As Duas Faces de um Crime”, os produtores do projeto passaram a procurar desesperadamente por alguém que pudesse encarnar o personagem chave da trama, chegando a testar mais de dois mil candidatos. Entre eles, um jovem desconhecido conseguiu se destacar de tal maneira que, após conseguir o disputado papel e ter o vídeo de seu teste circulando por toda Hollywood, ele acabou sendo contratado para trabalhar em mais dois filmes importantes daquele ano, dirigidos por ninguém menos que Woody Allen e Milos Forman. Obviamente, estamos falando do talentosíssimo Edward Norton.

A atuação ambígua de Norton é essencial para que “As Duas Faces de um Crime” funcione tão bem, mas o ótimo roteiro escrito por Steve Shagan e Ann Biderman (baseado em romance de William Diehl) também tem grandes méritos, com sua estrutura perfeita funcionando em diversas camadas e desenvolvendo muito bem este precioso personagem, além é claro de contar com reviravoltas atordoantes. A narrativa começa nos mostrando o assassinato de um conhecido Arcebispo de Chicago (Stanley Anderson) e a prisão quase imediata de um de seus coroinhas, o jovem Aaron Stampler (Edward Norton), que é encontrando todo ensanguentado numa ferrovia perto do local do crime. A cobertura midiática do evento chama a atenção do competente advogado Martin Vail (Richard Gere), que decide defender o rapaz sem cobrar nada, apenas pela exposição que teria no caso. Do outro lado, a promotora Janet Venable (Laura Linney), que já viveu um caso com Vail no passado, é contratada pelo estado para tentar a pena de morte.

Além de se destacar pela maneira envolvente com que constrói a relação entre o advogado de defesa e seu cliente, o corajoso roteiro aborda ainda a influencia da Igreja nos negócios do bairro e os crimes sexuais cometidos pelo Arcebispo, criando um complexo jogo de interesses que só prende ainda mais nossa atenção. Por isso, talvez o único escorregão do inteligente roteiro seja o desnecessário caso entre Vail e Janet, que além de não colaborar em nada para o andamento da narrativa, acaba tirando o foco da ação principal sempre que as provocações entre eles ganham espaço na tela.

Relação entre o advogado de defesa e seu clienteCrimes sexuaisDesnecessário casoAuxiliado pela montagem de David Rosenbloom, o diretor Gregory Hoblit conduz a narrativa de maneira fluida, intercalando o trabalho no escritório de Vail, os duelos verbais entre ele e Janet, as conversas com Stampler, sua análise psiquiátrica e as audiências no tribunal, que ganham mais foco somente no empolgante terceiro ato. Até lá, o diretor demonstra habilidade na construção de uma atmosfera tensa e misteriosa, trabalhando em pequenos detalhes que ajudam a confundir o espectador. Mostrando Stampler rapidamente durante a apresentação do coral de coroinhas, Hoblit inicialmente nos faz acreditar que ele é mesmo o assassino, intercalando as fortes imagens do assassinato com planos rápidos de sua fuga alucinada da polícia. No entanto, observe como na prisão o diretor engrandece Vail e diminui Stampler na tela durante as primeiras conversas, o que, somado às expressões vulneráveis de Norton, força nossa identificação com o personagem e faz com que a plateia realmente acredite em sua inocência.

Imagens do assassinatoFuga alucinada da políciaExpressões vulneráveisCompetente também na direção de atores, Hoblit evita distrair nossa atenção com invencionismos, realçando as fortes atuações de seu elenco. Repare, por exemplo, como a câmera se aproxima lentamente do rosto dos personagens conforme os diálogos evoluem, como na primeira conversa entre Vail e Stampler e em muitos outros diálogos, num movimento discreto que jamais chama a atenção para si. Da mesma forma, a fotografia de Michael Chapman cria um mundo acinzentado que realça a frieza necessária na profissão dos advogados – e descobriremos mais tarde que esta frieza remete também ao próprio Stampler -, assim como o design de produção de Jeannine Claudia Oppewall, que concebe ambientes simétricos e organizados como o escritório de Vail e os tribunais. Até por isso, nos raros momentos em que o visual foge ao padrão, o espectador sente claramente o que o diretor pretende transmitir, como na conversa entre Vail e um repórter num bar, onde os tons avermelhados que predominam na cena indicam o inferno astral vivido pelo personagem após a descoberta da suposta doença de Stampler.

Mundo acinzentadoAmbientes simétricosInferno astralEssencial num filme de tribunal onde os argumentos dos advogados precisam ser captados com clareza, o design de som ainda se destaca em sequências especiais, como no próprio assassinato do Arcebispo, no qual um cidadão escuta da rua os violentos golpes desferidos contra ele, e especialmente numa das audiências, onde as vozes de um interessante debate entre os advogados se sobrepõem às imagens da chegada deles ao tribunal. E fechando os destaques da parte técnica, a trilha sonora discreta de James Newton Howard sublinha muito bem momentos especiais, como quando indica a mudança de comportamento de Stampler segundos antes de sua primeira transformação através de uma nota sombria que lentamente ganha força, destoando deste tom discreto somente durante a acelerada perseguição de Alex (Jon Seda) pelas ruas.

Bem vestido e com um corte de cabelo impecável, Richard Gere encarna Vail como um advogado extremamente competente e, por isso, autoconfiante ao ponto de dizer que a única verdade que interessa é aquela em que ele acredita. Com um sorriso falso e um olhar penetrante, o ator faz bem o papel do advogado dissimulado, que faz tudo que está ao seu alcance para defender seus clientes, mantendo ainda um bom relacionamento com eles fora do tribunal, como atesta sua conversa com o traficante Joey Pinero (Steven Bauer). Assumindo inicialmente uma postura dominante que se reflete nas cores fortes de seus ternos (figurinos de Betsy Cox), o advogado lentamente vai sendo domado por seu cliente, o que cria uma confusão momentânea em sua mente tão acostumada a controlar este tipo de situação, refletida até mesmo na falta de cor de seus ternos no segundo ato. Quando finalmente compreende o que se passa com Stampler, Gere volta a adotar uma postura confiante e os ternos escuros novamente aparecem.

Advogado extremamente competenteSorriso falsoPostura dominanteIgualmente confiante profissionalmente, a Janet interpretada por Laura Linney se sai bem nos embates diante do ardiloso Vail, mantendo uma postura firme também fora do âmbito profissional ante as investidas nada elegantes do ex-amante. Vivendo a personagem de maneira centrada e inteligente, Linney confere credibilidade aos julgamentos, fazendo com que a plateia realmente acredite que ela será capaz de vencer Vail e conseguir a condenação de Stampler. Outra presença feminina marcante é a de Frances McDormand, que está serena como a psiquiatra Molly, transmitindo a tranquilidade esperada em sua profissão e demonstrando segurança diante dos fortes questionamentos da promotora Janet no tribunal (numa atuação minimalista que, por contraste, realça sua qualidade como atriz quando comparada a determinada policial Marge, que ela viveu naquele mesmo ano em Fargo”). Fechando o elenco secundário, vale citar o ameaçador John Shaughnessy interpretado por John Mahoney.

Janet postura firmeCentrada e inteligentePsiquiatra MollyE chegamos então ao grande responsável pelo sucesso de “As Duas Faces de um Crime”. Em seu papel de estreia no cinema, Edward Norton entrega uma atuação assombrosa, encarnando duas personalidades tão distintas de maneira mais do que convincente na pele do acusado Stampler. Enquanto o tímido Aaron surge com uma notável gagueira, um tom de voz baixo e evita olhar diretamente para as pessoas, seu alter-ego Roy é exatamente o oposto, surgindo confiante com sua voz firme, o olhar ameaçador e a postura corporal imponente e agressiva. Observe, por exemplo, como sua expressão ameaçadora no primeiro lapso diante da Dra. Molly se contrapõe diretamente ao seu olhar assustado durante as audiências no tribunal. Assim, quando Roy finalmente surge em cena, Norton complementa sua transformação de maneira sensacional, atacando Vail violentamente e se impondo com incrível firmeza, numa postura diametralmente oposta ao reprimido Aaron.

Tímido AaronRoy é exatamente o opostoPrimeiro lapsoSó que “As Duas Faces de um Crime” ainda nos reserva outra reviravolta em seus instantes finais. Preparando cuidadosamente seu explosivo terceiro ato durante toda a narrativa, Hoblit nos leva ao julgamento final e ao esperado depoimento da Dra. Molly, seguido pelo interrogatório do próprio suspeito, no qual os advogados alcançarão o ápice de suas estratégias cuidadosamente elaboradas. Incluindo planos rápidos das mãos ansiosas de Aaron durante o interrogatório, o diretor e seu montador aceleram a sequência através de planos cada vez mais curtos que só ampliam a tensão, nos permitindo antecipar o iminente ataque de fúria do acusado, que inevitavelmente acontece e deixa todos atônitos. Desta forma, o espectador termina a cena pensando que sabe mais do que a maioria dos personagens, só que quando Stampler finalmente revela seu truque para Vail, o choque torna-se inevitável tanto para o advogado quanto para a plateia. Como ilustram os planos finais em plongè que o diminuem em cena, Vail deixa o tribunal completamente desolado por constatar que aquele jovem aparentemente inofensivo foi capaz de enganá-lo durante tanto tempo.

Mãos ansiosas de AaronIminente ataque de fúriaStampler finalmente revela seu truqueQuem não se importa por ter sido enganado é o espectador, que deixa a projeção totalmente atordoado e completamente satisfeito com o que acabou de assistir. Contando com um bom elenco e uma atuação simplesmente fantástica de Edward Norton, “As Duas Faces de um Crime” é um grande filme, que vai além dos tribunais e nos faz refletir sobre até que ponto a primeira impressão é realmente a que fica. Ao menos, a impressão de que este é um dos melhores filmes da década de 90 continua intacta.

As Duas Faces de um Crime foto 2Texto publicado em 29 de Abril de 2013 por Roberto Siqueira

Epic War Battle Supercut

Vídeo publicado em 26 de Abril de 2013 por Roberto Siqueira

ESQUECERAM DE MIM 2 – PERDIDO EM NOVA YORK (1992)

(Home Alone 2: Lost in New York)

3 Estrelas 

 

Videoteca do Beto #166

 

Dirigido por Chris Columbus.

Elenco: Macaulay Culkin, Joe Pesci, Daniel Stern, Catherine O’Hara, Brenda Fricker, John Heard, Devin Ratray, Hillary Wolf, Maureen Elisabeth Shay, Kieran Culkin, Tim Curry, Dana Ivey, Rob Schneider, Eddie Bracken, Ally Sheedy e Chris Columbus.

Roteiro: John Hughes.

Produção: John Hughes.

Esqueceram de Mim 2[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O primeiro “Esqueceram de mim” é um filme que depende essencialmente da predisposição do espectador em embarcar em sua premissa absurda para funcionar, mas que por outro lado diverte bastante aqueles que se deixam levar por sua narrativa leve através da sádica estratégia do pequeno Kevin para defender sua casa. Este mesmo raciocínio pode ser aplicado na sequência “Esqueceram de mim 2 – Perdido em Nova York”, que, lançada somente dois anos após o primeiro filme, aposta exatamente na mesma estrutura narrativa para funcionar, alterando apenas pequenos detalhes que pouco interferem no objetivo final. Assim, se por um lado temos a oportunidade de dar algumas gargalhadas com as novas peripécias de Kevin, por outro temos a constante sensação de estarmos assistindo ao mesmo filme novamente.

Também escrito e produzido por John Hughes, “Esqueceram de mim 2” tem inicio quando a família McAllister se prepara para passar o natal na Flórida. Assim como ocorreu no natal anterior, eles perdem a hora, mas desta vez o pequeno Kevin (Macaulay Culkin) está junto com eles na van que sai desesperada para o Aeroporto. Só que ao chegar ao terminal de embarque, Kevin se perde de seu pai (John Heard) e acaba embarcando acidentalmente num voo para Nova York, onde ele aproveita para se hospedar num hotel renomado, já que está com o cartão de crédito de seu pai. O problema é que Harry (Joe Pesci) e Marv (Daniel Stern), exatamente os mesmos bandidos que tentaram invadir sua casa antes, também estão na cidade após fugirem da prisão.

Como podemos notar, Hughes não hesita em abusar das coincidências para criar a mesma situação que proporcionou os melhores momentos de “Esqueceram de mim”. Assim, mais uma vez temos a casa tumultuada na véspera da viagem (captada com os mesmos movimentos de câmera agitados de Chris Columbus), a mesma época do ano e os mesmos conflitos entre o pequeno Kevin e sua problemática família – especialmente com o irritante Buzz. Ao menos, estas repetições também geram algumas divertidas rimas narrativas com o primeiro longa, como quando a família assiste “A Felicidade não se compra” em versão dublada no hotel. Porém, basta raciocinar um pouquinho para que a inevitável pergunta surja: Que pais deixariam o filho para trás duas vezes? Ou seja, a premissa desta continuação é ainda mais ridícula que a do filme anterior, mas se você conseguir superar isto e embarcar na história será parcialmente recompensado por alguns bons momentos.

Casa tumultuadaConflitosFamília assiste “A Felicidade não se compra”Ciente disto, Columbus aposta outra vez numa abordagem descontraída e se sai bem em alguns momentos particularmente inspirados, como quando os próprios pais de Kevin fazem piada com a situação (“Está virando uma tradição da família”), evidenciando que ao menos o longa não se leva a serio e quer apenas nos divertir – o que até funciona, mas não serve como desculpa para perdoar seus claros equívocos narrativos. O diretor acerta também quando revela que Kevin está no veículo antes de sair da casa, numa subversão de expectativa interessante que quebra pela primeira vez a sensação de estarmos vendo “mais do mesmo”.

Pais fazem piada com a situaçãoKevin está no veículoChegada do garoto ao hotelEnxergando a história como uma fábula, o diretor realça o deslumbramento de Kevin através do tom de cenas como a da chegada do garoto ao hotel e seu passeio de limusine comendo pizza – algo que também ocorria no primeiro filme, já que, nas duas situações, o protagonista vive uma situação desejada por muitas crianças (ficar sozinho em casa e viajar sem a companhia dos pais). Também repetindo o que fizera antes, Columbus procura espalhar dicas importantes no primeiro ato que serão importantes durante a narrativa, como num plano detalhe de um rádio relógio com a hora alterada e nas cenas em que busca destacar o gravador de Kevin. Finalmente, o diretor ainda emprega interessantes movimentos de câmera, como quando acompanha uma espécie de telefone sem fio na descoberta de que Kevin não está com a família, criando também planos divertidos como aquele em que uma estátua indica o caminho que o menino deve seguir.

Passeio de limusine comendo pizzaRádio relógioEstátua indica o caminhoMas isto não seria suficiente para salvar “Esqueceram de mim 2” do fracasso, até porque o trabalho técnico da equipe liderada por Columbus limita-se a repetir as mesmas estratégias do primeiro filme, o que pode ser interpretado como algo coerente, mas acaba reforçando a sensação de “mais do mesmo”. Assim, a trilha sonora do ótimo John Williams outra vez utiliza composições agitadas, como aquela que acompanha todos acordando atrasados; a fotografia de Julio Macat novamente prioriza cores quentes no início – que, aliás, permitem a composição de belos planos da cidade de Nova York -, mudando para um tom sombrio na medida em que a narrativa avança (repare como o parque parece assustador à noite); e, finalmente, se os coloridos figurinos de Jay Hurley mais uma vez reforçam o clima agradável pretendido por Columbus, por outro lado à escolha da mesma roupa para o pai de Kevin e o homem que se parece com ele no Aeroporto, que obviamente tenta justificar a confusão do garoto, acaba soando forçada demais. Ou seja, tudo muito adequado, mas parecido demais com o que já tínhamos visto.

Cores quentesParque parece assustadorMesma roupaSeguindo a saga, novamente temos um trecho de um filme sendo usado para assustar personagens, mas apesar da falta de originalidade, a cena em que Kevin assusta os funcionários do hotel é ótima e ilustra o que “Esqueceram de mim 2” tem de melhor: o bom humor. E neste aspecto, assim como na direção de atores, Columbus faz um bom trabalho, extraindo gargalhadas da plateia em sequências inspiradas que contam com a montagem de Raja Gosnell para funcionar, como quando a mãe de Kevin diz que ele não sabe usar cartão de crédito e, em seguida, o vemos usando seu cartão VISA no hotel. Gosnell, aliás, cria também algumas transições bem elegantes, como no “boa noite” à distancia de Kevin e sua mãe ou quando o sorriso de uma animação e do Concierge do hotel (Tim Curry) se misturam logo após este descobrir que o cartão usado por Kevin tinha sido denunciado na polícia.

Trecho de um filmeSorriso da animaçãoSorriso do Concierge do hotelNo elenco, Devin Ratray continua chato como Buzz, mas ao menos temos alguns personagens novos e interessantes, como a moradora de rua vivida por Brenda Fricker, que tem exatamente a mesma função do homem da neve no filme anterior e, assim como ocorria com o personagem interpretado por Roberts Blossom, também rouba a cena numa conversa com o pequeno protagonista – aliás, nesta bela cena temos um raro momento de crítica social (“As pessoas não me querem na cidade deles”). Temos também o Concierge do hotel interpretado por Tim Curry que, com seu jeito levemente afeminado, consegue provocar o riso da plateia, além da adorável participação de Eddie Bracken como o Sr. Duncan, o simpático dono da loja de brinquedos, e do conhecido e nada talentoso Rob Schneider, que vive Cedric.

Moradora de ruaConciergeSimpático dono da loja de brinquedosE chegamos então ao sádico Kevin, novamente interpretado pelo carismático Macaulay Culkin, que carrega a narrativa com grande desenvoltura e facilidade, sentindo-se ainda mais à vontade no papel, como notamos, por exemplo, em sua conversa com uma recepcionista logo na chegada ao hotel. Vivendo um dos sonhos de qualquer garoto, ele se esbalda num quarto repleto de guloseimas e sai para passear sozinho pelas ruas de Nova York, mas o aparecimento dos bandidos que tentaram roubar sua casa traz novamente a tona sua faceta sarcástica, escondida sob seu rosto angelical. Ainda criança, mas claramente mais desenvolvido, Culkin baseia sua atuação muito mais nos diálogos do que nas caretas que marcaram o primeiro filme – e que aqui só surgem com quase uma hora de projeção. Finalmente, o desempenho divertido do garoto é essencial para que o reencontro com os bandidos funcione.

Sádico KevinConversa com a recepcionistaCaretasEncurtando a sequência de preparação da defesa da casa, Columbus ganha tempo para explorar o que o primeiro filme tinha de melhor, criando outra hilária tentativa de invasão dos ladrões, repleta de gags engraçadas e momentos inspirados que se baseiam puramente no humor pastelão, como na cena dos tijolos atirados por Kevin no pobre Marv – este humor físico, aliás, está presente desde o princípio na cena do canto das crianças no coral de natal. Desta vez vagando por em Nova York após fugirem da prisão (que coincidência, não?), os ladrões estúpidos vividos por Pesci e Stern jamais soam ameaçadores, o que, somado ao que já vimos no filme anterior, faz com que a plateia jamais tema pelo destino de Kevin. Ao menos, os atores mais uma vez não hesitam e se entregam ao humor físico sem reservas.

Tijolos atirados por KevinLadrões estúpidosReencontro de Kevin com a moradora de ruaApós o festival de gargalhadas, “Esqueceram de mim 2” chega ao seu final repleto de clichês, com a redenção de Buzz e o reencontro de Kevin com a moradora de rua, que ao menos emociona pela simplicidade de ambos. Além disso, a piada da conta do hotel encerra o filme com o astral lá em cima, o que é ótimo.

Apesar de seus inúmeros problemas, “Esqueceram de mim 2” ainda consegue nos divertir graças ao enorme carisma de seu protagonista e à engraçada sequência de defesa da casa. Por outro lado, a constante repetição de elementos usados no primeiro filme já evidenciava que a franquia poderia muito bem terminar por ali. E se você observar quantas vezes eu utilizei expressões como “novamente”, “outra vez” e “mais uma vez” neste texto, talvez concorde comigo. Ou simplesmente me considere um péssimo escritor.

Esqueceram de Mim 2 foto 2Texto publicado em 22 de Abril de 2013 por Roberto Siqueira

Trilhas #003 – “Lonely Teardrops”, do filme “Despedida em Las Vegas”

Vídeo publicado em 18 de Abril de 2013 por Roberto Siqueira

Parabéns!!!

Parabéns meu amor, nós te amamos!

Mil beijos!

ParabénsTexto publicado em 15 de Abril de 2013 por Roberto Siqueira

ALADDIN (1992)

(Aladdin)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #165

Dirigido por Ron Clements e John Musker.

Elenco: Vozes de Scott Weinger, Linda Larkin, Robin Williams, Bruce Adler, Douglas Seale, Gilbert Gottfried, Frank Welker, Jonathan Freeman, Brad Kane e Lea Salonga.

Roteiro: Ron Clements, John Musker, Ted Elliott e Terry Rossio.

Produção: Ron Clements e John Musker.

Aladdin[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após atravessar décadas numa crise criativa que praticamente extinguiu as animações do estúdio, a Disney voltou a emplacar um sucesso com “A Pequena Sereia”, em 1989, e conseguiu a primeira indicação ao Oscar de Melhor Filme para uma animação com “A Bela e a Fera” dois anos depois. Diante deste cenário positivo, chegava aos cinemas a megaprodução “Aladdin”, que repetiria o sucesso de seus antecessores nas bilheterias e consolidaria de vez a ressurreição do estúdio, apostando novamente na mistura de canções marcantes, bom humor e uma clássica história de amor.

Escrito pelos diretores Ron Clements e John Musker ao lado de Ted Elliott e Terry Rossio, “Aladdin” nos leva ao fantástico mundo árabe onde a bela Princesa Jasmine (voz de Linda Larkin) precisa se casar para manter a tradição das terras de Agrabah, onde seu pai é o Sultão (voz de Douglas Seale). Interessado no posto, o conselheiro do Sultão conhecido como Jafar (voz de Jonathan Freeman) descobre que o pobre Aladdin (voz de Scott Weinger) é o único que pode entrar numa misteriosa caverna no deserto e recuperar uma lâmpada mágica, onde adormece um Gênio (voz de Robin Williams) que pode realizar até três desejos daquele que o despertar.

Como de costume, os animadores da Disney confirmam seu talento na criação de imagens belíssimas e permitem aos diretores Clements e Musker nos levarem pelo deslumbrante deserto árabe, com seu céu rosado e as típicas casas sem telhado nos transportando pra dentro da romântica Arábia dos contos clássicos. Pintados em cores quentes como o amarelo, o vermelho e o roxo, os cenários de “Aladdin” são um espetáculo a parte, um verdadeiro deleite para os olhos do espectador dentre os quais vale destacar a sinistra caverna que guarda a lâmpada e seu impressionante interior, além do lindo palácio onde vive Jasmine.

Romântica ArábiaSinistra cavernaLindo palácioAlém do visual arrebatador, “Aladdin” traz ainda um leve rompimento com o estilo narrativo clássico da Disney ao inserir ousadias de linguagem incomuns na filmografia do estúdio, como quando a câmera bate no rosto do comerciante/narrador (voz de Bruce Adler) logo na abertura. É verdade que a trilha sonora incessante continua lá, assim como as tradicionais musicais que permeiam a narrativa, mas ao menos as músicas compostas por Alan Menken mantém a jovialidade que consagrou “A Pequena Sereia”, como fica evidente na agitada canção de apresentação de Aladdin ou no sensacional número musical protagonizado pelo Gênio.

Câmera bate no rosto do narradorApresentação de AladdinNúmero musical protagonizado pelo GênioPor outro lado, a estrutura narrativa de “Aladdin” não traz nenhuma novidade e segue o padrão clássico das histórias de amor, com a Princesa rica se apaixonando pelo pobre protagonista, que deverá superar grandes desafios para finalmente conquistá-la. Mas isto não prejudica em nada a qualidade do longa, já que os diretores conduzem a narrativa com uma leveza desconcertante, jamais permitindo que ela se torne enfadonha. Além disso, o carisma dos personagens faz com que a plateia se identifique com eles e embarque nesta aventura.

Quando Jafar afirma que precisa encontrar o diamante bruto que pode entrar na caverna e resgatar a lâmpada, um corte seco do montador H. Lee Peterson nos leva até Aladdin, que surge fugindo dos guardas no mercado ao lado de seu fiel macaco Abu (voz de Frank Welker), evidenciando desde então a origem humilde do personagem, que sobrevive dos pequenos furtos que comete na feira da cidade. Divertido e vulnerável, Aladdin carrega alguns dos ingredientes básicos para criar empatia com a plateia, o que é essencial para que o espectador torça por seu sucesso. Assim, quando ele se apaixona por Jasmine, nós já estamos dispostos a acompanhar sua jornada até o fim, por maiores que sejam os obstáculos que surgem diante dele. E neste trajeto reside uma das principais mensagens do longa, que é a importância de assumir quem você é, já que tanto Aladdin quanto Jasmine passam por dificuldades quando tentam ser pessoas diferentes.

Fugindo dos guardasFiel macaco AbuDivertido e vulnerávelApresentada num zoom rápido que nos leva pelo mercado e revela sua aproximação de Aladdin, a encantadora Jasmine confirma a tendência de fortalecer as personagens femininas do estúdio apresentada antes em “A Pequena Sereia” e “A Bela e a Fera”, mostrando-se corajosa para enfrentar seu bondoso, porém facilmente manipulável pai e o cruel Jafar quando necessário, tendo participação ativa ainda no tenso terceiro ato que marca o confronto entre o protagonista e o grande vilão. Vestido com cores fortes como o preto e o vermelho, Jafar é o típico vilão caricatural da Disney, sempre empunhando um cajado em formato de cobra e com um olhar penetrante que busca assustar o público infantil.

Encantadora JasmineBondoso paiJafar o típico vilãoNo entanto, o personagem mais carismático de “Aladdin” é mesmo o divertido Gênio que ganha vida através da marcante voz de Robin Williams, com suas falas rápidas e seu jeito espalhafatoso conquistando o espectador assim que ele entra em cena. Dono de tiradas engraçadíssimas e um coração enorme, o Gênio ainda encontra espaço para nos emocionar ao falar sobre a solidão que enfrenta ao viver sozinho na lâmpada, num dos raros momentos melodramáticos de uma narrativa marcada pelo bom humor.

Divertido GênioJeito espalhafatosoTiradas engraçadíssimasAs piadas, aliás, surgem em profusão em “Aladdin”, seja em gags envolvendo a origem do nariz quebrado da Esfinge, seja na utilização de objetos distantes da realidade daquele ambiente (como carros) ou até mesmo na rápida referencia a “Pinocchio”, quando o Gênio diz que Aladdin está mentindo – e eu juro que vi o Gênio usar o rosto de Jack Nicholson quando falava sobre como Aladdin deveria cortejar Jasmine. Por outro lado, tanto o macaco Abu quanto o papagaio Iago (voz de Gilbert Gottfried) deveriam funcionar como alivio cômico, mas são raros os momentos realmente inspirados envolvendo estes personagens.

Origem do nariz quebrado da EsfingeReferencia a PinocchioRosto de Jack NicholsonO que não são raras em “Aladdin” são as grandes cenas, como a sensacional fuga da caverna após o herói encontrar a lâmpada, o lindo voo no tapete mágico de Aladdin e Jasmine embalado pela ainda mais bela música tema “A whole new world” e o empolgante terceiro ato em que Jafar assume o reino, repleto de imagens surreais e dominado por tons avermelhados que conferem uma aura infernal a sequência até que uma jogada inteligente do protagonista coloque as coisas no lugar e garanta o final feliz.

Sensacional fuga da cavernaLindo vooJafar assume o reinoMais leve e engraçado que as tradicionais animações Disney, “Aladdin” é uma boa diversão que se apoia no visual impactante e no carisma de seus personagens para funcionar e, felizmente, faz isto muito bem. Se não tem a genialidade que origina o nome de seu mais carismático personagem, ao menos esbanja o bom humor que tão bem caracteriza o prisioneiro da lâmpada mágica.

Aladdin foto 2Texto publicado em 14 de Abril de 2013 por Roberto Siqueira

Trilhas #002 – “The Mission Main Theme”, do filme “A Missão”

Vídeo publicado em 11 de Abril de 2013 por Roberto Siqueira

Vai faltar cerveja em Dortmund!

Dortmund x Malaga - A Virada

Clique aqui para ver os gols da incrível virada do Borussia, que garantiu o time alemão na semifinal da Liga dos Campeões da Europa.

Imagem divulgada em 09 de Abril de 2013 por Roberto Siqueira

Siskel & Ebert

Siskel & Ebert

Imagem publicada em 05 de Abril de 2013 por Roberto Siqueira

Ebert (1942 – 2013)

Amigos cinéfilos,

Não tenho palavras neste momento tão triste para a história da crítica cinematográfica. Fiquei chocado ao abrir o Google e ver a notícia que qualquer cinéfilo não gostaria de ler. Sendo assim, só posso indicar dois textos de pessoas sensíveis e capazes de expressar o que qualquer bom fã de cinema está sentindo neste momento. O primeiro, do meu mentor Pablo Villaça; o segundo, do meu grande amigo Achilles.

Mestre Ebert, você era simplesmente o melhor!

Obrigado por tudo.

Texto publicado no fatídico 04 de Abril de 2013 por Roberto Siqueira