OS INCOMPREENDIDOS (1959)

(Les Quatre Cents Coups)

 

Filmes em Geral #9

Dirigido por François Truffaut.

Elenco: Jean-Pierre Léaud, Claire Maurier, Albert Rémy, Guy Decomble, Georges Flamant, Patrick Auffay, Richard Kanayan, Yvonne Claudie, Robert Beauvais, Jacques Monod, Pierre Repp e Henri Virlojeux.

Roteiro: François Truffaut e Marcel Moussy, baseado em história de François Truffaut.

Produção: François Truffaut.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

François Truffaut estarreceu a platéia do festival de Cannes quando lançou este impressionante “Os Incompreendidos”, considerado o marco inicial da nouvelle vague, narrando à história de um jovem adolescente, que tranquilamente pode ser interpretada como a sua própria história, apesar dele não gostar de falar sobre isto. Com incrível talento, o diretor consegue conquistar o espectador de forma genuína e, ainda hoje, mais de cinqüenta anos depois, seu belíssimo filme de estréia ainda é capaz de emocionar.

Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud) é um aluno disperso, rebelde, que prefere ficar perambulando pelas ruas de Paris a ir para a escola, o que certamente é reflexo da relação conturbada que tem com sua mãe Gilberte Doinel (Claire Maurier) e com seu pai não-biológico Julien (Albert Rémy). Após sucessivos problemas na escola e em seu lar, o adolescente resolve fugir de casa e complica sua vida de vez quando realiza pequenos furtos pela cidade.

A semelhança entre as histórias de Antoine Doinel e François Truffaut não é mera coincidência. Na realidade, o personagem é uma espécie de alter-ego do diretor francês, que voltaria a utilizar Antoine em outros filmes durante a carreira. Responsável, ao lado de Marcel Moussy, pelo ótimo roteiro e pela produção de “Os Incompreendidos”, Truffaut canalizou sua triste história de vida para brindar os cinéfilos com este presente de primeira qualidade. Filmado nas ruas de Paris com realismo e enorme sensibilidade, o longa tem o mérito de olhar para a adolescência com carinho, sem julgamentos, e consegue exibir em celulóide muitas das complicações costumeiras desta difícil fase de nossas vidas.

“Os Incompreendidos” é um filme vigoroso e sua impressionante jovialidade se deve à excelente direção de Truffaut, que filma a adolescência com um olhar carinhoso e honesto, é verdade, mas também com extrema ousadia para a época. Como dito, em sua primeira experiência atrás das câmeras (antes era crítico da revista “Cahiers Du Cinéma”), levou às telas a sua própria história, pois assim como Doinel, o diretor também tinha problemas na escola, fazia pequenos furtos em Paris e ficou preso num reformatório para delinqüentes. Não é difícil, portanto, entender porque o talentoso diretor conduz a narrativa com tamanha segurança e conhecimento de causa, sem jamais glorificar ou julgar as atitudes do jovem Doinel. Truffaut consegue ainda o mérito de evitar o melodrama quando este poderia se fazer presente, além de evitar exponenciar os potenciais momentos cômicos do longa. Em outras palavras, o diretor acerta o tom da narrativa com exatidão. Sua direção também é discreta, sem enquadramentos ou movimentos de câmera muito estilizados, como costumava fazer com propriedade seu colega Jean-Luc Godard. Ainda assim, em alguns momentos o diretor nos brinda com imagens belíssimas, como a cena em que os garotos vão saindo da fila indiana em que praticam exercício pelas ruas de Paris e se perdendo nas ruelas da cidade, matando a aula sem que o professor percebesse. A escolha pela câmera afastada transforma uma cena que poderia soar engraçada em algo poético, distante e sensivelmente mais belo, graças à acertada escolha do diretor.

Tecnicamente, Truffaut conta com o auxilio da montagem de Marie-Josèphe Yoyotte para alternar entre o ritmo pungente das aventuras do garoto e os momentos contemplativos, de pura reflexão, como na cena em que ele, deitado na cama na escuridão de seu quarto, escuta a discussão dos pais ou no momento em que Doinel vaga pela noite à procura de algo para comer ou beber. Aliás, Doinel solitário tomando leite às pressas para que ninguém o capture é um dos momentos tocantes do filme. A trilha sonora nostálgica de Jean Constantin reforça o clima melancólico, enquanto a fotografia obscura (direção de Henri Decaë) reflete a visão angustiada de Doinel diante daquele mundo tão hostil. Merece destaque também a boa direção de arte de Bernard Evein, que mostra o contraste do lado belo de Paris, com sua imponente torre e seu ar glamoroso, e suas ruas degradadas e pouco convidativas, por onde Doinel caminha solitário durante a noite em que foge de casa, por exemplo.

Antoine Doinel não é uma pessoa necessariamente boa ou má. É apenas um jovem, com sonhos, desejos, pensamentos e reflexões, e que pouco se adapta aos métodos tradicionais de ensino. Também não se sente confortável em seu lar, onde convive entre sorrisos e discussões com seus complicados “pais”, interpretados com eficiência por Claire Maurier e Albert Rémy. E se pais está entre parênteses, não é apenas pelo fato de Julien não ser o pai biológico de Doinel, mas é também por causa da falta de atenção destes para com o garoto. Garoto que é interpretado de maneira espetacular por Jean-Pierre Léaud, que transmite toda revolta misturada com ingenuidade do jovem Doinel – ingenuidade esta que fica evidente com a desculpa que ele inventa para suas seguidas faltas na escola. Vale destacar, entre tantos momentos brilhantes de Léaud, seu sorriso incontido quando a psicóloga pergunta se ele já teve experiência com mulheres. Aliás, seu desempenho durante todo este diálogo é digno de aplausos, demonstrando com destreza a simplicidade do jovem, que não enxergava nada de errado no que fazia. Doinel era apenas um adolescente que, como bem diz a feliz tradução do filme em português, não era compreendido pelos adultos com quem convivia.

O último plano de “Os Incompreendidos” reflete muito bem a solidão que o adolescente sente em muitos momentos de sua vida. Afinal de contas, a adolescência é uma fase bastante complicada, pois já não somos mais crianças para poder viver praticamente sem responsabilidades, mas tampouco somos adultos para ter completa autonomia e decidir nossos caminhos. Além disso, não é nada fácil ter que começar a identificar seu lugar na sociedade, pensar no futuro, começar a assumir responsabilidades e tomar decisões determinantes para o resto de sua vida. Por isso, entender perfeitamente os dilemas de Doinel e mostrá-los sem máscara e sem julgamentos talvez seja o maior dos muitos méritos de Truffaut neste belíssimo filme.

Texto publicado em 20 de Setembro de 2010 por Roberto Siqueira

SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS (1989)

(Dead Poets Society)

 

Videoteca do Beto #65

Dirigido por Peter Weir.

Elenco: Robin Williams, Robert Sean Leonard, Ethan Hawke, Josh Charles, Gale Hansen, Dylan Kussman, Allelon Ruggiero, Kurtwood Smith, James Waterston, Norman Lloyd, Carla Belver, Leon Pownall, George Martin, Joe Aufiery e Lara Flynn Boyle.

Roteiro: Tom Schulman.

Produção: Steven Haft, Paul Junger Witt e Tony Thomas.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Utilizando uma rígida escola preparatória como pano de fundo, “Sociedade dos Poetas Mortos” ensina valores importantes aos jovens, contestando as burocráticas formas de ensino e incentivando o pensamento e o raciocínio livre, sem se prender aos métodos e fórmulas das instituições educacionais. Além disso, critica claramente o autoritarismo e utiliza belos poemas de gênios como Shakespeare para embasar sua mensagem principal de liberdade de expressão. Se há algum problema no belo filme dirigido por Peter Weir, certamente é o seu final melodramático e previsível, que, por outro lado, funciona perfeitamente como agente motivador daqueles que assistem ao filme antes de assistir a tantos outros com estrutura narrativa semelhante.

Ex-aluno da tradicional escola preparatória Welton Academy, o professor John Keating (Robin Williams) retorna ao local como o novo professor de literatura. Seus métodos nada tradicionais, que buscam incentivar os alunos a pensarem por si mesmos, colidem com a rígida direção do colégio, mas inspiram os jovens alunos a ressuscitarem a velha “Sociedade dos Poetas Mortos”.

Logo em sua primeira aula, o professor Keating causa grande impacto nos alunos, com seu método alternativo de lecionar. Através de belas mensagens, como o lema “Carpe Diem” (aproveitem o dia) sussurrado nos ouvidos dos jovens enquanto estes aprendem sobre os alunos do passado, o professor consegue despertar a paixão pela poesia e pela vida naquele grupo de alunos, ao mesmo tempo em que desperta a fúria de seus pais e dos diretores do colégio, que não aceitam seus métodos diferenciados. Com sua costumeira competência, Robin Williams transmite toda a segurança do professor naquilo que fala através do olhar sereno, sempre convicto. Alternando entre momentos de calmaria e viscerais explicações sobre seu método de olhar a vida, como quando sobe na mesa para ensinar os alunos a olhar o mundo sob outro prisma, o inteligente professor Keating é responsável por despertar o prazer pela leitura e, principalmente, a sede por realizar os sonhos naqueles jovens estudantes. E além de transmitir muito bem esta paixão do professor pela arte e pela vida, Williams ainda brinda o espectador com uma pequena (e engraçada) imitação de grandes atores do cinema, como a lenda Marlon Brando. Vale notar também como na excelente cena em que Keating pede para os alunos rasgarem a página de um importante autor, a personalidade de alguns deles fica evidente através da forma como eles agem. Enquanto alguns se empolgam e rasgam os papéis eufóricos, outros hesitam e até mesmo contestam o professor – o que refletirá num momento chave da trama, quando um aluno se volta contra a “sociedade” e contra Keating. Entre os destaques do jovem elenco, podemos citar a boa atuação de Robert Sean Leonard como o impetuoso e determinado Neil Perry. Extremamente carismático, o ator consegue transmitir o espírito jovial e aventureiro do personagem, que será determinante também para o seu trágico destino. Além de Leonard, também merece destaque o belo trabalho de Ethan Hawke, que interpreta muito bem o tímido Todd Anderson. De poucas palavras e evitando o contato direto através do olhar sempre baixo, o jovem Todd enfrenta enorme dificuldade para se adaptar à nova escola e o ator transmite este sentimento com enorme precisão. Repare, por exemplo, como Todd desvia o olhar quando confrontado por Keating na sala de aula, evidenciando sua enorme dificuldade de se expor e se relacionar com as pessoas. Carente, como fica evidente quando recebe um “presente” de seus pais, o jovem não tem forças para encarar a vida de frente, fechando-se completamente para tudo que está em sua volta. E será justamente a convivência com o excêntrico professor que fará com que ele consiga, à sua maneira, lidar melhor com o mundo ao seu redor. Finalmente, devo citar o unidimensional Sr. Perry, interpretado por Kurtwood Smith, que não consegue apoiar o filho nem mesmo quando testemunha o seu talento no palco, o que levará sua família a uma tragédia irreversível.

Além das boas atuações, “Sociedade dos Poetas Mortos” conta ainda com a eficiente direção de Peter Weir. Alternando entre os lindos planos no exterior da escola, que aproveitam a beleza do local, com o uso freqüente do close, que realça as reações dos alunos às palavras do professor, destacando as boas atuações do elenco, o diretor conduz a narrativa num ritmo lento, porém jamais cansativo. Além disso, ele utiliza a câmera para transmitir sensações ao espectador, como quando o professor Keating se empolga na tentativa de extrair o melhor de Todd. A câmera de Weir circula os personagens, fazendo com que o espectador sinta a mesma sensação de desorientação de Todd, que, atordoado, consegue esquecer onde está e mostrar seu talento. Finalmente, o diretor conduz muito bem a cena de maior impacto do longa, revelando lentamente um revólver no chão, seguido pelo plano da mão de Neil. Momentos depois, Weir diminui Todd na neve após a notícia da morte de Neil, refletindo o vazio no coração do jovem e a sensação de impotência diante da morte, numa cena melancólica, reforçada pela fotografia cinza de John Seale.

A fotografia de John Seale, aliás, é o grande destaque na parte técnica do longa. Repare, por exemplo, como no primeiro encontro na caverna, a fotografia escura cria um clima aconchegante e aproxima o espectador do grupo, como se ele fizesse parte daquela turma. A sensação de liberdade se mistura ao medo de ser encontrado pelos superiores da escola, justamente por causa da falta de visibilidade da cena. No segundo encontro na mesma caverna, a fotografia mais limpa e o local melhor iluminado refletem a segurança que eles já sentiam naquele local. Também merece destaque a direção de arte de Sandy Veneziano que, auxiliada pelos figurinos de Marilyn Matthews (o uniforme padrão dá um sentido de unidade ao grupo de alunos), ambienta com eficiência o espectador àquela rígida instituição, graças também a bela e melancólica trilha sonora de Maurice Jarre.

Mas apesar do trabalho eficiente de toda equipe, a força principal de “Sociedade dos Poetas Mortos” reside mesmo no bom roteiro de Tom Schulman que, através de pequenas mensagens motivacionais (como a citada cena em que Keating sobe na mesa), faz com que o espectador sinta uma enorme vontade de viver e buscar a realização de seus sonhos. O roteiro, auxiliado pela montagem de William M. Anderson e Lee Smith, também alterna muito bem entre estas mensagens motivacionais e os poemas, que funcionam como uma pequena homenagem à literatura e ao prazer pela leitura. Além disso, evidencia como o autoritarismo, tanto dos professores como dos pais, pode ser prejudicial ao desenvolvimento dos jovens. A rigidez no método de ensino e nos métodos de criação dos filhos servia apenas para causar temor naqueles jovens, inibindo qualquer manifestação de talento que pudesse surgir. Pais e professores confundiam, portanto, temor com respeito, fazendo com que eles fossem temidos, o que é bem diferente de ser respeitado e claramente prejudicial.

Dirigido e interpretado com eficiência e trazendo ainda uma bela mensagem, “Sociedade dos Poetas Mortos” funciona muito bem, elevando a auto-estima do espectador. O final, apesar de previsível, emociona e faz com que este se sinta recompensado ao ver os alunos se rebelarem contra a opressão, graças também a boa atuação do elenco, em especial de Hawke e Williams, que criam uma bela conexão na cena – afinal de contas, Keating foi o responsável pelos raros momentos de alegria na vida do jovem Todd. Por outro lado, passada a euforia da seqüência final, o espectador pensará racionalmente e perceberá que esta emoção, apesar de edificante, soa um pouco manipulada e previsível. Mas, assim como a assinatura de Todd na investigação de Keating, este é um escorregão menor diante de tantas qualidades.

Texto publicado em 11 de Setembro de 2010 por Roberto Siqueira

NASCIDO EM 4 DE JULHO (1989)

(Born on the Fourth of July)

 

Videoteca do Beto #64

Dirigido por Oliver Stone.

Elenco: Tom Cruise, Willem Dafoe, Kyra Sedgwick, Bryan Larkin, Raymond J. Barry, Caroline Kava, Tom Berenger, Josh Evans, Seth Allen, Jamie Talisman, Sean Stone, Anne Bobby, Jenna von Oi, Samantha Larkin, Erika Geminder, Kevin Harvey Morse, Jessica Prunell, Frank Whaley, Jason Klein, Jerry Levine, Lane R. Davis, Richard Panebianco, Johnny Pinto, Rob Camilletti, J.R. Nutti, Stephen Baldwin, Oliver Stone e Tom Sizemore.

Roteiro: Oliver Stone e Ron Kovic, baseado em livro de Ron Kovic.

Produção: A. Kitman Ho, Lope V. Juban Jr. e Oliver Stone.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Três anos depois de dirigir “Platoon”, o filme “definitivo” sobre a guerra do Vietnã, o diretor Oliver Stone volta ao tema para contar a “guerra após a guerra” com seu “Nascido em 4 de Julho”, belo drama baseado na história verídica de Ron Kovic, ex-combatente do Vietnã (assim como o diretor) gravemente ferido nos campos de batalha. A luta pessoal de Kovic para conseguir se readaptar a sociedade norte-americana após retornar paralítico do conflito e a sua gradual mudança de ideologia é o tema central do bom longa estrelado pelo então jovem astro Tom Cruise.

Jovem idealista e cheio de sonhos, o patriota Ron Kovic (Tom Cruise) deixa para trás a família e a namorada (Kyra Sedgwick) para lutar voluntariamente no Vietnã. Após se chocar com a triste realidade da guerra, ao ver crianças e mulheres vietnamitas assassinadas acidentalmente, Kovic é gravemente ferido e fica paraplégico. Pra piorar, seu retorno à pátria amada não será glorioso como ele imaginava e Kovic terá de enfrentar o preconceito e as dificuldades provocadas por sua condição física, o que faz com que ele passe a lutar também por seus direitos, agora negados pelo mesmo governo que o enviou para o Vietnã.

Personagem rico e complexo, Ron Kovic é interpretado com competência por Tom Cruise, numa das grandes atuações de sua carreira. A longa introdução de “Nascido em 4 de Julho” serve para criar empatia entre o espectador e o personagem principal, o que faz com que o espectador se importe com o destino do personagem. Nascido no dia da independência de seu país, o jovem Ron tem seu patriotismo reforçado durante o pomposo desfile do dia 04 de Julho, com centenas de bandeiras dos Estados Unidos, música típica norte-americana e o desfile de ex-combatentes do exército nacional. Nesta cena, aliás, vale observar como a câmera lenta de Stone realça um momento emblemático na vida do jovem Ron, auxiliado pela triste trilha sonora de John Williams, que indica o trágico destino do protagonista. Numa interessante rima narrativa, Ron sofrerá muitos anos depois um enorme choque diante da dura realidade quando estiver do lado de lá do desfile, sendo ele o “homenageado”, mas vendo diversas pessoas protestando enquanto desfila, e posteriormente, no discurso hipócrita dos governantes. Jovem determinado a honrar a tradição da família e “servir a pátria”, Ron deixa claro durante uma conversa com os amigos a respeito do alistamento voluntário como o governo utilizava o comunismo para influenciar os jovens a seguir para a guerra. Filho de pais religiosos e muito rígidos (ter a revista Playboy era um pecado mortal), o jovem via no exército a chance de ser alguém importante, o que não impede que ele se sinta aflito momentos antes de seguir para o Vietnã e deixar para trás família e namorada – e neste momento, Cruise transmite muito bem a aflição de Ron quando pede a orientação divina. O ator também demonstra com competência a aflição do personagem quando o padre lhe dá a extrema unção após ferir-se em combate, e novamente, quando o médico o deixa sozinho (“Eu quero minhas pernas!”). A boa atuação de Tom Cruise cresce ainda mais após a tragédia. Repare como ator transmite perfeitamente a revolta do personagem, além de demonstrar com muita veracidade a enorme dificuldade para se movimentar, imposta pela limitação física. A transformação ideológica de Ron, ilustrada até mesmo em seu visual, começa a dar sinais quando ele conversa com um amigo, também ex-combatente, e reflete sobre a validade de todo aquele sacrifício. Em seguida, começa a se afundar na bebida e externar sua revolta, o que resulta na cena mais impactante do filme, quando ele dispara contra a família, o governo e até mesmo contra Deus. Vale observar também como a cena é rica em detalhes, como a decepção de sua mãe, revoltada com as palavras do filho. Caroline Kava, aliás, se sai muito bem na pela da puritana Sra. Kovic, que coloca sua fé acima até mesmo do próprio filho. Completando o elenco, apesar de pequena, a participação do ótimo Willem Dafoe é marcante, transmitindo muito bem a revolta de Charlie pela vida que leva, como fica evidente na sensacional discussão entre ele e Ron na estrada. O longa conta ainda com pequenas aparições do ótimo Tom Berenger, como o Sargento Hayes, e do próprio Oliver Stone, como um repórter. Finalmente, Kyra Sedgwick vive o par romântico de Cruise, interpretando Donna de forma correta, mas sem grande destaque.

O bom roteiro de Oliver Stone e do verdadeiro Ron Kovic, baseado em livro do próprio Kovic, espalha diversas críticas à política belicista norte-americana, seja nas palavras do amigo Steve Boyer (Jerry Levine) sobre as mentiras do governo engolidas pelos jovens idealistas ou na reação do irmão de Ron assim que ele retorna paralítico. Após sua transformação, Ron também passa a questionar a guerra, resumindo em seu discurso para uma emissora de televisão a mensagem principal do longa. E neste discurso também estão as palavras de Stone, que aponta o dedo para os governantes americanos e diz que a guerra do Vietnã foi um erro, levando à morte de milhares de jovens inocentes a mais de 20 mil quilômetros de distância, enquanto os lideres do governo faziam discursos inflamados de terno e gravata. Por outro lado, o roteiro escorrega no melodrama, por exemplo, quando a mãe de Ron diz que sonhou com ele discursando igual ao presidente, com a melancólica trilha sonora ao fundo.

Mas se escorrega em alguns detalhes do roteiro, Oliver Stone compensa o espectador com uma direção impecável, conduzindo a narrativa com firmeza e estilo. Repare, por exemplo, como Stone mantém a câmera agitada durante o conflito, com closes da mata e dos soldados, aumentando a sensação de desorientação. Esta desorientação culmina com a imagem de Wilson (Lili Taylor) vindo contra o sol e sendo acidentalmente morto por Ron, numa tragédia que lhe incomodará pelo resto de sua vida (e Cruise também é competente na transmissão deste sentimento). O diretor cria ainda um impressionante plano quando Ron, atingido por um tiro no peito, cai na mata cuspindo sangue, realçando o impacto da cena através da câmera lenta e do plano da mão dele agarrada à mata, além de utilizar em diversos momentos uma câmera subjetiva, sob o ponto de vista dos personagens, como quando Ron chega ao baile ou quando sua mãe vai ao seu encontro em seu retorno. Esta técnica fica mais evidente quando o diretor mantém a câmera na linha de cintura dos personagens, algo que ocorre principalmente na seqüência do México, nos colocando na mesma situação de desconforto de Kovic. Finalmente, Stone cria ainda planos emblemáticos – como o rosto de Kovic refletindo numa foto, transmitindo a tristeza dele ao ver o passado, quando podia andar – e cenas belíssimas, como a dança entre Ron, molhado pela chuva, e Donna, seguida pelo beijo e a música triste que indicam uma despedida inconsciente do jovem àquela vida, ou a emblemática seqüência do massacre na aldeia vietnamita (que também acontece em “Platoon”), que provoca um choque no jovem Ron (“Nós fizemos isso?!”). Chocado também fica o espectador quando, já no final do filme, os policiais afastam de forma violenta os manifestantes, sem nenhum respeito pelo ser humano, agredindo até mesmo os deficientes físicos.

Ainda na parte técnica de “Nascido em 4 de Julho”, a montagem de David Brenner e Joe Hutshing conduz a narrativa em bom ritmo, apesar de alguns escorregões, como os desnecessários flashbacks de cenas que já vimos anteriormente (como as palavras da mãe de Ron repetidas quando ele caminha para discursar, na última cena do filme). A dupla também utiliza o fade em diversos momentos, escurecendo completamente a tela e refletindo o vazio dentro do coração de Kovic. Além disso, faz um interessante raccord sonoro no momento em que Ron deixa a casa dos Wilson, cortando para o mesmo Ron já entre os veteranos que protestam contra a guerra. A direção de fotografia de Robert Richardson cria um visual opaco no Vietnã, que destaca o amarelo e reforça a aridez do campo de batalha. Por outro lado, a fotografia fria e sem vida durante a infância de Kovic deixa claro que esta época é apenas uma lembrança distante na memória dele, contrastando muito bem com a fotografia vermelha do prostíbulo mexicano em que ele vive seu inferno astral. O trabalho de som é espetacular, captando todos os detalhes, como passos na grama, tiros, bombas, helicópteros e os gritos desesperados dos combatentes. E finalmente, as péssimas condições do hospital refletem o descaso do governo com os “heróis de guerra” – algo que fica evidente quando o médico diz que a verba foi reduzida – e revela o bom trabalho de direção de arte de Richard L. Johnson e Victor Kempster.

Quando o pai de Wilson (Tony Frank) diz com orgulho que a família lutou em todas as guerras em que o país se envolveu, “Nascido em 4 de Julho” está na verdade escancarando a necessidade norte-americana de se envolver em conflitos. Repare como Stone foca o neto dele com uma arma na mão quando o Sr. Wilson diz que “estamos sempre prontos para partir”, num plano simbólico que demonstra o tipo de pensamento que leva estes jovens ao conflito e a morte. Por outro lado, o velho Wilson se redime quando diz que nunca vai entender esta guerra, resumindo também o pensamento dos dois roteiristas do longa. Nesta conversa, aliás, Stone coloca Ron no canto da tela, mostrando como ele está claramente intimidado naquele ambiente, em outro momento de destaque na emocionada atuação de Cruise. Ron precisava aliviar sua alma, aflita desde o momento em que disparou acidentalmente contra Wilson. Stone também precisava dizer ao mundo a verdade sobre a guerra do Vietnã, e fez isso com competência por duas vezes, em trabalhos que se complementam.

Oliver Stone confirma que é um diretor competente e, acima de tudo, corajoso ao tocar novamente na ferida norte-americana provocada pela guerra do Vietnã. Com um roteiro audacioso, ainda que tenha problemas, e uma grande atuação de Tom Cruise, “Nascido em 4 de Julho” consegue transmitir a mensagem que deseja, tocando o espectador e principalmente, abrindo os olhos para a triste realidade da guerra, aquela que não aparece nas propagandas e discursos inflamados de governantes. Felizmente, o cinema se encarregou de mostrar a realidade ao longo dos anos através de obras marcantes como esta.

Texto publicado em 07 de Setembro de 2010 por Roberto Siqueira

MÁQUINA MORTÍFERA 2 (1989)

(Lethal Weapon 2)

 

Videoteca do Beto #63

Dirigido por Richard Donner.

Elenco: Mel Gibson, Danny Glover, Joe Pesci, Joss Ackland, Derrick O’Connor, Patsy Kensit, Darlene Love, Traci Wolfe, Steve Kahan, Mark Rolston, Jenette Goldstein, Dean Norris, Juney Smith e Nestor Serrano.

Roteiro: Jeffrey Boam, baseado em estória de Shane Black e Warren Murphy.

Produção: Richard Donner e Joel Silver.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Embalado pelo sucesso de “Máquina Mortífera”, o diretor Richard Donner se juntou novamente a dupla Mel Gibson e Danny Glover para realizar este “Máquina Mortífera 2”, que felizmente consegue manter as melhores características do primeiro filme e, através da introdução de novos elementos na narrativa, renova a trama, evitando que o espectador tenha a sensação de estar vendo uma simples repetição do que já viu anteriormente. Além disso, o longa apresenta seqüências de ação de tirar o fôlego, recheadas com um humor sarcástico que mantém a narrativa leve e descontraída.

A dupla de policiais formada pelo maluco Martin Riggs (Mel Gibson) e pelo pai de família Roger Murtaugh (Danny Glover) tenta combater o traficante de drogas Arjen “Aryan” Rudd (Joss Ackland) que, por ser do corpo diplomático da África do Sul, usa sua imunidade política como escudo para poder cometer seus crimes livremente. A situação da dupla de policiais se complica ainda mais quando os dois são escolhidos para dar proteção a uma testemunha chave do governo, o chato Leo Getz (Joe Pesci).

Logo no início de “Máquina Mortífera 2” o espectador já pode perceber que as principais características do primeiro filme foram mantidas nesta seqüência, através da alucinante perseguição de carro pela cidade. Novamente, Riggs se mostra agitado e sem medo da morte e Roger mais preocupado com sua família do que com qualquer outra coisa. A empolgante perseguição serve também para confirmar o bom trabalho técnico da equipe liderada por Richard Donner, a começar pela a excelente montagem de Stuart Baird – que mantém a cena num ritmo frenético – e pelo belo trabalho de som e efeitos sonoros, que capta com precisão o barulho dos veículos em alta velocidade, os diálogos e principalmente os tiros e explosões. Também se destaca o bom trabalho do próprio Donner, que conduz a cena com segurança e envolve o espectador completamente na narrativa com menos de dez minutos de projeção. A seqüência de abertura revela ainda a característica principal da série, misturando ação e bom humor quando Riggs ri durante a perseguição e diz pra Roger que ele tinha razão, pois “não tinha espaço” para o carro passar. Finalmente, a trilha sonora nostálgica dos excelentes Eric Clapton, Michael Kamen e David Sanborn também está presente nesta continuação.

Um dos grandes destaques do longa, o roteiro de Jeffrey Boam, baseado em estória de Shane Black e Warren Murphy, espalha pela narrativa diversos diálogos sobre coisas banais, como o método utilizado pelo drive-thru para enganar os clientes, o que reforça o clima descontraído. Também colabora a direção de fotografia de Stephen Goldblatt, que utiliza cores vivas durante boa parte da narrativa, o que contrasta muito bem com os momentos de tensão, que normalmente se passam no período da noite e, portanto, com um visual mais sombrio. O roteiro aproveita o clima descontraído para apresentar características dos personagens que refletirão em momentos chave da narrativa, como a brincadeira de Riggs ao deslocar o ombro no departamento de polícia. Uma das marcas da série, o bom humor aparece com força total neste segundo filme, por exemplo, quando Roger assiste junto com toda a família o comercial de Rianne sobre camisinhas (até mesmo Roger ri quando os policiais montam uma árvore em homenagem ao comercial de sua filha) ou quando o som da máquina de pregar faz com que Riggs e Roger se deitem no chão com as armas na mão. Repare que nem mesmo os vilões escapam das piadas do roteiro, como quando um dos capangas de Arjen diz que “só estava vendo se estava em cima do plástico”, numa engraçada referencia à morte de outro parceiro. Mas se por um lado este aspecto mantém a narrativa leve e descontraída, por outro claramente enfraquece os vilões diante do espectador. Em outro momento hilário, Roger fica preso na privada devido a uma bomba e Riggs, apesar de prometer não causar muito alarde, convoca todo o departamento de polícia e a imprensa. Rapidamente, o momento de descontração é substituído pela tensão antes da explosão da bomba, o que serve também para que a dupla prove mais uma vez sua afinidade e amizade através do diálogo que precede a explosão. Outro momento que foge do tom leve da narrativa acontece quando Trish Murtaugh (Darlene Love) encontra uma caneta dourada, o que serve de gancho para que o roteiro explique como foi a morte de Vicki, esposa de Riggs, e mostre como este assunto claramente ainda o perturba. Finalmente, Jeffrey Boam espalha pelo roteiro algumas críticas de forma sutil, como a aposta paga por um policial com a moeda sul-africana que demonstra a corrupção da polícia ou o interessante protesto político contra a matança dos peixes através dos gritos para Roger não comer atum.

Mantendo uma das características do primeiro filme, a fragilidade dos vilões fica evidente em diversos momentos do longa. Repare, por exemplo, a facilidade com que Riggs entra no prédio do consulado sul-africano depois da confusão armada por Roger. Novamente os vilões não conseguem dar a sensação de que representam alguma ameaça à dupla de policiais, talvez pelo tom leve da narrativa ou simplesmente pelas atuações apenas razoáveis dos bandidos. Nem mesmo a tentativa de Donner, ao engrandecer Arjen na tela filmando-o de baixo pra cima ou ao mostrar o chefão eliminando um de seus comparsas após este perder o dinheiro numa fuga de carro, consegue transformar o vilão em alguém temível. Somente no terceiro ato é que os bandidos finalmente passam a representar uma séria ameaça, quando começam a eliminar de seu caminho todos os policiais. Neste momento, aliás, a trama aumenta consideravelmente a carga dramática, através do assassinato de Rika (Patsy Kensit), num plano impressionante embaixo da água, da tortura de Leo e da revelação do assassino de Vicki. Até mesmo a atuação de Gibson melhora consideravelmente neste momento, expressando muito bem a raiva do personagem (“Esta noite não sou policial. É pessoal!”) e partindo para a vingança de forma alucinada. “Não tente me deter Roger”, diz Riggs, claramente transtornado e sedento por vingança. Este, aliás, é um tema recorrente na carreira de Gibson, que freqüentemente interpreta homens que, após terem a família dizimada, partem para a vingança sem medir esforços e conseqüências – o que não diminui a qualidade do trabalho do ator, por mais que não seja uma novidade.

Mel Gibson, vale dizer, que está bem novamente na pele do debochado Riggs. O ator mantém o ritmo frenético do personagem, correndo, pulando, lutando e dando a sensação, com seus olhos arregalados, de estar sempre pronto para explodir. Mas além deste aspecto, Gibson mostra muita qualidade no timing cômico, já que Riggs é responsável por grande parte das ótimas piadas do filme. Observe, por exemplo, como ele contém o riso quando o “careta” Roger se irrita ao ver o comercial de Rianne ou sua forma “carinhosa” de curar um ferimento no nariz de Leo. Quem também repete a boa atuação do primeiro filme é Danny Glover. Seu Roger Murtaugh é o contraponto ideal para a loucura de Riggs, se mostrando sempre focado em sua família e ao mesmo tempo, jamais deixando o parceiro na mão. Novamente a dupla demonstra uma sintonia incrível através dos diálogos sarcásticos e irônicos, o que garante a empatia do espectador. Mas “Máquina Mortífera 2” precisava de algo novo para não se tornar um filme do tipo “mais do mesmo” e para isto conta com um reforço de peso em seu elenco, já que o fantástico Joe Pesci dá as caras para interpretar o irritante Leo Getz de forma fabulosa. Suas falas rápidas, o jeito atrapalhado e as constantes piadas e perguntas infantis fazem de Leo um personagem encantador. Repare sua empolgação quando finalmente se envolve numa perseguição policial (“Isto é assunto da polícia!”) e sua felicidade quando enfim os amigos policiais permitem que ele ligue a sirene.

A competente direção de Donner é responsável ainda pela condução das ótimas seqüências de ação. Numa das grandes cenas do filme, o som dos helicópteros sobre a água serve de alerta para que Riggs e Rika tentem fugir antes do massacre proporcionado pelos vilões em seu trailer. A ação também aparece com força total no terceiro ato, primeiro com a fúria de Riggs, que resulta na destruição da casa de Arjen (repare como ele explode de satisfação quando a casa vem abaixo) e depois, com a tensa seqüência final dentro do navio, onde assim como no primeiro filme, Riggs resolve seus problemas numa luta com seu rival. Donner cria ainda um pequeno suspense quando Riggs cai baleado, mas o bom humor volta com força total no último e engraçado diálogo da dupla, com Riggs deitado no colo do amigo.

Richard Donner consegue repetir em “Máquina Mortífera 2” a fórmula de sucesso do primeiro filme da série, mesclando com competência o bom humor e as espetaculares cenas de ação. Talvez a narrativa leve demais não dê ao tema abordado o peso dramático que este sugere, mas felizmente o segredo do sucesso do filme está na mistura entre ação e humor, e não na discussão sobre o tráfico e suas conseqüências. Dentro de sua proposta, é um filme eficiente, que diverte plenamente o espectador, graças também ao competente trabalho da dupla Gibson e Glover. Por tudo isto, assim como Roger fez com seu tiro certeiro em Arjen, Richard Donner acertou novamente no alvo.

Texto publicado em 03 de Setembro de 2010 por Roberto Siqueira

INDIANA JONES E A ÚLTIMA CRUZADA (1989)

(Indiana Jones and the Last Crusade)

 

Videoteca do Beto #62

Dirigido por Steven Spielberg.

Elenco: Harrison Ford, Sean Connery, Denholm Elliott, Alison Doody, John Rhys-Davies, Julian Glover, River Phoenix, Michael Byrne, Kevork Malikyan, Richard Young, Alexei Sayle e Paul Maxwell.

Roteiro: Jeffrey Boam, baseado em estória de George Lucas e Menno Meyjes.

Produção: Robert Watts.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após iniciar a saga do arqueólogo Indiana Jones com o maravilhoso “Os Caçadores da Arca Perdida”, Steven Spielberg adotou um tom mais obscuro e, conseqüentemente, menos interessante no segundo filme da série, o apenas razoável “Indiana Jones e o Templo da Perdição”. Felizmente, o talentoso diretor volta a utilizar com força total as principais características da série neste delicioso “Indiana Jones e a Última Cruzada”, misturando com eficiência o bom humor e as engenhosas seqüências de ação, e de quebra, ainda introduz o tema “relacionamento entre pais e filhos”, algo recorrente em sua filmografia.

Após descobrir que seu pai (Sean Connery) havia sido capturado pelos nazistas enquanto buscava encontrar o santo Graal, o arqueólogo Indiana Jones (Harrison Ford), acompanhado de seu amigo Marcus Brody (Denholm Elliott), parte em busca do precioso artefato e, principalmente, para tentar salvar seu pai. Ao desembarcar em Veneza, encontra a ajuda da misteriosa Dra. Elsa Schneider (Alison Doody) e novamente se envolve numa série de aventuras.

Definitivamente, “Indiana Jones e a Última Cruzada” é um legítimo representante da série que fez tanto sucesso nos anos oitenta, como podemos notar desde o clássico início com o logo da Paramount se transformando numa montanha. A linha vermelha no mapa enquanto vemos a imagem do avião, o envolvimento com uma mulher, o chapéu, o chicote e a empolgante trilha sonora também continuam presentes. Spielberg mantém ainda outra característica marcante da série, abusando do bom humor. Aliás, se “O Templo da Perdição” se perdia em meio ao clima pesado demais, este “A Última Cruzada” é o mais leve e engraçado dos três filmes. O diretor também dá um show logo na seqüência de abertura, quando o jovem Indy (River Phoenix) foge em cima de um trem com um precioso artefato, abusando da criatividade durante a atrapalhada fuga do rapaz, além de utilizar animais de verdade, sem efeitos digitais, o que somado aos tradicionais truques mecânicos (outra marca da série), confere muito mais realismo à cena. O diretor também demonstra seu talento na condução de cenas extremamente empolgantes de ação, como quando os nazistas perseguem os Jones de moto e na seqüência do deserto em que Indy faz malabarismos para conseguir escapar dos alemães. Além disso, o diretor utiliza a câmera com função narrativa, como no momento em que o zoom na placa “Berlim” indica o caminho que os heróis seguiram. Finalmente, a seqüência final dentro da caverna é carregada de tensão enquanto Indy desvenda os mistérios em busca do cálice e se encerra de forma emocionante quando o Sr. Jones finalmente chama o filho de “Indiana”, deixando claro que a vida deles era muito mais importante que aquele artefato religioso.

Spielberg também inova ao apresentar uma excelente introdução mostrando a juventude de Indy, que serve como base para o fio condutor da narrativa: o relacionamento entre pai e filho. Além disso, serve também para apresentar traços marcantes da personalidade dele, como o medo de cobras e a tomada rápida de decisão, além de revelar como ele passou a utilizar o chicote e o chapéu. Tudo isto é mérito também do bom roteiro de Jeffrey Boam, baseado em estória de George Lucas e Menno Meyjes, que divide a narrativa em duas linhas principais. A primeira delas se concentra na busca pelo Graal e abre espaço para as sensacionais aventuras do arqueólogo. Já a segunda linha narrativa olha, ainda que de forma superficial e bem humorada, para os problemas de relacionamento entre pai e filho que, como dito, é um tema recorrente nos filmes de Spielberg. Além disso, apresenta diversos momentos que remetem ao primeiro filme, a começar pelo plano do professor Jones dando aula, seguido pela referência à Arca da Aliança, a morte de um vilão que se transforma em esqueleto (que claramente lembra o rosto derretido) e, finalmente, até mesmo os próprios vilões nazistas estão presentes nos dois filmes.

Entre o elenco o destaque vai para Harrison Ford, que dá outro show na pele do arqueólogo Indiana Jones, e Sean Connery, que vive o pai de Indy. É impressionante notar como Ford se sente à vontade no papel do carismático herói. Ator e personagem se misturam e nem sequer podemos imaginar outro ator em seu lugar. Todos os trejeitos, olhares e até mesmo o timing cômico do personagem soam perfeitos graças ao talento de Ford. Repare, por exemplo, seu olhar de satisfação quando Elsa descobre que a página com o mapa foi arrancada do diário ou o seu sorriso de alivio quando Hitler autografa o diário. Já Sean Connery mostra seu talento desde sua primeira aparição, formando uma dupla perfeita com Ford. Famoso por interpretar James Bond (o pai cinematográfico de Indiana Jones), ninguém melhor do que ele para interpretar o pai de Indy e impor respeito. A química dos dois atores é perfeita, sendo responsável por diálogos deliciosos e cheios de sarcasmo, presenteando ainda o espectador com pelo menos dois momentos hilários, quando Henry Jones incendeia acidentalmente uma sala nazista e quando ele encontra uma passagem secreta, provocando a queda imediata de Indy pela escada. Mas apesar de cômica, a relação dos dois tem um traço de ressentimento perceptível em alguns momentos, como num diálogo expositivo que explica a morte da Sra. Jones. Observe, por exemplo, como o Sr. Jones chama Indy de “Júnior” diversas vezes, provocando a irritação do filho, como se ainda o visse como um menino. Note também como em diversos momentos Indy toma atitudes que lhe enche de orgulho próprio, mas seu pai olha com desaprovação, provocando sua imediata mudança de feição. A troca de olhares entre Ford e Connery, aliás, também provoca momentos muito engraçados, como quando eles conversam com os nazistas sobre o diário e quando o Sr. Jones diz que Elsa fala enquanto dorme, deixando claro que também dormiu com ela. No único momento em que tenta se abrir com o pai, Indy fica sem palavras, e novamente o roteiro toca na difícil relação entre pai e filho de maneira bem humorada, algo que se repetiria na cena em que Indy supostamente cai do penhasco, provocando a confissão de seu pai (“Achei que tinha te perdido”). Nesta cena, aliás, Spielberg cria um pequeno suspense antes de revelar, novamente com bom humor, a salvação de Indy. Fechando o elenco, temos ainda Alison Doody, que vive a sensual e perigosa Elsa Schneider com elegância, Denholm Elliott, interpretando o engraçado Marcus Brody e o retorno do fascinante Sallah, interpretado novamente com competência por John Rhys-Davies.

Também merece destaque o trabalho técnico feito em “Indiana Jones e a Última Cruzada”, a começar pela montagem de Michael Kahn, que tem papel fundamental nas espetaculares seqüências de ação, alternando entre os vários planos com agilidade. Além disso, mantém a narrativa num ritmo sempre empolgante, o que é essencial numa aventura. Kahn ainda faz algumas transições interessantes, como no momento em que através do chapéu o jovem Indy se transforma no adulto Indiana Jones. A direção de arte de Stephen Scott, auxiliada pelos ótimos figurinos de Joanna Johnton e Anthony Powell e pela bela direção de fotografia de Douglas Slocombe, capricha na ambientação do espectador, criando três ambientes completamente diferentes. A beleza estonteante de Veneza contrasta com a gélida seqüência em território alemão e austríaco, ao passo em que o deserto tem um visual mais seco, refletindo o crescente desconforto de Indy na medida em que avança em sua missão. Slocombe também capricha na fotografia obscura dentro da caverna, iluminada somente com velas e tochas, além de carregar nos tons escuros como o preto e o vermelho que, auxiliado pelas tochas, conferem um ar infernal ao desfile nazista, simbolizando o mal encarnado naqueles vilões. Finalmente, merece destaque também o bom trabalho de som e efeitos sonoros, perceptível principalmente nas seqüências de ação.

Como não poderia deixar de ser, “Indiana Jones e a Última Cruzada” termina de forma bem humorada, revelando o nome completo de Indy e a origem de seu “Indiana”. Podemos citar ainda outros diversos momentos engraçados, como o barulho de Indy quebrando o piso enquanto um senhor carimba papéis, a fuga dos Jones de avião (“Nos atingiram!”) e a seqüência seguinte, quando o Sr. Jones diz que “Estão tentando nos matar! […] É uma experiência nova pra mim” e ouve Indy responder que “Acontece comigo toda hora!”. A mistura de ação e bom humor se revela a receita perfeita para esta aventura deliciosa, embalada por dois personagens extremamente carismáticos e por um roteiro muito inteligente.

Spielberg acerta novamente na condução de mais esta maravilhosa aventura do arqueólogo Indiana Jones. Aproveitando o carisma de seu herói e de seus atores, o diretor aborda seu tema preferido de forma bem humorada e envolve novamente o espectador, através de seqüências de ação incrivelmente criativas e, acima de tudo, de uma narrativa muito envolvente.

Texto publicado em 26 de Agosto de 2010 por Roberto Siqueira

DE VOLTA PARA O FUTURO 2 (1989)

(Back To The Future Part II)

 

Videoteca do Beto #61

Dirigido por Robert Zemeckis.

Elenco: Michael J. Fox, Christopher Lloyd, Lea Thompson, Thomas F. Wilson, Elisabeth Shue, James Tolkan, Jeffrey Weissman, Charles Fleischer, Darlene Vogel, Jason Scott Lee, Elijah Wood, Flea e Billy Zane.

Roteiro: Robert Zemeckis e Bob Gale.

Produção: Neil Canton e Bob Gale.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Apoiando-se num roteiro incrivelmente engenhoso e criativo e contando com um elenco muito afiado, o diretor Robert Zemeckis brindou os espectadores com uma verdadeira obra-prima quando lançou nos cinemas, em 1985, o primeiro filme da trilogia “De Volta para o Futuro”. Felizmente, este segundo filme da série mantém a qualidade primorosa do primeiro filme e presenteia os cinéfilos com uma continuação que consegue explorar a mesma premissa de forma original e igualmente criativa, renovando a trilogia e evitando que soe como algo repetitivo.

Após conseguir corrigir o passado e alterar o futuro, o cientista Doc Brown (Christopher Lloyd) volta desesperado ao ano de 1985 para levar Marty (Michael J. Fox) e sua namorada (Elisabeth Shue) para o ano de 2015, com o objetivo de evitar uma verdadeira tragédia familiar provocada pelos filhos do casal. Já no futuro, o velho Biff (Thomas F. Wilson) consegue entrar na máquina do tempo e voltar ao ano de 1955, somente para entregar a si mesmo o almanaque dos esportes, com todos os resultados esportivos do período entre 1950 e 2000. Por isso, quando Doc e Marty retornam ao ano de 1985, encontram um mundo completamente diferente, resultado do poder adquirido pelo milionário Biff ao longo dos anos. Desta forma, a única maneira de destruir esta realidade paralela e evitar este futuro sombrio é voltar ao ano de 1955 e impedir que o velho Biff entregue a si mesmo o tal almanaque.

Logo no inicio de “De Volta para o Futuro 2” podemos rever a cena que encerrou o primeiro filme, num dos inúmeros momentos em que o espectador poderá rever uma cena sob outra perspectiva, pois o longa é repleto de rimas narrativas entre os dois filmes (e até mesmo com o terceiro filme), o que é extremamente elegante. Ao chegarmos ao ano de 2015, até podemos questionar o avanço tecnológico apresentado num período tão curto de tempo (de 1989 para 2015 temos apenas 26 anos), mas é inegável que o longa aproveita mais uma vez as inúmeras oportunidades que a situação oferece, como podemos notar na inteligente justificativa para o não envelhecimento do professor, que explica sobre as avançadas clínicas de rejuvenescimento. Inteligente também é a forma como os dois Martys se cruzam embaixo do balcão, o que possibilita a troca entre eles e abre espaço para revivermos a grande cena, agora completamente renovada, em que Marty foge de Biff em cima de um skate. O bom humor também está novamente presente, como notamos quando Doc diz que a justiça ficou muito rápida depois que aboliram os advogados.

O longa de Robert Zemeckis também mantém o excelente nível técnico do filme anterior, com destaque especial para a bela direção de arte de Margie Stone McShirley, que recria a cidade de diferentes formas em cada período, sempre com muita criatividade, como fica evidente na evoluída cidade de 2015 através dos carros, do posto Texaco e da engraçada referência à Tubarão 19 (!) – sucesso de Spielberg, que é amigo de Zemeckis e também produtor executivo do longa. A fotografia colorida em 2015 de Dean Cundey e Jack Priestley dá lugar às tonalidades escuras do ambiente hostil e sombrio nos anos dominados por Biff e volta aos tons pastéis nostálgicos nos anos cinqüenta. Já a montagem ágil de Harry Keramidas e Arthur Schmidt reforça o clima de urgência da missão da dupla, que neste segundo filme é ainda maior que no primeiro, além de colaborar sensivelmente nas seqüências de ação, também mais freqüentes neste segundo longa. Também merece destaque a maquiagem, que permite com que o mesmo ator apareça duas ou três vezes na mesma cena de formas completamente diferentes, além, é claro, dos ótimos efeitos especiais, que trazem grande realismo às cenas. Finalmente, a bela trilha sonora de Alan Silvestri está novamente presente, com músicas joviais e com o imponente tema da série.

A direção de Robert Zemeckis é impecável, mantendo o ritmo ágil e criando um visual magnífico em todas as épocas da narrativa, além de criar seqüências muito interessantes sempre que um personagem encontra seu correspondente em cena, como nos encontros entre os dois “Docs”, “Biffs”, “Jennifers” e “Martys”. Zemeckis também acerta a mão na condução das cenas de ação, como a sensacional perseguição de Biff, com o carro, à Marty, que foge no skate, já próximo do final do filme. Finalmente, o diretor consegue sucesso mais uma vez na direção de atores, permitindo que o elenco apresente outro excelente desempenho. Michael J. Fox está novamente perfeito como Marty McFly. Devido a um acidente com seu carro que o impediu de continuar com a música, Marty se tornou um infeliz funcionário em seu trabalho, enquanto seu filho se tornou um verdadeiro idiota, como ele mesmo admite quando o vê. E o ator aproveita a excelente oportunidade de mostrar talento ao interpretar as diversas etapas da vida do personagem com competência, além de interpretar também seus próprios filhos. Thomas F. Wilson vai muito bem quando interpreta o cruel Biff, sempre ameaçador. Repare como o ator utiliza uma voz rouca que colabora com este poder de intimidação do personagem. E mesmo quando interpreta o velho Biff o ator convence, mostrando que a vida dura que levou após as mudanças no passado não tirou o seu apetite pelo poder. Já quando interpreta o jovem Griff, Wilson exagera e acaba soando caricato, mas nada que comprometa sua atuação. Quem também repete a excelente atuação do primeiro longa é Christopher Lloyd, com todos os trejeitos do maluco doutor Emmett. Seu “Doc” é um personagem extremamente carismático e o ator tem todo o mérito por isso. E finalmente, Elisabeth Shue pouco aparece com sua Jennifer, não permitindo uma atuação além de discreta.

Mas apesar de toda qualidade do elenco e do ótimo trabalho técnico, novamente o grande destaque do longa é o roteiro de Zemeckis e Bob Gale. Ainda mais intrincado que no primeiro filme, o roteiro permite uma viagem através do tempo e faz constantes referências ao primeiro e (melhor ainda) ao terceiro filme, provando a qualidade da engenhosa criação da trilogia por parte dos roteiristas. Não é raro notar menções ao velho oeste, como quando vemos um vídeo sobre o tio de Biff ou quando “Doc” diz que se arrepende de não ter visitado o velho oeste, o que já prepara o terreno para a parte final da trilogia. Zemeckis e Gale também aproveitam praticamente todas as oportunidades que a situação oferece para explorar ao máximo estas idas e vindas no tempo, como quando McFly comemora o fato de morar em determinado bairro que, na realidade, se tornou o mais perigoso da cidade devido às mudanças do passado, como fica evidente nas palavras de um taxista. O roteiro abusa ainda das elegantes rimas narrativas com o primeiro filme, como quando McFly sai com o skate pelas ruas da cidade sendo perseguido por Biff. Mais interessantes ainda são os momentos marcantes do primeiro longa que podemos reviver sob outra perspectiva, como quando Marty toca guitarra enquanto podemos ver o outro Marty andando por cima da estrutura do palco ao fundo.

Por tudo isto, “De Volta para o Futuro 2” pode ser considerado um filme tão qualificado quanto o primeiro da trilogia. Além disso, o longa tem ainda o mérito de preparar o espectador para a parte final da série, como podemos notar quando a Western Union entrega a carta de Doc para Marty com data de 1885. Isto acontece porque em outro momento muito importante, porém sutil, o acidente com o Deloren zera a máquina do tempo e altera a data para 1885, o que também reflete no terceiro filme da série. Desta forma, além de se deliciar com este segundo filme, o espectador praticamente se sente obrigado a assistir o terceiro, o que não deixa de ser inteligente.

Belíssima aventura que nos permite viajar através do tempo, passando pelos anos de 2015, 1985, 1955 e finalizando em 1855, “De Volta para o Futuro 2” é extremamente criativo e cativante, permitindo ao espectador notar claramente as diferenças entre cada época, tanto no aspecto cultural quanto no aspecto visual, além de proporcionar um delicioso exercício de imaginação por parte de cada espectador. É maravilhoso viajar com Marty e Doc através do tempo e por isso, mal podemos esperar pelo terceiro filme da série. Ainda bem que hoje em dia, com a trilogia disponível em DVD, não precisamos de um Deloren para avançar no tempo, como os espectadores certamente desejaram fazer quando o segundo filme foi lançado nos cinemas.

Texto publicado em 11 de Agosto de 2010 por Roberto Siqueira

M – O VAMPIRO DE DÜSSELDORF (1931)

(M)

 

Filmes em Geral #36

Filmes Comentados #25 (Comentários transformados em crítica em 06 de Janeiro de 2011)

Dirigido por Fritz Lang.

Elenco: Peter Lorre, Otto Wernicke, Gustav Grundgens, Friedrich Gnas, Theo Lingen.

Roteiro: Fritz Lang e Thea von Harbou.

Produção: Seymour Nebenzal (não creditado).

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O impressionante uso do som com função narrativa – e não apenas como reforço para as imagens que vemos na tela – é um dos grandes destaques deste magnífico “M – O Vampiro de Düsseldorf”, dirigido pelo mestre Fritz Lang, onde um simples assovio (um trecho da ópera “Peer Gynt”, de Edvard Grieg.) serve como aviso da aproximação do assassino. Além deste interessante detalhe, de uma narrativa cativante e uma atuação antológica, o longa ainda alertava de maneira sutil para algo que aconteceria pouco tempo depois na Alemanha e que mancharia eternamente a história da humanidade.

Uma onda de crimes assola a pequena cidade alemã de Düsseldorf, chamando a atenção da polícia. A população fica em estado de alerta quando suas crianças começam a desaparecer e, pior do que isso, ao descobrir que elas estão sendo assassinadas por um misterioso assassino conhecido como “M” (Peter Lorre). Paralelamente, os criminosos locais, incomodados com as constantes batidas da polícia em busca do assassino, resolvem se organizar para encontrá-lo.

Fritz Lang utilizou a história real de um assassino de crianças como metáfora para o nascimento de um monstro chamado nazismo, mostrando como a sociedade pode se organizar de diversas formas, seja para fazer o bem, seja para fazer o mau, além ilustrar os perigos de um regime ditatorial (e o futuro lhe daria razão, com a ascensão do partido nazista ao poder na Alemanha, que provocou a saída de Lang do país). “M – O Vampiro de Düsseldorf” alerta para isto de maneira sutil, com os bandidos e os policiais agindo de maneira parecida e a sociedade se organizando para combater o “inimigo público”, no caso, o assassino de crianças interpretado brilhantemente por Peter Lorre. Repare como a reunião dos policiais para discutir o caso é propositalmente intercalada com a reunião dos criminosos, e a semelhança entre aqueles dois grupos não é mera coincidência. A forma de se vestir, o alto tom de voz durante a conversa e os cigarros espalhando fumaça pela sala mostram que aqueles grupos são os dois lados de uma mesma moeda. Além disso, o longa apresenta, através de seu visual estilizado e sua atmosfera sombria, o mal estar que rondava a Alemanha na época. Mas Lang não demonstra sutileza apenas nesta questão do nazismo, sendo elegante, por exemplo, ao não mostrar o assassinato da garota, sugerindo o trágico destino daquela criança através do plano com o balão (comprado pelo assassino de presente pra ela) preso aos fios e a bola jogada no chão.

Tecnicamente, vale ressaltar ainda o uso carregado do contraste entre luz e sombras adotado pela excelente direção de fotografia, perceptível, por exemplo, quando “M” está acuado e em seu julgamento. Observe também como no momento em que a garota bate a bola no anúncio do assassino, a sombra do rosto dele indica sua presença – este uso da sombra é característico do movimento expressionista. É justamente através deste visual carregado que o longa cria a atmosfera perfeita e suga o espectador pra dentro daquele ambiente perigoso e hostil.

Todo este clima nebuloso é coroado por um vilão incrivelmente assustador, interpretado pelo excelente Peter Lorre. Sua atuação como o assassino Becker é impressionante, demonstrando toda a ambigüidade do personagem em seu inflamado discurso final. Ele sabe que está errado, mas não consegue conter o impulso, revelando-se um ser humano falho, como todos nós, mas tragicamente incapaz de se regenerar. Em dois momentos, Becker se vê acuado e Lorre demonstra claramente em seu rosto o desespero do personagem. O primeiro, quando sabe que seu esconderijo será fatalmente descoberto pelos criminosos que se aproximam, e o segundo – o melhor momento do longa – quando é “julgado” pelo grupo de criminosos num local de onde não pode fugir. Sua angústia diante daquelas faces raivosas e sedentas por vingança é praticamente palpável graças ao talento de Lorre. E é interessante (e irônico) notar como as pessoas, quando envolvidas numa multidão, rapidamente se transformam e passam a agir da mesma maneira que condenam, como quando um homem é acusado injustamente de ser o assassino e é cercado por diversas pessoas que desejam o seu fim e quando Becker é confrontado por todos aqueles criminosos que desejam a sua morte. No segundo caso, temos uma explicação plausível, já que aquele grupo é formado exclusivamente por criminosos, mas no primeiro caso esta “desculpa” não se aplica. Desta forma, Lang demonstra como a sociedade pode se comportar de maneira surpreendente e ambígua. O futuro daquela sociedade alemã, destruída após o fim da primeira guerra, mostraria que o ser humano é capaz de coisas terríveis, pois ainda que muitos não concordassem com as práticas nazistas, os alemães (e não só eles, mas todas as pessoas envolvidas naquele trágico período da humanidade) cometeram pelo menos um grave crime, que é o crime da omissão. Além de todas as qualidades citadas, “M – O Vampiro de Düsseldorf” foi o primeiro filme a falar abertamente sobre um “serial killer”, tema este que seria abordado exaustivamente em Hollywood, muitos anos depois.

O mestre Fritz Lang acertou novamente com este excelente “M – O Vampiro de Düsseldorf”, que além de ousar tecnicamente utilizando o som com função narrativa, abordou uma temática complicada com extrema coragem, realizando uma obra de enorme importância para a história do cinema.

PS: Comentários divulgados em 06 de Agosto de 2010 e transformados em crítica em 06 de Janeiro de 2011.

Texto atualizado em 06 de Janeiro de 2011 por Roberto Siqueira

METROPOLIS (1927)

(Metropolis)

 

 

Filmes em Geral #35

Filmes Comentados #24 (Comentários transformados em crítica em 06 de Janeiro de 2011)

Dirigido por Fritz Lang.

Elenco: Alfred Abel, Gustav Fröhlich, Brigitte Helm, Rudolf Klein-Rogge, Fritz Rasp, Theodor Loos, Heinrich George e Erwin Biswanger.

Roteiro: Fritz Lang e Thea von Harbou, baseado em livro de Thea von Harbou.

Produção: Erich Pommer.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Grande obra-prima do expressionismo alemão, “Metropolis” utiliza seu visual esplendoroso e sua história cativante para debater, ainda nos anos 20, a questão da desigualdade social, escancarando os problemas do capitalismo. Dirigido pelo brilhante Fritz Lang, o longa estabeleceu o padrão visual para o gênero ficção-científica, misturando com muita competência todo este visual estilizado às características do cinema expressionista.

Metropolis é uma mega cidade no ano de 2026 onde os poderosos vivem na superfície enquanto os operários trabalham duramente para manter o funcionamento local na chamada “cidade dos operários”, localizada na base daquela enorme estrutura. O governador local, Joh Fredersen (Alfred Abel), solicita ao inventor Rotwang (Rudolf Klein-Rogge) o desenvolvimento de um robô, buscando substituir o trabalho humano no futuro. Paralelamente, Maria (Brigitte Helm), uma espécie de líder espiritual, fala aos operários sobre a vinda de um mediador que irá salvá-los e pede que eles evitem o uso da violência. Mas o robô de Rotwang assumirá a forma de Maria para semear a discórdia entre eles. Só que Joh não imaginava que seu filho Freder Fredersen (Gustav Fröhlich) se apaixonaria por Maria.

Em “Metropolis”, Fritz Lang apresenta um visual assombroso, que definiu os padrões do gênero ficção-científica, entrelaçando arranha-céus (que na época praticamente inexistiam na Alemanha), ruas apertadas e carros voadores, aplicando a regra básica do expressionismo, onde o visual imponente dos prédios sufoca o espectador, transmitindo a angústia da vida naquela grande cidade e o sofrimento dos pobres trabalhadores que sustentavam aquela sociedade. E é interessante notar como o aspecto físico tem função narrativa, já que os operários, localizados no nível mais baixo de Metropolis, de fato sustentavam a fatia rica da cidade com seu trabalho duro. A arquitetura, aliás, tem função narrativa em praticamente todos os filmes do expressionismo. “Descer” fisicamente realmente significava ser rebaixado, estar abaixo na pirâmide social. Assim como a descida ao banheiro em “A Última Gargalhada” significava a queda do porteiro, a descida ao porão em “Nosferatu” significava a descoberta do caixão onde repousava o mau e a descida forçada do prédio onde se escondia representava a captura e prisão do criminoso em “M – O Vampiro de Dusseldorf”, em “Metropolis” a descida à cidade dos operários significava ser rebaixado na escala social, o que justifica o desespero de Josaphat (Theodor Loos) quando é despedido por Joh Fredersen.

As atuações em “Metropolis” são exageradas e caricatas, em parte porque no período era assim que se atuava, até pela dificuldade da falta do som (e da voz), mas muito por causa das características do expressionismo, que buscava externar de forma marcante os sentimentos dos personagens. Mas existe uma exceção. Maria, a pacífica líder espiritual dos operários, é interpretada com muito charme por Brigitte Helm, que também faz o papel do robô criado pelo cientista Rotwang a pedido de Joh Fredersen. Note a diferença na expressão de Helm quando interpreta o robô, sempre mais caricata, e quando interpreta Maria, com traços mais suaves no rosto.

Fritz Lang conduz com maestria as empolgantes seqüências da revolta dos operários, nos levando numa viagem pelas entranhas daquela gigantesca cidade, guiados pelo numeroso elenco de figurantes (36 mil, um número muito acima dos padrões da época e que ainda hoje pode ser considerado digno de superproduções). Destaque para a impressionante cena da inundação da casa das máquinas (outro cenário magnífico do longa) e para o encontro final entre os operários e a classe rica da cidade. Já a magnífica cena em que Freder tem uma alucinação e vê a máquina engolindo os operários simboliza a angústia daqueles homens de vida sofrida, algo bastante característico do expressionismo. Momentos antes, quando Freder observa aqueles operários mantendo a máquina a todo vapor, Lang cria uma metáfora inteligente para a integração homem-máquina, como se aqueles operários fizessem parte da estrutura daquela máquina, ou seja, como se fossem as veias que permitiam o funcionamento daquele enorme sistema. O curioso é que o futuro imaginado por Lang não está tão distante da realidade de hoje, tanto nas grandes corporações como nas próprias sociedades espalhadas pelos países mundo afora, onde a massa trabalhadora sustenta a fatia menor e mais rica da sociedade, que desfruta as regalias do poder. Felizmente, ainda não temos o robô, que era a esperança de Joh para substituir o trabalho humano e, desta forma, conseguir manter as máquinas sempre em funcionamento sem depender dos operários. Mas certamente muitos empresários ainda sonham com isso.

A bela mensagem deixada por “Metropolis” (o cérebro e as mãos se encontram através do coração) fecha com chave de ouro esta obra-prima do cinema. Fritz Lang, antes de deixar a Alemanha, brindou os cinéfilos com este presente magnífico, que impressiona pela qualidade técnica e pela temática, que ainda hoje, mais de oitenta anos depois, continua atual.

PS: Comentários divulgados em 05 de Agosto de 2010 e transformados em crítica em 06 de Janeiro de 2011.

Texto atualizado em 06 de Janeiro de 2011 por Roberto Siqueira

A ÚLTIMA GARGALHADA (1924)

(Der Letzte Mann)

 

Filmes em Geral #34

Filmes Comentados #23 (Comentários transformados em crítica em 06 de Janeiro de 2011)

Dirigido por F.W. Murnau.

Elenco: Emil Jannings, Maly Delschaft, Max Hiller, Emilie Kurz, Hans Unterkircher, Olaf Storm, Georg John, Emmy Wyda e Hermann Vallentin.

Roteiro: Carl Mayer.

Produção: Erich Pommer.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A triste história de um idoso porteiro do elegante hotel Atlantis, em Berlim, que é obrigado a deixar o cargo que ama por ser considerado velho demais, passando a exercer a função de criado do banheiro masculino do mesmo hotel, é contada neste tocante “A Última Gargalhada”, dirigido por F. W. Murnau.

Orgulhoso de seu trabalho, mas já sentindo o peso dos anos, um idoso porteiro (Emil Jannings) do hotel Atlantis, em Berlim, é afastado de seu cargo e realocado na função de criado do banheiro masculino, o que provoca grande impacto na auto-estima do velho homem, que até então era tratado com grande respeito por sua família, seus amigos e seus vizinhos.

Escrito por Carl Mayer, “A Última Gargalhada” toca diretamente na ferida do capitalismo, mostrando como a perda do emprego pode provocar sérios danos financeiros e psicológicos no cidadão, e, conseqüentemente, pode provocar um efeito desastroso na auto-estima da pessoa, dependendo do grau de afinidade que ela tinha com seu cargo. Este devastador efeito é ilustrado com competência por Murnau, que filma o porteiro em ângulo baixo (contra-plongèe) quando ele ainda está em seu pomposo uniforme, transmitindo a sensação de poder e respeito que o velho sentia, o que contrasta com a câmera em plongèe (filmado por cima) que passa a predominar a narrativa quando o porteiro é transferido para outro cargo, diminuindo o protagonista diante do espectador. Além disso, o diretor utiliza ainda em diversos momentos a câmera sob o ponto de vista do porteiro, num movimento interessante e até mesmo diferenciado para sua época. Vale à pena notar também como tudo em “A Última Gargalhada” é muito orgânico, ou seja, pertence ao universo diegético do filme, evitando que o longa soe artificial, como a mensagem no bolo que serve para nos informar sobre o casamento ou a notícia no jornal que informa ao espectador de que forma o porteiro irá se tornar rico, evitando letreiros e explicações, o que é muito elegante.

Além de sua interessante temática, “A Última Gargalhada” reserva ainda uma pequena brincadeira de Murnau, que gera muitas reflexões. O diretor insere um final alternativo, que apesar de parecer totalmente fora de propósito, acaba conseguindo nos confortar, ainda que de uma maneira estranha, pois sabemos que não estamos vendo o verdadeiro final da estória. E é aí que surge uma interessante questão para ser debatida: porque não nos sentimos completamente satisfeitos com o final alternativo se nas duas situações estamos falando de uma ficção? Porque assumimos que o primeiro final é verdadeiro e o segundo não é? Esta interessante discussão sobre a linguagem cinematográfica gerada pelo longa já seria razão suficiente para considerá-lo um grande filme.

Mas Murnau não para por aí, indo além da discussão sobre a linguagem cinematográfica ao apresentar, ainda que em menor escala do que em outros filmes como “O Gabinete do Dr. Caligari”, forte influencia do expressionismo alemão, como durante a chegada do porteiro em sua casa, com todos os vizinhos olhando, seguida pela inundação de olhos e bocas gargalhando que Murnau joga na tela, num momento que retrata muito bem o marcante visual do cinema expressionista. As características marcantes do expressionismo, com imagens distorcidas, como o prédio que parece estar caindo sobre o porteiro quando ele volta pra casa com o uniforme roubado, refletem muito bem o estado de espírito do personagem, que naquele momento sentia o mundo pesando em seus ombros. Além disso, a direção de fotografia de Robert Baberske e Karl Freund carrega nos tons escuros, fazendo com que o porteiro por muitas vezes desapareça na escuridão, como no primeiro final solitário no banheiro. Em contrapartida, o final “alternativo” feito para o espectador tem um tom mais leve e iluminado, que reflete a felicidade do protagonista. É interessante notar também como a cultura alemã está presente com muita força nos simbolismos da narrativa, como o uniforme, que remete ao cargo e é alvo de veneração do porteiro, e o botão caído, que simboliza a queda daquele homem. Esta adoração pelo status era algo tipicamente alemão no período. E além do aspecto visual, a própria atuação exagerada de Emil Jannings casa perfeitamente com o estilo expressionista, que buscava transmitir através de imagens fortes e distorcidas o sentimento dos personagens. A dor e a tristeza do porteiro ao perder o emprego que era seu grande orgulho ultrapassam os limites da tela e se instalam no coração do espectador, que sofre junto com ele.

Utilizando os aspectos marcantes do expressionismo para contar uma história tocante, “A Última Gargalhada” ainda abre espaço para uma interessante reflexão a respeito da linguagem cinematográfica, o que lhe garante um lugar de destaque entre as importantes obras do cinema expressionista.

PS: Comentários divulgados em 04 de Agosto de 2010 e transformados em crítica em 06 de Janeiro de 2011.

Texto atualizado em 06 de Janeiro de 2011 por Roberto Siqueira

NOSFERATU – UMA SINFONIA DE HORRORES (1922)

(Nosferatu, Eine Symphonie des Grauens)

 

Filmes em Geral #33

Filmes Comentados #22 (Comentários transformados em crítica em 06 de Janeiro de 2011)

Dirigido por F.W. Murnau.

Elenco: Max Schreck, Greta Schröder, Karl Etlinger, John Gottowt, Ruth Landshoff, Georg H. Schnell, Gustav von Wangenheim e Gustav Botz.

Roteiro: Henrik Galeen, baseado em livro de Bram Stoker.

Produção: Enrico Dieckmann e Albin Grau.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Filmes que contam histórias de vampiro não são raridades na história do cinema. Na realidade, existem filmes sobre vampiros aos montes e de todas as formas possíveis. Mas um vampiro em especial sempre chamou à atenção dos cineastas pelo mundo. Trata-se da lenda “Conde Drácula”, que já inspirou, segundo informação de Rodrigo Carreiro no site Cine Reporter, mais de 100 filmes ao longo dos anos. E toda esta longa história começou em 1922, com esta adaptação não autorizada do mestre F. W. Murnau para a obra de Bram Stoker, que no cinema recebeu o nome de “Nosferatu, uma sinfonia de horrores”.

Na adaptação de Murnau, Hutter (Gustav von Wangenheim) é um agente imobiliário que viaja até os temidos montes Cárpatos para vender um castelo. Só que numa visita aos porões do castelo, o agente encontra um caixão, onde o estranho conde Graf Orlock (Max Schreck) dorme, e descobre que o conde é na verdade um vampiro milenar. O agente volta para Bremen, na Alemanha, a sua terra natal, mas o conde também segue viagem no porão de um navio e sua chegada provoca pânico na cidade. Mas o conde acaba se apaixonando por Ellen (Greta Schröder), a esposa de Hutter, e esta será a chave para a solução dos problemas do agente.

Como podemos perceber, basta trocar os nomes dos personagens para identificar a tradicional história do Conde Drácula escrita por Bram Stoker. Dirigido por Murnau, o clássico fantasmagórico “Nosferatu, uma sinfonia de horrores” faz uma releitura da famosa história, com nomes trocados e pequenas modificações (o diretor não conseguiu autorização para adaptar a obra de Bram Stoker), criando imagens aterrorizantes sob a forte influência do expressionismo alemão. A atmosfera do filme é fantástica, criando um clima de terror através do belo texto (mérito do roteiro de Henrik Galeen, baseado na obra de Bram Stoker) e da pesada direção de fotografia, que pintou à mão a película do filme, tingindo a tela em tons de azul, amarelo e vermelho em muitas cenas, o que além de ter função narrativa (as cores dividem ambiente externo e interno, além de separar o dia da noite), aumenta o clima fantasmagórico do longa, que mais parece um pesadelo. Também colabora para a atmosfera de horror a bela direção de arte de Albin Grau, que capricha no visual sombrio dos lugares por onde o conde passa, infestando de ratos o navio, por exemplo, e criando um castelo assustador na Transilvânia, com cômodos enormes e um porão tenebroso, onde fica o caixão do vampiro.

Mas apesar de ser aterrorizante, “Nosferatu” não provoca sustos repentinos, daqueles que fazem o espectador saltar da cadeira (o que em muitos casos acaba soando artificial, pois o susto é provocado mais pela trilha sonora do que pelo que vemos na tela). Ainda assim, tem imagens perturbadoras o suficiente para ficar na memória por muito tempo, como a entrada de Orlock no quarto em que Hutter dorme, o momento em que Orlock acorda no porão do navio e a clássica imagem de sua sombra na parede enquanto sobe as escadas. Estas imagens fortes e horripilantes estabeleceram um padrão para o cinema de horror que viria a seguir. Outro grande destaque é a sombria trilha sonora, que aumenta o clima macabro e ainda pontua muito bem os momentos tensos do longa, como a citada visita de Orlock ao quarto de Hutter e sua subida pela escada refletida na parede.

Entre o elenco, vale destacar a espetacular atuação de Max Schreck como o conde vampiro Orlock, que nos dá a impressão de realmente estarmos vendo um vampiro na tela. Seu olhar penetrante e sua aparência nada agradável, aliado ao perfeito clima criado por Murnau, garantem uma atuação perturbadora e marcante. E aqui vale citar uma curiosidade. A atuação de Schreck é tão magnética que após o lançamento de “Nosferatu”, passou a correr no meio cinematográfico a lenda de que o ator alemão era um vampiro de verdade, interpretando a si mesmo, o que dá a exata idéia do impacto causado por sua grande atuação. Completam o elenco principal Gustav von Wangenheim, interpretando Hutter, e Greta Schröder, que interpreta com muito charme a bela Ellen Hutter, que assim como na obra de Bram Stoker, conquista o coração do vampiro. Só que ao contrário da lenda do conde Drácula, em “Nosferatu” é a própria moça quem salva a todos, num final diferente e muito interessante.

Com seu clima fantasmagórico e suas imagens perturbadoras, além de uma interpretação espetacular, “Nosferatu” influenciou praticamente todos os filmes de terror que surgiram depois. Certamente é a adaptação mais importante do Conde Drácula, ainda que não tenha utilizado os nomes da obra original. Repleto de imagens impressionantes, o longa dirigido por Murnau é referência obrigatória e entretenimento de primeira.

PS: Comentários divulgados em 03 de Agosto de 2010 e transformados em crítica em 06 de Janeiro de 2011.

Texto atualizado em 06 de Janeiro de 2011 por Roberto Siqueira