O Grupo do Brasil na Copa

Pretendo escrever com detalhes sobre todos os grupos da Copa do Mundo antes do mundial na África do Sul. Como ainda temos seis meses até lá, vou fazer o dever de casa, pesquisar direitinho sobre cada equipe e postar aqui no blog durante o próximo ano. Mas não posso deixar passar o sorteio sem fazer pelo menos um comentário sobre o grupo do Brasil.

Considero o grupo complicado, mas entendo que o Brasil tem totais condições de se classificar em primeiro lugar na chave. Aliás, o Brasil teria condição em qualquer chave, pois está entre as melhores seleções da atualidade. A Coréia do Norte é uma incógnita, mas provavelmente será o saco de pancadas do grupo. Costa do Marfim e Portugal são duas seleções que podem tranquilamente sonhar com as Oitavas e até mesmo as Quartas-de-final dependendo do cruzamento. Mas o Brasil é favorito, sem dúvida nenhuma. O risco existe, principalmente se o Brasil tropeçar em um destes dois complicados adversários e ficar em segundo da chave, cruzando provavelmente com a forte seleção espanhola logo nas oitavas, o que seria muito perigoso. Por isso, é bom lembrar de 2002, quando a Argentina, também em um grupo complicado, foi eliminada com uma vitória contra a Nigéria, um empate contra a Suécia e uma derrota para a Inglaterra, todos resultados absolutamente normais. É bom abrir o olho, mas é bom também iniciar a Copa já com grandes jogos, e este grupo já garantiu três grandes confrontos logo na primeira fase do mundial. O futebol agradece.

E pra você, o grupo do Brasil é fácil, razoável ou difícil?

Um abraço e bom debate.

 

 

 

 

 

 

 

Texto publicado em 07 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira

REQUIEM PARA UM SONHO (2000)

(Requiem for a Dream) 

 

Filmes Comentados #12

Dirigido por Darren Aronofsky.

Elenco: Ellen Burstyn, Jared Leto, Jennifer Connelly, Marlon Wayans, Chrisopher McDonald, Louise Lasser, Keith David e Sean Gullette. 

Roteiro: Darren Aronofsky, baseado em livro de Hubert Selby Jr.. 

Produção: Eric Watson e Palmer West.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de esclarecer que os filmes comentados não são críticas. Tratam-se apenas de impressões que tive sobre o filme, que divulgo por falta de tempo para escrever uma crítica completa e estruturada de todos os filmes que assisto. Gostaria de pedir que só leia estes comentários se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama]. 

– Requiem significa “repouso” em latim. Uma das famosas composições de Mozart é o Requiem, que a Igreja Católica utiliza em cerimônias fúnebres. Portanto, o “repouso” em questão tem um sentido de morte mesmo. Sendo assim, Requiem para um Sonho pode ser interpretado como o repouso eterno (ou morte) dos sonhos dos quatro personagens que o longa nos apresenta.

– Grande libelo anti-drogas, “Requiem para um Sonho” consegue passar uma mensagem sensível de forma direta e atordoante. O mundo do vício é abordado sem maquiagens, de forma crua e real, chocando o espectador e alcançando um resultado espetacular.

– A montagem de Jay Rabinowitz é simplesmente sensacional. Desde o inicio, com a tela dividida mostrando simultaneamente as ações de Harry (Jared Leto) e Sara (Ellen Burstyn), passando pelo pequeno clipe que simboliza o uso de drogas, notamos a qualidade do trabalho, que dita um ótimo ritmo ao filme. Podemos citar também o café da manhã de Sara, quando a laranja, o café e o ovo somem rapidamente, mostrando a agonia que ela sentia comendo somente aquilo, enquanto o relógio mostra a lenta passagem do tempo. A refeição parecia durar alguns segundos, enquanto que no restante do dia o tempo passava lentamente.

– A trilha sonora de Clint Mansell é linda. Reflete bem a agonia daquelas vidas presas a tantos vícios.

– Repare como o estilo do pequeno clipe que passa toda vez que alguém usa uma droga também é utilizado toda vez que Sara liga ou desliga a TV. A analogia é lógica: a TV também é um vicio, assim como as drogas. Harry chega até mesmo a dizer para Marion (Jennifer Connelly) que a mãe é viciada em televisão. E não são somente estes dois vícios que o filme aborda com competência. Temos também o vício em pírulas para emagrecer, os viciados em dinheiro, viciados em sexo e até mesmo um viciado em mulheres.

– Ellen Burstyn tem uma atuação fantástica, com destaque para a cena em que ela chega à emissora de televisão e é retirada pela polícia para ser levada ao hospital. Sua transformação de mulher tranqüila para completamente viciada em remédios para emagrecer é sensacional.

– Jennifer Connelly também tem uma atuação excepcional, retratando bem até que ponto o ser humano pode chegar quando está viciado. Moça de bom coração, porém seriamente afetada pelo vicio, ela vai até o fundo do poço, chegando inclusive a participar de festas com sexo bizarro para conseguir droga. Observe sua reação ao elogio de Harry quando está deitada com ele. Ela o ama de verdade, mas o vicio destruiu sua vida.

– Marlon Wayans e Jared Leto estão muito bem como os dois jovens sonhadores e viciados. A química da dupla é ótima, e os dois atores conseguem grandes desempenhos nos momentos mais dramáticos, como a prisão de Tyrone (Wayans) e o desespero de Harry ao sentir saudades de Marion. Além disso, estão praticamente perfeitos quando drogados (Connelly não fica atrás), mostrando a euforia e o desespero que o vício provoca.

– Harry é um bom filho, como podemos notar quando dá a televisão para a mãe e diz que vai visitá-la. Porém, infelizmente, o vício o transformou em um jovem problemático, que abandona a mãe e a faz sofrer. A família desestruturada sente muito a falta do pai, como fica evidente no contundente diálogo entre Sara e Harry (“Eu vivo só!”). Sara buscou na televisão uma válvula de escape para a solidão e a tristeza. Harry buscou nas drogas. E embora possamos entender, não podemos aceitar nenhuma das duas alternativas encontradas.

– A direção de Darren Aronofsky é muito dinâmica e cheia de planos criativos. A narrativa segue um ritmo ágil e Aronofsky é competente ao manter este ritmo com perfeição. Um exemplo de movimento de câmera interessante é quando Harry escuta o ranger dos dentes de sua mãe e a câmera lentamente gira em torno de sua cabeça até ficar de frente para ela, com o som mostrando o que lhe incomodava. Em outro momento, auxiliado pela excelente montagem, ele mostra Harry olhando para a janela e vendo Marion à beira da água. A imagem então transita para Harry andando em direção dela, e quando ela some, podemos ver que ele estava na casa, imaginando tudo aquilo. Outro momento de destaque é o video com imagens aceleradas que simboliza a agitação e ansiedade de Sara, além de alguns momentos em que a câmera fica presa aos atores, captando de perto suas reações, como quando Tyrone foge dos traficantes e quando Marion sai do apartamento de Arnold (Sean Gullette).

– O médico sequer olha no rosto de Sara para receitá-la. O tratamento impessoal mostra que ele não se importava se ela estava ou não com problemas, se limitando apenas a dar os remédios, sem se preocupar com as possíveis conseqüências do mau uso deles.

– A completa degradação do ser humano é retratada nas seqüências finais, quando todos eles chegam ao fundo do poço, completamente decadentes e afundados em problemas por causa de seus vícios. A fotografia de Matthew Libatique propositalmente utiliza cores frias, sem vida, refletindo a tristeza daquelas vidas vazias.

– A posição final de cada um deles, deitados na cama como bebês, mostra como o viciado pode ser visto como uma criança que não entende os limites do que pode e do que não pode fazer. Porém, sendo adultos, as conseqüências de seus desejos proibidos são infinitamente mais dolorosas e prejudiciais.

– “Requiem para um sonho” deveria ser exibido para os jovens, como forma de alertar sobre os perigos deste mundo das drogas. Não que eu acredite que esta seria a solução para o problema. Longe disso. Mas se de alguma forma o filme colaborar para que pelo menos um jovem não entre neste caminho, já será algo importante e que deve ser celebrado. 

 

Texto publicado em 06 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira

Videoteca do Beto #23

Ontem informei que “Psicose” seria encaixado na seqüência da Videoteca. A crítica do clássico de Hitchcock já tinha sido publicada como “Filmes em Geral #4”, por isso, somente adicionei em seu cabeçalho a classificação “Videoteca do Beto #23” (a última crítica da Videoteca divulgada era Touro Indomável #22). Esta numeração serve apenas como controle pessoal da seqüência em que divulgo as criticas, normalmente seguindo uma ordem cronológica. Reforço a explicação porque a seqüência às vezes fica bagunçada, devido à compra fora de ordem dos filmes. Em todo caso, o importante é o texto divulgado. O link direto (lado direito do blog) ajuda na localização de todas as críticas.

Se quiser ler a crítica do filme Videoteca do Beto #23 (Psicose), basta clicar aqui.

Um abraço.

Texto publicado em 05 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira

Videoteca do Beto: novas aquisições

Abaixo a foto dos 10 novos integrantes da Videoteca do Beto:

Psicose (1960)*

Spartacus (1960)**

A Primeira Noite de um Homem (1967)**

Apocalypse Now (1979)**

Blade Runner – O Caçador de Andróides (1982)

O Último Imperador (1987)

Tomates Verdes Fritos (1991)

Cães de Aluguel (1992)

Quatro Casamentos e um Funeral (1994)

Matrix (1999)

* “Psicose” já tem crítica divulgada na categoria “Filmes em Geral”. Por isso, será simplesmente encaixado na seqüência da Videoteca do Beto.

** Os filmes que chegarem depois de sua posição na ordem cronológica das críticas “Videoteca do Beto” serão assistidos e avaliados na medida do possível e serão encaixados na seqüência da Videoteca. Por exemplo, se a Videoteca estiver no filme #37 e eu divulgar em seguida a crítica do filme “Spartacus”, este será o filme Videoteca do Beto #38.

Um abraço.

 

Texto publicado em 04 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira

Sorteio da Copa 2010

Em 07 de Outubro, escrevi um post com meus palpites sobre as seleções que se classificariam para a Copa do Mundo de 2010, na África do Sul (se quiser ler, clique aqui). Das 32 seleções que participam do mundial, 11 já estavam classificadas na época. Portanto, restavam 21 vagas, e destas, acertei 15 seleções (um bom aproveitamento de 71%). Agora, chegamos ao grande momento em que os caminhos do mundial serão desenhados. O sorteio, que será realizado amanhã (04/12) na Cidade do Cabo, será determinante para o sucesso ou não de muitas seleções. Vale lembrar que o Brasil não pode enfrentar nenhuma seleção cabeça de chave (África do Sul, Argentina, Alemanha, Espanha, Inglaterra, Holanda e Itália) e nenhum país sul-americano (Chile, Paraguai e Uruguai). Com base nisto, deixo a seguinte pergunta:

Que seleção você não gostaria que o Brasil enfrentasse logo na primeira fase da Copa? Minha resposta é a França, devido ao nosso péssimo histórico em mundiais contra os “Le Bleus”.

Um abraço e deixe sua opinião.

 

Texto publicado em 03 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira

TOURO INDOMÁVEL (1980)

(Raging Bull) 

 

Videoteca do Beto #22

Dirigido por Martin Scorsese.

Elenco: Robert De Niro, Cathy Moriarty, Joe Pesci, Frank Vincent, Nicholas Colasanto, Theresa Saldana, Mario Gallo, Frank Adonis, Joseph Bono, Frank Topham, Lori Anne Flax, Charles Scorsese e Michael Badalucco.

Roteiro: Paul Schrader e Mardik Martin, baseado em livro de Jake LaMotta, Joseph Carter e Peter Savage.

Produção: Robert Chartoff e Irwin Winkler.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Poucas vezes um sentimento foi captado de forma tão brilhante na tela do cinema como em “Touro Indomável”, obra-prima de Martin Scorsese que marcou os anos oitenta e mostrou como o ciúme e o descontrole emocional podem levar qualquer pessoa a total degradação, por mais sucesso que ela tenha na vida. Magnífico em todos os aspectos, o filme é uma aula de cinema de primeira grandeza, alcançando o mais alto nível de excelência técnica e narrativa, além de contar com uma atuação monumental de um dos grandes atores da história do cinema.

“Touro Indomável” conta a história da ascensão meteórica do pugilista peso-médio Jake La Motta (Robert De Niro), conhecido como o “touro do Bronx”, assim como seu incrível processo de decadência, graças ao temperamento explosivo e ao ciúme doentio.

Extremamente realista e ao mesmo tempo sensível, o filme conta com a direção impecável de Martin Scorsese, que como de costume utiliza planos muito criativos, principalmente durante as lutas, através de closes em La Motta, planos da lona e das cordas pingando sangue e até mesmo do uso da câmera lenta para acentuar o efeito de alguns golpes. Incrivelmente realista, a direção de Scorsese permite ao espectador praticamente sentir o peso das luvas, a emoção do combate e a vibração da platéia. O estilo inconfundível do diretor aparece também em um espetacular plano-sequência, que vai desde o vestiário até o ringue, nos mostrando a preparação de Jake e nos levando junto com ele até o local do combate. Podemos sentir o clima, o público, as luzes e o ringue, como se estivéssemos ali dentro da luta válida pelo titulo mundial dos pesos-médios entre La Motta e Cerdan, em 1949. É claro que a firmeza na condução da narrativa e a excelente direção de atores, duas características fortes do diretor, estão presentes também.

O roteiro de Paul Schrader e Mardik Martin, baseado em livro de Jake La Motta, Joseph Carter e Peter Savage, utiliza a linguagem de rua (verborrágica e repleta de palavrões) tradicional nos filmes de Scorsese para mostrar em detalhes como o temperamento explosivo de Jake o levou ao topo e ao fundo do poço, cobrindo muitos anos da vida do pugilista sem jamais soar cansativo. Mérito também da excelente montagem de Thelma Schoonmaker, que imprime um ritmo interessante ao longo de toda a narrativa, utilizando diferentes estilos visuais para demonstrar a passagem do tempo. Observe, por exemplo, o arquivo de fotos e imagens em câmera lenta das lutas de Jake, seguido por um divertido video colorido que resume os acontecimentos na família La Motta (como os casamentos dos irmãos), sublinhado por uma trilha sonora nostálgica, e que finaliza com imagens desgastadas em um video envelhecido, que lembra imagens de jornal. Esta seqüência dura apenas alguns minutos, mas cobre um período de mais de três anos da vida dele.

Tecnicamente impecável, o longa conta também com a excelente direção de fotografia de Michael Chapman. O lindo contraste entre o preto e o branco cria imagens belíssimas, evita um banho de sangue no espectador e ainda pode ser interpretado como o ponto de vista de Jake, já que teoricamente os “touros” também enxergam o mundo em preto e branco. O magnífico trabalho de som funciona perfeitamente, captando cada golpe desferido pelos boxeadores com um realismo incrível, misturado à veloz narração da luta e a intensa vibração da platéia. E por último, mas não menos importante, a belíssima música tema da linda trilha sonora de Robbie Robertson (Cavalleria Rusticana: Intermezzo, composta por Pietro Mascagni) reflete muito bem o estado de espírito nostálgico de La Motta, que jogou fora tudo que conquistou em sua vida.

Dito tudo isto, chegamos finalmente ao personagem que inspirou toda esta produção. Jake La Motta é um ser humano simples, inocente até, mas explosivo ao extremo, como podemos notar logo em sua primeira aparição fora do ringue, quando reclama do jantar e vira a mesa. Esta cena simboliza perfeitamente a estupenda atuação de Robert De Niro, quando ao ouvir o vizinho gritando na janela (um técnico da equipe colocado de propósito por Scorsese sem ele saber), improvisa um diálogo que não estava no roteiro. Ao invés de parar a gravação da cena, ele entrou no espírito da coisa e mandou ver palavrões no vizinho intrometido. Coisas de quem sabe. Além das inúmeras cenas em que seu talento salta aos olhos da platéia (o choro sentido de Jake após entregar uma luta é uma delas) sua transformação física também é notável logo na primeira transição de 1964 para 1941. Por muitas vezes ingênuo, Jake era dono de um talento enorme e de uma força brutal, capaz de assustar os amigos do irmão Joey (Joe Pesci) quando os dois praticam boxe. Deslocado socialmente, seu jeito direto é também responsável por conquistar a mulher de seus sonhos, a jovem Vickie (Cathy Moriarty). A paixão por Vickie, porém, seria a responsável por expor o quanto ele era possessivo e ciumento, gerando reações extremas. Desconfiado além do limite, como fica evidente em um jantar com os amigos do irmão, Jake começa a demonstrar seu ciúme doentio quando reage de forma grosseira a uma simples frase de sua esposa sobre um adversário que era “jovem e bonito”. Jake passa dias pensando naquilo, chegando a conversar com Vickie sobre o assunto e refletindo seriamente sobre ele, revelando o quanto aquilo lhe perturbava e machucava. O resultado desta frase de Vickie foi o massacre de Janiro, o “jovem bonito”, a ponto de um espectador na platéia dizer que “este aí não vai mais poder ser chamado de bonito”.

Por outro lado, sua grosseria não significava que ele não a amasse ou se preocupasse com ela. Da mesma forma que a ofendia, e até mesmo agredia, ele demonstrava preocupação e carinho, como quando pede para o irmão levá-la pra casa e cuidar dela. Os irmãos, aliás, também se tratavam de forma agressiva, mas tinham profundo respeito e admiração um pelo outro. Nesta mesma discussão na casa de Jake, o próprio Joey é grosseiro com sua esposa, mas trata de aconselhar o irmão a cuidar de Vickie, o que gera a reconciliação dos dois logo em seguida. Joe Pesci, aliás, oferece outra excelente atuação na pele do irmão que cuida da carreira de Jake e é capaz de surrar o amigo Salvy (Frank Vincent) para defendê-lo. Vickie, por sua vez, jamais deixa de conviver com seu ciclo de amizades, por mais que amasse o marido. Por muitas vezes solitária, devido à constante rotina de lutas e viagens dele, procura amenizar a solidão se divertindo, o que só colabora para aumentar a paranóia do pugilista. Interpretada com muita sensualidade por Cathy Moriarty, ela ultrapassa o limite quando beija o empresário Tommy (Nicholas Colasanto) na frente do marido, provocando sua violenta reação. Fica claro então que Jake, por mais que amasse o irmão e a esposa, não media as conseqüências de seus atos, agindo instintivamente. Totalmente emocional e nada racional, era capaz de desconfiar do próprio irmão, como deixa claro na conversa em que, completamente fora de forma e irritado com a televisão, questiona a razão de sua briga com Salvy e chega ao ponto de perguntar se Joey já tinha transado com Vickie. Neste momento, Joey demonstra o quanto conhecia o irmão, pois sabia que se falasse o que tinha acontecido no bar ele explodiria de uma forma que ninguém conseguiria segurar. Vickie, por outro lado, não teve a mesma sabedoria, e talvez até como uma forma de provocar o marido, afirmou que já tinha transado com Joey e todos os amigos dele, provocando a ira do touro que, indomável, sai em fúria para socar o irmão e a mulher na frente da família de Joey, numa cena incrivelmente realista. Ele não pensa, só age, como um verdadeiro animal.

A enorme transformação de De Niro na entrevista de La Motta com a família em casa, seguida por sua assombrosa performance na boate, confirma todo o talento deste incrível ator. Observe como ele, na frente das câmeras, tenta ser mais educado com a esposa, chegando a perguntar se ela já terminou de falar. O final deprimente de La Motta, como um dono de bar gordo e babaca, faz com que sua esposa finalmente consiga deixá-lo. Para piorar ainda mais, ele é preso por permitir a entrada de menores de idade em seu bar, e sequer consegue pagar a fiança, mesmo vendendo as jóias do cinturão de campeão. O plano em que Jake esmurra a parede da cela, afundado nas sombras (refletindo seu estado emocional) e gritando que é um idiota é comovente. Ele repete que “não é mau, não é um animal e não é este cara”, numa performance brilhante e emocionante de Robert De Niro. Ao sair da cadeia, se transforma num apresentador de boteco decadente e deplorável. Porém, sua última frase dentro dos ringues (“Você nunca me derrubou!”) demonstra o outro lado desta fúria interior que carregava, responsável por criar um mito nos ringues. Mesmo derrotado, o gigante nunca caiu.

A conversa de Jake com o espelho, citando Marlon Brando em “Sindicato dos Ladrões”, contém a grande mensagem do filme. Ele podia ter sido alguém muito melhor, mas não foi protegido, caindo repentinamente do topo (céu) para o chão (inferno). No perigoso jogo da fama, não se deslumbrar com o presente e planejar o futuro é essencial para evitar um final decadente como este. Quando a linda trilha sonora, acompanhada de uma passagem bíblica, encerra esta emocionante obra-prima de Scorsese, estamos ainda em estado de transe, completamente hipnotizados pela maravilhosa obra que acabamos de testemunhar. Deslumbrante visualmente e profundo em sua temática, o pungente, vibrante e incrivelmente realista “Touro Indomável” nocauteia o espectador da mesma forma que Jake La Motta destroçava adversários. E de quebra, deixa uma importante reflexão a respeito do estrago que a falta de controle emocional pode causar em nossas vidas.

 

Texto publicado em 02 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira

O ILUMINADO (1980)

(The Shining)

 

Videoteca do Beto #21

Dirigido por Stanley Kubrick.

Elenco: Jack Nicholson, Shelley Duvall, Danny Lloyd, Scatman Crothers, Barry Nelson, Philip Stone, Joe Turkel, Anne Jackson, Tony Burton e Barry Dennen.

Roteiro: Diane Johnson e Stanley Kubrick, baseado em livro de Stephen King.

Produção: Robert Fryer e Stanley Kubrick.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Mais uma vez o diretor de clássicos como “2001 – Uma Odisséia no Espaço” e “Laranja Mecânica” deixa o espectador repleto de questionamentos ao misturar o estudo dos efeitos causados pelo isolamento sobre a mente humana com visões sobrenaturais que podem ter múltiplas interpretações. O constante clima de um eletrizante suspense, recheado com ingredientes assustadores capazes de provocar frio na espinha da mais incrédula das pessoas, faz deste “O Iluminado” o clássico fantasmagórico de Stanley Kubrick, reafirmando o incrível talento deste gênio da sétima arte.

Durante o inverno, Jack Torrance (Jack Nicholson) é contratado para cuidar de um hotel no Colorado, para onde vai com sua mulher Wendy (Shelley Duvall) e seu filho Danny (Danny Lloyd). O problema é que o isolamento começa a afetar sua mente e ele se torna cada vez mais perigoso, ao mesmo tempo em que seu filho descobre pertencer a um seleto grupo de pessoas conhecidas como os “iluminados” e começa a ter visões de acontecimentos ocorridos no passado.

O travelling inicial pelos montes, acompanhando o carro na estrada ao som da assustadora trilha sonora, nos ambienta perfeitamente ao clima de “O Iluminado”. Kubrick nos introduz lentamente aos assustadores elementos da narrativa, como o amigo imaginário de Danny e a história do hotel Overlook contada para Jack, utilizando uma angustiante divisão em capítulos que cria um clima crescente de suspense, atenuado pela conversa sobre canibalismo da família a caminho do Hotel, onde as falas parecem ser mais lentas, tendo pequenas pausas entre elas. Kubrick prova novamente seu talento gigantesco ao abusar de enquadramentos perfeitos, utilizando muitos planos gerais e criando imagens de forte impacto, além de utilizar seu tradicional zoom, por exemplo, quando Dick (Scatman Crothers) está deitado na cama e tem uma visão. Observe também o intimidante plano de Jack brincando com a bola no saguão, mostrando o quanto o hotel Overlook pode ser assustador. O diretor também cria, com a colaboração da excepcional montagem de Ray Lovejoy, uma transição espetacular da maquete admirada por Jack para o belíssimo labirinto de verdade, numa tomada incrivelmente distante e encantadora. Faz ainda um plano de Jack trancado na dispensa que lembra a cena em que Frank, na porta do banheiro, reconhece Alex em “Laranja Mecânica”, numa interessante auto-referência.

Como é de costume nos filmes dirigidos por Kubrick, a parte técnica é nada menos que espetacular. A fotografia branca, limpa, quase asséptica de John Alcott reflete a loucura e o vazio de Jack, isolado naquele hotel. Kubrick utilizou muitas luzes nas enormes janelas para criar um visual que aumentasse esta sensação, além das tradicionais lentes que captam com precisão praticamente todo o cenário. Com o passar do tempo e o aumento da loucura de Jack, a fotografia vai escurecendo, se tornando menos nítida, até finalmente se tornar fria, em tons azulados, com a neve atrapalhando completamente a visão, num reflexo do atordoado estado mental dele. Os cenários coloridos e incrivelmente iluminados (tapetes e paredes coloridos, luminárias e janelas enormes e reluzentes) criam um ambiente intimidador e praticamente com vida, graças ao talentoso trabalho de direção de arte de Leslie Tomkins. Repare como o tapete laranja, vermelho e marrom, em Danny brinca com carrinhos antes de ver a porta 237 aberta, tem um efeito hipnótico, nos levando pra dentro do quarto junto com ele quase que inconscientemente. Outro exemplo é o banheiro onde Jack e Grady (Philip Stone) se encontram e tem um diálogo decisivo, que propositalmente é colorido em vermelho e branco, simbolizando o sangrento caminho que Grady influenciaria Jack a seguir. O som também colabora com o clima de tensão através do uivo do vento durante a nevasca ou, por exemplo, quando Danny passeia de triciclo pelo Hotel e alterna entre o alto barulho dos tacos de madeira e o silencio absoluto do tapete. Note como Kubrick deixa a câmera no nível do triciclo, nos colocando na posição do garoto e, portanto, vulneráveis a qualquer perigo que possa aparecer. E finalmente, a assustadora trilha sonora de Wendy Carlos e Rachel Elkind tem um tom muito sombrio, além de pontuar muito bem algumas cenas, como na primeira aparição do Labirinto.

Com todo este trabalho técnico de primeiro nível, o diretor só precisava de atores capazes de extrair do excelente roteiro, escrito por Diane Johnson e pelo próprio Stanley Kubrick, atuações do mesmo nível. E felizmente, o elenco de “O Iluminado” é muito competente. A começar pela sensacional atuação do ótimo Jack Nicholson. Inicialmente uma pessoa tranqüila e de bem com vida, como podemos perceber quando chega ao Hotel e brinca com as garotas que estão saindo, seu Jack vai lentamente sendo tomado pela loucura causada pelo isolamento. Também colabora com sua perturbação o fato dele, pelo menos teoricamente, pertencer ao grupo dos “iluminados”, e por isso ter visões nada convencionais. O excelente roteiro, aliás, tem um mérito inquestionável, que é justamente jamais deixar claro se as visões de Jack, Danny e posteriormente Wendy, são realmente visões fantasmagóricas ou apenas alucinações provocadas pelo isolamento. A transição de Jack, de pessoa tranqüila para completamente enlouquecido, é lenta e consistente. Os sinais vão aparecendo lentamente (outro mérito do roteiro), como na conversa entre Jack e Wendy a respeito de sua dificuldade para escrever com ela ao lado, sua conversa com Danny no quarto, quando diz que jamais o machucaria e gostaria de ficar ali com ele pra sempre (significando mais do que aparenta) ou seu pesadelo em que corta o filho em pedacinhos. Por não saber conviver com as visões que tem ele acaba enlouquecendo. Os sinais de que Jack também pertence aos “iluminados” são sutis, como a frase do barman (“Seu dinheiro não vale aqui”), sua visita assustadora ao quarto 237 e a festa em que ele conhece o garçom Grady. Sua conversa com o barman antes da festa, aliás, é um momento sublime da atuação de Jack, com o movimento dos olhos, a boca, a alteração repentina na voz e o movimento das mãos indicando o estado psicológico dele. Observe o momento em que ele diz que já machucou Danny antes. Segundos antes de falar, ele abre as mãos e suspira, como se estivesse tomando coragem para confessar. Quando volta ao bar, durante a festa, presenciamos o momento arrepiante em o garçom Grady revela seu nome. Observe a tensa reação de Jack, mexendo as mãos e os dedos, ao ouvir o nome dele. A conversa que segue entre os dois, no banheiro, é decisiva. Finalmente, logo após seu assustador texto datilografado ser descoberto por Wendy e Danny aparecer com o pescoço marcado, ela começa a culpá-lo e percebe sua alteração de comportamento. Inicia-se então outro momento antológico de Jack, transtornado, imitando a voz e partindo, alucinado, pra cima dela, que grita de forma estridente. Aliás, a atuação exagerada de Shelley Duvall como Wendy é uma exigência de Kubrick. Ele entendia que este histerismo era coerente com a personagem e, principalmente, com a situação que ela vivia. O rosto angular e incrivelmente branco dela maximiza os choros e gritos.

Um dos grandes segredos da capacidade de aterrorizar que o filme tem reside no fato do personagem chave ser uma criança. A utilização de crianças como elemento chave do suspense é um artifício interessante, provocando ainda mais medo, já que teoricamente elas são inofensivas. E felizmente, Danny Lloyd tem uma excelente atuação como Danny, um menino ao mesmo tempo misterioso e inocente. Repare sua inocência enquanto brinca com os dardos, seguida por um olhar assustado, acompanhando da respiração ofegante, quando vê as duas garotas no Hotel. Quando começa a descobrir seu talento, indicado através do pensamento de Dick (“Quer um pouco de sorvete, Doc?”) e do esclarecedor diálogo que eles têm em seguida, Danny passa a ver imagens assustadoras com mais freqüência (como as meninas mortas e a macabra frase “Venha brincar conosco Danny, para sempre, e sempre, e sempre…”) o que só aumenta seu pânico. Outro momento inspirado do garoto acontece no grande clímax do filme, quando Jack parte para “resolver seus problemas”, enquanto Danny repete a assustadora palavra “Redrum” (Murder ao contrário, em português “assassinato”). Torcemos desesperadamente para Dick chegar a tempo no Hotel, enquanto Wendy vê a palavra no espelho e Jack tenta derrubar a porta à machadadas, dizendo a famosa frase “Here’s Jhonny!”. Os gritos e as caretas exageradas de Wendy aparecem novamente aqui e a barba por fazer de Jack acentua sua loucura. Wendy passa então a ver o mundo que não via, com pessoas no Hotel e imagens assustadoras, culminando na sensacional seqüência dentro do labirinto, onde é impossível desgrudar os olhos da tela.

O plano final com Jack no meio dos formandos de 1921 deixa muitas questões em aberto, como é tradicional nos filmes de Kubrick. Seria ele um fantasma? O que estaria fazendo ali no meio daquela turma? Esta é uma questão que o filme não responderá, deixando a cargo de cada espectador tirar suas próprias conclusões. Quanto às visões, prefiro pensar que eram reais, e não apenas fruto da imaginação, o que teria total coerência com o próprio nome do filme. Em todo caso, existem pessoas que as interpretam como resultado do extremo isolamento da família, pois nesta situação, o ser humano realmente pode ter alucinações e enlouquecer. Mas isto tudo é pra ser discutido em outro local. Mais importante é destacar que Kubrick, mais uma vez, nos brinda com um filme espetacular, tecnicamente perfeito e capaz de arrancar arrepios da mais incrédula das pessoas. Se a intenção era fazer um bom filme de terror e suspense, ele alcançou com louvor.

Reafirmando novamente seu incrível talento, Kubrick conseguiu fazer de “O Iluminado” um filme incrivelmente assustador, contanto com uma atuação antológica de Jack Nicholson. Com o seu apurado conhecimento técnico e narrativo, criou um filme de visual deslumbrante, com uma narrativa tensa e um resultado final absolutamente maravilhoso. Se existem ou não pessoas iluminadas não sou eu quem vai comprovar. O que posso dizer é que Stanley Kubrick era um diretor iluminado, capaz de criar obras marcantes e inesquecíveis como esta.

 

Texto publicado em 30 de Novembro de 2009 por Roberto Siqueira

MAD MAX (1979)

(Mad Max) 

 

Videoteca do Beto #20

Dirigido por George Miller.

Elenco: Mel Gibson, Joanne Samuel, Hugh Keays-Byrne, Steve Bisley, Tim Burns, Roger Ward, Lisa Aldenhoven, David Bracks, Bertrand Cadart, David Cameron, Max Fairchild e Sheila Florence. 

Roteiro: George Miller e James McCausland. 

Produção: Byron Kennedy. 

 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Um pequeno orçamento de 400 mil dólares foi o responsável pela estréia de duas importantes carreiras no cinema mundial, além de gravar na história do cinema o nome desta aventura futurista com um ar decadente, que se tornou cult com o passar dos anos. Mad Max é um filme cheio de adrenalina, com uma densa carga dramática e personagens interessantes. O mundo cruel dominado por gangues retratado no longa serve de pano de fundo para as sensacionais cenas de perseguição na estrada, que se tornaram famosas ao longo dos anos e inspiraram duas continuações (o bom Mad Max 2: A caçada continua e o fraco Mad Max 3: Além da cúpula do trovão).

Num futuro caótico, o mundo foi dominado por gangues que vivem à procura de gasolina. Após o jovem e talentoso policial Max Rockatansky (Mel Gibson) matar acidentalmente um integrante de uma perigosa gangue, sua família e seu melhor amigo Goose (Steve Bisley) passam a ser perseguidos e as conseqüências trágicas desta perseguição despertam o pior dos sentimentos em Max, a vingança.

George Miller abusou da criatividade para realizar Mad Max. Como o orçamento do filme era extremamente limitado, muitos carros e motos foram remendados e reutilizados o que, somado às roupas nada convencionais das gangues, contribuiu para criar um visual diferente e atraente. O diretor acertou ao manter o ritmo ágil da narrativa, sem muitos floreios, utilizando criativos planos cheios de estilo nas cenas de perseguição – com a câmera no nível do asfalto, na frente de motos e carros, nos olhos de Max, entre outros – que aumentam ainda mais a alta carga de adrenalina. Em muitas destas cenas, Miller utiliza uma quantidade menor de frames (quadros por segundo) para dar uma sensação maior de velocidade, como na cena em que Max passa pelos motoqueiros e os joga da ponte. Nesta cena, aliás, ele alterna da alta velocidade para a câmera lenta durante a queda dos motoqueiros, mostrando em detalhes o impacto do choque. O diretor também utiliza a câmera para aumentar o suspense, como no plano onde vemos uma mão no tronco da árvore enquanto Jessie caminha até a praia. Toda esta tensa seqüência, desde a praia até a volta pra casa, passando por pombos, um cachorro morto e pelo deficiente Benno (Max Fairchild), culmina com a fuga de carro de Jessie (Joanne Samuel, em atuação que não compromete) e May (Sheila Florence) para a estrada, onde a tragédia se consumará. E nesta cena, que é a de maior impacto no espectador, Miller nos poupa ao mostrar um plano subjetivo, com a bola e o tênis do bebê na estrada indicando o resultado trágico. E se o resultado já seria trágico naturalmente, soa ainda mais dolorido porque o bom roteiro do próprio George Miller, auxiliado por James McCausland, acerta ao nos envolver no relacionamento cheio de amor e carinho de Max e Jessie. O impacto do drama vivido por Max após o ataque à sua família é maior justamente porque sentimos simpatia pelo casal. Também direto e sem muitos rodeios, o roteiro funciona perfeitamente, pecando apenas no terceiro ato, que é curto demais. Culpa também da montagem de Cliff Hayes e Tony Paterson, que por outro lado, acerta em cheio nas cenas de perseguição na estrada, criando seqüências de tirar o fôlego. A direção de fotografia de David Eggby explora ao máximo a beleza das estradas australianas e cria um visual quente e seco, aproveitando o maravilhoso brilho do sol naquele país. Finalizando a parte técnica, merece destaque a qualidade do som, principalmente na estrada com o barulho das motos e dos carros, e da trilha sonora de Brian May, rápida, alucinada e perfeita para aquele mundo.

O ataque ao jovem casal na estrada mostra o perigo que aquela gangue de motoqueiros representa. Malucos e arruaceiros, estes nômades não tem piedade de ninguém. A insanidade do grupo fica ainda mais evidente na cena em que Jessie vai comprar sorvete, quando todos partem como animais que cercam a presa para cima da moça, até que ela se aproveita do interesse do líder da gangue para se livrar dele e escapar. O próximo encontro entre eles só confirma a crueldade destes vilões. E mesmo que quisessem mudar este comportamento não poderiam, como fica evidente quando um dos motoqueiros se recusa a matar Goose da forma que seu líder queria, mas é obrigado a fazê-lo para evitar ser assassinado por eles. Por outro lado, as fracas interpretações de praticamente todos os atores do grupo prejudicam o tom ameaçador da gangue, que poderia soar muito mais perigosa e assustadora. O visual dos bandidos é muito mais assustador que eles próprios.

Para que “Mad Max” realmente funcionasse, seria necessário um personagem principal carismático, e Miller acertou em cheio na escolha. Desde sua excelente introdução (o diretor cria um suspense para lentamente revelar seu rosto, mostrando inicialmente as botas, óculos e luvas pretas) nos identificamos com Max, um policial destemido que não foge do choque e provoca a morte do até então temível “Dark Knight”. Vivido com competência por Mel Gibson, Max é uma pessoa simples, apaixonada pelo que faz, e que ama sua família. O ator é talentoso ao transmitir esta paixão de Max pela esposa, como podemos observar na bela cena em que, deitado na grama com Jessie, tenta dizer o quanto à ama usando como exemplo sua dificuldade em demonstrar afeto pelo falecido pai quando ainda era criança. Por outro lado, Max é também uma pessoa destemida e que gosta da adrenalina da estrada. Seu diálogo com Fifi Macafee (Roger Ward) deixa claro que ele está começando a gostar daquilo tudo e, se continuar nesta profissão, ficará tão louco quanto os baderneiros motoqueiros. Esta perigosa mistura de paixão e loucura o torna uma bomba relógio, pronta pra explodir caso algo aconteça às pessoas que ama. E a tragédia acontece, transformando Max no pior dos inimigos para aquela gangue, aquele que não tem mais nada a perder. O plano em que Max olha fixamente para a máscara do monstro é bastante simbólico, já que agora, sem a mulher, o filho e seu melhor amigo, ele se tornou o próprio monstro.

 

 

 

 

 

 

Além das excelentes cenas de perseguição que são um prato cheio para quem gosta de carros, colabora para o sucesso do filme (e o status de cult alcançado ao logo dos anos) o árido e sujo mundo futurista criado pela boa Direção de Arte de Jon Dowding (“Velocidade é só uma questão de dinheiro. Quão rápido você pode ir?” é a interessante frase de uma borracharia). Mais importante ainda são os excêntricos figurinos dos motoqueiros criados por Clare Griffin. Os figurinos, aliás, também tem função dramática no filme, pois indicam o estado psicológico de Max. Inicialmente, ele se veste muitas vezes de branco, colocando o preto somente pra trabalhar. Mas depois da morte de sua família, Max não abandona o preto, refletindo a escuridão que tomou conta de sua vida. E até mesmo o carro de perseguição colabora. Inicialmente utilizando o Interceptor amarelo, Max muda para o carro completamente preto na seqüência final. E aqui, Gibson também é competente ao retratar com o olhar a angústia, fúria e sede de vingança de Max.

Vingança, aliás, é o tema principal de “Mad Max”. O filme utiliza a vingança pessoal do policial como pano de fundo para as sensacionais cenas de perseguição. E mesmo que esta violência “justificada” não seja algo que eu, racionalmente, considere correto, é inegável que julgar a reação de Max ao enorme sofrimento que sentia seria leviano e hipócrita. Desta forma, ele parte sem medir conseqüências em busca da vingança, e o espectador torce por ele. Vale notar também como o modo cruel que Max faz sua última vítima inspirou um filme recente de bastante sucesso, com a sugestão de utilizar a serra como forma de escapar da morte.

O visual criativo e original se tornou um clássico com o passar dos anos, assim como as cenas em alta velocidade. Repleto de adrenalina, com um personagem carismático e cenas de perseguição de tirar o fôlego, “Max Mad” é um exemplo de que mesmo com orçamento baixo é possível fazer bons filmes, desde que se tenha talento para isto. Felizmente, este é o caso da dupla George Miller e Mel Gibson.

 

Texto publicado em 28 de Novembro de 2009 por Roberto Siqueira

ALIEN – O OITAVO PASSAGEIRO (1979)

(Alien)

 

Videoteca do Beto #19

Dirigido por Ridley Scott.

Elenco: Sigourney Weaver, Tom Skerritt, Veronica Cartwright, Harry Dean Stanton, John Hurt, Yaphet Kotto, Ian Holm e Eddie Powell (O Alien).

Roteiro: Dan O’Bannon, baseado em estória de Ronald Shusett e Dan O’Bannon.

Produção: Gordon Carroll, David Giler e Walter Hill.

 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Verdadeira máquina de assustar o espectador, “Alien – O Oitavo Passageiro” é uma ficção científica com alta carga de tensão e suspense, que deixa o espectador se sentindo encurralado praticamente o tempo inteiro, além de provocar a sensação contínua de que algo poderá surgir repentinamente na tela. Ridley Scott dirige este bom filme, que apresenta um terror mais psicológico que visual e conta com uma incrível capacidade de nos deixar grudados na cadeira o tempo todo, provocando sustos de forma magistral.

Ao retornar para a Terra, uma nave espacial recebe estranhos sinais vindos de um asteróide e seus tripulantes decidem investigar o local. Durante a investigação, um dos tripulantes é atacado por um estranho ser que, ao entrar na nave, passa a aterrorizar toda a tripulação. Parte da capacidade de “Alien – O Oitavo Passageiro” de provocar sustos vem do fato de não existir no elenco um grande astro da época. Todos os atores eram praticamente desconhecidos, e por isso, as pessoas não sabiam quem seria o próximo a ser atacado pela criatura, sequer imaginando quem iria sobreviver (normalmente, o astro sobrevive). Hoje em dia, com as inúmeras continuações de “Alien” com Sigourney Weaver, é fácil saber quem sobrevive neste primeiro filme, o que não impede o espectador de admirar o resultado alcançado. Basta, para isso, entender o contexto da época.

Ridley Scott demonstra seu talento na construção de visuais deslumbrantes, criando cenas de grande impacto, como o incrível ninho repleto de ovos alienígenas. Detalhista, nos ambienta em toda a nave logo no travelling inicial, o que permite notar também o bom trabalho de Direção de Arte de Roger Christian e Leslie Dilley, capaz de criar uma nave extremamente detalhada e assombrosa. Com um visual confuso e obscuro, repleta de corredores apertados que dão uma sensação de claustrofobia, a nave lembra muito uma casa mal assombrada. Scott também utiliza a câmera para aumentar o suspense, como no plano em que o Alien some do rosto de Kane (John Hurt), onde a câmera, no nível do chão, nos dá a sensação de que o Alien vai aparecer na tela a qualquer momento. Quando aparece, o susto é grande, também pela composição visual da cena, em que o espectador consegue vê-lo, mas a personagem não. Scott cria ainda duas cenas de extremo impacto. A morte de Dallas (Tom Skerritt) é de tirar qualquer um da poltrona e a famosa cena do nascimento do Alien é absolutamente chocante e inesquecível.

Quando o grupo decide pousar no asteróide para descobrir a origem do sinal, já sabemos que a decisão tomada é errada. O aviso no sistema de que aquilo não era um pedido de ajuda serve apenas como dica do que irá acontecer. Quando o embrião gruda no capacete de Kane, causando o primeiro grande susto do filme, confirmamos nossa expectativa. E é difícil julgar a decisão do grupo na cena seguinte, pois, teoricamente, eles tiveram boa intenção ao tentar salvar o amigo (descobriremos mais tarde que um dos tripulantes tinha outras intenções). A atitude humana de trazer Kane pra dentro da nave acaba sendo a razão da destruição da tripulação. Como podemos notar, o bom roteiro de Dan O’Bannon, baseado em estória dele próprio e Ronald Shusett, tem erros e acertos, com cenas em que sabemos que a decisão tomada é errada se contrapondo às cenas em que realmente não seria possível prever o que aconteceria. Um exemplo negativo é a desculpa idiota criada para que o Alien, já em seu tamanho final, faça sua primeira vítima, quando um integrante do grupo sai à procura do gato para que este não volte a “atrapalhar” a busca. Por outro lado, o roteiro acerta, por exemplo, ao nos apresentar os personagens durante um descontraído café, nos aproximando deles, o que aumenta o drama quando a caçada do invasor começa. E acerta principalmente na forma como cada um dos integrantes vai sendo eliminado, com exceção de Brett (Harry Dean Stanton), sem nos dar qualquer pista do que vai acontecer.

O relacionamento do grupo, aliás, mostra detalhes importantes da narrativa. Em certo momento, Ripley (Sigourney Weaver) deixa claro que não confia em Ash (Ian Holm), dizendo claramente para Dallas o seu pensamento. Ela já havia demonstrado, de forma sutil, que não gostava dele, quando Ash e Dallas entram na sala em que o Alien sumiu (ela diz “Cuidado Dallas!”, sem sequer citar o nome de Ash). Por outro lado, Dallas deixa claro que qualquer decisão científica é responsabilidade de Ash, o que demonstra seu respeito à hierarquia. Interessante notar também que ao dizer para Brett “isto aqui é que é trabalho”, Parker (Yaphet Kotto) evidencia um conflito comum em qualquer ambiente profissional, colocando em choque o trabalho físico e o mental. E se todos estes conflitos parecem realistas e nos aproximam dos personagens é devido à boa atuação de todo o elenco, com destaque para a transformação de Ripley ao longo do filme, tornando-se a líder do grupo na caça ao Alien. O comovente choro de Lambert (Veronica Cartwright) quando seus parceiros começam a ser assassinados também merece destaque. Um último exemplo do ótimo desempenho coletivo é a tensa cena da morte de Dallas, com todos tensos e desesperados narrando pelo rádio à chegada do Alien.

A tensão carregada em cada tomada conta com a enorme contribuição da Direção de Fotografia de Derek Vanlint. Inicialmente azulada e escura, refletindo a solidão daquele grupo a tanto tempo no espaço, se torna gradativamente colorida e alucinada, destacando o amarelo, vermelho e azul, na medida em que o Alien começa a perseguir a tripulação. Encurralados, eles tentam enfrentá-lo, mas acabam sendo caçados um a um, chegando ao clímax na fantástica perseguição do monstro a Ripley, em corredores apertados e cheios de luzes piscando que remetem ao pior dos pesadelos. A competente trilha sonora de Jerry Goldsmith, tensa e acelerada, colabora para esta sensação, assim como o som diegético na seqüência dentro do Shuttle, onde apenas a respiração dela pode ser ouvida. Pra finalizar, é obrigatório destacar os excelentes efeitos visuais, como podemos notar principalmente na cena do nascimento do Alien, e, obviamente, em seu visual final assustador, mais parecido com uma máquina do que com um ser vivo. Como diz determinado personagem, o Alien é um organismo perfeito, o que o torna ainda mais temível.

A revelação das intenções de Ash (manter o alienígena vivo) e, posteriormente, de que ele é um robô, provoca um choque na platéia e uma interessante reviravolta na narrativa. A ironia evidente traça um paralelo com o criativo método de criação do Alien. O inimigo do grupo estava dentro da nave, assim como o inimigo de Kane estava dentro dele. Ambos, de certa forma, foram incubados pelas suas próprias vítimas. Além disso, o robô Ash pode servir como uma crítica a cientistas que, por muitas vezes, colocam o resultado de uma pesquisa acima da própria vida humana.

A seqüência final de “Alien – O Oitavo Passageiro” fecha o longa com chave de ouro, com a realista contagem regressiva em que Ripley não consegue desativar a destruição da nave, seguida pela tensa seqüência no Shuttle. Construída de forma lenta, não permite que o espectador desgrude os olhos da tela por um segundo sequer. Do segundo ato em diante, Alien é um filme tenso, que praticamente não permite um minuto de relaxamento. Mérito da grande direção de Ridley Scott que cria, a partir do bom roteiro, um clima papável de suspense e terror, levando o espectador a realmente temer pelo destino dos personagens, o que é sempre louvável em filmes do gênero.

 

Texto publicado em 26 de Novembro de 2009 por Roberto Siqueira

Índice: Link direto para a crítica

Buscando melhorar a navegação no blog e facilitar a leitura das críticas, adicionei no lado direito da tela inicial o link direto para cada uma delas, dividido por categorias e ordenado por data de lançamento do filme (não por ordem de numeração/divulgação da crítica).

A propósito, ontem informei que “Rocky, um Lutador” seria encaixado na seqüência da Videoteca. A crítica do filme vencedor do Oscar de 1976 já tinha sido publicada como “Filmes em Geral #5”, por isso, somente adicionei em seu cabeçalho a classificação “Videoteca do Beto #18” (a última crítica da Videoteca divulgada era Butch Cassidy #17). Esta numeração serve apenas como controle pessoal da seqüência em que divulgo as criticas, normalmente seguindo uma ordem cronológica. Mas achei que valeria uma explicação, já que a seqüência, devido à compra fora de ordem dos filmes, às vezes fica bagunçada. Em todo caso, o importante é o texto divulgado.

Se quiser ler a crítica do filme Videoteca do Beto #18 (Rocky, um Lutador), basta clicar aqui.

Um abraço.

Texto publicado em 25 de Novembro de 2009 por Roberto Siqueira