UM DIA DE CÃO (1975)

(A Dog Day Afternoon)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #15

Dirigido por Sidney Lumet.

Elenco: Al Pacino, John Cazale, Charles Durning, Penelope Allen, James Broderick, Chris Sarandon, Sully Boyar, Beulah Garrick, Carol Kane, Sandra Kazan, Marcia Jean Kurtz, Amy Levitt, John Marriott, Estelle Omens, Gary Springer, Carmine Foresta e Lance Henriksen.

Roteiro: Frank Pierson, baseado em artigo de P.F. Kluge e Thomas Moore. 

Produção: Martin Bregman e Martin Elfand.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A história real de um assalto mal planejado, que deveria durar dez minutos e acabou durando mais de dez horas, tornando-se o principal evento da televisão norte-americana no dia, é contada com maestria pelo excelente Sidney Lumet, auxiliado por uma atuação magnífica de Al Pacino e um trabalho técnico muito competente que tornou o filme extremamente realista.

Precisando de dinheiro para pagar a cirurgia de mudança de sexo de seu namorado, Sonny (Al Pacino) resolve assaltar um banco acompanhado de seu amigo Sal (John Cazale). Dez horas depois, eles ainda estavam dentro do prédio com os reféns, cercados pela polícia, pela imprensa e por curiosos de plantão.

Lumet inicia o longa com diversos planos que contrastam as diferenças sociais, nos ambientando na cidade. Também mostra alguns cachorros na rua, fazendo uma alusão ao nome do filme. A introdução embalada pela ótima música nos leva até o carro onde estão Sonny, Sal e Stevie. Os minutos seguintes são responsáveis por captar a atenção do espectador, que ficará grudado na tela por duas horas, em um clima misto de tensão e humor negro.

O diretor é hábil ao conseguir, com a ajuda de sua equipe técnica, manter um constante clima de urgência, mantendo uma sensação de que sempre algo pode acontecer inesperadamente na tela. Ele mantém a câmera em movimento em muitos momentos, como se estivéssemos em um documentário. Também é muito eficiente na hora de captar e coordenar o exército de figurantes do filme. Quando Sonny começa a ligar para as pessoas importantes de sua vida, Lumet vai aproximando a câmera de seu rosto, transmitindo o desespero dele e realçando a ótima atuação de Pacino, que já está exausto. Seu rosto molhado e seus cabelos ainda mais desarrumados refletem isto. A agilidade das cenas é mérito também da excelente montagem de Dede Allen e Angelo Corrao, que consegue criar este clima de urgência sem soar confuso. Um exemplo do bom trabalho de montagem é a cena do tiro de Sonny na janela, onde podemos ver a reação em todo o ambiente praticamente de forma simultânea. Outro exemplo é a surpreendente cena final, onde em questão de segundos podemos acompanhar toda a ação paralela que culmina com o assassinato de Sal e a prisão de Sonny. A fotografia granulada (Direção de Victor J. Kemper) torna o filme mais realista e na parte final do filme se torna extremamente escura (“Cortaram as luzes!”) o que torna o ambiente mais tenso, além de aumentar a sensação de estar encurralado.

Além da boa direção de Lumet, a força do filme se concentra na enérgica e sensacional atuação de Al Pacino. Na época um grande astro, devido ao sucesso dos dois primeiros filmes da trilogia “O Poderoso Chefão”, o ator se mostrou extremamente corajoso ao aceitar este papel, que envolvia homossexualismo, e arriscar sua reputação. Porém sua excelente atuação e o ótimo filme provaram que ele estava certo em sua escolha. Logo que o assalto se inicia ele já está agitado, nervoso, gritando e falando palavrões. Seu Sonny é alguém que, por ter trabalhado em bancos, conhece todos os artifícios do local (alarmes nas notas, nas chaves, notas marcadas) e utilizou este conhecimento para tentar resolver sua situação. Extremamente pressionado por todos os lados de sua vida, como podemos notar na conversa de Sonny com Leon, com sua ex-esposa e depois com sua mãe, notamos que ele não é uma pessoa má, mas perdeu a cabeça com tantos problemas e não soube lidar com esta situação. Observe como Angie não deixa Sonny falar, mostrando a pessoa complicada que ele tinha que conviver diariamente. Ao final da conversa com ela, Sonny fica pensativo, refletindo sobre tudo que aconteceu. Por outro lado, Sonny também não é alguém fácil de entender. Casado e com filhos, ele piorou ainda mais sua já complicada vida quando se envolveu com Leon, com quem se casou em outro estado. Seus pais também não eram lá pessoas muito tranqüilas, como podemos perceber na conversa dele com sua mãe, quando ela fala pra ele correr, dando um claro sinal de desespero. “Seu pai disse que não tem mais filho”, diz ela, mostrando que sua família não era o melhor exemplo de estrutura. Por tudo isso, e também por ter perdido o emprego, Sonny resolveu acabar com seus problemas da forma mais rápida. Mas seu plano deu errado. E Pacino é extremamente hábil ao nos transmitir toda esta carga de tensão que Sonny carrega nos ombros. Quando o telefone toca e o gerente diz que é pra ele (uma das reféns pula e sorri aliviada ao saber que a policia chegou ao local), Pacino faz uma cara de espanto deixando claro que Sonny não era um ladrão de bancos acostumado com aquilo. Ele agiu errado, na hora errada. Lumet diminui Pacino neste momento. Ele está no chão, desolado, e o gerente fica em pé diante dele. O show particular do ator tem alguns momentos memoráveis, com na cena em que ele se refere às vitimas inocentes em “Attica” (Rebelião de Attica, 1971), dizendo para a polícia guardar as armas (“Put the f* guns down!”), a ótima cena da entrega da pizza em que Sonny joga dinheiro para o povo e se torna herói pra eles (“Sonny are we!” / “Nós somos Sonny!” gritam) e o sensacional diálogo entre Sonny e o apresentador de TV (“Quanto você ganha por semana?”), que é uma excelente crítica ao sensacionalismo da imprensa, tão comum nos dias de hoje, que ao invés de debater uma solução para os problemas sociais, como era o caso, tenta falar com propriedade de problemas tão distantes da realidade que os próprios apresentadores (como alguns da nossa televisão aberta) vivem.

No restante do elenco, podemos destacar Charles Durning como o inteligente policial Moretti. Suas discussões com Sonny são sempre realistas. Observe os tiques no rosto de Pacino, mexendo os olhos e o canto da boca freqüentemente, enquanto Moretti fala ofegante tentando controlar a tensa situação. Os dois mostram o nervosismo que seus personagens sentem com muita habilidade. John Cazale tem boa atuação como o calado Sal. Repare sua tensão refletida na voz e no olhar quando ele fala com Sonny sobre arremessar corpos. Ele é o mais perigoso da dupla, pois irá até a última conseqüência para evitar voltar à prisão. Sal é simples, nem sabe que Wyoming não é um país. Observe como ele fica irritado quando a TV fala que são dois assaltantes homossexuais. Sonny responde que “eles podem dizer o que querem, somos apenas um show de horror”, numa boa crítica à má utilização da liberdade de imprensa. Finalmente, temos Chris Sarandon, muito bem como o amante homossexual de Sonny. Observe a posição de suas mãos quando fala, muitas vezes pressionando o próprio peito, num movimento bem feminino. Sua enorme sensibilidade nos diálogos e o desmaio ao ver Sonny também reforçam a qualidade da atuação. Observe também seu riso ao ouvir Sonny dizer “Dinamarca, Suécia?”, típico de quem está ironizando o que ouve. Interessante notar também como até os figurantes participam muito bem do filme, como na já citada cena da pizza, ou quando Leon fala que é “uma mulher presa no corpo de um homem” e um policial ri ao fundo. Moretti olha bravo e ele disfarça olhando para o alto.

O ótimo roteiro de Frank Pierson, baseado em artigo de P.F. Kluge e Thomas Moore, consegue balancear com competência os momentos tensos com muitos alívios cômicos, recheados de humor negro. Entre eles, podemos citar a cena em que o marido de uma das reféns liga e ela pergunta o que pode responder pra ele (“Ele quer saber que horas vai acabar.”) ou na cena em que outra refém reclama da linguagem utilizada por Sonny. Em certo momento, alguém sugere que a viagem do grupo seja para a Europa, dizendo que “A Holanda é bem legal, abrigou pessoas na guerra”, e Sonny responde: “Onde fica a Holanda?”. “Ele é calmo”, “São minhas garotas!” e “Meninas, eu fui entrevistada!” são outros trechos bem humorados do roteiro, que demonstra ainda muita coragem ao abordar o tema homossexualismo em 1975. Também é interessante notar o conflito entre a polícia e a imprensa, tanto no chão, com os repórteres furando o bloqueio, como no alto, com os helicópteros tentando filmar o “show”.

Lumet mostrou coragem ao narrar esta história real acontecida poucos anos antes e com extremo realismo, abordando o homossexualismo e também o racismo, na cena em que o primeiro refém é solto e confundido com um assaltante pelo fato dele ser negro, mas também pela péssima comunicação entre Sonny e Moretti (“Você falou que só tinha mulheres aí!”). A condução da cena final é perfeita. Enquanto vemos os carros se dirigindo ao Aeroporto, a tensão vai aumentando e a expectativa pelo que vai acontecer é enorme. A cena tem grande impacto, e o fato do filme ser baseado em uma história real, aumenta ainda mais o efeito dela no espectador. Sonny não era uma pessoa ruim, só não soube lidar com seus problemas da maneira mais adequada, e pagou caro por isso.

Extremamente ágil e tenso, porém balanceado com muitos momentos de bom humor, Um Dia de Cão mostra como uma pessoa normal pode se tornar um perigo para a sociedade se não souber lidar com seus problemas da forma correta. Com mais uma ótima direção de Lumet e uma atuação fabulosa de Al Pacino, garante duas horas de bom entretenimento e ainda traz boas reflexões para o espectador a respeito de temas polêmicos como o sensacionalismo exagerado da imprensa, o homossexualismo e o método controverso da policia norte-americana na época.

Texto publicado em 02 de Novembro de 2009 por Roberto Siqueira

FRENESI (1972)

(Frenzy)

 

Filmes em Geral #66

Filmes Comentados #8 (Comentários transformados em crítica em 16 de Junho de 2011)

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: Jon Finch, Barbara Leigh-Hunt, Barry Foster, Jean Marsh, Anna Massey, Alec McCowen, Vivien Merchant e Billie Whitelaw.

Roteiro: Anthony Shaffer.

Produção: Alfred Hitchcock.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após tropeçar nos thrillers sobre a guerra fria “Cortina Rasgada” e “Topázio”, Alfred Hitchcock recupera a boa forma neste “Frenesi”, que traz de volta algumas das melhores características do diretor. Com uma narrativa envolvente, cenas de impacto e uma boa dose de humor negro, o mestre do suspense voltava a presentear os cinéfilos com um grande filme.

Um assassino em série começa a aterrorizar a cidade de Londres, atacando mulheres com uma gravata. Com base nas declarações de uma testemunha após o assassinato da Sra. Brenda Margaret Blaney (Barbara Leigh-Hunt), a polícia passa a desconfiar de seu ex-marido Richard Blaney (Jon Finch), que tenta provar sua inocência, com a ajuda da namorada Barbara Milligan (Anna Massey) e do amigo Robert Rusk (Barry Foster).

Desde os primeiros momentos de “Frenesi”, é possível notar que Alfred Hitchcock estava de volta com força total, quando um belo travelling pelo rio Tamisa nos leva ao local onde um grupo de pessoas está amontoado, escutando uma declaração dos governantes, e é interrompido pelo surgimento do corpo de uma mulher morta na margem do rio, nua e com uma gravata em seu pescoço, jogando o espectador pra dentro da trama imediatamente. Um corte seco sai da gravata presa à vítima e nos leva ao personagem central, Blaney, que, ironicamente, amarra a sua gravata tranqüilamente antes de sair para o trabalho. Somente com este início, o espectador já foi fisgado. Queremos saber quem é o assassino e já temos um suspeito. A Londres que surge em seguida, suja e sem vida, ressalta o trabalho de direção de arte de Robert Laing e cria uma atmosfera crua e realista, bastante coerente com a narrativa, e reforçada pela fotografia de Gil Taylor, que emprega cores opacas, conferindo um visual mais sombrio na segunda metade do longa. Quanto mais nos aproximamos do final, mais tensa a trama se torna, algo refletido também na trilha sonora de Ron Goodwin.

Após uma fase irregular, Alfred Hitchcock volta a acertar a mão nas cenas mais importantes, criando momentos de puro suspense. A começar pelo tenso diálogo que leva à morte da Sra. Blaney pelas mãos de Rusk, numa cena sufocante, acentuada pelo uso do close e pela trilha sonora, que tornam a cena ainda mais impactante (repare como o diretor destaca o broche com a letra “R”, que terá importância em outro momento da trama). Além disso, Hitchcock muda o foco principal da narrativa ao revelar o assassino com apenas 34 minutos de filme. Agora não queremos mais saber quem é o assassino, e sim como a policia vai chegar até ele, pois todos os fatos levam à outra pessoa. E a razão que leva a todos a desconfiarem de outra pessoa surge num momento genial do diretor, quando a câmera acompanha a saída de Rusk do prédio e, no mesmo travelling, mostra a chegada de Blaney. Momentos depois, vemos a saída dele, após tentar sem sucesso falar com a esposa, e a chegada da secretária, que o vê saindo. A câmera ainda permanece no local por alguns instantes, até que a secretária veja Brenda morta e grite, assustando as pessoas que passavam na rua.

Pra piorar a situação, os claros sinais da agressividade de Blaney nos levam a crer que ele é o assassino no princípio da narrativa, o que justifica a desconfiança geral após o assassinato de sua ex-esposa. Por exemplo, quando ele ouve uma conversa sobre o assassino num bar, sai repentinamente do local, aparentemente irritado. Além disso, no jantar com Brenda, ele quebra um copo com a mão quando fica com raiva, expondo seu descontrole. Escrito por Anthony Shaffer, o roteiro trabalha minuciosamente nos detalhes que incriminam Blaney, fazendo com que até mesmo o dinheiro que ele recebeu seja utilizado contra ele. Novamente, o tema favorito de Hitchcock é o centro da narrativa (homem inocente acusado de um crime que não cometeu), deixando claro que nem sempre os fatos apontam para a verdade. O diretor ainda utiliza outro artifício costumeiro em suas obras, fazendo a platéia saber mais que todos os personagens ao revelar o assassino.

Suspeito principal do crime, Blaney é um personagem interessante, prejudicado pela atuação irregular de Jon Finch, que não consegue criar empatia com o espectador, dificultando nosso envolvimento com seu drama. Sua falta de simpatia é gritante. Mesmo assim, nos momentos que exigem uma atuação mais enérgica ele vai bem, como na cena em que é preso, gritando e expondo sua revolta. Já Barry Foster se sai bem como Rusk, mostrando uma dupla personalidade coerente com o personagem. Com os amigos, ele é calmo e amável, mas quando vê uma mulher que lhe interessa, se transforma num assassino cruel e implacável – a tranqüilidade de Rusk após assassinar Barbara demonstra que se trata mesmo de um psicopata. Além disso, ele é o responsável pela prisão de Blaney, numa traição que desperta o amigo para a realidade e o faz descobrir que Rusk é o assassino.

O bom humor fica por conta dos “criativos” pratos servidos pela Sra. Oxford (Vivien Merchant) ao seu marido, o Inspetor-Chefe Oxford (Alec McCowen), que, exatamente por isso, surge anteriormente comendo muito no café da manhã. Os dois ainda vivem um momento interessante, quando conversam sobre o assassinato de Barbara, dizendo que Rusk precisou quebrar os dedos da vítima enquanto a Sra. Oxford quebra o pão, fazendo um barulho parecido. Fechando o elenco, Anna Massey vive a simpática Barbara Milligan, que acredita em Blaney e tenta ajudá-lo, ao contrário da esposa de seu amigo Johnny Porter (Clive Swift), a direta Hetty Porter (Billie Whitelaw), que não mede as palavras e deixa claro que não acredita nele. É com Barbara, aliás, que Hitchcock demonstra seu conhecimento da linguagem cinematográfica, em outro plano interessante que mostra seu rosto em close e, quando ela sai da tela, revela Rusk atrás dela. É o inicio do assassinato da moça. Após os dois entrarem no quarto de Rusk, Hitchcock faz um travelling lento, desde a silenciosa porta do apartamento até a barulhenta rua. Sabemos que na próxima vez que voltarmos ali, Barbara estará morta.

Os bons momentos de suspense surgem novamente na cena do caminhão, onde estamos sufocados junto com Rusk, que tenta, com muita dificuldade, recuperar o broche que poderia incriminá-lo. Torcemos pro motorista encontrar Rusk, mas ele consegue escapar, só que comete um erro fatal ao entrar no restaurante e ser visto. Vale destacar ainda como Hitchcock cria dois planos idênticos em momentos cruciais da vida de Blaney. Quando ele é preso, a câmera está em cima da cela, num plano plongèe que diminui o personagem, refletindo seu sentimento, assim como no momento de sua fuga do hospital, quando vemos os médicos examinando o guarda, também por cima, e acompanhamos sua saída disfarçada que nos leva ao grande final. O clímax da narrativa acontece quando Blaney invade o apartamento de Rusk, apresentando um artifício interessante do roteiro chamado “dica e recompensa”. Em um dos assassinatos, observamos passo a passo como o criminoso se livra do corpo. Por isso, ao ouvirmos o barulho na escada nesta cena final, nos lembramos de seus métodos e sabemos que é ele quem está chegando ao local. Além disso, a frase final “Sr. Rusk, você não está usando sua gravata” é genial e encerra bem a narrativa.

Ainda que seja inferior ao trabalho genial de Hitchcock em outros filmes, “Frenesi” é digno da filmografia do mestre, com sua narrativa envolvente, cenas bem construídas e um final inteligente. Após dois filmes com temáticas que envolviam política, Hitchcock volta ao seu tema favorito e, como esperado, entrega mais um filme memorável.

PS: Comentários divulgados em 28 de Outubro de 2009 e transformados em crítica em 16 de Junho de 2011.

Texto atualizado em 16 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira

Videoteca do Beto: novas aquisições

Abaixo a foto dos 20 novos integrantes da Videoteca do Beto:

Butch Cassidy (1969)*

Gandhi (1982)

Platoon (1986)

Trilogia Missão: Impossível (1996, 2000 e 2006)

Vida de Inseto (1998)

A Viagem de Chihiro (2001)

Prenda-me se for capaz (2002)

Minority Report – A Nova Lei (2002)

Trilogia Bourne (2002, 2004 e 2007)

Procurando Nemo (2003)

Os Incríveis (2004)

Cruzada (2005)

Apocalypto (2006)

Carros (2006)

Curtas da Pixar (2007)

Batman – O Cavaleiro das Trevas (2008)

*Os filmes que chegarem depois de sua posição na ordem cronológica das críticas “Videoteca do Beto” serão assistidos e avaliados na medida do possível e serão encaixados na seqüência da Videoteca. Por exemplo, se a Videoteca estiver no filme #15 e eu divulgar em seguida a crítica do filme “Butch Cassidy”, este será o filme Videoteca do Beto #16.

Um abraço.

Videoteca 008 

Texto publicado em 27 de Outubro de 2009 por Roberto Siqueira

UM ESTRANHO NO NINHO (1975)

(One Flew Over the Cuckoo’s Nest) 

5 Estrelas 

Filmes em Geral #8

Vencedores do Oscar #1975

Videoteca do Beto #152 (Filme comprado após ter a crítica divulgada no site e transferido para a Videoteca em 08 de Janeiro de 2013)

Dirigido por Milos Forman.

Elenco: Jack Nicholson, Louise Fletcher, Danny DeVito, Christopher Lloyd, Brad Dourif, William Redfield, Michael Berryman, Peter Brocco, Will Sampson, Dean R. Brooks, Alonzo Brown, Mwako Cumbuka, William Duell, Josip Elic, Lan Fendors e Sydney Lassick. 

Roteiro: Bo Goldman e Lawrence Hauben, baseado em livro de Ken Kesey. 

Produção: Michael Douglas e Saul Zaentz. 

Um Estranho no Ninho foto 5

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A sensação de liberdade é algo que independe de onde estamos e de como vivemos. Podemos nos sentir livres de diversas maneiras e em diversos lugares. Da mesma forma, estar preso não quer dizer necessariamente que estamos encarcerados ou cercados por muros e grades. Podemos nos sentir sufocados, cercados, aprisionados, mesmo que estejamos no mais livre dos lugares do planeta. A questão é: temos coragem de lutar para conquistar a liberdade que desejamos? A prisão psicológica de um grupo de pessoas dentro de uma instituição para doentes mentais (ou manicômio) e o caos que “um estranho no ninho” provoca naquelas vidas é o fio condutor do belíssimo drama dirigido por Milos Forman e estrelado brilhantemente por Jack Nicholson.

O condenado Randle Patrick McMurphy (Jack Nicholson) se passa por louco para evitar trabalhar no campo e acaba sendo transferido para um manicômio, onde vai alterar a rotina dos presentes e entrar em conflito com as rígidas normas de controle estabelecidas pela instituição e seguidas à risca pela enfermeira Mildred Ratched (Louise Fletcher). Ao despertar os pacientes e provocar a revolta deles contra estas regras ele irá encontrar também seu trágico destino.

O cotidiano de uma instituição responsável pela reabilitação de pessoas com problemas mentais não deve mesmo ser nada fácil. Afinal de contas, conviver diariamente com pessoas das quais não sabemos que comportamento esperar é algo um tanto complicado e perigoso. Por outro lado, deve ser gratificante para qualquer profissional da área quando alguém deste grupo apresenta alguma evolução, o que serve de motivação para enfrentar este clima pesado diariamente. Sendo assim, não podemos condenar os rígidos métodos adotados pela instituição e seguidos fielmente pela enfermeira Ratched na tentativa de controlar a situação, o que estava sendo feito com sucesso até a chegada de alguém que, por motivos óbvios, não seguirá as regras do local e, conseqüentemente, provocará o conflito naquele ambiente. Milos Forman acerta em cheio na utilização de muitos closes, que realçam as expressões marcantes daquelas pessoas perturbadas psicologicamente, em contraponto às longas tomadas sem corte que permitem ao espectador apreciar em detalhes a espetacular atuação coletiva do elenco. O diretor é hábil ao explorar as maravilhosas atuações de um elenco incrivelmente talentoso, como no diálogo final entre a enfermeira Ratched e Billy Bibbit (Brad Dourif), realçando as expressões dos dois. Além disso, faz interessantes movimentos de câmera, como na cena da votação, que inicia com um close no sorridente McMurphy, e que lentamente vai se afastando dele para mostrar que o resultado da votação não foi nem de perto o esperado por ele. Forman também é competente ao nos dar algumas dicas do que vai acontecer durante o filme de forma sutil. Observe, por exemplo, como na cena em que McMurphy diz para o grupo que vai assistir ao jogo, arremessando a pia na janela e fugindo, o rápido close no olhar curioso do Chefe Bromden (Will Sampson) sinaliza para o espectador o emocionante final do drama. Em outra oportunidade, podemos notar McMurphy olhando para um esquilo que caminha tranquilamente na cerca, mostrando que não é elétrica, e no plano seguinte vemos o ônibus saindo do local, o que se revela um bom artifício para justificar uma atitude que McMurphy tomaria depois.

Um Estranho no Ninho foto 3

O ótimo roteiro de Bo Goldman e Lawrence Hauben (baseado em livro de Ken Kesey) desenvolve muito bem os diversos personagens, além de contar com um final bastante corajoso (note também um interessante trocadilho em inglês – “Se Felt See” – quando McMurphy fala com Sefelt – William Duell). Com um excelente roteiro nas mãos, Forman permitiu ao elenco mostrar todo o seu brilhantismo. E poucas vezes tivemos uma performance tão uniforme e qualificada. Todo o elenco de “Um Estranho no Ninho” é, no mínimo, sensacional. A começar pela atuação antológica de Jack Nicholson. Podemos notar logo em sua primeira aparição, quando grita de alegria ao tirar a algema e dá um beijo no guarda antes de entrar dançando pelo corredor, que seu trabalho é perfeito. O filme é dele. Sua atuação é tão espetacular que fica até difícil destacar algum momento em especial. Solto, alegre, perfeccionista, Jack trabalha em cada pequeno detalhe da composição do personagem, como podemos notar no tom de voz baixo enquanto conversa com o médico, o olhar que nunca se fixa em um ponto, o pigarro na garganta, o sorriso com o que o médico fala e o soco na mesa quando o médico menos espera, para matar uma mosca talvez. Jack é competente também ao mostrar sua alegria quando ouve o Chefe falar pela primeira vez, mostrando a felicidade de McMurphy ao perceber que existe alguém ali parecido com ele, que não se enquadra naquele lugar e não se conforma em aceitar aquele destino. Nos momentos tristes e tensos, o ator se mostra igualmente talentoso, como na hora da medicação em que ele olha cinicamente para a enfermeira, e na cena em que parte pra cima de Ratched após a morte de Billy. O embate entre os dois, aliás, é um prato cheio para mostrar o talento de Jack e Fletcher. Repare como ele ri do gesto que Harding (William Redfield) faz quando pergunta se é marica. Ele repete o gesto e gargalha da discussão, mas lentamente vai ficando sério e percebendo que o problema daquelas pessoas é maior do que ele pensava. No final da cena, McMurphy e Ratched se olham fixamente. Os dois sabem que enfrentarão problemas. Louise Fletcher, aliás, é muito competente ao transmitir toda a firmeza e rigidez de Ratched. Seu olhar intimida e sua frieza na solução dos problemas chega a ser espantosa. Na citada cena da votação, ela sorri levemente com o resultado, como quem está só comprovando algo que já sabia que aconteceria. Os métodos da enfermeira Ratched são frios, cruéis até, mas ela acredita ser a forma correta de liderar e controlar aquele grupo e, apesar de entender as razões de Ratched, não somos obrigados a concordar com estes métodos. A presença de McMurphy representa o caos naquele grupo, já que ele tem as atitudes inesperadas, quebra a rotina e ativa um lado praticamente adormecido naquelas pessoas, o que gera um problema para ela. Por outro lado, não podemos considerar que a enfermeira seja uma má pessoa, como fica comprovado na reunião dos médicos em que Ratched diz querer ficar com McMurphy e não simplesmente passar o problema adiante.

Um Estranho no Ninho foto 2

O restante do elenco não fica atrás da dupla principal. A primeira discussão em grupo gera uma gritaria e histeria geral, mostrando a loucura do grupo e nos situando no ambiente. Brad Dourif é, talvez, o maior destaque entre eles. Sua gagueira ao falar mostra a timidez de Billy e seu final trágico é marcante, com sua atuação fantástica no momento em que é levado para a sala, explodindo em raiva e medo (Ratched olha firme para McMurphy, culpando-o). Danny DeVito, como Martini, também se destaca, praticamente fechando os olhos pra falar e quase sempre olhando pra baixo, mostrando insegurança. Observe como em uma das reuniões com a enfermeira Ratched, DeVito fica olhando para o chão até ser chamado. Sydney Lassick, como Cheswick, e Christopher Lloyd como Taber, também merecem ser citados. Will Sampson fecha a lista de destaques como o Chefe Bromden, sempre com o olhar disperso e com os movimentos lentos. Repare como lentamente ele mostra que gosta de McMurphy, como na cena em que ri após o amigo pular a cerca, ou com sua alegria no jogo de basquete e, mais claramente, quando se envolve na briga de McMurphy com os enfermeiros.

A excelente montagem de Sheldon Kahn e Lynzee Klingman capta todo o elenco, destacando todas as belas atuações. Observe, por exemplo, como a montagem consegue mostrar alternadamente todos os presentes nas cenas de discussão em grupo sem soar picotada. A direção de fotografia (direção de Haskell Wexler) e os figurinos (mérito de Aggie Guerard Rodgers) utilizam muito a cor branca, que teoricamente deveria passar uma sensação de paz, mas que naquele ambiente estranhamente nos causam uma sensação de isolamento. A clássica e melancólica trilha sonora talvez colabore para esta sensação, funcionando muito bem naquele ambiente triste.

Extremamente emocionante, o filme conta com algumas cenas belíssimas e tocantes. A comovente cena do jogo de beisebol mostra o primeiro conflito evidente provocado por McMurphy e conta com uma narração convincente de Nicholson. A divertida cena da pescaria também é linda, principalmente por seu simbolismo. Apesar de contar com boas intenções, talvez o que os médicos não tenham percebido é que, mais do que regras e controle, aquelas pessoas precisavam mesmo é de carinho. O longa conta ainda com alguns momentos de alivio cômico, sendo o melhor deles quando McMurphy volta da enfermaria fazendo uma brincadeira com o grupo. Contém ainda uma crítica implícita ao cruel sistema destas casas de recuperação, quando o enfermeiro diz pra McMurphy que na cadeia ele sairia em breve (68 dias), mas lá ele só sai quando eles quiserem. Por outro lado, alguns dos pacientes poderiam deixar o local, mas não o fazem, o que reforça a tese da prisão psicológica do início desta crítica.

Um Estranho no Ninho foto 4

Ao se aproximar do final, “Um Estranho no Ninho” nos apresenta sua face mais cruel. A festa de despedida de McMurphy representou uma liberdade que o grupo não tinha por motivos óbvios. Talvez o que faltava naquele ambiente era mesmo um pouco de alegria, mesmo que não fosse daquela forma exagerada. Todo o terceiro ato, com o suicídio de Billy, a briga coletiva, a tentativa de McMurphy de assassinar Ratched, a morte de McMurphy e a fuga do Chefe têm um grande impacto e elevam ainda mais a qualidade do filme. Na seqüência final Will Sampson transmite muita emoção quando olha para McMurphy sorridente e, ao ver as cicatrizes do amigo, seu sorriso some. Ele o abraça comovido e toma a atitude que entende ser a melhor naquela situação, pois não agüentaria sair de lá sabendo que a pessoa que lhe trouxe a coragem para mudar sua vida ficaria ali daquela forma para sempre.

Ao ver o Chefe Bromden sair correndo pelo campo, sentimos um misto de alegria e tristeza. A morte de McMurphy serviu para despertar o inconformismo naquelas pessoas e levar pelo menos uma delas a sair daquela situação. Se por um lado não podemos condenar os métodos adotados pela instituição para controlar o grupo, por outro não podemos negar que é bom ver alguém que simplesmente não aceita esta imposição, tendo coragem de levantar uma bandeira e lutar por algo melhor. A lição maior que eu particularmente extraí do lindo drama “Um Estranho no Ninho” é que devemos sempre ficar atentos aos nossos direitos e lutar por eles, independente do lugar em que estamos. 

Um Estranho no Ninho 

Texto publicado em 26 de Outubro de 2009 por Roberto Siqueira

Luto

Este blog está oficialmente de luto.

Descanse em paz meu amigo, que Deus o tenha!

Você é muito importante para todos nós e estará vivo para sempre em nossa memória e em nossos corações.

Saudades…

Beto.

Texto publicado em 22 de Outubro de 2009 por Roberto Siqueira

O EXORCISTA (1973)

(The Exorcist) 

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #14

Dirigido por William Friedkin.

Elenco: Ellen Burstyn, Linda Blair, Jason Miller, Max Von Sydow, Lee J. Cobb, Kitty Winn, Jack MacGowran, William O’Malley, Barton Heyman, Peter Masterson, Gina Petrushka, Robert Symonds, Thomas Birmingham e Mercedes McCambridge (voz).

Roteiro: William Peter Blatty, baseado em livro de William Peter Blatty.

Produção: William Peter Blatty.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Para algumas pessoas – como eu – poucos temas são capazes de provocar medo como os relacionados aos espíritos. Por isso mesmo, confesso que dos filmes recentes de suspense que eu assisti, os que mais me agradaram tinham este tema em comum (“O Chamado” e “Os Outros”). Em “O Exorcista”, clássico dirigido por William Friedkin, este tema foi explorado com absoluta competência, provocando um frio na espinha da maioria dos espectadores e criando um festival de imagens que são capazes de atormentar a mais incrédula das pessoas.

A atriz Chris MacNeil (Ellen Burstyn) começa a perceber gradativamente que sua pequena filha Regan MacNeil (Linda Blair) está tendo um comportamento bastante estranho. Após frustradas tentativas de curar a garota procurando a ajuda de médicos, psiquiatras e até mesmo através da hipnose, ela se rende à ajuda do padre Karras (Jason Miller), que chega à conclusão de que a menina está possuída pelo demônio e precisa de um ritual que já não é mais utilizado nos dias de hoje, chamado exorcismo.

Friedkin inicia o filme mostrando o cotidiano do experiente Padre Merrin (Max Von Sydow), que está fazendo escavações no Iraque. Durante estas escavações, Merrin acaba se encontrando com uma estátua macabra no alto de um monte. O plano final desta seqüência no Iraque, com o pôr-do-sol avermelhado, remete ao inferno. Em seguida, o diretor nos ambienta profundamente no relacionamento entre Chris e Regan, mostrando imagens das duas brincando e conversando na cama (neste plano vemos o rosto de Regan em close, o que dá a exata noção do contraste quando ela está possuída). Desta forma, ele cria empatia entre o espectador e aquela família, o que aumenta ainda mais o drama quando Regan começa a dar sinais de mudança em seu comportamento. O diretor também é inteligente ao nos situar nos problemas da família, como no plano em que Chris tenta falar com o pai de Regan e discute com a operadora de telefone. A câmera lentamente se afasta até mostrar Regan ouvindo a conversa escondida. A falta do pai seria utilizada como justificativa posteriormente para a mudança de comportamento da garota. Além disso, lentamente Friedkin vai introduzindo elementos que nos mostram sinais do que aconteceria depois, como a cama balançando freneticamente, a reação de Regan nos exames e os palavrões que a garota começa a falar. Finalmente, somos apresentados ao sofrimento do Padre Karras ao ver sua mãe doente, que também terá reflexo no restante da narrativa.

Vale dizer que todo este cuidadoso primeiro ato é mérito também do excelente roteiro de William Peter Blatty (baseado em livro do próprio Blatty). O roteiro desenvolve muito bem os personagens e seus dramas familiares, o que colabora com o nosso envolvimento no filme. É também corajoso ao trabalhar muito bem questões delicadas como a vida pessoal dos padres, normalmente vistos como pessoas acima do bem e do mal, mas que são seres humanos normais, que têm defeitos, medos e enfrentam problemas pessoais como qualquer um. Observe, por exemplo, este trecho de uma das conversas entre Chris e Karras: (Chris: “Padres sabem guardar segredo?” / Karras: “Depende.” / Chris: “Do que?” / Karras: “Do Padre.”). Não é por ser padre que uma pessoa é ou não é confiável, isto depende exclusivamente da pessoa. Blatty conseguiu ainda ilustrar de forma correta o conflito comum entre a medicina e a religião, através do ceticismo dos médicos no início do tratamento da garota. Finalmente, o filme jamais abre espaço para o humor, o que soaria falso e deslocado, a não ser pela repetição da piada sobre o filme que está passando no cinema no final do filme, já quando o espectador está mais relaxado.

Também colabora sensivelmente para o sucesso do longa o talentoso elenco dirigido por Friedkin. Ellen Burstyn e Linda Blair mostram uma boa química no início, o que serve até como comparação para a incrível transformação que ambas sofrerão durante o restante do filme. Regan, sempre sorridente, e Chris, sempre carinhosa, vão lentamente se transformando em pessoas completamente diferentes por razões distintas. Burstyn é extremamente competente, por exemplo, ao demonstrar sua comoção com a notícia da morte de Burke, chorando escandalosamente e com as mãos trêmulas. Seu desespero para tentar curar a filha é tocante, apelando para toda e qualquer ajuda vinda dos médicos, psiquiatras ou até mesmo de um especialista em hipnose. Observe sua reação ao ouvir a sugestão de um médico para procurar o exorcismo (e aqui ele dá uma explicação técnica para o sucesso do ritual, mostrando novamente que a medicina não tolera a explicação religiosa). Ela olha assustada para todos na mesa, mudando o foco do olhar da direita para a esquerda e vice-versa, tentando entender o que era aquilo. Finalmente, Burstyn completa sua transformação na cena em que expõe todo seu sofrimento ao gritar para o padre Karras que ela reconheceria sua filha de qualquer jeito (“Aquela coisa lá em cima não é minha filha!”). A atriz é muito competente na transmissão da dor e do desespero de Chris. Da mesma forma, Linda Blair também merece destaque pela excelente performance como Regan MacNeil. Inicialmente meiga e apegada à mãe, a garota lentamente se transforma num verdadeiro monstro, e o desempenho de Blair cresce consideravelmente quando está possuída. Aterrorizante, o resultado final de sua transformação é mérito também da excelente maquiagem e dos sensacionais efeitos sonoros, como podemos observar na primeira vez que a garota fala com a voz alterada. Jason Miller consegue transmitir muito bem o drama vivido pelo Padre Karras, que tem uma vida extremamente complicada. Localizada em um bairro pobre (as ruas pichadas e cheias de lixo mostram o bom trabalho de Direção de Arte), a velha e desorganizada casa reflete seu estado psicológico, seriamente afetado pela doença de sua mãe. A relação com a mãe, aliás, é algo muito importante para Karras. Talvez pelo fato de não ser casado, ela se tornou sua única companheira. Um dos seus bons momentos acontece quando Chris fala sobre exorcismo e ele pergunta espantado: “Como é?”. Completando o elenco principal, Max Von Sydow oferece uma ótima atuação como o experiente Padre Merrin, que encontra o seu destino no quarto de Regan e reforça o primeiro ato do filme, dando um peso maior à forte cena do exorcismo. Sydow é extremamente competente na criação do clima perfeito para o ritual, transmitindo ao espectador o perigo que aquilo representa, por exemplo, quando está rezando no banheiro.

Além do talentoso elenco, “O Exorcista” conta ainda com um apurado trabalho técnico que aumenta ainda mais o clima de suspense. Observe como a fotografia (Direção de Owen Roizman e Billy Williams) começa a escurecer na medida em que Regan começa a dar sinais de estar possuída. Com o passar do tempo, a fotografia se torna ainda mais sombria, ajudada também pela paleta granulada que torna a imagem menos nítida. Friedkin aumenta a sensação de horror ao jogar imagens demoníacas que piscam rapidamente na tela. O ótimo trabalho de som também colabora para criar o clima perfeito, como na cena em que podemos ouvir os barulhos no sótão da casa de Regan. O som ajuda também nos sustos causados na platéia, como na cena em que Chris investiga a origem dos barulhos na casa, além de funcionar perfeitamente nas cenas em que Regan está possuída.

Ao contrário de filmes como “Tubarão”, onde o suspense é muito mais psicológico, “O Exorcista” aposta no visual para causar medo no espectador. De maneiras diferentes, os dois filmes conseguem sucesso. Quando Regan desce as escadas no meio de uma festa, diz uma frase macabra e faz xixi no chão, o espectador percebe o nível das assustadoras cenas que vai presenciar. E a coleção de cenas aterrorizantes é enorme. Regan vira a cabeça completamente para trás, desce a escada de costas com as mãos e os pés apoiados nos degraus (na famosa cena conhecida como a “menina-aranha”), agride sua própria genital com um crucifixo dizendo palavras obscenas, levita sobre a cama e move objetos para tentar agredir quem entra em seu quarto, entre outras cenas impressionantes.

Assustador e repleto de imagens chocantes, “O Exorcista” faz ainda um excelente estudo sobre a perda da fé. Observamos pessoas completamente diferentes e que enxergam a fé de formas ainda mais distantes, alterarem suas vidas após serem atingidos por tragédias particulares. O Padre Karras, completamente modificado após a perda da mãe, enxerga no drama de Chris a possibilidade de se reencontrar com sua fé. Chris, que segundo ela mesma não tem religião, se entrega à fé para tentar salvar sua pequena filha. E o Padre Merrin, mesmo com toda sua experiência na vida religiosa, tem sua fé realmente testada dentro do quarto de Regan.

Extremamente visual sem se descuidar de seu conteúdo, “O Exorcista” é um filme aterrorizante, com imagens fortes e boas atuações. Seu roteiro coeso aborda a complicada possessão da garota de forma lenta, elevando a tensão a níveis extremos de maneira inteligente. Acredite ou não em espíritos ou demônios e, independente de qual seja a sua fé, o espectador jamais sai indiferente ao filme. Goste ou não, é impossível não respeitar a qualidade do trabalho realizado e o resultado alcançado.

Texto publicado em 15 de Outubro de 2009 por Roberto Siqueira

Cinema em Cena: 12 anos

Gostaria de parabenizar o crítico Pablo Villaça e toda sua equipe pelos 12 anos do excelente site “Cinema em Cena”. Sou fã do site há muito tempo e o considero o melhor do país em matéria de cinema. O site também é uma grande influência em minha decisão de criar o meu próprio blog e expressar minha visão sobre a sétima arte.

Parabéns Pablo!

Para quem não conhece o site, segue o link (que você também pode encontrar ao lado direito do meu blog):

http://www.cinemaemcena.com.br/

Um abraço.

Cinema em Cena

 

 

 

Texto publicado em 14 de Outubro de 2009 por Roberto Siqueira

O GRANDE DITADOR (1940)

(The Great Dictator)

 

Filmes em Geral #21

Filmes Comentados #7 (Comentários transformados em crítica em 23 de Outubro de 2010)

Dirigido por Charles Chaplin.

Elenco: Charles Chaplin, Jack Oakie, Paulette Goddard, Reginald Gardiner, Henry Daniell, Maurice Moscovich e Billy Gilbert.

Roteiro: Charles Chaplin.

Produção: Charles Chaplin.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Chaplin abandonou de vez o cinema mudo nesta corajosa sátira de Hitler, realizada apenas um ano depois do inicio da segunda guerra mundial, recheada de bom humor e com um forte subtexto crítico. Ao realizar “O Grande Ditador”, ele demonstrou sua extrema coragem e genialidade, mostrando ao mundo os absurdos do nazismo antes mesmo que alguns países, como os Estados Unidos, entrassem na guerra.

Um judeu (Chaplin) salva um piloto alemão (Reginald Gardiner) durante a segunda guerra, mas perde a memória na queda do avião em que ambos estavam quando fugiram do campo de batalha. Ao voltar para casa, ele encontra um mundo completamente diferente, agora dominado pelo ditador Hynkel (Chaplin também), ao mesmo tempo em que volta a conviver com seus compatriotas, como a bela Hannah (Paulette Goddard).

Como diz a primeira frase de “O Grande Ditador”, qualquer semelhança entre o ditador e o barbeiro judeu é meramente proposital, o que será a chave para o belíssimo final do filme. O roteiro escrito por Chaplin, além de extremamente corajoso ao claramente criticar Hitler no auge de seu domínio, ainda conta com frases interessantes que demonstram bem como funciona o raciocínio dos grandes ditadores, como a dica de um assistente dada a Hynkel (“Alimente o ódio aos judeus e eles esquecerão o estômago”) e o mundo sonhado pelo nazismo, repleto de “loiros com olhos azuis”. A conversa sobre a intenção de fazer com que a raça ariana dominasse o mundo, aliás, leva à cena mais famosa do longa, em que Hynkel brinca com o globo terrestre e chora quando este explode em suas mãos. Esta famosa cena é recheada de simbolismo, pois Hitler, assim como Hynkel, pensava dominar o planeta e ter o direito de brincar com ele. A história provou que não é bem assim que as coisas funcionam. Que os líderes de hoje em dia pensem nisso também. É interessante notar ainda como o roteiro reflete bem a forma arcaica e despreparada de pensar do ditador. Quando informado que existem trabalhadores descontentes, ele manda fuzilar todos (“Não quero trabalhadores descontentes”, afirma). Estatisticamente ele poderia ter sucesso, mas com certeza esta é uma solução idiota para o problema. Outra crítica sutil e inteligente acontece na cena em que o barbeiro judeu (Chaplin), que perdeu a memória, volta para sua barbearia. Os alemães chegam imponentes ao local, certos de que ele vai obedecer, mas ele não entende o que deve fazer e os ignora. A mensagem é clara. Qualquer pessoa que saísse da terra e voltasse no meio da guerra também acharia uma loucura o que se fazia com o ser humano naquela ocasião.

Mas nem só de críticas vive “O Grande Ditador”. O bom humor característico de Chaplin aparece em muitas cenas, como na fuga do barbeiro num avião, em sua experiência num tanque de guerra, no divertido desfile do exército da Tomania e na calorosa discussão dos ditadores no Buffet. E ainda que não tenham o mesmo espaço de outrora neste primeiro filme falado de Chaplin, as gags aparecem, como quando o vagabundo se esconde dentro de um baú numa fração de segundos ou quando Hynkel é derrubado da escada por Herring (Billy Gilbert). Vale citar também a engraçada tradução do discurso de Hynkel feita por uma assistente numa máquina de escrever. Finalmente, existem as cenas em que crítica e humor se misturam com perfeição, como aquela em que a moeda no pudim apontaria quem deveria morrer pela libertação dos compatriotas. A divertida seqüência revela as verdadeiras intenções de cada integrante do grupo, pois, na realidade, ninguém queria ser mártir de verdade (e quem quer?). Apesar de o discurso ser belo, na prática não é assim que funciona. E repare como no fim do jantar, Chaplin discretamente recolhe as moedas da mesa e as coloca no bolso, revelando as sutilezas de sua grande atuação.

Sem tanto espaço para as famosas gags que fizeram sua fama devido ao fato de ser um filme falado, Chaplin demonstra sua qualidade como ator alternando muito bem entre a eloqüência de Hynkel, sempre agitado, sisudo e com olhar superior, e a simplicidade do barbeiro, sempre tranqüilo e até mesmo amedrontado diante daquela situação. Além disso, Chaplin fala um “alemão” debochado, que funciona muito bem como elemento de humor, satirizando explicitamente a forma de discursar de Hitler – todos sabem que não é alemão de verdade, apenas uma forma eficiente de fazer piada. Ele tosse, engasga, grita, faz careta e arranca boas risadas do espectador, ao mesmo tempo em que alfineta o tirano alemão, em plena segunda guerra mundial. Também se destaca a boa atuação de Jack Oakie, como o ditador Benzino Napaloni, de Bactéria, que satiriza Mussolini (repare no sotaque italiano de seu inglês). Extrovertido, ele completa com perfeição a grande atuação de Chaplin, agindo com espontaneidade diante de toda aquela pompa do palácio de Hynkel. Com seu jeito falastrão, nada parece intimidar o agitado ditador bacteriano, como podemos notar na conversa preparada especialmente para colocá-lo em posição inferior a Hynkel. A cena em que os dois tentam intimidar um ao outro subindo as cadeiras é sensacional. Boa também é a atuação de Billy Gilbert como o marechal de campo Herring. Observe, por exemplo, o leve sorriso de satisfação dele no desfile do exército da Tomania e a transformação de seu rosto quando Napaloni começa a questionar tudo que é mostrado. Paulette Godard se sai bem na pele da determinada Hannah, demonstrando sua fibra e coragem através do olhar penetrante, da voz sempre firme e rápida e, principalmente, dos gestos corajosos, como quando reage sozinha aos abusos dos soldados alemães contra os comerciantes judeus. E finalmente, Reginald Gardiner interpreta Schultz, com destaque para o momento em que diz para Hynkel o que pensa sobre suas políticas, num discurso que critica ferozmente os ideais nazistas. Considerado um traidor, acaba preso e, após fugir e ser capturado no gueto junto com seu amigo judeu que o salvou na guerra, é enviado aos campos de concentração. Esta atitude intempestiva de Hynkel será crucial para o desfecho da trama.

Chaplin também se destaca na direção de “O Grande Ditador”, com belos movimentos de câmera, como quando os judeus se escondem dentro de casa e o plano termina com um passarinho preso na gaiola, simbolizando a perda da liberdade daquele povo. Chaplin também acerta ao filmar o ditador em ângulo baixo diversas vezes, demonstrando visualmente o poder daquele homem, algo também ilustrado através de pequenos detalhes, como o fato dele sequer abrir as portas de seu palácio, relegando esta tarefa aos soldados colocados em cada passagem. O diretor ainda utiliza muito bem o close para enfatizar as emoções dos personagens, como no discurso pré-invasão do gueto de Hynkel ou nas lágrimas emocionadas de Hannah ao escutar as palavras de esperança no último plano do longa. Em outro plano bem realizado, o barbeiro judeu conversa com Hannah sobre sua preferência pela vida no campo em detrimento das poluídas cidades, enquanto a cidade está em chamas ao fundo. Destaca-se também o plano geral em que podemos ver o barbeiro sendo cercado no meio da rua por dezenas de soldados nazistas, além da linda cena em que Chaplin barbeia um senhor no ritmo da música, onde som e imagem se completam. Ainda na parte técnica, os figurinos e a direção de arte de J. Russell Spencer ajudam muito na alusão ao nazismo, trabalhando em pequenos detalhes, como os símbolos dos uniformes, que não são idênticos, mas claramente fazem referência à suástica de Hitler. Além disto, a direção de arte capricha no palácio de Hynkel, demonstrando toda a imponência do local através da estrutura alta e dos longos corredores por onde as pessoas passam. A montagem de Willard Nico intercala muito bem as duas linhas principais da narrativa, divididas entre as decisões de Hynkel e o reflexo delas no gueto, além de saber indicar a passagem do tempo sem que esta soe episódica, como quando a teia espalhada pela barbearia indica o longo tempo que o barbeiro esteve fora. Também colabora com a clara divisão da narrativa a fotografia de Karl Struss e Roland Totheroh, que diferencia o ambiente sombrio da vida no gueto da clara e iluminada vida no palácio. Finalmente, a trilha sonora composta por Chaplin pontua muito bem as cenas, como quando a música indica a felicidade da família de Hannah na chegada a Österlich.

O apaixonado discurso do barbeiro judeu no final de “O Grande Ditador” resume muito bem a mensagem do filme. A inteligente situação criada através da inversão de papéis, que remete elegantemente à frase inicial do longa, representava uma oportunidade única para o judeu (e para Chaplin), expressada através das palavras de Schultz (“Você tem que falar, é nossa última esperança”). Chaplin não perdeu a oportunidade e deu sua mensagem humanista ao mundo de forma inteligente, bem humorada e marcante. Palmas pra ele.

PS: Comentários divulgados em 13 de Outubro de 2009 e transformados em crítica em 23 de Outubro de 2010.

Texto atualizado em 23 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira

Qual é a sua série favorita?

Friends

É bastante comum entre amigos comentar no inicio da semana sobre os filmes que assistimos durante o fim de semana. Andei pensando bastante sobre a explicação comum que muitos dos meus amigos dão para não ter assistido nenhum filme no fim de semana (“Não tive tempo, estava vendo episódios de Lost” – ou qualquer outra série). No meio em que vivo, a quantidade de pessoas que acompanha pelo menos uma série (ou seriado, como queira) na televisão ou em DVD cresceu razoavelmente nos últimos anos.

As séries representam hoje grandes concorrentes dos filmes, já que muitas pessoas preferem acompanhar uma série a assistir um filme. Não é meu caso. Por outro lado, sempre gostei de séries e guardo algumas delas com um carinho especial. Entre as minhas favoritas, posso citar o leve e engraçado “Friends” e o enigmático e original “Lost”. Por isso, mesmo não pensando igual, entendo perfeitamente as pessoas que tem esta fidelidade às séries, pois grande parte delas tem boa qualidade. E afinal de contas, é também uma ótima opção de entretenimento.

Sendo assim, gostaria de saber qual é a série favorita da galera aqui do blog e por isso deixo a pergunta: Qual é a sua série favorita?

Um abraço e bom debate.

Lost

Texto publicado em 08 de Outubro de 2009 por Roberto Siqueira

Projeção Eliminatórias da Copa 2010

No próximo fim de semana começa a definição das últimas vagas para a Copa do Mundo. Alguns países de tradição, como Argentina, França e Portugal, estão seriamente ameaçados. Analisei friamente a tabela de todos os continentes e cheguei à conclusão que a Argentina se classifica, mesmo que tenha que ir para a repescagem. Portugal e França provavelmente também, a não ser que se cruzem na repescagem.

Como brincadeira, deixo registrado aqui meu palpite, para poder comparar depois quantas vagas eu acertei. Os países em negrito já estão classificados, e por isso não entram na conta. Na Europa, deixei em azul aqueles países que se classificarão na repescagem, logicamente, se não se cruzarem. Existem nove países no quadro “Repescagem”, mas somente oito disputarão as vagas, já que um será eliminado por índice técnico. Não tenho a pretensão de adivinhar qual será, por isso, indico dentre os nove aqueles países que em minha opinião estarão na África do Sul ano que vem. E pra finalizar, vale lembrar que os países estão em ordem alfabética no quadro abaixo. A Argentina, por exemplo, apesar de aparecer em primeiro no quadro, se classificará em 5º lugar.

Am Norte Europa Repescagem  
EUA Alemanha Portugal  
Honduras Dinamarca Bósnia  
México Eslováquia Grécia  
  Espanha Rep. Tcheca  
  Holanda Rússia  
  Inglaterra Croácia  
  Itália França  
  Sérvia Irlanda  
  Suíça Noruega  
África Ásia Oceania Am Sul
África do Sul Austrália Argentina
Gana Bahrein   Brasil
Camarões Coréia do Norte   Chile
Costa do Marfim Coréia do Sul   Equador
Egito Japão   Paraguai
Tunísia      
 

– Argentina vence Costa Rica na repescagem.

– Bahrein vence Nova Zelândia na repescagem.

– Egito vence todas e classifica.

Um abraço e deixe sua opinião.

Zakumi Mascote Copa 2010 

 

 

 

 

 

 

 

 

Texto publicado em 07 de Outubro de 2009 por Roberto Siqueira