Qual a sua trilha sonora favorita?

Recentemente consegui algumas músicas de filmes e criei um CD que adoro ouvir, somente com trilhas sonoras (instrumentais) e músicas feitas especialmente para filmes (canções). E ao ouvir este CD, pensei no seguinte tema para debate. Vamos debater aqui a trilha sonora de uma forma genérica, ou seja, podem escolher tanto a música instrumental como a canção feita para o filme. Quando chegar a vez das respectivas categorias no Oscar de todos os tempos, vamos nos aprofundar na questão. Somente para não ficar em cima do muro, digo que a minha trilha sonora favorita é a de Coração Valente, tanto que no meu casamento entrei na Igreja ao som de “For the Love of a princess”, belíssima música instrumental de James Horner que faz parte da trilha do filme. Também gosto muito das trilhas de Era uma Vez no Oeste, de Ennio Morricone e Tubarão, de John Williams.

Então fica a pergunta: Qual a sua trilha sonora favorita?

Um abraço.

 Texto publicado em 03 de Setembro de 2009 por Roberto Siqueira

O PODEROSO CHEFÃO – PARTE II (1974)

(The Godfather: Part II) 

5 Estrelas

 

Obra-Prima

Videoteca do Beto #10

Vencedores do Oscar #1974

Dirigido por Francis Ford Coppola.

Elenco: Al Pacino, Robert De Niro, Diane Keaton, Robert Duvall, John Cazale, Talia Shire, Lee Strasberg, Michael V. Gazzo, Morgana King, Gianni Russo, Abe Vigoda, G. D. Spradlin, Richard Bright, Gastone Moschin, Tom Rosqui, Bruno Kirby, Frank Sivero, Francesca De Sapio, Marianna Hill, Dominic Chianese, John Aprea, Giuseppe Silato, Mario Cotone, Harry Dean Stanton, Danny Aiello e James Caan. 

Roteiro: Mario Puzo e Francis Ford Coppola, baseado em livro de Mario Puzo. 

Produção: Francis Ford Coppola.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Se a primeira parte da trilogia O Poderoso Chefão destaca-se pelo roteiro incrivelmente coeso, que abrange uma gama enorme de personagens complexos e extremamente bem desenvolvidos, além da absoluta perfeição alcançada em todos os setores da obra, esta primorosa seqüência dirigida com muita competência por Francis Ford Coppola não fica nem um pouco atrás. Além de dar continuidade à maravilhosa trama do primeiro longa, o habilidoso trabalho de toda equipe ainda divide a narrativa em duas estórias paralelas e igualmente atraentes, sugando o espectador de forma inigualável para dentro do filme. O roteiro complexo e cheio de ramificações explora ainda mais o drama psicológico dos personagens e converge mais uma vez para um final perfeitamente bem realizado.

Após a morte de Don Vito Corleone, Michael (Al Pacino) resolveu eliminar de seu caminho todos os problemas pendentes, assassinando todos aqueles que poderiam gerar algum conflito com seus interesses. Decidido a entrar no ramo do entretenimento, ele instala seus negócios em Las Vegas e Havana, através da compra de luxuosos Hotéis e Cassinos. Só que na medida em que seus negócios evoluem e seu sucesso aumenta, ele vai perdendo lentamente o que mais tem valor em sua vida. Paralelamente, acompanhamos a trajetória de Vito Corleone (Robert De Niro), desde sua fuga da Sicília para Nova York até o nascimento de seu filho Michael e sua afirmação como o homem mais poderoso da máfia.

A estrutura narrativa é propositalmente semelhante nos dois filmes. Ambas começam com uma festa em que o líder da família se divide entre dar atenção aos convidados para manter as aparências e resolver os problemas de seu obscuro negócio em sua sala particular. Em seguida, um atentado ao chefe da família é o ponto de partida para uma enorme quantidade de conflitos que serão resolvidos simultaneamente em um terceiro ato maravilhoso e genial. O encontro acontecido em Cuba entre Hyman Roth (Lee Strasberg), Michael e as pessoas mais importantes da região também remete ao primeiro filme, lembrando o encontro dos líderes das famílias mafiosas em Nova York. A diferença aqui é que além da trajetória de domínio de Michael, podemos acompanhar também a chegada de Vito Corleone ainda jovem à Nova York. Desta forma, Coppola cria a oportunidade de mostrar paralelamente e de forma brilhante a vida de pai e filho na mesma época de suas vidas, porém em épocas distintas da sociedade. E é interessante observar que apesar de estarem na mesma idade, eles enfrentam problemas diferentes para manter a sua família. Vito tem sucesso, Michael não. A diferença de épocas fica clara no belo diálogo que Michael tem com sua mãe. Sua frase final (“Os tempos estão mudando”) demonstra sua preocupação com uma possível revolta de Kay (Diane Keaton), que efetivamente acontece depois. Outra novidade nesta segunda parte da trilogia é a ligação entre a trajetória dos Corleone e fatos históricos, como a revolução cubana. Pra finalizar, o excelente roteiro de Mario Puzo e Francis Ford Coppola mantém uma característica muito importante do primeiro filme: as frases marcantes. Para citar apenas duas, temos a frase emocionada de Michael para Fredo (John Cazale): “Eu sei que foi você, Fredo!” e a atordoante revelação de Kay para Michael: “Foi um aborto Michael!”.

A direção de Coppola mantém o nível de excelência do primeiro filme, conduzindo a complexa narrativa com extrema segurança e criando planos absolutamente geniais. Observe como ele cria lentamente a sensacional cena do ataque contra Michael. Após ver o desenho de seu filho, Michael conversa tranquilamente com Kay até que ela pergunta por que as cortinas estão abertas. É a chave para que o espectador pressinta o ataque iminente, sem muito tempo de reação para os personagens que se jogam no chão imediatamente, enquanto os tiros estraçalham o quarto. A habilidade do diretor para criar cenas marcantes é incrível. Se o primeiro filme tem um enorme festival de cenas inesquecíveis, a segunda parte mantém a tradição com louvor. Para citar algumas cenas maravilhosas, temos o ataque de Vito ao “Mão Negra” (Gastone Moschin), a festa inicial para o filho de Michael, o impressionante ataque contra Michael em sua casa seguido pela caça noturna aos atiradores, a chegada à Cuba e a explosão da revolução cubana, a impagável vingança de Vito em plena casa de Don Ciccio (Giuseppe Sillato), a realista e reveladora discussão entre Michael e Kay e a emblemática cena da morte de Fredo no barco, com Michael olhando pela janela.

Coppola também repete o excelente trabalho do primeiro filme na condução de atores, extraindo atuações magníficas do espetacular elenco. Robert De Niro e Al Pacino disputam acirradamente o respeitável posto de melhor atuação do filme. De Niro consegue tornar verossímil o seu jovem Vito Corleone, utilizando inclusive a voz rouca criada por Marlon Brando no primeiro filme. Observe sua reação na engraçada cena em que Don Roberto vem lhe dizer que além de não tirar um inquilino irá reduzir o preço do aluguel. Vito olha para o seu amigo duas vezes como forma de intimidar o cidadão e quando consegue o que queria ele diz “Grazie!” com uma cara cínica de quem já esperava por aquilo. Na cena em que Clemenza (Bruno Kirby) invade uma casa para roubar um tapete, ele pergunta “Essa casa é do seu amigo?” e ao ouvir a resposta, faz um movimento com os lábios típico de quem está impressionado e ao mesmo tempo duvidando da informação. Esta cena, aliás, é o ponto inicial para o envolvimento de Vito com o crime, já que ele quase presencia um assassinato. Na memorável cena da vingança na Itália, ele fica observando de longe, com a blusa no braço e um olhar sério de quem aguarda aquele momento há muitos anos. Quando Don Ciccio brinca com o nome dele, De Niro dá um sorrisinho cínico. Em seguida o homem pergunta o nome do pai dele e De Niro se aproxima e sussurra com a voz rouca “Antonio Andollini, e isto é pra você!” e esfaqueia o homem, saindo correndo em seguida. E finalmente, na maravilhosa cena do assassinato de Don Fanucci, ele é frio o suficiente para matar o homem e se livrar dos vestígios do crime, e De Niro é muito competente quando demonstra essa frieza de Vito, olhando para os lados antes de se jogar a arma fora e saindo naturalmente do local do crime para encontrar sua família. Al Pacino mais uma vez está perfeito como Michael Corleone. Sua transformação em relação ao primeiro filme é evidente. Firme, ele conduz com segurança os negócios da família, que em contrapartida vai se afastando cada vez mais dele, como fica evidente em seu retorno pra casa, quando vê o carrinho de seu filho atolado na neve e a casa vazia. Observe como na cena em que responde para o senador Pat Geary (G.D. Spradlin, brilhante neste embate com Pacino) “minha oferta é esta… nada!”, sua cadeira se move pra trás e pra frente demonstrando sutilmente sua inquietação e raiva. Quando Tom Hagen lhe conta sobre a perda de seu filho, ele respira fundo, muda de uma feição tranqüila para um rosto prestes a explodir, olha pra baixo, mexe com as mãos e finalmente pergunta “Era um menino?”. A resposta vaga de Tom é o estopim para a explosão de Michael que Pacino demonstra com maestria. Quando percebe que foi traído pelo irmão numa apresentação de dançarinas, seu olhar e respiração deixam claro para o espectador sua frustração. E finalmente, no enterro de Mama Corleone, ao abraçar seu irmão, ele olha para uma pessoa presente, e somente este olhar é o suficiente para mostrar que ele não perdoou Fredo. John Cazale é extremamente competente como Fredo, num papel que ganhou muita importância dentro da trama. Sua melhor cena é a discussão final com Michael, quando ele revela toda sua angústia e os motivos de sua traição. Cazale retrata com muita veracidade o sofrimento de Fredo, o irmão mais velho (e preterido) de Michael. Observe como ele altera a voz, olha para o alto, movimenta as mãos e se joga na cadeira ao discutir com o irmão, que se mantém imponente e firme na conversa. A composição visual dos dois no plano demonstra a diferença entre eles, já que Michael se mantém olhando por cima, enquanto Fredo está diminuído na cena.

Diane Keaton está ainda melhor como a amargurada Kay Adams, esposa do mafioso. Lentamente ela se afasta do violento marido e Keaton retrata esta gradual transformação com perfeição. Junto com Pacino, ela cria uma cena maravilhosa que evolui gradualmente para um final trágico na realista discussão dentro do Hotel. Primeiro Kay pede educadamente para que Rocco se retire. Repare que a feição de Keaton vai lentamente se alterando conforme ela vai contando seu plano de ir embora para Michael. Enquanto conversam, Pacino solta o colarinho e depois pega uma bebida. Quando ele grita que não vai permitir que ela vá embora e leve seus filhos, Keaton fixa o olhar no chão e diz “neste momento não sinto amor por você”. Pacino acende um cigarro e diz que eles vão juntos no outro dia. A explosão dela em cena é iminente. Ela range os dentes e Michael diz que sabe que ela o culpa por ter perdido o bebê e que eles vão ter outro filho. Ela olha para o alto, respira fundo e diz: “Michael, oh Michael, você está cego!”. Pacino, que estava tranqüilo e até demonstrando certa pena de sua esposa, começa a mudar seu comportamento. Então, com os olhos cheios de lágrimas, ela revela que não perdeu o bebê, e sim fez um aborto porque não quer continuar com esta relação. Pacino se transforma. Seus olhos arregalam, sua boca treme e sua respiração praticamente para. Ela continua falando e o tapa violentíssimo vem em seguida. Um show de interpretação da dupla, que marca o fim do relacionamento, como comprova a emblemática cena em que Michael fecha a porta na cara de Kay. O homem tranqüilo havia se transformado em um criminoso amargurado e frio. Talia Shire tem um desempenho muito bom como a renovada Connie. Ela se mostra uma mulher liberal, fumando e querendo viajar com o namorado. Superficialmente, ela demonstra ter superado a perda de seu marido, mas em seu coração ela nunca perdoou Michael pelo que ele fez, como fica evidente na conversa que eles têm no inicio do filme. Robert Duvall tem outra boa atuação como Tom Hagen, o paciente conselheiro da família, afastado por Michael em um momento estratégico da trama, mas de suma importância nos negócios da família. Podemos destacar ainda muitos atores do elenco de apoio, como Lee Strasberg fazendo o inteligente Hyman Roth, Michael V. Gazzo como o italianíssimo Frankie Pentangeli, G.D. Spradlin como o cínico senador Pat Geary e Bruno Kirby como o esperto jovem Clemenza.

O ritmo das duas narrativas paralelas é muito bem coordenado pela excelente montagem de Barry Malkin, Richard Marks e Peter Zinner, que cria grandes blocos narrativos em cada período, o que evita tirar o espectador da história constantemente. As transições entre os dois períodos distintos são sempre muito interessantes, como a seqüência que salta da imagem de Vito ainda criança para seu neto Antonio Corleone e a transição de Michael para Vito logo após o diálogo com Mama Corleone, num dos dois planos que Pacino e De Niro dividem no longa. Outra transição interessante corta de Vito e Michael na janela do trem para Mama Corleone morta, com Fredo e Connie aparecendo em seguida, lembrando o espectador que a única coisa que mantinha Fredo vivo era sua mãe. Agora Michael não tinha mais motivos para não matá-lo. A excelente fotografia de Gordon Willis volta com um tom ainda mais escuro e denso. Observe como ele mergulha metade do rosto de Michael e Connie por inteiro nas sombras na cena em que eles conversam sobre uma suposta viagem dela, deixando somente um ponto da tela (o ponto cego) com alguma luz. Outro exemplo é o olho de Vito completamente escondido nas sombras enquanto aguarda Fanucci no prédio. As inúmeras cenas noturnas colaboram com esta sensação de escuridão, como o ataque contra Michael ou o início da revolução cubana. Willis também é extremamente competente na divisão clara entre as duas narrativas, utilizando uma paleta grossa e cores opacas quando narra a vida de Vito, desde sua fuga da Itália até os seus primeiros anos em Nova York, retratando o ambiente hostil e a vida dura que ele tinha. Além disso, a imagem desgastada dá um ar mais antigo às cenas. Repare que a maravilhosa rua da feira livre destaca as cores verde, vermelho e amarelo, porém em um tom sem vida. Willis alterna para uma paleta mais limpa quando narra a vida de Michael, sem deixar de utilizar os ambientes escuros e sombrios nas duas situações. A trilha sonora cria simpáticas variações para a excelente música tema do primeiro filme, como na cena que Michael conversa com seu filho no quarto (onde as notas lembram canções de ninar para bebês) e quando Vito segura Michael no colo e diz que lhe ama muito, ao som da música tema tocada em um violão atrás dele. A maravilhosa Direção de Arte de Angelo P. Graham cria uma Nova York absolutamente incrível. Observe como a citada feira livre é extremamente detalhada, com barracas de frutas cobertas por toldos coloridos, comércio de animais, roupas penduradas nas janelas, sujeira nas ruas e carros da época. Os detalhes também estão presentes nas cidades de Havana, Miami e Las Vegas, dentro dos luxuosos hotéis perfeitamente decorados e nas agitadas ruas da capital cubana, recheadas de crianças pobres. Os figurinos desta vez ficaram sob a responsabilidade de Theadora Van Runkle, que mantém o estilo marcante do primeiro filme no visual dos gângsteres e capricha também no visual da trama paralela, com a típica roupa italiana de Vito Corleone completada pelo tradicional chapéu que Michael também utilizou no primeiro filme.

Assim como no maravilhoso “O Poderoso Chefão”, o terceiro ato de “O Poderoso Chefão – Parte II” também finaliza com perfeição a narrativa. A morte de Fredo acontece simultaneamente ao assassinato de Roth e a descoberta do suicídio de Pentangeli, eliminando mais uma vez os problemas pendentes de Michael. Só que desta vez ele vai refletir amargamente sobre o resultado de suas ações. Observe em particular a composição visual na cena da morte de Fredo. Primeiro Coppola mostra Fredo rezando enquanto Michael olha pela janela. Ao som do tiro, a câmera volta para o barco, agora só com o assassino sentado e os pássaros voando ao fundo. Michael, solitário na janela, chegara ao fundo do poço, sem sua mulher, sem seus filhos e assassinando o próprio irmão. Ao mostrar Michael pensativo e solitário na sala, Coppola salta para o passado, criando uma emblemática e bela cena final. Ao ver Carlo sendo apresentado à Connie, Michael revelando que iria para a marinha e Fredo, Sonny e Tom conversando na mesa, a reflexão que fazemos é como aquele homem tranqüilo se transformou naquele monstro ao final do segundo filme. Pensamos também como aquela família conseguiu cair em tamanha decadência. Com a chegada de Don Vito, Michael fica sozinho na cozinha, assim como está no presente. Só que agora ele está solitário e desolado, pois venceu todos os inimigos, mas perdeu tudo que ele amava, ou seja, a família.

Trabalhando de forma ainda mais intensa o drama psicológico de seus personagens, “O Poderoso Chefão – Parte II” consegue a proeza de ser ainda mais complexo narrativamente que o primeiro filme. A incrível decadência de um homem poderoso e o resultado desastroso de seus atos torna esta segunda parte da saga ainda mais pesada e sombria. Contando novamente com competência na direção, roteiro, atuações e toda a parte técnica, reafirma a excelência do trabalho de Coppola, Puzo, Willis e companhia e garante um lugar eterno no coração daqueles que realmente gostam de cinema. Obra-prima.

 

Texto publicado em 02 de Setembro de 2009 por Roberto Siqueira

O MELHOR FILME DA MINHA VIDA

No último dia 19 de Agosto eu assisti “o melhor filme de todos os tempos”. E não tenho o menor receio de afirmar isso. O DVD do novo ultra-som do nosso bebê é simplesmente extraordinário. Chegamos tensos pela importância do exame e logo de cara tivemos as melhores notícias possíveis. Nosso bebê é lindo, perfeito e está crescendo muito bem. Estávamos com os olhos grudados na tela enquanto o excelente doutor explicava cada detalhe do impressionante exame. Aliás, que tecnologia temos hoje em dia não é? Eu consegui ver até os dedos do meu bebê em detalhes. Enquanto o médico falava, o mais lindo dos movimentos aconteceu. Nosso bebê acordou e começou a se mexer na tela, movendo os braços, as pernas e virando dentro do útero da Dri. A emoção foi inigualável. Ele é lindo! Perfeito! Vimos cada detalhe, o perfil do rosto, os dedinhos, os pezinhos, tudo mais do que lindo. As batidas do coraçãozinho ecoavam na sala. E até o meu cruzar de pernas (que a Dri, diga-se de passagem, também faz), ele fez também. Foi maravilhoso!

Acho que eu já assisti o DVD com a Dri pelo menos umas quinze vezes nos últimos dias. E ainda vou ver muitas vezes. Com certeza, este é o melhor DVD que eu já vi na vida. Que DEUS abençoe nosso bebê.

Um beijo meu lindo ou minha linda, papai e mamãe já te amam muito!

Texto publicado em 01 de Setembro de 2009 por Roberto Siqueira

UM PAÍS MELHOR

Semana passada eu fui ao médico devido à amidalite e ao chegar ao hospital tive que aguardar a minha vaga pacientemente, já que o local é extremamente limitado neste quesito. Chegando lá, um jovem dormia em seu carro enquanto aguardava sua vaga, e eu pacientemente fiquei esperando também. Pouco tempo depois, chegou um terceiro rapaz, acompanhado de uma moça, que parou o seu carro entre o meu e o do outro moço. Então a primeira vaga surgiu. Olhei para o rapaz que dormia, e então sai do carro e fui até ele perguntar se ele iria utilizar a vaga, já que ele estava ali há pelo menos meia hora. Pra minha surpresa (e dele também) o terceiro rapaz rapidamente ligou o carro e ocupou a vaga em questão, utilizando uma das leis preferidas da maioria do povo brasileiro, a lei do mais esperto. Pacientemente, me dirigi até o carro do ligeirinho e bati no vidro. Ele abriu e o seguinte diálogo aconteceu:

– Boa tarde. Tudo bem?

– Tudo, pois não.

– Você se incomodaria em ceder esta vaga para o rapaz que estava ali esperando há mais ou menos meia hora?

– Sabe o que é… Aqui não tem essa de ordem não. Não tem vaga marcada, quem chegou leva.

– Pois é… Aqui pode não ter esta de ordem. Mas somos um país civilizado não somos?

– Eu sou civilizado, você está falando que não sou?

– Então prove isto. Não custa nada você deixar quem está aqui há mais tempo ocupar a vaga que lhe é de direito. E depois dele, ainda vem eu. Depois que vem a sua vez. Você não está somente prejudicando o rapaz, está me prejudicando também. Porque eu não vou passar na frente dele como você fez e, portanto, automaticamente passei a ser o último da fila.

– Eu não costumo fazer isso. Eu peguei a vaga primeiro, ela é minha…

E resmungando ele saiu da vaga enquanto eu dizia: “Fique tranqüilo, você está ajudando a fazer um país melhor”.

Em seguida o outro rapaz parou na vaga. Alguns minutos depois eu consegui a minha vaga e entrei no Hospital. A alegria dele era tão grande pela minha atitude que me senti mais do que recompensado pelo que fiz. Mas a minha maior felicidade era por ter feito uma pequena parte, bem pequena mesmo, daquilo que mais acredito. Acredito que para mudar o país, as mudanças devem começar em nós mesmos, nas pequenas coisas, sendo educados, corretos e justos. E o trânsito nos dá diariamente excelentes oportunidades para isto.

Um abraço.

Texto publicado em 27 de Agosto de 2009 por Roberto Siqueira

MONTY PYTHON – EM BUSCA DO CÁLICE SAGRADO (1975)

(Monty Python and the Holy Grail)

5 Estrelas 

Filmes em Geral #118

Filmes Comentados #4 (Comentários transformados em crítica em 02 de Dezembro de 2013)

Dirigido por Terry Gilliam e Terry Jones.

Elenco: John Cleese, Graham Chapman, Eric Idle, Terry Gilliam, Terry Jones, Michael Palin, Coonie Booth e Carol Cleveland.

Roteiro: Graham Chapman, John Cleese, Eric Idle, Terry Gilliam e Terry Jones.

Produção: Mark Forstater e Michael White.

Em Busca do Cálice Sagrado[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Criadores e intérpretes da série cômica de enorme sucesso na televisão no final dos anos 60 intitulada como Monty Python’s Flying Circus, o Monty Python estreou no cinema com este divertido “Em Busca do Cálice Sagrado”, filme que carrega em cada fotograma as principais marcas do influente grupo britânico. Abusando da criatividade e apostando em cenas tão surreais que beiram o absurdo, o sexteto deixou sua marca eternizando um estilo autêntico de fazer comédia que é exaustivamente explorado (na maioria das vezes muito mal) até hoje.

Escrito por cinco dos seis integrantes clássicos do grupo e dirigido pela dupla Terry Gilliam e Terry Jones, “Em Busca do Cálice Sagrado” se passa na Inglaterra durante a Idade Média e narra a jornada do lendário Rei Arthur em busca dos famosos Cavaleiros da Távola Redonda. Após reunir todo o grupo, ele recebe a missão divina de encontrar o cálice sagrado, há muito tempo perdido em algum lugar esquecido da ilha britânica.

Por ser a primeira incursão do Monty Python no cinema (antes eles haviam apenas compilado alguns esquetes no longa “E agora para algo completamente diferente”), “Em Busca do Cálice Sagrado” não hesita em fazer inúmeras brincadeiras com a falta de recursos do projeto, numa abordagem irreverente que surge já nas legendas dos créditos iniciais e que acompanhará toda a narrativa, por exemplo, através do som da batida de metades de coco simbolizando o som dos cavalos. Além disso, Gilliam e Jones não tem medo de ousar e conduzir a narrativa de maneira nada convencional, quebrando a quarta parede em diversos momentos e brincando com a ideia do filme ser “apenas um filme”, como na piada envolvendo o cartunista e na cena final do ataque ao castelo abruptamente interrompido. Outro recurso narrativo muito bem utilizado é aquele conhecido como “dica e recompensa”, através da piada envolvendo andorinhas numa ponte já no ato final que remete ao primeiro diálogo do longa.

Já tecnicamente o longa é bem simplório. A começar pela fotografia dessaturada de Terry Bedford que, em conjunto com os uniformes dos soldados (figurinos de Hazel Pethig) e os castelos concebidos pelo design de produção de Roy Smith (na realidade, maquetes, como comenta um dos personagens), remetem a época medieval, mas sempre num tom muito mais cômico e surreal do que propriamente numa recriação que busca apoiar-se no realismo, ainda que a trilha sonora remeta às composições triunfais típicas de filmes sobre aquela época. Este surrealismo ganha ainda mais força através das animações propositalmente “toscas” que surgem durante a narrativa em diversos momentos, que também fazem piadas constantes com a falta de recursos e abusam da metalinguagem. Por outro lado, a montagem de John Hackney é essencial para que o excelente timing cômico de algumas piadas funcione, assim como é responsável pelo ritmo dinâmico que intercala as histórias dos Cavaleiros através de uma sequência inspirada de esquetes que mantém o espectador sempre interessado.

Batida de metades de cocoMorte do cartunistaAnimações propositalmente toscasAssim, o grande mérito de “Em Busca do Cálice Sagrado” fica mesmo por conta do roteiro extremamente criativo, nada convencional e recheado pelo típico humor autodepreciativo britânico (como nas muitas piadas envolvendo a histórica rivalidade entre ingleses e franceses), que fica ainda melhor graças às interpretações inspiradas de todo o elenco. Encarnando diversos papéis ao longo da narrativa, John Cleese, Graham Chapman, Eric Idle, Terry Gilliam, Terry Jones e Michael Palin se divertem enquanto protagonizam cenas antológicas, que se tornam ainda mais engraçadas pela maneira como eles pronunciam as palavras e pela imprevisibilidade que caracteriza a narrativa, que impede que o espectador antecipe o que vai acontecer. Inteligentes, os integrantes do Monty Python ensinam como utilizar o perigoso humor pastelão de maneira ousada e criativa, o que está longe de ser uma tarefa simples.

Destacar os momentos cômicos de “Em Busca do Cálice Sagrado” é tarefa hercúlea. A luta contra o temível cavaleiro negro e o ataque do coelho assassino certamente estão entre os meus favoritos, mas não posso deixar de citar o resgate repleto de piadas sexuais de Sir Gahlard num castelo repleto de mulheres, o curioso diálogo sobre as andorinhas que abre o filme, as aparições dos cavaleiros que dizem “Ní”, as perguntas que antecedem a travessia da ponte, o resgate do príncipe preso na torre e o temível monstro Aaahhhhrrrrgggghhhh.

Luta contra o temível cavaleiro negroAtaque do coelho assassinoCavaleiros que dizem “Ní”Mesmo com tantos momentos surreais, o longa não deixa de fazer interessantes críticas, como no diálogo entre o Rei Arthur e um camponês sobre o que dá direito ao Rei de comandar ou não um país, que, além de ser muito engraçado, toca em um tema bastante polêmico: a monarquia. Da mesma forma, a sequência em que uma jovem é acusada de ser bruxa demonstra como o povo medieval era ignorante (será que evoluímos?), utilizando argumentos estúpidos para condenar mulheres à morte. Morte que é utilizada durante a perseguição do monstro ao grupo, na primeira inserção de um recurso conhecido como “Deus ex-macchina”, que será essencial na piada que encerra a narrativa – e quando policiais surgem investigando os vestígios deixados por Arthur e companhia, a narrativa indica o que acontecerá no excelente final, em que as viaturas interrompem as gravações e prendem os protagonistas.

Apostando no humor irreverente que influencia muitos comediantes ainda hoje, “Em Busca do Cálice Sagrado” confirmou o enorme talento do grupo Monty Python, cravando seu nome na história do cinema. Mesmo décadas depois, o longa ainda serve como referência e deveria ser obrigatório para todo e qualquer comediante, para evitar que piadas frustrantes e sem criatividade alguma invadissem nossas vidas como acontece hoje. Não é preciso ser politicamente incorreto para ser engraçado, mas se decidir seguir por este caminho, que o faça com competência.

PS: Depois de assistir “A Vida de Brian” e “Em Busca do Cálice Sagrado” ficou evidente pra mim a influencia do grupo inglês sobre a “TV Pirata” e o “Casseta & Planeta”. Pena que os brasileiros, principalmente no segundo caso, não conseguiram realizar um trabalho do mesmo nível.

PS2: Comentários divulgados em 26 de Agosto de 2009 e transformados em crítica em 02 de Dezembro de 2013.

Em Busca do Cálice Sagrado foto 2Texto atualizado em 02 de Dezembro de 2013 por Roberto Siqueira

DE VOLTA…

Após alguns dias afastado por uma amidalite, volto à ativa. A partir de amanhã volto a postar normalmente no blog. Hoje, somente o aviso de que já estou de volta, e graças a Deus estou bem.

Só para não deixar passar, ontem na ESPN Brasil o José Trajano disse que infelizmente as pessoas que tentam pensar e debater algo com inteligência são a minoria absoluta neste país. Porque um país que consagra uma pessoa como aquele Dado Dolabella simplesmente demonstra ser um país no mínimo sem memória, para não dizer sem caráter. E eu concordo com ele. Não que um programa ridículo como este “A Fazenda” vá fazer alguma diferença em nossas vidas. Mas o resultado é mais um claro sinal de que um dos maiores problemas deste país é o próprio povo.

Um abraço e até mais.

Texto publicado em 25 de Agosto de 2009 por Roberto Siqueira

MONTY PYTHON – A VIDA DE BRIAN (1979)

(Monty Python’s Life of Brian)

5 Estrelas 

Filmes em Geral #119

Filmes Comentados #3 (Comentários transformados em crítica em 04 de Dezembro de 2013)

Dirigido por Terry Jones.

Elenco: Graham Chapman, Terry Jones, John Cleese, Michael Palin, Eric Idle, Terry Gilliam, Spike Milligan, Sue Jones-Davis, Ken Colley e Terence Bayler.

Roteiro: Graham Chapman e John Cleese.

Produção: John Goldstone.

A Vida de Brian[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Segundo longa-metragem do lendário grupo britânico Monty Python, “A Vida de Brian” mantém o frescor e a força criativa do primeiro filme, apesar do distanciamento temático e cronológico entre eles. Na verdade, o bom espaço de tempo entre os dois filmes só ajudou, retirando a pressão por uma nova empreitada cinematográfica e dando o tempo necessário para a elaboração de novas piadas, o que seria algo muito mais complicado de se conseguir nos tempos de hoje. Assim, Terry Jones e companhia puderam presentear os fãs com outro longa divertidíssimo, repleto de cenas memoráveis e tiradas inspiradas.

Desta vez escrito apenas por Graham Chapman e John Cleese, “A Vida de Brian” tem início na Judéia quando o jovem judeu Brian Cohen (Graham Chapman) se torna acidentalmente um importante líder religioso, sendo seguido por multidões e, para o desespero de sua mãe (Terry Jones), caçado pelos soldados romanos à serviço de Pilatos (Michael Palin).

Ácido como de costume, o roteiro de Chapman e Cleese aborda de forma inteligente temas polêmicos, como na hilária cena da sandália e da cabaça que satiriza a divisão de igrejas que teoricamente se baseiam na mesma fé, seguida pelo falso milagre da árvore no deserto, criticando também o fanatismo religioso na ótima cena do apedrejamento, na qual eles acusam de blasfêmia qualquer simples menção ao nome sagrado e, finalmente, ilustrando como as inúmeras divisões dentro do povo judeu (que teoricamente lutava pelo mesmo objetivo, mas na prática lutava entre si) deixavam de lado a causa do movimento e priorizavam o poder.

No entanto, a qualidade principal de “A Vida de Brian” não está no teor crítico de suas piadas, mas sim na qualidade das mesmas. Construindo diálogos primorosos que se tornam ainda mais engraçados pela maneira como os atores encarnam seus personagens, Chapman e Cleese acumulam uma série de momentos hilários, conduzidos com precisão pela câmera de Terry Jones, como na reunião em que os judeus discutem que benefícios os romanos trouxeram pra eles ou na cena em que Pilatos cita o nome de seu amigo romano, na qual os soldados mal conseguem segurar o riso diante do imperador.

A sandália e a cabaçaÓtima cena do apedrejamentoJudeus discutem que benefícios os romanos trouxeramEsta conversa de Pilatos com Brian e os soldados está entre os momentos mais engraçados do longa, dentre os quais também vale destacar seu discurso diante da multidão que se diverte enquanto escolhe qual prisioneiro será libertado – com participação de seu amigo romano -, a perseguição de Brian por um grupo de soldados e a conversa entre um prisioneiro animado e o calmo soldado romano que dá as orientações na fila da crucificação. Finalmente, a cena em que os líderes do movimento são avisados que Brian será crucificado e decidem fazer uma reunião de emergência para discutir o caso deveria ser usada em palestras para grandes corporações contemporâneas.

Exibindo sua melhor forma, os integrantes do Monty Python interpretam nada menos que 40 personagens em “A Vida de Brian”, em atuações de alto nível que confirmam a versatilidade do grupo. Mas se todos têm os seus bons momentos, o grande destaque certamente vai para Michael Palin na pele de um engraçado Pilatos que não consegue pronunciar a letra R – observe, por exemplo, sua hilária expressão facial ao questionar seu amigo se os cidadãos judeus estão zombando dele.

Já tecnicamente “A Vida de Brian” não tem grande destaque, evidenciando o lado B das produções do Monty Python sem pudor, ainda que a fotografia árida e cheia de cores quentes de Peter Biziou e a reconstituição de época de Roger Christian colaborem na imersão do espectador naquela época. Por outro lado, Terry Jones e seu montador Julian Doyle são inteligentes o bastante para imprimir um ritmo ágil e evitar que a narrativa perca tempo com cenas desnecessárias, como fica evidente no momento em que o líder do movimento dos judeus narra como será o plano de invasão do palácio de César enquanto as imagens já mostram a execução do plano.

Conversa de Pilatos com Brian e os soldadosHilária expressão facialPasseio de Brian com os ET´sEsta benéfica economia narrativa também se reflete na direção discreta de Jones, que emprega movimentos de câmera mais estilizados apenas quando estes tem alguma função, como quando a câmera se afasta de Jesus Cristo e, auxiliada pelo design de som, ilustra a dificuldade dos personagens para ouvir o sermão da montanha. Da mesma forma, Jones prolonga ao máximo o suspense antes de revelar o grupo rival que invade o palácio de César no mesmo instante que os parceiros de Brian. Além disso, o diretor mostra coragem ao nos tirar completamente do universo da narrativa através do passeio de Brian com os ET´s, numa estratégia arriscada que poderia arruinar completamente a experiência do espectador, mas que funciona justamente pelo absurdo da situação – e por sabermos que o grupo não costuma seguir convenções narrativas ou respeitar regras cinematográficas.

Assim, os ingleses do Monty Python conseguiram mais uma vez nos divertir com seu humor criativo, baseado na inteligência da composição de seus diálogos e situações em detrimento do humor puramente físico (que também pode funcionar nas mãos de pessoas talentosas, vale dizer). A excelente canção “Always look to the good side of life” cantada pelos prisioneiros crucificados no final mostra bem a real intenção do grupo. Olhar para o lado bom da vida, dar risada e levar as coisas de um modo menos sério. Muito bom.

PS: Comentários divulgados em 19 de Agosto de 2009 e transformados em crítica em 04 de Dezembro de 2013.

A Vida de Brian foto 2Texto atualizado em 04 de Dezembro de 2013 por Roberto Siqueira

ROCKY BALBOA (2006)

(Rocky Balboa)

4 Estrelas 

Filmes em Geral #98

Filmes Comentados #2 (Comentários transformados em crítica em 22 de Dezembro de 2012)

Videoteca do Beto #222 (Filme comprado após ter a crítica divulgada no site e transferido para a Videoteca em 20 de Fevereiro de 2016)

Dirigido por Sylvester Stallone.

Elenco: Sylvester Stallone, Burt Young, Antonio Tarver, Milo Ventimiglia, Geraldine Hughes, Pedro Lovell, James Francis Kelly III, Tony Burton, A.J. Benza, Henry G. Sanders, Ana Gerena, Ângela Boyd, Louis Giansante, Carter Mitchell, Vinod Kumar e Robert Michael Kelly.

Roteiro: Sylvester Stallone.

Produção: William Chartoff, Kevin King, Charles Winkler e David Winkler.

Rocky Balboa[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

No sexto e último filme da série, Sylvester Stallone encerra de forma correta a saga do lutador que transformou sua vida e fez dele um dos nomes mais importantes de Hollywood entre os anos 70 e 80. Em certo momento de “Rocky Balboa”, o astro decadente reflete sua própria realidade, dando autógrafos pelas ruas e demonstrando o quanto permanece preso ao passado. E é justamente este tom melancólico que garante uma de despedida digna de Stallone para seu melhor personagem em toda a carreira.

Escrito e dirigido pelo próprio Stallone, “Rocky Balboa” nos traz seu personagem título (Sylvester Stallone) já envelhecido e distante dos dias de glória, vivendo de seu pequeno restaurante Adrian’s, batizado em homenagem à sua falecida esposa, enquanto seu filho Rocky Jr. (Milo Ventimiglia) luta para conseguir sucesso na vida profissional sem a ajuda da fama do pai. Só que uma simulação de computador feita pela ESPN coloca o atual campeão mundial dos pesos pesados Mason Dixon (Antonio Tarver) para lutar contra Rocky e gera uma enorme polêmica, chamando a atenção de empresários que, imediatamente, tentam convencer o lendário ex-lutador a voltar aos ringues.

Logo no primeiro minuto de projeção, “Rocky Balboa” evidencia seu tom nostálgico ao destacar a foto de Adrian ao lado da cama do protagonista, que, somada a versão melancólica da famosa trilha sonora de Bill Conti e a fotografia azulada de J. Clark Mathis, transmite ao espectador o mesmo sentimento de tristeza do lutador. Vivendo numa casa simples em um bairro humilde da cidade, Rocky escancara a diferença gritante de realidade entre os esportistas do passado e do presente quando comparamos suas posses com a mansão e o carro de luxo do atual campeão mundial. A partir daí, ganha espaço a eterna discussão existente em quase todos os esportes: passado versus presente. Perguntas como “Quem seria melhor?” ou “Quem venceria?” jamais encontrarão uma resposta definitiva, por isso, a comparação entre épocas é sempre um assunto polêmico e complicado. É óbvio que numa luta realizada no presente um campeão do passado não teria chances, mas se ambos estivessem no auge o vencedor poderia ser outro.

Ainda neste contexto, “Rocky Balboa” aproveita para abordar outro tema interessante, primeiro através de uma metáfora quando Rocky vai comprar um cachorro junto com Steps (James Francis Kelly III) e cada personagem defende seu ponto de vista com alguma dose de razão. O lutador opta pelo cão mais velho e experiente, contrariando o garoto que preferia o mais jovem e cheio de vitalidade. Aliás, até mesmo Steps serve para ilustrar como temos a tendência de julgar pela aparência, já que inicialmente ele parece um marginal, mas na realidade é um bom garoto. O preconceito contra a velhice surge novamente quando jornalistas dizem que Rocky venceria uma improvável luta contra Dixon e muitos respondem que ele é um velho acabado ou ainda quando Marie (Geraldine Hughes) recusa o convite para ser recepcionista do restaurante por entender que sua aparência não seria boa para o negócio dele.

Foto de AdrianRocky compra um cachorro junto com StepsJornalistas dizem que Rocky venceriaFinalmente oferecendo outra grande atuação, Stallone demonstra a falta que sente de Adrian com perfeição na tocante conversa que tem com Paulie (Burt Young) no frigorífico, quando afirma emocionado que é muito difícil conviver com a besta que existe dentro dele, convencendo também na realista discussão entre Rocky e seu filho através da oscilação do tom de voz, do olhar e das marcantes expressões faciais. Sempre com o olhar triste e amargurado, o ator retrata com competência o jeito grosseiro e encantador que o lutador tem de enfrentar a vida, jamais conseguindo esconder seus sentimentos e carregando uma simplicidade desconcertante que fica evidente na brilhante cena em que ele tenta convencer a comissão de que está em condições de voltar a lutar.

Também se destacando na citada discussão entre pai e filho, Milo Ventimiglia transmite muito bem a amargura de Rocky Jr. por ter a sombra da fama do pai sempre por perto. Mostrando-se constrangido por achar que a sombra de Rocky impede que ele evolua por conta própria, o garoto sequer consegue reagir quando os amigos assistem a luta virtual de seu pai num bar, sorrindo sem jeito enquanto todos vibram e falam com ele. Finalmente, vale citar ainda a boa participação de Burt Young, que, vivendo mais uma vez o rabugento Paulie, revela de maneira surpreendente e tocante o arrependimento dele por ter maltratado a irmã Adrian ao longo dos anos.

Besta que existe dentro deleTenta convencer a comissãoDiscussão entre pai e filhoAlém de acertar no ritmo mais lento e coerente com a proposta da narrativa, a montagem de Sean Albertson brinda novamente os fãs com uma sequência que remete a toda à saga, com Rocky correndo pelas ruas, bebendo ovos crus, socando a carne no frigorífico e chegando às escadarias do Museu de Arte da Filadélfia com a empolgante “Gonna Fly Now” tocando ao fundo. Aliás, até mesmo as músicas escolhidas por Bill Conti para a esperada luta casam bem com os personagens, com Rocky entrando no ringue ao som de Frank Sinatra enquanto Dixon escolhe um sucesso de sua época. E já que citei a luta final em que até mesmo Mike Tyson dá as caras, vale destacar a boa forma de Stallone, que colabora para tornar o confronto mais real.

Preparado com cuidado durante toda a narrativa, o grande clímax traz uma brincadeira metalinguística que evoca sentimentos intensos ao trabalhar com a memória afetiva dos fãs do lutador. E é este pequeno detalhe que faz toda a diferença e dá a dimensão da importância daquele momento. Quando o narrador diz que não acredita que vai narrar uma luta de Rocky, muito provavelmente aquele jovem ator também está querendo dizer que jamais pensou que participaria de um filme da saga, assim como boa parte da plateia imaginou que não assistiria Rocky Balboa nos cinemas novamente. Apesar de castigado pelas continuações distantes da qualidade do primeiro filme (“Rocky II – A Revanche é a exceção), um personagem importante da história do cinema está se despedindo; e todos, inclusive o espectador, sabem disso. Daí a carga emocional daquela cena e de todo o filme.

Misturando ficção e realidade, a luta carregada de energia é um dos pontos altos do filme, ainda que seja difícil de acreditar que um homem de 60 anos poderia apresentar aquele desempenho diante de um campeão mundial em plena forma. Mas este é um deslize perdoável e até mesmo compreensível, já que ninguém gostaria de ver Rocky levando uma surra sem tamanho em sua última luta.

Os créditos finais de “Rocky Balboa” trazem a imagem de dezenas de pessoas subindo às escadarias do Museu de Arte da Filadélfia e imitando os gestos de Rocky. Somente este instante já serviria para demonstrar a importância deste personagem na história recente do cinema. Goste dele ou não, é dever do bom cinéfilo respeitar personagens deste calibre.

PS: Comentários divulgados em 17 de Agosto de 2009 e transformados em crítica em 22 de Dezembro de 2012.

Rocky Balboa foto 2Texto atualizado em 22 de Dezembro de 2012 por Roberto Siqueira

Qual a criança mais assustadora do cinema?

Medo e susto são duas coisas completamente diferentes. Qualquer filme, até mesmo uma comédia, pode nos causar susto. Basta colocar algo inesperado na tela com o auxilio de uma trilha sonora alta e, de preferência, repentina. Pronto, já temos a receita do tão famoso susto. Já para criar o medo é necessário um trabalho mais refinado, uma narrativa que envolva o espectador de tal forma que a situação criada lhe cause uma sensação de temor com o que se passa na tela. E aí entram diversos artifícios que os diretores mais inteligentes podem utilizar para criar esta sensação no espectador. Dentre eles, podemos citar a utilização do silêncio, a ironia dramática (quando o espectador sabe mais que os personagens do filme), e finalmente, as crianças. E por que as crianças? Porque quando o perigo vem justamente de onde menos esperamos, ele se torna ainda mais temível. Teoricamente, uma criança é um ser inofensivo, e quando ela se mostra uma ameaça, esta ameaça se torna ainda maior. Por isso o cinema já utilizou inúmeras vezes à figura da criança como forma de criar o sentimento de medo.

Entre as muitas crianças que me causaram esta sensação de medo durante um filme, duas se destacaram. A primeira delas, e pra mim a mais assustadora, é a menina Regan MacNeil em “O Exorcista”. A segunda é a misteriosa Samara, de “O Chamado”. Ambas me causam calafrios até hoje.

Regan e Samara não são as únicas crianças utilizadas para causar medo na história do cinema. Inúmeras outras crianças podem ser citadas, como o menino Cole Sear em “O Sexto Sentido”. Por isso, deixo a pergunta no ar:

Pra você, qual a criança mais assustadora do cinema?

Um abraço e bom debate.

Regan MacNeilSamara

Texto publicado em 16 de Agosto de 2009 por Roberto Siqueira

OSCAR 2008: ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ X NA NATUREZA SELVAGEM

Após justificar porque, em minha opinião, “Wall.E” é melhor que “Quem quer ser um milionário?”, chega a vez agora do ano de 2007. A ótima safra de 2007 deu ao mundo pelo menos dois grandes filmes, destes que vão durar para sempre na memória dos que gostam de cinema: “Onde os Fracos não têm vez” e “Sangue Negro”. Acontece que, naquele mesmo ano, um filme mexeu profundamente comigo. A forma como Sean Penn e companhia transportaram para a tela grande a impressionante história de Christopher McCandless me encantou e fez de “Na Natureza Selvagem” o meu filme favorito naquele ano.

Porque “Na Natureza Selvagem” é melhor?

Sinceramente, entendo que “Sangue Negro” e “Onde os Fracos não têm vez” são filmes maravilhosos e extremamente competentes. Mas, como disse o Pablo Villaça no curso de Linguagem Cinematográfica, um filme é aquele filme + todos os filmes que você já viu + sua experiência de vida, e por razões extremamente pessoais tenho uma enorme afinidade com o filme de Sean Penn. O polêmico tema do desapego material, somado às deslumbrantes paisagens, fizeram “Na Natureza Selvagem” se tornar um filme absolutamente marcante pra mim. Além disso, considero que o filme tem uma ótima direção, um roteiro delicioso (apesar de ser inferior ao impecável roteiro do filme dos irmãos Coen), uma trilha sonora belíssima (composta especialmente por Eddie Vedder) e atuações magníficas. Por tudo isso, considero “Na Natureza Selvagem” o grande lançamento de 2007. Talvez eu esteja deixando o coração falar no lugar da razão, mas é maravilhoso quando um filme cria esta empatia com o espectador.

Gostaria de saber sua opinião. Pra você, qual o melhor filme de 2007 e por quê?

Um abraço.

Texto publicado em 13 de Agosto de 2009 por Roberto Siqueira