DONNIE DARKO (2001)

(Donnie Darko)

 

 

Videoteca do Beto #246

Dirigido por Richard Kelly.

Elenco: Jake Gyllenhaal, Holmes Osborne, Maggie Gyllenhaal, Daveigh Chase, Mary McDonnell, James Duval, Arthur Taxier, Patrick Swayze, Beth Grant, Drew Barrymore, Jena Malone, Katharine Ross, Seth Rogen, Noah Wyle, Ashley Tisdale, Patience Cleveland e Lee Weaver.

Roteiro: Richard Kelly.

Produção: Adam Fields, Nancy Juvonen e Sean McKittrick.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Pode um filme que envolve pontes de Einstein-Rosen e a filosofia da viagem no tempo ser, em última instância, um estudo sobre sentimentos? É claro que sim. Ainda que o enigmático terceiro ato abra espaço para discussões filosóficas e científicas intermináveis que permitem ao espectador se deliciar criando teorias e debatendo sobre o significado de tudo aquilo, o fato é que o cult “Donnie Darko” ancora sua excepcional estrutura narrativa em sentimentos extremamente humanos, que, por sua vez, não deixam de ser um mistério tão fascinante quanto buracos de minhoca.

Escrito e dirigido por Richard Kelly, “Donnie Darko” tem início quando o personagem título, após uma discussão familiar no jantar, escapa milagrosamente da morte ao ouvir a orientação de um misterioso coelho gigante e sair de sua casa instantes antes de uma turbina de avião destruir completamente o seu quarto. À partir daí, ele passa a seguir as instruções do coelho que afirma que o mundo acabará em 28 dias e provocar o caos na escola em que estuda, ao mesmo tempo em que se apaixona pela nova aluna Gretchen (Jena Malone) e desafia o famoso Jim Cunningham (Patrick Swayze).

Estruturado como um quebra-cabeças que envolve conceitos complexos sobre viagem no tempo, o impecável roteiro de “Donnie Darko” jamais se entrega a soluções fáceis e mastigadas, preferindo jogar pistas ao longo da narrativa para que o próprio espectador procure formular suas teorias quando o terceiro ato jogar uma enorme interrogação em sua mente. Normalmente, filmes que ousam não entregar tudo mastigado sofrem preconceito por parte de espectadores acostumados a narrativas que explicam cada ponta solta do roteiro, mas curiosamente o longa de Richard Kelly conseguiu driblar este efeito e ganhar muitos fãs após seu fracasso nas bilheterias, justamente por que a força da narrativa vai além do aspecto científico (o que por si só já garantiria um bom filme), permeando aquele universo recheado de esquisitices e acontecimentos estranhos com sentimentos universais e de fácil identificação, o que ajuda a criar empatia.

A abertura envolta em mistério e que beira o onírico em que o garoto desce uma estrada sinuosa numa montanha já dá o tom da narrativa, passando por um primeiro ato dominado por cenas que refletem o estado de espírito do protagonista, deslocado tanto na escola quanto em sua própria família, algo refletido também nas roupas azuis que ele veste durante boa parte do filme e que simbolizam sua melancolia – o que é mérito dos figurinos de April Ferry, que também acerta na caracterização bizarra do gigante coelho que atormenta Donnie, criando um personagem icônico. Na medida em que Donnie Darko cumpre as orientações e avança no plano de Frank (James Duval), a fotografia de Steven Poster passa a adotar cores mais vivas e quentes, especialmente após o surgimento de Gretchen. Esta oscilação entre cenas mais sombrias e quentes reflete também a instabilidade emocional de Donnie, o que ajuda a criar uma atmosfera passivo-agressiva que casa muito bem com sua personalidade.

Esta atmosfera é reforçada pela maravilhosa trilha sonora de Michael Andrews, que pontua boa parte das cenas com composições melancólicas, mas intercala com deliciosas músicas populares da “new wave” que marcou os anos 80, que costumam trazer um misto de sentimentos alegres e tristes, o que é muito coerente com a proposta da narrativa – destaque para a sequência que apresenta praticamente todos os personagens importantes da escola embalada por “Head Over Heels”, do Tears for Fears, e que sem necessitar de palavras já evidencia características marcantes de suas personalidades e das relações entre eles. Da mesma forma, a montagem de Sam Bauer e Eric Strand alterna bem entre momentos empolgantes como os embates entre Donnie e professores na escola, os sinistros encontros com Frank e momentos mais calmos, ainda que igualmente interessantes, como a discussão dele com os amigos sobre os Smurfs.

Demonstrando domínio completo sobre a narrativa, Richard Kelly reforça a sensação de desconforto no espectador através da escolha de planos estranhos, como aquele que mostra o ônibus escolar na vertical, o que, aliado aos efeitos especiais que dão vida às alucinações de Donnie – como aquela que simboliza uma espécie de buraco de minhoca que indica o caminho que as pessoas seguirão nos segundos seguintes –, também serve para transmitir a inquietação da mente dele. O diretor é hábil ainda ao utilizar planos fechados que valorizam as excelentes atuações de seu elenco – especialmente de Jake Gyllenhaal, que discutiremos mais adiante. Antes disso, porém, vale ressaltar o bom trabalho de todo o elenco de apoio, a começar por Maggie Gyllenhaal, que compõe Elizabeth como uma irmã distante, que deixa claro os conflitos que tem com Donnie logo no início, mas que não hesita em demonstrar orgulho numa conversa com uma amiga em que comenta um confronto do irmão com uma professora na escola.

Da mesma forma, Mary McDonnell faz de Rose Darko uma mãe compreensiva, centrada e que demonstra compaixão pelo filho ao mesmo tempo em que sofre diante da condição psiquiátrica dele. Drew Barrymore, por sua vez, transmite a frustração da professora Karen naquele ambiente conservador, enxergando o potencial de alunos como Donnie e tendo a firmeza e coragem de questionar o sistema educacional ultrapassado e a falta de capacidade de se comunicar com os jovens daquela escola, ainda que isto custe seu emprego. Este questionamento dela, aliás, toca diretamente num dos temas centrais da narrativa.

Afinal, a hipocrisia da parcela conservadora da sociedade e a dificuldade que esta tem em aceitar o progresso e a complexidade dos sentimentos humanos são simbolizadas perfeitamente em personagens como Beth Grant, interpretada de maneira quase caricata por Kitty Farmer em momentos como quando expõe sua ignorância na discussão sobre livros numa reunião com outros pais e professores, além é claro de Jim Cunningham, o charlatão vivido por Patrick Swayze que protagoniza uma quente discussão com Donnie e que tem sua máscara retirada quando um incêndio em sua casa leva os policiais a descobrirem seu criminoso envolvimento com pornografia infantil. Ambos personificam um grupo enorme de pessoas que ainda hoje enxergam um mundo binário onde é possível classificar pessoas como boas ou más, ignorando toda a gama complexa de sentimentos, emoções, motivações e condições peculiares que nos tornam humanos. Fechando os destaques do elenco secundário, Jena Malone cria uma Gretchen graciosa e igualmente deslocada que sofre por razões diferentes de Donnie e, justamente por este sentimento de não pertencimento, combina perfeitamente com o rapaz.

Os problemas de Donnie Darko ficam evidentes logo no jantar que antecede o acidente, no qual Jake Gyllenhaal já demonstra claramente a insatisfação dele com sua família, ainda que, neste momento, não seja possível identificar ainda sua forte oscilação de humor. No entanto, assim que Frank surge, notamos facilmente as alterações vocais e faciais do psicótico protagonista, que aparece agora com um olhar penetrante, dominado por uma espécie de alucinação que transforma seu comportamento, quase como num transe para um mundo paralelo (olha a dica aí). Gyllenhaal demonstra talento ainda em pequenos detalhes da composição do personagem, como o lento caminhar enquanto sonâmbulo ou a tímida conversa inicial com Gretchen, na qual ambos parecem desconfortáveis, ainda que seja notável a empatia entre eles.

Da mesma forma, ele consegue transmitir bem a tensão sexual natural desta fase da adolescência em cenas como a conversa com a terapeuta em que conta sobre a viagem no tempo. Inteligente, questionador e cético quanto à religião, Donnie demonstra fascínio pela ciência e pelo tema viagem no tempo, mas é seu medo diante da solidão e da morte que evidencia sua principal característica: a melancolia. Ao ouvir que “toda criatura morre sozinha”, ele logo se apressa em dizer que não quer estar sozinho, demonstrando uma insegurança emocional que nada mais é que uma condição natural do ser humano, que pode ficar ainda mais latente em pessoas que tentam encontrar explicações lógicas para os mistérios da vida e não buscam conforto em alguma fé qualquer que simplifique a visão da natureza humana e seu papel no universo.

O que nos traz de volta ao sentimento mencionado anteriormente de desconforto causado no espectador que busca explicações mastigadas para os acontecimentos da narrativa. Assim como Donnie, cabe ao espectador não se ancorar em soluções fáceis e buscar aprofundar-se nos conceitos apresentados ao longo do filme para tentar encaixar as peças e compreender a complexidade de “Donnie Darko”. Se por um lado a condição de esquizofrênico paranoico dele poderia facilmente explicar boa parte das alucinações que vemos ao longo da narrativa, por outro o livro de Roberta Sparrow (Patience Cleveland), a menção à “De volta para o futuro”, as conversas com o professor Kenneth Monnitoff (Noah Wyle) e os efeitos visuais que evidenciam o buraco de minhoca no ato final indicam outro caminho para solucionar o enigma que se forma na cabeça do espectador no terceiro ato.

A morte de Gretchen em frente a casa de Roberta Sparrow associada ao surgimento de Frank vestido de coelho e o tiro que ele leva no olho esclarecem parte dos mistérios, levando a conclusão da narrativa em que Donnie desta vez é morto pela turbina, que irá abrir o leque de possibilidades de interpretação. Fica evidente, no entanto, que a viagem no tempo é a chave para solucionar a equação, ainda que você possa até mesmo argumentar que tudo não passa de sonhos do protagonista e dos outros personagens, já que os acontecimentos bizarros que se iniciam na queda da turbina surgem após ele ir para a cama (e a letra de “Mad World” que acompanha todos atormentados, como se despertassem de pesadelos, pode induzir a esta interpretação em seu refrão). Aliás, existem outras interpretações muito interessantes na internet como a de Rolandinho, que você pode acessar aqui.

No entanto, a interpretação que mais me agrada é a leitura convencional do artefato que viaja pelo buraco de minhoca após uma anomalia criar um universo tangente, cabendo ao receptor (no caso, Donnie Darko) a missão de corrigir o erro. Segundo esta teoria descrita no livro de Sparrow, ele tem então os 28 dias, 6 horas, 42 minutos e 12 segundos citados por Frank na conversa inicial deles para evitar o colapso do universo primário ao enviar de volta o artefato duplicado no universo tangente (neste caso, a turbina). O livro também explica conceitos como os manipulados mortos (Frank e Gretchen, que ganham o poder de viajar no tempo) e os manipulados vivos (todos os outros personagens que ajudam o receptor a cumprir sua missão), o domínio de Donnie sobre elementos como o fogo (o incêndio na casa de Jim) e a água (a inundação da escola), sua força descomunal (quando enfia o machado numa estátua) e a telecinesia (quando envia a turbina pelo buraco de minhoca no ato final). Além disso, são várias as dicas ao longo do filme que reforçam esta leitura, como quando Donnie afirma que a destruição é uma forma de criação (destruir aquele universo ajudaria a criar um futuro no universo primário), quando ele questiona Gretchen o que a faz pensar que ele não é um super-herói (afinal, naquele universo ele tem superpoderes) ou quando ele deixa o cinema e no letreiro temos “A Última Tentação de Cristo”, (cuidado, SPOILERS!) outro filme que aborda um universo paralelo, neste caso, criado na mente do protagonista.

Ao atingir seu objetivo, Donnie arquiteta também sua própria morte no universo primário, salvando Gretchen e todos os outros que morreram no universo tangente. A teoria explica ainda por que vários personagens de certa forma sentem os acontecimentos do universo tangente na bela sequência citada anteriormente que os mostra sofrendo e reforça de maneira tocante o sentimento que domina a narrativa, embalada pela bela “Mad World”, que tem total conexão com o tema do filme. Além disso, fica mais fácil compreender o medo de Donnie da solidão e da morte, sua obsessão pelo tema viagem no tempo, sua melancolia e até mesmo sua tensão sexual, afinal, ele sentia que não teria muito tempo de vida. Como fica claro naquele diálogo com Gretchen, ele, talvez de maneira inconsciente, sabia que era um tipo estranho de super-herói messiânico, fadado a entregar a vida para salvar todos os outros presentes no universo primário – o que, aliás, novamente remete à visão religiosa da missão de Jesus Cristo.

Portanto, por mais que seja extremamente instigante estudar os complexos conceitos da filosofia da viagem no tempo, formular interpretações e tentar conectar as pontas soltas de “Donnie Darko” (e sim, é muito divertido e estimulante fazer isso), o fato é que os sentimentos nada binários abordados ao longo da narrativa são igualmente complexos e merecedores de serem estudados, com a diferença de que eles não demandam grande esforço do espectador para se identificar com aquilo.

Texto publicado em 31 de Julho de 2020 por Roberto Siqueira

PÂNICO (1996)

(Scream)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #145

Dirigido por Wes Craven.

Elenco: Neve Campbell, Courteney Cox, David Arquette, Drew Barrymore, Skeet Ulrich, Rose McGowan, Matthew Lillard, Liev Schreiber, W. Earl Brown, Linda Blair, Wes Craven e Jamie Kennedy.

Roteiro: Kevin Williamson.

Produção: Cathy Konrad e Cary Woods.

Pânico[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Extremamente populares nos anos 70 e 80, os slasher movies ganharam uma verdadeira legião de fãs em todo o mundo, notabilizando-se por narrativas simples que se baseavam na capacidade de assustar a plateia. Com o passar dos anos, no entanto, a repetição contínua de fórmulas repletas de clichês desgastou o gênero de tal maneira que os próprios realizadores passaram a adotar a autoparódia como forma de ainda lucrar com suas longínquas franquias. Entre os nomes de maior destaque daquele período estava Wes Craven, que escreveu e dirigiu “A Hora do Pesadelo” e, mesmo se recusando a participar das continuações, jamais abandonou o gênero que ajudou a consagrar. E foi justamente ele que, em 1996, ressuscitou os slasher movies através deste ótimo “Pânico”, que nos diverte e nos assusta com a mesma intensidade ao brincar com os mais batidos clichês do terror adolescente.

Escrito por Kevin Williamson, “Pânico” tem inicio quando um casal de jovens é assassinado numa pequena cidade dos EUA exatamente um ano após outro crime aterrorizar a cidade. As investigações levam a policia a desconfiar do Sr. Prescott, viúvo da mulher morta há um ano e que sumiu da cidade na noite do crime. Enquanto ele está fora, sua filha Sidney (Neve Campbell) passa a ser ameaçada com estranhos telefonemas, o que leva o diretor de sua escola a suspender as aulas, para a alegria de seus amigos Stuart (Matthew Lillard), Riley (Rose McGowan) e de seu namorado Billy (Skeet Ulrich). Toda a situação chama a atenção da repórter sensacionalista Gale Weathers (Courteney Cox), que, ao cobrir os acontecimentos, acaba se apaixonando pelo xerife Dwight (David Arquette).

Adotando um tom de paródia, o excelente roteiro de “Pânico” revisa os principais clichês do gênero (a moça virgem, as festas repletas de adolescentes bêbados, as casas enormes e solitárias, as atitudes estúpidas das vítimas, etc.), abusando da metalinguística para nos provocar o riso e quebrar a tensão que predomina a narrativa. Desta forma, não são poucas as referências visuais e menções aos clássicos do terror que fazem com que o espectador se identifique com o que vê, incluindo diversas piadas divertidas como quando Riley diz que só o primeiro “A Hora do Pesadelo” era bom ou quando Sidney diz que nestes filmes as moças peitudas sempre corriam para o quarto ao invés de saírem da casa, além do instante em que Riley diz que Sidney está falando como num filme de Wes Craven. Aliás, o próprio Craven surge vestido como Freddy Krueger em certo momento e até mesmo presença de Linda Blair, famosa por viver a garota Regan em “O Exorcista”, reforça este tom nostálgico.

Casas enormes e solitáriasVestido como Freddy KruegerPresença de Linda BlairContudo, ao mesmo tempo em que homenageia, Craven subverte o gênero que o consagrou, demonstrando todo seu talento na construção de uma narrativa tensa, capaz de prender nossa atenção constantemente através do ritmo ágil empregado pelo diretor em conjunto com seu montador de Patrick Lussier. Assim, se num instante estamos nos deliciando com as inúmeras referencias aos clichês dos saudosos slasher movies, no outro estamos tensos diante da possibilidade dos personagens sofrerem com as mesmas atitudes que eles condenam e, simultaneamente, ainda somos cativados pela sempre interessante busca da verdadeira identidade do assassino (o famoso “whodunit”). Abusando de movimentos rápidos de câmera que nos provocam certa desorientação, além de empregar em diversos momentos câmeras subjetivas que simulam o olhar do suposto assassino enquanto acompanhamos as vítimas distraídas, o diretor nos cativa desde os primeiros minutos de “Pânico”.

Inúmeras referencias aos clichêsMovimentos rápidos de câmeraCâmeras subjetivasO início do longa, aliás, é simplesmente eletrizante. Um toque de telefone nos apresenta à indefesa Casey Becker (Drew Barrymore) na cozinha de sua casa espelhada, localizada numa cidade pequena do interior dos EUA, e um diálogo intrigante sobre filmes de terror se inicia. Em poucos minutos, temos uma verdadeira convenção de elementos típicos dos slashers, com planos que destacam as facas de cozinha, o silencio sendo quebrado apenas pelos diálogos e pelo toque do telefone, a trilha sonora que repentinamente sobe o tom e nos assusta, além, é claro, do senso de isolamento já estabelecido pela misè-en-scene. Quando o misterioso homem do outro lado da linha mostra que a brincadeira é séria, o espectador se assusta tanto quanto a protagonista. Entretanto, o grande segredo do sucesso da cena está na escolha do elenco. Habituados a verem a estrela principal sobreviver, os espectadores sofrem um choque tremendo quando Drew Barrymore, a atriz mais conhecida de “Pânico” na época, é assassinada brutalmente antes dos 15 minutos de projeção. Ao matar sua estrela tão precocemente, Craven desarma a plateia, nos fazendo perder as referencias e temer por todos os personagens, já que, a partir deste instante, não sabemos mais o que esperar nem quem irá sobreviver (algo que não voltaria mais a acontecer na franquia, já que Neve Campbell se consolidou como a estrela de “Pânico”).

Indefesa Casey BeckerFacas de cozinhaAssassinada brutalmenteDesde então, o foco passa a ser Sidney Prescott, filha da mulher assassinada um ano antes e amiga de Casey. Escondendo sua determinação sob a aparência frágil, Neve Campbell compõe a personagem como a típica mocinha que se transforma em heroína, repleta de traumas e inseguranças, mas dona de uma força surpreendente nos momentos de perigo. Insegura depois do que aconteceu com sua mãe, ela passa a suspeitar do próprio namorado, e as atitudes dele na noite do crime de fato não colaboram em nada para limpar sua barra. Da mesma forma, o comportamento dos amigos dela na escola após o assassinato faz com que até mesmo o espectador levante suspeita sobre todos eles, o que só reforça a atmosfera de suspense. E se Matthew Lillard faz “Stu” parecer um maluco completo desde os primeiros minutos em cena, Skeet Ulrich nos confunde ao transitar entre o normal e o louco com seu Billy, o que, somado ao comportamento estranho de outros personagens como o cinéfilo Randy (Jamie Kennedy) e ao sumiço do pai de Sidney, também colabora para aumentar o número de suspeitos.

Aparência frágilStu, um maluco completoBillyFamosa por interpretar Mônica no ótimo seriado “Friends”, Courteney Cox assume aqui o papel da repórter chata e sem escrúpulos que fará qualquer coisa para conseguir uma boa reportagem, ainda que para isso precise passar por cima das pessoas que a cercam. Talentosa como é, a atriz consegue se sair muito bem, transformando Gale Weathers numa personagem irritante, é verdade, mas que se torna agradável ao demonstrar atração pelo atrapalhado xerife Dwight, interpretado por David Arquette (que se casaria com Cox três anos depois).

Repórter chataQualquer coisa para conseguir uma boa reportagemAtrapalhado xerife DwightBaseando-se no visual tradicional dos filmes voltados para o público adolescente, os figurinos de Cynthia Bergstrom apostam nas saias curtas e calças apertadas que realçam as pernas torneadas das garotas, ao passo em que os meninos usam camisas modernas (para a época). Da mesma forma, a fotografia de Mark Irwin emprega cores quentes nas sequências diurnas, criando um visual alegre que contrasta diretamente com o tom obscuro das cenas noturnas. Este contraste, por si só, já serve como alerta para os perigos que os personagens correm quando o sol se põe. Finalmente, o design de produção de Bruce Alan Miller se destaca na escolha das casas enormes e espelhadas que só aumentam a tensão na plateia, além é claro da icônica máscara que caracteriza o assassino, que se tornaria uma das marcas do gênero nos anos 90. Já a trilha sonora de Marco Beltrami também segue o padrão slasher ao ser usada constantemente para nos assustar através de subidas repentinas no tom, mas também emprega melodias sombrias em diversos momentos para sublinhar ainda mais o suspense. Apesar disso, existem momentos em que apenas o som diegético consegue nos assustar, como no início da tensa sequência em que Sidney é atacada no banheiro da escola, evidenciando o bom trabalho de design de som.

Saias curtasIcônica máscaraSidney é atacada no banheiroIntrigante até o ultimo instante, “Pânico” ainda nos presenteia com um terceiro ato simplesmente hipnótico, onde, com a ajuda de uma câmera deixada por Weathers num móvel, podemos acompanhar as ações de diversas maneiras diferentes enquanto a garotada, numa casa distante e numa noite sombria, se reúne para assistir filmes de terror. O cenário está montado para o massacre final. Assim, enquanto Randy repassa as três principais regras para sobreviver num filme de terror, acompanhamos Sidney perder a virgindade com Billy e, de acordo com a lógica do cinéfilo, se tornar uma vítima potencial do assassino. Os ataques começam e, como em todo o filme, nos vemos em meio a uma mistura de sensações, com medo do assassino e nos divertindo com as piadas que permeiam a noite (como quando Randy grita “atrás de você” para a televisão com o assassino em pé atrás dele). Em meio a um mar de reviravoltas e surpresas, somos apresentados “aos assassinos”, conhecemos suas motivações e, finalmente, chagamos a conclusão perfeita da narrativa com todos os buracos preenchidos com coerência.

Randy repassa as três principais regrasAtrás de vocêAssassinosDivertido e tenso na medida certa, “Pânico” representou um sopro de vida num gênero fadado ao esquecimento após décadas de sucesso e, o que é mais legal, permitiu a toda uma nova geração (na qual eu me incluo) ter o gostinho de comprar pipoca e se esconder no escuro do cinema enquanto somos aterrorizados por um bom slasher movie.

Pânico foto 2Texto publicado em 10 de Dezembro de 2012 por Roberto Siqueira

E.T. – O EXTRATERRESTRE (1982)

(E.T., The Extraterrestrial)

 

Videoteca do Beto #26

Dirigido por Steven Spielberg.

Elenco: Henry Thomas, Robert MacNaughton, Drew Barrymore, Dee Wallace-Stone, Peter Coyote, K.C. Martel, Sean Frye, C. Thomas Howell, Frank Toth, Pat Welch e Debrah Winger (E.T. – voz).

Roteiro: Melissa Mathison.

Produção: Kathleen Kennedy e Steven Spielberg.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

“ET, o extraterrestre é um filme mágico”. Esta é a melhor definição que consigo encontrar para descrever este clássico maravilhoso. A obra que marcou uma geração e comprovou o enorme talento de Spielberg de uma vez por todas é uma espetacular mistura de suspense, humor, drama e ficção que capta com competência toda a magia que o cinema pode proporcionar, deixando suas belíssimas imagens registradas na mente de cada espectador para sempre.

Um ser de outro planeta se perde na Terra e é protegido por um garoto de dez anos, filho de pais separados, que fará de tudo para evitar que ele seja transformado em cobaia. Enquanto tentam fazer contato para que o extraterrestre volte ao seu planeta, uma forte amizade surge entre os dois.

A figura encantadora do extraterrestre simboliza o amigo imaginário, tão comum na infância, ainda mais em crianças solitárias e carentes. Elliot (Henry Thomas) é uma delas. A separação recente de seus pais é motivo de forte (e óbvio) sofrimento para o garoto e seus outros dois irmãos, Michael (Robert MacNaughton) e Gertie (Drew Barrymore, ainda uma pequena garota). O competente roteiro de Melissa Mathison (que criou ainda a frase “ET, phone, home” que marcou o cinema para sempre) aborda este tema de forma muito sensível, como podemos observar na primeira discussão da família na mesa após o primeiro encontro entre o garoto e o ET (“Papai ia acreditar em mim”). A forte frase do menino provoca o choro de sua mãe (Mary, interpretada por Dee Wallace-Stone) e escancara logo no inicio do filme o problema que aquela família enfrenta. “Ele odeia o México” diz Mary em prantos, mostrando a falta que sente do marido separado (e pai ausente). Em outro momento do longa, Michael e Elliot encontram a camisa do pai e lembram de quando iam aos jogos e ao cinema com ele, reforçando o quanto aquele pai faz falta pra eles.

Sabendo da identificação que aquela situação causaria na maioria das crianças e jovens da época (os anos oitenta viveram um boom de separações de casais, inédito até então), Spielberg mantém a câmera na maior parte do tempo no campo de visão das crianças (a um metro do chão, na altura da cintura dos adultos), o que facilita ainda mais a empatia do público infantil com o filme. Observe, por exemplo, como nunca vemos o rosto dos vários homens que andam pela floresta com lanternas, assim como o das pessoas que rondam a casa de Elliot. Mas o talento de Spielberg não pára por aí. O diretor abusa de lindos planos, como na cena em que Elliot e ET fazem o primeiro contato, com a casa do lado esquerdo e o quarto do lado direito do plano sendo cobertos por uma névoa. Podemos citar também o travelling inicial, descendo das estrelas até chegar à nave espacial, mudando lentamente o tom do céu de preto pra azul, além do plano da cidade toda iluminada do alto do monte onde a nave está aterrissada. Spielberg aproveita ainda para ilustrar o valor da verdadeira amizade, mesmo que esta seja entre um humano e um não humano (neste caso um extraterrestre, que poderia também ser um animal de estimação ou um amigo imaginário). O próprio formato do ET colabora e muito para a identificação com o público. Os olhos grandes e azuis e o coração luminoso transmitem sentimentos e o aproximam demais do espectador. Além disso, quando ET imita os gestos de Elliot, os dois estão criando uma conexão que tornará a amizade ainda mais forte, num momento que lembra a cena de “Tubarão” em que pai e filho fazem a mesma coisa. Elliot e ET sentem sono, fome, se assustam, ficam embriagados e adoecem juntos, o que dá sentido à engraçada cena em que ET vê um beijo na televisão e Elliot beija sua colega na escola. O filme conta ainda com uma flor, que é um inteligente artifício utilizado para sinalizar o estado de saúde (e talvez emocional) do extraterrestre. Com tudo isto, é impossível não se identificar com a amizade entre ele e as crianças (Elliot em especial).

Finalmente, Spielberg se aproveitou também do extraordinário desempenho dos atores mirins para alcançar sucesso absoluto, dando liberdade total para que eles desempenhassem seus papéis da forma mais livre possível, resultando em atuações maravilhosas e muito realistas. Henry Thomas está muito bem como Elliot, o melhor amigo de ET. Repare sua ótima atuação quando está na cama fingindo ter febre para ficar em casa com o amigo extraterrestre. No momento em que sua mãe pega o edredom, ele pensa que o ET está ali e mostra sua aflição de forma muito convincente. Quando ela sai do quarto bagunçado pela chegada do extraterrestre, ele ergue as mãos e resmunga, demonstrando seu alívio pela saída da mãe e, ao mesmo tempo, sua irritação pela demora dela pra sair de lá. Drew Barrymore está encantadora como a pequena Gertie. Suas falas são sinceras e inocentes, como é de se esperar vindo de uma criança tão jovem. Quando o ET fala pela primeira vez, Gertie quer mostrar para sua mãe, mas ela ignora a filha e sequer nota a presença dele na cozinha. Robert MacNaughton completa o elenco mirim com competência, interpretando Michael. Entre os adultos, destaque para Dee Wallace-Stone, vivendo a sofrida mãe das crianças e para Peter Coyote, como Keys, o adulto que compreende o drama de Elliot. Todos os demais parecem não compreender a importância daquele ser fascinante na vida daquelas crianças (observe o olhar encantado dos três irmãos para o ET no quarto, em um belo plano de Spielberg). Pelo menos esta é a visão de Elliot, que acredita seriamente que “eles vão matá-lo”, aumentando a empatia com o público infantil ao mostrar a incapacidade dos adultos em compreender o universo da infância, mesmo que todos já tenham pertencido a ele um dia. A tensa seqüência em que os homens invadem a casa de Elliot para capturar ET também reflete esta intolerância.

O trabalho técnico do filme é igualmente espetacular. A começar pela excelente direção de fotografia de Allen Daviau, que destaca a cor azul em diversos momentos do longa, numa alusão ao espaço sideral, a casa do ET. Os efeitos visuais (mérito da Industrial Light & Magic) são sensacionais. Destacam-se os objetos voando em direção ao ET, as bolinhas representando os planetas girando em torno do sol e as duas cenas das bicicletas voadoras. O ritmo perfeito do longa, que equilibra suspense, humor, drama e ficção, é mérito também da excelente montagem de Carol Littleton. Os efeitos sonoros dão vida a cada movimento de ET (repare sua respiração), num trabalho absolutamente perfeito. E claro, o maior destaque vai para a sensacional trilha sonora de John Williams. Linda, encantadora, mágica e inesquecível (às vezes não existem adjetivos suficientes), conta com uma música tema poderosa e ainda pontua toda a trama com variações dela, além de utilizar outras composições magníficas.

Como não poderia deixar de ser em um filme desta qualidade, ET conta ainda com cenas absolutamente inesquecíveis. De que outra forma poderíamos descrever a belíssima seqüência em que Elliot e ET voam pela primeira vez de bicicleta, passando em frente à lua? É um casamento perfeito entre direção, efeitos visuais e trilha sonora, criando uma cena mágica. A cena da “morte” do ET e sua volta à vida é linda e extremamente tocante. Já a ação fica por conta da fuga de Michael, Elliot e ET no furgão e, posteriormente, a fuga de bicicleta com todos seus amigos. E finalmente, a segunda seqüência em que as bicicletas voam nos brinda com outro momento mágico e inesquecível. Quando vemos o close nos olhos de ET, já sabemos o que vai acontecer devido à primeira cena e a satisfação no espectador é inevitável.

É difícil conter as lágrimas com o comovente final de “E.T., O Extraterrestre”. A amizade do garoto com o extraterrestre é sincera, pura e absolutamente marcante. Este é um filme que embalou os sonhos de uma geração, e é interessante notar que não envelheceu, se tornando ainda melhor com o passar do tempo. Spielberg contou com um elenco infantil espetacular, uma equipe talentosa e com sua enorme criatividade para criar uma obra que fala para todas as idades de uma forma singular e emocionante.

Texto publicado em 15 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira