A PONTE DO RIO KWAI (1957)

(The Bridge of the River Kwai) 

5 Estrelas 

Filmes em Geral #7

Vencedores do Oscar #1957

Videoteca do Beto #151 (Filme comprado após ter a crítica divulgada no site e transferido para a Videoteca em 08 de Janeiro de 2013)

Dirigido por David Lean.

Elenco: William Holden, Alec Guinness, Jack Hawkins, Sessue Hayakawa, James Donald, Geoffrey Horne, André Morell, Peter Williams, John Boxer, Harold Goodwin e Percy Herbert. 

Roteiro: Carl Foreman e Michael Wilson, baseado em livro de Pierre Boulle. 

Produção: Sam Spiegel. 

A Ponte do Rio Kwai foto 2

 

 

 

 

 

 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Um trilho de trem no meio de uma linda paisagem é o ponto inicial do belo filme dirigido por David Lean sobre a cegueira mental que a guerra e as ordens seguidas sem questionamentos podem causar no ser humano. Loucura (“Madness!”) é a palavra final, diante de outro belo cenário com o mesmo trilho e a destruída ponte que dá origem ao título, ilustrando bem a linha de pensamento do filme. Segundo a visão de Lean, o ser humano parece ser incapaz de conviver em sociedade sem deixar que a ganância e a obsessão pelo poder tomem conta e sejam extremamente prejudiciais para todos. E eu concordo com ele.

Durante a Segunda Guerra Mundial, um grupo de soldados britânicos se torna prisioneiro em um campo de concentração japonês. Após uma guerra de egos entre o Coronel Saito (Sessue Hayakawa) e o Coronel Nicholson (Alec Guinness), o segundo é o encarregado de comandar a construção de uma ponte em prazo recorde. Por outro lado, o fugitivo Major Shears (William Holden) lidera a chegada ao local de um grupo comandado pelo Major Warden (Jack Hawkins) que foi escolhido pelo exército britânico para explodir a ponte.

Dirigido com elegância por David Lean, “A Ponte do Rio Kwai” mostra como o ser humano pode, de diversas formas, deixar a própria existência humana em segundo plano em prol de seguir ordens e regras ditadas por alguém que, invariavelmente, pouco se importa com o que se perde para atingir este determinado objetivo. Afinal de contas, qual a diferença entre o rígido e inflexível Coronel Saito e o tranqüilo Coronel Nicholson? Embora tenham estilos completamente diferentes, ambos seguem cegamente as ordens que lhes são dadas, sem questionar ética ou moralmente o que está sendo feito. Desta forma, quando o esperto Major Shears diz que a coragem de Nicholson é do “tipo de coragem que mata”, ele não deixa de ter razão, pois Nicholson seria mesmo capaz de morrer em benefício do cumprimento dos objetivos. Por outro lado, Shears é o típico covarde (ou malandro) que consegue de alguma forma sobreviver naquele inferno.

A primeira aparição do Coronel Saito é intimidadora, muito por causa da excelente atuação de Sessue Hayakawa, mas fruto também da competente direção de David Lean, que busca filmar o coronel sempre de baixo pra cima (ele inclusive sobe em um banco), de forma que ele sempre olhe para os britânicos com um ar superior. Além disso, Lean acerta em cheio na escolha dos belíssimos planos que exploram ao máximo a beleza natural da região, como na caminhada do Major Shears e seu grupo até a ponte, passando por lindas cachoeiras. O diretor também é sutil em diversos momentos, como no interessante plano que inicia a seqüência nas cachoeiras, mostrando os morcegos que serão justamente os integrantes do plano final da mesma cena, quando o tiro for disparado e as granadas explodirem. Plasticamente maravilhoso, o trabalho de Lean se torna ainda melhor porque trabalha em benefício do filme, evitando que as maravilhosas imagens que vemos na tela soem sem conteúdo.

A primeira metade do filme oferece a oportunidade para Sessue Hayakawa demonstrar todo seu talento como o rígido coronel Saito. Sempre com o olhar firme, a voz alta e um sotaque perfeito quando fala inglês, Saito encontra no corajoso Nicholson a possibilidade de demonstrar o seu poder, mas acaba sendo derrotado. Observe como ele tenta agradar o coronel britânico no jantar, cinicamente oferecendo carne inglesa, whiskey, charuto e até mesmo dizendo que Nicholson obviamente não precisaria trabalhar. Sua reação no momento em que cede ao desejo de Nicholson é extremamente realista, chorando e engolindo sua raiva, sozinho em seus aposentos. Esta cena oferece também ao ótimo Alec Guinness a oportunidade de demonstrar o seu talento, já evidenciado em cenas anteriores, como quando está no “forno” e seu amigo vem lhe trazer água e comida. Ele fala com a voz rouca e baixa, como faria alguém que estivesse tanto tempo sem beber nada e, portanto, com a garganta seca. Além disso, ele abre o olho com enorme dificuldade, já que a luz que entra incomoda quem estava trancado no escuro. Quando vai até a sala de Saito, ele caminha com enorme dificuldade e ao entrar, mal consegue se sustentar, balançando as pernas, pois está muito fraco. Já na citada cena do jantar, no momento em que Saito demonstra fraqueza, Nicholson cresce e assume o comando do diálogo, mandando o líder japonês sentar e ouvir sua estratégia para construir a ponte (Hayakawa bate os dedos na perna enquanto escuta, demonstrando sua ansiedade). O evidente choque de estilos entre os dois domina a primeira metade do filme e mostra como a pressão e a rigidez não são garantias de bons resultados. Nicholson é um líder nato, utilizando o que cada pessoa tem de melhor, sem a necessidade de gritar ou ameaçar seus comandados para alcançar seus objetivos. Por outro lado, quando assume o comando da construção da ponte, ele mostra a importância de respeitar a hierarquia, utilizando aqueles que têm talento para liderar em suas devidas funções. Adquirir o respeito dos seus comandados é fundamental para o sucesso. Observe a clara mudança de comportamento na construção da ponte. No início, mal organizados e mal liderados, podemos testemunhar um verdadeiro caos, também porque os britânicos queriam ser liderados por Nicholson e sabotam os japoneses. Com os britânicos no comando, a ordem volta e o resultado é alcançado com sucesso. Fechando o elenco principal, temos William Holden como o esperto Major Shears, que logo em sua primeira cena mostra que ele faz qualquer coisa para sobreviver ali, sem se importar com ética ou regras, tentando subornar o guarda para conseguir ficar sem trabalhar. Seu melhor momento acontece quando ele diz que Warden deixaria a própria mãe para trás para seguir suas regras e objetivos, rangendo os dentes, olhando firme e alterando o tom de voz. “Você e aquele Nicholson querem morrer como heróis, com coragem e seguindo regras, quando na verdade o que importa é viver como um ser humano”. Esta é a mensagem do filme, resumida neste trecho do bom roteiro de Carl Foreman e Michael Wilson (baseado em livro de Pierre Boulle). A estupidez da guerra e de seguir ordens sem questionar ou pensar no que está fazendo pode trazer grandes prejuízos para a humanidade.

O trabalho técnico em um filme que explora muito bem as belezas naturais do local também merece destaque. A fotografia pálida e seca de Jack Hildyard, que prioriza cores quentes como o marrom e o amarelo, demonstra a tristeza daqueles soldados dominados, que são tratados como escravos no inicio do filme. Observe a mudança na fotografia quando Shears está descansando no hospital. O azul do mar, a grama verde e a predominância da cor branca (até mesmo nos figurinos, por ser um hospital), refletem também a paz de espírito dele naquele lugar. A primeira aparição dos soldados ingleses, assoviando a famosa e bela canção principal do filme (mérito de Malcolm Arnold), é uma cena extremamente marcante. Mal vestidos, com roupas velhas e sujas (em certo momento Lean dá um close em um sapato rasgado de um soldado), eles demonstram sua união ao chegar assoviando a canção e se recusando seguir ordens dos japoneses, aceitando somente as ordens de Nicholson. A trilha sonora alta e empolgante ilustra bem a alegria deles quando Nicholson é solto.

Apesar de conter um pouco de ufanismo, com a mensagem clara de que os ingleses são bons e organizados e os japoneses não são, a construção da ponte mostra que com organização e liderança é mais fácil alcançar os objetivos do grupo. Mas a discussão proposta por “A Ponte do Rio Kwai” não é esta. Não se trata de uma disputa entre os melhores métodos de liderança, mesmo que o filme trabalhe bem este lado, e sim de uma reflexão sobre até que ponto devemos seguir regras sem pensar no que estamos fazendo. No exército, assim como em muitas organizações hoje em dia, a pessoa está em segundo plano e os valores morais e éticos também, como fica evidente no caso de Shears, que não queria voltar para o local e foi obrigado a participar, mesmo que sua importância na “missão” tenha sido drasticamente reduzida ao longo do caminho. A tensa cena em que os explosivos são colocados na ponte cria também um conflito de sentimentos no espectador. Na medida em que o momento da explosão se aproxima, não sabemos se queremos ou não que a ponte venha abaixo. Momentos antes do grande clímax perfeitamente construído por David Lean, testemunhamos o orgulhoso Nicholson, ao lado de Saito, observar o belíssimo trabalho que foi feito (e a ponte é mesmo bela!) e refletir sobre sua vida. Mesmo sem ter vivido com a família, ele entende que foi bom tudo o que conquistou na carreira militar. Some a este pensamento o desespero de Saito ao pensar no que aconteceria se ele não conseguisse terminar a ponte no prazo e a frase desumana (“Não espere o trem, faça agora!”) dita por Warden quando os soldados começam a passar pela ponte (assoviando a música e provocando um leve sorriso de Shears), sem se importar com as vidas que seriam tiradas se a ponte explodisse naquele momento. A conclusão é a mesma: para este tipo de gente as pessoas não importam, importa o objetivo.

Talvez o único presente com a cabeça realmente no lugar, o médico diz que não concorda com o que foi feito e prefere ver de longe, chegando à conclusão de que ele não entendia mesmo nada sobre o exército. E de onde estava, pôde observar de camarote o coronel Nicholson perceber algo errado com a ponte (Lean aproxima a câmera lentamente do rosto dele) momentos antes do trem chegar ao local. Ao seguir o fio, acompanhado de Saito, ele gera um verdadeiro conflito generalizado que causa a morte de Saito, Shears e a sua própria morte. A ironia é que Shears encontrou seu fim justamente no único momento em que decidiu ser corajoso. E a visão de Shears morrendo à beira do rio fez Nicholson refletir sobre os seus atos também, segundos antes de cair morto e acionar a explosão da ponte. O resultado final de toda esta obediência cega às ordens que foram dadas é trágico. Todos mortos e a ponte destruída.

Discutindo com inteligência até que ponto é válido seguir ordens sem reflexão, além de tratar de questões interessantes como os diferentes estilos de liderança e o sentido da guerra, “A Ponte do Rio Kwai” nos brinda com imagens belíssimas e consegue alcançar o seu objetivo com louvor, demonstrando claramente que infelizmente, quando nós seres humanos deixamos a ganância e a ambição tomar o controle de nossas vidas, as relações humanas e a própria humanidade ficam em segundo plano.

A Ponte do Rio Kwai 

 

 

 

 

 

 

Texto publicado em 23 de Setembro de 2009 por Roberto Siqueira 

A influência da Rede Globo nos resultados do Brasileirão 2009

Um campeonato de futebol disputado no sistema de pontos corridos é decidido jogo a jogo, em pequenos detalhes diluídos ao longo de toda a competição, e aí é que está a graça deste tipo de campeonato em minha opinião. Gosto muito dos pontos corridos e acho que é mesmo o melhor sistema de disputa. O que quero discutir aqui é até que ponto os donos dos direitos de transmissão têm também o direito de interferir diretamente no campeonato, somente pelo fato de pagar pela transmissão dos jogos. Digo isto porque todos nós sabemos que a Rede Globo de televisão, dona dos direitos de transmissão dos jogos do campeonato brasileiro, se viu “obrigada” a mudar a data de alguns jogos para completar a sua grade nas quartas-feiras (pelo menos em São Paulo), já que nenhum time paulista está disputando a Copa Sul-Americana deste ano. Não quero nem entrar na questão ética que o poder da emissora fere. Prefiro falar da questão esportiva. Imaginemos as seguintes situações:

1 – O time A enfrentaria o time B no próximo domingo em jogo decisivo pela disputa do título. Acontece que na rodada passada, o melhor jogador deste time sofreu uma contusão leve, que o deixaria de fora da partida. Com o adiamento do jogo para a quarta-feira seguinte, este jogador terá condições de jogo. Ao chegar o dia do jogo, ele decide a partida. Imagine agora que este cara é o Rogério Ceni, o D’Alessandro, o Diego Souza ou o Ronaldo. Faz diferença?

2 – Vamos pensar o caminho inverso agora. O adiamento do jogo faz com que os times A e B tenham que jogar uma partida quarta-feira e quatro dias depois, jogar novamente na rodada do domingo. Neste jogo de quarta, o jogador citado acima sofre uma contusão leve e levaria 4 ou 5 dias para se recuperar. Se o jogo tivesse acontecido no domingo, ele poderia jogar na próxima rodada, mas como o jogo foi na quarta, ele não terá tempo de recuperação. Faz diferença?

3 – Talvez a situação mais comum. O time A teve seu jogo alterado de domingo para quarta, quando enfrenta o time B. O time C joga no domingo e tem a semana inteira para se preparar pro jogo decisivo, no outro domingo, contra o time A. Cansado, o time A terá uma dificuldade maior que o time C neste confronto. Você acha que esta alteração influenciou o resultado da partida?

Corinthians e Palmeiras sofreram recentemente com estas alterações. O time de Parque São Jorge chegou a ficar 2 semanas inteiras sem jogar, o que é um absurdo, quebra o ritmo do time. O Palmeiras teve um jogo alterado contra o Atlético Mineiro. Jogou na quarta contra o Galo e no sábado (sim, no sábado, não domingo) contra o Botafogo. Empatou, e este empate custou o título do primeiro turno, e mais importante que isto, custou 2 pontos na disputa do título. E a situação se repete agora, com o Palmeiras enfrentando o Cruzeiro na quarta e o Furacão no sábado.

Agora deixo a pergunta: Você acha que as alterações de data da Rede Globo têm influência direta no resultado do campeonato?

Um abraço e vamos debater.

Campeonato Brasileiro 2009

 

 

 

 

 

 

 

Texto publicado em 22 de Setembro de 2009 por Roberto Siqueira

PACTO DE SANGUE (1944)

(Double Indemnity)

 

Filmes em Geral #74

Filmes Comentados #5 (Comentários transformados em crítica em 22 de Novembro de 2011)

Dirigido por Billy Wilder.

Elenco: Fred MacMurray, Barbara Stanwyck, Edward G. Robinson, Porter Hall, Jean Heather, Tom Powers, Byron Barr, Richard Gaines, Fortunio Bonanova, John Philliber e James Adamson.

Roteiro: Billy Wilder e Raymond Chandler, baseado em livro de James M. Cain.

Produção: Buddy G. DeSilva.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Filme essencial para entender o que é o noir, “Pacto de Sangue” destaca-se pelo envolvente roteiro e pelos fascinantes personagens que povoam o universo obscuro e predominantemente noturno criado por Billy Wilder. Surgido numa época em que o público havia perdido a “inocência” devido aos acontecimentos do período (como a guerra mundial), o filme atingia os anseios de uma platéia que esperava por filmes mais próximos da realidade, com pessoas comuns agindo de formas inesperadas.

Escrito pelo próprio Billy Wilder em conjunto com Raymond Chandler e baseado em livro de James M. Cain, “Pacto de Sangue” narra a história de Walter Neff (Fred MacMurray), um competente vendedor de seguros que é seduzido pela esposa de um cliente, a charmosa Phyllis Dietrichson (Barbara Stanwyck), e convencido a assassinar o marido dela, tomando ainda o cuidado de fazer o crime parecer um acidente, para que ela possa receber o seguro em dobro. Mas, para isto, eles terão que enganar o chefe de Neff, o astuto Barton Keyes (Edward G. Robinson).

Ao contrário da maioria dos filmes que envolvem um assassinato, “Pacto de Sangue” já inicia revelando quem é o assassino. Isto acontece porque o foco do ótimo roteiro não está no exercício de descobrir quem cometeu o crime, mas sim em revelar como e porque ele cometeu aquele assassinato e o que ele fez para não ser descoberto – “Fiz por dinheiro e por uma mulher. Fiquei sem o dinheiro e também sem a mulher.”, diz Neff. Repleto de trechos deliciosos (“Seu homenzinho lhe tirou da cama?”, pergunta Neff. “Foi o Zelador”, responde Keyes) e sempre num ritmo acelerado, o roteiro apresenta um verdadeiro festival de diálogos marcantes, como o primeiro entre Neff e Phyllis ou o inteligente diálogo expositivo durante a caminhada até o trem, no qual apesar de Phyllis afirmar já saber todo o plano, Neff insiste em repassar cada etapa, o que permite ao espectador saber com antecedência como eles completarão o crime. Repleta de reviravoltas e surpresas, a interessante trama também nos permite acompanhar como funciona a empresa de seguros, que faz de tudo para não pagar o segurado investigando caso a caso com muito cuidado, mostrando ainda o outro lado, através das pessoas que buscam se beneficiar ilicitamente do seguro.

Este cuidadoso filtro é feito por Barton Keyes, interpretado por Edward G. Robinson e que conhece tudo sobre o ramo de seguros. Solteiro, extremamente confiante e viciado em trabalho, ele é o típico workaholic, que não larga sua profissão por nada e sente enorme prazer no que faz. Robinson está perfeito no papel, com falas rápidas que demonstram o conhecimento que Keyes tem do assunto, além de sua enorme confiança e ansiedade. O espectador é apresentado aos seus rígidos métodos de trabalho logo no início, através do caso do motorista do caminhão, que serve para aumentar a tensão quando ele começa a investigar o crime de Neff.

Mas nem mesmo o capcioso Keyes poderia imaginar que entre as pessoas que tentam burlar o sistema de seguros está Walter Neff, seu melhor corretor e profundo conhecedor do negócio. Justamente por conhecer os caminhos, Neff pensa em cada detalhe antes de executar o plano. E é sob a ótica dele que acompanhamos a trama, graças à narração que expõe seu ponto de vista durante toda a história e que é fundamental para que o espectador embarque na narrativa sob a perspectiva do criminoso. Com falas rápidas e muito cinismo, Fred MacMurray tem uma boa atuação na pele de Neff, demonstrando como o corretor vai lentamente se entregando ao plano de Phyllis até finalmente resolver ajudá-la. Repare, por exemplo, como na cena em que o Sr. Dietrichson (Tom Powers) assina o seguro sem saber, ele puxa o papel para ler enquanto fala e, cuidadosamente, Neff puxa o papel de cima de volta para encobrir o que estáem baixo. Atroca de olhares entre Neff e Phyllis neste momento chega a ser assustadora.

Os olhares entre eles, aliás, chamam bastante atenção em outros momentos também, como no primeiro contato, carregado de tensão sexual e que revela a atração mútua quase que imediatamente. O sexo, aliás, também é abordado de maneira sutil por Wilder, na cena em que ela vai pela primeira vez à casa de Neff e consegue convencê-lo a ajudá-la. Repare como ela aparece deitada nos ombros dele e, após um corte para a sala de Keyes, voltamos para a casa dele com Phyllis se maquiando num canto do sofá enquanto ele fuma um cigarro no outro canto. A cena sugere o sexo, mas não mostra nada, e é justamente neste momento que ele decide ajudá-la. Representando muito bem a mulher fatal, Barbara Stanwyck exala sensualidade, mas também se sai bem nos aspectos minimalistas de sua atuação, como quando ela mexe as mãos e evita olhar nos olhos dele ao insinuar sobre o seguro contra acidentes para o marido, demonstrando um nervosismo que denuncia sua intenção de matar o Sr. Dietrichson e receber o seguro desde aquele instante.

E como estamos falando de um film noir, os personagens não podem ser caracterizados como bons ou maus, e esta ambigüidade fica evidente especialmente em Neff e Phyllis. Repare, por exemplo, como inicialmente ele se irrita com a proposta dela (ela nunca fala diretamente, só sugere) e só depois, com a paixão crescente, é que aceita cometer o assassinato. Já Phyllis hesita na hora de cometer o crime perfeito ao descobrir que está apaixonada por Neff, mesmo com ele não acreditando nela. E o próprio Neff hesita na hora de se livrar e incriminar Zachetti (Byron Barr), deixando claro que ele não é uma pessoa ruim, apenas cometeu um erro grave, algo que fica evidente logo após a execução do crime, quando surge nervoso, trêmulo e sem saber como agir (“Coloco óculos ou não?”, se questiona). Por não ser um frio assassino, Neff evita até mesmo o contato com as pessoas, como quando não se posiciona de frente para o Sr. Jackson (Porter Hall) na sala de Keyes – em outro bom momento de MacMurray.

No aspecto visual, “Pacto de Sangue” segue a cartilha imaginaria do noir, com a fotografia obscura de John F. Seitz carregando no contraste entre o preto e o branco, sempre com claro predomínio dos pontos negros na tela, como acontece na cena do assassinato, desde a saída da casa dos Dietrichson até quando Neff e Phyllis saem de carro. Além disso, a trilha sonora de Miklós Rózsa também apresenta um tom obscuro que casa muito bem com a atmosfera do filme – e o beijo entre Neff e Phyllis dentro do carro depois da cena do crime é um exemplo da típica cena do filme noir, com o rosto dos dois encobertos pela sombra e a maior parte da tela em total escuridão.

Conduzindo todo este competente trabalho com firmeza, Wilder ainda cria planos magníficos, como na cenaem que Phyllise Keyes visitam Neff, onde podemos vê-la escondida atrás da porta, com Neff no meio do plano e Keyes em profundidade, conversando com o amigo sem ver a moça escondida. Quando ele se aproxima, a tensão aumenta e a trilha acompanha o momento com precisão. Wilder também insere elementos ao longo da narrativa que deixam a trama ainda mais interessante, como os encontros de Neff com Lola (Jean Heather), o ciúme de Phyllis e o caso dela com Zachetti. Auxiliado ainda pela montagem de Doane Harrison, Wilder conduz com perfeição a cena chave da trama, que é a simulação da morte do Sr. Dietrichson, onde a presença de um homem no fundo do trem só amplia a tensão, também reforçada pela trilha sonora. O clímax sombrio (com a mudança repentina de comportamento de Phyllis) e o encontro entre Keyes e Neff no escritório fecham o longa com perfeição.

“O cara que você procurava estava muito perto Keyes, do outro lado da sua mesa”, diz Neff. “Mais perto que isso Walter”, responde Keyes. “Também te amo Keyes”, conclui Neff. Este diálogo final mostra o quanto eles eram amigos, mas ainda assim Keyes cumpriu o seu dever e entregou Neff para a polícia. A amizade dos dois impediu que Keyes enxergasse a verdade. Com uma narrativa envolvente, personagens fascinantes e uma atmosfera única, “Pacto de Sangue” é um dos legítimos representantes do film noir que mereceram o seu lugar na galeria dos grandes filmes da sétima arte.

PS: Comentários divulgados em 21 de Setembro de 2009 e transformados em crítica em 22 de Novembro de 2011.

Texto atualizado em 22 de Novembro de 2011 por Roberto Siqueira

Oscar de todos os tempos: MELHOR DIRETOR

Depois da categoria Melhor Filme, vamos eleger agora o Melhor Diretor. Os critérios para a seleção dependem de cada um. Podemos escolher os cinco maiores diretores e indicar cada um deles por aquele que consideramos o seu melhor trabalho, ou então escolher os cinco melhores trabalhos de direção ao longo dos anos, mesmo que aquele determinado diretor não seja um dos cinco maiores em sua opinião. Ou seja, o diretor A fez um trabalho magnífico no filme X, só que no resto de sua carreira ele jamais sequer chegou perto de repetir o feito. Já o diretor B sempre fez grandes filmes, e mesmo que nenhum destes filmes supere o filme X do diretor A, você prefere votar nele e escolhe o melhor trabalho dele. Finalmente, se você quiser misturar os dois critérios, ou então utilizar outro critério de sua escolha, fique à vontade. A escolha é sua, o voto é seu.

Sendo assim, a pergunta de hoje é: Se você fosse convidado pela Academia para votar na escolha dos cinco indicados ao prêmio de melhor diretor de todos os tempos, quais seriam seus escolhidos?

Meu voto seria:

– Francis Ford Coppola, por O Poderoso Chefão.

– Stanley Kubrick, por 2001 – Uma Odisséia no Espaço.

– Sérgio Leone, por Era uma vez no Oeste.

– Oliver Stone, por JFK – A Pergunta que não quer calar.

– Steven Spielberg, por A Lista de Schindler.

Um abraço e bom debate.

Oscar Melhor Diretor 

Texto publicado em 20 de Setembro de 2009 por Roberto Siqueira

IRREVERSÍVEL (2002)

(Irreversible) 

5 Estrelas 

Filmes em Geral #6

Dirigido por Gaspar Noé.

Elenco: Monica Bellucci, Vincent Cassel, Albert Dupontel, Philippe Nahon, Jo Prestia, Stéphane Drouot, Mourad Khima, Jean-Luis Costes e Gaspar Noé.

Roteiro: Gaspar Noé.

Produção: Christophe Rossignon.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Poucas vezes me senti tão angustiado e incomodado por um período tão longo de tempo durante um filme como nesta impressionante obra dirigida pelo argentino Gaspar Noé. Durante 54 minutos somos bombardeados com uma dose cavalar de agonia e pura tensão, causando quase uma sensação de taquicardia. Poucas vezes também me senti tão impotente e incapaz, já que no decorrer da estória, meu coração ia se acalmando pelo ritmo cada vez menos angustiante da narrativa, mas sempre com o pensamento cruel de que o destino daquelas pessoas era irreversível.

Alex (Monica Bellucci) é a atual namorada de Marcus (Vincent Cassel) e ex-namorada de Pierre (Albert Dupontel). Os três convivem numa boa, apesar de esporádicas demonstrações de ciúme – como numa conversa dentro do metrô – até que um crime brutal altera o destino de todos eles para sempre.

Surpreendente desde o início, Irreversível apresenta os créditos da produção antes mesmo da primeira cena e, posteriormente, narra de forma invertida (do final pra o início) como uma pessoa normal pode se transformar no mais cruel assassino quando impulsionado pela paixão e pelo desejo de vingança. Ao percorrer este caminho, o espectador será surpreendido com duas cenas violentas, chocantes e incrivelmente realistas e terminará com a estranha sensação de alívio pelo que vê, misturada com uma angústia pelo que ele sabe que irá acontecer na vida daquelas pessoas.

Os primeiros minutos de Irreversível são muito difíceis de suportar, em grande parte por mérito de Noé, que utiliza uma câmera inquieta, que se movimenta aleatoriamente, fazendo até mesmo círculos e chegando a ficar de ponta-cabeça, além de diversas vezes utilizar um close em lâmpadas acesas que contrasta fortemente com o escuro ambiente. Auxiliado pelo ótimo trabalho de som, que simula o barulho de uma sirene aumentando e diminuindo o volume, e pela fotografia avermelhada, o espectador tem uma crescente sensação de náuseas que faz a cena parecer um pesadelo. Contribui também o ambiente extremamente pesado e incomodo dentro de uma boate gay, com cenas explícitas e uma linguagem extremamente ofensiva. Esta inquietação reflete também o estado mental de Marcus, que está completamente atordoado, fora de si. O diretor também demonstra sua capacidade ao controlar esta angústia que o espectador sente, diminuindo esta sensação na medida em que o filme vai passando (e a estória vai voltando). Noé é responsável também, ao lado de Benoît Debie, pelo excelente trabalho de direção de fotografia que é extremamente importante durante todo o filme, refletindo o estado psicológico dos personagens. Após o início obscuro e avermelhado, a fotografia passa a ser grossa e granulada na cena do ataque dentro da boate, o que ilustra bem o ambiente sujo e o momento obscuro que Marcus e Pierre estão vivendo. Já quando eles são perseguidos por travestis, a câmera de mão (handycam) cria o ar documental necessário à cena, o que a torna muito mais realista e tensa. Na casa de Alex e Marcus a fotografia é mais limpa, destacando a cor branca, e a câmera já se movimenta lentamente, o que nos dá uma sensação de paz. A trilha sonora também é extremamente diferente ao longo do filme, mudando de uma trilha pesada e alta no inicio (e até mesmo na festa heterossexual) para uma música romântica e lenta no lar do casal. Gradualmente o filme vai retirando aquele clima tenso e o trabalho em conjunto de direção, montagem e direção de fotografia é diretamente responsável por isto. Finalmente, Noé é inteligente até em pequenos detalhes, como nos interessantes movimentos de câmera em que ele circula objetos (sirene e a mangueira no jardim) no sentido anti-horário, o que é coerente com a narrativa que volta no tempo. A excelente montagem (também responsabilidade de Noé) acerta ao separar a narrativa em grandes blocos, o que evita confundir demais o espectador, já preocupado em remontar a história em sua cabeça. Completando o excelente trabalho técnico, podemos destacar o extraordinário resultado alcançado pelos efeitos visuais, como na cena do ataque com o extintor que cria o rosto do ator sendo massacrado com perfeição.

O excelente roteiro, escrito pelo próprio Noé, tem trechos sutis que refletem no restante da narrativa, como a cena em que Alex diz para Pierre que para ela o importante é saber que está dando prazer para o homem numa relação sexual. Obviamente as palavras dela devem ser corretamente interpretadas, já que na cena mais violenta do filme ela claramente só tem dor (física e psicológica). Em outro momento, Alex conta sobre o livro que está lendo, dizendo que o futuro já está definido e não temos o que fazer a respeito, numa clara alusão à própria estória contada pelo filme. O livro também diz que os sonhos revelam parte deste futuro, o que tem relação com o sonho de Alex sobre o túnel vermelho que se divide em dois. O roteiro coeso também serve de base para as impecáveis interpretações do elenco. Vincent Cassel explora muito bem a enorme transformação de Marcus. Típico machão, ele bebe muito e paquera todas as mulheres em uma festa, mas por outro lado, quando está normal, é um cara atencioso, carinhoso e engraçado. Ele não pensa duas vezes na hora de trair Alex no banheiro desta mesma festa, e ao mesmo tempo, vai até o fim do mundo em busca de vingança quando sua mulher é violentada. Quando Marcus vê Alex ensangüentada (em um incrível trabalho de efeitos visuais), por exemplo, o som do coração e o zoom da câmera refletem a angústia dele e a realista reação de Cassel é extremamente bem captada pelo close de Noé. Observe como ele estava bebendo água e sorrindo e, ao ver Alex, sua mudança no rosto causa um enorme impacto, complementada pelo seu comovente e angustiante choro, jogado em cima dela. Um pequeno detalhe nesta cena mostra como julgamos por aparências, quando uma pessoa comenta: “uma prostituta foi estuprada”. Alex não é prostituta, só estava no lugar errado na hora errada.

Pierre, interpretado com competência por Albert Dupontel, é o oposto do descolado Marcus. Centrado e inseguro, consegue o carinho de Alex, mas talvez pela diferença de gostos entre os dois (ela adora dançar e ele não gosta, por exemplo) não conseguiu manter o seu namoro com ela, se tornando “apenas um amigo”. Observe como Dupontel é hábil ao demonstrar que ainda é apaixonado por Alex através de pequenos detalhes como o seu jeito tímido de dançar com ela na festa, como se evitasse um contato maior para evitar ceder à paixão, e a frase preocupada (“É imprudência!”) que só falamos para pessoas que temos carinho, quando ela está saindo da festa. Pierre é também o personagem que tomará a mais surpreendente atitude, mostrando que até mesmo o mais centrado dos homens pode perder a cabeça em algum momento de sua vida. A cena do extintor é com certeza uma das cenas mais violentas e angustiantes que já presenciei em um filme. Completando o elenco principal, Monica Bellucci oferece uma interpretação segura como Alex, e é o grande destaque do longa. Observe a sutileza com que ela diz para uma amiga na festa que está vivendo um momento especial em sua vida. Posteriormente saberemos que ela está grávida, mas a dica já foi dada aqui. Quando faz o teste de gravidez, ela sai do banheiro lentamente, senta, coloca a mão na boca e, levantando os olhos, dá um sorriso. Ainda com a mão na boca, Bellucci dá um suspiro, apóia os cotovelos no joelho e pensa, olhando para o nada. Lentamente ela vai mudando para um olhar mais sério e uma feição de quem está pensativa, demonstrando que está ciente da grande mudança que estaria para acontecer na sua vida. Esta detalhada composição de Bellucci mostra o misto de alegria e preocupação tão comum neste momento. Em seguida ela acaricia a barriga, num movimento típico de quem sabe que está carregando um filho. Mas é na longa e angustiante cena do estupro que Bellucci demonstra todo o seu talento. Cometendo um erro típico das pessoas que estão com raiva, Alex age sem pensar e sai sozinha da festa, recusando o pedido do embriagado Marcus de acompanhá-la. E neste caminho ela irá encontrar o cruel destino que infelizmente estava reservado pra ela. Confesso que mesmo com a absurda cena do extintor, o momento que mais me incomodou foi esta longa cena do estupro, este crime abominável que é cometido contra a mulher. Nesta cena Noé fixa a câmera no chão, como se nós fossemos testemunhas impotentes do terrível ato de violência. E a interpretação de Bellucci é simplesmente perfeita, com as mãos trêmulas, os gritos e os olhos arregalados nos transmitindo com perfeição o tamanho de sua dor e desespero.

O final de Irreversível causa um interessante contraste de sentimentos no espectador. Ao ver Alex com a mão na barriga, Noé faz um travelling que passa pelo quadro de “2001 – Uma Odisséia no espaço”, numa alusão ao filme de Kubrick, que pode ser interpretada como uma referência ao ser que está sendo criado dentro da barriga dela, assim como o bebê do quadro. A referência se repetirá no final com as imagens em preto e branco piscando na tela, o que remete a outro momento de 2001, com a diferença de que lá eram imagens psicodélicas. Ao sair pela janela, o plano termina no jardim, com Alex lendo o citado livro e muitas crianças correndo em volta dela. A fotografia é colorida (toalha laranja, grama verde) e a câmera começa a girar no sentido horário em volta da mangueira, como se fosse o relógio voltando para a realidade. Esta bela cena nos causa uma sensação de alívio, ao ver aquela moça em paz, sonhando com o futuro, num ambiente tão tranqüilo. Porém, as imagens em preto e branco e a frase final “O tempo destrói tudo” nos faz voltar para a triste realidade, lembrando que o final daquela estória era mesmo irreversível. Alex, Pierre e Marcus teriam suas vidas destruídas em ambientes semelhantes, dentro de um corredor vermelho (eles quando entram no Rectum e ela quando entra na passagem subterrânea) e nós não podemos fazer nada a respeito.

Extremamente incômodo e desagradável, Irreversível é o tipo de filme que dificilmente queremos ver novamente. Ao mesmo tempo, é um exemplo claro de que um filme pode ser competente sem necessariamente ser agradável. O impacto provocado pelas cenas realistas, a qualidade das interpretações e a ótima direção nos garantem um filme impecável, que nos obriga refletir sobre importantes questões, mesmo que utilize o choque para isto. É inevitável o sentimento de desconforto quando o filme termina, mas com o passar do tempo, percebemos que é inegável também a grande qualidade da obra.

Irreversivel 

Texto publicado em 17 de Setembro de 2009 por Roberto Siqueira

Videoteca do Beto: novas aquisições

Abaixo a foto dos 15 novos integrantes da Videoteca do Beto:

Cantando na Chuva (1952)*

Doze Homens e uma Sentença (1957)*

O Exorcista (1973)*

Taxi Driver (1976)

Mad Max (1979)

Trilogia Indiana Jones (1981, 1984 e 1989)

Trilogia De Volta para o Futuro (1985, 1989 e 1990)

A Missão (1986)

Instinto Selvagem (1992)

À Espera de um Milagre (1999)

Batman Begins (2005)

Sin City (2005)

O Gangster (2007)

Ratatouille (2007)

Zodíaco (2007)

*Os filmes que chegarem depois de sua posição na ordem cronológica das críticas “Videoteca do Beto” serão assistidos e avaliados na medida do possível e serão encaixados na seqüência da Videoteca. Por exemplo, se a Videoteca estiver no filme #11 e eu divulgar em seguida a crítica do filme “Cantando na Chuva”, este será o filme Videoteca do Beto #12.

Um abraço.

Videoteca 007 

Texto publicado em 16 de Setembro de 2009 por Roberto Siqueira

Bodas de Algodão

Neste dia, oficializamos diante de Deus e da sociedade o nosso amor eterno. Tudo que eu desejo te dizer já disse pessoalmente. Deixo aqui apenas um registro e um feliz aniversário de casamento! Você é a pessoa da minha vida. Te amo demais!

Alianças Mil beijos.

Texto publicado em 15 de Setembro de 2009 por Roberto Siqueira

ROCKY, UM LUTADOR (1976)

(Rocky)

5 Estrelas 

Filmes em Geral #5

Vencedores do Oscar #1976

Videoteca do Beto #18 (Adquirido quando a Videoteca estava no filme #17; crítica já havia sido publicada na categoria “Filmes em Geral”).

Dirigido por John G. Avildsen.

Elenco: Sylvester Stallone, Talia Shire, Burt Young, Carl Weathers, Burgess Meredith, Thayer David, Joe Spinell, Jimmy Gambina, Bill Baldwin Sr. e Jodi Letizia.

Roteiro: Sylvester Stallone.

Produção: Robert Chartoff e Irwin Winkler.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quantas pessoas gostariam de ter uma chance na vida de mostrar o seu verdadeiro potencial e jamais conseguiram, somente porque a nossa sociedade e o nosso modo de viver raramente oferecem esta oportunidade? A tocante história do lutador amador que recebe a oportunidade de sua vida ao enfrentar o campeão mundial nos abre a possibilidade de refletir sobre este tema e observar como uma pessoa comum pode se tornar um verdadeiro campeão na vida, independente de ter ou não ter fama perante a sociedade. Escrito pelo próprio Sylvester Stallone, “Rocky, um Lutador” é muito mais que um filme sobre boxe, abordando questões delicadas de forma surpreendentemente competente.

Rocky Balboa (Sylvester Stallone) é um lutador amador de boxe que trabalha, paralelamente aos treinos, como cobrador (ou uma espécie de capanga) de um agiota na cidade de Filadélfia. A grande oportunidade de sua vida aparece quando o campeão mundial dos pesos-pesados Apollo Creed (Carl Weathers) decide, como uma estratégia de marketing, oferecer uma luta contra um desconhecido e Rocky é o escolhido. O “garanhão italiano”, como é chamado, decide se dedicar ao máximo para pelo menos sair do ringue ao término da luta sem ser nocauteado pelo campeão.

O grande trunfo do carismático filme é com certeza Sylvester Stallone. Escrito pelo próprio Stallone, Rocky é resultado de um projeto pessoal do astro, na época desconhecido do grande público. O roteiro trata basicamente da luta do homem comum para superar as adversidades em uma sociedade que não abre espaço para o seu crescimento. Podemos até considerar que existe um pouco da típica história americana, ou seja, se você trabalhar muito duro será um vencedor um dia. Mas a realidade do dia-a-dia daquelas pessoas é bem diferente, como podemos observar em pequenos detalhes da produção, como a vizinhança suja e arredia de Rocky e Paulie (Burt Young). Além disso, o filme conta com a segura direção de John G. Avildsen, que consegue criar alguns momentos inesquecíveis, como o treinamento de Rocky, recheado de belíssimos planos com o lutador correndo na beira da água e o sol nascendo, correndo pelo porto com o navio ancorado ao fundo e o belo plano no palácio da justiça da Filadélfia com Rocky subindo as escadarias e erguendo os braços lá em cima, com a bela cidade ao fundo. Ele também cria planos que dizem muito somente através da composição visual, como aquele em que Rocky está treinando no frigorífico ao vivo, enquanto Apollo e sua equipe (de costas para a televisão) fazem contas e debatem sobre o dinheiro ganho, demonstrando que para Apollo a luta contra Rocky é apenas um negócio menor. Ele é um astro e está mais preocupado com seus negócios do que com a luta em si, já que Rocky não é um adversário que o preocupe.

Stallone também é a grande força dentro do elenco do filme, oferecendo aquela que talvez seja a maior atuação de sua vida. Observe como ele vai dando pistas do temperamento explosivo de Rocky ao ficar irritado e começar a bater na carne crua no frigorífico ou quando ele reage e vence a primeira luta do filme. Observe como o ator soca o ar constantemente, como um lutador de boxe provavelmente faria, além de andar sempre com os ombros em movimento, como se estivesse prestes a desferir um soco em alguém. Além disso, ao ficar socando o ar ele também demonstra a determinação de Rocky em alcançar o seu objetivo na luta contra Apollo. Stallone também fala sempre com a boca mole, refletindo a personalidade de Rocky, que é alguém com pouco recurso intelectual, como ele mesmo diz na bela cena da patinação com Adrian. Até mesmo em cenas bem humoradas ele demonstra talento (em certo momento ele aperta uma carne crua e faz Mooo!). Repare como ele dá um leve sorriso ao ouvir as piadas de Apollo na televisão, e nem mesmo quando Paulie o repreende, dizendo que Apollo está tirando uma com a cara dele, ele para de sorrir, demonstrando que mal percebe o que está acontecendo, além de mostrar sua admiração pelo campeão. Rocky é um ser puro, simples e direto, que exatamente por ser assim, tem enorme dificuldade para viver em uma sociedade hipócrita e cheia de regras de comportamento. Finalmente, duas cenas refletem bem o talento de Stallone na composição deste personagem icônico em Hollywood. Na primeira delas, Rocky tenta conversar com Adrian, mas ela fica trancada no quarto e ele tem que falar com a porta. Stallone reflete bem o embaraço de Rocky, olhando para Paulie e depois pra baixo, indo e voltando em direção à porta e falando meio sem jeito com a garota, demonstrando sua hesitação e desconforto ao ter que passar por aquilo. A outra cena é quando Rocky discute com Mickey (Burgess Meredith). Ao ver Mickey sair, ele fica gritando e olhando para a porta com o canto do olho, demonstrando a revolta de Rocky com a vida que ele teve. Ele balança o corpo e soca a porta, explodindo em raiva quando Mickey sai, já que naquele momento Rocky estava expondo toda a dor que sentia por não ter conseguido o sucesso que seu talento permitia.

Talia Shire também tem uma grande atuação formando o par perfeito com Rocky. Nos primeiros contatos que ela tem com ele, na loja de animais, ela sorri de canto de boca com as piadas do rapaz, além de olhar quase sempre pra baixo, demonstrando a enorme timidez de Adrian. Ela só olha pra Rocky quando ele não está olhando pra ela. Na linda cena do primeiro beijo, observe como ela se entrega lentamente, recusando inicialmente o contato com ele até lentamente ir cedendo à paixão. O desajeitado beijo é extremamente realista e reflete a enorme dificuldade que aquelas duas pessoas têm de se relacionar com alguém. Burgess Meredith também está bem, demonstrando sua raiva por saber que Rocky desperdiçou a chance de ser alguém na vida, como ele deixa claro na discussão dentro da academia. O fracasso de Rocky reflete o próprio fracasso de Mickey, que também é uma pessoa amarga por não ter sido alguém no boxe, como ele deixa claro na discussão com Rocky na casa dele. Observe como nesta cena ele range os dentes, grita com raiva e olha sempre com os olhos arregalados, refletindo muito bem a ira do personagem. Carl Weathers está bastante caricato como o campeão mundial Apollo Creed, mais parecendo um astro pop entrando no palco do que um lutador de boxe entrando no ringue, provocando risos inclusive na equipe de seu adversário com a imitação de George Washington na luta final. Em todo caso, não compromete o filme. Burt Young completa o elenco principal como Paulie, o amigo fiel e explosivo de Rocky.

A dura caminhada do boxeador para chegar ao sucesso é extremamente bem refletida pelo bom trabalho técnico do filme. A começar pela direção de fotografia de James Crabe, que destaca propositalmente cores como o marrom e o preto, e cria muitos ambientes escuros. O filme se passa a maior parte do tempo à noite, refletindo a vida daquelas pessoas amarguradas e à margem da hipócrita sociedade, que parece se recusar a aceitar que existem pessoas que não são felizes com suas vidas e sequer tem a chance de mudar esta situação. Quando Rocky aconselha uma garota a parar de fumar e ficar por aí na rua até tarde, ela diz que ele não é ninguém pra falar isso pra ela. A trilha sonora toca o tema principal do filme com uma melodia lenta e triste, refletindo o momento de Rocky, que é mergulhado nas sombras da rua. Ele ficou mal com as palavras da garota, e o visual da cena, reforçado pela trilha sonora, reflete este estado psicológico do personagem. A excelente direção de arte de James H. Spencer cria ruas sujas, cheias de lixo e com paredes pichadas, mostrando um submundo de pessoas que vivem uma realidade muito diferente daquela pregada pelo “american way of life”. A casa de Rocky reflete bem sua decadência como pessoa. Observe o colchão rasgado perto da parede, as coisas bagunçadas, as paredes descascadas e a janela pichada. Ele não tem dinheiro pra nada. Os figurinos de Robert Cambel e Joanne Hutchinson colaboram na criação deste ambiente, com roupas pouco coloridas e sem vida. A trilha sonora, famosa nos dias de hoje, é muito empolgante. A música tema é cheia de energia e casa muito bem com a força do personagem. Finalmente, o trabalho de montagem de Scott Conrad e Richard Halsey mantém a narrativa sempre atraente ao focar a vida pessoal de Rocky (e não as lutas de boxe), além de colaborar com perfeição em dois momentos memoráveis do filme: o treinamento e a luta final.

Canalizando toda a frustração de sua vida para dentro do ringue, o lutador amador consegue transformar aquela simples luta em um verdadeiro embate entre as pessoas comuns e aquelas que têm o poder. Ao olhar para Rocky no ringue, a maioria dos espectadores reconhece características próprias e este é o segredo da empatia do personagem com a platéia (além é claro do carisma de Stallone). Torcemos loucamente pelo seu sucesso, mesmo sabendo da enorme dificuldade que ele precisa enfrentar para alcançá-lo. O filme acerta em cheio no realismo da luta final, já que Rocky, mesmo derrubando o campeão, perde por pontos após lutar todos os rounds. Seria difícil mesmo ele vencer o campeão mundial, mas a forma como é derrotado se torna uma vitória pessoal pra ele e, conseqüentemente, para o espectador também. O seu grito por Adrian no final da luta mostra o quanto ela foi importante para que ele buscasse forças e alcançasse seu objetivo, numa das mais belas cenas do filme.

Mostrando com extremo realismo como as pessoas comuns precisam lutar constantemente neste mundo que oferece tão poucas oportunidades para alcançar seus objetivos, “Rocky, um Lutador” consegue ser direto e ao mesmo tempo tocante. Com um personagem principal extremamente carismático, simples e inocente, mas cheio de força e garra, outros personagens muito bem desenvolvidos e boas interpretações, consegue se estabelecer como um filme maduro, que ultrapassa a barreira do esporte e simboliza a luta de toda uma vida. 

Texto publicado em 13 de Setembro de 2009 por Roberto Siqueira

OSCAR 2007: OS INFILTRADOS X FILHOS DA ESPERANÇA

Seguindo minha comparação entre o vencedor do Oscar de melhor filme e aqueles que eu considerei como a melhor produção do ano, chega a vez agora do ano de 2006 (Premiação em 2007). Considero esta uma das melhores safras do cinema nos anos recentes, com grandes filmes como O Labirinto do Fauno, Babel, Pequena Miss Sunshine, Cartas de Iwo Jima, Pecados Íntimos, Vôo United 93, Perfume: A História de um Assassino e Apocalypto. Foi neste ano também que a Academia resolveu reparar um erro histórico e premiar o grande Martin Scorsese, escolhendo o bom “Os Infiltrados” como o melhor filme do ano. Acontece que mais uma vez o filme de Scorsese, apesar de ter grande qualidade, não era o melhor filme do ano. E aqui ouso entrar em uma grande polêmica. Entendo que somente em dois anos Scorsese pode ser considerado injustiçado. Em 1976 (apesar de considerar Rocky, um Lutador um belo filme, entendo que Taxi Driver foi a grande produção daquele ano) e 1980 (Touro Indomável é mesmo o melhor do ano). Já nos outros anos, entendo que a escolha da Academia foi justa. O que não aconteceu em 2007. Considero O Labirinto do Fauno, Babel e Pequena Miss Sunshine filmes melhores que Os Infiltrados. E acima de todos eles, em minha opinião, está o belíssimo “Filhos da Esperança”.

Porque “Filhos da Esperança” é melhor?

Alfonso Cuarón conseguiu criar neste filme um futuro sombrio, sujo, decadente, que é exatamente a imagem que eu mesmo tenho do futuro do nosso planeta. Entendo que estamos cada vez mais gananciosos, mais preocupados em crescer, ganhar mais, e se esquecendo de cuidar do planeta e das próprias relações humanas. Além disso, o filme de Cuarón tem uma qualidade técnica invejável, que salta aos olhos até mesmo das pessoas que não prestam muita atenção nestes detalhes. Pra finalizar, conta uma estória envolvente, utilizando a técnica a favor da narrativa e abre um leque para discussões muito interessantes. O grande filme do ano.

Gostaria de saber sua opinião. Pra você, qual o melhor filme de 2006 e por quê?

Um abraço e bom debate.

Texto publicado em 10 de Setembro de 2009 por Roberto Siqueira

Você torce pela não classificação da Argentina para a próxima Copa do Mundo?

A extraordinária vitória da seleção brasileira no último sábado em Rosário, na Argentina, carimbou o passaporte do Brasil para a próxima Copa do Mundo, que será disputada o ano que vem na África do Sul. Além do Brasil, mais sete seleções já garantiram vaga para o mundial: Austrália, Japão, Coréia do Sul, Coréia do Norte, Holanda, Gana e o país sede. Por outro lado, a derrota pode comprometer e muito a campanha da seleção portenha dirigida pelo ex-craque Diego Maradona. Amanhã nossos hermanos enfrentam a perigosa seleção paraguaia em Assunção, onde sempre é muito difícil jogar. E nas duas rodadas finais, os argentinos recebem a lanterna seleção do Peru, em jogo que devem vencer, mas depois serão obrigados a visitar o eterno rival Uruguai em Montevidéu. Portanto, é bastante viável pensar que a Argentina corre um grande risco de pelo menos ter que enfrentar a repescagem para ir a Copa. Agora faço a pergunta:

Você torce pela não classificação da Argentina para a próxima Copa do Mundo?

Pergunto isto porque eu, particularmente, sempre torci para que as grandes seleções se classifiquem para o mundial, já que considero muito mais legal assistir um jogo entre Argentina e França, por exemplo, do que assistir um jogo entre Equador e Sérvia. Por isso, apesar de gostar de ver os nossos eternos rivais sofrendo um pouco, acabo torcendo para que eles consigam a vaga no mundial.

Espero que este assunto possa gerar uma boa e saudável discussão.

Um abraço e bom debate.

Brasil e Argentina em Rosário 

Texto publicado em 08 de Setembro de 2009 por Roberto Siqueira