PERDIDOS NA NOITE (1969)

(Midnight Cowboy)

 

Filmes em Geral #25

Vencedores do Oscar #1969

Dirigido por John Schlesinger.

Elenco: Dustin Hoffman, Jon Voight, Sylvia Miles, John McGiver, Brenda Vaccaro, Barnard Hughes, Ruth White, Jennifer Salt, Gary Owes e T. Tom Marlow.

Roteiro: Waldo Salt, baseado em livro de James Leo Herlihy.

Produção: Jerome Hellman.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Primeiro filme da chamada “nova Hollywood” a vencer o Oscar de melhor filme, “Perdidos na Noite” é um bom (não o melhor) representante do movimento, que mostra de maneira realista a dificuldade de adaptação de um jovem interiorano ao clima hostil e agitado da cidade grande. Dirigido por John Schlesinger, o longa estrelado por Jon Voight traz ainda em seu elenco a grande estrela da época, o talentoso Dustin Hoffman, se afirmando como um dos filmes icônicos daquele celebrado período.

Jovem texano inocente e caipira, Joe Buck (Jon Voight) larga o emprego e parte, com seu estilo cowboy, para tentar ganhar a vida na cidade de Nova York, trabalhando como garoto de programa de mulheres mais velhas e ricas. Ao chegar ao local, faz amizade com um marginal plenamente adaptado à cidade chamado Ratso Rizzo (Dustin Hoffman) e descobre o lado nada hospitaleiro e cruel da vida nas grandes metrópoles.

Escrito por Waldo Salt, baseado em livro de James Leo Herlihy, o roteiro de “Perdidos na Noite” acerta o tom ao mostrar, sem floreios e exageros, a dificuldade de se adaptar à cidade grande, um sentimento comum à maioria das pessoas que não nasceram nestes locais. Somente quem já viveu a sensação de chegar a uma cidade grande pela primeira vez sabe como é, ao mesmo tempo, empolgante e assustador. A ousadia temática da narrativa (jovem larga o interior para ser garoto de programa em Nova York) era uma das características da chamada “nova Hollywood” e o longa de Schlesinger não foge a regra. Mas apesar do tema sombrio, existe espaço para pequenos alívios cômicos, como na cena em que Rasto finge ser engraxate (repare como a posição da câmera colabora sutilmente, mostrando a chegada dos sapatos do terceiro homem e provocando o riso no espectador). O filme aborda o tema do choque cultural já na viagem até Nova York, quando Joe tenta puxar assunto no ônibus com o motorista e com uma moça e ambos não correspondem. Até mesmo a luz do ônibus que lhe incomoda ele não pode apagar, pois a senhora sentada ao seu lado não deixa. A viagem é nostálgica, repleta de flashbacks que lembram a todo instante tudo que ele está deixando pra trás (a avó, a casa em que cresceu, a namorada), e é pontuada pela trilha sonora deliciosa de John Barry (um country, condizente com à história do cowboy que sai da cidade pequena e parte para a cidade grande). Esta trilha inicialmente alegre faz um contraponto interessante com o tom melancólico da chegada à Miami, combinando perfeitamente com o sentimento de Joe, já completamente transformado pela vida.

Na direção, Schlesinger mostra criatividade, por exemplo, na cena em que ilustra a primeira relação sexual de Joe através da velocidade na troca de canais e da imagem das moedas na televisão, revelando também o bom trabalho de montagem de Hugh A. Robertson. A montagem de Robertson, aliás, também demonstra como a infância tem peso na fase adulta de Joe, intercalando imagens dele ainda criança com imagens atuais enquanto assiste televisão, além de auxiliar na indicação da passagem do tempo com elegância, por exemplo, inserindo um plano com água congelada numa torneira que simboliza a chegada do inverno. Já quando Joe e Ratso são expulsos do hotel, Schlesinger utiliza a câmera para demonstrar a tristeza de ambos, diminuindo-os na tela e mostrando como eles estão impotentes diante daquela situação. Ainda na parte técnica, a direção de fotografia de Adam Holender progressivamente muda do tom claro e alegre do início para o obscuro e sombrio visual que domina a tela na metade da projeção, refletindo a mudança no estado de espírito de Joe – repare que até mesmo as cenas noturnas passam a dominar o longa na medida em que a narrativa avança. Além disso, a fotografia demonstra o sentimento de Joe, por exemplo, na cena em que ele sai desesperado à procura de Ratso, com imagens em preto e branco embaladas pela trilha sonora alucinada, ou em seu pesadelo, repleto de imagens surreais, ilustrando o quanto ele está atormentado naquele ambiente. Já quando os dois se imaginam na praia, as cores quentes e a forte luz do sol refletem a alegria daquele pensamento (e neste momento, vale destacar o sorriso sutil, no canto da boca, do ótimo Dustin Hoffman). Vale destacar ainda a típica festa dos anos 60 que determina o destino de Ratso e Joe, repleta de imagens surreais, alucinações e pessoas de estilos diferentes. E aqui novamente a fotografia é importante, pois no momento em que eles conversam com uma determinada mulher, o predomínio do tom vermelho indica o destino infernal da dupla. Em seguida, Ratso sofreria uma queda violenta na escada e Joe teria dificuldades numa relação sexual, o que para um “garoto de programa” pode ser considerado algo grave. Finalmente, também merece destaque a maquiagem em Hoffman, que reflete através de sua sujeira o quanto Ratso foi maltratado pela vida.

Ratso, aliás, que é a síntese da dificuldade que muitos encontram para sobreviver nas grandes cidades. Interpretado de maneira brilhante por Hoffman, o personagem literalmente rasteja por Nova York, sugando tudo que está ao seu alcance para conseguir sobreviver. Hoffman confirma o grande ator que é numa atuação convincente, compondo detalhadamente o personagem, através da voz anasalada, da fala rápida, da forma de caminhar, que progressivamente se torna mais lenta devido à evolução de sua doença, misturando a tosse que lhe castiga com o sorriso de quem já se adaptou a realidade daquela vida. Ratso, com o perdão do trocadilho, é um verdadeiro rato de cidade grande, que não tem vergonha de fazer tudo que pode para sobreviver, chegando a roubar e enganar outras pessoas. E até mesmo seu apartamento no hotel demonstra o estado em que ele sobrevive naquele mundo, mostrando-se um local sujo e escuro, que freqüentemente o esconde sob as sombras. Não por acaso, suas cenas são predominantemente obscuras e as ruas que percorre são sujas e feias, o que reflete a vida difícil que ele leva e reforça o bom trabalho de direção de arte e fotografia. Pra completar, sua atuação ainda tem a célebre frase “Estou andando aqui!”, quando Ratso atravessa uma rua e quase é atropelado, que marcou o cinema para sempre. Já Joe Buck é o típico jovem do interior. Joe chega à cidade de peito aberto, destemido, caçando mulheres como um verdadeiro predador, achando que as oportunidades aparecerão facilmente, algo ilustrado também pela câmera de Schlesinger, que filma Joe em ângulo baixo, refletindo seu sentimento de grandeza em sua chegada. Mas o tempo mostrará que a vida nas grandes cidades não é tão acolhedora assim, como ele pode perceber logo em seus primeiros minutos em Nova York, vendo um homem caído e as pessoas, arredias, seguindo seu caminho, sem sequer dar atenção ao pobre coitado. John Voight compõe o personagem de maneira durona, algo coerente com sua origem, e vive seu grande momento na bela cena em que Joe e Ratso gargalham no ônibus a caminho de Miami. Quando Joe chega ao fundo do poço, se relacionando com um homem por dinheiro (o que lhe traz a imediata lembrança da namorada que ele deixou pra trás em busca da vida na cidade grande), o ator convence ao transmitir com exatidão a aflição do personagem. E existe ainda um momento sutil, porém marcante, que demonstra quando ele começa a perceber que nem todos têm oportunidade naquela terra, quando Joe, assustado, contempla a imagem de mendigos e prostitutas vagando pelas ruas de Nova York.

“Perdidos na Noite” representa bem a nova forma de se fazer cinema que tomou conta de Hollywood no final dos anos 60, ousando tematicamente e quebrando as regras convencionais do cinema norte-americano até então. O plano final, com Ratso morto no vidro ao lado do assustado Joe, enquanto este olha para as praias de Miami, demonstra bem a mensagem principal do filme. A vida na cidade grande não é um mar de rosas.

Texto publicado em 11 de Novembro de 2010 por Roberto Siqueira

MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA (1969)

(The Wild Bunch)

 

Filmes em Geral #24

Dirigido por Sam Peckinpah.

Elenco: William Holden, Ben Johnson, Ernest Borgnine, Robert Ryan, Warren Oates, Jaime Sánchez e Emilio Fernández.

Roteiro: Walon Green e Sam Peckinpah, baseado em história de Roy N. Sickner.

Produção: Phil Feldman.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Um ano depois de Sergio Leone realizar um verdadeiro canto de despedida do western na obra-prima “Era uma Vez no Oeste”, Sam Peckinpah completou o serviço e fez a transição completa do cinema clássico para o cinema moderno e mais violento que se consolidaria em seguida (e que já havia iniciado dois anos antes com “Bonnie & Clyde”) neste interessante “Meu ódio será sua herança”, longa que apresenta pelo menos duas grandes cenas de tirar o fôlego.

Um grupo de foras-da-lei, liderado pelo inteligente Pike (William Holden), invade uma cidade em busca de ouro e, após escapar por pouco da morte, decide que está na hora de parar. Porém, após cruzarem a fronteira entre os Estados Unidos e o México, o grupo se depara com um general ditador (Emilio Fernández) que lhes oferece uma última missão: roubar um trem carregado de armas. Ao mesmo tempo, o ex-parceiro de Pike, conhecido como Thornton (Robert Ryan), é convocado para trazer sua cabeça em troca da liberdade.

Nos primeiros minutos de “Meu ódio será sua herança”, um grupo de soldados (que se revelaria um grupo de foras-da-lei) invade uma cidade e, no caminho, cruza com um grupo de crianças que brincam com um escorpião. Em dois momentos distintos, dois planos destacam este escorpião sendo atacado por formigas e incendiado. Não é por acaso. Peckinpah está, na realidade, ilustrando o que aconteceria no final do filme, pois assim como aquele escorpião, um animal até mesmo mais perigoso que a formiga, pouco poderia fazer no meio de tantas formigas, o grupo liderado por Pike jamais conseguiria escapar do grupo de mexicanos na seqüência final. Mas a seqüência final é apenas a cereja do bolo de um longa que já inicia com um tenso tiroteio, que não poupa mulheres e crianças, num verdadeiro espetáculo estilizado de violência. O diretor, auxiliado pela montagem de Louis Lombardo, alterna entre os planos com agilidade sem jamais confundir o espectador, utilizando também a câmera lenta para aumentar o impacto daquele confronto na platéia (e aqui vale observar também a qualidade do som, perceptível através dos gritos, dos cavalos e dos tiros), deixando claro deste então que não seremos poupados do sangrento resultado daqueles conflitos. Mas nem só de violência vive “Meu ódio será sua herança”. Peckinpah aproveita muito bem as belas paisagens que cruzam o caminho do grupo, criando belos planos, graças também ao auxilio da direção de fotografia de Lucien Ballard. Ballard utiliza tons opacos, sem vida, que contrastam com a beleza da região e refletem o sentimento de nostalgia daquele grupo que se despede da vida que adora. Peckinpah cria ainda momentos de extrema tensão, quebrados repentinamente por alguma situação bem humorada, como quando o grupo entra em conflito com o general por causa de uma mulher e, em seguida, a situação se resolve com um convite para beber, além de utilizar o flashback algumas vezes, buscando explicar as motivações dos personagens, como quando descobrimos que Pike e Thornton já trabalharam juntos no passado. Finalmente, o diretor conduz muito bem a seqüência do roubo do trem, onde somente o som diegético é suficiente para criar o clima de tensão. A fuga do grupo e o conseqüente tiroteio também são extremamente bem conduzidos pelo diretor, numa seqüência empolgante e bela que culmina com a plástica cena da explosão da ponte em câmera lenta.

Escrito por Walon Green e pelo próprio Peckinpah, o roteiro busca humanizar os bandidos, mostrando o lado humano de cada um e ética existente entre eles, como quando alguém diz que eles “não são como o general” ou quando eles dividem o uísque e fazem uma brincadeira com um dos integrantes do grupo – e repare como esta brincadeira indica a atitude que eles tomariam contra este mesmo integrante quando a missão fosse cumprida, o que motivaria o arrependimento do grupo e a sensacional seqüência final. “Todos sonhamos ser crianças de novo, até os piores de nós”, diz Pike em certo momento, demonstrando uma fragilidade incomum nos bandidos clássicos de Hollywood. A narrativa acompanha toda a trajetória dos foras-da-lei, intercalando momentos de extrema tensão, como os dois tiroteios que iniciam e encerram o longa, com momentos de relaxamento, especialmente no território mexicano.

Sem jamais demonstrar claramente quem são os heróis ou vilões, a narrativa segue de maneira direta, acompanhando a trajetória daquele grupo no México e, simultaneamente, os passos do grupo liderado por Thornton, que segue as pegadas de Pike. E por mais que existam momentos de relaxamento, o filme carrega uma alta dose de energia, perceptível até mesmo nas atuações. Interpretado por William Holden, Pike é um líder firme, mas que sabe também os momentos em que pode relaxar e dar boas gargalhadas com seu grupo de trabalho, como podemos notar quando eles discutem rispidamente por um monte de “arruelas” e, logo em seguida, voltam a sorrir ao falar sobre prostitutas. Além de bom líder, ele é extremamente inteligente e hábil negociador, como demonstra claramente quando negocia as armas com centenas de mexicanos e quando oferece a metralhadora como um “presente para o general”. O general, aliás, é interpretado com muita graça por Emilio Fernández, sendo responsável por momentos muito bem humorados, como quando testa a metralhadora e quase provoca uma tragédia. O bom relacionamento do grupo de Pike também se deve à boa atuação coletiva do elenco, algo que fica evidente na aparentemente leve e descontraída seqüência do banho no México, que é de vital importância para o futuro da narrativa, pois revela as intenções do grupo naquela missão encomendada pelo general. Já Robert Ryan demonstra firmeza na pele de Thornton, revelando sua admiração e respeito pelo grupo liderado por Pike (“Estamos atrás de homens”), afinal de contas, eles eram pessoas iguais, que pelos caminhos da vida acabaram ficando em lados opostos.

Como em todo bom western, os figurinos, de Gordon Dawson, e a direção de arte, de Edward Carrere, ambientam perfeitamente o espectador ao velho oeste, com os chapéus, sobretudos, roupas do exército e os vestidos das mulheres, além da estrutura da cidade, com o saloon, o hotel e toda aquela arquitetura típica dos westerns. Também se destaca a trilha sonora de Sonny Burke, que oscila entre o triunfal e o melancólico, refletindo os sentimentos daquele grupo que sabe estar realizando o seu último trabalho. E fechando a parte técnica, o som também oscila com perfeição, por exemplo, quando o grupo de religiosos se aproxima antes do primeiro tiroteio, diminuindo sensivelmente o volume quando a ação se passa dentro do saloon. Mas é no espetacular tiroteio final que todo o grande trabalho de Peckinpah e sua equipe chegam ao ápice. Com muito realismo e estilizando a violência através de closes, câmera lenta e rios de sangue que jorram das vítimas, o diretor consegue realizar uma cena emblemática, extremamente gráfica, que provoca forte impacto no espectador e serviu de inspiração para muitos filmes posteriores.

Com uma narrativa direta e sem apresentar heróis e vilões claramente definidos, “Meu ódio será sua herança” causou muita polêmica na época de seu lançamento por causa da estilização da violência. Mas o longa dirigido por Peckinpah estava “apenas” antecipando a forma de fazer cinema que viraria regra logo em seguida, ao mesmo tempo em que, assim como os seus personagens, se despedia do estilo clássico que caracterizou o mais americano dos gêneros cinematográficos.

Texto publicado em 10 de Novembro de 2010 por Roberto Siqueira

BONNIE & CLYDE – UMA RAJADA DE BALAS (1967)

(Bonnie and Clyde)

 

Filmes em Geral #22

Dirigido por Arthur Penn.

Elenco: Warren Beatty, Faye Dunaway, Michael J. Pollard, Gene Hackman, Estelle Parsons, Denver Pyle, Dub Taylor, Evans Evans, Gene Wilder, Harry Appling e Mabel Cavitt.

Roteiro: Robert Benton e David Newman.

Produção: Warren Beatty.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Considerado o marco inicial da melhor fase de Hollywood (a chamada “Nova Hollywood”), “Bonnie & Clyde, uma rajada de balas” atingiu em cheio os anseios de uma platéia ávida por filmes diferentes, que fugissem do padrão ético e moral dominante no cinema norte-americano até aquele momento. Com o fim do rígido controle do “Código de Produção” próximo (ele seria substituído no ano seguinte pelo ainda vigente sistema de censura por idades), reforçado pelo turbulento momento vivido pelos estúdios à beira da falência e pela nova e bem sucedida forma de se fazer cinema em outros países como a Itália (neo—realismo, já existente há algumas décadas), o Japão (Akiro Kurosawa) e a França (nouvelle vague), o cinema norte-americano se viu obrigado a abrir as portas para os jovens diretores que surgiam. A soma de todos estes fatores resultou na fase mais frutífera da história de Hollywood e “Bonnie & Clyde” foi o responsável por puxar a fila.

Durante a grande depressão, Bonnie Parker (Faye Dunaway) conhece o ex-presidiário Clyde Barrow (Warren Beatty) enquanto este tenta roubar um carro na frente de sua casa. Atraída pelo rapaz e pela promessa de “fama e glória” da vida de crimes, ela o acompanha e ambos iniciam uma seqüência de assaltos e assassinatos pelas estradas dos Estados Unidos, acompanhados do mecânico C. W. Moss (Michael J. Pollard), a quem conheceram no caminho. Logo depois, Buck (Gene Hackman), o irmão de Clyde recém saído da cadeia, une-se ao grupo acompanhado de sua esposa Blanche (Estelle Parsons), e o quinteto fica famoso em todo país, passando a ser perseguido implacavelmente pela polícia.

“Bonnie & Clyde” é certamente um dos filmes mais importantes e com maior influência na história do cinema. Para entender sua importância, no entanto, é vital contextualizar seu lançamento e entender o que acontecia no cinema e no mundo na época. No final dos anos sessenta, o mundo vivia uma espécie de revolução liderada pelos jovens, com ideais libertários e o famoso lema “paz e amor”. Não à toa, foi nesta época que surgiu o movimento hippie e festivais como o Woodstock, refletindo bem o pensamento do público jovem na ocasião. Influenciados pelos inovadores cineastas da nouvelle vague, que estouraram para o mundo alguns anos antes, além de outros talentos mundo afora como Fellini, Kurosawa e Bergman, um grupo de jovens diretores decidiu mudar radicalmente a forma de fazer cinema em Hollywood, abordando temas nada convencionais e estilizando o visual, inclusive nas cenas violentas. Somado a todos os fatores já citados anteriormente, o caminho estava pavimentado para que diretores talentosos como Penn e atores jovens e ousados como Beatty pudessem produzir e brigar por filmes como “Bonnie & Clyde”, o primeiro desta nova safra (ao lado de “A primeira noite de um homem”) que marcaria a fase áurea do cinema de Hollywood em todos os tempos.

A ousadia temática de “Bonnie & Clyde” aparece logo no início da narrativa, quando Bonnie Parker demonstra interesse pela vida bandida de Clyde (“Como é assaltar?”), seguida pela seqüência em que ambos bebem cerveja, falam sobre armas com certa conotação sexual (repare o olhar sensual de Dunaway para a arma de Beatty) e partem para um assalto, fugindo em disparada num carro em alta velocidade. Somente depois de toda esta aventura é que ambos perguntam “qual seu nome?”. O clima revolucionário ganha força quando o casal fora da lei se depara com uma família despejada e atira contra uma placa, finalizando com a orgulhosa frase “Nós roubamos bancos”. Esta frase volta a aparecer quando o casal se encontra com C.W. Moss e pergunta: “Nós roubamos banco. Há algo de errado nisto?”. A pergunta é direcionada a Moss, mas serve também para a fatia conservadora da platéia. O filme veio para mudar a forma de fazer cinema em Hollywood e conseguiu, inovando também ao humanizar os bandidos, como por exemplo, na cena em que Clyde atira em um homem e sai dizendo que não queria feri-lo. Já não existia mais o certo e o errado. Já não existiam mais os códigos de conduta e moral. Ao constatar que Bonnie e Clyde jamais se arrependeram da vida que levaram, notou-se que a ambigüidade havia chegado ao cinema de Hollywood.

O bom roteiro escrito por Robert Benton e David Newman vai além da ousadia, expondo também o jogo da fama com propriedade, mostrando claramente como as pessoas gostam de ser famosas, como quando um policial orgulhosamente dá entrevista depois de ser pego pelo bando e quando um casal pega carona com o grupo somente para ver o que os amigos pensariam ao ver o nome deles nos jornais. Reforça este argumento o momento em que as pessoas cercam o carro dos bandidos feridos, somente para ver de perto aqueles indivíduos famosos. O roteiro acerta também na citada humanização dos bandidos, também exemplificada no momento em que Bonnie se preocupa com a velhice de sua mãe e demonstra seu medo de perdê-la. O encontro das duas, aliás, ilustra a qualidade da direção de fotografia de Burnett Guffey, que apresenta uma imagem sem vida, que simboliza a relação entre mãe e filha que se esvai.

Com um bom roteiro nas mãos e com liberdade para criar, o talentoso Arthur Penn não desperdiçou a oportunidade. Graças à sua coragem, o longa causou impacto não somente pelo tom da narrativa, mas também pelo aspecto visual. A violência extremamente gráfica aparece em muitas cenas, como no tiro de Clyde na cara de um homem, no massacre de Buck e no tiro que acerta Bonnie. Penn coloca ainda em diversos momentos a câmera sob o ponto de vista de Clyde, jogando o espectador para a perspectiva do bandido e fazendo com que este torça por ele. A própria fotografia ensolarada de Burnett Guffey romantiza e glorifica a vida do casal através de suas cores quentes, além de conferir um ar mais realista à narrativa ao escolher um visual mais cru e granulado. Os figurinos charmosos de Theadora Van Runkle (o chapéu de Bonnie, em especial) também ajudam a criar a imagem de “bandidos simpáticos”, reforçada pela própria atitude deles, como quando Clyde pergunta a um senhor se o dinheiro que ele segura é dele e, ao ouvir a resposta positiva, diz para o senhor ficar com o dinheiro. A primeira seqüência do tiroteio, com o grupo preso numa casa, é sensacional e reforça a qualidade da direção de Penn, que garante um ritmo frenético à cena sem jamais soar confuso, graças também à excelente montagem de Dede Allen, que alterna entre os planos com incrível vigor. Vale destacar também a qualidade do som, que permite distinguir com precisão desde pequenas vibrações até os barulhentos tiros. Voltando ao trabalho excepcional de Dede Allen na montagem, podemos observar também uma interessante passagem no tempo, feitas através das notícias de um jornal (repare a alegria de todos, especialmente de Bonnie ao ser citada), além da elegante transição da noite para o dia feita com o ferido Buck deitado no colo do irmão. Já o segundo tiroteio, com o grupo preso dentro de uma cabana, é ainda mais violento e resulta na morte de Buck (e a fotografia sombria no momento em que ele é baleado já indicava seu trágico destino). Finalmente, Penn confirma sua habilidade durante uma perseguição de carro da polícia, criando uma seqüência empolgante, auxiliado também pela trilha sonora agitada e divertida de Charles Strouse. Vale observar também a composição do plano seguinte, onde podemos observar o casal Velma (Evans Evans) e Eugene (Gene Wilder) namorando e, ao fundo, o carro deles sendo roubado, seguido pela engraçada perseguição que resulta na amizade entre todos os envolvidos.

E porque motivo duas pessoas comuns fariam amizade com um grupo de bandidos? A resposta é simples e exemplifica uma das mensagens principais do filme. É a mesma razão que fez Bonnie se apaixonar por Clyde, mesmo sem conseguir transar com o rapaz. A fama, e a glória que ela traz, encorajava toda aquela gente e o longa retrata isto claramente. Era essencial, no entanto, que a química do casal principal convencesse e felizmente Dunaway e Beatty se saem muito bem nesta tarefa, conquistando a empatia do espectador. Repare, por exemplo, a empolgação de Bonnie quando começa sua vida com Clyde e seu jeito irônico de falar, como quando zomba de Moss (“Uh, ele é fichado…”). Repare ainda como a garota não se abala com o assassinato de um homem, agindo tranquilamente no cinema e na conversa do casal num quarto. Ela gostava daquela vida e Dunaway retrata isto muito bem, como podemos notar no brilho de seus olhos quando Clyde a convida para viver com ele. Mas nem tudo são flores na relação do casal e na primeira briga, ambos jogam na cara um do outro o que lhes desagrada. Esta relação, aliás, é muito bem resumida no belo texto de Bonnie para os jornais. Beatty, por sua vez, demonstra muito bem o incomodo de Clyde com a impotência, refletindo em seu rosto a amargura que sentia, além de demonstrar de maneira visceral sua raiva com a notícia de um jornal sobre a morte do irmão. Clyde, aliás, extravasava sua impotência em seus crimes. Sua arma fazia aquilo que seu órgão não conseguia. Quando ele finalmente consegue se relacionar sexualmente com Bonnie, algo sugerido na cena em que conversam na grama, seus crimes terminam. Já Gene Hackman confirma todo seu talento, atuando com leveza e espontaneidade na pele do irmão de Clyde. Solto, sempre sorridente e fazendo piadas, seu Buck Barrow demonstra incrível afinidade e empatia com o irmão, graças ao talento do ator. Repare como os irmãos não conseguem parar de falar quando se reencontram, ao contrário das mulheres que ficam mudas no carro. Em seguida, quando passam a viver dentro de uma casa numa vida mais “normal”, é a vez de Bonnie deixar claro o quanto se sente deslocada, o que se agrava quando ela entra em conflito com Blanche, a esposa de Buck muito bem interpretada por Estelle Parsons. Completando o elenco, Michael J. Pollard interpreta o fiel C. W. Moss e Dub Taylor vive o esperto Ivan Moss, que tem participação chave na trama, numa cena onde sua conversa com um policial não necessita de palavras para indicar o que irá acontecer. Vale notar também sua aparente simpatia pelo famoso casal, desmascarada quando entra na casa com seu filho.

A cena final de “Bonnie & Clyde” é emblemática e extremamente bem conduzida por Penn. A simples troca de olhares do casal indica o trágico destino de ambos. E até mesmo neste momento eles são capazes de trocar olhares apaixonados, como se estivessem satisfeitos por terem chegado ao fim juntos. A condução da cena é maravilhosa, graças também à montagem que alterna entre os planos do banho de sangue com precisão e capta com detalhes a reação de cada personagem presente. Penn estiliza a cena ainda mais com o uso da câmera lenta, seguido pelo travelling através do carro destruído que finaliza com o plano silencioso em que as pessoas olham pra dentro dele. Chegava ao fim a lendária história do casal. E enquanto a tela escurecia, a platéia tinha a certeza de ter assistido algo diferente. Iniciava-se ali uma nova era em Hollywood.

Assim como o casal de bandidos que o inspirou, “Bonnie & Clyde, uma rajada de balas” saiu atirando em tudo que tinha em seu caminho, deixando marcas por onde passou. Mas ao contrário do final trágico de Bonnie Parker e Clyde Barrow, o longa resistiu aos ataques que sofreu e seu lançamento permanecerá eternamente na galeria dos momentos mais importantes da história do cinema e da cultura norte-americana.

Texto publicado em 08 de Novembro de 2010 por Roberto Siqueira

O CIRCO (1928)

(The Circus)

 

Filmes em Geral #18

Dirigido por Charles Chaplin.

Elenco: Charles Chaplin, Henry Bergman, Tiny Sandford, Al Ernest Garcia, George Davis, Merna Kennedy, Harry Crocker, John Rand e Steve Murphy.

Roteiro: Charles Chaplin.

Produção: Charles Chaplin.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Certamente um dos longas mais engraçados da carreira de Charles Chaplin, “O Circo” destaca-se pelas divertidas gags visuais, mas abre espaço também para pequenas reflexões, ainda que de maneira leve e descontraída. A inspiração e o talento deste genial ator e diretor para provocar o riso podem ser comprovados neste divertido filme, que antecedeu aquelas que talvez sejam as maiores obras da carreira deste inglês que marcou a história da sétima arte e da própria humanidade.

Enquanto fugia da policia ao ser confundido com um ladrão de carteiras, o vagabundo (Chaplin) invade acidentalmente um circo e, com seu jeito desajeitado, acaba arrancando gargalhadas do público presente. Logo em seguida, acaba sendo contratado pelo dono do espetáculo (Al Ernest Garcia), que irá se aproveitar do talento dele para salvar o circo da falência. Mas o destino fez com que o vagabundo cruzasse o caminho da filha do proprietário (Merna Kennedy) e se apaixonasse por ela.

“O Circo” é, acima de tudo, uma comédia bastante eficiente. Por isso, as gags visuais estão presentes com força total e, reforçadas pelo talento de Chaplin na expressão corporal, tornam o filme um dos mais engraçados de sua carreira, com destaque para as cenas anteriores à contratação do vagabundo pelo circo. O filme tem todas as características dos tempos de cinema mudo, com trilha sonora presente em todo tempo e letreiros mostrando os principais diálogos na tela, algo que Chaplin lentamente abandonaria em seus filmes posteriores. E apesar de destacar-se como um filme de humor, o longa apresenta muitas das principais características do cinema de Chaplin, como seu costumeiro problema com os guardas e sua eterna luta para conseguir comida, que aparecem principalmente nas cenas do lado externo do circo.

Entre as cenas mais divertidas, destaca-se a primeira entrada de Carlitos no circo. A seqüência de gags é tão bem elaborada e coordenada que é praticamente impossível não gargalhar, por mais mal humorada que a pessoa seja. Mas as cenas engraçadas não se resumem a esta entrada, como podemos notar na divertidíssima cena em que o vagabundo tenta dar uma pílula para um cavalo doente. Já a cena da jaula do leão consegue ser ao mesmo tempo engraçada e tensa, dado o perigo potencial da situação. É interessante notar também como através da comédia, Carlitos revela ao público alguns truques do circo, como o botão que liberta os animais na mesa. Mas o talento de Chaplin não se resumia somente ao humor, e o seu lado humano aparece em duas cenas especiais. A primeira delas acontece quando o vagabundo se comove com a fome da jovem moça e dá sua comida pra ela, enquanto a segunda ocorre no final altruísta, quando Carlitos leva o equilibrista até a jovem moça, abrindo mão de sua paixão para vê-la feliz. E apesar do tom mais leve e descontraído, o roteiro de “O Circo” não deixa de criticar o capitalismo (algo sempre presente nos filmes de Chaplin) ao mostrar a dificuldade do vagabundo passando fome e, posteriormente, os trabalhadores abandonando o emprego por não receber salário.

Como podemos notar, Chaplin tinha o incrível talento de transformar narrativas simples em filmes fascinantes, mas também mostrava competência na parte técnica, como na cena dos espelhos, filmada de um ponto fixo, mas jamais mostrando onde está localizada câmera, o que sempre impressiona em planos feitos diante do espelho. Chaplin também utilizava bem o truque de câmera, uma espécie de efeito visual, como por exemplo, na cena em que ele “sai do corpo” e mostra sua intenção de bater no equilibrista. Ele não faz questão de esconder seu ciúme, num comportamento inocente como o de uma criança, algo que se repete quando ele ri ao ver Rex (Harry Crocker) balançando na corda. Seu Carlitos era puro e simples como uma criança, o que explica a facilidade com que ele conquista o publico infantil. E até mesmo nos movimentos de câmera Chaplin mostra habilidade, criando cenas lindas como o plano geral onde podemos ver o vagabundo se equilibrando na corda e todo o público embaixo dele torcendo por seu sucesso. A montagem dinâmica (sempre dele, Chaplin) também colabora com o ritmo ágil da narrativa, além de trabalhar no melhor estilo Chaplin, com a imagem seguinte muitas vezes complementando o sentido da cena anterior, como quando o público pede pelo “homem engraçado” e, no plano seguinte, vemos Carlitos deitado dormindo. Fechando a parte técnica, a trilha sonora composta por Chaplin é divertida e coerente com a leveza da narrativa.

É desnecessário dizer que Chaplin dá outro show de atuação em “O Circo”. Poucos atores da história tinham tanto talento para demonstrar através de expressões corporais os sentimentos do personagem e, além disso, provocar o riso genuíno no espectador, como podemos notar na cena do ensaio do número da barbearia, entre tantas outras. O dono do circo, interpretado de maneira ríspida por Al Ernest Garcia, explora o talento de Carlitos sem que ele saiba que é a estrela do espetáculo e, conseqüentemente, cobre por isso. Ironicamente, quando desperta para isto (graças à filha do proprietário do circo, interpretada por Merna Kennedy), recebe pelo que vale e salva o circo da falência, lotando as arquibancadas. Note como até mesmo o dono do circo fica menos estressado quando o circo começa a render o esperado, tratando melhor os funcionários. Mas a chegada do equilibrista representa a desilusão amorosa do vagabundo e o fim da felicidade dele, algo que se reflete imediatamente em seu rendimento no palco. Como conseqüência, o dono do circo ameaça demiti-lo, esquecendo-se que ele era o responsável por salvar o circo. Gratidão não é algo comum no mundo dos negócios, e Chaplin, feroz crítico do capitalismo, sabia disto. Basicamente, o lema é “deixou de render, não serve mais”. O belo final, com o vagabundo abrindo mão de seguir com o circo, tem também uma rima narrativa com o primeiro plano do filme, com Carlitos segurando a estrela que inicia “O Circo”.

Ainda que não tenha o poder de emocionar de “Luzes da Cidade” e o mesmo subtexto crítico de “Tempos Modernos” ou “O Grande Ditador”, “O Circo” é uma comédia eficiente, que conta com muitas das principais qualidades do cinema de Chaplin. Se não deixa uma mensagem profunda ou provoca grande reflexão, ao menos diverte com competência o espectador, graças ao enorme talento de seu realizador.

Texto publicado em 20 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira

EM BUSCA DO OURO (1925/1942)

(The Gold Rush)

 

Filmes em Geral #17

Dirigido por Charles Chaplin.

Elenco: Charles Chaplin, Mack Swaim, Tom Murray, Henry Bergman, Malcolm Waite e Georgia Hale.

Roteiro: Charles Chaplin.

Produção: Charles Chaplin.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Entre todas as suas memoráveis obras, Chaplin afirmava ter um carinho extremamente especial por este “Em Busca do Ouro”, uma fábula maravilhosa que relata, de maneira bem humorada, os perigos da chamada corrida do ouro, que motivou multidões a arriscar a vida em busca do sonho de conseguir riqueza através deste precioso metal. Leve e descontraído, o longa consegue balancear muito bem o humor e o drama, algo recorrente na marcante carreira deste memorável cineasta.

Em 1898, milhares de pessoas partem para a serra nevada na tentativa de encontrar ouro, buscando garantir riqueza e conforto pelo resto de suas vidas. Entre estes garimpeiros e aventureiros, encontra-se o vagabundo (Chaplin), que acidentalmente vai parar na cabana do garimpeiro Larsen (Tom Murray) ao lado do gordo Jim McKay (Mack Swaim), conhecido como “Big Jim”. Juntos, eles criam muita confusão e, após uma forte tempestade de neve, o vagabundo conhece a dançarina Georgia (Georgia Hale), por quem se apaixona perdidamente.

A idéia de realizar “Em busca do ouro” surgiu quando Chaplin leu uma reportagem sobre a chamada “corrida do ouro”, em que legiões de pessoas partiam em busca de riqueza, dispostas a enfrentar o frio, a fome e a natureza agressiva da serra nevada. Esta reportagem se transformou num dos primeiros e mais belos planos do longa, onde podemos ver milhares de pessoas subindo o monte coberto de neve, com a esperança de que este sacrifício seja recompensado por uma vida confortável após encontrar o desejado ouro. Chaplin gostou tanto do resultado final que o filme foi relançado 17 anos depois, com a rápida voz de Chaplin substituindo os diálogos na tela. A versão de 1942, no entanto, teve algumas cenas retiradas na montagem, como o beijo final entre Carlitos e Georgia, resultando numa versão um pouco menor que a original.

Charles Chaplin novamente assumiu a responsabilidade pela direção, roteiro, montagem e trilha sonora, além é claro de atuar no longa. O roteiro, que como citado ganhou a narração de Chaplin na versão de 1942, aborda temas interessantes como o poder do dinheiro e o valor que a sociedade dá pra ele, além de mostrar como as aparências enganam, na cena em que o guarda assume que Carlitos é o intruso do navio baseado nas roupas dele. O roteiro mostra ainda como o amor verdadeiro pode surgir de diversas maneiras, além de ilustrar como a solidão atormenta o homem. Como sempre, Chaplin deixa sua marca pessoal, apresentando tudo isto de maneira simples, engraçada e inteligente. O diretor tem domínio absoluto da narrativa, fazendo com que o longa flua muito bem, graças também a montagem, que adota um ritmo alucinante no inicio da narrativa, alternando para um ritmo mais lento no segundo ato, que reflete a tristeza do solitário protagonista. Ainda na parte técnica, vale destacar a fotografia de Roland Totheroth, que prioriza a cor branca, refletindo o vazio e a solidão das pessoas que enfrentam a serra nevada em busca de riqueza. Repare como a fotografia se torna sombria, priorizando a cor preta, quando Carlitos passa a freqüentar o saloon e, principalmente, quando sofre por Georgia sozinho na cabana e vagando pelo exterior do saloon. Finalmente, a trilha sonora, creditada para Chaplin, Gerard Carbonara e Max Terr, é mais lenta e cadenciada na versão de 1921, ao passo em que na versão de 1942 é bastante agitada e pontua muito bem as cenas.

Como de costume nos filmes de Chaplin, as gags visuais são excelentes, com destaque para a seqüência em que Carlitos, Big Jim e Larsen são expulsos da barraca pelo vento, seguida pela briga entre os grandões, apontando a arma para Carlitos. Também merece ser citada a disputa nas cartas para ver quem procuraria comida (repare a divertida reação do vagabundo ao tirar sua carta). O talento de Chaplin para fazer comédia fica ainda mais evidente na seqüência em que Carlitos cozinha um sapato e serve para o amigo Big Jim. Esta cena, aliás, foi inspirada numa trágica notícia que ele havia lido sobre um grupo de exploradores que se viu obrigado a comer os sapatos, roupas e cadáveres de amigos durante sua passagem pela serra nevada. A notícia inspirou ainda os engraçados delírios de Big Jim, que revelam também o ótimo trabalho de efeitos visuais (na realidade, um truque de câmera) ao transformar Carlitos num frango gigante, ilustrando o tamanho da fome do grandalhão. Repare na sincronia dos movimentos do frango e de Carlitos quando este volta a aparecer na forma humana (ele mesmo se vestiu de frango depois que um técnico tentou sem sucesso fazer o papel). Esta seqüência, aliás, é toda sensacional, desde os delírios de Big Jim até a perseguição dentro e fora da barraca, que termina com a chegada do urso. Outra seqüência interessante visualmente é a engraçada cena da casa pendurada no penhasco, que alterna entre o cenário em tamanho real e a maquete, sem que o espectador perceba a diferença claramente. Interessante também como a posição da câmera dá a sensação de que a casa está mesmo pendurada, o que revela a habilidade de Chaplin na direção e remete a um tempo em que o cinema, sem tantos recursos técnicos, era mais puro e criativo.

Chaplin também sabia ser sutil, como na triste cena em que Carlitos espera por Georgia na cabana, onde a vela indica quanto tempo ele esperou pela garota. A desilusão amorosa e a solidão dele na virada do ano estão refletidas em seu semblante, enquanto olha pela porta à espera de sua visita. Quando ele decide ir até a festa, seu rosto mergulhado nas sombras demonstra visualmente os sentimentos de seu coração, partido diante da atitude de Georgia. Georgia, aliás, que é muito bem interpretada pela bela Georgia Hale, demonstrando, ao lado de suas amigas, o cinismo das mulheres do saloon e a lenta transformação da garota. A pureza de Carlitos conquista Georgia e conquista o espectador também. Mas talvez a cena mais marcante de “Em Busca do Ouro” seja o belíssimo momento em que Carlitos faz a dança com os pães, com extrema sensibilidade e carisma. Certamente, esta é uma das muitas imagens que marcaram a carreira deste gênio. Vale citar ainda a linda cena em que Carlitos e Georgia se reencontram no navio. Na versão de 1942 o final é menos romantizado, refletindo o estado de espírito de Chaplin naquele período, após ter enfrentado seu segundo divórcio. Já a versão original tem um longo beijo entre o casal, que revela até mesmo a paixão do diretor por sua mulher, Lita Grey, que inspirou a personagem Georgia.

Extremamente engraçado, com cenas marcantes e uma mensagem humana, podemos afirmar que o belo “Em Busca do Ouro” é um legítimo representante de cinema de Charles Chaplin. E é impressionante notar como seus filmes conseguem transmitir sua visão do mundo, balanceando com grande talento cenas engraçadas e belas. É aí que reside a magia de Chaplin, um cineasta capaz de tocar como poucos o coração do espectador. Ao contrario das dificuldades enfrentadas pelos garimpeiros para conseguir ouro, Chaplin demonstrava enorme facilidade para transformar seus filmes em verdadeiras jóias da sétima arte.

Texto publicado em 19 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira

O GAROTO (1921)

(The Kid)

 

Filmes em Geral #16

Dirigido por Charles Chaplin.

Elenco: Charles Chaplin, Edna Purviance, Jackie Coogan, Baby Hathaway, Carl Miller, Granville Redmond, Tom Wilson e May White.

Roteiro: Charles Chaplin.

Produção: Charles Chaplin.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O genial Charles Chaplin demonstra toda sua sensibilidade e talento neste belo “O Garoto”, misturando com perfeição o humor e o drama, demonstrando controle absoluto sobre a narrativa e, como anunciado ainda nos primeiros segundos do longa, provocando no espectador o riso e a lágrima.

Após deixar um hospital de caridade com seu filho recém-nascido, uma jovem mãe solteira (Edna Purviance), temendo não poder cuidar do filho, abandona o garoto no banco de trás de um luxuoso carro, junto com um bilhete. Em seguida, o carro é roubado e os bandidos, desesperados, largam o garoto numa esquina, onde o bebê ficará até ser encontrado pelo vagabundo (Chaplin), que fazia o seu passeio matinal tranquilamente. Após tentar, sem sucesso, se livrar do bebê, o vagabundo decide criá-lo, enquanto a mãe, com o passar dos anos, se arrepende e decide partir em busca do filho abandonado, ainda que com pouca esperança de realmente encontrá-lo.

Como de costume, Chaplin conduz a narrativa com segurança e confirma seu talento ao apresentar uma narrativa extremamente bem estruturada, coesa e com um ritmo excelente. É sempre impressionante notar o talento de Chaplin para envolver o espectador com brilhantismo, misturando humor e drama de maneira extremamente humana. O diretor é competente também nos diversos momentos engraçados do longa, com destaque para o hilário “serviço 13”, em que Carlitos se encanta com a mulher do guarda e foge em disparada pela cidade ao se deparar com o marido dela. Mas o diretor também é sutil na criação de planos simbólicos, como no emocionante encontro casual entre mãe e filho, onde a agora famosa atriz não sabe que está diante de seu filho abandonado há cinco anos. A tristeza estampada em seu rosto some temporariamente quando ela presenteia o garoto, sem saber que estava diante de seu próprio filho. Alguns temas recorrentes da filmografia de Chaplin aparecem também em “O Garoto”, como os constantes problemas com guardas e a fome (Chaplin passou fome na infância e costumeiramente mostrava isso em seus filmes).

Curiosamente, o pai do garoto também se tornara alguém famoso, mostrando claramente que se eles tivessem tentando ficar juntos, poderiam ter sucesso na criação do menino. Por outro lado, pode-se argumentar que ambos não teriam tanto tempo para se dedicar à carreira, pois obviamente cuidar de uma criança é uma tarefa que demanda tempo e dedicação. No acidental encontro entre pai e mãe numa festa, a tristeza toma conta de ambos e a montagem (também mérito de Chaplin) durante a conversa do casal mostra que o livro do passado e das lembranças foi aberto na vida de ambos. Este estilo de montagem (a chamada montagem semântica, onde uma cena complementa o sentido da outra, mas sozinhas não tem o mesmo significado) é usual no cinema de Chaplin, que costumava jogar imagens não diegéticas (ou seja, não pertencentes ao universo daquela narrativa) para complementar o sentido da cena anterior ou seguinte, como quando ele intercala os trabalhadores e as ovelhas em “Tempos Modernos”. Em outro momento, após a frase “uma mulher cujo pecado foi a maternidade”, Chaplin corta inteligentemente para a imagem de Cristo na cruz, simbolizando o peso que aquela criança representava na vida daquela moça sem condições de criá-la e abandonada pelo marido. Chaplin também cria um plano que reforça este peso no momento em que a mãe para com a criança no colo na frente de uma igreja e, ao fundo, podemos ver outra cruz. Segundos depois a mãe se retira e a câmera foca na cruz enquanto a tela escurece.

O roteiro escrito por Chaplin exibe coragem ao abordar as dificuldades de uma mãe solteira para criar uma criança e confirma isto ao mostrar tanto a mãe quanto os bandidos abandonando o bebê à própria sorte, o que revela também uma crítica às desigualdades sociais já existentes naquele período. Outro tema interessante abordado pelo longa que merece reflexão refere-se à verdadeira natureza da paternidade/maternidade. Afinal de contas, quem é o verdadeiro pai/mãe de uma criança? Como o filme demonstra através da relação de afeto e carinho entre Carlitos e o garoto, o verdadeiro pai é aquele que cria (e eu, particularmente, compartilho desta opinião). O excepcional roteiro mostra ainda como era o “tratamento apropriado” dado às crianças abandonadas pela instituição responsável (Asilo para crianças órfãs), reforçando o aspecto crítico de “O Garoto”.

Tecnicamente, vale destacar ainda a direção de fotografia de Roland Totheroh e Jack Wilson, que utiliza o foco da câmera para destacar o que interessa à narrativa e até mesmo brinca com o formato dele, como na cena do casamento em que a sombra em volta da tela forma um coração no centro. Vale notar também como no momento em que Carlitos sai pela noite à procura do garoto, a fotografia obscura reflete sua enorme angústia. Por outro lado, durante o seu sonho (um momento mágico, que utilizou truques para fazer Chaplin voar muito tempo antes da invasão dos efeitos visuais no cinema) a fotografia e os figurinos destacam a cor branca, simbolizando aquele que seria o mundo ideal do vagabundo Carlitos. Os figurinos, aliás, também simbolizam a clara desigualdade social, notável através do contraste entre as roupas rasgadas da dupla e as roupas dos ricos da cidade. E até mesmo a fotografia reflete esta diferença, adotando cores menos escuras quando a ação se passa na casa da família da famosa atriz. Finalmente, vale dizer que a passagem do tempo através de letreiros na tela e nuvens no fundo (“5 anos depois”) hoje é deselegante, mas na época funcionava perfeitamente e Chaplin, excepcional diretor que era, sabia disto.

E se o talento de Chaplin como diretor era enorme, sua qualidade como ator era simplesmente insuperável. Sua facilidade em expressar sentimentos através da expressão facial e corporal é incrível, provocando o riso mais genuíno no espectador. Além das inúmeras gags engraçadas, vale observar também sua reação quando encontra o garoto abandonado e o seu olhar desconfiado para o bueiro e para a câmera quando senta na calçada com o bebê. Destaque também para sua engraçada reação às palavras do pai de um garoto que apanhou na rua (“Se ele apanhar, eu vou bater em você”), além é claro das inúmeras cenas potencialmente cômicas, como a do citado “serviço 13”. Edna Purviance transmite muito bem o sofrimento da mãe através de sua expressão triste e melancólica, como podemos notar quando ela aparece pensativa na ponte e no tocante reencontro com seu filho na delegacia. Colabora também com o sentimento de tristeza que acompanha a moça a trilha sonora melancólica, composta pelo próprio Chaplin. Fechando os destaques do elenco, temos a fantástica atuação de Jackie Coogan como o garoto, conquistando o espectador com sua simpatia. Seu entrosamento com Chaplin é perfeito. Repare como Coogan olha discretamente para o prato de Carlitos antes de fazer a oração e comer, somente para checar se as quantidades de comida se equivalem. A dupla demonstra uma química tão forte que se torna impossível não torcer pelo sucesso de ambos, ainda que eles não ganhem seu dinheiro da forma mais “honesta” possível. Afinal de contas, não podemos dizer que quebrar vidraças e oferecer conserto em seguida seja a mais correta das atividades, mas até mesmo isto funciona como crítica à falta de oportunidades do capitalismo (algo que Chaplin voltaria a criticar em sua filmografia, especialmente na obra-prima “Tempos Modernos”).

Quando a mãe finalmente reencontra o bilhete há tempos deixado junto com o garoto, numa cena de arrepiar, sabemos que o emocionante momento do reencontro está prestes a acontecer. E neste instante, a mistura de sentimentos é inevitável no espectador. Ao mesmo tempo em que gostaríamos de ver aquela mãe sofrida finalmente reencontrar seu filho, sabemos que este reencontro também pode significar o fim da relação entre o garoto e Carlitos. E o reencontro é mesmo emocionante, ainda mais porque também podemos testemunhar a solidão do vagabundo, abandonado depois de perder seu garoto (e a câmera faz questão de diminuí-lo na tela neste instante). Felizmente, Chaplin arranca o sorriso do espectador novamente no final, quando podemos ver o reencontro do vagabundo com o garoto, já na casa da famosa atriz. Mas o que aconteceu depois? Fica a cargo de cada espectador imaginar à sua maneira. O mais importante é a mensagem deixada por Chaplin, sobre a importância da proximidade do adulto na vida de qualquer criança. Como diz o batido ditado popular: “Não basta ser pai, tem que participar”.

Chaplin emociona novamente ao narrar a história do vagabundo que, acidentalmente, se torna pai de um lindo garoto após encontrá-lo abandonado na rua. Com seu costumeiro talento para divertir e emocionar, ele brinda os cinéfilos com outra jóia preciosa. Mas ao contrário do vagabundo de “O Garoto”, que encontrou a felicidade por acidente numa esquina, nós sabemos que este belo presente não é um mero fruto do acaso, mas sim resultado do trabalho de um talentoso diretor, ator, roteirista e compositor, o genial Charles Chaplin.

Texto publicado em 18 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira

VIDA DE CACHORRO (1918)

(A Dog’s Life)

 

Filmes em Geral #15

Dirigido por Charles Chaplin.

Elenco: Charles Chaplin, Edna Purviance, Syd Chaplin, Henry Bergman, Charles Reisner, Albert Austin e Tom Wilson.

Roteiro: Charles Chaplin.

Produção: Charles Chaplin.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Charles Chaplin já demonstrava seu incrível talento neste “Vida de Cachorro”, curta metragem que aborda superficialmente temas que ainda seriam melhor explorados pelo genial diretor em seus próximos filmes. Ainda assim, é possível se divertir e se emocionar nos 40 minutos desta pequena jóia estrelada pelo tradicional vagabundo.

Um vagabundo (Chaplin) salva a vida de um cachorro na rua quando este é atacado por outros cães. Com o pobre cão escondido nas calças, ele entra num salão de baile, onde uma cantora desafinada é explorada pelo dono do estabelecimento. É então que dois ladrões roubam a carteira de um milionário bêbado e escondem justamente no local onde dorme o vagabundo, que encontraria ali a chance de mudar definitivamente de vida.

O curta “Vida de Cachorro” tem toda a cara do cinema mudo que traria fama e glória para Chaplin futuramente, com trilha sonora presente durante todo o tempo, letreiros brancos com fundo negro mostrando os diálogos e todo o talento do talentoso ator e diretor para expressar sentimentos e provocar o riso. As inúmeras gags visuais já demonstravam o talento do ator para a comédia, como na seqüência em que ele foge de um policial passando por baixo da cerca, a clássica seqüência em que ele rouba comida e a sensacional fuga de dentro do bar Lanterna Verde com os bandidos correndo atrás dele. Chaplin, aliás, tem como sempre um desempenho fenomenal, provocando o riso e as lágrimas sem necessitar de palavras, simplesmente através de expressões corporais. Vale destacar, entre tantos momentos, a sensacional seqüência em que ele se faz passar por um dos bandidos, que se encontrava desacordado, somente através dos gestos de suas mãos. Edna Purviance, que interpreta a cantora desafinada do salão, também se sai bem, fazendo um belo par com Carlitos.

Tecnicamente, vale destacar a deliciosa trilha sonora do próprio Chaplin, especialmente a divertida música que acompanha a seqüência da dança no salão, além da direção, também de Chaplin, que conduz a narrativa com segurança e acerta o ritmo nas cenas mais engraçadas, como aquela em que o vagabundo come na lanchonete sem que o dono perceba.

A dificuldade de se adaptar ao capitalismo, tema costumeiro nos filmes de Chaplin, aparece aqui na cena em que o vagabundo tenta arrumar emprego sem sucesso e é reforçada pela seqüência do assalto cometido por dois homens, evidenciando as conseqüências da desigualdade social. A importância do dinheiro neste sistema também é abordada pelo roteiro de Chaplin, quando o dono do bar expulsa o vagabundo simplesmente pelo fato dele não ter dinheiro para pedir uma bebida, e fica ainda mais evidente quando Carlitos diz para a cantora que “agora poderemos ficar no país”, após encontrar a carteira de um homem rico. O final do curta mostra o casal feliz, curtindo sua fazenda, graças ao dinheiro que encontraram na carteira, o que não deixa de ser uma irônica crítica, pois eles só conseguiram encontrar a felicidade desta maneira, já que não foram dadas oportunidades para o crescimento de outra forma. E Chaplin, mais uma vez, mostra sua preferência pela vida do campo em detrimento da loucura das grandes cidades.

Chaplin já tinha assombrado o mundo com seu talento absurdo em curtas como este divertido “Vida de Cachorro”, que marcou a transição entre a fase menos famosa de sua carreira e aquela em que registra seus filmes mais famosos em todo o planeta, já num período em que tinha seu próprio estúdio e, portanto, total liberdade como cineasta.

Texto publicado em 17 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira

O HOMEM QUE AMAVA AS MULHERES (1977)

(L’ Homme qui Aimait les Femmes)

 

Filmes em Geral #14

Dirigido por François Truffaut.

Elenco: Charles Denner, Brigitte Fossey, Nathalie Baye, Sabine Glaser, Valérie Bonnier, Jean Dasté, Leslie Caron, Geneviève Fontanel, Nelly Borgeaud e Henri Agel.

Roteiro: François Truffaut, Suzanne Schiffman e Michel Fermaud.

Produção: Marcel Berbert e François Truffaut.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

François Truffaut era um homem apaixonado pelas mulheres. Famoso por se apaixonar por muitas atrizes com quem trabalhava, o grande diretor francês tinha também uma mágoa pela forma como sua mãe o tratou na infância, algo que ele fez questão de ressaltar em alguns de seus filmes. Neste delicioso “O homem que amava as mulheres”, Truffaut junta as duas coisas para celebrar o seu amor pela figura da mulher e, através do olhar de seu personagem principal, estudar o amor de maneira filosófica. O resultado é uma bela e merecida homenagem à beleza feminina.

Após inúmeros casos e paixões, o conquistador de mulheres Bertrand (Charles Denner) decide escrever uma autobiografia sobre sua vida amorosa, cobrindo desde a sua primeira relação sexual num bordel, ainda quando era muito jovem, até a sua fase atual, já na casa dos 40 anos.

“O homem que amava as mulheres” tem início durante um enterro, onde diversas mulheres, de todos os tipos e idades, seguem um caixão. Não é preciso muito tempo para que o espectador identifique quem está lá dentro. Através da voz de uma de suas amantes, a bela Geneviève Bigey (Brigitte Fossey), somos levados a conhecer o passado deste misterioso homem. E é através de cada palavra e pensamento deste conquistador chamado Bertrand que o longa dirigido por Truffaut exala sensualidade. Esta sensualidade, misturada a um erotismo insinuado, era uma das marcas da nouvelle vague, que destacava como deusas absolutas as musas de sua época. E apesar de estar distante do período da nouvelle vague, “O homem que amava as mulheres” bebe direto desta fonte, servindo também como poderosa ferramenta para compreender o cinema de Truffaut, que refletia nas telas a sua própria personalidade. Seus personagens eram um reflexo do próprio diretor desde seu filme de estréia e aqui mais uma vez isto se repete.

Tecnicamente, “O homem que amava as mulheres” não chega perto dos revolucionários filmes da nouvelle vague. Apesar disso, destaca-se a direção de fotografia de Néstor Almendros, que cria um visual colorido, refletindo a empolgação de Bertrand ao ver todas aquelas mulheres andando pela rua. Repare como Almendros muda para o preto e branco durante os flashbacks, refletindo a tristeza do personagem naquele período de sua vida. Observe também como na cena do aeroporto, enquanto Bertrand olha para a sala de espera cheia de homens o visual é pouco colorido, ao passo em que quando ele olha para as pernas femininas a tela se enche de cores, graças também ao auxílio dos figurinos de Monique Dury. Ainda na parte técnica, a montagem dinâmica de Martine Barraqué também colabora para que o filme tenha um ritmo leve e delicioso, reforçado pela trilha sonora de Patrice Mestral.

Além da costumeira elegância na direção, sempre dando enorme importância ao desenvolvimento dos personagens, Truffaut também é o responsável, ao lado de Suzanne Schiffman e Michel Fermaud, pelo maravilhoso roteiro. Repleto de diálogos interessantes e reflexões a respeito da natureza masculina, o roteiro é praticamente um poema que exalta o fascínio dos homens pelas mulheres, como fica evidente no belíssimo momento em que Bertrand narra a sensação que sente ao ver as mulheres andando pelas ruas, “desde que com um vestido ou saia que mexa no ritmo de seus passos”. Truffaut escapa ainda do tom melancólico que a vida solitária de Bertrand poderia provocar através dos alívios cômicos, como as deliciosas conversas entre ele e a moça que telefona todas as manhãs para acordá-lo. Nem todo homem é como Bertrand, mas todos podem admirar sua devoção pela figura feminina. E apesar de muitos se identificarem com o jeito mulherengo do personagem, é possível também que homens “monogâmicos” apreciem as suas palavras, afinal de contas, Bertrand nada mais é do que um completo apaixonado pela mulher em sua essência, com a diferença de que, como disse Geneviève Bigey (interpretada com charme e sensualidade pela bela Brigitte Fossey) em sua reflexão final, ele não encontrou em uma única mulher tudo o que procurava. Talvez essa fosse sua maior tristeza.

Vale observar um truque do diretor que é vital para entender a personalidade de Bertrand. Em um dos flashbacks de sua infância, o homem lembra o jeito apressado de uma prostituta de caminhar – segundo ele buscando enganar os clientes – e em seguida lembra que sua mãe caminhava exatamente da mesma forma. Repare como as duas mulheres são interpretadas pela mesma atriz. Está aí a chave para entender o personagem. O complexo de Édipo nunca foi tão trágico como neste caso. Repetindo uma das características de seus filmes, Truffaut busca inspiração em sua própria história de vida, pois assim como Bertrand, ele também tinha problemas de relacionamento com sua mãe (algo que ficou evidente desde “Os Incompreendidos”) e é provável que esta relação conturbada com sua mãe tenha gerado o seu amor incondicional pelas mulheres (“Minha mãe costumava andar seminua na minha frente, não para me provocar, mas para ter a impressão de que eu não existia”, diz Bertrand).

Fica evidente, portanto, que Bertrand pode ser considerado mais uma versão cinematográfica de seu diretor. Ele vive para conquistar as mulheres e vê a beleza existente em cada uma delas. “Algumas são tão belas vistas por trás que hesito em ultrapassá-las, temendo ficar decepcionado. Porém, nunca me desaponto. Quando elas não me agradam de frente, me sinto aliviado de certa maneira; pois, infelizmente, não posso ter todas elas.”, reflete. E por mais cafajeste que possa parecer, o personagem conquista o espectador com sua maneira simples e sincera de ver a situação. “Mas o que têm todas essas mulheres? O que têm a mais do que todas as outras que conheço? Bem, justamente, o que têm a mais é isso: elas ainda me são desconhecidas”. Esta frase resume Bertrand perfeitamente. Ele não quer compromisso com uma mulher, ele quer todas elas. E se mesmo com sua “cafajestagem” Bertrand conquista a empatia do espectador é também graças à boa atuação de Charles Denner, que demonstra a inquietação e os desejos do conquistador com competência, além de emocionar o espectador no único momento em que parece sofrer de verdade por uma mulher, quando reencontra uma amante em Paris enquanto negociava a divulgação de seu livro. O dilema do personagem é tragicamente belo. Ao mesmo tempo em que parece amar toda mulher que aparece em sua frente, Bertrand, na realidade, se sente incompleto por não conseguir encontrar um amor de verdade.

“O homem que amava as mulheres” pode até ser acusado de ser um filme machista. Mas esta acusação seria, no mínimo, de uma injustiça sem tamanho. A história do “conquistador” Bertrand, na realidade, revela a profunda admiração e o amor infindável que Truffaut nutria pelas mulheres. Através das palavras e pensamentos do homem galanteador, o diretor revela parte de sua personalidade e entrega um filme impecável. Por tudo isto, podemos dizer que, além de amar profundamente as mulheres, Truffaut também amava perdidamente o cinema.

Texto publicado em 25 de Setembro de 2010 por Roberto Siqueira

ALPHAVILLE (1965)

(Alphaville, Une Étrange Aventure de Lemmy Caution)

 

Filmes em Geral #13

Dirigido por Jean-Luc Godard.

Elenco: Eddie Constantine, Anna Karina, Akim Tamiroff, Jean-Louis Comolli, Jean-André Fieschi, Howard Vernon e Michel Delahaye.

Roteiro: Jean-Luc Godard, baseado em poema de Paul Éluard.

Produção: André Michelin.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Dirigida por Jean-Luc Godard, “Alphaville” é uma ficção científica diferenciada, claramente inspirada pelos filmes noir, que foca mais nos aspectos filosóficos e existenciais do que nos avanços tecnológicos que o futuro pode proporcionar. Com seu costumeiro apreço pelo aspecto técnico, Godard consegue criar um longa futurista extremamente sombrio, que remete diretamente ao lado negro da humanidade, quando esta deixa de dar o devido valor aos sentimentos e a relação humana para favorecer a tecnologia.

A estranha cidade de Alphaville é o alvo de uma investigação comandada pelo agente Lemmy Caution (Eddie Constantine), que parte para o local após o insucesso de outros agentes na região. Ao chegar à cidade, controlada pelo computador Alpha 60 – que age como um ser onipresente, capaz de ver a tudo e a todos -, o agente parte em busca do professor Von Braun, para convencê-lo a destruir a famosa máquina, que simplesmente aboliu os sentimentos dos habitantes locais. Curiosamente, Caution encontra em seu caminho a jovem Natacha (Anna Karina), filha do professor, que servirá como guia em sua empreitada.

Jean-Luc Godard reafirma em “Alphaville” sua atração pelo cinema experimental, abusando de planos ousados, como uma curiosa tomada aérea durante uma perseguição automobilística, e conduzindo interessantes seqüências, como as que se passam dentro de um quarto de hotel, onde o espectador jamais sabe o que esperar quando os personagens passam por trás da cama onde Caution se deita. Demonstra ainda mais ousadia ao apresentar quebras de eixo, quando Caution abre a porta do guarda-roupa de Henri Dickson (Akim Tamiroff), personagens procurando a posição da câmera, na cena do poema entre Natacha e Caution, imagens em negativo, quando Caution luta com um segurança na garagem, e desrespeito pela continuidade de tempo e espaço, quando Caution abre seguidas portas, sempre com Natacha escondida atrás delas. Além disso, o diretor conta com a montagem nada convencional de Agnès Guillemot, que, por exemplo, alterna planos convencionais com expressões algébricas que piscam na tela.

Ao contrário do visual arrebatador da avançada “Metropolis” de Fritz Lang, Godard cria uma cidade futurista decadente, bastante parecida com qualquer grande cidade dos anos sessenta, nos jogando pra dentro daquele ambiente sombrio e amargo de maneira eficiente. Para isto, conta com o excelente trabalho de direção de arte, que, por exemplo, capricha nos detalhes da enorme central de controle de Alphaville, e com a obscura direção de fotografia de seu costumeiro colaborador Raoul Coutard, que mergulha o espectador em ambientes pouco iluminados, refletindo a angústia de Caution naquele local nada hospitaleiro. A narrativa é conduzida por uma espécie de narrador, que somado ao visual sombrio e predominantemente noturno do longa, revela a clara inspiração nos filmes noir. Vale notar também que de maneira mais explícita e menos sutil que no cinema de Truffaut, o erotismo e a sensualidade também estão presentes nos filmes de Godard. Em “Alphaville” não é diferente e, ainda que neste caso a maioria das mulheres tenha um papel apenas secundário numa sociedade que aboliu o amor, a carga erótica se faz presente, por exemplo, através das acompanhantes que se oferecem à Caution ou da mulher presa nua dentro de um vidro, que serve também para revelar a forma como aquelas pessoas olhavam para a mulher. Numa sociedade sem sentimentos, a mulher se tornou mero objeto sexual. Finalmente, a trilha sonora de Paul Misraki pontua os momentos de suspense, algumas vezes de maneira exagerada, e os momentos românticos, sempre que Natacha está em cena.

Godard é responsável também pelo excepcional roteiro, baseado em poema de Paul Éluard, que não mede esforços para criticar duramente uma sociedade voltada para o pensamento puramente racional, que não abre espaço em nenhum momento para a emoção e para a criação, inibindo os sentimentos e resultando numa sociedade sem conteúdo. Em “Alphaville”, Godard prova que a ciência (razão), por mais importante e necessária que possa ser (e realmente é), não substituirá jamais o sentimento humano (emoção) – e a busca do homem pelo entendimento de coisas sem lógica alguma é algo que a ciência jamais explicará. Na cidade onde é proibido ter sentimentos, fazer questionamentos e criar algo que não siga a “lógica”, o amor inexiste, o que a transforma numa cidade amedrontadora, onde cada cidadão é apenas um número e a sociedade acaba sendo dominada por uma incrível falta de propósitos ou objetivos individuais. Num mundo dominado pela lógica, a criação inexiste, pois não há espaço para a busca do diferente e ninguém ousa “tentar o que não foi tentado ainda”. Sendo assim, inexiste também a arte, e “Alphaville” crítica duramente o racionalismo exagerado no excepcional diálogo entre Caution e Alpha 60, quando a máquina pergunta “O que transforma as trevas em luz?” e o homem responde “a poesia”.

A interpretação de Eddie Constantine como Lemmy Caution, aliás, é bastante competente, transmitindo segurança naquilo que busca e jamais esmorecendo diante daquela cidade tão ameaçadora. Uma espécie de detetive futurista destemido que parte em busca de respostas na racional e fria Alphaville, Caution se mostra um homem inabalável, inteligente e, exatamente por isso, difícil de ser decifrado pelo inteligente computador. Em todo momento Caution mostra que será difícil convencê-lo a seguir as regras locais, o que o transforma numa séria ameaça para o controle da cidade e torna seus deliciosos diálogos com o computador Alpha 60 em momentos tensos e imprevisíveis. E por falar no responsável pelo controle de Alphaville, a perturbadora voz do temível “Alpha 60” é destas coisas que só o cinema é capaz de produzir e ficam na memória do espectador eternamente. Ainda dentro das atuações, vale destacar a charmosa Anna Karina, que transmite toda a insegurança de Natacha von Braun, uma mulher afetada pelo rígido método de controle local e que foi obrigada a “apagar” da memória todo e qualquer registro de sentimento que pudesse carregar. Mas até mesmo onde tudo é cuidadosamente controlado, sempre existirá espaço para o amor. Inconscientemente, Natacha sabe que Caution é sua única esperança de mudar sua situação, o que permite com que a paixão floresça entre ambos e Caution acabe sendo o responsável por sua redenção.

De maneira proposital, Godard mostra um futuro não muito distante da Paris dos anos sessenta neste interessante “Alphaville”, que faz uma crítica à sociedade de sua época e às limitações impostas por regras, inclusive dentro da indústria cinematográfica. Num local onde até mesmo as palavras eram controladas, não existia espaço para os sentimentos e para a arte. Felizmente, Godard não seguia regras pré-estabelecidas e era capaz de produzir grandes filmes, como é o caso de “Alphaville”.

Texto publicado em 24 de Setembro de 2010 por Roberto Siqueira

O DESPREZO (1963)

(Le Mépris)

 

Filmes em Geral #12

Dirigido por Jean-Luc Godard.

Elenco: Brigitte Bardot, Michel Piccoli, Jack Palance, Fritz Lang e Giorgia Moll.

Roteiro: Jean-Luc Godard, baseado em romance de Alberto Moravia.

Produção: Georges de Beauregard e Carlo Ponti.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Neste excelente “O Desprezo”, estrelado por Michel Piccoli e pela sex symbol da época Brigitte Bardot, Godard utiliza o relacionamento conturbado de um casal para mostrar, nas entrelinhas, seu modo de ver o cinema como arte ao mesmo tempo em que critica o cinema estritamente comercial.

O roteirista Paul Javal (Michel Piccoli) vai a Roma para trabalhar numa adaptação da obra “A Odisséia”, que contará com o diretor alemão Fritz Lang (interpretado pelo próprio Lang). Enquanto acerta os últimos detalhes para aceitar o trabalho e assinar o contrato, sua relação com sua bela esposa Camille (Brigitte Bardot) começa a desmoronar, principalmente após a aparição do produtor de cinema Jeremy Prokosch (Jack Palance).

O criativo e experimental Jean-Luc Godard já inicia “O Desprezo” inovando ao apresentar os créditos com sua própria voz, sem os tradicionais caracteres na tela. Mais contido que o habitual, o diretor ainda assim consegue criar planos interessantes, como durante uma conversa em que o casal Javal, sentado frente a frente, expõe a verdade quanto aos sentimentos de um pelo outro e a razão pela qual cada um está magoado. A câmera se movimenta de um lado para o outro horizontalmente, dando ao espectador a sensação de estar acompanhando um duelo entre os dois personagens. Depois desta discussão, eles saem de carro e Camille aparece envolvida pela escuridão, refletindo o sentimento de tristeza da personagem e revelando o bom trabalho do diretor de fotografia Raoul Coutard. Coutard e Godard também aproveitam muito bem a beleza estonteante da paradisíaca Ilha de Capri, criando planos belíssimos. Vale destacar ainda a cena em que Paul grita por Camille numa escadaria, já na ilha, em que Godard filma de muito longe, diminuindo o personagem na tela e, desta forma, refletindo sua pequena importância pra Camille naquele momento. Finalmente, o diretor francês utiliza a metalingüística para alfinetar os produtores de cinema, como podemos observar na cena em que todos estão na sala de projeção e o produtor diz que entende como os deuses se sentem. A crítica vem na frase de Fritz Lang: “não foram os deuses que criaram os homens, mas os homens que criaram os deuses”.

O excelente roteiro do próprio Godard é repleto de ácidos diálogos entre o casal principal, intercalados com críticas à figura do produtor que só pensa no lucro em detrimento da qualidade do espetáculo (“Quando ouço a palavra ‘cultura’ puxo o talão de cheques”, diz Prokosch). Ao mesmo tempo em que faz uma interessante análise sobre a natureza imprevisível das relações humanas, Godard mostra sua visão diferenciada sobre cinema e sua insatisfação com o cinema puramente comercial. Além disso, utiliza a história da Odisséia para traçar dois inteligentes paralelos. O primeiro é com a própria história de Paul e Camille, como fica evidente numa conversa entre Paul e Lang sobre Ulisses e Penélope, que claramente faz alusão à relação do casal. O segundo paralelo traçado fala a respeito da relação entre produtores (deuses) e diretores (homens), na citada cena da sala de projeção. O desprezo de Paul por Camille, agravado por sua brincadeira ousada com Francesca Vanini (Giorgia Moll), provocou a traição e o fim do desejo de sua esposa por ele e a narrativa consistente de Godard mostra este processo naturalmente. Mas Godard também quer falar, ainda que de forma sutil, sobre outro tipo de “desprezo”. É o desprezo dele próprio pela forma convencional de fazer cinema, em especial pela figura do produtor que favorece o dinheiro em detrimento da arte, como fica claro na conturbada relação entre produtor, diretor e roteirista exposta no longa.

A montagem dinâmica de Agnès Guillemot insere, em determinado momento, imagens já vistas anteriormente em forma de flashbacks, visando reforçar a curiosa narração em off dos personagens. Além disso, divide a narrativa claramente em três partes. Na primeira, a relação do casal começa a ter problemas graças ao convite de Prokosch, enquanto a segunda foca as discussões acaloradas do casal. Finalmente, o terceiro ato mostra o trágico desfecho deste conturbado relacionamento. A progressiva e lenta destruição do relacionamento do casal é pontuada ainda pela melancólica e tragicamente bela trilha sonora de Georges Delerue.

Entre as atuações, vale destacar Michel Piccoli, que se sai muito bem como Paul, com destaque para os duelos verbais com Bardot. Jack Palance interpreta o detestável Prokosch com elegância, enquanto Fritz Lang interpreta a si mesmo, o que obviamente facilita muito seu trabalho. Giorgia Moll complementa o elenco vivendo Francesca Vanini, que apesar da discreta participação, tem papel fundamental na briga do casal Javal. Mas quem rouba mesmo a cena é Brigitte Bardot, que exala sensualidade em praticamente todas as cenas em que aparece, mas também demonstra talento nos momentos dramáticos. Cínica e destemida, ela transmite com exatidão o quanto Camille está magoada com o marido, supostamente porque ele não demonstrou ciúme por ela. Tudo que Camille queria era que o marido demonstrasse que se importa com ela, como na primeira cena da ilha, quando Paul parece não se importar com sua saída com Prokosch. Repare como no momento em que diz “pode ir”, Godard dá um close em seu rosto, destacando sua frieza. O desprezo dele fez com que a paixão de Camille lentamente se esfriasse.

Godard aproveita muito bem a presença da principal musa da época para preencher o longa com diversos momentos repletos de sensualidade, seja através das constantes cenas de nudez total de Bardot, seja através do excepcional roteiro, como durante uma leitura de Paul sobre um diferente concurso ou na primeira conversa do casal deitado numa cama. Além disso, o erotismo sugerido e pouco explícito característico da nouvelle vague aparece, por exemplo, quando Bardot sai da banheira e deixa a toalha escapar mostrando parte das costas e coxas. Ousadia pura para a época, que também se fazia presente no roteiro, por exemplo, através dos palavrões de Camille numa discussão com Paul.

O lindo plano final que destaca o mar azul de Capri, seguido pela palavra “silêncio” gritada por Lang, reflete a sensação do espectador diante do trágico final de “O Desprezo”. O vazio que sentimos é por saber que aquela relação caminhava naturalmente para o final, assim como tantas outras que conhecemos, e nada podíamos fazer a respeito. Não bastasse este interessante estudo do relacionamento humano, o diretor ainda aproveitou para deixar, de forma sutil, sua crítica ao cinema convencional. Palmas pra ele.

Texto publicado em 23 de Setembro de 2010 por Roberto Siqueira