ROCKY III – O DESAFIO SUPREMO (1982)

(Rocky III)

3 Estrelas 

 

Videoteca do Beto #219

Dirigido por Sylvester Stallone.

Elenco: Sylvester Stallone, Talia Shire, Burt Young, Carl Weathers, Burgess Meredith, Tony Burton, Mr. T, Hulk Hogan, Ian Fried, Bob Minor, Frank Stallone e Stu Nahan.

Roteiro: Sylvester Stallone.

Produção: Robert Chartoff e Irwin Winkler.

Rocky III - O Desafio Supremo[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Novamente após um intervalo de 3 anos após o lançamento do filme anterior, Stallone voltava as telonas com o terceiro filme da franquia “Rocky”, algo completamente esperado após o sucesso dos longas anteriores. Desta vez abandonando um pouco o tom intimista e sombrio que cercava aquele universo recheado de personagens interessantes, ele decide apostar numa abordagem mais leve e direta, com toda a cara da época em que foi criada. Assim, “Rocky III – O Desafio Supremo” surge com todos os excessos oitentistas, o que tira parte do peso dramático característico do personagem, ao menos até que uma tragédia resgate o tom melancólico.

Mais uma vez assumindo roteiro e direção, Stallone nos apresenta em “Rocky III” a evolução da carreira do agora astro Rocky Balboa, até que ele finalmente volte a ser derrotado, desta vez por um lutador promissor chamado Clubber Lang (Mr. T), que aproveita muito bem a chance de bater o campeão quando este surge abalado pelo estado de saúde de seu treinador – que, infelizmente, faleceria após a luta. Transtornado, Rocky aceita a proposta do ex-adversário Apollo Creed (Carl Weathers), que deseja treiná-lo para uma revanche com Lang em troca de um favor.

Como de costume, Stallone inicia o filme recordando o final do anterior, o que além de refrescar a memória dos espectadores (lembremos que 3 anos separavam um longa do outro), também resgata o espírito de superação que caracteriza a série, reforçado pelo clipe que surge em seguida e resume as inúmeras vitórias de Rocky ao som da empolgante “Eye of the tiger”, do Survivor, que se tornaria uma referência automática às lutas de boxe a partir dali. Desta vez abrindo mais espaço para Paulie, como fica evidente logo no início quando ele demonstra suas angústias e frustrações na infantil discussão com Rocky num estacionamento, o roteiro não investe tanto no desenvolvimento dos personagens como este início faz parecer, adotando uma abordagem bem humorada em boa parte do tempo, exemplificada perfeitamente na participação do então astro de luta livre Hulk Hogan como o canastrão Thunderlips, numa luta arranjada tão caricatural que chega a ser divertida.

Igualmente espalhafatoso é o Clubber Lang interpretado por Mr. T, que tenta chamar a atenção com sua postura agressiva e polêmica, algo muito característico também no mundo do boxe. Enquanto Rocky havia se transformado num astro que agora finalmente conseguia estrelar propagandas e cujo os treinamentos mais pareciam fazer parte do show business, Clubber Lang pega pesado para entrar na melhor forma possível, especialmente após derrotar Rocky no primeiro confronto e aceitar a revanche.

No entanto, a primeira luta é que reserva o momento de maior peso dramático do longa, indicado algumas vezes antes de se consumar através da resistência de Mickey (Burgess Meredith, novamente bem no papel) em abandonar a aposentadoria e treinar Rocky uma última vez, das dores que ele sente e de alguns diálogos e até mesmo movimentos de câmera. Observe, por exemplo, como a câmera lentamente nos aproxima de Rocky e Mickey quando ele convence o treinador a largar a aposentadoria e treiná-lo em mais uma luta através de um lento zoom, simbolizando a reaproximação de ambos, e compare com o movimento inverso que diminui ambos no fim do treinamento que antecede a luta, indicando sutilmente a nova separação de ambos e a tragédia que viria a acontecer. É como se Rocky tivesse uma última oportunidade de se aproximar do amigo e treinador antes da despedida.

Astro de luta livreEspalhafatoso Clubber LangFim do treinamento

Agora com a carreira engrenada, Rocky equilibra muito bem a profissão e a vida pessoal, reservando momentos para cuidar do filho que se tornam singelos e ajudam na solidificação do personagem, reforçando seu carisma junto ao público. Só que sua postura demasiadamente confiante quando se trata do boxe denota que o sucesso talvez tenha lhe subido a cabeça, mesmo que por um curto período de tempo. Assim, quando ele finalmente volta a ser derrotado, o choque de realidade se concretiza e traz um conflito pessoal firmado na desconfiança. Repare que, diferente da estrutura narrativa dos dois primeiros filmes, aqui temos uma luta antes de uma hora de projeção, o que alimenta o desejo dos fãs de ver Rocky mais tempo no ringue, mas a comovente morte de Mickey transforma a atmosfera do filme – e Stallone transmite a dor do personagem com tanta paixão que nos faz sofrer ainda mais.

A fotografia de Bill Butler então muda radicalmente e traz à tona o visual sombrio, notável quando Apollo surge para convencer Rocky a voltar a lutar e ser treinado por ele. Só que, devastado psicologicamente, Rocky não consegue render nos primeiros treinamentos, mesmo com todo o apoio do amigo Apollo. Adotando uma postura mais tranquila, Carl Weathers confere mais humanidade ao personagem e sua empatia com Stallone é essencial para o sucesso do longa. A amizade dos dois, aliás, é um dos pontos altos do filme. Quem também mostra enorme evolução é Adrian, agora uma mulher muito mais confiante e segura, capaz de falar com autoridade no marcante diálogo na praia em que questiona Rocky e todo seu sofrimento e o faz encontrar forças para voltar a treinar com a mesma determinação de antes, nos levando a já tradicional sequência de treinamento embalada pela clássica “Gonna fly now”, mas que agora não surge tão inspirada e empolgante como as anteriores, talvez por conta do ambiente diferente e do ritmo empregado pelos montadores Mark Warner e Don Zimmerman.

Cuida do filhoApollo convence Rocky a voltar a lutarMarcante diálogo na praia

Ainda que consiga transmitir emoção ao nos colocar dentro do ringue com a câmera se movimentando bastante sem nos deixar confusos e o design de som dando maior realismo ao que vemos na tela através do som dos golpes e das reações do público e dos narradores, a luta final segue a mesma fórmula das anteriores e demonstrava um certo desgaste. Ciente disto, o roteiro nos reserva um momento intimista, simpático e extremamente importante para nos aproximar ainda mais de Rocky e Apollo ao trazê-los divertindo-se numa revanche privada, escondida do grande público. Ali, eles deixam o panteão dos campeões e se tornam duas pessoas normais, com dúvidas, anseios, angústias e vontades, tirando a limpo de forma descontraída algo que por algum tempo os incomodou. O filme acerta ainda ao encerrar antes do primeiro golpe, deixando a dúvida sobre quem venceria aquele duelo privado, já que, no fim das contas, o resultado pouco importa. Já sabemos o mais importante sobre aqueles dois grandes homens.

Apesar de ter bons momentos e de manter algumas características importantes da série, “Rocky III – O Desafio Supremo” demonstrava os primeiros sinais de desgaste da fórmula que consagrou o lutador. Felizmente, assim como seu personagem, Stallone sabia como se reinventar e não seguiria este caminho por muito tempo.

Rocky III - O Desafio Supremo foto 2Texto publicado em 17 de Fevereiro de 2016 por Roberto Siqueira

ROCKY II – A REVANCHE (1979)

(Rocky II)

4 Estrelas

 

Videoteca do Beto #218

Dirigido por Sylvester Stallone.

Elenco: Sylvester Stallone, Talia Shire, Burt Young, Carl Weathers, Burgess Meredith, Tony Burton, Joe Spinell, Sylvia Meals, Frank McRae, Leonard Gaines, John Pleshette, Allan Warnick, Stuart K. Robinson, Paul Micale, Fran Ryan, Taurean Blacque, Stu Nahan, Taaffe O’Connell, Paul McCrane e Frank Stallone.

Roteiro: Sylvester Stallone.

Produção: Robert Chartoff e Irwin Winkler.

Rocky II – A Revanche[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após o enorme sucesso de público e crítica que tirou Sylvester Stallone do ostracismo, a continuação de “Rocky, um lutador” era ansiosamente aguardada e não apenas em Hollywood. Foram necessários 3 anos para que a espera terminasse e, felizmente, o resultado seria novamente satisfatório. Apostando mais uma vez no desenvolvimento de seu carismático personagem e do universo em que ele vive, o longa deixa a aguardada revanche em segundo plano, provando que Stallone não estava somente preocupado com os milhões de dólares que certamente viriam das bilheterias. Para ele, aquele personagem era mais do que uma fonte de renda, era também um reflexo nas telas da luta que ele próprio enfrentou para chegar ali.

Novamente escrito pelo próprio Stallone, que agora acumula também a direção, “Rocky II – A Revanche” começa relembrando os momentos finais de seu antecessor, resgatando imediatamente o espírito do longa e ambientando novamente o espectador naquele universo. No entanto, desta vez Rocky (Stallone) surge determinado a desfrutar de uma nova vida ao lado de sua esposa Adrian (Talia Shire), buscando um emprego que o mantenha distante dos ringues. Só que a dura realidade do mercado de trabalho tornaria as coisas mais difíceis e levaria o lutador a repensar sobre a proposta do campeão mundial Apollo Creed (Carl Weathers), que deseja uma revanche para provar que não venceu Rocky por sorte.

De maneira inteligente e até mesmo corajosa, Stallone descontrói aquele que era o motor do sucesso do filme anterior, desmistificando o tal sonho americano em que um desconhecido (o underdog) consegue conquistar seu lugar ao sol quando a oportunidade surge, mostrando que a realidade não era bem essa para a maioria das pessoas (algo que, de alguma forma, já existia em “Rocky, um lutador” se pensarmos nos tantos outros boxeadores que frequentavam a academia em que ele treinava sem terem grandes perspectivas pela frente a não ser os poucos dólares que recebiam para lutar). E longe dos ringues, mesmo Rocky era apenas mais um buscando um emprego digno e boas condições para viver, numa realidade distante daquela pregada pelos defensores do american dream. É verdade que ele até consegue um emprego, mas não da maneira que gostaria, utilizando novamente sua força física, agora no frigorífico onde Paulie trabalhava. Só que, em tempos de crise, a empresa decide demiti-lo alegando que ele não tem muito tempo de casa, numa desculpa qualquer que não ameniza em nada a situação e que acontece ano após ano nas corporações mundo afora.

Antes disso, Rocky surge empolgado com a chance recebida na vida e com os dólares que lucrou na luta, rapidamente mudando de status ao comprar uma nova casa, um carro e roupas – observe a jaqueta com um tigre nas costas que, somada às cores do uniforme que ele usa na luta e ao tigre que presencia o pedido de casamento, curiosamente faz uma alusão talvez não intencional à famosa música que surgiria no terceiro filme (figurinos de Sandy Berke Jordan e Tom Bronson). Enquanto Rocky se empolga, Adrian se mantém mais comedida e reticente, ciente de que o mercado de trabalho não seria tão complacente com um homem que mal sabia ler e que se destacava pela força física. O primeiro choque de realidade surge já na tentativa de explorar a imagem de Rocky num comercial, quando ele mal consegue ler as falas e muito menos interpretá-las de maneira adequada, levando o raivoso diretor (John Pleshette) a desistir.

Coerente com o andamento da narrativa, a direção de fotografia de Bill Butler inteligentemente aposta num tom menos sombrio nesta primeira etapa do longa, ilustrando que Rocky e Adrian estão mais felizes somente para retornar ao visual afundado nas sombras no período mais difícil em que ele tentar conseguir um emprego. Observe, por exemplo, como o sol brilhando e a trilha sonora criam um clima alegre quando Rocky surge brincando com crianças na rua e, em seguida, Adrian confirma a gravidez. Compare este momento com a melancólica conversa entre Rocky e seu treinador Mickey no apartamento deste último, na qual o rosto de ambos surge parcialmente encoberto pelas sombras, num momento aliás em que Stallone demonstra seu talento ao dizer com dor quase palpável que precisa daquele ambiente, admitindo que não consegue viver longe dos ringues e daquela rotina de treinamentos. Burgess Meredith também não fica atrás, transmitindo seu incomodo ao ver aquele homem desperdiçando seu potencial. Novamente convincente na pele do treinador Mickey, ele demonstra com seu temperamento explosivo sua obsessão em tirar o melhor de Rocky.

Jaqueta com um tigreRocky brincando com criançasEncoberto pelas sombras

Ao investir todo o primeiro ato na afirmação do relacionamento do casal, Stallone não abre muito espaço para Apollo, que surge esporadicamente para nos lembrar que uma luta estava por vir. Isto ocorre por que o diretor prefere focar nos personagens ao invés do evento que fechará a narrativa, transformando “Rocky II” num filme muito mais sobre o relacionamento entre Rocky e Adrian do que sobre a revanche em si (apesar do subtítulo brasileiro indicar o contrário). Agora mais confiantes e entrosados, Stallone e Shire demonstram grande empatia, o que ajuda bastante a tornar a relação crível e conquistar o espectador. Surgindo num vestido vermelho quando Rocky deixa o hospital que simboliza sua nova fase na vida, superando em parte a timidez e se permitindo viver uma paixão, a Adrian de Talia Shire é mais do que o clichê machista “todo grande homem tem uma grande mulher por trás” sugere, assumindo o comando da casa e o sustento do lar. Mesmo grávida, ela trabalha para trazer dinheiro enquanto Rocky tenta se encontrar.

Já Carl Weathers surge menos caricato (mas não tanto), demonstrando nos poucos instantes em cena como Apollo remói a luta vencida por pontos contra Rocky e, principalmente, a repercussão daquela histórica luta. Agindo de maneira irracional e irritadiça muitas vezes, como no encontro dos pugilistas no hospital logo após a primeira luta, ele mantém as reações exageradas que se contrapõem ao lado centrado e até ingenuamente sarcástico de Rocky. Observe, por exemplo, como na entrevista coletiva, Apollo está mais agitado, bancando o durão, enquanto o deboche típico destes eventos pré-luta surge na voz de Rocky, que faz diversas piadas e diverte os repórteres.

Esta inocência ilustra uma das características mais fortes e marcantes de Rocky: a humanidade. Vivendo o personagem que parece ter nascido para interpretar, Stallone confere este lado humano com precisão ao boxeador, algo que fica evidente quando ele visita o quarto do oponente no hospital e pergunta se ele deu o seu melhor, demonstrando que ele próprio duvidava se o campeão tinha lutado com afinco. E que boxeador que não o humano Rocky pararia na frente da Igreja instantes antes de subir ao ringue somente para pedir aos berros no meio da rua a benção do padre? Este tipo de atitude humaniza Rocky Balboa e o aproxima do espectador. Só que Rocky também tem seus segredos, como podemos notar quando ele ri ao ver a caricatura de Apollo lhe esmagando num jornal, mas ao entrar no banheiro e isolar-se dos demais, demonstra estar chateado, algo reforçado pela câmera em plongée que o diminui em cena. Rocky é assim, um ser humano com qualidades e defeitos e não um destemido e perfeito herói.

Grande empatiaEncontro dos pugilistas no hospitalChateado

Reticente quanto a possibilidade de Rocky voltar a lutar, Adrian passa mal e o bebê nasce de forma prematura, colocando em risco a vida da mãe, o que leva o protagonista a sofrer muito e pensar em desistir da luta. Neste instante, Stallone e seus montadores Stanford C. Allen e Janice Hampton empregam um ritmo mais lento, que alterna entre silenciosas cenas na igreja e o sofrimento do protagonista diante do leito da esposa no hospital, o que cria o contraponto ideal para o momento em que ela acorda e, surpreendentemente, pede que ele vença a luta. A trilha sonora e a reação do treinador anunciam a mudança de ritmo da narrativa e dão início a mais uma empolgante sequência de treinamento embalada pela clássica música tema de Bill Conti. Consciente do poder desta sequência, Stallone trabalha na construção da imagem icônica do personagem, abusando de closes e planos que valorizam as corridas pelas ruas da Philadelphia e encerrando em câmera lenta já nas famosas escadarias do Museu de Arte, chegando a congelar a imagem do protagonista para gravá-la ainda mais na memória do espectador.

Chegamos então a aguardada revanche, numa luta mais circense e menos realista que a do filme anterior, com Rocky mal se defendendo dos violentos golpes do adversário – ainda que a maquiagem que cria os machucados nos boxeadores novamente impressione. Ainda assim, o bom ritmo, o excelente design de som que nos joga dentro do ringue e a interpretação dos atores tornam tudo mais crível, nos levando ao ápice no round final onde o suspense (de certa forma até exagerado, mas que funciona) antecede a vitória de Rocky, fazendo a plateia na tela e fora dela explodir de alegria. Vale ainda observar como após a luta Apollo se redime e admite a grandeza de Rocky, num indício do que seria a relação entre eles a partir do terceiro filme.

“Rocky II – A Revanche” cumpre sua proposta ao trazer novamente Rocky para o ringue, mas outra vez decide ir além da luta e, assim como o treinador Mickey faz com o boxeador, consegue explorar todo o potencial dramático que o personagem tem.

Rocky II – A Revanche foto 2Texto publicado em 16 de Fevereiro de 2016 por Roberto Siqueira

ROBOCOP 3 (1993)

(RoboCop 3)

2 Estrelas

 

 

Videoteca do Beto #217

Dirigido por Fred Dekker.

Elenco: Robert John Burke, Nancy Allen, Mario Machado, Remy Ryan Hernandez, Jodi Long, John Posey, Rip Torn, Mako, John Castle, S.D. Nemeth, CCH Pounder, Bradley Whitford e Daniel von Bargen.

Roteiro: Fred Dekker.

Produção: Patrick Crowley.

RoboCop 3[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Mesmo após uma continuação claramente inferior ao longa original, a marca RoboCop ainda seguia em alta e justificava a produção de outra continuação, ao menos em termos comerciais. No entanto, se “RoboCop 2” já evidenciava a falta de criatividade dos envolvidos para explorar o interessante tema de maneira eficaz, “RoboCop 3” abandona de vez qualquer pretensão mais ousada tematicamente e investe na criação de um super-herói, falhando miseravelmente na missão e determinando o fim da linha para o policial do futuro – ao menos até a recente refilmagem comandada pelo brasileiro José Padilha.

Assumindo roteiro e direção, Fred Dekker não consegue explorar com eficiência o futuro distópico e o pano de fundo político e social tão presente na franquia, falhando também quando tenta explorar a questão filosófica envolvendo a existência de um robô com resquícios de humanidade, algo que funcionava tão bem no primeiro filme. Contudo, ainda que as discussões provocadas pela ideia da existência do RoboCop, tanto do ponto de vista filosófico quanto pelo social, garantissem boa parte da qualidade de “RoboCop – O policial do futuro”, o fato é que tanto o primeiro quanto o segundo filme contavam também com boas cenas de ação, mas aqui não podemos enumerar uma cena sequer que seja realmente marcante. Assim, Dekker perde a chance de suavizar ou ao menos maquiar a pobreza temática de seu roteiro através das cenas de ação, o que acaba tendo efeito contrário e ressalta ainda mais os problemas do filme.

A trama é simples. Numa Detroit ainda dominada pelo crime, a PCO em parceria com uma empresa japonesa inicia um projeto de realocação de pessoas que vivem em bairros mais pobres conhecido como “Rehab”, retirando-as de maneira forçada para, na realidade, abrir caminho para a construção da nova e lucrativa metrópole chamada Delta City. Mas durante uma destas operações o grupo é surpreendido pela resistência do RoboCop (Robert John Burke), que passa a lutar ao lado dos menos favorecidos e ser encarado como um fora da lei.

Apostando na inversão de papéis ao colocar o protagonista e o espectador do lado oposto ao da lei, “RoboCop 3” até poderia funcionar não fosse a latente falta de talento de Fred Dekker. Ainda assim, o diretor ao menos consegue inserir elementos interessantes, como ao realçar os óbvios interesses econômicos que norteiam as decisões da empresa que comanda a polícia, numa denúncia que, infelizmente, não se tornou anacrônica. Auxiliado pela direção de fotografia de Gary B. Kibbe, o diretor também consegue criar uma boa contraposição entre o visual sombrio do bairro em que as pessoas mais pobres vivem com as cenas coloridas e vivas de Delta City, a cidade prometida. Além disso, o visual acinzentado da PCO reforça as intenções nada nobres do projeto de reabilitação, que nada mais é do que uma pouco disfarçada alusão ao nazismo.

Bairro mais pobreDelta CityProjeto de reabilitação

Repleto de estereótipos, “RoboCop 3” mais parece ter caricaturas do que personagens, algo escancarado no visual punk dos arruaceiros criado pela figurinista Ha Nguyen e em pequenas decisões nada sutis como a escolha do nome da doutora Lazarus (Jill Hennessy). Nada sutil também é a trilha sonora de Basil Poledouris, que surge deslocada em diversos momentos, como quando RoboCop é atacado por policiais. Na mesma linha, as atuações caricatas de grande parte do elenco secundário não ajudam a suavizar o tom estridente do longa.

Ao contrário dos filmes anteriores, a introdução do RoboCop aqui é pouco inspirada e o próprio personagem destoa bastante do robô com resquícios de humanidade e de certa forma amargurado que conhecíamos até ali. Desta vez vivido por Robert John Burke, o personagem até tem momentos interessantes, como ao tomar uma decisão consciente (algo que já ocorrera antes) e ao viver uma cena sentimental com uma criança, mas já não possui o carisma inegável de antes.

E se o protagonista não funciona como antes, as cenas de ação são ainda piores, falhando miseravelmente em praticamente todo o longa. Incapaz de gerar tensão ou orquestrar ações interessantes ao lado de seu montador Bert Lovitt, Dekker ainda atenua a violência, reduzindo o impacto das ações dos vilões; vilões estes que surgem nada ameaçadores, como é o caso do ninja Kanemitsu vivido por Mako. A luta dele com RoboCop é péssima e serve como exemplo da ineficácia das cenas comandadas pelo diretor. Para piorar, os efeitos visuais soam totalmente datados, o que fica evidente quando o RoboCop surge voando no ato final, numa decisão que confirma a intenção de transformá-lo num super-herói e garantir a venda de alguns milhares de bonecos para as crianças da época.

ArruaceirosJá não possui o carisma de antesNinja Kanemitsu

E se o clímax é fraco como o restante do filme, ao menos temos uma boa cena, talvez a única, quando os policiais largam o emprego e decidem lutar ao lado do herói (ok, vamos assumir logo a transformação).

Pra quem começou a trajetória no cinema propondo ao mesmo tempo reflexões filosóficas e questionamentos políticos e sociais, RoboCop encerrava sua passagem pelas telonas de forma melancólica, num desfecho tão desolador quanto o futuro distópico que o cerca.

RoboCop 3 foto 2Texto publicado em 31 de Janeiro de 2016 por Roberto Siqueira

ROBOCOP 2 (1990)

(RoboCop 2)

3 Estrelas 

 

Videoteca do Beto #216

Dirigido por Irvin Kershner.

Elenco: Peter Weller, Nancy Allen, Belinda Bauer, Dan O’Herlihy, Felton Perry, Gabriel Damon, Mario Machado, Tom Noonan, Wanda De Jesus, Tzi Ma, John Glover, John Ingle, Roger Aaron Brown, Mark Rolston, Thomas Rosales Jr., Brandon Smith, Michael Medeiros, Angie Bolling, Robert DoQui e Stephen Lee.

Roteiro: Walon Green e Frank Miller.

Produção: Jon Davison.

RoboCop 2[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Responsável por dirigir a continuação de um enorme sucesso de público e crítica e entregar um filme ainda melhor que seu antecessor, Irvin Kershner parecia o nome indicado para assumir a continuação do sucesso “RoboCop – O Policial do Futuro” após o excelente trabalho realizado em “Star Wars Episódio V – O Império Contra-Ataca”. No entanto, os 10 anos de distância entre uma continuação e outra parecem ter enferrujado o diretor. Sem saber balancear muito bem a ação e o humor, “RoboCop 2” parece mais uma das criações problemáticas da PCO, atirando em diversas direções para acertar em algumas delas e, infelizmente, errar muito também.

Escrito por Walon Green e ninguém menos do que Frank Miller, “RoboCop 2” nos transporta para uma Detroit ainda mais dominada pelo crime e pelas drogas após os policiais locais decidirem entrar em greve até que tenham melhores salários. Entre os poucos que se arriscam nas zonas restritas, RoboCop (Peter Weller) e sua parceira Lewis (Nancy Allen) tentam combater os traficantes da droga nuke, mas os líderes da PCO estão desenvolvendo uma nova versão do ciborgue, com base nos estudos promovidos pela Dra. Juliette Faxx (Belinda Bauer), que promete aprimorar a versão anterior.

Em sua sequência de abertura, “RoboCop 2” retoma uma das principais reflexões trazidas no filme anterior através da propaganda de um sistema antirroubo que simplesmente assassina o assaltante do veículo, levando o espectador a questionar se um crime justifica o outro. Em seguida, as notícias do telejornal nos levam a uma Detroit ainda mais decadente e tomada pelo crime, numa consequência direta da greve promovida pelos policiais em busca de maior reconhecimento. O roteiro aborda ainda outras questões interessantes até mesmo de caráter político, como o domínio da corporação PCO sobre a cidade através da privatização de serviços que teoricamente deveriam ser prestados pelo governo local, privilegiando os interesses obscuros dos empresários em detrimento do bem comum da população, além do envolvimento de policiais no mundo do crime, ainda que este aspecto seja explorado de maneira bem rasa.

Rasos também são muitos dos personagens de “RoboCop 2”, como atesta o odiável chefe da PCO interpretado de maneira totalmente unidimensional por Dan O’Herlihy e o prefeito Kuzak, vivido com muito abuso do overacting por Willard Pugh, numa tentativa de tornar o personagem engraçado que raramente funciona. Quem também não funciona por boa parte do tempo são os vilões liderados por Cain, que não soam ameaçadores até o instante em que capturam RoboCop e devolvem o ciborgue esquartejado, numa cena forte que, somada a tortura do corrupto policial Duffy (Stephen Lee), finalmente consegue fazer o espectador temer pelo destino do protagonista. Esta ameaça é reforçada quando o vilão interpretado por Tom Noonan é assassinado pela Dra. Faxx e transformado no RoboCop 2, criando um oponente a altura de um RoboCop que, até então, parecia indestrutível.

Sistema antirrouboOdiável chefe da PCOTransformado no RoboCop 2

A psiquiatra Faxx, aliás, apresenta conceitos muitos interessantes durante a fase de estudos para simplesmente abandoná-los e tornar-se unidimensional no decorrer da narrativa, num desperdício de boas ideias e do potencial da personagem que é imperdoável, abandonando temas como as motivações que levam alguém a entrar para o mundo do crime e o peso do contexto social naquela formação de personalidade para focar apenas na construção de uma verdadeira máquina de matar. Assim, uma personagem que poderia trazer fortes questionamentos se transforma numa vilã maquiavélica sem razão aparente para isto – e a atuação de Belinda Bauer também se divide em duas etapas bem distintas, surgindo meiga inicialmente e mudando radicalmente para um tom agressivo na metade final da narrativa.

Mais uma vez apresentado numa sequência cuidadosamente planejada, desta vez acompanhando uma série de crimes pela cidade que só serão interrompidos pela presença dele, RoboCop continua impondo respeito com sua armadura intransponível e sua lógica inabalável, que fazem com que o espectador raramente tema por seu futuro. Desta vez oferecendo mais espaço para Peter Weller atuar, o ciborgue continua uma incógnita. Não sabemos se ele age estritamente conforme sua programação ou se ainda existe humanidade dentro dele, como sugere a sequência do diálogo com a esposa no início – num drama que poderia ser melhor explorado, mas que também é descartado pelo roteiro sem razão aparente. Em certo momento, RoboCop toma uma decisão consciente e leva um choque, reiniciando sua configuração, o que depõe contra a visão de que ele deveria agir somente de acordo com o programa, mas esta resposta nunca é dada com certeza, apesar do forte indício de que ele finge seguir as diretrizes, mas na realidade tem consciência própria.

Na condução de toda esta bagunça, Irvin Kershner jamais consegue acertar o tom, oscilando demasiadamente entre a ação e o humor. Enquanto as cenas de ação raramente empolgam, as piadas nitidamente carecem de inspiração, como quando RoboCop surge todo atrapalhado após sua recuperação. Ao menos, se falha miseravelmente como sequência cômica, serve para mostrar como não é simples combater o crime sem ter uma postura mais agressiva e como é tênue a linha que separa um policial de, na tentativa de manter todos dentro da lei, infringi-la. Estes, no entanto, não são os piores momentos, ainda que a sequência que traz crianças assaltando uma loja com roupas de beisebol se esforce para tal. Mais ridículo ainda é o instante em que o RoboCop 2 tenta seduzir uma moça com um pênis de metal (sério?) que, além de descartável e de extremo mau gosto, traz um machismo inacreditável implícito na cena. E se traz crianças participando do mundo do crime, porque não incluir o filho do RoboCop entre os vilões? A óbvia decisão dos roteiristas é escancarada com segundos de filme, estragando algo que poderia até conferir certo peso dramático ao longa.

Psiquiatra FaxxRoboCop continua impondo respeitoRoboCop surge todo atrapalhado

Ao menos os efeitos sonoros e visuais continuam excelentes e a trilha sonora de Leonard Rosenman marca forte presença sublinhando as sequências de ação com frequência maior que no longa anterior. Por outro lado, a fotografia claramente mais colorida de Mark Irwin e o menor grau de violência gráfica escancaram os interesses puramente comerciais por trás do projeto, algo que dificilmente ocorreria caso Paul Verhoeven continuasse na cadeira de diretor. Até temos momentos violentos, como a citada tortura ao policial Duffy, mas nada comparado ao estilo bem mais agressivo do diretor holandês.

Mesmo com tantos problemas, “RoboCop 2” se recupera com o interessante clímax que traz o esperado confronto entre os dois ciborgues, num embate enérgico bem conduzido por Irvin Kershner, obviamente beneficiado pelos excepcionais efeitos visuais. Contudo, esta conclusão não apaga os inúmeros equívocos de um longa que até diverte, mas, assim como o personagem que dá nome ao filme, está bem abaixo de seu antecessor.

RoboCop 2 foto 2Texto publicado em 22 de Janeiro de 2016 por Roberto Siqueira

CORRA QUE A POLÍCIA VEM AÍ (1988)

(The Naked Gun: From the Files of Police Squad!)

3 Estrelas 

 

Videoteca do Beto #215

Dirigido por David Zucker.

Elenco: Leslie Nielsen, George Kennedy, Ricardo Montalban, Priscilla Presley, O.J. Simpson, Susan Beaubian, Nancy Marchand, Raye Birk, Ed Williams e ‘Weird Al’ Yankovic.

Roteiro: Jerry Zucker, Jim Abrahams, David Zucker e Pat Proft.

Produção: Robert K. Weiss.

Corra que a Polícia vem aí[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Apesar de não ter muita conexão com o restante da narrativa, a cena de abertura de “Corra que a Polícia vem aí” resume bem o que é o filme. Se por um lado funciona para gerações mais velhas ao satirizar líderes mundiais da época, por outro as pessoas mais jovens e que não conheçam as figuras ali representadas certamente não verão muita graça naquilo tudo (ainda que seja sempre interessante estudar a história e conhecer o passado, não é mesmo?). Este é o problema de sátiras muito focadas nos acontecimentos de sua época. Com o passar dos anos, elas ficam datadas. No entanto, mesmo deixando de lado estas piadas centradas nos acontecimentos dos anos 80, ainda temos outras muito divertidas que funcionam bem até hoje.

Escrito a oito mãos por Jerry Zucker, Jim Abrahams, David Zucker e Pat Proft (três deles roteiristas da série televisiva que inspirou o filme), “Corra que a Polícia vem aí” traz o atrapalhado detetive Frank Drebin (Leslie Nielsen) numa investigação sobre a tentativa de assassinar seu parceiro Nordberg (O.J. Simpson), que acaba levando-o a colidir com o magnata Vincent Ludwig (Ricardo Montalban) justamente durante a visita da Rainha Elizabeth II (Jeannette Charles) a cidade de Los Angeles.

Após a abertura em Beirut, somos transportados para uma Los Angeles ensolarada e alegre que contrasta bem com os ambientes sombrios percorridos pelo detetive durante a noite, numa composição visual do diretor de fotografia Robert Stevens que remete claramente aos filmes noir. A referência se torna ainda mais óbvia graças à divertida narração em off de Nielsen e a trilha sonora composta por Ira Newborn, que ajudam a construir o clima noir sem jamais perder de vista a atmosfera leve que uma comédia pede, numa mistura não tão simples de se conseguir como parece.

No entanto, mais importante que o visual é a criatividade dos roteiristas na concepção de piadas e gags interessantes, que se acumulam num ritmo agradável graças ao bom trabalho do montador Michael Jablow e a condução do diretor David Zucker. Apostando num humor baseado no exagero e no choque através do absurdo, Zucker demonstra habilidade para manter o interesse do espectador através de sequências como o incêndio na casa de Ludwig, que se apoia em outra cena ocorrida antes em que o proprietário da casa explica detalhadamente o valor de alguns objetos que obviamente serão destruídos pelo desajeitado detetive Drebin, ocasionando o incêndio e a fuga atrapalhada do protagonista.

Ambientes sombriosIncêndio na casa de LudwigLetreiros na tela

O humor baseado no exagero vem acompanhado de muitas piadas sobre o cotidiano dos policiais norte-americanos e referências à cultura pop da época, como numa sequência embalada pela música I’m into something good que termina com letreiros na tela exatamente como era feito nos videoclipes da MTV. Ao satirizar elementos populares da cultura norte-americana, “Corra que a Polícia vem aí” naturalmente cria conexão com grande parte da plateia, mas nada disso funcionaria tão bem não fosse o talento de Leslie Nielsen.

Já famoso pelo sucesso de “Apertem os Cintos… O Piloto Sumiu!”, Nielsen novamente se mostra muito a vontade como protagonista de uma comédia de absurdos, compondo o detetive Drebin como um sujeito sério que não tem a menor noção do que ocorre ao seu redor e que sequer percebe as consequências de seus atos – algo que ele comprova toda vez que estaciona seu carro. Repare, por exemplo, a naturalidade com que ele se pronuncia no engraçado diálogo com a esposa de Nordberg no hospital, diminuindo as esperanças da moça sem piedade e, o que é pior, sem perceber que está fazendo isso. E justamente nesta falta de travas e até mesmo certa inocência que reside o sucesso do personagem.

Sujeito sérioEngraçado diálogoComida chinesa vencida

Particularmente, os momentos que mais me agradam são a piada com comida chinesa vencida na casa dele (a reação de Nielsen ao abrir a embalagem é hilária) e a sequência da partida de beisebol em que ele é o árbitro, na qual as reações exageradas de Nielsen arrancam boas gargalhadas.

Gerações mais novas podem não entender algumas piadas de “Corra que a Polícia vem aí”, mas ainda assim a capacidade de envolver o espectador e de lhe proporcionar diversão está mantida. Ou seja, o longa estrelado por Leslie Nielsen pode até já estar datado, mas ainda continua muito divertido.

Corra que a Polícia vem aí foto 2Texto publicado em 12 de Janeiro de 2016 por Roberto Siqueira

ROBOCOP – O POLICIAL DO FUTURO (1987)

(RoboCop)

4 Estrelas

 

 

Videoteca do Beto #214

Dirigido por Paul Verhoeven.

Elenco: Peter Weller, Nancy Allen, Dan O’Herlihy, Ronny Cox, Kurtwood Smith, Miguel Ferrer, Robert DoQui, Ray Wise, Felton Perry, Paul McCrane, Jesse D. Goins, Del Zamora, Lee de Broux, Calvin Jung, Rick Lieberman, Mark Carlton, Edward Edwards, Michael Gregory, Gene Wolande e Angie Bolling.

Roteiro: Edward Neumeier e Michael Miner.

Produção: Arne Schmidt.

RoboCop – O Policial do Futuro[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Num cenário dominado pela criminalidade, o surgimento de alguém capaz de oferecer real proteção aos cidadãos deveria ser algo a se comemorar. No entanto, oferecer proteção e permanecer dentro da lei não é algo tão simples quanto parece, ainda mais quando, dominadas pelo medo, as pessoas tendam a apoiar a justiça feita pelas próprias mãos, mesmo que, para isso, seja preciso deixar a lei de lado, num paradoxo complexo que oferece elementos para uma discussão quase infinita. Qual é a solução? O ideal seria uma sociedade que não gere criminosos, mas este é outro tema ainda mais complexo que não pretendo desenvolver aqui. E o que isto tem a ver com “RoboCop – O Policial do Futuro”? Simples. Apesar de uma leitura superficial apontar o longa de Verhoeven como um ótimo filme de ação, é perfeitamente possível extrair reflexões muito interessantes sobre a natureza da violência urbana e, principalmente, sobre o nosso comportamento diante dela.

Roteirizado por Edward Neumeier e Michael Miner, “RoboCop – O Policial do Futuro” nos leva a um violento futuro distópico no qual a cidade de Detroit é totalmente tomada pelo crime. É neste ambiente que o policial Alex J. Murphy (Peter Weller) é brutalmente assassinado por traficantes e se transforma na cobaia de um projeto ambicioso que cria um ciborgue de titânio, capaz de enfrentar praticamente sozinho os criminosos locais. No entanto, resquícios de memórias começam a surgir na mente dele e colocam em risco o projeto justamente pela presença de elementos humanos como a saudade e o desejo de vingança.

Auxiliado pelo design de produção de William Sandell e pela fotografia acinzentada de Jost Vacano, Paul Verhoeven concebe uma Detroit extremamente suja e deteriorada que, reforçada pelas notícias de crimes no telejornal e até mesmo pelos violentos comerciais de brinquedos, gera a atmosfera de apreensão e medo pretendida pelo diretor. Neste contexto de extrema violência urbana, fica mais fácil trazer o espectador para o lado da polícia, sem que este se importe muito com as razões pelas quais aquela sociedade caminhou naquela direção extrema, onde um casal de idosos é assaltado por um homem armado até os dentes e moças são atacadas brutalmente pelas ruas.

Desde a abertura, aliás, Verhoeven já estabelece o tom sombrio através da trilha sonora de Basil Poledouris, que sublinha perfeitamente a narrativa e ainda ilustra a adrenalina do espectador quando RoboCop começa a agir nas raras inserções da empolgante música tema. Sempre relevantes num filme futurista como este, os efeitos visuais também funcionam muito bem, ainda que algumas cenas já estejam datadas, especialmente quando envolvem o robô ED209, mas este é um pecadilho quase inofensivo diante do impacto visual proporcionado em “RoboCop – O Policial do Futuro”.

Notícias no telejornalSequência de apresentação de ED209Brutal assassinato de Murphy

É verdade que grande parte deste impacto vem através da violência gráfica que se tornou uma das marcas de Verhoeven, como atestam a sequência de apresentação de ED209 e o brutal assassinato de Murphy, conduzidos sem concessões pelo diretor, que faz questão de realçar o violento resultado de cada tiro contra as vítimas. Além disso, Verhoeven e seu montador Frank J. Urioste imprimem um ritmo seco e direto à narrativa, que torna tudo ainda mais realista por não recorrer a invencionices. Também marcante em sua filmografia, o senso de humor peculiar dá as caras em alguns momentos, como na reação de muitos dos funcionários presentes no massacre promovido por ED209 contra um deles na citada apresentação, na qual parecem nem se importar com o que acabaram de testemunhar. É um tipo de humor sarcástico, quase trágico, que nos faz rir mais pelo absurdo da situação do que por ter alguma graça ali. E é neste tipo de reação provocada no espectador que reside um dos maiores méritos de Verhoeven.

Ganhando destaque como a fiel parceira do protagonista, Nancy Allen compõe Lewis como uma policial determinada, demonstrando real preocupação com o parceiro e destoando das atuações unidimensionais de grande parte do elenco. Isto por que Ronny Cox encarna Dick Jones como um homem detestável, não deixando nenhum espaço para que o espectador compreenda suas motivações, assim como fazem Kurtwood Smith, Ray Wise, Paul McCrane e Jesse D. Goins na pele dos integrantes da gangue que assassina Murphy e comanda o tráfico local. Miguel Ferrer também não colabora ao compor Morton simplesmente como um ambicioso sem escrúpulos, ainda que diante de Dick Jones ele empalideça. Talvez a rara exceção fique por conta de Dan O’Herlihy, que vive o líder da PCO como alguém igualmente ambicioso e obviamente interessado apenas nos lucros que os projetos podem trazer, mas que ao menos tem sabedoria para ouvir todos os envolvidos nos projetos da empresa e demonstra alguma sensibilidade em momentos específicos.

Policial determinadaHomem detestávelLíder da PCO

É curioso notar, aliás, como o roteiro tem o cuidado de abordar aspectos interessantes envolvendo os personagens secundários, como a preocupação dos policiais com o surgimento do RoboCop (“Vão nos substituir?”) e a ligação de um empresário com o tráfico de drogas, ainda que estas questões sejam ofuscadas diante da quantidade de questionamentos que envolvem a criação do personagem título, seja pelo aspecto moral e ético, seja pela reação da plateia diante de suas ações.

Indicando o futuro trágico do policial vivido por Peter Weller através de um close na plaqueta com seu nome no armário que ecoa outra cena ocorrida minutos antes, Verhoeven e sua equipe criam um herói icônico com seu visual metalizado e extremamente funcional após ser transformado num ciborgue, reforçado pelo excepcional design de som que realça a imagem de policial indestrutível através do impacto de seus passos e dos pequenos sons que acompanham cada movimento dele. Além disso, os planos subjetivos durante a cirurgia e nos primeiros momentos da nova vida como RoboCop nos colocam na pele de Murphy e criam a identificação necessária para que o espectador se importe ainda mais com o protagonista, que se torna mais humano através das lembranças de sua família que tanto o atormentam, nos colocando em dúvida sobre a sua natureza. Seria ele somente um programa de computador ou ainda existia algum traço de humanidade ali? O que define a nossa condição humana, afinal? O corpo em que vivemos ou o que se passa em nossas mentes?

Futuro trágicoPlanos subjetivos durante a cirurgiaApresentado com toda a pompa e circunstância

Esta identificação torna mais intensas sequências como o chocante ataque dos policiais contra RoboCop, que se torna ainda mais marcante pela concepção visual de Verhoeven, com seus planos nos colocando sob a mira dos tiros e, posteriormente, envoltos na cortina de poeira que emana do chão. O diretor, aliás, trabalha seu protagonista com esmero desde sua impactante apresentação, quando o vemos rapidamente numa pequena televisão, depois andando atrás de um vidro que deturpa a visão, até que finalmente ele é apresentado com toda a pompa e circunstância. Não são raras as cenas que reforçam a aura icônica do personagem, como quando ele surge em frente às chamas que tomaram conta de um posto ou nos momentos em que a sombra indica sua chegada.

Com o espectador completamente conectado ao protagonista, fica fácil justificar toda e qualquer ação dele. Afinal de contas, numa sociedade tomada pela violência, quem não gostaria de ter um super policial para protegê-lo? E aí reside a grande reflexão provocada pela subversiva obra de Verhoeven. Quais são as nossas reações diante das ações de RoboCop? Obedecendo às suas diretrizes, em teoria ele não pode ser considerado culpado mesmo quando pune um criminoso cometendo outro crime, certo? Então assassinar um criminoso inescrupuloso como Dick Jones a sangue frio somente por que ele acabara de ser demitido e, portanto, não se enquadrava mais em sua quarta diretriz não tem problema algum? Quando RoboCop comete um assassinato, isto não o torna um criminoso também? O final eletrizante na siderúrgica repleto de momentos graficamente violentos (como um dos bandidos sendo corroído pelo lixo tóxico) e a tensa sequência seguinte na PCO nos faz vibrar com a vingança de RoboCop. Justificável? Estamos certos? Que cada espectador reflita a respeito, pois as questões abordadas por “RoboCop – O Policial do Futuro” levam o filme muito além de sua superfície.

Não que esta superfície deva ser menosprezada. Afinal, trata-se de um ótimo filme de ação, com o diferencial que, além das boas sequências regadas a tiros e muito sangue, consegue também levantar uma série de reflexões interessantes.

RoboCop – O Policial do Futuro foto 2Texto publicado em 25 de Novembro de 2015 por Roberto Siqueira

IMPÉRIO DO SOL (1987)

(Empire of the Sun)


5-estrelas

 

Videoteca do Beto #213

Dirigido por Steven Spielberg.

Elenco: Christian Bale, John Malkovich, Miranda Richardson, Nigel Havers, Joe Pantoliano, Leslie Phillips, Masatô Ibu, Emily Richard, Rupert Frazer, Peter Gale, Ben Stiller, J.G. Ballard e Burt Kwouk.

Roteiro: Tom Stoppard, baseado em romance de J.G. Ballard.

Produção: Kathleen Kennedy, Frank Marshall e Steven Spielberg.

Império do Sol[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Dois anos após dirigir seu filme considerado tematicamente mais sério até então, Spielberg voltaria a flertar com uma narrativa menos voltada para o entretenimento puro neste “Império do Sol”, ainda que neste caso a pureza e a inocência trazidas pelo protagonista alivie um pouco o peso de um longa que utiliza a Segunda Guerra Mundial como pano de fundo. Já famoso por sua habilidade na construção de narrativas empolgantes após enfileirar sucessos como “Tubarão”, “Os Caçadores da Arca Perdida” e “E.T. – O Extraterrestre”, entre outros, o diretor parecia trilhar neste instante de sua carreira o caminho da busca pelo reconhecimento artístico que só viria a se consolidar com a obra-prima “A Lista de Schindler”, alguns anos mais tarde. Engana-se, no entanto, quem pensa que os inúmeros sucessos anteriores de Spielberg não tenham grande valor, como prova este sensorial e excelente longa estrelado por um ainda muito jovem Christian Bale.

Escrito por Tom Stoppard com base em romance de J.G. Ballard, “Império do Sol” nos leva ao cotidiano do jovem britânico Jim Graham (Christian Bale) na China, dias antes da invasão japonesa que culminaria na separação de sua família e deixaria o garoto solitário em meio à opressão nipônica, sendo obrigado a encontrar maneiras de sobreviver ao sangrento período da Segunda Guerra Mundial. Levado a um campo de concentração, ele encontra refúgio na companhia de pessoas especiais como o soldado norte-americano Basie (John Malkovich) ou a elegante Sra. Victor (Miranda Richardson), que de maneiras distintas ajudariam o garoto a superar aqueles tempos difíceis.

Auxiliado pela competente direção de fotografia de Allen Daviau, Spielberg aproveita muito bem o famoso nascer e o pôr-do-sol do oriente para criar cenas visualmente belíssimas, que se apoiam na eficiente reconstituição de época do design de produção de Norman Reynolds para transportar o espectador para aquela região do planeta, nesta que foi a primeira produção de Hollywood a conseguir permissão para filmar dentro da República da China, algo que o diretor soube aproveitar em tomadas externas que valorizam as locações, como na invasão dos japoneses em Hong Kong. Mas o cuidado não é apenas estético e o diretor faz questão, por exemplo, de ressaltar o forte contraste entre o luxo que envolve o menino inglês e a miséria representada pelo mendigo que ele observa da janela do carro quando deixa sua mansão e tem contato com a dura realidade dos pobres chineses. Além disso, seu quarto decorado com diversos aviões já anuncia a paixão do garoto pelo tema, o que seria crucial em alguns momentos da narrativa. Finalmente, não dá para deixar de citar o gigante e belo outdoor do filme “E o Vento Levou”, que faz referência a outro épico em que a guerra serve de pano de fundo para a narrativa.

Imagens pôr do solInvasão japonesaPaixão por aviões

Colaborando para criar uma atmosfera épica, a trilha sonora evocativa de John Williams marca presença em diversos momentos de impacto, como quando Jim brinca dentro de um avião caído no gramado próximo a sua residência e imagina estar voando nele, momentos antes de dar de cara com homens do exército e ter seu primeiro contato mais próximo com a realidade da guerra. Igualmente competente, o design de som se destaca em pequenas sutilezas como ao nos permitir distinguir o ricochete de objetos metálicos em meio às bombas que explodem durante a invasão dos japoneses. Spielberg conta ainda com a montagem de seu parceiro Michael Kahn para estabelecer um ritmo contemplativo em diversos momentos, reforçando a natureza épica do longa, destacando-se ainda na sutileza de belas transições como aquela que transforma o sangue de uma vítima na fumaça que surge no horizonte ou nos raros momentos em que acelera o ritmo da narrativa, como na empolgante sequência em que Jim corre pelo campo de concentração enquanto faz diversas tarefas.

Entre o elenco, vale destacar John Malkovich, que transmite sabedoria vivendo o verdadeiro porto seguro de Jim no campo e faz de seu Basie um personagem cativante, assim como Miranda Richardson, que vive a amável Sra. Victor como uma personagem curiosa ao despertar sentimentos díspares no garoto, servindo em certos momentos como a figura materna que tanto lhe fazia falta e, justamente por não ser a mãe biológica do garoto, despertando também sua curiosidade por detalhes da vida adulta como o relacionamento amoroso entre ela e o marido, já que não existia ali o distanciamento natural que a mãe biológica normalmente provoca nos filhos. A título de curiosidade, temos ainda a participação de um ainda desconhecido Ben Stiller como um dos norte-americanos.

Mas o que impressiona de fato é como Bale carrega o filme com facilidade, mesmo ainda criança e lidando com uma temática pesada e difícil. Transmitindo a inocência da infância ao mesmo tempo em que demonstra uma determinação tocante e uma esperteza vital para sobreviver naquele ambiente, Jim torna-se um personagem plausível na pele do talentoso ator exatamente pela maneira natural com que ele encara o desafio, sem jamais se entregar a melodramas e exageros que poderiam ser comuns naquela fase da vida.

Brincando com o aviãoPorto seguroCarrega o filme

É interessante notar também como nesta fase da carreira Spielberg também evita se entregar em demasia ao melodrama, humanizando os personagens de maneira natural e nada apelativa, como quando um menino japonês reencontra Jim e se alegra por isso, sendo assassinado em seguida pelos norte-americanos, reforçando a idiotice da guerra. Observe também como o diretor utiliza o símbolo do carro da família como um recurso narrativo interessante para nos informar a proximidade do reencontro entre o garoto e seus pais, que ocorreria de maneira igualmente natural, sem a necessidade de pesar a mão já que aquele reencontro já era emocionante por si só.

Esta ausência paterna (e aqui materna também) reforça o tema mais forte na filmografia de Spielberg como fio condutor da narrativa, abordando também, ainda que de maneira quase fabulesca, outro tema que lhe seria caro, a Segunda Guerra Mundial. Demonstrando seu enorme talento, Spielberg conduz o filme de maneira sensorial, destacando-se tanto em cenas dramaticamente mais intensas, como a forte separação entre Jim e seus pais em meio multidão desesperada sob o ataque dos japoneses, que transmite com precisão a sensação de urgência e o horror da guerra através da câmera agitada, como em momentos carregados de tensão, como a perseguição do sargento Nagata (Masatô Ibu) ao menino que rasteja pela lama e, especialmente, nos inúmeros instantes em que Spielberg parece parar o tempo para nos deleitar com imagens lindíssimas. Aliás, somente um diretor do calibre de Spielberg poderia transformar um bombardeio numa cena tão bela visualmente, transformando os terríveis efeitos da guerra em algo quase poético, assim como é lindo o momento em que Jim canta do alto do campo e repentinamente é interrompido pelos aviões norte-americanos que atacam os japoneses, provocando os gritos empolgados do garoto ao identificar os modelos dos aviões que cruzam o local.

Menino japonêsNagataVibra com os aviõesOutra cena linda dirigida com muita sensibilidade por Spielberg resume perfeitamente “Império do Sol”, quando ele utiliza um dos eventos mais trágicos da história da humanidade para simbolizar a morte de uma importante personagem. Trata-se de um momento poético, em que o horror da guerra é filtrado pelo olhar sonhador e inocente de uma criança. Talvez o próprio Spielberg ainda fosse como aquele menino e, com o amadurecimento e o inevitável ceticismo que vem ao longo dos anos, ele deixaria de lado a poesia para tratar o mesmo tema com mais crueza em breve.

Império do Sol foto 2Texto publicado em 02 de Novembro de 2015 por Roberto Siqueira

TODOS OS HOMENS DO PRESIDENTE (1976)

(All the President’s Men)

5-estrelas

 

obra-prima

 

Videoteca do Beto #211

Dirigido por Alan J. Pakula.

Elenco: Robert Redford, Dustin Hoffman, Jason Robards, Martin Balsam, Jack Warden, Hal Holbrook, Jane Alexander, Meredith Baxter e James Karen.

Roteiro: William Goldman, baseado em livro de Carl Bernstein e Bob Woodward.

Produção: Walter Coblenz.

Todos os Homens do Presidente[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

No dia 18 de Junho de 1972, o jornal Washington Post estampou em sua capa o assalto ocorrido na noite anterior à sede do Partido Democrata no hotel Watergate, que levou os cinco homens presentes a julgamento. A investigação que se seguiu levou a descoberta de um dos maiores crimes políticos da história dos Estados Unidos, culminando na renúncia do então presidente Richard Nixon, já em 09 de Agosto de 1974. Coube então a Alan J. Pakula a missão de transpor para as telonas o histórico processo de investigação. Com a ajuda de um elenco competente e a forte colaboração do influente Robert Redford, o diretor realizou seu maior trabalho atrás das câmeras, uma verdadeira obra-prima do cinema que ainda hoje serve como aula de jornalismo investigativo.

Adaptado por William Goldman com base no livro dos jornalistas do Washington Post diretamente envolvidos no caso Carl Bernstein e Bob Woodward (que aqui são interpretados por Dustin Hoffman e Robert Redford respectivamente), “Todos os Homens do Presidente” acompanha todo o processo investigativo desde a manhã seguinte ao assalto a Watergate ainda durante a campanha presidencial dos Estados Unidos em 1972 até a publicação da matéria que levaria o então presidente Nixon a renúncia. Condensar num filme de pouco mais de duas horas uma investigação envolvendo dezenas de pessoas e diversos diálogos reveladores sem ser maçante não é uma tarefa fácil, mas o trabalho de Goldman é digno de nota, não apenas por ser fiel aos acontecimentos, mas também por evitar que o espectador se perca diante de tantas informações. Com este excelente roteiro em mãos, restou a Alan J. Pakula a tarefa de dar vida ao material e o diretor se saiu maravilhosamente bem.

Baseando a narrativa no trabalho dos jornalistas, Pakula e seu montador Robert L. Wolfe imprimem um ritmo ágil que se revela essencial para manter o espectador envolvido no processo investigativo, colocando-nos na posição de investigadores ao lado de Bernstein e Woodward. Para auxiliar nesta aproximação entre a plateia e os jornalistas, Pakula utiliza a câmera muitas vezes próxima dos atores, nos permitindo praticamente sentir o que eles sentem e, ao compartilhar conosco o trabalho tanto no escritório quanto em suas residências, o diretor também faz com que o espectador processe as informações e se sinta parte da investigação. Observe, por exemplo, como na sequência em que eles buscam sem sucesso documentos que comprovem certa conexão dentro da Biblioteca Nacional, a câmera se afasta e diminui os personagens em cena, transmitindo a sensação de impotência de ambos naquele instante específico.

Por outro lado, sempre que eles conseguem alguma informação nova ou estão no meio de um diálogo importante, a câmera se movimenta com agilidade, transmitindo a empolgação dos personagens e o senso de urgência destes momentos, especialmente através dos travellings que acompanham Bernstein e Woodward correndo pela redação do Washington Post, servindo ainda para nos apresentar ao grande número de jornalistas presentes no local, o que realça o tamanho do feito da dupla principal, já que para encabeçar aquela importante investigação, eles tiveram que superar diversos concorrentes até mesmo mais experientes.

Câmera muitas vezes próxima dos atoresBiblioteca NacionalBernstein e Woodward correndo pela redaçãoA redação do Washington Post, aliás, realça o excepcional design de produção de George Jenkins, que além de reconstituir o local com precisão, ainda reflete através da profundidade de suas linhas retas e de seu ambiente amplo e caótico o universo de informações que os personagens estavam mergulhando (algo perfeitamente ilustrado também no plano plongè na biblioteca acima mencionado), servindo também para realçar traços da personalidade dos protagonistas. Repare, por exemplo, como as anotações de Woodward, ainda que desorganizadas, transmitem sua sede por informações relevantes e sua maneira de organizar o raciocínio, contrapondo-se muito bem ao comportamento mais atirado de Bernstein, que utiliza métodos mais agressivos para obter o que deseja, como quando engana uma secretária para conseguir falar com determinado personagem.

Redação do Washington PostAnotações de WoodwardMétodos mais agressivosEstabelecendo uma excelente dinâmica entre eles, Redford e Hoffman dão um show de interpretação, transmitindo a importância de cada informação obtida através de suas reações, realçadas pela câmera de Pakula – repare, por exemplo, o close no rosto de Redford durante o diálogo com Dahlberg, que se confirmaria como um importante passo na investigação, assim como ocorre com Bernstein já no ato final quando através de uma inteligente sacada ele arranca uma confirmação de uma fonte sem necessitar de uma palavra sequer.

Aliás, os dois exibem um verdadeiro arsenal de técnicas investigativas que se demonstram eficientes ao conseguir as informações desejadas sem, para isto, colocar os informantes em posição muito desconfortável. É óbvio que vez por outra é necessário jogar alguém contra a parede, mas este processo é sempre feito de maneira ética e sagaz pela dupla, como quando conseguem a ajuda de uma colega de redação, mesmo com Woodward se recusando a forçar a garota a dizer o que não queria – e a atuação de Lindsay Crouse neste instante é tocante, transmitindo o quão dolorido seria aquele ato pra ela somente através de sua expressão ao ouvir a proposta dos colegas. Trazendo uma verdadeira lição de jornalismo, os repórteres obtêm informações muitas vezes sem necessitar de declarações explícitas, trabalhando nas entrelinhas e, o que é mais importante, checando cada informação duas ou três vezes antes de publicar a matéria.

Vestidos em ternos sóbrios que transmitem a seriedade da dupla (figurinos de Bernie Pollack), Bernstein e Woodward se complementam num trabalho em equipe eficiente que abre espaço para opiniões divergentes, mas sempre com respeito pela posição contrária. Este é, aliás, o clima que predomina também na redação do Washington Post, liderada pelo excelente Jason Robards, que se destaca como o chefe Bradlee, mostrando-se um líder de verdade ao apoiar seus repórteres nos momentos mais difíceis e extrair o máximo deles durante a investigação, recusando-se a divulgar matérias quando entende faltar sustentação e, por outro lado, enfrentando a fúria dos poderosos quando acha que o material tem base suficiente para chegar ao público. Tomando a frente nas reuniões de pauta, Robards se destaca num elenco que conta ainda com atores talentosos como Martin Balsam, Jack Warden e Hal Holbrook, além é claro de Jane Alexander, que protagoniza uma das melhores cenas do longa ao lentamente ceder informações para Bernstein e escancarar a ameaça por trás daquilo tudo, num diálogo intenso e tocante ocorrido dentro da casa dela.

Ajuda de uma colega de redaçãoChefe BradleeDiálogo intenso e tocanteTambém dentro de uma residência, desta vez o apartamento de Woodward, ocorre outro momento interessante quando, para evitar ser ouvido pelo grampo instalado no local, Bernstein aumenta o volume da música, numa das raras ocasiões em que a discreta trilha sonora de David Shire chama a atenção, desta vez utilizando o som diegético e não sua composição minimalista. Nada discreta, porém, é a forma como o mestre Gordon Willis fotografa “Todos os Homens do Presidente”, abusando de momentos extremamente sombrios que contrastam com o visual mais claro da redação do jornal, simbolizando que ali revelações obscuras viriam à tona. Repare também como o uso das sombras torna ainda mais tensa à sequência do assalto à sede do Comitê Nacional Democrata em Watergate, conduzida com precisão pelo diretor. Da mesma forma, as citadas cenas chave dentro das residências surgem predominadas pelas sombras, assim como as conversas no estacionamento de um shopping entre Woodward e o misterioso “Garganta Profunda” (interpretado pelo ótimo Hal Holbrook), que mal pode ser identificado com seu rosto quase completamente imerso na escuridão.

Revelações obscuras viriam à tonaGarganta ProfundaPresidente NixonUtilizando ainda imagens de arquivo do presidente Nixon para conferir mais realismo a narrativa, Willis e Pakula conseguem transmitir o tom de seriedade que a história pedia ao ser levada às telas pouquíssimo tempo depois do ocorrido. Diante da sensibilidade do tema e da proximidade do fato, uma abordagem incorreta poderia afundar a carreira dos envolvidos, mas felizmente não foi o que aconteceu. Numa imagem que ilustra perfeitamente a força do chamado Quarto Poder, o plano final com Woodward e Bernstein escrevendo a matéria enquanto o reeleito Nixon faz sua declaração na televisão é sensacional, registrando a ironia de um instante em que o homem mais poderoso do país era glorificado enquanto dois jornalistas de um jornal nem tão importante trabalhavam duro na matéria que iria desmascará-lo pouco tempo depois.

Com sua narrativa envolvente, atuações competentes e a segura direção de Pakula, “Todos os Homens do Presidente” é uma obra-prima que não deveria servir apenas como aula de jornalismo investigativo. O longa estrelado por Redford e Hoffman é, na verdade, uma verdadeira aula de cinema.

Todos os Homens do Presidente - foto 2Texto publicado em 26 de Julho de 2015 por Roberto Siqueira

007 UM NOVO DIA PARA MORRER (2002)

(Die Another Day)

2 Estrelas 

Filmes em Geral #121

Dirigido por Lee Tamahori.

Elenco: Pierce Brosnan, Halle Berry, Toby Stephens, Rosamund Pike, Rick Yune, Judi Dench, John Cleese, Michael Madsen, Will Yun Lee, Kenneth Tsang, Emilio Echevarría, Colin Salmon, Samantha Bond e Madonna.

Roteiro: Neal Purvis e Robert Wade, baseado em personagens criados por Ian Fleming.

Produção: Michael G. Wilson e Barbara Broccoli.

007 Um Novo dia para morrer[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após um início promissor que teve seu auge no ótimo “007 O Amanhã nunca morre”, Pierce Brosnan viu sua trajetória como James Bond chegar ao fundo do poço neste indefensável “007 Um Novo dia para morrer”, longa dirigido por Lee Tamahori que, por muito pouco, não decretou o fim da franquia no cinema. Repleto de personagens absurdos e cenas pavorosamente mal elaboradas em CGI, o filme torna difícil à tarefa de apontar seus melhores momentos – e se o mais marcante deles é uma homenagem a outro filme da própria franquia é porque a falta de criatividade de seus realizadores extrapolou os limites.

Escrito por Neal Purvis e Robert Wade com base nos já clássicos personagens de Ian Fleming, “007 Um Novo dia para morrer” começa com James Bond (Pierce Brosnan) sendo capturado numa missão na Coréia do Norte na qual deveria assassinar o general Moon (Kenneth Tsang), mas acaba mesmo é testemunhando o suicídio do filho do coreano. Após passar 14 meses na prisão, o governo britânico resolve trocar Bond por um perigoso terrorista internacional conhecido como Zao (Rick Yune). No entanto, o MI-6 desconfia que ele revelou informações importantes nos tempos de cativeiro e acaba desligando-o de suas funções. Decidido a provar sua inocência, o agente parte em busca do terrorista, o que o faz cruzar o caminho do excêntrico milionário Gustav Graves (Toby Stephens).

Repleta de alfinetadas políticas interessantes, a tensa sequência de abertura que se divide entre as ações na Coréia do Norte e no comando do MI-6 acaba nos dando a falsa esperança de que “007 Um Novo dia para morrer” será mais um ótimo filme da franquia. Ainda que seja recheada por exageradas explosões e pirotecnias (uma característica da época), esta sequência funciona muito bem e fisga o espectador rapidamente para a trama. O problema é que, a partir daí, o roteiro não sabe exatamente para onde ir, criando situações potencialmente interessantes para, em seguida, não conseguir desenvolvê-las. O conflito entre Bond e M, por exemplo, não funciona tão bem quanto em filmes anteriores, chegando a parecer bobo e sem sentido inicialmente por surgir tão carregado dramaticamente.

Por outro lado, o roteiro acerta ao inserir momentos de bom humor como quando a pessoa que avalia o estado físico de Bond após o resgate afirma que “o fígado não está muito bem, definitivamente é ele”. No entanto, estes momentos não salvam uma narrativa mal conduzida e que sequer consegue desenvolver bem seus personagens. Não que a franquia 007 seja marcada pela presença de personagens complexos, mas ao menos os melhores filmes tinham narrativas envolventes e criativas. Pra piorar, o diretor Lee Tamahori investe em reviravoltas extremamente previsíveis, como a revelação de que Graves é o filho do general Moon e a traição de Miranda Frost, a agente secreta interpretada por Rosamund Pike que não consegue esconder o fascínio dela pelo milionário.

O próprio Gustav Graves de Toby Stephens é um personagem totalmente unidimensional, demonstrando sua inquietação diante da primeira provocação de Bond e escancarando seu passado, sendo capaz ainda de assassinar o próprio pai e sorrir em seguida, numa das composições mais caricatas de uma franquia já marcada por vilões caricatos. E enquanto Judi Dench tenta conferir algum peso ao raso conflito que tem com Bond, John Cleese confirma que poderia ser um ótimo substituto para Desmond Llewelyn na pele de Q. Finalmente, Halle Berry até que se sai bem nas sequências que exigem esforço físico, tendo ainda o privilégio de estar numa das raras cenas memoráveis do longa ao sair da água da mesma maneira que Ursula Andress havia feito na icônica cena de “007 Contra o Satânico Dr. No”, que aqui claramente é homenageada.

Traição de Miranda FrostGustav Graves unidimensionalRaso conflitoMais a vontade no papel, Pierce Brosnan poderia ter oferecido uma boa atuação caso o roteiro lhe permitisse, mas infelizmente é sabotado por uma trama confusa e, principalmente, por cenas de ação totalmente prejudicadas pelo mau uso do CGI – voltaremos a elas em instantes. Não que a parte técnica de “007 Um Novo dia para morrer” seja um desastre completo, já que a fotografia de David Tattersall, por exemplo, faz um interessante trabalho ao estabelecer claramente a atmosfera de cada ambiente através do visual acinzentado na Coréia do Norte, da fotografia árida que predomina a sequência cubana e da paleta gélida na Islândia. Por sua vez, o design de produção do bom Peter Lamont cria interessantes cenários de gelo na Islândia, ao passo que os figurinos de Lindy Hemming mantêm o padrão da série com roupas elegantes para Bond e, neste caso, também para os vilões.

Já a trilha sonora de David Arnold não consegue chamar a atenção, mas é claramente prejudicada por utilizar variações da música tema de Madonna. Eu gosto de muitas músicas da Madonna, que curiosamente tem uma rápida participação como a professora de esgrima Verity, mas “Die Another Day” está bem longe de ser uma boa música. Ao menos, Arnold consegue compor trilhas instrumentais interessantes para embalar as cenas de ação.

No entanto, a feroz luta de espadas entre Bond e Graves é uma das raras cenas empolgantes de “007 Um Novo dia para morrer”, já que o diretor Lee Tamahori perde a mão na condução da narrativa, especialmente no segundo ato em que o ritmo arrastado imprimido pelos montadores Andrew MacRitchie e Christian Wagner não consegue envolver o espectador, falhando ainda, por exemplo, ao abusar do uso da câmera lenta em diversos momentos, tirando a agilidade das cenas sem ter qualquer ganho estilístico significativo com isto.

Paleta gélida na IslândiaBond surfa numa avalancheAvião pega fogoMas todos estes erros não se comparam ao grotesco uso do CGI que torna as pavorosas sequências em que Bond surfa numa avalanche e aquela na qual um avião pega fogo no ato final ainda mais artificiais, como se a decisão de colocar o agente surfando num fenômeno cataclísmico como aquele não fosse suficiente para arruinar a narrativa – OK, concordo que Bond já fez de quase tudo nesta vida, mas exagero tem limite. Pra piorar, o diretor emprega movimentos bruscos que tornam a citada cena do avião ainda mais confusa, chegando a provocar náuseas no espectador mais sensível. Ao menos, algumas ideias mirabolantes funcionam bem, como o carro invisível que, ironicamente, apoia-se em bons efeitos visuais para tornar-se verossímil – o que não ocorre nas citadas cenas que abusam do CGI. E finalmente, a sequência em que Moneypenny (Samantha Bond) imagina um encontro romântico com Bond é divertida, apesar de ser bem previsível.

A imaginação, aliás, é o problema central de “007 Um Novo dia para morrer”. Enquanto algumas cenas de ação pecam justamente pelo excesso, outras surgem pouco inspiradas, o que, somado aos personagens mal desenvolvidos e a preguiçosa condução da narrativa, fazem deste o pior filme da franquia até hoje. Foram necessários quatro anos e um reboot da série para amenizar o estrago feito pelo filme de Lee Tamahori.

007 Um Novo dia para morrer foto 2Texto publicado em 06 de Junho de 2014 por Roberto Siqueira

007 O MUNDO NÃO É O BASTANTE (1999)

(The World is not enough)

3 Estrelas 

Videoteca do Beto #209

Dirigido por Michael Apted.

Elenco: Pierce Brosnan, Sophie Marceau, Robert Carlyle, Denise Richards, Robbie Coltrane, Judi Dench, Desmond Llewelyn, John Cleese, Maria Grazia Cucinotta, Samantha Bond, Michael Kitchen, Colin Salmon e Ulrich Thomsen.

Roteiro: Neal Purvis, Robert Wade e Bruce Feirstein, com base nos personagens criados por Ian Fleming.

Produção: Michael G. Wilson e Barbara Broccoli.

007 O Mundo não é o bastante[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Se por um lado as cenas de ação não garantem o sucesso de um filme de James Bond, por outro a falta delas normalmente é sentida pelos fãs, ansiosos pelas sequências mirabolantes em que o agente secreto se livrará do perigo das mais diferentes e originais maneiras imagináveis. No entanto, uma boa narrativa e, especialmente, bons antagonistas costumam saciar parte desta ausência e, felizmente, este é o caso de “007 O Mundo não é o bastante”, longa dirigido por Michal Apted que, se não acerta na condução das sequências, digamos, mais agitadas, ao menos desenvolve bem uma das personagens chave da narrativa.

Escrito por Neal Purvis, Robert Wade e Bruce Feirstein com base nos personagens criados por Ian Fleming, “007 O Mundo não é o bastante” traz James Bond (Pierce Brosnan) incumbido de proteger Elektra King (Sophie Marceau), a herdeira de um bilionário assassinado em plena sede da MI6 que tinha sido sequestrada pelo terrorista Renard (Robert Carlyle), um homem atingido por uma bala de outro agente britânico e que, lentamente, perdeu alguns de seus sentidos – entre eles, a capacidade de sentir dor.

Repleta de adrenalina, a sequência de abertura de “007 O Mundo não é o bastante” dá a falsa sensação de que o longa repetirá o ritmo empolgante de seu antecessor, trazendo Bond fugindo de Bilbao com uma maleta cheia de dinheiro, a explosão de parte do centro da MI6 que resulta na morte de Sir Robert King (David Calder) e a perseguição de lancha pelo rio Tâmisa que culmina no suicídio da atiradora enviada por Renard do alto de um balão. No entanto, estes momentos não surgem com tanta frequência ao longo da narrativa e, quando surgem, nem sempre são conduzidos com destreza pelo diretor. O ataque ao galpão de Valentin Zukovsky (Robbie Coltrane) no mar Cáspio, por exemplo, é uma sequência bastante agitada, mas um pouco confusa, graças à montagem excessivamente dinâmica de Jim Clark e a fotografia às vezes sombria de mais de Adrian Biddle, que não nos permite enxergar com clareza o que está acontecendo. Da mesma forma, a sequência final dentro de um submarino jamais consegue nos empolgar e, pra piorar, ainda enfraquece o vilão Renard, que é facilmente derrotado por Bond.

Ainda assim, merecem destaque as belas imagens que surgem na intensa perseguição em que Bond e Elektra fogem esquiando e, principalmente, a cena em que Bond e Christmas Jones (Denise Richards) tentam desarmar uma bomba dentro de um oleoduto, certamente uma das mais tensas do filme. Embalando estes escassos momentos de tensão, a trilha sonora de David Arnold utiliza com mais frequência o tema clássico de 007, incluindo também as tradicionais variações da música tema – a interessante “The World is not enough”, do grupo Garbage.

Perseguição de lancha pelo rio TâmisaAtaque ao galpão de Valentin ZukovskyBond e Christmas Jones tentam desarmar uma bombaComo já mencionado, Robbie Coltrane dá as caras novamente como o divertido ex-agente da KGB Valentin Zukovsky, o “amigo” russo de James Bond que tem envolvimento com os negócios milionários da família King. Já Samantha Bond mantém o charme e o sarcasmo de Moneypenny, a sempre simpática secretária que nunca concretiza o romance com Bond e que, desta vez, tem uma rápida crise de ciúmes diante da médica dele. Escolhido para ser o substituto de “Q”, John Cleese encarna “R” com o mesmo sarcasmo de seu antecessor, numa escolha que me deixa feliz por gostar de Cleese, mas triste pela despedida do ótimo Desmond Llewelyn. Enquanto isso, Judi Dench ganha mais espaço para demonstrar seu talento como “M”, ao passo que Denise Richards se limita ao papel de parceira de Bond sem grande destaque na pele de Christmas Jones. E finalmente, Robert Carlyle até soa ameaçador inicialmente, mas Renard é suplantado por Elektra ao longo da narrativa e perde o posto de vilão mais interessante do longa.

Acompanhada pelo poético som de gaitas de fole em sua primeira aparição (referencia à sua participação em “Coração Valente”?), Sophie Marceau compõe uma Elektra frágil e indefesa que, ao mesmo tempo, exala charme e sensualidade, chamando imediatamente a atenção de Bond. No entanto, a boa atuação de Marceau não é suficiente para disfarçar a abordagem nada sutil do diretor Michal Apted, que parece gritar em diversos momentos que ela esconde algo, tornando perceptível para o espectador mais atento desde o início que Elektra está envolvida na morte do pai. Assim, logo no primeiro encontro entre Bond e Renard durante o roubo de uma bomba, o terrorista dá a dica daquilo que o espectador já desconfiava e escancara que Elektra não é tão inocente assim.

Por outro lado, este problema não diminui a complexidade da personagem, uma vítima da síndrome de Estocolmo que, apaixonada pelo sequestrador, enxerga nele também a oportunidade de recuperar o império da mãe que fora parar nas mãos de seu pai. Esta ambição, no entanto, esconde a fragilidade de uma mulher que enxerga sua sensualidade como a única arma que tem para se defender, como fica claro no envolvente diálogo que ela trava com Bond antes de morrer, um breve momento que diz muito sobre a personagem. Ela de fato acreditava que seu poder de sedução poderia salvá-la em qualquer situação, o que chega a ser melancólico.

Renard até soa ameaçador inicialmenteElektra frágil e indefesaIntensidade e carismaMais uma vez comprovando que pode tranquilamente sustentar o papel, Pierce Brosnan vive James Bond com a mesma intensidade e carisma dos filmes anteriores, destacando-se em momentos especiais como o confronto verbal entre Bond e “M” em que desafia sua liderança imediata e, como de costume, saindo-se muito bem nas cenas que exigem esforço físico. Além disso, o ator demonstra bem a determinação do agente em cumprir seu dever ao atirar a queima roupa contra Elektra na frente de “M”, num momento marcante que comprova a frieza do personagem.

Com uma trama interessante, “007 O Mundo não é o bastante” tem bons momentos, apoiando-se mais na narrativa e na qualidade de alguns de seus personagens do que na própria ação para funcionar. E funciona bem, ainda que não ganhe grande destaque na filmografia do agente mais famoso do planeta.

007 O Mundo não é o bastante foto 2Texto publicado em 05 de Junho de 2014 por Roberto Siqueira