REBECCA – A MULHER INESQUECÍVEL (1940)

(Rebecca)

 

Filmes em Geral #53

Vencedores do Oscar #1940

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: Laurence Olivier, Joan Fontaine, George Sanders, Judith Anderson, Gladys Cooper, Nigel Bruce, Reginald Denny, C. Aubrey Smith, Florence Bates, Leonard Carey, Leo G. Carroll, Edward Fielding, Lumsden Hare, Forrester Harvey, Philip Winter e Alfred Hitchcock.

Roteiro: Robert E. Sherwood e Joan Harrison, baseado em livro de Daphne Du Maurier.

Produção: David O. Selznick.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Hitchcock era um prestigiado jovem diretor inglês quando aceitou o convite do produtor David O. Selznick para trabalhar nos Estados Unidos, dando início a uma fase marcante em sua carreira, que renderia muitas obras-primas e filmes de excelente qualidade como este “Rebecca, a mulher inesquecível”, que marcou sua estréia na fase “hollywoodiana”. E logo em sua estréia, Hitchcock deixou sua marca, entregando um filme instigante, dirigido com maestria e com uma narrativa surpreendente, que nos balança não apenas com uma, mas com duas reviravoltas desconcertantes.

Uma jovem de origem simples (Joan Fontaine) viaja como “acompanhante” da importante Sra. Edythe Van Hopper (Florence Bates) e acaba conhecendo o rico e nobre inglês George De Winter (Laurence Olivier), que a pede em casamento, mas ainda vive atormentado pelas lembranças do falecimento de sua esposa Rebecca, que morreu afogada no mar. Após chegar à imponente mansão dele em Manderlay, ela passa a viver ameaçada pelo fantasma da ex “Sra. De Winter”, sob os olhares atentos dos empregados, que simplesmente amavam a falecida esposa de George.

Escrito por Robert E. Sherwood e Joan Harrison, baseado em livro de Daphne Du Maurier, “Rebecca, a mulher inesquecível” conta a história de amor entre uma jovem humilde e um nobre inglês, mas jamais passa perto de um romance no sentido clássico da palavra. Criativo e com boas reviravoltas, o roteiro de Sherwood e Harrison usa o fantasma da morte da personagem título como agente criador de um suspense crescente, usando a falta de confiança da nova Sra. De Winter para plantar a dúvida na platéia sobre as reais intenções do rico George. Ciente do material que tinha em mãos, Alfred Hitchcock usa toda sua capacidade como diretor para criar uma atmosfera tensa desde a promissora introdução da narrativa, através da câmera subjetiva que nos leva pelos sonhos da protagonista enquanto ela recorda Manderlay. Esta sensação é reforçada pelos estranhos personagens que habitam a mansão, como a assustadora governanta Danvers (Judith Anderson), e pela própria mansão, fotografada brilhantemente por George Barnes, que mistura a luz que entra pelas janelas e as fortes sombras que se espalham pelo ambiente, permitindo ao diretor criar planos marcantes. Desta forma, a mansão parece ganhar vida e tornar-se ainda mais ameaçadora, especialmente na ala proibida, onde Rebecca vivia (observe como a trilha sombria embala o momento em que vemos a porta do quarto dela pela primeira vez). Aliás, Hitchcock faz questão de ressaltar o espanto da moça ao ver a imponente mansão pela primeira vez, já ilustrando o quanto ela se sentiria intimidada naquele ambiente (o espectador já tinha visto a mansão nos primeiros planos do filme e, por isso, não sente o mesmo impacto dela). Vale destacar ainda a capacidade de Hitchcock de criar suspense a partir de coisas simples, como quando usa o telefone tocando num quarto de hotel de maneira brilhante para provocar tensão quando a jovem tenta encontrar De Winter e evitar seguir viagem para Nova York.

Após um início desastroso, a jovem e o nobre inglês tem um diálogo interessante no café da manha no hotel, que dá início ao relacionamento entre a futura Sra. De Winter e seu pretendente. E graças à boa atuação da dupla, a forma como a relação se consolida é muito natural, crescendo dia após dia através dos encontros do casal. E são nestes encontros que surgirão as primeiras dicas da reviravolta na trama, como quando De Winter sai aborrecido após ela falar sobre o mar – só que, neste instante, pensamos que ele sofre pelo trauma da perda da esposa. Após esta fase de aproximação, com direito a flores antes da partida para Manderlay, o casal finalmente desembarca na famosa mansão onde a atuação de Joan Fontaine crescerá bastante. Esbanjando simplicidade, Fontaine vive a Sra. De Winter com seu jeito meigo e humilde, mas também ilustra bem o desconforto da garota diante de tanto luxo e das novas responsabilidades, demonstrando claramente o quanto ela está intimidada naquele ambiente. Este deslocamento fica evidente, por exemplo, quando por diversas vezes os empregados da mansão tentam fazer algo para ela (como servir o café ou abrir uma porta) e ela sempre se antecipa, justamente por não estar acostumada com este tratamento. Sentindo-se verdadeiramente um peixe fora d’água, ela não consegue assumir sua posição de “Sra. De Winter”, como fica claro quando ela atende uma ligação do jardineiro e responde que a Sra. De Winter morreu há um ano – e até mesmo suas roupas simples ilustram sua personalidade e sua origem humilde. Atormentada, quebra ainda um objeto precioso da casa e o esconde, num ato infantil que traria problemas para os empregados no futuro. Estes problemas só não se tornaram ainda maiores porque George é um homem direto, que resolve os problemas imediatamente e sem provocar grandes polêmicas. Interpretado por Laurence Olivier, George De Winter é, no entanto, um personagem atormentado pelo passado, que vive tentando esquecer a tragédia que assolou sua vida e, talvez por isso, apresenta uma oscilação radical de humor – algo que Olivier demonstra muito bem, mudando da serenidade para repentinas explosões com precisão. Ainda assim, ele parece de fato amar a nova Sra. De Winter, sempre se arrependendo de suas explosões logoem seguida. Oator é competente até mesmo ao manter o segredo de seu personagem, fazendo seu medo do mar parecer um trauma pela morte da esposa na maior parte do tempo, o que aumenta o impacto de sua revelação.

Entre o elenco, merece destaque também a atuação de Florence Bates como a falastrona Sra. Edythe Van Hopper, que consegue nos irritar de maneira encantadora com sua petulância, por exemplo, quando avisa sobre as intenções de De Winter, dizendo que ele quer apenas uma substituta para Rebecca e que a jovem não se enquadraria nesta função, plantando a dúvida que atormentaria a garota em grande parte do tempo. Já Judith Anderson tem uma atuação marcante como a fria governanta Danvers, com seu rosto gélido e sua expressão quase imutável sempre que entra em cena, se destacando na tensa seqüência em que tenta convencer a Sra. De Winter a se suicidar, sussurrando palavras em seu ouvido durante a festa à fantasia. Finalmente, Gladys Cooper vive a simpática e elegante irmã de Winter, Beatrice Lady, que parece de fato querer ajudar a nova Sra. De Winter e há também o curioso cachorro Jasper, que aparece muitas vezes, reforçando a predileção de Hitchcock pela aparição de animais em seus filmes.

Na parte técnica, destaque para a direção de arte de Lyle R. Wheeler, que cria cenários fabulosos, como a própria mansão Manderlay, decorando muito bem seus enormes cômodos e quartos com lustres marcantes, além da imponente mesa que se destaca na bela sala de jantar, apresentada através de um belo zoom out. Aliás, o bom trabalho de Wheeler fica evidente desde a decoração do hotel onde o casal se encontra pela primeira vez, como podemos notar nas habitações e no restaurante onde eles tomam café da manhã. E vale destacar também a estranha casa a beira-mar, que abriga as lembranças amargas de Winter e serve para reforçar a atmosfera sombria da narrativa. Destaque também para a trilha sonora de Franz Waxman, que aparece em grande parte do tempo, normalmente com melodias lentas, mas acentuando os momentos de suspense, como quando a Sra. De Winter caminha perto do mar, e para os bons efeitos visuais, que tornam o incêndio que destrói a mansão em algo realista para a época.

O grande truque da narrativa de “Rebecca, a mulher inesquecível” é que Hitchcock cria o “mito” Rebecca sem jamais mostrá-la de fato, a não ser através de um quadro na parede. O mestre sabe que desta maneira o espectador imagina a mulher ideal, num pensamento reforçado através de pequenos objetos com a letra “R”, que nos lembram constantemente da antiga esposa de Winter. E esta idealização da mulher perfeita é reforçada ainda pela forma como as pessoas se referem a ela, como quando Frith (Edward Fielding) afirma que “Rebecca era a criatura mais linda que ele já viu” (observe como o zoom out diminui os personagens neste momento, refletindo o sentimento da protagonista, que se sente inferiorizada). Desta forma, quando De Winter diz que ela era o demônio em pessoa, o choque no espectador é ainda maior, pois, até este instante, imaginávamos que Rebecca era uma mulher magnífica e amada pelo viúvo. Mas, numa discussão calorosa com sua nova esposa, Winter revela que não amava Rebecca, destruindo a imagem criada na mente do espectador e criando uma interessante reviravolta na narrativa (repare como a câmera de Hitchcock simula a movimentação de Rebecca no momento de sua morte, nos fazendo imaginar a cena). Agora que o barco dela havia sido descoberto, ele seria acusado de assassinato. Passamos então a temer por seu destino e, mesmo ao vê-lo afirmar que não a matou, ainda temos dúvida a respeito.

Chegamos então à longa (porém necessária) investigação do caso. E apesar de não termos certeza de que ele é inocente, torcemos por Winter, até porque neste momento já criamos empatia pelo casal principal (o que é mérito da narrativa bem conduzida por Hitchcock e das boas atuações de Olivier e Fontaine). Sabendo disto, Hitchcock, auxiliado pelo montador Hal C. Kern, prolonga ao máximo a resolução do caso, inserindo novos elementos que nos levam a pensar que Winter pode ser culpado, através do detestável Jack Favell (George Sanders), que afirma ser a gravidez de Rebecca a razão do assassinato. Esta angústia só terminará em outra reviravolta da narrativa, quando o médico afirma que Rebecca tinha câncer – o que, por outro lado, faz Winter pensar que ela premeditou tudo para incriminá-lo, destruindo de vez a imagem de Rebecca. Livre, ele volta para Manderlay, mas um incêndio provocado pela Sra. Danvers destrói o lugar que tanto o fez sofrer.

O controle absoluto da narrativa e a habilidade de criar suspense a partir de situações do cotidiano já apareciam neste ótimo “Rebecca, a mulher inesquecível”, que marcou a estréia de Hitchcock nos Estados Unidos e levou o Oscar de Melhor Filme. Usando o deslocamento normal de uma pessoa que passa a integrar um lar destruído por uma tragédia, Hitchcock consegue criar uma narrativa envolvente, prendendo a atenção da platéia do primeiro ao último plano e fazendo do filme uma obra tão inesquecível quanto sua personagem-título.

Texto publicado em 30 de Maio de 2011 por Roberto Siqueira

A LISTA DE SCHINDLER (1993)

(The Schindler’s List) 

 

 

Videoteca do Beto #92

Vencedores do Oscar #1993

Dirigido por Steven Spielberg.

Elenco: Liam Neeson, Ben Kingsley, Ralph Fiennes, Caroline Goodall, Jonathan Sagall, Embeth Davidtz, Malgoscha Gebel, Shmulik Levy, Mark Ivanir, Béatrice Macola e Andrzej Seweryn.

Roteiro: Steven Zaillian, baseado em livro de Thomas Keneally.

Produção: Branko Lustig, Gerald R. Molen e Steven Spielberg.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Diretor versátil e de enorme talento, Steven Spielberg é responsável por muitos dos filmes marcantes de minha geração. Mas, entre todos eles, confesso ter um carinho especial por este “A Lista de Schindler”, que narra a bela história de Oskar Schindler, o homem responsável por salvar mais de mil judeus da inevitável morte no Holocausto. Balanceando com enorme sensibilidade momentos tocantes e momentos bastante violentos, o diretor consegue um resultado magnífico, entregando um filme maior que, além de documentar uma fase negra da história da humanidade, serve como um fascinante estudo de dois personagens parecidos superficialmente, mas muito diferentes em sua essência.

O articulado Oskar Schindler (Liam Neeson) encontra uma oportunidade de ouro para fazer fortuna ao conseguir inaugurar uma fábrica na Polônia em plena segunda guerra mundial, onde empregava judeus, mão-de-obra praticamente escrava na época. Oportunista, sedutor e amante da boa vida, ele aproveita sua forte influência dentro do partido nazista para conseguir as autorizações que precisava e abrir a fábrica. Mas, com o passar do tempo, aquela atividade lucrativa se transforma numa luta para conseguir salvar a vida de mais de mil judeus, em pleno período de extermínio alemão.

Como de costume, Steve Spielberg conduz a narrativa de “A Lista de Schindler” com incrível segurança e precisão, transitando entre os momentos mais suaves, enquanto acompanhamos a vida de Oskar Schindler na fábrica e no alto escalão do partido nazista, e os momentos de tensão e violência, que mostram os abusos cometidos nos campos de concentração, como na cena tocante em que mães judias correm desesperadas ao verem suas crianças sendo levadas em caminhões, onde o diretor nos coloca dentro da cena, graças também ao excelente som que capta os gritos desesperados daquelas mulheres. Durante toda a projeção, existem vários exemplos das inúmeras atrocidades cometidas contra os judeus, como a morte de uma engenheira judia, o humilhante exame físico que separa os “doentes dos sãos” e os diversos tiros disparados contra a cabeça de homens e mulheres. O “auge” de toda esta selvageria acontece na extremamente violenta noite da extinção do gueto, onde após diversos assassinatos covardes, Spielberg encerra a seqüência com um plano geral do local, com os clarões e o som dos tiros dando a exata noção do tamanho do massacre, num momento em que a beleza visual contrasta diretamente com a tristeza que sentimos. Isto acontece porque, inteligentemente, o roteiro escrito por Steven Zaillian acompanha alguns personagens-chave do gueto (como o rapaz que foge pelo bueiro e o garoto alemão que salva a mãe de sua amiga), aproximando o espectador daquelas pessoas e criando empatia com elas. Sendo assim, se naturalmente nós já torceríamos por elas e sofreríamos com elas, esta decisão torna tudo ainda mais íntimo ao espectador. Outro exemplo claro da importância de nos aproximar dos personagens acontece quando Schindler vê uma garota vestida de vermelho, andando tranqüilamente no meio do massacre. A famosa garota de vermelho é um artifício inteligente de Spielberg, que, além de destacá-la na multidão (refletindo o que Schindler vê naquele momento), servirá para mostrar futuramente que nem mesmo as crianças eram poupadas daquele verdadeiro extermínio, através da triste imagem do corpo da garota prestes a ser cremado. Além disso, o roteiro ainda insere outros momentos que terão reflexo futuro na narrativa, como a história contada por uma mulher sobre o gás letal que substituía a água no banho das mulheres nos campos de concentração.

Ainda na direção, Spielberg abusa de planos elegantes, como podemos notar logo no jantar de apresentação do protagonista, em que o diretor alterna travellings pelo local e closes dele e das pessoas presentes, além de empregar o “still” (pause) para destacar cada foto tirada por Schindler e inserir um belo plano-seqüência que o acompanha na entrada no salão. Além disso, Spielberg conta com a iluminação perfeita do diretor de fotografia Janusz Kaminski, que também se destaca em outra cena num restaurante, durante um jantar entre Schindler e a esposa (nas duas cenas, observe a bela composição visual, contrastando as luzes e as sombras no rosto dos personagens). Aliás, a escolha do preto e branco soa totalmente acertada, porque além de amenizar a absurda violência dos atos que vemos, serve também para ilustrar o quão obscuro foi aquele período da história da humanidade, algo refletido desde a elegante transição das imagens coloridas para o preto e branco através da fumaça de uma vela, representando o momento em que aquela vida passará a existir somente na memória daquele povo, agora afundado numa realidade cruel e sem perspectivas. Spielberg é inteligente ainda ao indicar muitas coisas sutilmente, como no plano em que coloca Amon (Ralph Fiennes) e Schindler em lados opostos da mesa (e da tela), aproximando-os no final através de um zoom que indica o momento em que eles se entendem na negociação. Finalmente, repare na precisa composição visual da cena em que Amon tenta matar um senhor judeu após questionar o número de dobradiças que ele fez, onde podemos observar as frustradas tentativas do cruel nazista e, no segundo plano, garotos correndo desesperadamente para não ver aquele assassinato.

Enquanto assistimos “A Lista de Schindler”, somos sugados para aquele período da história, graças ao excelente trabalho técnico da equipe de Spielberg. A começar pela impecável direção de arte de Ewa Skoczkowska e Maciej Walczak e pelos figurinos de Anna B. Shepard, notável nos uniformes dos soldados alemães e nas roupas dos judeus, além da decoração das casas e, especialmente, no plano-seqüência que viaja sobre os objetos e roupas deixados pelos judeus antes de entrar num trem, que são separados pelos soldados alemães, numa indicação clara do destino trágico daquelas pessoas. Aliás, o fato dos soldados falarem o idioma alemão também ajuda na ambientação do espectador. Para completar a criação da atmosfera perfeita, a linda trilha sonora do excepcional John Williams, eterno colaborador de Spielberg, capta toda a essência daquele triste período da história em suas notas melancólicas no piano, como podemos notar no momento em que os judeus marcham para o gueto, quando a trilha ilustra a tristeza deles. E apesar de suas três horas de duração, “A Lista de Schindler” jamais se torna cansativo, graças ao excelente ritmo empregado pela montagem de Michael Kahn, que também cria pequenos momentos divertidos, como o teste de datilografia das candidatas à secretária de Schindler e a escolha dos produtos que farão parte da cesta que ele enviará aos alemães na inauguração da fábrica. Interessante também como a montagem de Kahn evidencia, através do contraste, o absurdo de toda aquela situação, como no momento em que Schindler ocupa um quarto espaçoso e aconchegante deixado pelos judeus, enquanto a família que ali morava se acomoda no apertado gueto. Repare também o pequeno momento de alivio cômico, tão raro no longa, quando o chefe da família diz que “poderia ser pior” e, segundos depois, chegam mais judeus para dividir o quarto com eles. Em outro momento, a montagem de Kahn intercala imagens de Oskar e Amon fazendo a barba. Aparentemente, eles são pessoas parecidas, membros do partido nazista e homens de respeito notório, mas, na essência, são pessoas bastante diferentes.

Muito bem interpretado pelo seguro Liam Neeson, Oskar Schindler é um homem com enorme facilidade de comunicação e bastante carismático, que se aproveita disto para criar uma boa imagem diante dos nazistas, o que lhe permitiria abrir sua fábrica de panelas e ganhar muito dinheiro – e Neeson é um ator que transmite a paz que o personagem exige. O mais fascinante é que Schindler tinha muitas das características dos nazistas do partido. Gostava da boa vida, das mulheres, da bebida e mantinha a aparência impecável em seus ternos de seda, o que faz com que um grupo de judeus saia de perto dele numa igreja, claramente assustados com a presença de um “nazista” ali. E assim como Amon, sua preocupação com a imagem é evidente, o que o leva a ficar profundamente irritado quando começa a ter fama de homem bom, pois sabia exatamente o perigo que aquilo representava. Ainda assim, Schindler se empolga na lavagem dos vagões de um trem, num raro momento em que deixa os alemães perceberem que ele se importava com o povo judeu. Coincidentemente, é preso em seguida, sob a acusação de ter beijado uma judia e, ironicamente, Amon intercede por ele e consegue sua liberação. E se no final vemos um Schindler obstinado, que vai buscar suas mulheres em Auschwitz e, pela segunda vez, suborna um oficial alemão para “comprar” os seus judeus, esta paixão pela vida parece brotar somente durante a projeção, numa transformação lenta e admirável do personagem que Neeson ilustra muito bem. Além disso, o ator se destaca quando questiona um soldado alemão que tentava tirar as meninas do trem, mostrando autoridade enquanto explica a função delas em sua fábrica. Já Ralph Fiennes encarna Amon Goeth com uma frieza palpável, tornando seu psicótico personagem em alguém ainda mais cruel. Seu olhar gélido e sua fala serena, sem oscilação no tom de voz, transmitem a segurança de um homem determinado a cumprir a missão que lhe deram e para quem atirar nos judeus da sacada era apenas uma diversão. Ainda assim, após ouvir Schindler falar que os imperadores eram poderosos porque podiam decidir não matar alguém, Amon tem um pequeno “acesso de bondade”, que dura apenas alguns minutos e termina no assassinato de seu empregado. Mas Amon não odiava todos os judeus que conhecia, como deixa transparecer na paixão que nutre por Helen, a empregada que ele escolheu a dedo assim que chegou à Polônia. Só que ele luta contra este sentimento, por causa de seu preconceito e, principalmente, para manter sua imagem diante dos companheiros de exército alemão, como fica evidente na cena em que ele quase confessa seu amor por ela na adega, mas acaba batendo novamente na jovem judia interpretada por Embeth Davidtz. Helen é só mais um exemplo da terrível condição daquelas pessoas, vivendo constantemente sob o medo da morte, como ela deixa claro numa conversa com Schindler (“Ele não vai te matar porque gosta de você”, diz Schindler). Fechando os destaques do coeso elenco, o ótimo Ben Kingsley também se destaca como Itzhak Stern, com suas falas rápidas e seu semblante sempre preocupado que transmitem com precisão o constante estado de tensão em que vive.

Steven Spielberg sempre foi habilidoso na arte de indicar sutilmente o que está acontecendo (como o copo d’água em “Jurassic Park” e a madeira boiando sem o cachorro em “Tubarão”) e, desta vez, são as cinzas caindo nas mãos de Schindler que indicam ao espectador o que ele veria a seguir: o terrível momento em que os corpos de mais de 10 mil judeus são exumados e queimados. A humanidade havia chegado ao fundo do poço e aquela enorme pilha de corpos é o símbolo perfeito deste momento. Mas ainda havia esperança, pelo menos para uma pequena parte daquele povo. E no plano em que Schindler “compra” seus judeus, as grades da janela que envolve a dupla simbolizam que ele finalmente encurralou Amon e conseguiu o que queria, chegando até mesmo a convencê-lo a liberar Helen. Tem inicio então a elaboração da lista que dá nome ao filme. Aquele pedaço de papel representaria a salvação para mais de mil judeus. Nas palavras de Stern, “esta lista é a vida”. Vale destacar ainda um último momento em que a inteligência de Spielberg é notável, quando o trem com as mulheres da lista de Schindler é enviado à Auschwitz por engano. Quando elas entram no espaço reservado para o banho, a história do gás letal imediatamente vem à nossa mente. As mulheres (e o espectador) temem pelo pior e Spielberg sabe disto, conduzindo a cena com lentidão e criando um clima bastante tenso. Após cortarem o cabelo, elas entram e esperam ansiosamente pela água, mas, quando as luzes se apagam momentaneamente, os gritos desesperados são inevitáveis. Felizmente, a cena termina bem, com a água caindo e derramando alivio em todas elas.

Chegamos então ao fim da guerra e a inevitável despedida de Schindler, agora um foragido da justiça. Diante daquelas pessoas que salvou, ele se desespera ao constatar a futilidade dos bens materiais diante da vida, num discurso que até pode soar melodramático, mas que funciona perfeitamente, emocionando o espectador. Por quê? Porque aquela atitude é muito coerente com tudo que ele fez até então. Não estamos vendo alguém arrependido, que repentinamente se comove diante do que poderia ter feito. Vemos ali um homem devastado, transformado por tudo que viu e que demonstrou em suas atitudes que realmente seria capaz de abrir mão de tudo para salvar mais uma ou duas pessoas. O belo final no cemitério transcende o filme e mostra a importância daquele homem, responsável por toda uma nova geração de judeus. E se são uma pequena parte diante dos seis milhões que morreram no Holocausto, os seis mil judeus descendentes da “lista de Schindler” provam que seus esforços valeram à pena.

Steven Spielberg emocionou o mundo ao apresentar a linda história de um homem digno, que se transformou diante de tudo que viu e lutou até o fim para salvar a vida de milhares de judeus. Com o tom correto e triste que a história narrada pede, “A Lista de Schindler” é uma verdadeira obra-prima, que mostra como a compaixão é um dos mais valiosos sentimentos que podemos ter. “Quem salva uma vida, salva o mundo inteiro”. Schindler salvou mais de mil.

Texto publicado em 27 de Março de 2011 por Roberto Siqueira

OS IMPERDOÁVEIS (1992)

(Unforgiven)

 

Videoteca do Beto #87

Vencedores do Oscar #1992

Dirigido por Clint Eastwood.

Elenco: Clint Eastwood, Gene Hackman, Morgan Freeman, Richard Harris, Jaimz Woolvett, Saul Rubinek, Frances Fisher, Anna Levine, David Mucci, Rob Campbell, Anthony James, Beverley Elliott, Shane Meier, Aline Levasseur e Ron White.

Roteiro: David Webb Peoples.

Produção: Clint Eastwood.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Durante boa parte da carreira, Clint Eastwood ficou marcado por personagens durões que iam dos solitários pistoleiros do western spaghetti ao implacável “Dirty Harry”. Entretanto, nos últimos anos Clint passou a viver personagens amargos, que carregam nos ombros o peso de seu passado, e até mesmo os filmes que ele dirigiu nas últimas décadas costumam nos deixar com aquela sensação de incômodo diante de situações que parecem não ter certo ou errado. E é justamente o excepcional western “Os Imperdoáveis” que marca a transição definitiva da fase “durona” para este momento mais “sensível” de Clint, apresentando uma história que faz uma singela homenagem ao gênero que consagrou o ator e diretor.

As prostitutas de uma pequena cidade oferecem 1000 dólares para quem matar dois vaqueiros responsáveis por cortar o rosto de uma delas. A notícia atrai o jovem Schofield Kid (Jaimz Woolvett), que convida o pistoleiro aposentado William Munny (Clint Eastwood) para a matança. No caminho, Munny convida seu velho amigo Ned Logan (Morgan Freeman) e eles partem para a cidade, onde o xerife Little Bill (Gene Hackman) já expulsou o matador Bob inglês (Richard Harris) a pontapés, como forma de intimidar os assassinos que possam se interessar pela recompensa.

Conduzindo a narrativa com segurança e sem muitos floreios, Clint Eastwood consegue sucesso através da simplicidade e eficiência de sua direção, transitando com elegância entre os momentos que desconstroem os mitos do western e aqueles que fazem uma bela homenagem ao gênero. Além disso, conduz com competência o elenco, criando personagens complexos e extremamente interessantes, que não são bons nem ruins, apenas agem de maneiras distintas em situações diferentes. O diretor mostra ainda muita sensibilidade na composição de belos planos, como o lindo plano inicial, com o pôr-do-sol ao fundo e William enterrando sua esposa na frente da casa, seguido por um trovão que anuncia a mudança radical na vida dele. Em outro momento, somente o olhar da esposa de Ned ao ver o rifle no cavalo de Munny indica que seu marido voltará às armas, algo ilustrado antes mesmo que ele pronuncie alguma palavra apenas pela composição da cena, com Freeman logo abaixo do rifle pendurado na parede.

Escrito por David Webb Peoples, “Os Imperdoáveis” apresenta diálogos deliciosos e coerentes com o universo daqueles personagens, abrindo espaço para momentos de alivio cômico nas conversas entre Munny e Ned (destaque para a curiosidade de Ned em saber como Munny supre a falta de sexo após a morte da esposa), reforçados pela dificuldade de montar de Munny e pelos tiros sem direção de Kid (“Você atirou em toda a criação”, reclama Ned). Obviamente, a empatia entre Freeman e Eastwood colabora bastante e torna aquela amizade crível, como podemos notar, por exemplo, na conversa ao pé da fogueira sobre o que Ned sente falta, que ainda indica que Kid está mentindo, ao dizer, sem muita convicção, que já matou 5 homens (e aqui vale destacar a atuação de Woolvett, nos transmitindo esta sensação de insegurança através da fala pouco convicta). Mas o grande tema do longa é mesmo a desconstrução de diversos clichês e mitos do western, além do constante “flerte” com a morte e a certeza de que não é fácil tirar a vida de alguém. Basicamente, o filme prega que puxar o gatilho não é para qualquer um, por isso, homens com a frieza necessária neste momento viram lendas e são raridades (algo que também refletirá no sensacional clímax da narrativa). É claro que existem também as lendas criadas ao acaso, romantizadas por aqueles que contam a história e se permitem “alguma liberdade criativa”, como afirma o escritor Beauchamp (Saul Rubinek). Melhor do que ninguém, ele representa a visão glamourizada que Hollywood tinha do western e que Eastwood quer desconstruir. Para Clint, a vida no velho oeste não era tão bela assim.

Nos aspectos técnicos, a impecável direção de arte de Adrian Gorton e Rick Roberts nos transporta para o velho oeste através da precisa arquitetura da cidade de “Big Whiskey”, reforçada pelos figurinos de Janice Blackie-Goodine, que seguem o padrão western com as botas, calças de couro e os chapéus (destaque para o marcante chapéu de Eastwood, que remete aos tempos do western spaghetti). Destaque também para a deslumbrante direção de fotografia de Jack N. Green, que capta com precisão as lindas paisagens, com muitas cenas sob o pôr-do-sol e até mesmo sob a chuva (o que reforça a melancolia da narrativa). Além disso, as diversas cenas noturnas, sempre iluminadas com velas e lampiões, têm um visual belíssimo, bastante sombrio e coerente com a amargura daqueles personagens, algo refletido também na linda trilha sonora de Lennie Niehaus, com sua delicada e nostálgica música tema sofrendo algumas variações que ilustram o sentimento dos personagens, como quando William, após levar uma surra de Bill, pensa que vai morrer e mostra arrependimento por tudo que fez (e nas duas cenas, o visual carregado pelas sombras transmite a aflição do personagem). Já o bom trabalho de som é perceptível não somente nos notáveis tiros e trovões, mas também através de ruídos sutis, como o som do gatilho sendo puxado ou dos grilos no campo, e o ritmo delicioso do longa é mérito da montagem de Joel Cox, que intercala momentos contemplativos diante de lindas paisagens e momentos de alta tensão. Além disso, faz elegantes transições, como quando Munny acorda e descobre que ficou doente por 3 dias ou quando uma prostituta diz que “a chuva está chegando”, anunciando também a chegada de Munny, Ned e Kid, que galopavam sob a chuva minutos antes.

Todo este excelente trabalho técnico serve como sustentação para que o excelente elenco de “Os Imperdoáveis” construa, sob a direção do competente Eastwood, personagens amargos e complexos. A começar por uma das lendas do oeste, interpretada pelo sempre carismático Richard Harris. Acompanhado de perto pelo curioso escritor Beauchamp, Bob “inglês” é o típico fora-da-lei que fez fama no oeste, mas a forma como as coisas acontecem vai desconstruindo esta imagem do “mito” diante do escritor e do espectador, especialmente quando Bill conta a verdadeira história do assassinato de Corky “Duas Armas”. As lendas vão sendo criadas com base em exageros, como quando Kid diz que o homem cortou os olhos, as orelhas e os peitos da prostituta, o que leva o próprio Kid a duvidar que Munny pudesse apanhar de Bill, alegando que sua arma “provavelmente” travou. E já que citei o xerife, Gene Hackman compõe um Little Bill cruel e implacável, capaz de expulsar a pontapés um perigoso bandido da cidade, entregar uma arma carregada nas mãos de um prisioneiro e espancar até a morte um matador capturado. Por outro lado, mostra piedade quando pega o homem que cortou uma prostituta (“São apenas vaqueiros que fizeram besteira”) e em diversos momentos parece apenas desejar viver em paz em sua nova casa – e Hackman é muito competente ao oscilar entre os momentos de fúria e os momentos de serenidade do personagem com precisão. Vale destacar ainda seu excepcional desempenho na tensa conversa que tem com Beauchamp e Bob na prisão, quando fala sobre a frieza necessária para matar alguém (algo que terá reflexo direto no terceiro ato da narrativa, quando apenas ele e Munny se enquadram nesta situação). A dupla Harris e Hackman vive ainda um dos grandes momentos do longa, quando Bill interroga e revista Bob, agredindo-o em seguida sob o olhar incrédulo de toda cidade, numa tentativa de manter o controle da situação e, ao mesmo tempo, mandar um recado a todos os assassinos da região (“Não virá ninguém”, diz uma das prostitutas preocupada). Infelizmente para Bill, o recado não chegou aos ouvidos de William Munny.

Sempre firme, Eastwood convence no papel do veterano que volta à ativa somente para conseguir um dinheiro que lhe permita criar os filhos com mais dignidade. Seu William Munny carrega o peso do passado no semblante triste e o peso da idade também fica evidente, por exemplo, em sua dificuldade para montar no cavalo. Depois de um passado sombrio, Munny agora é um pai cuidadoso, que evita falar sobre o passado na frente das crianças e ainda corrige o filho ao escutar um palavrão (“Cuidado como fala”). Sua esposa Claudia de fato mudou sua vida, como ele faz questão de deixar claro em frases como “Era o uísque que me deixava daquele jeito. Minha mulher me curou da bebedeira e da malvadeza”. Ele não é mais um assassino, deixou de beber uísque e agora se preocupa com sua reputação, algo que fica evidente todas as vezes que alguém cita o seu passado (“Não sou mais assim”) e quando recusa uma prostituta, numa cena tocante e bela (“Admiro você por ser fiel a sua esposa”). Só que Claudia não estava mais presente e agora ele estava de volta àquela vida, ainda que não admitisse isto, como seu olhar de reprovação indica ao ouvir do amigo Ned que “se Claudia estivesse viva ele não estaria fazendo aquilo”. Mas ao contrário do passado, agora William sente imediatamente o peso do que fez após matar um homem, e Eastwood demonstra bem o incomodo do personagem, mexendo com uma pedrinha enquanto olha triste pra baixo e gritando para darem água para o rapaz que agoniza, assim como Freeman também ilustra bem o incomodo de Ned através de seu semblante sofrido. Aliás, o Ned de Morgan Freeman se mostra um bom parceiro, fiel ao amigo, mas também transformado pelo tempo e já sem a mesma agilidade e até mesmo sem a mesma frieza para matar, como fica claro quando hesita em atirar num homem indefeso. Matar já não era tão fácil pra ele e o ator demonstra isto muito bem. E fechando o elenco, o Kid de Jaimz Woolvett fala muito e faz pouco, mostrando-se o típico jovem sonhador que se deslumbra diante da fama que aquela vida traz. Ele vai descobrir que matar alguém tem muito pouco de glamour e traz grande amargura quando, após hesitar bastante, finalmente dispara contra um vaqueiro e o mata, sendo corroído pelo remorso momentos depois – algo que Woolvett demonstra bem na tocante conversa entre Kid e Munny ao pé de uma árvore. Observe ainda como William percebe o sofrimento do rapaz e resolve o problema à sua maneira, mandando o garoto “tomar um trago” após ouvir que foi o primeiro homem que ele matou. Em seguida, diz uma frase de forte impacto que traduz muito bem o sentimento que domina “Os Imperdoáveis”: “Matar um homem é algo infernal. Você tira tudo que ele tem e tudo que ele poderia vir a ter um dia”.

Ao descobrir que Ned foi espancado até a morte por Bill, o velho instinto matador de William Munny vem à tona, algo ilustrado em um pequeno gesto do personagem, que pega a garrafa de uísque e toma muitos goles. A garrafa vazia, jogada na lama debaixo da chuva, indica que o velho assassino está de volta e o final sensacional de “Os Imperdoáveis” tem inicio quando seu rifle interrompe as comemorações de Little Bill e seus amigos no bar. O diálogo que precede o tiroteio é uma grande homenagem ao gênero que fez a fama de Eastwood, repleto de frases marcantes como “Já matei mulheres e crianças. Já matei tudo que anda e rasteja e estou aqui para matar você Little Bill pelo que fez com Ned” (repare o brilho nos olhos de Beauchamp ao ouvir a frase e perceber que estava diante de uma verdadeira lenda). Este tipo de frase de impacto era tradicional no western. O tiroteio que segue é uma síntese de tudo que o filme prega, mostrando que não é fácil pegar uma arma e atirar num homem. Por isso, enquanto Munny acerta praticamente todos os tiros, os outros atiram para qualquer lado, sem direção, ou saem correndo, com medo diante de um verdadeiro assassino. O final antológico, com Munny e Bill marcando um encontro no inferno, encerra o clímax desta maravilha do cinema.

Como bem ilustrado pela singela frase que encerra “Os Imperdoáveis”, até mesmo um cruel assassino pode mudar seu comportamento ao lado de uma pessoa que lhe valha a pena. Se nada explicou para a Sra. Feathers porque sua filha se casou com um homem violento e inclemente, o longa explica como um homem marcado por papéis violentos pode, ao longo dos anos, exibir tamanha sensibilidade e nos entregar trabalhos tão maduros como este excelente “Os Imperdoáveis”.

Texto publicado em 09 de Fevereiro de 2011 por Roberto Siqueira

O SILÊNCIO DOS INOCENTES (1991)

(The Silence of the Lambs)

 

Videoteca do Beto #79

Vencedores do Oscar #1991

Dirigido por Jonathan Demme.

Elenco: Anthony Hopkins, Jodie Foster, Lawrence A. Bonney, Kasi Lemmons, Lawrence T. Wrentz, Scott Glenn, Anthony Heald, Frankie Faison, Stuart Rudin, Leib Lensky, Brooke Smith, Ted Levine, Pat McNamara, Kenneth Utt, Diane Baker, Don Butlen e Masha Skorobogatov.

Roteiro: Ted Tally, baseado em livro de Thomas Harris.

Produção: Kristi Zea.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Na cerimônia do Oscar de 1992, um filme surpreendeu a todos e levou os cinco principais prêmios da noite. Era “O Silêncio dos Inocentes”, excelente terror psicológico dirigido pelo versátil Jonathan Demme e estrelado com brilhantismo por Jodie Foster e Anthony Hopkins, que com sua atmosfera tensa, suga o espectador de maneira intensa e entrega uma narrativa maravilhosa, capaz de provocar frio na espinha de qualquer um, sem jamais apelar para imagens chocantes ou altos acordes da trilha sonora. É a história e, principalmente, os personagens que constroem o clima perfeito de suspense.

Clarice Starling (Jodie Foster) é escolhida para investigar uma série de assassinatos cometidos por um criminoso conhecido como “Buffalo Bill” (Ted Levine), que costuma arrancar a pele de suas vítimas – normalmente, mulheres acima do peso. Para entender sua conturbada mente, Clarice procura conversar com um perigoso psicopata conhecido como Hannibal Lecter (Anthony Hopkins), que está preso sob a acusação de canibalismo.

Um dos aspectos marcantes de “O Silêncio dos Inocentes” é, sem dúvida alguma, a sua atmosfera sombria, repleta de tensão em cada minuto de projeção. Na maior parte do tempo o espectador se sente aflito, ameaçado e incomodado, como se algo de ruim estivesse sempre prestes a acontecer. Mas ao contrário da maioria dos suspenses, o longa não apela para sustos artificiais, conseguindo criar seu clima aterrorizante somente através da excelente narrativa, recheada de grandes atuações, além é claro do bom trabalho técnico. A começar pela fotografia sombria de Colleen Atwood, que utiliza cores frias e pouca iluminação em diversos ambientes para criar, com o auxilio da igualmente sombria trilha sonora de Howard Shore, toda esta atmosfera carregada. Obviamente, o intrigante roteiro escrito por Ted Tally, baseado em livro de Thomas Harris, é o principal responsável pela construção deste clima, fazendo com que o espectador se sinta completamente envolvido pela investigação comandada por Clarice. Além disso, Tally foge de clichês básicos dos filmes de “serial killer”, por exemplo, ao revelar o assassino com apenas 30 minutos de filme, mostrando que a narrativa não se concentrará na descoberta do criminoso. É a dinâmica entre Clarice e Lecter que conduzirá a trama, muito mais do que a própria caçada ao assassino. Outro segredo do excelente roteiro é a simplicidade aliada à eficiência, ou seja, a ausência de explicações mirabolantes para os assassinatos. Bill age naturalmente, começando sua coleção de vítimas com uma vizinha – nas palavras de Clarice, “alguém que ele conhecia”. Finalmente, a narrativa apresenta ainda uma série de simbolismos interessantes, como a inteligente explicação para o nome do filme, revelando o trauma de infância de Clarice ao fugir do local onde os cordeiros (“lambs”, em inglês) eram sacrificados – ela mal podia dormir com os gritos dos cordeiros. Outro simbolismo evidente e interessante é a utilização das mariposas, que representam a tão desejada transformação de Bill numa mulher. Note como este pequeno detalhe é vital para a narrativa, pois será justamente uma mariposa voando pela casa que confirmará para Clarice que ele é o assassino, até porque aquelas mariposas não existem nos Estados Unidos (elas eram importadas).

Além das notáveis qualidades do roteiro, “O Silêncio dos Inocentes” conta também com excelentes atuações. Na realidade, o longa é um legítimo “filme de atores”, praticamente carregado pelo magnetismo da performance de sua dupla principal. Como citado, a dinâmica entre Clarice e Lecter é o fio condutor da narrativa, e felizmente, Foster e Hopkins oferecem atuações espetaculares. A atriz, sempre expressiva e com olhar penetrante, transmite segurança nos momentos necessários, como quando se mostra durona ao abrir uma porta emperrada sozinha e entrar num galpão abandonado, mostrando que era capacitada para conduzir aquela perigosa investigação. Mas é nas conversas com Lecter que Foster se destaca, estabelecendo uma conexão impressionante com Hopkins, algo reforçado até mesmo pelos constantes closes de Jonathan Demme. A atriz é competente ainda ao demonstrar com sensibilidade o trauma que perturba Clarice quando fala sobre a morte de seu pai, num diálogo eletrizante que lhe garante algumas dicas a respeito de Buffalo Bill. Finalmente, Foster demonstra bem o choque e o incômodo de Clarice ao ver o estrago na moça encontrada no rio, transmitindo também angústia e pena através do olhar. Criando o contraponto ideal para a excelente atuação de Foster, Anthony Hopkins está sensacional como Hannibal Lecter, praticamente hipnotizando o espectador com seu olhar penetrante, sua voz calma e sua inteligência. Lecter é praticamente um “gentleman”, mostrando-se educado e gentil, por exemplo, quando oferece uma toalha para Clarice se secar após chegar molhada pela chuva e, em seguida, ao perguntar sobre a ferida dela. Quando Miggs (Stuart Rudin) diz algo ofensivo para a agente, ele se mostra claramente incomodado, o que servirá para que Lecter revele sua faceta extremamente letal, ao provocar a morte do presidiário somente através de palavras sussurradas durante a noite. Personagem fantástico e fascinante, Lecter consegue conquistar a platéia, ainda que seja um assassino cruel, muito por causa da excepcional atuação de Hopkins. Entretanto, por mais educado e polido que seja, é inegável que a imagem de Hannibal com a focinheira é simplesmente aterrorizante. Aterrorizante também está Ted Levine como Buffalo Bill, compondo um homem imprevisível e assustador, capaz de “cuidar” durante semanas de suas vítimas, até que elas percam peso suficiente para que ele lhes retire a pele. Sua personalidade conturbada é ilustrada através de sua casa, repleta de objetos espalhados por todas as partes. Por outro lado, sua natureza meticulosa fica evidente somente pelo fato de criar mariposas, certamente uma atividade que exige paciência e tempo. Assassino frio e calculista, Bill era capaz de esperar o tempo que fosse necessário para conseguir o que queria de suas vítimas. Finalmente, Scott Glenn tem uma atuação discreta como o chefe de Clarice, Jack Crawford, e Brooke Smith está ótima como Catherine, a filha da senadora seqüestrada por Bill, com destaque para a cena em que vê as marcas de unhas e sangue na parede do poço e se desespera.

Extraindo o melhor do elenco afinado que tinha nas mãos, Jonathan Demme é competente também na composição de planos simbólicos, como o primeiro plano do longa, quando Clarice surge pequena em meio às árvores e se agiganta na tela, numa alusão interessante à própria história que será narrada, em que a estagiária se agigantará durante a investigação. Em seguida, o diretor emprega um plano-seqüência que acompanha desde o treinamento de Clarice até sua entrada na sala de Crawford, nos levando junto com a agente e começando a estabelecer empatia entre ela e o espectador. E apesar de evitar abusar de imagens chocantes, o diretor apresenta o resultado nada agradável dos ataques de Bill através de fotos coladas nas paredes com as vítimas de “Bill Skin”, estabelecendo desde então o perigo daquela investigação. Mas é na chegada de Clarice ao local onde Lecter está preso que o excelente trabalho do diretor fica evidente. Após nos levar por um extenso e intimidante caminho, repleto de grades que impedem o acesso ao local, finalmente chegamos ao corredor onde os piores criminosos imagináveis se encontram. Mas para nossa surpresa, Demme contraria todas as nossas expectativas ao apresentar um verdadeiro “gentleman” ao invés do animal que estávamos esperando. Auxiliado pela excepcional direção de arte de Tim Galvin, o diretor cria o contraste perfeito entre as celas asquerosas dos outros presos e o ambiente limpo do “doutor” Lecter. Por outro lado, o vidro que garante este visual mais “requintado” também serve para demonstrar o perigo que aquele homem representa, num sistema de proteção ainda mais eficiente que as tradicionais grades. Durante a primeira conversa da dupla, Demme utiliza constantemente o close nos olhos de Foster e Hopkins, criando uma conexão entre eles, que será vital para o futuro da narrativa. O close voltaria a ser utilizado com freqüência posteriormente, fazendo com que o espectador se sinta próximos dos personagens e praticamente entre em seus pensamentos.

Como em todo bom suspense, “O Silêncio dos Inocentes” tem uma coleção de cenas arrepiantes. Mas a principal delas certamente é a extraordinária revelação do truque de Hannibal Lecter, após a tensa seqüência em que os policiais aguardam a descida de um elevador. Quando o psicopata se levanta e tira a pele do rosto, atacando o enfermeiro que o acompanhava na ambulância, o choque é inevitável. Demme conduz a cena com perfeição, auxiliado pela montagem de Craig McKay, que alterna entre o tenso momento em que os policiais cercam o elevador por todos os lados e a surpreendente seqüência na ambulância. A montagem de McKay, aliás, é outro aspecto relevante do longa, destacando-se especialmente na invasão da casa de Bill, quando somos completamente enganados somente por causa da decupagem da cena. Observe como a alternância entre os planos que mostram a preparação dos policiais e aquele com a campainha tocando nos dá a sensação de que o FBI estava invadindo a casa correta, quando na realidade era Clarice quem estava certa. Momentos antes, Demme indica sutilmente que isto irá acontecer através de um travelling que vai do rio até a casa de “Bill”, indicando o local onde a primeira vítima (encontrada por último, por causa dos pesos que ele amarrou nela) foi jogada, bem perto da casa dele. Novamente a simplicidade é a chave do sucesso da narrativa. O tenso final é a cereja do bolo, em outra cena bem conduzida pelo diretor, que utiliza uma câmera subjetiva para nos colocar sob a visão de Clarice e depois, já no escuro, nos coloca sob o ponto de vista de Buffalo Bill, com seu aparelho de visão noturna. O som do gatilho salva a agente do FBI e finalmente silencia os cordeiros, respondendo a brilhante pergunta de Hannibal Lecter, feita por telefone nos segundos finais do filme.

Com um roteiro sensacional, um elenco competente e muita habilidade na condução da narrativa, “O Silêncio dos Inocentes” se estabelece como um suspense acima de média, intenso e eletrizante. Além disso, apresentou ao mundo um dos mais icônicos personagens do cinema, o psicopata brilhantemente interpretado por Anthony Hopkins, que inspirou novos filmes e marcou toda uma geração. Se os cordeiros de Clarice silenciaram, os nossos estavam apenas começando a gritar.

Texto publicado em 21 de Dezembro de 2010 por Roberto Siqueira

DANÇA COM LOBOS (1990)

(Dances with Wolves)

 

Videoteca do Beto #72

Vencedores do Oscar #1990

Dirigido por Kevin Costner.

Elenco: Kevin Costner, Mary McDonnell, Graham Greene, Rodney A. Grant, Floyd “Red Crow” Westerman, Tantoo Cardinal, Robert Pastorelli, Charles Rocket, Maury Chaykin, Jimmy Herman, Nathan Lee Chasing Horse, Michael Spears, Jason R. Lone Hill, Tony Pierce e Tom Everett.

Roteiro: Michael Blake, baseado em livro de Michael Blake.

Produção: Kevin Costner e Jim Wilson.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Em plena ascensão na carreira no final dos anos 80, após estrelar “Os Intocáveis”, “Sem Saída”, “Sorte no Amor” e “Campo dos Sonhos”, Kevin Costner finalmente chegava ao topo com este belo “Dança com Lobos”. E logo em sua primeira experiência na direção, o então astro de Hollywood entrega um resultado belíssimo, num épico tocante, humano e repleto de imagens deslumbrantes, que trata os índios com respeito e utiliza a guerra civil americana como pano de fundo para mostrar a incrível trajetória de seu personagem principal.

Durante a guerra civil norte-americana, John Dunbar (Kevin Costner) é um soldado gravemente ferido que, ao tentar o suicídio, acaba motivando os outros soldados a iniciarem um combate. Considerado herói, ele ganha a oportunidade de servir no posto de sua escolha, o que se revela uma oportunidade única para que realize seu sonho de conhecer a fronteira “antes que ela desapareça”. O problema é que a região é dominada pelos índios Sioux e será questão de tempo para que eles percebam sua presença em seu território.

“De todos os caminhos desta vida, existe um que realmente importa. É o caminho para o verdadeiro ser humano”. As belas palavras de Pássaro Esperneante (Graham Greene) resumem perfeitamente a jornada de John Dunbar, o homem que partiu para conhecer a fronteira e acabou encontrando a si mesmo. Conduzido com extrema sensibilidade por Kevin Costner, “Dança com Lobos” é um filme espiritualista, que nos transporta numa bela viagem pelo interior do coração humano. Auxiliado pela montagem de Neil Travis, Costner emprega um ritmo lento, contemplativo, que casa perfeitamente com o espírito de Dunbar e permite ao espectador desfrutar aquelas imagens belíssimas em sua plenitude – e é marcante a imagem recorrente daquele homem solitário, perdido em meio a tanta exuberância e beleza da natureza. A excepcional direção de fotografia de Dean Semler ajuda a captar com precisão estas lindas imagens, como o sol nascendo e se pondo ao final das longas planícies das pradarias, que se perdem no horizonte distante. A coleção de belos planos é enorme, especialmente durante a viagem de Dunbar até o forte, onde, por exemplo, Costner emprega um zoom out que ilustra perfeitamente a insignificância do homem diante da magnitude da natureza. O diretor também sabe utilizar a câmera para transmitir sensações, como quando Dunbar está assustado no forte e a movimentação da câmera revela que a ameaça na verdade era o cavalo Cisco andando do lado de fora, além de utilizar novamente o zoom out pra revelar toda a sujeira dos arredores do forte e em volta do lago. Além disso, utiliza a câmera lenta com precisão, por exemplo, quando Dunbar corre para evitar o roubo de Cisco, mostrando suas pernas intercaladas com as patas dos cavalos que se aproximam, além de caprichar nos enquadramentos, criando planos belíssimos que mostram a comunhão entre a natureza e o homem, como no plano geral que revela a aldeia Sioux. Finalmente, o diretor é inteligente ao indicar certas coisas sutilmente, como no plano em que Dunbar sai do forte e esquece a agenda na cama, que será vital para o futuro da narrativa e justificará seu retorno ao local, quando ele finalmente confrontará o seu passado e confirmará sua mudança completa.

Além da direção clássica, Costner conta ainda com os figurinos de Elsa Zamparelli, que colaboram para ilustrar a gradual transformação de Dunbar, lentamente transformado de soldado em índio Sioux (e até mesmo seu corte de cabelo e barba reflete esta mudança). A ótima direção de arte de William Ladd Skinner ambienta perfeitamente o espectador através das cabanas espalhadas pela aldeia, dos adereços e artefatos indígenas e até mesmo do abandonado forte Sedgwick, repleto de detalhes como os objetos deixados pelos soldados que ali estiveram. O trabalho de Skinner também é vital em momentos simbólicos, como na primeira aparição de Cisco, que, com sua coloração mais clara, revela-se um cavalo diferente dos demais, numa alusão ao próprio Dunbar, um soldado diferente de todos os outros naquela situação, e que, justamente por não ter grandes expectativas, tenta o suicídio (“Perdoe-me Senhor!”) ao cruzar o campo de batalha com os braços abertos, numa cena linda conduzida em câmera lenta por Costner. Finalmente, devemos destacar a trilha sonora simplesmente espetacular de John Barry, que cria, além do lindo tema principal, diversas melodias belíssimas, como o tema para os momentos entre Dunbar e o lobo ou o tema para seu relacionamento com “De Pé com Punho” (Mary McDonnell), além do tom mais sombrio para momentos tensos, como o confronto com os Pawnees.

Escrito por Michael Blake, baseado em seu próprio livro, “Dança com Lobos” aborda a civilização às avessas, ou seja, o homem branco aprendendo a cultura indígena, além de ilustrar as mudanças no interior de Dunbar através da deliciosa e muito bem escrita narração em off. Blake demonstra profundo respeito e sensibilidade para com a cultura Sioux, fazendo questão de desmistificar a imagem de homens selvagens ao mostrar um povo digno e honesto. Inicialmente, os índios até parecem violentos, como quando discutem o sinal de fumaça em sua terra e matam o camponês que levou Dunbar ao forte (numa cena, aliás, bastante violenta) – saberemos depois que estes são os Pawnees, uma tribo rival dos Sioux. Mas ainda assim, Blake evita o maniqueísmo ao mostrar que mesmo entre os Pawnees existem opiniões distintas, quando um deles diz que eles deveriam ignorar aquele sinal e partir. O contrário acontece entre os Sioux, retratados em sua maioria como pessoas boas, mas também com personalidades muito distintas, como o passional “Vento no Cabelo” (Rodney A. Grant), o inteligente “Pássaro Esperneante”, o sábio “Dez Ursos” (Floyd Westerman) e o índio que encontra o chapéu de Dunbar e se recusa a devolvê-lo, mostrando um lado egoísta que evita a “santificação” dos Sioux. Blake também mostra características marcantes dos índios, como o respeito à hierarquia, representado na obediência à palavra sempre decisiva de “Dez Ursos”. E nem mesmo os unidimensionais soldados estragam o roteiro, já que Blake faz questão de ressaltar a opinião divergente do líder deles em relação à Dunbar. O roteiro conta ainda com momentos de alivio cômico, como quando Dunbar acorda atordoado com o barulho dos índios que roubam Cisco e bate a cabeça na porta, só se levantando no dia seguinte, e com uma pitada de romance, através da aceitável e coerente relação entre “Dança com Lobos” e “De Pé com Punho”, duas pessoas que, como lembrado pela mulher de “Pássaro Esperneante”, têm a mesma origem (“Faz sentido, os dois são brancos”). Mas o roteiro de Blake acerta principalmente na condução do arco dramático de Dunbar, indicando sua lenta transformação através de pequenas atitudes, como quando ele morde um coração de búfalo após a caçada, quando troca o uniforme de soldado por adereços indígenas, a emblemática cena da dança em volta da fogueira (em que Costner, aliás, se sai muito bem), quando os instintos mais primitivos começam aflorar em Dunbar, e, obviamente, a “dança com o lobo”, que explica seu novo nome e finaliza o processo de transformação. Nas palavras de “Dez Ursos”, agora Dunbar já não existia mais, ele era um índio Sioux chamado “Dança com Lobos”. Após sua transformação, até mesmo “Duas Meias” passa a comer em sua mão, como se o lobo soubesse que aquele era um homem já completamente integrado à natureza – algo que o lobo pressentia antes mesmo da transformação, e por isso, rodeava o forte.

E se tem total domínio da narrativa e noção exata do que quer na direção, Costner também se sai bem como ator, iniciando sua atuação de maneira contida, o que é coerente com o sentimento de Dunbar, estarrecido diante de tanta beleza e paz. Aliás, o ator se sai bem desde a primeira cena, quando transmite com exatidão a dor do personagem ao recolocar a bota na perna ferida e, com seu olhar desolado diante da imagem de um soldado com a perna amputada, demonstra seu estado de espírito. Dunbar era um homem completamente sem perspectiva na vida naquele momento. Observe também a aflição no rosto de Costner quando os índios encontram os búfalos mortos por homens brancos, refletindo o sentimento angustiado do personagem. Ele sabia que, diante de interesses conflitantes, era inevitável o conflito entre brancos e índios no futuro. E o que dizer dos belos momentos em que Dunbar tenta se comunicar através de gestos e mímicas com os índios, que, por sua vez, se esforçam para entendê-lo? É tocante a dedicação daquelas pessoas diante de tamanha adversidade. Aliás, o fato dos Sioux falarem seu próprio dialeto confere veracidade e realismo à narrativa e ajudam a ambientar o espectador. Desta forma, os primeiros contatos entre Dunbar e os Sioux expressam de maneira orgânica a dificuldade extrema de comunicação entre aquelas pessoas, separadas pela barreira do idioma. Mas Costner não está sozinho entre os destaques do elenco. Mary McDonnell e Graham Greene também têm grandes atuações, como podemos notar na primeira conversa do trio numa cabana, onde eles demonstram com perfeição a enorme dificuldade de comunicação, através dos olhares ansiosos, do gaguejar de “De Pé com Punho”, já há muito tempo sem falar o inglês, e da irritação de “Pássaro Esperneante” diante da situação, repreendendo a moça diversas vezes. Fica evidente que eles gostariam de dizer muito mais do que foi dito, mas a barreira do idioma ainda existe. McDonnell ainda transmite muito bem a aflição da personagem diante da presença do homem branco, algo que lhe recordava sua origem e lhe tirava daquele mundo, como explicado através de um flashback, que revela como Christine se transformou em “De Pé com Punho”. Já Graham Greene está estupendo como “Pássaro Esperneante”, um homem sensato e inteligente que conduz a aproximação entre os Sioux e Dunbar. A amizade dos dois, aliás, chega a emocionar, sem que o roteiro jamais apele para clichês ou que Costner exagere no sentimentalismo para alcançar este resultado. A emoção é genuína, provocada simplesmente pela pureza daquela amizade, simbolizada no momento da despedida, quando ambos trocam presentes. Assim como é genuíno também o grito de dor de “Vento no Cabelo”, interpretado por Rodney A. Grant, ao ver seu amigo partir, na última e emocionante cena do filme. Vale destacar ainda a atuação de Floyd “Red Crow” Westerman como “Dez Ursos”, conferindo um peso enorme ao respeitado líder dos Sioux.

“Dança com Lobos” tem ainda dois momentos empolgantes, que destoam do ritmo contemplativo da narrativa. Certamente uma das melhores seqüências do longa, a caçada de búfalos joga o espectador pra dentro da cena através da alternância de planos gerais e closes, do som que capta com precisão a corrida dos búfalos e cavalos e da empolgante trilha sonora, numa cena extremamente bem conduzida por Costner. A outra grande cena é a guerra entre os Sioux e os Pawnees, que termina no impressionante plano em que os Sioux massacram um dos índios rivais. Estas duas cenas balanceiam muito bem a narrativa com seus momentos tocantes, como quando “Vento no Cabelo” diz que seu melhor amigo morreu porque Dunbar estava vindo, declarando de maneira sincera a sua amizade, ou quando os soldados matam Cisco e atiram em “Duas Meias”, simbolizando o corte da ligação de Dunbar com aquele mundo que tanto amava. A partir daquele momento, ele sabia que não poderia ficar ali e colocar em risco toda a aldeia, o que motiva sua decisão de deixar a tribo. Esta decisão nos leva então ao final triste e realista de “Dança com Lobos”, com o lobo uivando, “Vento no Cabelo” gritando e o casal deixando a tribo, num momento de partir o coração. O texto cruel que encerra o longa decreta o fim da cultura eqüina das pradarias e a trilha arrebatadora encerra a nossa maravilhosa viagem.

“Dança com Lobos” é um filme lindo, que nos apresenta com muita sensibilidade a busca do homem por sua verdadeira identidade. Se a megalomania derrubou Costner nos anos seguintes, este momento de muita inspiração certamente justificou sua carreira com brilhantismo, entregando um filme tocante e sensível, que sabe exatamente a mensagem que pretende deixar. Dunbar viu mais sentido na vida entre os índios do que em tudo que vivera até então, mas, infelizmente, os caminhos do progresso impediram que ele vivesse esta descoberta em sua plenitude. Repetindo as palavras de Pássaro Esperneante, “o caminho para o verdadeiro ser humano é o que realmente importa nesta vida”. Pena que tão poucos encontram este caminho.

Texto publicado em 28 de Novembro de 2010 por Roberto Siqueira

OPERAÇÃO FRANÇA (1971)

(The French Connection)

 

Filmes em Geral #28

Vencedores do Oscar #1971

Dirigido por William Friedkin.

Elenco: Gene Hackman, Fernando Rey, Roy Scheider, Tony Lo Bianco, Marcel Bozzuffi, Frédéric de Pasquale, Bill Hickman, Ann Rebbot, Harold Gary, Arlene Farber, Eddie Egan, André Ernotte, Sonny Grosso, Benny Marino, Patrick McDermott e Alan Weeks.

Roteiro: Ernest Tidyman, baseado em livro de Robin Moore.

Produção: Phillip D’Antoni.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Dirigido por William Friedkin, “Operação França” é um thriller de perseguição policial extremamente empolgante e realista, que conta ainda com pelo menos duas excepcionais cenas de tirar o fôlego. Com boas atuações de Gene Hackman e Roy Scheider, e contando ainda com um talentoso elenco de apoio, o longa consegue equilibrar-se entre o cinema comercial, que busca a boa recepção do publico e o alto faturamento nas bilheterias, e o cinema “de autor” da nova Hollywood, evitando abordar a narrativa de maneira convencional, ao mostrar os aspectos positivos e negativos de seu “herói”.

Os detetives Popeye (Gene Hackman) e Cloudy (Roy Scheider) investigam o comerciante Sal (Tony Lo Bianco), que anda gastando muito mais do que aparentemente recebe, dando claros indícios de sua participação numa rede internacional de tráfico de drogas. As investigações levam ao francês Alain Charnier (Fernando Rey), cérebro da operação, que auxiliado pelo astro de cinema Henri Devereaux (Frédéric de Pasquale) e pelo assassino profissional Pierre Nicoli (Marcel Bozzuffi), organiza uma venda milionária de heroína em terras norte-americanas.

Escrito por Ernest Tidyman, baseado em livro de Robin Moore, “Operação França” apresenta uma narrativa dividida em duas linhas principais: a investigação policial conduzida por Popeye e Cloudy e o andamento da operação planejada por Charnier. Desta forma, o espectador não precisa tentar desvendar quem são as pessoas envolvidas naquela operação, focando seus esforços somente em acompanhar o desenrolar da investigação e tentando imaginar como aqueles detetives poderiam surpreender os traficantes. Estas duas linhas narrativas se alternam num ritmo empolgante, graças à excepcional montagem de Gerald B. Greenberg, que tem participação crucial também nas frenéticas perseguições pelas ruas, que se estabelecem como os melhores momentos do longa. Sempre adotando um clima de urgência e um estilo quase documental, reforçado pela fotografia crua e granulada de Owen Roizman, o diretor William Friedkin deixa claro com menos de cinco minutos de projeção que prezará pelo realismo, ao apresentar um assassinato à queima roupa, sem desviar a câmera do sangrento resultado. Em seguida, os detetives Popeye e Cloudy perseguem um homem pelas ruas de Nova York, e Friedkin acompanha a dupla com a câmera na mão, trêmula, conferindo um ar documental à cena, o que se tornaria a marca registrada do filme dali em diante. O diretor utiliza ainda o zoom com certa freqüência, buscando ressaltar a posição estratégica dos personagens em algumas cenas, como quando vemos os traficantes num restaurante e a câmera vai buscar Popeye, lá fora, esperando pelo fim do jantar. Em outro momento, a câmera acompanha o carro de Devereaux saindo do porto e o zoom out revela os traficantes acompanhando de longe o andamento da operação. Finalmente, Friedkin aproveita a beleza do mar azul de Marselha para criar raros e belos planos, que contrastam diretamente com a crueza das filmagens nas cidades norte-americanas, além de conduzir com perfeição todas as cenas de perseguição e criar planos emblemáticos, como aquele em que Popeye e Sal se olham através do vidro da loja de perfumes, revelando a irônica situação dos detetives, que por diversas vezes estão muito próximos de seus alvos, mas por não ter provas concretas, nada podem fazer. Este paradoxo fica ainda mais evidente quando os detetives têm a chance de apreender a mercadoria no carro de Devereaux, mas preferem deixar a negociação rolar, justamente para poder pegar toda a operação em flagrante.

Ainda que apareça apenas em alguns raros momentos, a trilha sonora de Don Elis busca aumentar o clima de tensão, revezando momentos de tom contínuo e estridente com outros de ritmo acelerado, especialmente durante algumas perseguições, como quando Popeye persegue Charnier pelas ruas e dentro do metrô. Esta cena, aliás, também é muito bem conduzida por Friedkin, que posiciona a câmera num local estratégico, nos permitindo acompanhar a movimentação de ambos enquanto Charnier tenta desesperadamente despistar Popeye, entrando e saindo do metrô sem lógica alguma. Curiosamente, a ausência da trilha sonora durante algumas perseguições também favorece o clima de tensão, conferindo um ar mais realista à cena, como na fabulosa seqüência em que três detetives se revezam na perseguição aos traficantes, onde só podemos ouvir o som diegético dos carros e das pessoas caminhando – e novamente a montagem de Greenberg se mostra incrivelmente eficaz, alternando entre os planos com muita fluidez.

Todo este realismo é enriquecido ainda mais pelos complexos personagens de “Operação França”. Mostrando-se alguém durão desde a primeira batida em um bar, através da voz firme e das atitudes enérgicas, o Popeye brilhantemente interpretado por Gene Hackman foge do costumeiro estereótipo do herói, mostrando-se uma pessoa até mesmo egoísta e cruel, capaz de atirar num inimigo desarmado e pelas costas – o que reforça o esforço do roteiro em não santificar seu personagem principal. Claramente incomodado por seu passado, quando aparentemente foi responsável indireto pela morte de um parceiro de profissão, ele é capaz de ir até as últimas conseqüências buscando alcançar seu objetivo, o que resulta em outro trágico acidente, quando ele mata outro parceiro de profissão, já próximo ao ambíguo final do longa. Sua obstinação pelo combate ao crime chega até mesmo a incomodar seus companheiros de trabalho, o que, por outro lado, faz com que Popeye seja considerado o “principal obstáculo” no caminho dos franceses, como eles mesmos admitem em certo momento. Sua dedicação ao trabalho impede até mesmo que ele tenha uma vida social agradável, como fica evidente quando sai para tomar umas bebidas com Cloudy e, ao invés de relaxar, ele fica observando as pessoas no bar, buscando alguma conexão entre elas e o mundo das drogas. Em certo momento, uma bicicleta enroscada na porta indica que Popeye dormiu com uma garota que ele acabara de conhecer na rua, enquanto voltava pra casa. Esta cena sutil e despretensiosa reforça sua condição “desprovida” de relações afetivas, afinal de contas, não é fácil estabelecer uma relação com alguém tão obstinado pelo trabalho como ele. E até mesmo seu apartamento bagunçado reflete sua turbulenta vida fora do ambiente profissional, algo que Cloudy faz questão de ressaltar quando o visita – e que revela o bom trabalho de direção de arte de Ben Kazaskow. Muito bem interpretado por Roy Scheider, Cloudy revela-se o parceiro ideal para Popeye, mostrando serenidade para conter os impulsos do amigo, mas também sendo enérgico e corajoso quando necessário, como durante as perseguições. O ator demonstra muita empatia com Hackman, tornando a amizade daqueles detetives bastante verossímil, como podemos notar quando ele brinca com uma calcinha que encontra no apartamento do amigo (“São suas querida?”) ou quando eles escutam uma parte vital das investigações num telefonema grampeado e explodem de felicidade. E assim com a dupla de detetives, todo o restante do elenco apresenta um bom desempenho, com destaque para o cínico Alain Charnier, interpretado por Fernando Rey, e para o frio assassino Pierre Nicoli, vivido por Marcel Bozzuffi, responsável por uma das cenas mais tensas do filme, quando assume o controle de um metrô em alta velocidade.

Esta seqüência, a mais espetacular de “Operação França”, tem inicio quando Pierre começa repentinamente a atirar em Popeye de cima de um prédio, em mais um momento extremamente realista, que nos coloca na mesma posição de Popeye, completamente vulnerável diante das balas que atingem violentamente o chão e as pessoas que passam por ali. Os gritos das mulheres e câmera que acompanha a trajetória do detetive até a entrada do prédio nos colocam praticamente dentro da cena. Em seguida, Popeye persegue Pierre pelas ruas, mas ele consegue escapar quando chega ao metrô, o que motiva o detetive a “pegar emprestado” o carro de um civil. Hackman, insano dentro do carro em alta velocidade, persegue o metrô de superfície pelas ruas da cidade, enquanto Pierre domina as pessoas lá dentro e acaba provocando um grave acidente. Friedkin capta tudo isto com incrível precisão, fazendo o espectador grudar os olhos na tela, enquanto Hackman dá um verdadeiro show de interpretação durante a alucinada perseguição.

Conferindo realismo em suas principais cenas e contando com uma narrativa ágil e interessante, “Operação França” é um filme de ação espetacular. Antecipando técnicas que se tornariam febre muitos anos depois, Friedkin oferece entretenimento e diversão sem insultar a inteligência do espectador, apresentando uma história interessante, personagens críveis e situações perfeitamente aceitáveis. Esta é a grande diferença entre o cinema excepcional daquela época e, salvo algumas felizes exceções, o cinema puramente comercial dos dias atuais.

Texto publicado em 16 de Novembro de 2010 por Roberto Siqueira

PERDIDOS NA NOITE (1969)

(Midnight Cowboy)

 

Filmes em Geral #25

Vencedores do Oscar #1969

Dirigido por John Schlesinger.

Elenco: Dustin Hoffman, Jon Voight, Sylvia Miles, John McGiver, Brenda Vaccaro, Barnard Hughes, Ruth White, Jennifer Salt, Gary Owes e T. Tom Marlow.

Roteiro: Waldo Salt, baseado em livro de James Leo Herlihy.

Produção: Jerome Hellman.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Primeiro filme da chamada “nova Hollywood” a vencer o Oscar de melhor filme, “Perdidos na Noite” é um bom (não o melhor) representante do movimento, que mostra de maneira realista a dificuldade de adaptação de um jovem interiorano ao clima hostil e agitado da cidade grande. Dirigido por John Schlesinger, o longa estrelado por Jon Voight traz ainda em seu elenco a grande estrela da época, o talentoso Dustin Hoffman, se afirmando como um dos filmes icônicos daquele celebrado período.

Jovem texano inocente e caipira, Joe Buck (Jon Voight) larga o emprego e parte, com seu estilo cowboy, para tentar ganhar a vida na cidade de Nova York, trabalhando como garoto de programa de mulheres mais velhas e ricas. Ao chegar ao local, faz amizade com um marginal plenamente adaptado à cidade chamado Ratso Rizzo (Dustin Hoffman) e descobre o lado nada hospitaleiro e cruel da vida nas grandes metrópoles.

Escrito por Waldo Salt, baseado em livro de James Leo Herlihy, o roteiro de “Perdidos na Noite” acerta o tom ao mostrar, sem floreios e exageros, a dificuldade de se adaptar à cidade grande, um sentimento comum à maioria das pessoas que não nasceram nestes locais. Somente quem já viveu a sensação de chegar a uma cidade grande pela primeira vez sabe como é, ao mesmo tempo, empolgante e assustador. A ousadia temática da narrativa (jovem larga o interior para ser garoto de programa em Nova York) era uma das características da chamada “nova Hollywood” e o longa de Schlesinger não foge a regra. Mas apesar do tema sombrio, existe espaço para pequenos alívios cômicos, como na cena em que Rasto finge ser engraxate (repare como a posição da câmera colabora sutilmente, mostrando a chegada dos sapatos do terceiro homem e provocando o riso no espectador). O filme aborda o tema do choque cultural já na viagem até Nova York, quando Joe tenta puxar assunto no ônibus com o motorista e com uma moça e ambos não correspondem. Até mesmo a luz do ônibus que lhe incomoda ele não pode apagar, pois a senhora sentada ao seu lado não deixa. A viagem é nostálgica, repleta de flashbacks que lembram a todo instante tudo que ele está deixando pra trás (a avó, a casa em que cresceu, a namorada), e é pontuada pela trilha sonora deliciosa de John Barry (um country, condizente com à história do cowboy que sai da cidade pequena e parte para a cidade grande). Esta trilha inicialmente alegre faz um contraponto interessante com o tom melancólico da chegada à Miami, combinando perfeitamente com o sentimento de Joe, já completamente transformado pela vida.

Na direção, Schlesinger mostra criatividade, por exemplo, na cena em que ilustra a primeira relação sexual de Joe através da velocidade na troca de canais e da imagem das moedas na televisão, revelando também o bom trabalho de montagem de Hugh A. Robertson. A montagem de Robertson, aliás, também demonstra como a infância tem peso na fase adulta de Joe, intercalando imagens dele ainda criança com imagens atuais enquanto assiste televisão, além de auxiliar na indicação da passagem do tempo com elegância, por exemplo, inserindo um plano com água congelada numa torneira que simboliza a chegada do inverno. Já quando Joe e Ratso são expulsos do hotel, Schlesinger utiliza a câmera para demonstrar a tristeza de ambos, diminuindo-os na tela e mostrando como eles estão impotentes diante daquela situação. Ainda na parte técnica, a direção de fotografia de Adam Holender progressivamente muda do tom claro e alegre do início para o obscuro e sombrio visual que domina a tela na metade da projeção, refletindo a mudança no estado de espírito de Joe – repare que até mesmo as cenas noturnas passam a dominar o longa na medida em que a narrativa avança. Além disso, a fotografia demonstra o sentimento de Joe, por exemplo, na cena em que ele sai desesperado à procura de Ratso, com imagens em preto e branco embaladas pela trilha sonora alucinada, ou em seu pesadelo, repleto de imagens surreais, ilustrando o quanto ele está atormentado naquele ambiente. Já quando os dois se imaginam na praia, as cores quentes e a forte luz do sol refletem a alegria daquele pensamento (e neste momento, vale destacar o sorriso sutil, no canto da boca, do ótimo Dustin Hoffman). Vale destacar ainda a típica festa dos anos 60 que determina o destino de Ratso e Joe, repleta de imagens surreais, alucinações e pessoas de estilos diferentes. E aqui novamente a fotografia é importante, pois no momento em que eles conversam com uma determinada mulher, o predomínio do tom vermelho indica o destino infernal da dupla. Em seguida, Ratso sofreria uma queda violenta na escada e Joe teria dificuldades numa relação sexual, o que para um “garoto de programa” pode ser considerado algo grave. Finalmente, também merece destaque a maquiagem em Hoffman, que reflete através de sua sujeira o quanto Ratso foi maltratado pela vida.

Ratso, aliás, que é a síntese da dificuldade que muitos encontram para sobreviver nas grandes cidades. Interpretado de maneira brilhante por Hoffman, o personagem literalmente rasteja por Nova York, sugando tudo que está ao seu alcance para conseguir sobreviver. Hoffman confirma o grande ator que é numa atuação convincente, compondo detalhadamente o personagem, através da voz anasalada, da fala rápida, da forma de caminhar, que progressivamente se torna mais lenta devido à evolução de sua doença, misturando a tosse que lhe castiga com o sorriso de quem já se adaptou a realidade daquela vida. Ratso, com o perdão do trocadilho, é um verdadeiro rato de cidade grande, que não tem vergonha de fazer tudo que pode para sobreviver, chegando a roubar e enganar outras pessoas. E até mesmo seu apartamento no hotel demonstra o estado em que ele sobrevive naquele mundo, mostrando-se um local sujo e escuro, que freqüentemente o esconde sob as sombras. Não por acaso, suas cenas são predominantemente obscuras e as ruas que percorre são sujas e feias, o que reflete a vida difícil que ele leva e reforça o bom trabalho de direção de arte e fotografia. Pra completar, sua atuação ainda tem a célebre frase “Estou andando aqui!”, quando Ratso atravessa uma rua e quase é atropelado, que marcou o cinema para sempre. Já Joe Buck é o típico jovem do interior. Joe chega à cidade de peito aberto, destemido, caçando mulheres como um verdadeiro predador, achando que as oportunidades aparecerão facilmente, algo ilustrado também pela câmera de Schlesinger, que filma Joe em ângulo baixo, refletindo seu sentimento de grandeza em sua chegada. Mas o tempo mostrará que a vida nas grandes cidades não é tão acolhedora assim, como ele pode perceber logo em seus primeiros minutos em Nova York, vendo um homem caído e as pessoas, arredias, seguindo seu caminho, sem sequer dar atenção ao pobre coitado. John Voight compõe o personagem de maneira durona, algo coerente com sua origem, e vive seu grande momento na bela cena em que Joe e Ratso gargalham no ônibus a caminho de Miami. Quando Joe chega ao fundo do poço, se relacionando com um homem por dinheiro (o que lhe traz a imediata lembrança da namorada que ele deixou pra trás em busca da vida na cidade grande), o ator convence ao transmitir com exatidão a aflição do personagem. E existe ainda um momento sutil, porém marcante, que demonstra quando ele começa a perceber que nem todos têm oportunidade naquela terra, quando Joe, assustado, contempla a imagem de mendigos e prostitutas vagando pelas ruas de Nova York.

“Perdidos na Noite” representa bem a nova forma de se fazer cinema que tomou conta de Hollywood no final dos anos 60, ousando tematicamente e quebrando as regras convencionais do cinema norte-americano até então. O plano final, com Ratso morto no vidro ao lado do assustado Joe, enquanto este olha para as praias de Miami, demonstra bem a mensagem principal do filme. A vida na cidade grande não é um mar de rosas.

Texto publicado em 11 de Novembro de 2010 por Roberto Siqueira

PATTON – REBELDE OU HERÓI? (1970)

(Patton)

 

Videoteca do Beto #67

Vencedores do Oscar #1970

Dirigido por Franklin J. Schaffner.

Elenco: George C. Scott, Karl Malden, Michael Bates, Ed Binns, Stephen Young, Lawrence Dobkin, John Doucette, James Edwards, Frank Latimore, Richard Münch, Morgan Paull, Siegfried Rauch, Paul Stevens, Michael Strong, Karl Michael Vogler e Peter Barkworth.

Roteiro: Francis Ford Coppola e Edmund H. North, baseado em livros de Ladislas Farago e Omar N. Bradley.

Produção: Frank McCarthy.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A personalidade conturbada e a obstinação pela glória eram dois traços marcantes do famoso general norte-americano George Patton, que inspirou este “Patton, rebelde ou herói?”, dirigido por Franklin Schaffner e que faz um fascinante estudo deste ser humano complexo (e quem não é?). Talvez o único general dos aliados realmente temido pelos nazistas, era capaz de campanhas heróicas e históricas nos campos de batalha, mas falhava terrivelmente quando se relacionava com as pessoas, onde a “luta” não exigia tanques e estratégias, mas sim sensibilidade e humanismo.

O general George Patton (George C. Scott) assume o comando do exército norte-americano durante a segunda guerra mundial e, depois de seguidos triunfos, coloca sua reputação em risco ao agredir em público um soldado que passava por uma crise. Seus métodos inspiravam medo nos alemães, mas também provocavam ressentimentos nos aliados e, por isso, quase impediram que seu grande sonho se realizasse. Rebaixado, sem o comando do exército e impedido de participar do “dia D”, Patton é obrigado a rever seus conceitos, mas consegue retornar para comandar a caminhada do 3º exército americano pela Europa, que terminaria somente em território russo.

Logo no primeiro plano, em que o general aparece diante da imensa bandeira norte-americana, “Patton” mostra uma de suas principais forças: os enquadramentos perfeitos que exploram ao máximo a tela widescreen (cinemascope) e que serão responsáveis pelo visual deslumbrante do longa. Em seguida, os planos de cada detalhe do condecorado uniforme do general George Patton nos apresentam à outra característica marcante do filme: a obsessão de seu protagonista pela guerra e seu amor pelos campos de batalha. O discurso que segue apenas resume o pensamento típico norte-americano sobre a guerra e demonstra também o “ódio à derrota”, a cultura dos “vencedores”, que se por um lado motiva as pessoas a seguirem em busca de seus ideais, por outro é responsável por uma legião de frustrados espalhados pelo mundo por não terem conseguido alcançar o “sucesso” imaginado.

Escrito por Francis Ford Coppola e Edmund H. North (baseado em livros de Ladislas Farago e Omar N. Bradley), “Patton” cobre praticamente toda a trajetória do general homônimo durante a segunda guerra mundial e, apesar de glorificar o pensamento belicista na maior parte do tempo, se redime na última frase do filme (“Toda glória é efêmera”), ao questionar a validade de tudo aquilo. Além disso, o roteiro faz uma crítica sutil à imprensa sensacionalista quando Patton se esquece de mencionar os russos, provocando uma verdadeira tormenta nos jornais do dia seguinte. Coppola e North ainda inserem pequenos alívios cômicos que balanceiam bem a narrativa, como quando alguém diz para Patton que ele “não verá mais aviões alemães” e, no minuto seguinte, um bombardeio se inicia. Após este bombardeio, aliás, Patton se sente derrotado e o plano de Schaffner demonstra bem este sentimento, diminuindo o general na tela enquanto este imagina um duelo no estilo western com tanques de guerra. Patton é diminuído em cena ainda em outros momentos, como quando recebe as instruções num hotel de Londres e no último e solitário plano do longa. Schaffner cria ainda lindos planos nas exóticas locações situadas na Tunísia, Marrocos e Argélia, além de utilizar planos gerais que nos situam com precisão nas batalhas. O diretor também emprega repetidas vezes o zoom out, como quando os animais pressentem o ataque dos alemães no deserto ou quando Patton e Montgomery (Michael Bates) se cumprimentam em Messina, nos afastando lentamente da cena. Finalmente, o diretor acerta ao filmar por diversas vezes o general em ângulo baixo, especialmente em seus discursos inflamados, representando o poder que aquele homem tinha (ou pensava ter), mas peca ao apresentar um plano óbvio demais, quando mostra dois soldados mortos de mãos dadas após o general ouvir que a batalha foi hand to hand.

Como filme de guerra “Patton” é eficiente, graças também ao bom trabalho técnico coletivo. A montagem de Hugh S. Fowler trabalha muito bem nas batalhas, alternando entre os belos planos gerais e os planos que nos colocam muito próximos dos soldados, mas desliza ao estender demais algumas cenas desnecessárias, como os inúmeros discursos do general. Acerta ainda ao inserir uma espécie de telejornal, que atualiza as notícias e dá seguimento à narrativa sem parecer falso ou deslocado. Os figurinos recriam perfeitamente os uniformes dos soldados, tanto de americanos como de marroquinos e alemães, e a direção de arte de Urie McCleary e Gil Parrondo é responsável pelo contraste entre as luxuosas instalações alemãs e do alto comando norte-americano e, por exemplo, a desgastada base no Marrocos, com paredes descascadas e claramente deterioradas. Além disso, capricha nos detalhes que compõem o exército, como os equipados tanques de guerra, e em pequenos objetos que exemplificam a personalidade do general Patton, como o revólver pouco comum que ele carregava. O som é excepcional, se destacando nas batalhas, mas trabalhando de maneira eficiente, por exemplo, quando a oscilação do som da sirene dá a noção da posição do carro que traz o general em sua chegada ao Marrocos. A chegada dos tanques no primeiro combate também merece destaque, fazendo literalmente o chão tremer. Já a fotografia de Fred J. Koenekamp evolui do visual empoeirado do deserto, onde destaca cores como o verde musgo e o marrom, para o gélido terceiro ato em território russo, onde as cores frias e a própria neve criam um contraste interessante, que reflete também os sentimentos do general. Nas palavras de um alemão, a aproximação do fim da guerra significava também o seu próprio fim. Koenekamp acerta ainda quando envolve o general em sombras no momento em que ele é notificado que Bradley assumiu o comando, representando visualmente sua angústia. Finalmente, a trilha sonora do bom Jerry Goldsmith oscila entre momentos melancólicos, como quando um soldado americano morre num bombardeio, e momentos triunfais, como quando Patton volta a comandar uma divisão do exército.

Mas se é eficiente como filme de guerra, “Patton” se destaca mesmo como um minucioso estudo de personagem. Extremamente temido, o general George Patton era capaz de gerar pânico nos soldados, como quando um deles diz “Que Deus nos ajude” ao saber de sua chegada. O temor se justifica logo em sua primeira “vistoria” no local, quando arranca um pôster de mulher e ordena que todos vistam o uniforme do exército, incluindo os médicos. Quando questionado por um médico sobre a impossibilidade de utilizar o material de trabalho por causa do capacete, ele responde: “Faça dois furos”, mostrando seu lado pratico e nada humanista. E até mesmo seu lado espiritual era apenas mais uma arma em suas mãos, como fica evidente quando ele ordena que o capelão peça para Deus melhorar o clima. George Scott encarna o general com extrema competência, demonstrando sua obstinação pela vitória com fervor. A expressão séria, como quando se olha no espelho antes da primeira batalha contra os alemães, poucas vezes saía de seu rosto, mas Scott sabe bem os momentos em que a cena pede uma oscilação em sua feição, como quando Bradley questiona seus métodos pouco éticos e ele coça os olhos olhando para os céus. Sua capacidade de mover exércitos era proporcional à sua falta de tato, exemplificada em suas declarações, como quando compara o Marrocos a uma “mistura da Bíblia com Hollywood”. O único local capaz de aflorar emoções em Patton era mesmo o campo de batalha. Profundo conhecedor da história das guerras, sabia da importância de conhecer o inimigo e, por isso, lia o livro de seu adversário apenas para antecipar suas táticas. Na busca incessante pela vitória e pela glória, Patton utilizava todas as armas possíveis, ainda que pra isso tivesse que atropelar a ética e a moral, como quando pede para que seus lideres enviem novamente uma mensagem, somente para ganhar tempo e desobedecer à ordem que estava por vir, invadindo a cidade de Palermo. Era capaz de prejudicar seu aliado inglês e provocar a morte de soldados do próprio exército somente para chegar a Messina antes de seu aliado e ter toda a glória para si. E se o ser humano pouco importava pra ele, o que dizer então de pobres animais que atrapalhavam sua marcha em cima de uma ponte? A solução foi rápida. O horror da guerra não lhe comovia nem um pouco, como podemos notar no plano em que Patton sequer olha para os lados enquanto diversos soldados feridos passam ao redor. Já a “covardia” era capaz de lhe tirar do sério, fazendo com que ele humilhasse um soldado em crise no hospital, o que lhe custou muito caro depois. Nesta cena, aliás, Scott está estupendo, demonstrando com exatidão a raiva que Patton sentia diante daqueles que considerava covardes. É interessante notar também que nem mesmo os alemães acreditavam que uma agressão a um soldado fosse motivo para afastar o general. Após a queda, Patton se esforça muito para conter os nervos, como quando é provocado por um repórter e, após hesitar, resolve seguir em frente sem reagir. Mas o tato não era seu forte, como fica claro em sua fria despedida dos companheiros de batalha após o fim do conflito.

“Patton” pode parecer um filme de guerra e até cumpre bem esta função quando necessário, mas na realidade, o longa dirigido por Franklin J. Schaffner é um belo estudo de personagem (como sugere o próprio nome do filme), que esmiúça a mente de um dos grandes generais norte-americanos, sem jamais temer mostrar seus piores defeitos. George Patton não era um político, o ser humano pouco lhe importava e é apropriado que no último plano ele apareça pequeno e solitário, acompanhado somente por um cachorro. Em sua busca obstinada pela glória, ele descobriu que estas coisas são passageiras. O que realmente importa na vida talvez ele jamais tenha tido.

Texto publicado em 03 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira

CONDUZINDO MISS DAISY (1989)

(Driving Miss Daisy)

 

Videoteca do Beto #60

Vencedores do Oscar #1989

Dirigido por Bruce Beresford.

Elenco: Morgan Freeman, Jessica Tandy, Dan Aykroyd, Patti LuPone, Esther Rolle, Jo Ann Havrilla, William Hall Jr., Alvin M. Sugarman, Clarice F. Geigerman, Muriel Moore, Sylvia Kahler e Crystal R. Fox.

Roteiro: Alfred Uhry, baseado em peça teatral de Alfred Uhry.

Produção: Lili Fini Zanuck e Richard D. Zanuck.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

De forma simples e eficiente, o diretor Bruce Beresford nos traz esta tocante estória sobre uma senhora judia que hesita em aceitar seu novo motorista negro após sofrer um leve acidente com seu novo carro. A trajetória de aceitação, quebra de preconceitos e aproximação de duas pessoas solitárias, e acima de tudo, o olhar humano, despido de preconceito racial ou religioso (ele é negro, ela judia), torna este “Conduzindo Miss Daisy” um lindo filme sobre o valor do caráter humano e da verdadeira amizade.

Uma rica judia de 72 anos de idade (Jessica Tandy) acidentalmente joga seu carro novo no jardim do vizinho. Seu filho Boolie (Dan Aykroyd) tenta convencê-la de que ela precisa de um motorista, mas ela resiste à idéia. Mesmo assim, seu filho contrata o motorista Hoke (Morgan Freeman), provocando a imediata recusa de sua mãe. Mas gradativamente ela quebra a barreira da diferença cultural e racial existente entre eles, aceita suas próprias limitações e permite nascer e crescer um sentimento puro e sincero de amizade que durará décadas.

Embalado pela leve e descontraída trilha sonora do sempre ótimo Hans Zimmer, o diretor Bruce Beresford conduz este singelo “Conduzindo Miss Daisy” com enorme segurança, permitindo que os ótimos desempenhos de todo o elenco sejam a principal atração do longa. Ainda assim, a parte técnica merece destaque, a começar pelo excelente trabalho de direção de arte de Victor Kempster que, auxiliado pelos figurinos de Elizabeth McBride, cria um visual coerente com a época da narrativa, notável através do interior das casas, dos carros e da própria maneira de se vestir dos personagens. Vale observar também como a fotografia discreta e sem muita vida de Peter James reflete a personalidade de Miss Daisy, que detesta chamar a atenção, como ela mesma deixa claro ao reclamar quando Hoke para o carro na porta da igreja. Por outro lado, James explora muito bem a beleza dos jardins e ruas arborizadas da cidade, criando um interessante contraste visual. Já a maquiagem da dupla Manlio Rocchetti e Kevin Haney é simplesmente espetacular, refletindo com precisão o envelhecimento dos personagens, notável principalmente no terceiro ato do longa. E finalmente, a montagem de Mark Warner flui muito bem, cobrindo muitos anos da vida dos personagens sem jamais soar cansativa ou episódica, além de fazer a transição do tempo de forma elegante em muitos momentos, por exemplo, através do crescimento das flores no jardim. O diretor Beresford também é competente na criação de planos interessantes, como aquele em que podemos ver o reflexo de Hoke no belíssimo Hudson que ele vai dirigir por muitos anos ou na magnífica composição visual da viagem feita por Miss Daisy e seu motorista, além é claro da elegante câmera lenta que indica a morte de Idella (Esther Rolle).

Sem fugir do clichê “eles se odeiam e depois viram grandes amigos” (que neste caso é muito bem utilizado, pois o desentendimento inicial é perfeitamente aceitável, assim como o nascimento da relação de respeito e carinho entre eles), o bom roteiro de Alfred Uhry, baseado em peça teatral do próprio Uhry, estuda minuciosamente os efeitos do envelhecimento no ser humano, normalmente resistente às mudanças provocadas pela passagem do tempo. Esta resistência provoca uma enorme dificuldade em aceitar que não podemos mais fazer as mesmas coisas de antes, como quando Miss Daisy resiste em aceitar que não pode mais dirigir. Além disso, o roteiro acertadamente aborda temas complicados, como o racismo (os negros são empregados e motoristas), tão forte naquele período da história dos EUA, e a discriminação religiosa, escancarados na frase preconceituosa do policial que pára os dois idosos na estrada. Finalmente, o roteiro de Uhry conta ainda com diálogos dinâmicos, inteligentes e repletos de ironia, principalmente entre a dupla principal e entre Miss Daisy e seu filho.

Colaboram para o dinamismo dos diálogos as excelentes atuações do elenco, com destaque para o trio principal formado por Tandy, Freeman e Aykroyd. Jessica Tandy está perfeita como a amargurada Miss Daisy. Teimosa e extremamente autoconfiante, ela demonstra enorme dificuldade em se despir de preconceitos e alterar sua rotina, como quando reclama por mudar o caminho para o mercado Piggly. Miss Daisy é tão ranzinza que canta enquanto o filho fala, simplesmente por não concordar com o que ouve. A ironia – traço forte do roteiro que garante o tom de comédia – também está presente nas frases da personagem, como quando ela fala sobre o nariz de sua nora Florine (Patti LuPone), assim como o olhar sempre negativo para o mundo, exemplificado no sorriso dela ao constatar que algo sumiu de sua dispensa, como se já esperasse por aquilo. Esta seqüência do “roubo do salmão”, aliás, reafirma o tom bem humorado do longa, perceptível até mesmo na trilha sonora, que dá um acorde alto criando suspense. Depois da resolução do “caso”, repare como o diretor inteligentemente cria um plano com a cozinha vazia, refletindo a sensação que o espectador sente naquele momento. Extremamente resistente no inicio, Miss Daisy completa sua gradual transformação ao longo dos anos quando confessa seu sentimento de amizade por Hoke (“Você é meu melhor amigo”), e esta transformação é notável graças ao excelente trabalho da atriz. Tandy também demonstra muito bem o desespero de Miss Daisy quando começa a enfrentar problemas de memória, descendo a escada para procurar “as provas que devem ser corrigidas” e falando repetitivamente, além de mostrar competência também quando recorda da primeira vez que viajou, aos doze anos de idade, num momento nostálgico e tocante. E o responsável por toda esta mudança na vida da rica judia é um senhor simples e de enorme coração, interpretado magnificamente por Morgan Freeman. A introdução de Hoke na narrativa é perfeita, apresentando logo de cara todos os trejeitos do personagem, como a voz calma e anasalada, o sotaque diferenciado, o andar encurvado e lento, o olhar por cima dos óculos e a gargalhada. Seu jeito tranqüilo e paciente é ideal para conseguir conviver diariamente com a difícil Miss Daisy. Repare como logo na entrevista com Boolie fica evidente a ótima caracterização do personagem, reforçando a qualidade da atuação de Freeman. Vale destacar em especial dois grandes momentos do ator. O primeiro, na emocionante cena em que Hoke procura a lápide de Bauer e escancara sua deficiência na leitura, onde o ator transmite toda a dificuldade e embaraço do personagem, provocando a imediata reação de Miss Daisy, que sorri de satisfação quando o motorista consegue encontrar a lápide. O outro momento acontece quando Hoke pede aumento para Boolie. Freeman demonstra com enorme sensibilidade, através do jeito de falar, da gargalhada e do tom de voz, a intenção do personagem, ainda que as palavras não digam claramente o que ele pretende. Finalizando os destaques do elenco, Dan Aykroyd se sai muito bem no papel do divertido Boolie, que sabe perfeitamente como é difícil conviver com sua amada mãe. Por isso, ele raramente dá ouvidos às constantes reclamações da velha senhora, e até mesmo quando o faz, é sempre com um pé atrás, como no caso do salmão roubado. Além disso, o ator demonstra com competência o modo sempre irônico com que Boolie lida com os problemas da família (“Carros não agem, as pessoas que agem com eles”), como quando sua esposa reclama por não ter coco ralado no natal.

Quando Hoke se rebela e diz que é um senhor de 70 anos de idade que precisa fazer xixi, ele finalmente ganha o respeito definitivo de Miss Daisy. Os dois, aliás, começam a dar sinais evidentes da relação de amizade entre eles quando ela lhe presenteia no natal (“Não é presente de Natal. Judeus não têm nada que ver com isso”, faz questão de ressaltar). Neste momento, ainda que as fortes tradições se mantenham (Hoke fica do lado de fora da casa), o livro que ele ganha simboliza que a relação entre os dois já não é apenas profissional. E é delicioso acompanhar a construção gradual e consistente de uma amizade verdadeira. Por isso, quando chegamos à seqüência final, com os dois amigos sentados à mesa conversando enquanto Hoke alimenta Miss Daisy, nos sentimos comovidos. E esta comoção não é provocada de forma artificial ou melodramática. É simplesmente belo ver como os velhos traços da amizade permanecem, com as alfinetadas e a ironia presentes no diálogo, mas o respeito e admiração são muito mais fortes.

A velhice é tratada com respeito neste sensível “Conduzindo Miss Daisy”, extremamente bem atuado e com um roteiro bastante inteligente, que nos deixa algumas reflexões. A vida passa, o corpo enfraquece, os filhos crescem, os amigos e familiares se vão, mas as lembranças ficam. E afinal de contas, o que levamos desta vida? Levamos o amor, as verdadeiras amizades e as histórias que vivemos para contar. Melhor ainda é quando chegamos ao final desta trajetória podendo contar com alguém, seja este (a) um (a) companheiro (a) ou um verdadeiro (a) amigo (a). É isto que vale a pena na vida.

Texto publicado em 31 de Julho de 2010 por Roberto Siqueira

GOLPE DE MESTRE (1973)

(The Sting)

 

Videoteca do Beto #55

Vencedores do Oscar #1973

Dirigido por George Roy Hill.

Elenco: Paul Newman, Robert Redford, Robert Shaw, Charles Durning, Ray Walston, Eileen Brenann, Harold Gould, John Heffernan, Dana Elcar, Jack Kehoe, Dimitra Arliss e Robert Earl Jones.

Roteiro: David W. Maurer e David S. Ward.

Produção: Tony Bill, Julia Phillips e Michael Phillips.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quatro anos depois do sucesso “Butch Cassidy”, Paul Newman e Robert Redford voltaram a se reunir sob a direção de George Roy Hill para realizar este delicioso “Golpe de Mestre”, que conta com um roteiro primoroso e uma reconstituição de época impecável para narrar a interessante e divertida história de dois golpistas nos anos trinta.

Dois vigaristas dão um golpe num capanga de um importante chefe de quadrilha de Nova York, embolsando uma alta quantia em dinheiro que garantiria a aposentadoria de um deles. Não demora muito até que a reação chegue e, a pedido do “chefão” Doyle Lonnegan (Robert Shaw), um dos golpistas, conhecido como Luther Coleman (Robert Earl Jones), é assassinado. Johnny Hooker (Robert Redford), o outro golpista, consegue fugir e, seguindo o conselho do falecido Coleman, entra em contato com o experiente vigarista Henry Gondorff (Paul Newman), com quem arquiteta um gigantesco golpe contra o mafioso Lonnegan.

A seqüência de abertura de “Golpe de Mestre” dá o tom da narrativa, através da bem orquestrada simulação de um assalto, que resulta no primeiro golpe aplicado pelos vigaristas Luther e Hooker. Esta cena servirá também como base para todo o desenrolar da trama, que será contada através da divisão de capítulos, com transições como fade, zoom e páginas, garantindo uma característica de conto ou fábula ao longa e revelando o bom trabalho de montagem de William Reynolds, que além disso, ainda confere um ritmo delicioso à narrativa. O longa conta ainda com um excelente trabalho técnico, responsável pelo belíssimo visual. O conjunto formado pelos impecáveis figurinos de Edith Head, a excepcional Direção de Arte de Henry Bumstead e a fotografia dessaturada (Direção de Robert Surtees) criam uma reconstituição de época incrivelmente realista, ambientando perfeitamente o espectador à trama. Observe, por exemplo, os carros nas ruas de Nova York, a fachada das lojas e até mesmo os trajes utilizados pelos jogadores para notar como o trabalho técnico é irretocável. O diretor de fotografia Robert Surtees cria ainda um visual interessante nos ambientes internos, constantemente utilizando a sombra dos chapéus para encobrir o rosto dos personagens e usando o contraste luz e sombras de forma muito elegante. Finalmente, a ótima trilha sonora de Scott Joplin apresenta deliciosas canções e ainda utiliza o piano para compor divertidas melodias durante os jogos, o que reforça o clima leve e descontraído do longa.

A direção de George Roy Hill é segura e até mesmo discreta, apesar da freqüente utilização do zoom, como na espetacular jogada final de Gondorff durante o pôquer ou quando ele observa da janela a chegada de Lonnegan ao bar. Hill demonstra competência também na condução dos principais momentos do longa, como as cenas de pôquer, a falsa narração da corrida de cavalos e a perseguição de Snyder (Charles Durning) à Hooker. Outra seqüência muito bem dirigida é a fuga de Hooker do bar, que termina com o sugestivo plano da tampa do bueiro, indicando o esconderijo de emergência do rapaz. Finalmente, o diretor faz um interessante movimento de câmera que sai do quarto de Gondorff, corta para o quarto de Hooker e termina com o plano da misteriosa luva preta, que terá fundamental importância momentos depois, em outra cena surpreendente que termina com a morte de Loretta Salino (Dimitra Arliss).

Mas apesar da boa direção de George Roy Hill, o principal responsável pelo sucesso de “Golpe de Mestre” é o excepcional roteiro de David W. Maurer e David S. Ward. Inteligente e com ótimas reviravoltas, o delicioso texto da dupla prende a atenção do espectador e permite observar pacientemente como os dois vigaristas arquitetam cuidadosamente o grande golpe final. Mas ainda que seja interessante observar este aspecto da narrativa, para que ela funcionasse perfeitamente seria necessário algum tipo de ameaça ao plano. E a dupla Maurer e Ward insere este elemento na trama de forma muito inteligente, através do tenente William Snyder, interpretado corretamente por Charles Durning e que é o responsável pelo desequilíbrio da equação. Personagem chave para o sucesso da trama, Snyder é o responsável pelo temor gerado no espectador durante boa parte da narrativa – assim como sua participação é fundamental na espetacular seqüência final do longa, que reserva a maior e mais agradável surpresa do roteiro.

E que surpresas seriam estas? “Golpe de Mestre” é repleto de cenas em que o espectador é levado a acreditar que está vendo algo, somente para alguns minutos depois descobrir que foi enganado. E mesmo assim, jamais sabemos o que vai acontecer na próxima cena, graças à criatividade do roteiro e às ótimas interpretações do elenco, que tornam verossímeis personagens que poderiam soar cartunescos ou completamente irreais. Interpretado com muito carisma pelo ótimo Paul Newman, Gondorff, por exemplo, é um golpista experiente, que sabe cada passo necessário para alcançar seu objetivo. Extremamente irônico (repare como ele provoca o adversário durante o jogo de pôquer), Gondorff caminha com segurança pelo perigoso caminho que escolheu para viver e acreditamos nos ideais do personagem, por mais sem caráter que suas atitudes possam parecer. Já Robert Redford interpreta com competência o astuto Hooker, que apesar de sua esperteza, freqüentemente corre grande perigo durante suas escapadas. Observe, por exemplo, como Redford transmite muito bem a apreensão de Hooker dentro do quarto, momentos antes de supostamente trair o parceiro e entregá-lo aos federais. Após o surpreendente final, entendemos que sua apreensão pode ser interpretada como fruto da ansiedade pela resolução do plano (que aconteceria no dia seguinte) ou pela solidão do personagem, algo que fica claro quando este procura companhia para passar a noite. Mas inteligentemente, no momento em que vemos o personagem apreensivo, somos levados a pensar que ele realmente entregaria o parceiro, graças também à boa interpretação do ator. A química da dupla, aliás, é essencial para a empatia do público, pois mesmo sendo dois trapaceiros e golpistas, nos identificamos com os personagens graças às simpáticas atuações de Newman e Redford. Vale citar também a impressionante habilidade de Gondorff com as cartas na mão, notável quando as embaralha e sempre mostra o Às de Espadas. Fechando o elenco, além do já citado e importante personagem de Charles Durning, temos Robert Shaw, que vive o mal-humorado chefe da máfia Doyle Lonnegan. Determinado a recuperar o dinheiro que perdeu para os vigaristas (e mais do que isso, manter o respeito pelo seu nome), ele não mede esforços na caça ao astuto Hooker, raramente encontrando espaço para sorrisos e brincadeiras em seu cotidiano. Shaw é competente ao transmitir muito bem esta irritação constante do personagem, como podemos notar durante o jogo de pôquer no trem ou nas seguidas vezes em que ele entra para apostar na corrida de cavalos. Mesmo ganhando o prêmio, o homem é incapaz de sorrir, sempre mantendo um ar de desconfiado – o que não impede que ele sofra o incrível golpe no final.

Quando a última faceta do “golpe de mestre” é revelada ao espectador, sentimos uma gostosa mistura de desorientação e euforia. Apesar de acompanhar o engenhoso planejamento e a meticulosa execução do plano, descobrimos que um detalhe essencial foi ocultado e percebemos que a intenção era exatamente esta. O fato de não revelar propositalmente uma parte vital do golpe faz com que o espectador tema pelo futuro dos personagens, se envolva ainda mais com a trama e se surpreenda com o delicioso final. É como testemunhar um passe de mágica, com a diferença de que descobrimos os detalhes do truque segundos depois de sua execução.

Leve e descontraído, “Golpe de Mestre” soa como um delicioso truque que consegue ao mesmo tempo enganar e agradar ao espectador. Produzido numa época em que o termo “diversão sem compromisso” tinha outro significado, oposto às explosões e a ação frenética recheada de clichês narrativos dos dias de hoje, seu excelente roteiro, aliado às simpáticas interpretações, garante a diversão do espectador.

Texto publicado em 25 de Abril de 2010 por Roberto Siqueira