IMPÉRIO DO SOL (1987)

(Empire of the Sun)


5-estrelas

 

Videoteca do Beto #213

Dirigido por Steven Spielberg.

Elenco: Christian Bale, John Malkovich, Miranda Richardson, Nigel Havers, Joe Pantoliano, Leslie Phillips, Masatô Ibu, Emily Richard, Rupert Frazer, Peter Gale, Ben Stiller, J.G. Ballard e Burt Kwouk.

Roteiro: Tom Stoppard, baseado em romance de J.G. Ballard.

Produção: Kathleen Kennedy, Frank Marshall e Steven Spielberg.

Império do Sol[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Dois anos após dirigir seu filme considerado tematicamente mais sério até então, Spielberg voltaria a flertar com uma narrativa menos voltada para o entretenimento puro neste “Império do Sol”, ainda que neste caso a pureza e a inocência trazidas pelo protagonista alivie um pouco o peso de um longa que utiliza a Segunda Guerra Mundial como pano de fundo. Já famoso por sua habilidade na construção de narrativas empolgantes após enfileirar sucessos como “Tubarão”, “Os Caçadores da Arca Perdida” e “E.T. – O Extraterrestre”, entre outros, o diretor parecia trilhar neste instante de sua carreira o caminho da busca pelo reconhecimento artístico que só viria a se consolidar com a obra-prima “A Lista de Schindler”, alguns anos mais tarde. Engana-se, no entanto, quem pensa que os inúmeros sucessos anteriores de Spielberg não tenham grande valor, como prova este sensorial e excelente longa estrelado por um ainda muito jovem Christian Bale.

Escrito por Tom Stoppard com base em romance de J.G. Ballard, “Império do Sol” nos leva ao cotidiano do jovem britânico Jim Graham (Christian Bale) na China, dias antes da invasão japonesa que culminaria na separação de sua família e deixaria o garoto solitário em meio à opressão nipônica, sendo obrigado a encontrar maneiras de sobreviver ao sangrento período da Segunda Guerra Mundial. Levado a um campo de concentração, ele encontra refúgio na companhia de pessoas especiais como o soldado norte-americano Basie (John Malkovich) ou a elegante Sra. Victor (Miranda Richardson), que de maneiras distintas ajudariam o garoto a superar aqueles tempos difíceis.

Auxiliado pela competente direção de fotografia de Allen Daviau, Spielberg aproveita muito bem o famoso nascer e o pôr-do-sol do oriente para criar cenas visualmente belíssimas, que se apoiam na eficiente reconstituição de época do design de produção de Norman Reynolds para transportar o espectador para aquela região do planeta, nesta que foi a primeira produção de Hollywood a conseguir permissão para filmar dentro da República da China, algo que o diretor soube aproveitar em tomadas externas que valorizam as locações, como na invasão dos japoneses em Hong Kong. Mas o cuidado não é apenas estético e o diretor faz questão, por exemplo, de ressaltar o forte contraste entre o luxo que envolve o menino inglês e a miséria representada pelo mendigo que ele observa da janela do carro quando deixa sua mansão e tem contato com a dura realidade dos pobres chineses. Além disso, seu quarto decorado com diversos aviões já anuncia a paixão do garoto pelo tema, o que seria crucial em alguns momentos da narrativa. Finalmente, não dá para deixar de citar o gigante e belo outdoor do filme “E o Vento Levou”, que faz referência a outro épico em que a guerra serve de pano de fundo para a narrativa.

Imagens pôr do solInvasão japonesaPaixão por aviões

Colaborando para criar uma atmosfera épica, a trilha sonora evocativa de John Williams marca presença em diversos momentos de impacto, como quando Jim brinca dentro de um avião caído no gramado próximo a sua residência e imagina estar voando nele, momentos antes de dar de cara com homens do exército e ter seu primeiro contato mais próximo com a realidade da guerra. Igualmente competente, o design de som se destaca em pequenas sutilezas como ao nos permitir distinguir o ricochete de objetos metálicos em meio às bombas que explodem durante a invasão dos japoneses. Spielberg conta ainda com a montagem de seu parceiro Michael Kahn para estabelecer um ritmo contemplativo em diversos momentos, reforçando a natureza épica do longa, destacando-se ainda na sutileza de belas transições como aquela que transforma o sangue de uma vítima na fumaça que surge no horizonte ou nos raros momentos em que acelera o ritmo da narrativa, como na empolgante sequência em que Jim corre pelo campo de concentração enquanto faz diversas tarefas.

Entre o elenco, vale destacar John Malkovich, que transmite sabedoria vivendo o verdadeiro porto seguro de Jim no campo e faz de seu Basie um personagem cativante, assim como Miranda Richardson, que vive a amável Sra. Victor como uma personagem curiosa ao despertar sentimentos díspares no garoto, servindo em certos momentos como a figura materna que tanto lhe fazia falta e, justamente por não ser a mãe biológica do garoto, despertando também sua curiosidade por detalhes da vida adulta como o relacionamento amoroso entre ela e o marido, já que não existia ali o distanciamento natural que a mãe biológica normalmente provoca nos filhos. A título de curiosidade, temos ainda a participação de um ainda desconhecido Ben Stiller como um dos norte-americanos.

Mas o que impressiona de fato é como Bale carrega o filme com facilidade, mesmo ainda criança e lidando com uma temática pesada e difícil. Transmitindo a inocência da infância ao mesmo tempo em que demonstra uma determinação tocante e uma esperteza vital para sobreviver naquele ambiente, Jim torna-se um personagem plausível na pele do talentoso ator exatamente pela maneira natural com que ele encara o desafio, sem jamais se entregar a melodramas e exageros que poderiam ser comuns naquela fase da vida.

Brincando com o aviãoPorto seguroCarrega o filme

É interessante notar também como nesta fase da carreira Spielberg também evita se entregar em demasia ao melodrama, humanizando os personagens de maneira natural e nada apelativa, como quando um menino japonês reencontra Jim e se alegra por isso, sendo assassinado em seguida pelos norte-americanos, reforçando a idiotice da guerra. Observe também como o diretor utiliza o símbolo do carro da família como um recurso narrativo interessante para nos informar a proximidade do reencontro entre o garoto e seus pais, que ocorreria de maneira igualmente natural, sem a necessidade de pesar a mão já que aquele reencontro já era emocionante por si só.

Esta ausência paterna (e aqui materna também) reforça o tema mais forte na filmografia de Spielberg como fio condutor da narrativa, abordando também, ainda que de maneira quase fabulesca, outro tema que lhe seria caro, a Segunda Guerra Mundial. Demonstrando seu enorme talento, Spielberg conduz o filme de maneira sensorial, destacando-se tanto em cenas dramaticamente mais intensas, como a forte separação entre Jim e seus pais em meio multidão desesperada sob o ataque dos japoneses, que transmite com precisão a sensação de urgência e o horror da guerra através da câmera agitada, como em momentos carregados de tensão, como a perseguição do sargento Nagata (Masatô Ibu) ao menino que rasteja pela lama e, especialmente, nos inúmeros instantes em que Spielberg parece parar o tempo para nos deleitar com imagens lindíssimas. Aliás, somente um diretor do calibre de Spielberg poderia transformar um bombardeio numa cena tão bela visualmente, transformando os terríveis efeitos da guerra em algo quase poético, assim como é lindo o momento em que Jim canta do alto do campo e repentinamente é interrompido pelos aviões norte-americanos que atacam os japoneses, provocando os gritos empolgados do garoto ao identificar os modelos dos aviões que cruzam o local.

Menino japonêsNagataVibra com os aviõesOutra cena linda dirigida com muita sensibilidade por Spielberg resume perfeitamente “Império do Sol”, quando ele utiliza um dos eventos mais trágicos da história da humanidade para simbolizar a morte de uma importante personagem. Trata-se de um momento poético, em que o horror da guerra é filtrado pelo olhar sonhador e inocente de uma criança. Talvez o próprio Spielberg ainda fosse como aquele menino e, com o amadurecimento e o inevitável ceticismo que vem ao longo dos anos, ele deixaria de lado a poesia para tratar o mesmo tema com mais crueza em breve.

Império do Sol foto 2Texto publicado em 02 de Novembro de 2015 por Roberto Siqueira

REDS (1981)

(Reds)

4 Estrelas 

 

Videoteca do Beto #212

Dirigido por Warren Beatty.

Elenco: Warren Beatty, Diane Keaton, Jack Nicholson, Gene Hackman, Edward Herrmann, Maureen Stapleton, Paul Sorvino, Jerzy Kosinski, M. Emmet Walsh, Nicolas Coster, Bessie Love e Jerry Hardin.

Roteiro: Warren Beatty e Trevor Griffiths.

Produção: Warren Beatty.

Reds[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Somente alguém do gabarito de Warren Beatty poderia viabilizar em plena Guerra Fria a produção de um épico sobre um jornalista que se envolveu diretamente na Revolução Bolchevique e que é ainda hoje o único norte-americano enterrado no Kremlin. No entanto, ainda que traga comentários mais ácidos sobre a natureza feroz do capitalismo aqui e ali, “Reds” acaba mesmo é utilizando o contexto político e a Revolução Russa de 1917 como pano de fundo para narrar uma cativante história de amor.

Escrito, dirigido e produzido pelo astro Warren Beatty, “Reds” acompanha a trajetória do casal John Reed (o próprio Beatty), um jornalista do periódico socialista “The Masses”, e Louise Bryant (Diane Keaton), uma mulher casada que decide fugir com ele de Portland para acompanhar as mudanças políticas e sociais onde elas estavam acontecendo. Juntos, eles acabam participando da Revolução Russa de 1917 e, inspirados, tentam trazer os mesmos conceitos para aplicá-los nos EUA e liderar uma revolução semelhante, lutando por direitos trabalhistas e, especialmente ela, por causas feministas, mas esbarram em disputas políticas que impedem a concretização de seus planos.

Influente e poderoso em Hollywood, Warren Beatty demonstrou coragem ao colocar em risco sua reputação para levar às telas uma história sobre um “herói comunista” em plena Guerra Fria e com os americanos totalmente contaminados pelo ódio aos “vermelhos”. O segredo para tal feito reside na inteligência do roteiro, que traz a trajetória de Reed sem pintá-lo como um mártir, apontando suas virtudes e defeitos e, de quebra, trazendo críticas ao capitalismo, mas também mostrando as contradições e os embates ideológicos de líderes do movimento socialista, o que equilibra a balança.

Com grande orçamento e competência para empregá-lo, Beatty e sua equipe técnica puderam realizar uma impressionante reconstituição de época, a começar pelo design de produção de Richard Sylbert, que nos transporta para a Rússia e os EUA do início do século XX tanto nas inúmeras cenas que se passam em locais fechados como nas locações, auxiliado pelos figurinos de Shirley Russell, que diferenciam os costumes de cada país e permitem ao espectador localizar-se facilmente. Enquanto isso, Vittorio Storaro fotografa as salas e porões em que os personagens se encontram quase sempre em cores opacas e nem mesmo a presença constante do vermelho confere mais vida aos locais, contrastando com o visual arrebatador das tomadas externas tanto no deserto banhado pelo sol como na gélida Rússia dominada pelo branco da neve, regressando ao visual sombrio na escuridão melancólica do hospital que recebe o ato final.

Locais FechadosDeserto banhado pelo solRússia dominada pelo branco da neve

Assim, não faltam imagens impactantes em “Reds”, como as belíssimas sequências que trazem o povo russo marchando com bandeiras nas ruas para tomar o poder ou a forte cena da chegada à Rússia, em que podemos ver junto com os personagens os perversos efeitos da guerra através da janela do trem com diversos soldados mutilados. Quase todas estas sequências são acompanhadas pela trilha sonora de Stephen Sondheim, que confere o tom épico através de belas composições e variações interessantes dos cânticos da Revolução Russa.

Numa escolha arriscada, Beatty e seus montadores Dede Allen e Craig McKay interrompem o andamento da narrativa para inserir constantemente entrevistas com personagens marcantes da história real que, ao surgir olhando diretamente para a câmera, buscam conferir um ar documental ao longa. Esta quebra de ritmo se intensifica no segundo ato quando “Reds” passa a investir mais no triangulo amoroso envolvendo Reed, Louise e Eugene O’Neill (Jack Nicholson) e deixa de lado os aspectos políticos, sinalizando que o foco estará mais no desenvolvimento daquela relação do que no desenrolar da Revolução.

Povo russo marchandoSoldados mutiladosEntrevistas com personagens marcantes

Não que a política não tenha importância na narrativa, já que as críticas ao capitalismo surgem em diversos diálogos de impacto, como fica claro logo na primeira aparição de Beatty em que seu personagem, com apenas uma palavra, resume a única coisa que interessa neste regime político. Por outro lado, as diversas discussões entre os integrantes do movimento socialista norte-americano demonstram que nem sempre a causa está à frente da sede pelo poder, algo que também podemos notar através da postura autoritária dos líderes da Revolução Russa diante de Reed, que agem com a mesma falta de humanidade daqueles que eles criticavam – o que nos leva à excepcional discussão de Reed com um deles num trem, confrontando o fanatismo do líder russo com o equilíbrio que John conseguiu ao longo dos anos.

No entanto, a força de “Reds” está muito mais em seus personagens do que na discussão política, o que é um prato cheio para os grandes atores de seu elenco. Mesmo com pouco tempo em tela, Jack Nicholson confere um cinismo marcante ao cético Eugene O’Neill, um personagem melancólico que parece esconder seu sofrimento sob aquela capa de ceticismo, enquanto nomes como Gene Hackman, Edward Herrmann e Paul Sorvino dão credibilidade aos seus respectivos personagens em suas raras aparições. Já Maureen Stapleton compõe Emma Goldman como uma ativista política que se torna quase como uma mãe para Reed, chegando a rivalizar com Louise em boa parte do tempo ao perceber que ela de fato havia fisgado o jornalista.

Casal com os mesmos ideais e maneiras distintas de lutar por eles, Reed e Louise possuem personalidades muito fortes e uma visão de mundo bem à frente de sua época, o que somado ao lado passional de ambos, acaba levando cada discussão ao extremo da emoção. Mas ainda que ideais políticos sejam sempre discutíveis, o que não dá para negar é a vontade de ambos de vivenciar a história sendo escrita, numa característica pungente de grandes jornalistas.

Cético EugeneMãe para ReedCasal com os mesmos ideaisCom suas expressões marcantes e o inegável carisma, Diane Keaton rouba a cena e transforma-se no destaque do elenco, seja em seus momentos de explosão ou apenas quando observa John, como em seus discursos inflamados que geram diferentes reações dela. Ardorosa defensora das causas feministas, Louise chama a atenção numa época em que as mulheres eram relegadas ao segundo plano, demonstrando coragem tanto para dar uma resposta sensacional ao senador que pergunta se ela acredita em Deus como para partir em busca do homem que ama, numa viagem extremamente perigosa e desgastante que traz um dos planos mais belos do longa, com Louise vestida de preto olhando para o horizonte e sentindo-se perdida ao saber que ele não estava mais na prisão finlandesa quando ela chega lá. Mas estes empecilhos não a impedem de ir atrás de Reed, não porque dependa dele, mas sim por que se preocupa com ele. Esta diferença básica é crucial para entender a força da personagem.

Responsável pelo famoso livro “Dez dias que abalaram o mundo”, John Reed é encarnado por Warren Beatty com paixão, algo notável em seus discursos empolgados como aquele em que incita a greve dos operários russos, captado com precisão pelo design de som que nos permite distinguir sua voz em meio à multidão que grita sem parar. Excelente jornalista, Reed acaba tornando-se obcecado pela causa revolucionária, o que eventualmente lhe faz deixar Louise de lado e esfria o relacionamento, levando ao distanciamento justamente por que ela, ao contrário da maioria das mulheres oprimidas da época, não ficaria ali esperando que ele lhe desse atenção. Esta personalidade forte de ambos acaba provocando a separação quase definitiva quando as fronteiras russas são cercadas com Reed em Moscou e Louise em Nova York, iniciando a odisseia de ambos que só terminará no emocionante reencontro na estação de trem após Reed salvar-se de um ataque dos contrarrevolucionários, numa bela cena muito bem conduzida por Beatty. A emoção genuína dela ao perder o companheiro (sem trocadilho) no hospital toca a plateia, justamente pela construção realista e extremamente humana daquele relacionamento.

Expressões marcantesIncita a greve dos operários russosAtaque dos contrarrevolucionários

Utilizando a Revolução Russa como pano de fundo, “Reds” narra uma épica história de amor, marcada por discussões, separações, desavenças, mas principalmente pela admiração e compreensão. Na tentativa de implantar sua ideologia e melhorar a sociedade em que estavam inseridos, Reed e Louise acabaram encontrando aquilo que mais vale a pena: pessoas especiais com quem compartilhar a experiência única que é viver.

Reds - foto 2Texto publicado em 20 de Setembro de 2015 por Roberto Siqueira

8 anos

Há 8 anos. Obrigado por me fazer tão feliz!

8 anosTexto publicado em 15 de Setembro de 2015 por Roberto Siqueira

Toronto

Toronto 003 02.08.2015O dia amanheceu chuvoso como não acontecera até então. Após 3 semanas de calor e sol, com raros momentos de chuva rápida, o sol escondeu-se e o visual melancólico parecia refletir a sensação de tristeza. A cidade chorava nossa eminente partida ou nós que a víamos assim com o filtro do olhar já repleto de saudade daquilo que ainda não havia ficado para trás?

O visual esplêndido do Harbourfront à direita com o lago Ontario alcançando a ilha e a selva de pedra que se ergue à esquerda que se torna ainda mais impressionante com as luzes que brilham madrugada adentro. Selva de pedras. Como eu, um eterno insatisfeito com a nossa selva de pedras, poderia gostar tanto dela? Pois Toronto foi, dia após dia, uma quebra de preconceitos. Uma cidade cosmopolita, mas cosmopolita de verdade e não apenas nas etnias. Pessoas convivendo em harmonia, independente de nacionalidade, raça ou credo. Ciclistas convivendo em harmonia com motoristas, o Street Car e pedestres. Pessoas curtindo seus patins e skates enquanto transitam naquele caos organizado e respeitoso. Homens, mulheres, negros, brancos, heterossexuais e homossexuais. Todos dividindo o mesmo espaço, com os mesmos direitos e os mesmos deveres.

Toronto 03.08.2015 075O clima foi outro paradigma gostoso de quebrar. “Toronto nunca faz calor”, diziam os especialistas que nunca tinham pisado ali. Mas fez calor. Fez muito calor. A brisa que vem do lago amenizava de maneira muito agradável os dias que passavam dos 30 graus logo pela manhã, tornando o caminho entre o apartamento alugado e a escola de inglês da Dri ainda mais interessante. E como foi ótimo parar nos cafés para curtir nossos momentos, como foi bom ver as crianças se divertindo nos parques e na prainha artificial criada a beira do lago, tentando se comunicar como podiam (o Arthur sabe algumas palavras em inglês e não hesitava em me perguntar como falar cada frase que precisava para fazer contato). Como foi bom viver a cidade como um morador local, fazer compras nos mercados, caminhar pelo Harbourfront no fim de tarde e curtir o pôr do sol do alto do prédio, vislumbrando a CN Tower do alto de sua imponência ou curtindo o Roger Centre, onde pela primeira vez curtimos um jogo de beisebol e, acredite, gostamos. A região da Queens Quay West não sumirá de nossas memórias tão cedo, assim como as comidas de rua, a educação das pessoas e, principalmente, os momentos em família que vivenciamos ali.

Toronto 17.08.2015 004Toronto 16.08.2015 243Toronto 12.08.2015 038

Toronto não foi uma surpresa, pois era quase uma certeza. Após ouvir tantos amigos elogiarem a cidade canadense, decidimos há muito tempo atrás que ela seria o local ideal para o intercâmbio da Dri. A escolha não poderia ser mais feliz.

Ainda que certos detalhes da cultura local me incomodem, como a proibição de tomar cerveja nas ruas, o fato é que a cidade canadense nos conquistou. Com seu ar cosmopolita e seus prédios modernos misturados a natureza tão bem representada pelo lago e pelas belas ilhas do arquipélago Toronto Islands, não chega a ter o charme das nossas cidades favoritas no velho continente, ainda nosso local favorito, mas não é hora de fazer comparações. Do seu jeito, Toronto entrou para a lista de cidades especiais em nossas vidas.

Olhando novamente para o lago da janela do prédio alugado eu me despeço, mas não com um adeus.

Pois você Toronto entrou pra lista das cidades em que no máximo conseguimos dizer um até breve.

Toronto 03.08.2015 077Texto publicado em 21 de Agosto de 2015 por Roberto Siqueira

TODOS OS HOMENS DO PRESIDENTE (1976)

(All the President’s Men)

5-estrelas

 

obra-prima

 

Videoteca do Beto #211

Dirigido por Alan J. Pakula.

Elenco: Robert Redford, Dustin Hoffman, Jason Robards, Martin Balsam, Jack Warden, Hal Holbrook, Jane Alexander, Meredith Baxter e James Karen.

Roteiro: William Goldman, baseado em livro de Carl Bernstein e Bob Woodward.

Produção: Walter Coblenz.

Todos os Homens do Presidente[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

No dia 18 de Junho de 1972, o jornal Washington Post estampou em sua capa o assalto ocorrido na noite anterior à sede do Partido Democrata no hotel Watergate, que levou os cinco homens presentes a julgamento. A investigação que se seguiu levou a descoberta de um dos maiores crimes políticos da história dos Estados Unidos, culminando na renúncia do então presidente Richard Nixon, já em 09 de Agosto de 1974. Coube então a Alan J. Pakula a missão de transpor para as telonas o histórico processo de investigação. Com a ajuda de um elenco competente e a forte colaboração do influente Robert Redford, o diretor realizou seu maior trabalho atrás das câmeras, uma verdadeira obra-prima do cinema que ainda hoje serve como aula de jornalismo investigativo.

Adaptado por William Goldman com base no livro dos jornalistas do Washington Post diretamente envolvidos no caso Carl Bernstein e Bob Woodward (que aqui são interpretados por Dustin Hoffman e Robert Redford respectivamente), “Todos os Homens do Presidente” acompanha todo o processo investigativo desde a manhã seguinte ao assalto a Watergate ainda durante a campanha presidencial dos Estados Unidos em 1972 até a publicação da matéria que levaria o então presidente Nixon a renúncia. Condensar num filme de pouco mais de duas horas uma investigação envolvendo dezenas de pessoas e diversos diálogos reveladores sem ser maçante não é uma tarefa fácil, mas o trabalho de Goldman é digno de nota, não apenas por ser fiel aos acontecimentos, mas também por evitar que o espectador se perca diante de tantas informações. Com este excelente roteiro em mãos, restou a Alan J. Pakula a tarefa de dar vida ao material e o diretor se saiu maravilhosamente bem.

Baseando a narrativa no trabalho dos jornalistas, Pakula e seu montador Robert L. Wolfe imprimem um ritmo ágil que se revela essencial para manter o espectador envolvido no processo investigativo, colocando-nos na posição de investigadores ao lado de Bernstein e Woodward. Para auxiliar nesta aproximação entre a plateia e os jornalistas, Pakula utiliza a câmera muitas vezes próxima dos atores, nos permitindo praticamente sentir o que eles sentem e, ao compartilhar conosco o trabalho tanto no escritório quanto em suas residências, o diretor também faz com que o espectador processe as informações e se sinta parte da investigação. Observe, por exemplo, como na sequência em que eles buscam sem sucesso documentos que comprovem certa conexão dentro da Biblioteca Nacional, a câmera se afasta e diminui os personagens em cena, transmitindo a sensação de impotência de ambos naquele instante específico.

Por outro lado, sempre que eles conseguem alguma informação nova ou estão no meio de um diálogo importante, a câmera se movimenta com agilidade, transmitindo a empolgação dos personagens e o senso de urgência destes momentos, especialmente através dos travellings que acompanham Bernstein e Woodward correndo pela redação do Washington Post, servindo ainda para nos apresentar ao grande número de jornalistas presentes no local, o que realça o tamanho do feito da dupla principal, já que para encabeçar aquela importante investigação, eles tiveram que superar diversos concorrentes até mesmo mais experientes.

Câmera muitas vezes próxima dos atoresBiblioteca NacionalBernstein e Woodward correndo pela redaçãoA redação do Washington Post, aliás, realça o excepcional design de produção de George Jenkins, que além de reconstituir o local com precisão, ainda reflete através da profundidade de suas linhas retas e de seu ambiente amplo e caótico o universo de informações que os personagens estavam mergulhando (algo perfeitamente ilustrado também no plano plongè na biblioteca acima mencionado), servindo também para realçar traços da personalidade dos protagonistas. Repare, por exemplo, como as anotações de Woodward, ainda que desorganizadas, transmitem sua sede por informações relevantes e sua maneira de organizar o raciocínio, contrapondo-se muito bem ao comportamento mais atirado de Bernstein, que utiliza métodos mais agressivos para obter o que deseja, como quando engana uma secretária para conseguir falar com determinado personagem.

Redação do Washington PostAnotações de WoodwardMétodos mais agressivosEstabelecendo uma excelente dinâmica entre eles, Redford e Hoffman dão um show de interpretação, transmitindo a importância de cada informação obtida através de suas reações, realçadas pela câmera de Pakula – repare, por exemplo, o close no rosto de Redford durante o diálogo com Dahlberg, que se confirmaria como um importante passo na investigação, assim como ocorre com Bernstein já no ato final quando através de uma inteligente sacada ele arranca uma confirmação de uma fonte sem necessitar de uma palavra sequer.

Aliás, os dois exibem um verdadeiro arsenal de técnicas investigativas que se demonstram eficientes ao conseguir as informações desejadas sem, para isto, colocar os informantes em posição muito desconfortável. É óbvio que vez por outra é necessário jogar alguém contra a parede, mas este processo é sempre feito de maneira ética e sagaz pela dupla, como quando conseguem a ajuda de uma colega de redação, mesmo com Woodward se recusando a forçar a garota a dizer o que não queria – e a atuação de Lindsay Crouse neste instante é tocante, transmitindo o quão dolorido seria aquele ato pra ela somente através de sua expressão ao ouvir a proposta dos colegas. Trazendo uma verdadeira lição de jornalismo, os repórteres obtêm informações muitas vezes sem necessitar de declarações explícitas, trabalhando nas entrelinhas e, o que é mais importante, checando cada informação duas ou três vezes antes de publicar a matéria.

Vestidos em ternos sóbrios que transmitem a seriedade da dupla (figurinos de Bernie Pollack), Bernstein e Woodward se complementam num trabalho em equipe eficiente que abre espaço para opiniões divergentes, mas sempre com respeito pela posição contrária. Este é, aliás, o clima que predomina também na redação do Washington Post, liderada pelo excelente Jason Robards, que se destaca como o chefe Bradlee, mostrando-se um líder de verdade ao apoiar seus repórteres nos momentos mais difíceis e extrair o máximo deles durante a investigação, recusando-se a divulgar matérias quando entende faltar sustentação e, por outro lado, enfrentando a fúria dos poderosos quando acha que o material tem base suficiente para chegar ao público. Tomando a frente nas reuniões de pauta, Robards se destaca num elenco que conta ainda com atores talentosos como Martin Balsam, Jack Warden e Hal Holbrook, além é claro de Jane Alexander, que protagoniza uma das melhores cenas do longa ao lentamente ceder informações para Bernstein e escancarar a ameaça por trás daquilo tudo, num diálogo intenso e tocante ocorrido dentro da casa dela.

Ajuda de uma colega de redaçãoChefe BradleeDiálogo intenso e tocanteTambém dentro de uma residência, desta vez o apartamento de Woodward, ocorre outro momento interessante quando, para evitar ser ouvido pelo grampo instalado no local, Bernstein aumenta o volume da música, numa das raras ocasiões em que a discreta trilha sonora de David Shire chama a atenção, desta vez utilizando o som diegético e não sua composição minimalista. Nada discreta, porém, é a forma como o mestre Gordon Willis fotografa “Todos os Homens do Presidente”, abusando de momentos extremamente sombrios que contrastam com o visual mais claro da redação do jornal, simbolizando que ali revelações obscuras viriam à tona. Repare também como o uso das sombras torna ainda mais tensa à sequência do assalto à sede do Comitê Nacional Democrata em Watergate, conduzida com precisão pelo diretor. Da mesma forma, as citadas cenas chave dentro das residências surgem predominadas pelas sombras, assim como as conversas no estacionamento de um shopping entre Woodward e o misterioso “Garganta Profunda” (interpretado pelo ótimo Hal Holbrook), que mal pode ser identificado com seu rosto quase completamente imerso na escuridão.

Revelações obscuras viriam à tonaGarganta ProfundaPresidente NixonUtilizando ainda imagens de arquivo do presidente Nixon para conferir mais realismo a narrativa, Willis e Pakula conseguem transmitir o tom de seriedade que a história pedia ao ser levada às telas pouquíssimo tempo depois do ocorrido. Diante da sensibilidade do tema e da proximidade do fato, uma abordagem incorreta poderia afundar a carreira dos envolvidos, mas felizmente não foi o que aconteceu. Numa imagem que ilustra perfeitamente a força do chamado Quarto Poder, o plano final com Woodward e Bernstein escrevendo a matéria enquanto o reeleito Nixon faz sua declaração na televisão é sensacional, registrando a ironia de um instante em que o homem mais poderoso do país era glorificado enquanto dois jornalistas de um jornal nem tão importante trabalhavam duro na matéria que iria desmascará-lo pouco tempo depois.

Com sua narrativa envolvente, atuações competentes e a segura direção de Pakula, “Todos os Homens do Presidente” é uma obra-prima que não deveria servir apenas como aula de jornalismo investigativo. O longa estrelado por Redford e Hoffman é, na verdade, uma verdadeira aula de cinema.

Todos os Homens do Presidente - foto 2Texto publicado em 26 de Julho de 2015 por Roberto Siqueira

Videoteca do Beto #210 – Chinatown

Olá pessoal,

Como a crítica de “Chinatown” já tinha sido publicada como “Filmes em Geral #77”, somente adicionei em seu cabeçalho a classificação “Videoteca do Beto #210” (a última crítica da Videoteca era #209 “007 O Mundo não é o Bastante”) e desloquei o link para o menu Videoteca do Beto (lado direto, página inicial). Padronizarei as imagens na crítica assim que possível.

Um abraço.

Texto publicado em 13 de Julho de 2015 por Roberto Siqueira

2 anos

fotos iphone 1 149

Quando eu soube que teria a maior alegria da vida pela segunda vez, já podia imaginar tudo que estava por vir. A sensação de felicidade plena ao ver meu príncipe nascer, o prazer e a responsabilidade de vê-lo crescer e educa-lo e, principalmente, a certeza de ter um lar repleto de alegria e energia com meus dois meninos.

E a expectativa se confirmou com louvor. Ao ouvi-lo dizer sem parar o já famoso “Papa!” e ao ver seu biquinho ao chamar o irmão de “Tutu”, meu coração sorri. Ao vê-lo correr pela casa dizendo “Gol!” e querendo uma bola para chutar, meu lado pai coruja já imagina um futuro distante para meu pequeno craque. Ao perceber o quão precoce ele e o irmão descobriram pequenas coisas como manusear o controle da TV ou qualquer outra destas pequenas conquistas da infância, já quero enxergar a genialidade existente em cada um deles. O Raul complementa nosso lar, nos faz sorrir e confirma que a felicidade plena existe.

Mais invocado e bruto que seu irmão mais velho, ele nos surpreende com suas explosões de carinho acaloradas que fazem lembrar sua mãe, num sorriso quase sarcástico que cria um contraponto interessante ao lado mais sutil e igualmente carinhoso do irmão. Juntos, eles se complementam. Brincam, interagem, se pegam as vezes, como todos bons irmãos devem ser, mas já são cúmplices e companheiros.

E quer felicidade maior para um pai do que chegar de viagem e, ao abrir a porta, vê-los correndo para me abraçar e me derrubar no chão tamanha a genuína felicidade que sentem?

fotos iphone 1 297O Raul é assim. É meu bebê que me enche de orgulho com sua inteligência e esperteza. É o menino maravilhoso que Deus nos deu para complementar nossa família com seu brilho especial.

Que Deus abençoe meu pequeno neste seu dia e em toda sua vida. Que ilumine nossa família e guie nossos passos. E que ele e seu irmão continuem sendo por toda a vida os grandes amigos que são hoje.

O papai e a mamãe amam você Raul! E o Tutu também.

Feliz aniversário!

Familia

Texto publicado em 08 de Julho de 2015 por Roberto Siqueira

Aquecendo as turbinas

Olá pessoal,

Não vou mentir, o Cinema & Debate quase acabou. Não que eu não tenha vontade de escrever mais ou que minha paixão pelo cinema tenha diminuído, mas o fato é que passei por uma fase de transição na vida que tomou grande parte do meu tempo e deixou o site em último plano. Para vocês terem uma ideia, só assisti 42 filmes neste ano, o que é uma marca risível se comparada aos anos anteriores.

Felizmente, minha vida está voltando aos eixos aos poucos. Estou conseguindo reequilibrar cada aspecto da minha vida pessoal e profissional e, devagar, vou encontrando espaço para assistir filmes e escrever novamente.

Espero voltar a postar críticas muito em breve e, inclusive, já tenho algumas escritas.

Só queria deixar isto claro e avisar que em breve vocês terão novidades.

Até lá, um forte abraço e ótimos filmes para vocês.

Texto publicado em 05 de Julho de 2015 por Roberto Siqueira

Cinema & Debate saindo do coma…

Aguardem.

Coming back soon

Texto publicado em 15 de Junho de 2015 por Roberto Siqueira

5 anos

Há exatos cinco anos eu ganhava o primeiro dos maiores presentes que Deus me deu. Desde então, aprendi a cada dia a ser uma pessoa melhor.

Se minhas noites inicialmente encurtaram, com o passar do tempo meus dias se alongaram, já que as horas demoravam cada vez mais para passar até chegar o momento de ir pra casa para ver meu bebê.

E meu bebê cresceu. Tornou-se meu grande amigo, meu parceiro de filmes, no futebol (agora acompanhado pelo meu segundo príncipe Raul) e até nos bate-papos no fundo de casa ao som do bom e velho rock n´ roll. Transformei-me no supervilão que ele, meu pequeno herói, deve enfrentar todas as semanas. Virei médico e paciente do Dr. Arthur, oponente em lutas corporais e de bonecos, assim como seu adversário no Jokenpô. Mas sou também seu parceiro em viagens espaciais imaginárias, em descobertas de tesouros há séculos escondidos em nossa casa e até mesmo em lutas ferozes contra os mais temíveis monstros.

Aprendi a gostar e admirar a qualidade de desenhos como os Backyardigans, me encantei novamente com os clássicos Disney e descobri que nunca mais conseguirei conter as lágrimas ao assistir a trilogia Toy Story. Adorei ver seu encanto diante do E.T. e sua alegria ao ver os dinossauros de Spielberg. Recentemente, pude ver de perto o brilho de seus olhos em sua primeira ida ao cinema e seu encantamento diante da telona e da magia daquele local.

Mas a magia mesmo foi ele quem trouxe. Desde o dia em que segurou minha mão minutos após chegar a este mundo. Desde o dia em que ficou por horas agarrado em meu peito quando regressei de uma viagem a trabalho. Desde o dia em que ouvi pela primeira vez o “papa”, que se eternizaria na voz de seu irmão anos depois.

Só posso agradecer a Deus por me dar dois filhos tão maravilhosos. Ainda tão cedo, já posso afirmar que ganhei dois parceiros eternos. Dois amigos para toda a vida. E tudo começou naquele 22 de Fevereiro de 2010, quando finalmente entendi o sentido completo da palavra amor.

Nada poderá mudar este sentimento. Sou um ser humano completo desde então.

Obrigado Arthur por me fazer tão feliz.

Papai te ama!

Beijos do supervilão para o meu herói preferido.

Primeiro contatoTexto publicado em 22 de Fevereiro de 2015 por Roberto Siqueira