UM LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES (1981)

(An American Werewolf in London)

Filmes em Geral #88

Dirigido por John Landis.

Elenco: David Naughton, Jenny Agutter, Griffin Dunne, John Woodvine, Lila Kaye, Joe Belcher, Brian Glover e Frank Oz.

Roteiro: John Landis.

Produção: George Folsey Jr.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Apesar da boa direção do esquecido John Landis e de resgatar o lobisomem para o cinema, o divertido “Um Lobisomem Americano em Londres” ficou marcado mesmo pelo excepcional trabalho do genial Rick Baker, responsável pela sensacional maquiagem que fez a transformação do protagonista em licantropo se tornar uma das mais marcantes da história. Mas chega a ser injusto lembrar o filme apenas por este importante detalhe, já que o longa, mesmo com cenas hoje datadas, ainda mantém o frescor e diverte, muito por causa da boa mistura de gêneros empregada pelo diretor com bastante habilidade.

Escrito pelo próprio Landis (que dirigiu o videoclipe “Thriller”, de Michael Jackson) quando tinha apenas 19 anos, “Um Lobisomem Americano em Londres” narra a história dos jovens turistas americanos David Kessler (David Naughton) e Jack (Griffin Dunne), que partem numa excursão pela Europa e acabam conhecendo um estranho e pouco acolhedor vilarejo na zona rural da Inglaterra. Ao serem praticamente expulsos do local, eles acabam se perdendo num pântano, onde são atacados por uma criatura aterrorizante, que mata Jack e fere David gravemente. Desde então, David passa a sofrer estranhas alucinações e parece sofrer com uma espécie de maldição.

Criando uma mistura interessante de gêneros, o diretor John Landis conduz a narrativa de maneira simples e direta, intercalando momentos cômicos – como os supostos devaneios do protagonista – e cenas de suspense de maneira eficiente. Fugindo dos clichês do gênero, ele aposta no humor negro em diversos momentos, algo evidenciado até mesmo pela trilha sonora divertida e repleta de músicas que fazem referencia à lua de Elmer Bernstein. Por outro lado, o diretor abre o filme com imagens do deserto embaladas por uma trilha melancólica, talvez indicando a solidão que o protagonista será condenado a enfrentar diante de sua nova condição. Landis é hábil ainda ao indicar visualmente para o espectador o resultado de algumas ações dos personagens, como quando Jack pergunta sobre o pentagrama desenhado na parede do pub (ou taberna) “Cordeiro Estraçalhado” e, em seguida, vemos um dardo sendo atirado fora do alvo, simbolizando a pergunta errada na hora e no local errados. Finalmente, Landis consegue criar alguma tensão no bosque antes do ataque do lobisomem, escorregando apenas ao abusar de estereótipos ingleses através dos punks no metrô e do povo pouco acolhedor no norte da Inglaterra. Por outro lado, Landis demonstra habilidade ao seguir a cartilha de Spielberg, segurando ao máximo antes de mostrar pela primeira vez o lobisomem, o que só aumenta a expectativa pela aparição do monstro.

Adotando uma postura leve e até mesmo cômica, David Naughton consegue carregar a narrativa com certa facilidade, até mesmo pela proposta imposta pelo diretor. Além disso, o ator nos diverte com as estranhas alucinações e os sonhos confusos de David, chegando até mesmo a nos deixar tão confusos quanto o personagem durante boa parte da narrativa. Entretanto, a dúvida começa a se desfazer quando o Dr. Hirsch (John Woodvine) visita o pub onde tudo começou. A partir de então, passamos a compartilhar a angústia do protagonista, que não sabe o que fazer para evitar a transformação que certamente sofrerá. E se nos importamos com David, é também porque a bela Jenny Agutter confere enorme carisma à enfermeira Alex Price, tornando o romance entre eles ainda mais convincente e aproximando o casal do espectador.

Mas apesar da interessante mistura de gêneros, “Um Lobisomem Americano em Londres” ficou marcado mesmo pela impressionante maquiagem de Rick Baker, que se destaca logo na primeira conversa entre David e o morto-vivo Jack. Surgindo sempre que algum morto-vivo dá as caras, a qualidade da maquiagem impressiona pela riqueza de detalhes, mostrando as vítimas dilaceradas pelo monstro de maneira bastante convincente para a época. E se alguns momentos hoje podem soar datados, pelo menos ainda conseguem nos divertir bastante. Já a melhor cena do filme continua impressionante, iniciando quando a câmera que acompanha uma conversa entre Alex e um garoto se movimenta até a lua cheia e, ao embalo de “Blue Moon”, nos mostra a dolorosa transformação do protagonista em lobisomem, que utiliza apenas maquiagem e alguns efeitos especiais, o que a torna mais convincente. Obviamente, esta cena conta também com a abordagem original e divertida de Landis, que foge dos clichês empregando boa dose de humor negro num momento potencialmente tenso. Vale destacar ainda os ótimos efeitos sonoros, que tornam a transformação e os ataques ainda mais reais.

Mesmo com tantas qualidades, “Um Lobisomem Americano em Londres” falha justamente quando precisa criar tensão na plateia. Adotando uma câmera subjetiva que dribla a falta de recursos técnicos, o diretor nos coloca na posição do licantropo nas raras vezes em que ele aparece, numa tentativa de aumentar o suspense que realça o desespero das vítimas, claramente apavoradas com o que veem. Ainda assim, apesar de demonstrar criatividade, ele raramente consegue criar um plano realmente marcante ou um momento de extrema tensão, pendendo sempre para uma narrativa mais leve e recheada de humor negro. De maneira geral, funciona bem, mesmo que raramente consiga fazer o espectador sentir medo de verdade.

No ataque final dentro de um cinema, o curioso comportamento das pessoas reflete como o ser humano não consegue conter sua curiosidade, mesmo diante de uma situação extremamente perigosa. E então o acuado David, ainda na pele de lobisomem, reconhece Alex, num raro instante de delicadeza. O problema é que nós praticamente podemos pressentir que este breve momento não durará por muito tempo e a confirmação vem na tentativa de ataque do monstro, interrompida pelos tiros dos policiais, num final coerente, porém previsível.

Ainda que raramente consiga provocar calafrios, “Um Lobisomem Americano em Londres” é bem sucedido naquilo que se propõe a fazer, que é reviver a lenda de maneira mais leve e divertida, provocando impacto através das poderosas imagens da transformação do protagonista. Se não é uma obra-prima, ainda diverte e certamente está entre os melhores filmes já feitos sobre a maldição do homem que se transforma em lobo.

Texto publicado em 15 de Outubro de 2012 por Roberto Siqueira

Semana das Lendas

Olá pessoal,

Num ano tão turbulento para o Cinema & Debate, dar continuidade às semanas especiais tornou-se uma tarefa ainda mais difícil. Mas finalmente eu consegui me organizar e preparar uma semana especial que há tempos eu tinha vontade de fazer. Trata-se da semana das lendas, que trará cinco filmes sobre lendas que sempre me fascinaram – entre elas, alguns dos famosos monstros da Universal. Como sempre, não se trata de um ranking com os melhores filmes sobre o tema, até porque ainda não assisti muitos deles.

É difícil fazer um levantamento preciso sobre a história das lendas no cinema, já que o vampiro, por exemplo, já servia de inspiração para filmes desde os primórdios da sétima arte, assim como o Lobisomem, Frankenstein, etc. Em todo caso, é sempre bom citar filmes interessantes e importantes como “A Marca do Zorro” (as versões de 1920 e 1940), “Nosferatu – uma sinfonia de horrores” (1922), “Frankenstein” (1931), “A Múmia” (1932), “A Noiva de Frankenstein” (1935), “A Fera de Londres” (1935), entre tantos outros que foram marcantes.

Existem diversos textos interessantes sobre cada uma destas lendas na internet, dentre os quais eu gostaria de destacar o excelente estudo de Rodrigo Carreiro sobre os vampiros, que você pode ler clicando aqui.

Entretanto, desta vez eu preferi criar uma seleção mais recente, levando em consideração filmes que marcaram minha infância e adolescência, ainda que hoje eu reconheça que alguns dos selecionados são bem inferiores aos clássicos citados neste texto.

Sendo assim, cinco filmes sobre lendas formarão mais uma semana especial do Cinema & Debate nos próximos dias.

Não deixem de conferir e espero que gostem!

Um grande abraço.

Texto publicado em 14 de Outubro de 2012 por Roberto Siqueira

Voto consciente

Vídeo produzido pelo nosso amigo Marcel Actis Villar e seu grupo da faculdade (créditos abaixo) – se quiser acessar o vídeo original no Youtube, basta clicar aqui:

Vídeo feito para trabalho de Filosofia Fundação Santo André.
Edição Video – Rafael Gorba, Marcel Actis Villar e Thiago Rodrigues.
Composição da Música – Marcel Actis Villar e Luthi Marques (Solos)
Voz de Gustavo MadJoker, Violão Solo de Luthi Marques e Violão base de Marcel Actis Villar.
Gravado por AMP Estudio

Divulgado em 06 de Outubro de 2012 por Roberto Siqueira

OSCAR 1996: CORAÇÃO VALENTE X RAZÃO & SENSIBILIDADE

Seguindo minha comparação entre o vencedor do Oscar de Melhor filme e aquela que eu considerei como a melhor produção do ano, chega à vez do sensacional ano de 1995 (Premiação em 1996). Apesar de considerar as safras de 94 e 99 bastante respeitáveis, não tenho receio de afirmar que a safra de 95 é a melhor dos anos 90. Repleta de filmes memoráveis, a produção cinematográfica daquele ano dificulta até mesmo a escolha dos cinco indicados ao prêmio de melhor filme, tornando a tarefa de escolher o melhor deles em algo quase impossível.

Além da qualidade, impressiona também a variedade das produções. Tivemos boas ficções científicas (“Apollo 13” e “Os 12 Macacos”), romances maduros e apaixonantes (“As Pontes de Madison”, “Razão & Sensibilidade” e a obra-prima “Antes do Amanhecer”), thrillers eletrizantes (“Os Suspeitos” e outra obra-prima, “Seven”), filmes divertidos e sensíveis (“Don Juan DeMarco” e a revolucionária animação “Toy Story”), muita ação (o razoável “Duro de Matar – A Vingança” e o excepcional “Fogo contra Fogo”), violência estilizada (“Cassino”) e épica (“Coração Valente”) e dramas profundamente tocantes (“Despedida em Las Vegas” e a obra-prima “Os últimos passos de um homem”).

Diante de tudo isto, fica extremamente complicado eleger o melhor filme do ano, mas explicarei a razão da minha escolha em seguida. Antes, vou adotar a metodologia atual e indicar meus dez filmes favoritos de 95. Sem ordem de preferência, são eles:

Os 12 Macacos

Antes do Amanhecer

As Pontes de Madison

Coração Valente (meu voto, por razões nada racionais)

Despedida em Las Vegas

Fogo contra Fogo

Os Últimos passos de um homem

Razão & Sensibilidade

Se7en

Toy Story

Num ano tão farto, não posso deixar de comentar também outros prêmios importantes. Por coerência, eu votaria em Mel Gibson como melhor diretor, apesar de não conseguir encontrar defeitos nas direções de David Fincher, Richard Linklater, Clint Eastwood e Tim Robbins. Para melhor ator, apesar de admirar a excelente atuação de Nicolas Cage em “Despedida em Las Vegas”, meu voto iria para Sean Penn, que oferece uma atuação sublime em “Os últimos passos de um homem” – meus outros indicados seriam Morgan Freeman por “Seven”, Ethan Hawke por “Antes do Amanhecer” e (De Niro e Pacino me perdoem!) Mel Gibson por “Coração Valente”. Meu ator coadjuvante favorito do ano seria mesmo Kevin Spacey, mas não pela boa atuação em “Os Suspeitos” e sim por sua participação monumental em “Seven”. Também indicaria Brad Pitt (“Os 12 Macacos”), Patrick McGoohan (“Coração Valente”), Ed Harris (“Apollo 13”) e James Cromwell (uma espécie de consolação para “Babe, o porquinho atrapalhado”).

Entre as mulheres, eu concordaria com a academia e premiaria Susan Sarandon como melhor atriz, indicando ainda três das quatro concorrentes escolhidas pela academia, Elizabeth Shue (“Despedida em Las Vegas”), Meryl Streep (“As pontes de Madison”) e Sharon Stone (“Cassino”), trocando apenas Emma Thompson (“Razão & sensibilidade”) por Julie Delpy (“Antes do Amanhecer”). Premiaria ainda Kate Winslet (“Razão & sensibilidade”) como atriz coadjuvante, Emma Thompson pelo roteiro adaptado de “Razão & sensibilidade”, Andrew Kevin Walker pelo roteiro original de “Seven”, Richard Francis-Bruce pela montagem do mesmo “Seven” e John Toll pela fotografia de “Coração Valente”. Eu sei, deixei grandes filmes como “Fogo contra Fogo” e “Cassino” de mãos abanando, mas acontece. O ano era mesmo excepcional.

Porque eu votaria em “Coração Valente”?

Como já expliquei anteriormente, “Coração Valente” é o filme mais importante da minha vida. Portanto, eu seria hipócrita se dissesse que votaria em outro filme na época, ainda que reconheça a qualidade superior de obras-primas como “Antes do Amanhecer”, “Os últimos passos de um homem” e “Seven”. E apesar de também reconhecer os méritos de “Razão & Sensibilidade” (na verdade, o grande concorrente de “Coração Valente” nas premiações), não acho o filme de Ang Lee melhor que o épico de Mel Gibson.

Se a votação acontecesse hoje e eu levasse em consideração apenas aspectos racionais, meu escolhido seria: eu não sei! Quem sabe “Seven”, pelo magnetismo de sua narrativa; ou “Antes do Amanhecer”, pela apaixonante simplicidade e realismo; ou “Os últimos passos de um homem”, pela importância e relevância do tema abordado com tamanha competência. É, acho que no fim das contas, eu votaria em “Coração Valente” do mesmo jeito, porque cinema não é só razão, é também emoção.

E pra você, qual o melhor filme de 1995 e por quê?

Um abraço e bom debate.

Texto publicado em 03 de Outubro de 2012 por Roberto Siqueira

WATERWORLD – O SEGREDO DAS ÁGUAS (1995)

(Waterworld)

 

Videoteca do Beto #138

Dirigido por Kevin Reynolds.

Elenco: Kevin Costner, Dennis Hopper, Jeanne Tripplehorn, Tina Majorino, Leonardo Cimino, Rick Aviles, Zakes Mokae, Chaim Girafi, R.D. Call, Zitto Kazann e Jack Black.

Roteiro: Peter Rader e David Twohy.

Produção: John Davis, Charles Gordon, Lawrence Gordon e Kevin Costner.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Apesar de tentar evitar assuntos que envolvem os bastidores de uma produção, é praticamente impossível escrever sobre “Waterworld” sem abordar estas questões. Filme mais caro do mundo na época, o longa de Kevin Reynolds enfrentou diversos problemas em sua fase de produção, que iam desde a destruição total de um cenário (a colônia de escravos, onde provavelmente estariam os “escravistas” citados no início) até brigas envolvendo o diretor e seu astro principal, que culminaram no abandono do primeiro durante o projeto. Some a isto a costumeira dificuldade de filmar no mar e a péssima recepção dos críticos e você terá todos os ingredientes de um enorme fracasso – que de fato se consumou, mesmo com a bilheteria ao redor do mundo ajudando a pagar o gigantesco custo de aproximadamente 200 milhões de dólares.

Mas calma. Apesar da chuva de críticas, este não é o pior filme de todos os tempos. Desconte o hype negativo da época e a megalomania de Kevin Costner (na época, muito poderoso em Hollywood) e você terá boas cenas de ação e uma premissa até interessante que, infelizmente, não é bem desenvolvida pelo fraco roteiro. Escrito por Peter Rader e David Twohy, “Waterworld” inicia com uma curiosa brincadeira com o logo da Universal, informando que num futuro distante as calotas polares derreteram e cobriram a superfície da Terra com água, obrigando aqueles que sobreviveram a se adaptarem a um novo mundo. Interessante, não? Depois disto, conhecemos o personagem sem nome de Kevin Costner – chamado pelos outros de Mariner -, que, após ser capturado num Atol (uma espécie de cidade sobre a água), se vê obrigado a proteger Helen (Jeanne Tripplehorn) e a jovem Enola (Tina Majorino) em troca de sua liberdade. O problema é que os Smokers, liderados pelo diácono (Dennis Hopper), estão procurando justamente a menina, que muitos acreditam ter o mapa da mítica “Terra Seca” tatuado nas costas.

É realmente uma pena, portanto, que após este início promissor os roteiristas não saibam o que fazer e desenvolvam a história de maneira tão irregular. Entretanto, apesar do péssimo material que tem em mãos, Kevin Reynolds até consegue criar bons momentos, como a sequência da invasão do Atol e a fuga de Mariner de um mercado tomado pelos Smokers, compondo ainda planos plasticamente interessantes, como nas belas imagens do barco navegando solitário no mar, e outros surpreendentemente eficientes, como após a briga de Mariner com um nômade no interior do barco, onde o posicionamento da câmera cria um pequeno suspense ao mostrar o adversário surgindo primeiro antes de revelar a ferida em suas costas. Mas, apesar destes bons momentos, o diretor não consegue salvar o longa do fracasso.

Outro momento interessante é a apresentação de Mariner e de seu barco funcional, mostrando a capacidade de raciocinar rapidamente do personagem e a imponência das velas de sua embarcação quando ele deixa outro nômade a mercê dos Smokers e foge. Um dos melhores “personagens” de “Waterworld”, o barco de Mariner consegue a proeza de fazer com que o espectador sinta a sua falta tanto quanto a de Enola quando sai de cena, ainda no segundo ato. Mas se estas cenas funcionam bem, por outro lado o conflito que provoca a prisão de Mariner no Atol é pouco verossímil, surgindo apenas para revelar a origem mutante do personagem – o próprio conceito de mutação, aliás, também poderia ser mais bem desenvolvido. De qualquer modo, até a invasão do Atol a narrativa caminha bem e a chegada dos Smokers ao local inicia a melhor sequência do filme. Alternando entre os planos sem jamais soar confuso, Reynolds conduz a sequência com dinamismo, numa cena de tirar o fôlego que garante bons momentos de ação e comprova o excepcional trabalho do design de som, notável em todo o filme. Tecnicamente, vale destacar também a trilha sonora de James Newton Howard, que aposta no alto e bom som para embalar as cenas de ação, apesar de empregar corretamente sons que evocam o mar em alguns instantes.

Além do funcional barco de Mariner, o interessante Atol construído a partir de restos de materiais realça o bom trabalho de direção de arte de David Klassen. Seguindo o mesmo raciocínio, os criativos figurinos de John Bloomfield criam roupas acinzentadas a partir de sobras de materiais e restos de peixes, enquanto a fotografia de Dean Semler realça este mundo sem vida na maior parte do tempo, criando um contraste interessante com as belas imagens do oceano e dando ao longa um visual decadente pós-apocalíptico que lembra muito a série “Mad Max”. Aliás, as semelhanças com a série de George Miller não param por aí, já que aqui o protagonista também é um homem solitário e o petróleo tem grande importância comercial. A diferença é que no mundo das águas a terra também é muito valorizada (não me pergunte por que), dando uma vantagem econômica considerável ao mutante Mariner, que pode buscá-la no fundo do mar graças às suas guelras e membranas que lhe permitem mergulhar e respirar em baixo d´água.

Sempre durão e com a cara fechada, o Mariner de Costner parece não confiar em ninguém, o que é normal diante das condições em que ele vive, vagando solitário pelos oceanos. Segundo Enola, “ele não tem nome, assim a morte não o encontra”, e de fato o ator convence como durão, transmitindo a força que o personagem exige. Mas apesar de se sair bem como nômade solitário, ele não consegue carregar o projeto sozinho, falhando, por exemplo, na relação com Helen. E se o segundo ato é bastante irregular, é também porque foca demasiadamente na relação entre Mariner, Helen e Enola, prejudicada pela falta de química entre Costner e Tripplehorn. Felizmente, se Tina Majorino transita entre o carisma e a chatice com sua Enola, ao menos garante momentos de alivio cômico durante sua conturbada relação com Mariner, através dos desenhos no barco e do corte do cabelo delas em certo instante. Apesar da irregularidade, a relação deles ainda traz um belo momento quando Mariner ensina a garota a nadar. Por outro lado, novamente o roteiro sabota os atores através de seus diálogos risíveis, como quando Helen pergunta se eles conseguem escapar de um avião e Mariner diz: “Não com as velas abaixadas”, como se um veleiro fosse capaz de fugir de um avião. E até mesmo o conceito de fuga soa totalmente sem sentido num mundo coberto pela água e, portanto, com raros locais capazes de “esconder” alguém. Fechando o elenco, Hopper parece se divertir como o Diácono na maior parte do tempo, mas exagera na dose soando extremamente caricato em muitos momentos.

Em certo momento, Helen reclama da falta de comida e nos leva a outra cena embaraçosa. A pesca do peixe gigante, além de pouco convincente, surge apenas para revelar os fracos efeitos visuais de “Waterworld”, confirmados na visita ao fundo do mar e na explosão do navio dos Smokers. Mas nada que se compare aos erros primários de Peter Rader e David Twohy que, além de todos os problemas citados, ainda incluem diálogos expositivos, como no primeiro contato com um nômade que serve apenas para explicar algumas regras daquele mundo pós-apocalíptico, e um discurso ridículo do Diácono para os Smokers.

Investindo num enigma pouco criativo envolvendo o mapa nas costas de Enola, o confuso conceito da “Terra Seca” também parece apenas uma ideia jogada na narrativa, sem que os roteiristas tivessem o cuidado de desenvolvê-la melhor. Aliás, o roteiro falha terrivelmente sempre que tenta explorar os conceitos daquele mundo, deixando algumas questões em aberto como: quem são e o que pretendem os Smokers? De onde eles tiram tanto “petro-suco” (uma refinaria, talvez?). Além disso, porque eles desistem de perseguir Mariner em diversos momentos mesmo estando motorizados enquanto o alvo segue num barco a vela. Quando pensamos sobre a origem da “Terra Seca”, que surge no ato final, a coisa fica ainda mais confusa. Se Enola tem por volta de seis anos e nasceu lá, significa que aquele local jamais submergiu, o que torna inexplicável a decisão dos pais de enviarem a garota num cesto dentro daquele mar hostil. E se o local submergiu, a “evolução” que trouxe mutantes não pode ter acontecido em tão pouco tempo, até porque o Diácono diz em certo momento: “estamos perto St. Joe, depois de SÉCULOS de vergonha”. Em resumo, tudo é muito confuso e mal desenvolvido em “Waterworld”.

O terceiro ato consegue ser ainda mais irregular que o segundo, apresentando raros momentos interessantes, como o confronto verbal entre Mariner e o Diácono que resulta na explosão do local (“Ele nunca blefa”, diz Enola), mas transforma o protagonista num verdadeiro MacGyver, sendo capaz de enfrentar sozinho todos os Smokers, explodir o navio, impedir a fuga do Diácono de avião (repare que todos os objetos que ele precisa estão no lugar, só esperando para serem utilizados), recuperar Enola, perdê-la novamente e se atirar do alto de um balão no meio do oceano para recuperar definitivamente a garota, provocando ainda a morte dos últimos inimigos (Ufa! Só de digitar fiquei cansado).

Prejudicado pelo hype negativo da época e pelos diversos problemas na produção, “Waterworld” está longe de ser um grande filme, mas também não é a porcaria que muitos afirmaram em seu lançamento. Apesar da fragilidade com que desenvolve sua interessante premissa, trata-se de um filme de ação correto, bastante irregular é verdade, mas com momentos interessantes, especialmente em seu primeiro ato. É pouco para salvá-lo, mas, por outro lado, o longa não merecia ser o responsável por – com o perdão do trocadilho – afundar a carreira de muitos dos envolvidos em sua produção.

Texto publicado em 30 de Setembro de 2012 por Roberto Siqueira

Amsterdã

Ir para Amsterdã não foi ideia minha. Não que eu não tivesse curiosidade ou vontade de conhecer a capital holandesa. Eu simplesmente tinha outros sonhos antes dela. A ideia partiu da minha esposa, que sonhava em conhecer a charmosa cidade dos canais, das casas barco e das bicicletas. Por isso, incluímos Amsterdã em nosso roteiro de lua de mel. E valeu cada minuto que passamos nesta cidade que parece de outro planeta.

Muita gente me perguntou se os canais eram sujos e se a cidade era muito bagunçada devido ao liberalismo que por lá impera. A resposta é “pelo contrário”. Amsterdã é uma cidade linda, limpa, organizada e incrivelmente a frente de seu tempo. Os holandeses, aliás, se mostraram o povo mais alegre e receptivo que conheci. Inteligentes (muitos falam diversos idiomas), sabem como poucos receber turistas e tirar o máximo proveito dos pontos positivos de sua cidade. Em Amsterdã, nos sentimos em casa, por mais distante que estejamos de nossa terra natal.

De fato, existem muitas referencias ao sexo. Mas lugares como o famoso bairro da luz vermelha e o Museu do Sexo são tão frequentados por turistas que você se sente como em qualquer outro ponto turístico – é óbvio que muita gente vai lá para se divertir, mas existem muitos casais que passeiam pelo bairro apenas para conhecer, por pura curiosidade. Quando estive em Amsterdã, era permitido o uso da maconha em bares fechados (os Coffee Shops) e certamente isto atraía muitos turistas. Mas em nenhum momento nos sentimos ameaçados ou deslocados por causa da liberação das drogas. Na verdade, passamos até mesmo a entender quem defende a liberação da maconha (eu mesmo sou a favor), ainda que existam diferenças sociais fundamentais entre Brasil e Holanda. Para os apreciadores da cerveja (como eu), Amsterdã também tem diversas opções interessantes, como os bares repletos de marcas famosas mundialmente e os passeios por cervejarias importantes como a Heineken.

O charme da cidade aparece logo na primeira caminhada, com seus canais cortando as ruas planas decoradas pelos prédios baixos que predominam a arquitetura local. Nas ruas, podemos ver carros, bondes (o Tram), bicicletas e pessoas se locomovendo tranquilamente, em perfeita harmonia. As bicicletas, por sinal, são respeitadíssimas e muito utilizadas na cidade, tendo direito até mesmo a semáforos e estacionamentos só pra elas. Mas se passear pelas ruas é uma delícia, andar pelos canais, seja de pedalinho ou de barco (fizemos os dois!) é ainda mais divertido. Olhar aquela linda cidade de outro ângulo revela um novo e apaixonante ponto de vista e ainda nos permite passar bem pertinho das curiosas casas barco que a Dri tanto queria conhecer. Fiquei imaginando como seria viver num local como aquele.

Como estávamos no inicio do Outono, não chegamos a ver as famosas flores de Amsterdã, como as tulipas, espalhadas pelos campos, mas em épocas como a Primavera e o Verão esta certamente é mais uma atração da capital holandesa. Por outro lado, passamos uma tarde deliciosa no Vondelpark, o enorme parque da cidade onde recentemente foi liberada a pratica do sexo após determinado horário. A cidade também respira história e cultura e oferece passeios magníficos como a visita à casa de Anne Frank, o Amsterdams Historisch Museum e os museus de Van Gogh e o Rijksmuseum.

Polêmicas a parte, Amsterdã revela-se uma cidade fantástica tanto para solteiros quanto para famílias. E pra completar, ainda oferece passeios muito interessantes em suas redondezas, como a simpática Zaandam, cidade onde estão localizados os famosos moinhos de vento holandeses. É muito interessante conhecer a história do local, aprender como os moinhos eram importantes para a economia da região e até mesmo poder subir em um deles e ter uma vista privilegiada da cidade. Como se não bastasse, Zaandam ainda oferece excelentes queijos e chocolates, que não conseguimos resistir e acabamos trazendo para o Brasil.

Sou fascinado pela Europa, apaixonado por quase todas as cidades que conheci. Mas, entre todas elas, Amsterdã tem um lugar especial, justamente por ser a mais louca, diferente e empolgante cidade que já conheci. Obrigado pela insistência Dri!

PS: Este texto foi escrito antes da minha última viagem à Europa e não tem nenhuma ligação com a mesma. Decidi esperar até hoje para divulgá-lo porque em 26 de Setembro de 2007, há exatos cinco anos, nós pisamos pela primeira vez nesta linda cidade durante nossa lua de mel. Portanto, trata-se de uma homenagem à mulher da minha vida, que tanto insistiu para conhecer esta cidade mágica.

Texto publicado em 26 de Setembro de 2012 por Roberto Siqueira

Alemanha

Antes de começar a escrever sobre as cidades que conheci na última viagem, quero fazer alguns comentários sobre este país fascinante, que nos encantou definitivamente: a Alemanha.

Se as viagens anteriores foram marcantes por diferentes motivos, desta vez, além da presença do Arthur, o passeio pelo velho mundo serviu para derrubar mitos. Definitivamente, a maioria das coisas que eu ouvia falar da Alemanha antes da viagem caiu por terra. Cheguei até a escrever no Facebook que nunca mais vou falar de algo que não conheço só porque alguém me contou, já que a cada dia aprendo que só podemos falar de algo que conhecemos, caso contrário, será um mero exercício de adivinhação.

É óbvio que numa viagem a passeio tudo fica mais lindo, mais legal, mais interessante. Mas os relatos negativos que eu ouvia também eram de pessoas que estavam viajando a passeio, portanto, o parâmetro é o mesmo.

Em primeiro lugar, a Alemanha está longe, mas bem longe de ser o país cinza e sem vida que me pintaram. Aliás, Berlim e Munique estão entre as cidades grandes mais “verdes” que eu já conheci. E no trajeto entre elas (passei por Praga e Viena no caminho, que ficam fora da Alemanha), a paisagem que vimos através da janela do trem não fica atrás, repleta de lugares cinematográficos, com árvores, lagos e rios belíssimos cercados pelas típicas casinhas alemãs que tanto me encantam. E se a limpeza e a organização das cidades impressionam, a imponência do peso da história que parece pulsar em cada esquina só torna estas duas cidades ainda melhores.

Quanto ao povo alemão, só posso dizer que a maioria absoluta das pessoas que cruzaram nosso caminho nos acolheu muito bem e mesmo os que não falavam inglês tentavam nos ajudar no que era preciso. A imagem que criamos dos alemães foi a melhor possível, um povo festeiro, alegre, hospitaleiro e, o mais interessante de tudo, muito família. A cena mais comum de se notar na rua ou num parque é uma família, com pais, filhos e avós brincando, se divertindo ou apenas relaxando e deixando o tempo passar.

Ah, é claro, tem também a cerveja, uma espécie de liquido sagrado para os alemães, que se divertem em seus bares e “Biergartens” tomando litros e litros da bebida preferida no país. Esta história de que alemão é bravo e sisudo não colou. Eles são bastante festeiros, saem do trabalho no horário e vão curtir, num estilo de vida bem mais interessante do que o que temos, por exemplo, na estressante metrópole paulistana. E por sinal, a tal da “cerveja quente” também me pareceu não passar de mais uma lenda, já que em praticamente todos os bares e “Biergartens” que eu fui a cerveja era no mínimo fria. De fato, eles não tomam cerveja “trincando” como nós aqui porque alegam que perde o sabor, mas isto não quer dizer que a cerveja seja quente.

Além de tudo isso, a infraestrutura do país nos permite conhecer diversos lugares sem precisar de carro, sem enfrentar um transito caótico, sempre com acessibilidade nos trens, ônibus e metrôs para idosos, portadores de necessidades especiais e pessoas (como nós) que carregam crianças em carrinhos de bebê. E eles respeitam muito a prioridade destas pessoas, assim como quem está de carro respeita nossa prioridade na hora de atravessar a rua, respeita os ciclistas (que são muitos), etc.

Outro medo que eu tinha era de levar uma criança de 2 anos numa viagem como esta. Mas o Arthur não poderia ter se saído melhor, curtindo cada novidade, adorando os parques, castelos, os alegres mercados de rua e os playgrounds espalhados pelas cidades. Quando voltei para o Brasil, decidi viajar no feriado de 07 de Setembro e aí sim foi complicado. Levamos 6 horas para fazer uma viagem que normalmente leva 3 horas, o Arthur passou mal por causa do calor, etc. O pessoal achava que éramos malucos de levar ele pra Europa. Mas, na verdade, eu acho que maluco é quem leva criança pra viajar num feriado prolongado em São Paulo. A falta de estrutura, de ferrovias, etc., cria uma situação infernal tanto para quem vai para o interior quanto para quem vai para o litoral. Já na Europa, a facilidade é tamanha que nós ficávamos pensando: “Qual é a loucura de viajar num trem confortável como este, de andar num sistema público de transporte tão eficiente e de conhecer lugares tão lindos?”.

No fim das contas, a grande verdade é que a cada vez que viajo pra Europa eu volto ainda mais decepcionado com o nosso país. Nós brasileiros nos apoiamos na beleza natural (que existe, em maior ou menor escala, em todos os países do mundo) para justificar inúmeros defeitos criados durante anos de corrupção, má administração e jogos de interesses. Aceitamos passivamente a falta de estrutura, de condições melhores de vida, de segurança, de saúde, de educação, etc., alegando que em todo lugar é assim. Não, não é assim! Existem lugares melhores para viver por aí. E isto não é uma opinião, é um fato – e tenho certeza que a maioria das pessoas que já teve a oportunidade de conhecer um país mais desenvolvido vai concordar comigo.

Não conheço muitos países que imagino serem excelentes para viver, como os EUA, a Austrália ou o Japão, por isso não posso falar nada a respeito deles. Mas da Europa eu me sinto a vontade para falar. Existem problemas, é claro, mas são problemas que tem pouca interferência do ser humano (ou seja, não dependem de ações dos governantes), como o frio ou a saudade que os “expatriados” tendem a sentir da família e da terra natal. Mas as vantagens são tantas que se um dia eu tiver a oportunidade, certamente vou optar por morar no exterior, ainda que eu saiba que sentirei saudades de muitas pessoas que ficarão para trás. É mais fácil morar num lugar assim do que esperar que nossos governantes melhorem nosso país. É egoísmo? Sim, é. Mas é a triste realidade e não posso negar meu sentimento.

O texto começou feliz e terminou em tom de desabafo, mas não vou apagar nem uma frase sequer. Espero que compreendam e curtam. E espero também que um dia o povo brasileiro acorde e passe a exigir melhorias reais em nossa pátria amada.

Um grande abraço.

Texto publicado em 22 de Setembro de 2012 por Roberto Siqueira

Álbuns da minha vida: 3# …And Justice for All (Metallica)

Durante boa parte da minha infância, criei uma imagem estereotipada das bandas de heavy metal e de seus fãs bem próxima daquilo que muitas pessoas ainda pensam nos dias de hoje. Expressões como “é só barulho” ou “um bando de drogados que só balança a cabeça” eram comuns. Até que entrei na Escola Técnica Estadual Lauro Gomes, em São Bernardo do Campo, e conheci o mundo dos metaleiros. E me apaixonei. É verdade que me limitei a bandas mais tradicionais como o Iron Maiden, Black Sabbath, AC/DC e o próprio Metallica, por exemplo, mas garanto que já valeu a viagem. Além de conhecer músicas que curto até hoje, pude comprovar o tamanho do preconceito que eu carregava, já que os fãs de metal que conheci não poderiam ser pessoas mais legais, o que me fez enxergar o quão errado é rotular alguém. Encontrei nelas algo bem distante daquilo que imaginava, criei fortes amizades com pessoas divertidas e humanas, que, tirando o gosto musical, nada têm de diferente daquelas que gostam de MPB, samba ou música eletrônica. Elas simplesmente amam o heavy metal.

Musicalmente, meus preconceitos estavam tão errados quanto as minhas impressões sobre os metaleiros. E basta ouvir qualquer álbum do Metallica (até mesmo o apedrejado “Load”) para notar a qualidade do trabalho da banda de San Francisco. Pode parecer exagero até, mas enxergo até mesmo forte influencia da musica clássica no trabalho deles – e o álbum Mettalica S&M, com a Orquestra Sinfônica de San Francisco, só amplia esta impressão. Tenho certeza de que, se fossem vivos, Mozart e Beethoven aprovariam a perfeição das composições do Metallica.

Por isso, posso considerar o Metallica uma banda muito importante em minha vida. Gosto de todos os álbuns da banda, mas tenho um carinho muito especial pelos cinco primeiros. E entre eles, meu favorito é “…And Justice for All”. Existe ainda um componente emocional nesta escolha. Este álbum me faz recordar das tardes que eu passava jogando Elifoot com meus grandes amigos escutando este álbum seguidas vezes. Bons tempos.

Análise do álbum:

Se a temática sombria repleta de ódio e criticas ao sistema, a guerra e a privação da liberdade sempre esteve presente na discografia da banda, em “…And Justice for All” o peso é ainda maior. Certamente influenciados pela morte do espetacular baixista Cliff Burton, substituído por Jason Newsted, James Hetfield e companhia pegaram pesado, tanto nas letras quanto na estrutura complexa das músicas, caracterizadas pela longa duração e pelo perfeccionismo na composição das melodias. O resultado é um álbum com o mais puro heavy metal, com sua atmosfera pesada e a notável técnica dos integrantes da banda, perceptível em todas as canções. Cinco estrelas, sem dúvida.

Análise das músicas (Para ouvir a música, basta clicar no nome):

1 – Blackened: O som das guitarras sobe lentamente até ser interrompido pela batida seca de Lars Ulrich, iniciando o ritmo alucinante deste clássico absoluto. O riff inconfundível de Kirk Hammett e o refrão poderoso, ainda mais marcante na voz de Hetfield, nos levam ao melhor trecho da música (“Opposition… Contradiction… Premonition”), seguido pelo solo de Hammett que praticamente encerra esta maravilha do metal.

2 – And Justice for All: A perfeição da melodia que abre a canção e a lógica impecável de toda a composição instrumental reforçam a influência da música clássica sobre o Metallica (eu juro que imagino Mozart regendo esta canção). Questionando o senso de justiça e o excesso de poder, os gritos revoltados de Hetfield são acompanhados pelo ritmo marcante do restante da banda por toda a longa canção. A justiça está feita.

3 – Eye Of The Beholder: Novamente o volume sobe lentamente e apresenta o poderoso riff até ser interrompido pela pergunta de Hetfield “Do you see what I see?” e retornar ao ritmo original, mudando radicalmente no empolgante refrão “Independence limited, Freedom of choice…”. Um delicioso solo de guitarra complementa a canção.

4 – One: Clássico indiscutível e minha música favorita da banda, “One” é mais do que um protesto contra a guerra. É um momento inspirado e genial do Metallica, onde cada nota parece no lugar certo. O som dos tiros e do helicóptero nos leva ao início melancólico, seguido pelo show de Ulrich, que varia com destreza as batidas secas na bateria, e pelo canto melódico de Hetfield que desemboca no espetacular final, cheio de energia e raiva, como todo bom heavy metal deve ser. O solo inacreditável de Hammett encerra a obra-prima do álbum.

5 – The Shortest Straw: Outra pancada que já começa em ritmo alucinante, sempre contando com o perfeito entrosamento da banda. Com frases rápidas, Hetfield caminha até o refrão mais lento, mas ainda assim potente. Outro excelente solo de Hammett completa a música.

6 – Harvester Of Sorrow: O inicio solene confere peso à música, reforçado pelo coro ao fundo e pelo riff poderoso. Uma leve mudança no ritmo traz a voz marcante e furiosa de Hetfield, que acompanha a melodia até o ótimo refrão. Desta vez, o solo é mais lento, mas confirma o talento de Hammett, enquanto o peso da dupla Hammett e Newsted garante a base perfeita.

7 – The Frayed Ends Of Sanity: A marcha inicial dá lugar ao peso das guitarras e o ritmo alterna com frequência até o refrão. Entretanto, é o solo de Hammett que se destaca no meio da canção.

8 – To Live Is To Die: Os belos acordes iniciais são interrompidos pela batida constante da bateria que inicia a sensacional música instrumental do álbum. O talento musical da banda fica ainda mais evidente, numa composição empolgante, recheada por solos e alternâncias de ritmo marcantes. Meu trecho favorito começa aos 4:30min e se estende até o final. A música ainda traz frases de Cliff Burton, numa bela homenagem ao excepcional baixista morto dois anos antes.

9 – Dyers Eve: Um torpedo do inicio ao fim. O ritmo frenético de toda a banda (incluindo os malabarismos de Hammett na guitarra) é acompanhado pela voz de Hetfield na música mais curta do álbum, que fecha muito bem o ótimo “…And Justice for All”.

Sombrio e pesado, “…And Justice for All” carrega em cada nota musical a marca dos grandes álbuns da história do heavy metal. E ainda deu ao mundo clássicos absolutos como “One” e “Blackened”. E pensar que antes dele o Metallica já tinha lançado os magníficos álbuns “Kill ‘Em All”, “Ride the Lightning” e “Master os Puppets”; e dois anos depois lançaria o ótimo “Metallica”, mais conhecido como “Black Album”. Não precisava tanto, mas para os amantes do metal, esta discografia até parece um presente dos céus (ou seria do inferno?). Brincadeiras a parte, Ludwig estaria orgulhoso. Se a justiça está perdida, a boa música está salva.

Um abraço.

Texto publicado em 19 de Setembro de 2012 por Roberto Siqueira

5 anos

Dri,

Obrigado por me tornar um ser humano melhor.

Eu te amo! Feliz aniversário de casamento!

Finalmente Viena conheceu uma história de amor mais bonita que a de Jesse e Celine… (foto tirada em 14 de Agosto de 2012)

Texto publicado em 15 de Setembro de 2012 por Roberto Siqueira

Férias perfeitas

Com exceção de familiares, amigos próximos e alguns leitores que mantém contato comigo no Facebook, pouca gente sabia que eu estava de férias no último mês de Agosto. E de fato eu não faço questão de divulgar quando não estou em casa, por questões de segurança (um dos vários temas, aliás, que pretendo debater aqui no blog em breve). Mas o fato é que pela terceira vez nos últimos cinco anos eu viajei para a Europa ao lado da minha eterna companheira. E se toda viagem tem seu gosto especial, esta foi ainda mais marcante porque o Arthur nos acompanhou pela primeira vez (na ultima viagem ele sequer tinha nascido) e, assim como minha sogra, conheceu o velho mundo e se apaixonou por ele.

Mas não pretendo falar sobre a viagem neste post, já que ela será tema de diversos novos posts em breve, assim como servirá de base para muitos debates a respeito do nosso país (já adianto que fiquei fascinado pela Alemanha em especial e pretendo discutir com vocês o quanto nosso país ainda precisa evoluir). Hoje pretendo esclarecer outro tema que julgo ser do interesse de todos vocês: o futuro do Cinema & Debate.

Minha vida está passando por uma fase de mudanças (algumas motivadas pela própria viagem, que também abordarei em breve) e, além disso, 2012 já se confirmou como um ano desastroso para o blog devido a diversos problemas (como um raio que queimou diversos aparelhos em casa e quebrou totalmente o ritmo do site naquele período). Voltei a praticar esportes durante a semana e pretendo voltar a estudar um idioma (alemão, no caso) em breve. Ou seja, minha vida está mudando de ritmo. Mas isto não quer dizer que o Cinema & Debate está chegando ao fim. Pelo contrário. O que pretendo fazer é reformular meu método de trabalho, adaptar meus horários e voltar a tratar o site com o devido respeito que faltou neste ano em especial.

Em breve, pretendo retomar as críticas da Videoteca e as semanas especiais, mas pretendo divulgar mais textos sobre assuntos diversos também, estimulando o que este site mais preza que é o “debate”.

Por enquanto é isto pessoal, este texto tem a única intenção de dizer a todos vocês que este espaço continuará existindo por muito tempo, se Deus quiser.

Agradeço a todos vocês que mantiveram o número de acessos em alta mesmo num período tão longo de inatividade e agradeço também aos inúmeros comentários registrados no último mês, que tentarei, como de costume, responder um por um a partir deste instante.

Um forte abraço e obrigado novamente!

Texto publicado em 13 de Setembro de 2012 por Roberto Siqueira