Pra encerrar o assunto Rock in Rio 2011, a balada que marcou as novas gerações de fãs dos Peppers:
Vídeo publicado por Roberto Siqueira em 06 de Outubro de 2011
Pra encerrar o assunto Rock in Rio 2011, a balada que marcou as novas gerações de fãs dos Peppers:
Vídeo publicado por Roberto Siqueira em 06 de Outubro de 2011
Video publicado por Roberto Siqueira em 03 de Outubro de 2011
Após o delicioso show dos Chili Peppers, resolvi dar uma lida nas matérias sobre o Rock in Rio. Li muitas matérias elogiando a performance da banda californiana e também o show histórico do Metallica no domingo. De fato, o Metallica provou sua competência num show memorável. Na verdade, somente um portal não elogiou o show de sábado, enquanto revistas especializadas como a “Rolling Stone” aprovaram o espetáculo. Este portal criticou o fato dos Chili Peppers tocarem músicas novas no show. Ora bolas, os caras estão na ativa e, mesmo com 28 anos de carreira e uma discografia respeitável, continuam produzindo boas músicas, portanto, é natural que queiram divulgar seu novo trabalho na turnê que se inicia. Por outro lado, era de se esperar que o público não cantasse as músicas novas (lançadas há apenas um mês) com a mesma empolgação que canta os clássicos da banda, mas ainda assim muita gente (incluindo este que vos escreve) já sabia as novas músicas e cantou junto, o que só comprova a força que eles têm. E tenho certeza de que muitas delas serão hits nos próximos meses, especialmente “Factory of Faith” e “Did I let you know”, para mim as duas melhores do novo álbum “I’m with you”.
Se o novo álbum não pode ser comparado a relíquias como “Blood Sugar Sex Magik”, “Mother’s Milk” ou “Californication”, tem canções agradáveis suficientes para justificar a continuidade da banda. E só reforça a capacidade que eles têm de se renovar, superando mais uma vez a saída do excepcional John Frusciante. Além disso, ver o Red Hot ao vivo é uma experiência marcante, pela energia que a banda demonstra no palco, além do enorme talento musical. Flea (que tem uma rápida participação no clássico “De Volta para o Futuro 2”) é um baixista espetacular e vê-lo tocando ao vivo é incrível, assim como Chad impressiona comandando a bateria com muita competência. Já o novo guitarrista Josh não comprometeu, ainda que não tenha o talento de Frusciante. A banda acertou ainda na escolha do setlist, que agradou aos fãs mais antigos (como eu) com clássicos como “Higher Ground”, “Blood Sugar Sex Magik” e “Me and My Friends”, mas também agradou as novas gerações com sucessos dos álbuns mais recentes (que eu curto bastante, diga-se de passagem) “Californication”, “By the Way” e “Stadium Arcadium”. E, obviamente, não poderiam faltar às músicas que unem gerações “Under the Bridge” e “Give it Away”.
Sobre o evento, também li muita informação incorreta nas matérias (como nomes errados de músicas e integrantes das bandas), algo preocupante especialmente vindo de jornalistas que trabalham apenas com música. E o que dizer então da transmissão ao vivo que conseguiu errar o nome de muitas músicas do Metallica, chamando, por exemplo, “Master of Puppets” de “Puppetz”, numa falta de respeito incrível com a lendária banda do heavy metal.
Deixando de lado o que li e voltando a falar do que vivi, curti demais o show e todo o evento, que, aliás, é bem organizado e com uma atmosfera muito agradável. Certamente, eu gostaria de voltar nas edições futuras. Li relatos de assaltos, mas este não é um problema do evento e sim uma questão social do nosso país que está longe de ser solucionada. Dentro da cidade do rock, é notável o respeito ao próximo, o clima ameno e a alegria que predomina nas pessoas. Provavelmente aconteceram situações que desmentem o que estou afirmando, mas pelo menos por onde andei com a Dri o ambiente estava muito agradável e as pessoas sempre muito tranqüilas.
Sobre a programação dos shows, eu sinceramente não me importo com a mistura de ritmos do Rock in Rio. Desde que cada “tribo” tenha o seu dia, não vejo nada de errado nisto. O Rock in Rio se transformou numa celebração da música e não apenas uma celebração do rock. E parece que a maioria do público entendeu isto, demonstrando mais tolerância nesta edição que nas anteriores. E é curioso que a tolerância venha justamente daqueles que são rotulados de maneira geral como “drogados e baderneiros” – uma injustiça, diga-se de passagem. Chega a ser irônico que os roqueiros demonstrem mais tolerância ao próximo que os religiosos, que cercaram a cidade do rock com faixas dizendo “Por um mundo melhor? Só Jesus”. Achei esta atitude completamente desnecessária, apenas provocando ainda mais aversão à religião. Porque só a religião pode querer mudar o mundo? Lamentável.
Finalmente, posso afirmar que curti cada acorde do show dos Chili Peppers, que realmente mudaram ao longo da carreira e hoje parecem mais tranqüilos. Até mesmo a presença de palco de Anthony Kiedis parece ter menos força, mas ainda assim a essência da mistura entre funk e rock continua lá e a qualidade de suas músicas garante um show impecável. E o Flea, bem, é sempre o Flea… Sensacional!
Abaixo vocês podem acompanhar um trecho que gravei de “Under the Bridge”, o hino dos Chili Peppers que, registre-se, estão livres das drogas há mais de uma década. Só consegui gravar três trechos de música, até porque eu não queria perder um segundo sequer do show e somente nas baladas eu conseguia me lembrar de registrar algo. Na verdade, prefiro guardar as lembranças na memória e não deixar de experimentar aquela experiência ao vivo para olhar através da câmera do celular. Mas vale o pequeno registro (desculpe a péssima qualidade de som e imagem, que nem se compara ao potente som que ecoou na Cidade do Rock ao vivo):
Uma noite inesquecível, ao lado da pessoa que amo. Como foi bom voltar a me sentir como um adolescente, ouvindo boa música ao vivo, por vezes debaixo de chuva, mas sempre me divertindo com minha eterna namorada.
Viva o rock! E viva a música!
Texto publicado em 29 de Setembro de 2011 por Roberto Siqueira
Nas últimas semanas, diminui consideravelmente o ritmo de divulgação de críticas e o número de filmes assistidos. Não, eu não estou perdendo o amor pela sétima arte e muito menos pela escrita. Mas, ansioso como sou, eu simplesmente não consegui me concentrar em quase nada nos últimos dias, graças a algo inédito em minha vida. E ainda que não sirva como desculpa, a explicação para minha falta de inspiração é bem simples: pela primeira vez ganhei algo nestes concursos/promoções promovidos por empresas em grandes festivais e não consegui conter a empolgação.
Acontece que fui um dos vencedores do Vestibular do Rock promovido pela Volkswagen e, graças à minha incorrigível ansiedade, não consegui pensar em mais nada a não ser no Rock in Rio e na chegada dos meus ingressos (algo que, como devem imaginar, se tornou ainda mais sofrível após a greve dos correios, que prolongou em longos sete dias a entrega dos meus ingressos). Sendo assim, por mais que eu tentasse, não conseguia parar de pensar na possibilidade de ficar sem meu par de ingressos, conquistado com muito suor (e conhecimento musical). Passei dias tentando contato com os correios e a VW, até que finalmente minha situação foi resolvida.
Sim, o sofrimento chegou ao fim e, aliviado, eu pude comemorar. Estive no show do Red Hot Chili Peppers no último sábado e agora, de alma lavada, podem ter certeza que voltarei ao ritmo normal e as críticas ressurgirão com força total. Já tenho uma semana especial preparada e estou assistindo aos filmes de 1995 para dar continuidade na Videoteca. É que, como vocês sabem, sou fã incondicional da banda californiana e a possibilidade de assistir um show deles novamente após nove anos me deixou em êxtase (além disso, conhecer uma das cidades mais belas do mundo é motivo pra empolgar qualquer um). E o melhor é que cada minuto desta jornada valeu a pena, pois os Peppers continuam sensacionais e fizeram um grande show!
Abaixo, a razão da minha falta de inspiração (ou seria motivação?) nos últimos dias.
Dito isto, só posso pedir desculpas ao leitor e dizer que voltarei com as energias recarregadas.
Um abraço e até breve!
PS: Uma menção mais que especial à minha esposa que me agüentou durante a última semana, com toda minha paranóia conspiratória, e que curtiu cada momento do show ao meu lado, numa noite memorável. Outra menção especial à Amanda, que me indicou o site do Vestibular. E finalmente, uma menção especial à Volkswagen, que evitou que os vencedores ficassem de mãos abanando após a greve dos correios. Se dependesse dos correios, eu teria um enorme prejuízo financeiro (a reserva do hotel já estava feita e paga) e cultural (perderia um evento que sonho em ir desde criança).
Texto publicado em 27 de Setembro de 2011 por Roberto Siqueira
(Saturday Night Fever)
Videoteca do Beto #115
Dirigido por John Badham.
Elenco: John Travolta, Karen Lynn Gorney, Barry Miller, Joseph Cali, Paul Pape, Donna Pescow, Bruce Ornstein, Julie Bovasso, Martin Shakar, Lisa Peluso, Denny Dillon, Fran Descher e Ann Travolta.
Roteiro: Norman Wexler, com estória de Nik Cohn.
Produção: Milt Felsen e Robert Stigwood.
[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].
Alguns filmes ultrapassam os limites da telona e se tornam a marca de uma época. “Os Embalos de Sábado à Noite” pertence a esta seleta categoria, captando com eficiência o espírito da era “Disco” em Nova York, além de apresentar, através do personagem interpretado por John Travolta, um marcante drama adolescente. De quebra, a excepcional trilha sonora tornou-se icônica, assim como as cenas de dança na discoteca “2001”. Por tudo isto, o longa dirigido por John Badham entrou para a história como um símbolo da cultura pop dos anos 70.
Empregado numa pequena loja de tintas no Brooklyn, Tony Manero (John Travolta) só encontra a felicidade quando está nas pistas de dança nos fins de semana. Quando seu irmão Frank (Martin Shakar) desiste de ser padre e volta pra casa, ele encontra uma nova parceira de dança chamada Stephanie (Karen Lynn Gorney) e começa a repensar a maneira que encara a vida e a falta de perspectiva de seu futuro.
Para compreender o fenômeno cultural “Os Embalos de Sábado à Noite” é primordial contextualizar seu lançamento. Após anos de escândalos políticos e participações em guerras, o pessimismo começou a abrir espaço para o escapismo entre os norte-americanos, que procuravam esquecer os problemas e encontrar prazer nas pistas de dança. Este movimento começou a se refletir também no cinema, que vivia os últimos suspiros da Nova Hollywood – um movimento repleto de (excelentes) filmes igualmente pessimistas – e passava a produzir filmes mais alegres, que funcionavam como uma espécie de fuga da realidade, culminando com o estrondoso sucesso da saga “Star Wars”. “Os Embalos de Sábado à Noite” não é necessariamente um filme alegre, pelo contrário, mas retrata com precisão este movimento iniciado em Nova York, em que jovens iam para boates apenas atrás de sexo, drogas e diversão, como forma de esquecer a dura realidade da vida e a falta de perspectiva para o futuro. Expondo o sexo e o uso de drogas com naturalidade, a narrativa encarna o espírito jovem e reflete o pensamento da época, ilustrando também problemas sociais das grandes metrópoles, por exemplo, através das brigas entre os amigos de Tony e os “latinos”.


Desde o início, o balanço do caminhar de Travolta, acompanhado de perto pelo close em seus pés, dá o tom e a importância da música na narrativa, afinal, é ela quem dita os sentimentos dos personagens. No dia-a-dia, Tony é frustrado no trabalho e discute com a família, mas quando veste suas camisas de poliéster e coloca seus sapatos lustrados cuidadosamente, ele parte para o único lugar onde é verdadeiramente feliz. Desta forma, a câmera do diretor John Badham narra uma verdadeira tragédia urbana, provocada pela vida difícil nas grandes cidades e pelos dilemas que jovens de bairros menos favorecidos normalmente enfrentam. Como Tony, alguns conseguem encarar esta fase e, com sorte e esforço, seguir em frente. Outros, como um de seus amigos, não. Balanceando bem a narrativa entre os empolgantes momentos na pista de dança e a conturbada vida do protagonista fora dela, o diretor emprega o tom correto ao longa, evidenciando o estado de espírito de Tony e seus amigos. Além disso, sua câmera nos coloca dentro da pista e capta muito bem a atmosfera da casa noturna, algo reforçado pela empolgante trilha sonora composta pelos Bee Gees (Barry Gibb, Maurice Gibb e Robin Gibb), junto com David Shire.


Além de capturar o espírito de seu tempo, “Os Embalos de Sábado à Noite” ainda faz algumas referências a grandes filmes do passado, como quando alguém diz que Tony se parece com Al Pacino e ele encara seu pôster de “Serpico” buscando semelhanças – destaque para o semblante feliz de Travolta ao repetir as palavras do assaltante de Pacino (“Attica! Attica!”) em “Um Dia de Cão”. E até mesmo o nome da discoteca que eles freqüentam é uma óbvia referência ao clássico de Kubrick “2001, uma odisséia no espaço”. Já o pôster de “Rocky, Um Lutador” pendurado na parede do quarto é uma nada elegante alfinetada em John G. Avildsen, que dirigiria “Os Embalos de Sábado à Noite”, não fossem os desentendimentos com Travolta. Por outro lado, a direção de arte acerta em muitos detalhes, criando uma Nova York suja, que reflete o submundo que aqueles jovens viviam.


Nas pistas de dança, a fotografia de Ralf D. Bode emprega muitas luzes e tons avermelhados, simbolizando a paixão que pulsa naqueles corações livres e ávidos por diversão sem compromisso. Além disso, destaca-se também a montagem fluída de David Rawlins, que emprega um ritmo empolgante ao acompanhar as excelentes músicas e os movimentos dos dançarinos. Repare ainda como o jantar da família Manero termina em poucos minutos, num exemplo claro do estilo de montagem dinâmica que estamos acostumados. Na narrativa, o jantar dura apenas dois minutos, mas não nos incomodamos com isso, pois sabemos que no universo diegético o jantar teve uma duração maior. Este dinamismo é essencial num filme voltado para o público jovem.


Uma refeição também escancara os problemas de Tony com sua família. “Só duas vezes me disseram que sou bom na vida!”, ele grita, demonstrando a insatisfação com a falta de apoio do pai. Por isso, quando seu irmão Frank larga a igreja, Tony se renova (“Não sou tão ruim assim”), numa crítica interessante ao peso dos estereótipos que criamos. Mulherengo, despojado e cativante, Travolta cria um personagem icônico, numa atuação bastante convincente. Tony é machista e preconceituoso, mas ainda assim gostamos dele, graças à atuação carismática de Travolta, que, com seu terno branco (figurinos de Patrizia von Brandestein), criou um símbolo da cultura pop daquela década. O ator se sai bem também nos momentos dramáticos, como na discussão com a mãe, em que ele se arrepende e pede desculpas após magoá-la. Pra completar, John Travolta dá um verdadeiro show nas pistas de dança, mostrando o resultado de meses de dedicação e treinamento com coreografias admiráveis.


Mas apesar do glamour e da fama que construiu nas pistas, Tony não era totalmente feliz, e isto fica evidente numa conversa com Stephanie, a bela dançarina interpretada por Karen Lynn Gorney, que abre os olhos do protagonista e, de quebra, expõe as diferenças sociais e culturais entre eles. Ela também vivia ali, no mesmo ambiente que Tony, mas queria mudar e estava batalhando pra isto. Ela queria crescer e amadurecer. Tony não sabia, mas ele também queria – e de fato Tony já tinha responsabilidades, trabalhava para ajudar a família e sentia que a fase de diversão não seria eterna (“A dança não vai durar pra sempre”, reflete). E é através de seu sentimento por Stephanie que Tony começa a mudar efetivamente, algo simbolizado sutilmente quando ele se enforca com uma roupa e, no plano seguinte, vemos a garota responsável por fisgar o rapaz. Ela seria o agente da mudança de Tony Manero.


Manero era uma espécie de líder de uma turma de garotos ligados em dança, drogas e sexo, e também era alvo do desejo das garotas, algo simbolizado pela personagem Annette, interpretada por Donna Pescow. Rebeldes, eles andavam em cima de uma ponte na volta das noitadas, desafiando o perigo, numa atitude típica da juventude que deseja quebrar regras e mudar o mundo. Mas os anos passam, as coisas mudam e cada um reage a sua maneira diante das dificuldades da vida. Numa cena de forte impacto, um dos amigos de Tony se suicida após descobrir a gravidez da namorada, na mesma ponte que tanto lhes deu alegria. E com esta tragédia, pelo menos para Tony, aquele período chegava ao fim. Esta mesma ponte simboliza a trajetória de mudança do protagonista, que alcança o outro lado da margem e passa a enxergar a vida de outra maneira. Ao ficar bravo porque os latinos não ganharam o primeiro lugar no concurso de dança, Tony apenas confirma sua mudança. A vida rebelde, o preconceito e a vitória a qualquer custo ficaram para trás. O jovem amadureceu. E é justamente por acompanhar o amadurecimento de Tony de maneira tão interessante e intensa que “Os Embalos de Sábado à Noite” é mais do que um belo (e competente) musical.


Ainda que tenha músicas empolgantes e cenas inesquecíveis nas pistas de dança, “Os Embalos de Sábado à Noite” se estabelece como um musical maior, que captou como poucos o espírito de seu tempo e ainda deixou uma mensagem marcante através do amadurecimento de seu protagonista. Todos nós passamos por esta fase na vida, onde tudo que queremos saber é onde será a próxima festa e com quem iremos nos divertir naquela noite. Com o passar dos anos, no entanto, esta diversão gradualmente dá lugar a outras preocupações, como a de constituir família e progredir como ser humano. Se você ainda é jovem, não se engane. Cedo ou tarde, este momento sempre chega, e pra todos nós.
Texto publicado em 19 de Setembro de 2011 por Roberto Siqueira
(Annie Hall)
Videoteca do Beto #114
Vencedores do Oscar #1977
Dirigido por Woody Allen.
Elenco: Woody Allen, Diane Keaton, Christopher Walken, Tony Roberts, Carol Kane, Paul Simon, Shelley Duvall, Janet Margolin, Donald Symington, Mordecai Lawner, Jonathan Munk, Colleen Dewhurst, Helen Ludlam, Joan Newman, Beverly D’Angelo, Jeff Goldblum e Sigourney Weaver.
Roteiro: Woody Allen e Marshall Brickman.
Produção: Charles H. Joffe e Jack Rollins.
[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].
Woody Allen escreveu definitivamente o seu nome na história do cinema com este sensacional “Annie Hall” – me recuso a repetir a ridícula tradução do título para o português. Apresentando diálogos magníficos e afiados, um senso de humor cínico e sarcástico e uma montagem que só contribui na criação de cenas antológicas, o longa é uma comédia tão divertida quanto reflexiva, que expõe as complexidades dos relacionamentos humanos ao mesmo tempo em que funciona como um espelho da persona cinematográfica de Allen (o intelectual inseguro, apaixonado por Nova York, mulheres e jazz), apresentando as características marcantes dos melhores momentos do diretor/ator/roteirista no cinema.
Duas vezes divorciado, o humorista Alvy Singer (Woody Allen) se apaixona novamente, desta vez pela excêntrica cantora de boate Annie Hall (Diane Keaton). Rapidamente, eles decidem morar juntos, mas as crises conjugais aparecem e começam a desestabilizar a relação. Alvy, que faz análise há quinze anos, convence Annie a fazer o mesmo e a estudar, mas nada parece salvá-lo de mais uma separação.
Só mesmo Woody Allen para contar a história de um homem depressivo, cheio de complexos (seja por sua nacionalidade, seja por qualquer outra característica dele) e duas vezes divorciado de maneira tão divertida e encantadora. E só mesmo Allen para nos fazer sorrir o tempo todo ao mesmo tempo em que nos faz refletir sobre algumas das mais frustrantes constatações de nossa existência, como a de que o amor, para ser perfeito, deve permanecer em seu estado inicial de “idealização”. Ou seja, quando passamos a conviver com a pessoa amada, passamos também a descobrir os seus defeitos que, muitas vezes, podem provocar o fim do sentimento avassalador no/a parceiro/a. Não por acaso, Alvy, em certo momento, implora para que Annie não venda o apartamento dela, alegando que este funciona como um “porto seguro”, fazendo o casal lembrar que não é oficialmente casado.
Escrito pelo próprio Woody Allen, “Annie Hall” demonstra também sua enorme capacidade de construir diálogos primorosos, recheados com um humor ácido e auto-depreciativo, que expõe algumas verdades sobre nossas angústias. Da mesma maneira, a direção de Allen também é dinâmica e esbanja criatividade, criando momentos que não apenas fogem do realismo, como deixam claro que o diretor deseja mesmo brincar com a linguagem cinematográfica, como quando um homem cita as teorias do filósofo canadense Marshall McLuhan na fila do cinema e Alvy puxa o autor detrás de um pôster para rebater os comentários do tagarela (“Você não sabe nada da minha obra”, diz McLuhan). Estas brincadeiras ficam ainda mais evidentes quando ele quebra a quarta parede em diversos momentos, olhando para a câmera e falando diretamente com o espectador. Além disso, o diretor cria alternativas narrativas curiosas, como as legendas que expressam pensamentos dos personagens e a tela dividida. Conduzindo com vigor a narrativa, Woody Allen utiliza ainda sua cidade favorita como pano de fundo, algo que se repetiria muitas vezes em sua filmografia, onde Nova York normalmente é o palco das ações.


Utilizando uma narrativa não linear para abordar diversas fases da vida do protagonista, Allen e seus montadores Wendy Greene Bricmont e Ralph Rosenblum tentam refletir a mente agitada de Alvy Singer e do próprio diretor, além de constantemente brincarem com novas possibilidades, como, por exemplo, quando dividem a tela em dois planos para ilustrar as diferenças entre as famílias de Annie e Alvy. Além disso, em diversos momentos, quando alguém cita alguma passagem da vida dele, somos levados em seguida para aquele exato momento, como na engraçada cena do período escolar, onde o Alvy adulto reencontra o Alvy criança (Jonathan Munk) e dialoga com seus colegas. Desta forma, somos envolvidos por suas complexidades e compartilhamos de muitos dos seus dilemas. Utilizando cores fortes em muitas lembranças, a fotografia do excepcional Gordon Willis alterna entre uma atmosfera naturalista e momentos hiper-realistas, como quando vemos desenhos animados ou quando os personagens passeiam pelas lembranças de Annie, nos colocando dentro de sua mente enquanto ela apresenta seus ex-namorados.


Entre os vários dilemas que assolam o pobre Alvy, o sexo tem destaque especial (“Masturbação é sexo com alguém que amo”, diz ele). Como explica, “ele não gostaria de fazer parte de um clube que o aceitaria como sócio”. Por isso, qualquer mulher que demonstre interesse por ele passa, imediatamente, a perder o encanto. Ainda assim, Alvy consegue se apaixonar por Annie, o que não o impede de ter problemas com a garota, seja por que ela tem hábitos estranhos pra ele, como fumar maconha antes de transar, seja por outra razão qualquer. O sexo, aliás, explica muito sobre as diferenças do casal. Enquanto Annie diz ao analista que faz sexo sempre, “pelo menos três vezes por semana”, Alvy afirma que quase nunca faz sexo, “no máximo três vezes por semana”. Interpretando uma versão de si mesmo, Woody Allen está muito a vontade no papel, vivendo um personagem ansioso (algo refletido em sua fala rápida) e depressivo. Diane Keaton, por sua vez, está leve e encantadora como Annie Hall, protagonizando muitos momentos divertidos, como o diálogo após um jogo de tênis com Alvy, que resulta no primeiro encontro deles, e o brilhante monólogo em que ela apresenta sua família e conta como seu tio George morreu. Atrapalhada, ela nos faz rir e também se diverte com os trejeitos de seu pretendente. Auxiliada pelos figurinos de Ralph Lauren e Ruth Morley, a atriz cria uma personagem marcante, que nos encanta da mesma maneira como encanta Alvy, o que é essencial para que o espectador compartilhe ainda mais das aflições do protagonista, preso entre suas dúvidas e seu sentimento por esta mulher.


Vale destacar ainda a pequena participação de futuros astros, como Christopher Walken, na pele do irmão de Annie, Duane Hall, Shelley Duvall como Pam, uma das namoradas de Alvy, e Jeff Goldblum e Sigourney Weaver, que surgem rapidamente como figurantes. Walken, aliás, protagoniza uma das muitas cenas engraçadas ao falar que gostaria de bater o carro na estrada, momentos antes de dar carona para Alvy e Annie – e a feição aflita de Allen nesta cena é impagável.


Tentando ser adulto, Alvy age naturalmente quando Annie propõe uma separação. Mal sabia ele (ou talvez soubesse) que estava dando o primeiro passo para perder de vez o amor de sua vida. Sua reflexão final é marcante: nós sempre estamos à procura do amor, ainda que seja doloroso e proporcione experiências ruins. Divertido, bem atuado e bastante original, “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” (que tradução hein?!) consegue ser ao mesmo tempo leve e crítico, revelando as angústias e inseguranças de seu protagonista de maneira inapelável. De quebra, o longa ainda brinca deliberadamente com muitas regras da linguagem cinematográfica. E o melhor, o faz com incrível competência.
Apostando no humor afiado e na identificação do espectador com muitas das situações narradas, “Annie Hall” é a obra-prima de um dos maiores autores que Hollywood já produziu. Contando ainda com uma atuação inspirada da ótima Diane Keaton, o filme faz o espectador deixar a projeção com sentimentos conflitantes. Ao mesmo tempo em que saímos alegres por termos gargalhado em muitos momentos, saímos preocupados por saber que estas risadas surgiram ao reconhecermos vários aspectos falhos de nossa natureza humana.
Texto publicado em 14 de Setembro de 2011 por Roberto Siqueira
Recentemente, comprei o DVD “Sem Destino”, como informei por aqui. Como a crítica de “Sem Destino” já tinha sido publicada como “Filmes em Geral #23”, somente adicionei em seu cabeçalho a classificação “Videoteca do Beto #113” (a última crítica divulgada da Videoteca era “Quem tem medo de Virginia Woolf?”, #112) e desloquei o link da crítica para o menu Videoteca do Beto (lado direto, página inicial).
Um abraço.
Texto publicado em 07 de Setembro de 2011 por Roberto Siqueira
(Who’s Afraid of Virginia Woolf?)
Videoteca do Beto #112
Dirigido por Mike Nichols.
Elenco: Elizabeth Taylor, Richard Burton, George Segal e Sandy Dennis.
Roteiro: Ernest Lehman, baseado em peça teatral de Edward Albee.
Produção: Ernest Lehman.
[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].
Dentre o universo de filmes que já assisti, poucos conseguiram ser tão amargos e tristes quanto “Quem tem medo de Virginia Woolf?”. Através dos diálogos ácidos de um casal em crise, Mike Nichols nos apresenta um profundo estudo da alma humana, mostrando como podemos ser cruéis, especialmente com as pessoas mais próximas. Contando com atuações sensacionais e um roteiro brilhante, o diretor entrega um filme depressivo, perturbador e difícil de ser digerido pelo espectador. Se você gosta de filmes alegres e finais felizes, certamente esta não é uma boa indicação.
Escrito por Ernest Lehman, baseado em peça teatral de Edward Albee, “Quem tem medo de Virginia Woolf?” apresenta o professor universitário George (Richard Burton) e sua esposa Martha (Elizabeth Taylor) voltando pra casa após uma festa na casa do pai dela, que é também o reitor da escola. Bêbados, eles se preparam para receber a visita de outro casal, formado pelo também professor Nick (George Segal) e sua mulher Honey (Sandy Dennis). Entre um e outro diálogo, surgem confissões e intensas agressões verbais, que só pioram com o passar do tempo.
Logo nos primeiros minutos, “Quem tem medo de Virginia Woolf?” já estabelece o tom carregado de sua narrativa através da trilha sonora melancólica de Alex North e da fotografia sombria de Haskell Wexler. Em seguida, acompanhamos os primeiros diálogos entre Martha e George, que determinam a personalidade destrutiva do casal enquanto eles se preparam para receber visitas. Acertadamente, a montagem de Sam O’Steen investe os primeiros 45 minutos da narrativa na seqüência que se passa dentro da casa deles, sufocando o espectador naquele ambiente pesado e estabelecendo os potenciais conflitos entre os personagens. Desta forma, na medida em que as discussões acontecem, o espectador já sabe o efeito que cada frase provoca neles. O montador acerta ainda na maneira dinâmica com que acompanha estes diálogos, aumentando os cortes na medida em que as agressões verbais se intensificam e evitando os cortes nas cenas melancólicas, como quando George está sentado no balanço.


Estas agressões verbais revelam também o primoroso trabalho do roteirista Ernest Lehman, que constrói diálogos afiados e marcantes, repletos de ofensas entre um casal tão autodestrutivo quanto dependente. Aproveitando-se do conhecimento que têm do parceiro para agredi-lo, Martha e George demonstram uma incrível capacidade de tocar nas mais profundas feridas do outro. Além disso, o roteiro tem o cuidado de deixar dicas do cruel encerramento da narrativa, evidenciadas todas as vezes que alguém menciona o filho do casal através do incômodo de George e da aflição de Martha.
Com este roteiro coeso em mãos, Mike Nichols demonstra seu talento, conduzindo com firmeza a narrativa e empregando elegantes movimentos de câmera através de pequenos travellings e do uso do zoom, além de demonstrar excelente controle da mise-en-scène. Além disso, o diretor é inteligente na criação de planos simbólicos, como aquele em que George está sentado no balanço submerso nas sombras, que reflete sua melancolia após ser devastado pela discussão com Martha. Em outro momento, George surge no fundo do plano, apenas observando os elogios rasgados de Martha e Nick ao pai dela, demonstrando sua inferioridade diante do massacre promovido pela esposa. Também merece destaque o plano que revela Honey parada na escada, escutando o diálogo franco entre Nick e George sem que eles percebam que ela está ali.


Ainda na parte técnica, a extremamente detalhada decoração da casa (direção de arte de George James Hopkins) evidencia a boa situação financeira do casal, estabelecendo também um dos principais conflitos entre eles, já que Martha é filha de um homem rico e poderoso, que é também o empregador de George e Nick. Da mesma forma, a fotografia sombria de Haskell Wexler reforça a atmosfera sufocante do longa, enquanto os figurinos de Irene Sharaff ajudam a estabelecer a personalidade de cada personagem (Martha, por exemplo, é a mais espalhafatosa).


Personagens, aliás, que são interpretados por um elenco sensacional. Repare, por exemplo, como todos conseguem ilustrar com precisão os efeitos do álcool de maneiras diferentes e como a movimentação coletiva em cena dá dinamismo ao longa – o que é essencial numa trama que se passa em cenários fechados. Individualmente, o grande destaque é mesmo Elizabeth Taylor, que tem uma atuação fantástica como Martha, compondo uma personagem amarga e sufocante, que não mede palavras para agredir o marido de todas as formas que puder. De fala incorreta e risada histérica, Martha é uma mulher depressiva, que encontrou em George o parceiro ideal para seguir em seu caminho de autodestruição. Possessiva e dominadora, ela transmite confiança quando fala e não hesita em revelar os mais profundos segredos do marido se isto for atingi-lo de alguma maneira. Por outro lado, Martha sabe da importância que ele tem em sua vida e deixa isto claro no tocante e amargo monólogo em que confessa o amor por George ao mesmo tempo em que evidencia sua melancolia, num momento sublime da atuação de Taylor.


Ainda que seja mais contido, o George de Richard Burton é seco e suas palavras diretas cortam como navalha e ferem profundamente. De fala rápida e constantemente irônica, ele não permitirá que Martha lhe humilhe daquela maneira, reagindo sempre de maneira agressiva. Desta forma, o casal vive num ciclo infinito de ofensas, onde cada ação gera uma reação ainda mais hostil. Completando o elenco, George Segal e Sandy Dennis interpretam Nick e Honey, o outro casal que acidentalmente cruza o caminho de Martha e George e é sugado pelo turbilhão de emoções que permeia aquela relação. Dennis se sai melhor que o parceiro, compondo uma personagem trágica, que se entrega ao álcool, talvez como forma de aliviar a tensão, e se transforma completamente durante a narrativa – repare os pequenos detalhes de sua atuação, como quando Honey toca o marido no sofá e indica que ele deve elogiar a casa logo na chegada ao local. Já Segal se sai bem especialmente nos embates entre George e Nick, além de estabelecer boa química com Taylor, como quando ele acende o cigarro dela e é tocado na perna, indicando uma atração que George não demoraria a perceber (e que seria usada contra ele por George e pela própria Martha).


Além das excelentes atuações, “Quem tem medo de Virginia Woolf?” traz ainda muitas cenas marcantes, como aquela em que Martha conta sobre a luta de boxe e George, lentamente e embalado por uma trilha tensa, pega uma arma e se dirige até ela. O zoom no rosto assustado de Honey e seu grito estridente dão lugar às risadas, balanceando muito bem a tensão absoluta com o alivio cômico. Em outro momento, Martha se inflama e a câmera se aproxima dela, acompanhando sua movimentação agitada enquanto ela revela porque se casou com George, que, furioso, quebra uma garrafa e começa a dançar com Honey cantando a música que dá nome ao filme. A crueldade de suas palavras só é superada na cena do bar, quando os personagens atingem o auge da maldade, numa seqüência devastadora em que Martha e George expõem os segredos mais íntimos deles e até mesmo de Nick e Honey. Por tudo isto, por mais cruel que pareça, a revelação da morte do filho no ato final é coerente com as ações dos personagens. E ao ver Nick dizer desesperado que “está entendendo o que está acontecendo” após a cruel revelação, o arrepio é inevitável. Aquele casal atormentado e triste tinha “inventado” um filho, talvez como forma de amenizar a dor por não poder ter filhos. E George, levado por um momento de fúria, resolvera encerrar aquela fantasia, levando Martha as mais doloridas lágrimas que a trouxeram de volta à realidade.


Com excelentes atuações, um roteiro excepcional e a direção eficiente de Mike Nichols, “Quem tem medo de Virginia Woolf?” é um drama sufocante, que faz um estudo complexo de dois personagens destrutivos e nos conduz com intensidade até o seu desfecho perturbador. Explorando os pontos fracos dos “oponentes” sem piedade e aproveitando as mais íntimas confissões de cada um deles, os personagens do longa demonstram o quanto o ser humano pode ser cruel. Afinal, ninguém pode nos ferir mais do que aqueles que tanto sabem sobre nós.
PS: Se quiser ler um texto interessante a respeito do filme no blog do meu amigo Achilles, clique aqui.
Texto publicado em 02 de Setembro de 2011 por Roberto Siqueira
(Lawrence of Arabia)
Videoteca do Beto #111
Vencedores do Oscar #1962
Dirigido por David Lean.
Elenco: Peter O’Toole, Alec Guinness, Anthony Quinn, Omar Sharif, Jack Hawkins, José Ferrer, Anthony Quayle, Claude Rains e Arthur Kennedy.
Roteiro: Robert Bolt e Michael Wilson, baseado nos textos de T.E. Lawrence.
Produção: Sam Spiegel.
[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].
Entre a segunda metade da década de 50 e o início dos anos 60, o cinema viveu um período repleto de produções grandiosas como “Os Dez Mandamentos”, “Ben-Hur”, “Spartacus” e “A Queda do Império Romano”, que utilizavam uma quantidade enorme de figurantes para narrar momentos históricos, recriados caprichosamente sob a condução competente de diretores como William Wyler, Cecil B. DeMille, Stanley Kubrick e Anthony Mann. Em 1962, David Lean se juntou ao grupo com este “Lawrence da Arábia”, que narra com riqueza de detalhes como um tenente inglês liderou os árabes na luta contra os turcos durante a primeira guerra mundial.
Escrito por Robert Bolt e Michael Wilson (baseado nos textos do próprio Lawrence), “Lawrence da Arábia” inicia em 1935 com a morte de T.E. Lawrence (Peter O’Toole) num acidente de motocicleta. Em seu funeral, um longo flashback surge para narrar sua trajetória e explicar a razão de sua fama, revelando como ele passou de um tenente infeliz para um respeitado (e improvável) líder, responsável pela união das tribos árabes na guerra contra os turcos. No caminho, o roteiro aproveita para expor os conflitos entre as diversas tribos árabes, abordando também os interesses políticos da Inglaterra na região, além de explicar, através da figura do repórter, como a fama de Lawrence se espalhou pelo mundo.
Auxiliado pela montagem clássica de Anne V. Coates, David Lean emprega um ritmo lento, que nos permite contemplar a beleza do deserto e desfrutar cada etapa da transformação do protagonista. Afinal de contas, em “Lawrence da Arábia” as sensações têm papel fundamental, fazendo o espectador se sentir parte daquele universo. Observe, por exemplo, como o diretor prepara cuidadosamente a invasão de Aqaba, prolongando a expectativa no espectador e nos fazendo compartilhar o minucioso planejamento estratégico do protagonista. E apesar de soar lenta para os padrões atuais, a montagem funciona bem e consegue evitar que o longa se torne cansativo. Além disso, Coates cria elegantes raccords, como quando o fogo de uma vela é substituído pelo plano do céu avermelhado no deserto ou quando ele salta das pernas dos camelos para as pernas dos soldados durante uma batalha.


Sem se preocupar em comprimir a narrativa nas tradicionais duas horas de duração, David Lean toma o tempo que julga necessário para explorar o deserto, criando lindos planos que aproveitam o nascer do sol e a exuberância daquele mar de areia. Contando ainda com a deslumbrante fotografia de Freddie Young, o diretor cria um visual arrebatador, que se confirma até mesmo nas cenas noturnas, iluminadas com destreza por Young e que servem para criar um contraste com a luz poderosa das cenas diurnas. O diretor é competente ainda na condução das cenas de forte impacto, como as guerras (que voltaremos a abordar em instantes), e nos momentos intimistas, como as lentas caminhadas de Lawrence pelo deserto. Observe ainda como o silêncio aumenta nossa expectativa segundos antes do beduíno Sherif Ali (Omar Sharif) surgir no horizonte longínquo. Já quando Lawrence resgata Gasim (I.S. Johar) no deserto, a trilha triunfal indica com antecedência que ele salvou o rapaz – Gasim ainda protagoniza outro momento marcante, quando descobrimos que ele é o assassino que deve ser executado por Lawrence, pouco tempo depois de ser salvo por ele. Estes dois instantes nos quais alguém surge no horizonte demonstram como Lean trabalha com as nossas sensações, nos fazendo compartilhar a angustiante experiência de caminhar no deserto escaldante como se estivéssemos ali, olhando para o horizonte sem saber se o que estamos vendo é real ou apenas uma miragem. Em outras palavras, “Lawrence da Arábia” é uma experiência cinematografia sensorial, que merece ser vivida na tela grande (ou algo que se assemelhe).


Interpretado pelo carismático Peter O’Toole, Lawrence surge inicialmente como um homem misterioso, capaz de cativar muitas pessoas que mal o conheceram, como descobriremos no final, quando uma interessante rima narrativa nos revela o homem que introduziu o flashback apertando a mão de Lawrence “somente para dizer que fez isto”. Mas uma conversa na tenda do príncipe Feisal (Alec Guinness) estabelece os objetivos da guerra e escancara alguns dos traços da forte personalidade do protagonista, um improvável herói de guerra, que foge dos padrões estereótipos do tipo. Magro e levemente afeminado, o Lawrence de O’Toole é um personagem repleto de nuances, que, contrariando sua aparência frágil, lentamente descobre sentir prazer ao matar seus inimigos. Apesar de se assustar num primeiro momento, Lawrence confirma este sentimento numa das batalhas, algo que O’Toole transmite muito bem com seu semblante insano durante o conflito. Durante seu processo de transformação, Lawrence conhece ainda o líder dos Howeitat, Auda Abu Tayi, vivido de maneira divertida por Anthony Quinn, e também o príncipe Feisal de Alec Guinness, que demonstra sabedoria nas decisões e sabe jogar o jogo político dos ingleses. Fechando o talentoso elenco, Claude Rains vive o político Sr. Dryden, Omar Sharif interpreta muito bem Sherif Ali e Jack Hawkins marca presença como o general Allenby.


David Lean conta ainda com a trilha sonora triunfal do ótimo Maurice Jarre na construção da atmosfera épica do longa, além de nos ambientar com perfeição naquele universo através do ótimo trabalho técnico de sua equipe, a começar pelo design de som, que realça o barulho do vento no deserto, as explosões e gritos durante as batalhas e os aviões que rasgam o céu. Quem também colabora bastante são os figurinos de Phyllis Dalton e a direção de arte de John Stoll que, somadas a enorme quantidade de figurantes utilizada nas batalhas, conferem realismo a narrativa – além de realçarem a magnitude da produção quando destacados pelos planos gerais de Lean. Finalmente, os figurinos têm ainda função narrativa, já que a mudança de roupa de Lawrence ilustra também sua mudança de comportamento e o respeito que ele passa a ter diante dos árabes.


Entre as grandes cenas de “Lawrence da Arábia”, vale destacar a invasão de Aqaba, uma seqüência de tirar o fôlego, captada num lindo plano geral de Lean que, no final, revela através de um elegante travelling o canhão apontado para o mar (e que belo mar!), exatamente como Lawrence tinha previsto. Outra batalha sensacional acontece antes da chegada a Damasco, numa seqüência que ilustra bem a grande quantidade de figurantes utilizada, exigindo muita habilidade do diretor na condução da mise-en-scène – vale lembrar que, ao contrário do que acontece atualmente, as batalhas não utilizavam efeitos digitais. E além das cenas marcantes de guerra, merece destaque a melancólica morte de um garoto na areia movediça, que parece servir para endurecer ainda mais o coração de Lawrence.


“Lawrence da Arábia” é um épico grandioso que retrata a vida de um personagem complexo, repleto de qualidades e defeitos como qualquer ser humano. Seu espírito de liderança e seu carisma uniram os povos árabes na luta contra os turcos, mas ele também sofreu profundas transformações nesta trajetória, captada com habilidade pela câmera de David Lean – um especialista em produções de grande escala e notável beleza plástica. O resultado é um filme empolgante, repleto de cenas marcantes e que, mesmo com quase quatro horas de duração, consegue cativar o espectador sem se tornar cansativo.
PS: Para quem tiver curiosidade, Rodrigo Carreiro explica em detalhes as dificuldades enfrentadas durante as filmagens de “Lawrence da Arábia” nesta crítica.
Texto publicado em 29 de Agosto de 2011 por Roberto Siqueira