O PODEROSO CHEFÃO – PARTE III (1990)

(The Godfather: Part III)

 

Videoteca do Beto #74

Dirigido por Francis Ford Coppola.

Elenco: Al Pacino, Diane Keaton, Talia Shire, Andy Garcia, Eli Wallach, Joe Mantegna, George Hamilton, Sofia Coppola, Bridget Fonda, Raf Vallone, Franc D’Ambrosio, Donal Donnelly, Richard Bright, Helmut Berger, Don Novello, John Savage, Vittorio Duse e Al Martino.

Roteiro: Mario Puzo e Francis Ford Coppola, baseado em livro de Mario Puzo.

Produção: Francis Ford Coppola.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

No capítulo final da consagrada saga da família Corleone, Coppola entrega um filme corajoso, abordando um tema polêmico e amarrando todas as pontas da trama, sem jamais fugir das principais características da trilogia. Além disso, completa de forma magnífica a trajetória de Michael Corleone, com o desfecho trágico e comovente desta história de ascensão, poder, glória e decadência. Tudo está presente com força total neste “O Poderoso Chefão – Parte III”, as atuações de grande nível (com apenas uma exceção), a fotografia sombria, a trilha evocativa, a direção segura, a violência e o realismo. Trata-se, portanto, de um filho legitimo da saga dos mafiosos, injustamente retratado como inferior aos outros por muitos cinéfilos. Se não é um filme perfeito, seus pequenos problemas (leia-se, Sofia Coppola), não são suficientes para tirar o brilhantismo deste capitulo final.

Muitos anos após ordenar a morte de seu irmão Fredo, Michael Corleone (Al Pacino) recebe um dos títulos mais importantes dados pela igreja católica, a Ordem de San Sebastian, após fazer uma doação de 100 milhões de dólares em nome da fundação Vito Corleone, comandada por sua filha Mary (Sofia Coppola). Durante a festa de celebração, ele recebe seu sobrinho Vicent (Andy Garcia), que conta com o apoio de Connie (Talia Shire) para trabalhar com o tio, ao invés de continuar com Joey Zasa (Joe Mantegna), o atual dono da área anteriormente comandada pelos Corleone. Enquanto isto, um arcebispo (Donal Donnelly) oferece para Michael o controle majoritário de uma importante empresa que pertence à Igreja por 600 milhões de dólares, valor que ajudaria a cobrir o déficit da igreja, mas esta oferta desperta a ira de vários integrantes do clero.

“O Poderoso Chefão – Parte III” é um filme magnífico, que conta com todas as principais características da trilogia, como já citado anteriormente. Logo nos primeiros planos, Coppola nos apresenta o resultado das atitudes de Michael no passado, através dos planos que passeiam pela casa abandonada, ilustrando a destruição daquela família. Em certo momento, antes mesmo de aceitar seu sobrinho em seus negócios, Michael é apresentado afundado em sua cadeira, mergulhado nas sombras, o que além de manter a característica visual dos filmes anteriores, ilustra o momento sombrio na vida daquele homem, divorciado, doente e em decadência. E é justamente esta derradeira caminhada de Michael, agora um homem amargurado em constante busca por redenção, que vai guiar a narrativa, contrapondo seu modo de ver as coisas com a impulsividade de seu sobrinho, um reflexo vivo e real de sua própria juventude. Além disso, o roteiro escrito por Mario Puzo e Francis Ford Coppola (baseado em livro de Mario Puzo), insere um novo e corajoso elemento na trama, ao abordar os escândalos da igreja católica e a suspeita morte do Papa João Paulo I (mantendo a tradição de ligar a família de mafiosos a fatos importantes da história), além de mostrar os negócios obscuros da igreja, simbolizados até mesmo através de pequenos gestos que desmistificam o clero, como o arcebispo fumando um cigarro (algo que a igreja condena). Na realidade, nada seria mais apropriado do que inserir a igreja numa trama repleta de culpa e arrependimento. Como de costume, Coppola também mantém a violência e o realismo, notável, por exemplo, na tensa invasão da casa de Vicent, no massacre promovido por Joey Zasa e na surpreendente morte do mesmo Zasa.

Por outro lado, o ritmo da narrativa é claramente mais lento que nos filmes anteriores, e da mesma forma, aborda uma gama menor de personagens, o que não diminui a qualidade da intrincada trama, reforçada pela citada coragem temática. Este ritmo mais lento é provocado pela necessidade de explicar o destino de alguns personagens ausentes, como Tom Hagen, e até mesmo pelos momentos que envolvem a paixão de Mary e Vicent, que se revela vital para o trágico desfecho da trama. Obviamente, a montagem de Lisa Fruchtman, Barry Malkin e Walter Murch colabora neste aspecto, ao balancear muito bem estas cenas mais lentas com as empolgantes seqüências citadas acima, que envolvem violência e muita tensão. Além disso, se destaca especialmente na seqüência da ópera, alternando entre as diversas ações paralelas com fluidez, mantendo a atenção do espectador. Finalmente, vale destacar como “O Poderoso Chefão – Parte III” mantém a mesma estrutura narrativa das partes I e II, iniciando com uma festa e com Michael resolvendo os problemas em sua sala, passando pela tradicional foto da família, em que Michael faz questão da presença de Vicent, partindo para a proliferação dos problemas e conflitos e, na derradeira rima narrativa que acontece durante a ópera, culminando com o momento em que Vicent, assim como Michael no passado, resolve todos os seus problemas de uma vez, eliminando os principais obstáculos de seu caminho.

Nos aspectos técnicos, “O Poderoso Chefão – Parte III” também não deixa nada a desejar. A sempre espetacular direção de fotografia de Gordon Willis adota um tom sépia para destacar a melancolia daquele império em decadência, além de manter seu estilo sombrio, carregando nos tons de preto e mergulhando os personagens nas sombras, ainda que neste capítulo final estes tons sombrios apareçam com menor freqüência. Também marca presença novamente o marcante tema composto por Nino Rota, fazendo parte da trilha sonora comandada por Carmine Coppola (pai de Francis), que também insere outras belas músicas, como a clássica ópera Cavalleria Rusticana, de Pietro Mascagni, na cena mais emblemática e emocionante do filme. E o que podemos dizer da excepcional maquiagem, que transforma os atores e envelhece os personagens com perfeição? Ainda que o longa tenha sido produzido 16 anos após o segundo capítulo e, evidentemente, os atores também estivessem mais velhos, personagens como Michael, Kay e Connie deveriam aparentar ainda mais velhos após tanto sofrimento, e isto de fato acontece graças ao bom trabalho de maquiagem. Completando o fabuloso trabalho técnico, a direção de arte de Alex Tavoularis reflete a decadência da família Corleone através da casa abandonada no inicio, além de recriar com perfeição a Nova York do final dos anos 70, e os figurinos de Milena Canonero mantém o marcante visual dos gângsteres da trilogia.

E chegamos então ao elenco liderado por Al Pacino, que está mais contido, refletindo muito bem o quanto Michael está maduro. Ainda assim, seu temperamento explosivo aflora em certos momentos, algo que o ator demonstra muito bem, por exemplo, quando Michael se irrita, se controla e mostra autoridade na conversa com Vicent, Connie e Neri, após a morte de Zasa. Tentando “limpar” os negócios da família (e sua própria consciência) através da compra da Immobiliare, Michael é trazido de volta para o conflito quando menos espera, algo refletido na célebre frase “justo quando pensei estar fora, eles me arrastam de volta”. Mais controlado, mas ainda ambicioso, ele é obrigado a conviver diariamente com o peso de seu passado enquanto busca por redenção, algo que Pacino também transmite com muita competência, especialmente na excepcional cena em que se confessa para o padre, mostrando o quanto ele sofre por tudo que fez (principalmente, por ter ordenado a morte de Fredo). Por outro lado, o tempo trouxe sabedoria ao líder dos Corleone, o que permite que ele aconselhe o sobrinho Vicent sobre o perigo que sua relação com Mary representava, até mesmo porque o próprio Michael viveu esta situação no passado. Sempre inteligente, Michael usa o interesse de Vicent por sua filha para descobrir os planos de Altobello (Eli Wallach), e o sobrinho entende perfeitamente os recados do tio. Interpretado com competência por Andy Garcia, Vicent lembra bastante o seu pai Sonny, com seu temperamento explosivo. Inicialmente, não se envolve muito com a família (o que, por sua vez, remete ao seu tio Michael, também explosivo quando jovem e evitando se envolver nos negócios da família), entrando na sala do tio de jaqueta e com uma bebida na mão, mostrando que nem sequer sabia seguir as formalidades exigidas na ocasião. Em certo momento, ele diz algo que não deveria e Michael o aconselha a “nunca deixar alguém saber o que ele está pensando”, repetindo uma situação vivida no passado por Vito e Sonny. Por outro lado, Vicent demonstra esperteza na conversa com Altobello, convencendo o mafioso de seu interesse em trabalhar com ele, e acaba se mostrando o homem ideal para tocar os negócios da família, justamente por apresentar uma mistura de características marcantes dos filhos de Don Vito. Não podemos deixar de citar ainda Diane Keaton, que novamente se destaca vivendo a amargurada e sofrida Kay, principalmente durante a conversa que tem com Michael na Sicília, onde ela deixa evidente todos os conflitos de sentimentos da personagem, e Talia Shire, novamente em desempenho excepcional na pele de Connie, agora já conformada com os métodos do irmão e até mesmo incentivando o sobrinho a seguir o mesmo caminho. Também é inegável que ver o ótimo Eli Wallach (o “Feio” de “Três Homens em Conflito”) com um papel de destaque como o de Don Altobello é extremamente agradável e interessante. E finalmente, a totalmente inexpressiva Sofia Coppola não consegue se sustentar em nenhuma participação, mas felizmente seu personagem não compromete a trama, já que sua participação mais importante acontece justamente quando é assassinada (e felizmente, Sofia seguiu a carreira de diretora, onde é infinitamente mais competente).

Quando Michael passa o bastão para Vicent, agora Don Vicenzo, e se retira, o espectador sabe que ali está se encerrando um ciclo e pressente, com tristeza, o fim de toda a saga dos Corleone (“Não posso mais fazê-lo”, diz Michael). Chega ao fim também o excepcional arco dramático de Michael Corleone, o filho protegido de Vito, que não seguiria os caminhos obscuros da família, mas que, por amor ao pai, acabou se envolvendo, se transformando no chefe do grupo e destruindo tudo que amava para chegar ao poder. Agora, só restava a inevitável decadência, ironicamente, distante de todos que ele realmente amava. Por isso, é comovente ver o esforço do pai para buscar uma reaproximação com os filhos, o que infelizmente, leva ao trágico destino de Mary. E este final trágico é também uma das cenas mais emblemáticas e marcantes de toda a saga, com Michael descendo às escadarias, o tiro surgindo repentino, a filha caindo ferida e a morte inevitável e implacável. O grito, suplantado pela triste música e, em seguida, a música, suplantada pelo grito desesperado do pai que perdeu o que mais amava, simboliza também que chegava o triste fim para aquele homem poderoso. Era inevitável que os Corleone, ao decidir participar e interferir daquela forma em tantos e diversificados negócios e na vida de tantas pessoas perigosas, acabassem um dia provocando a morte de pessoas da família, que não tinham nenhuma ligação com a máfia. Infelizmente, este dia chegou, e a tragédia estava consumando também o fim de uma era, a era “O Poderoso Chefão” – e o espectador sabe disso. Assim como o pai, Michael termina solitário, silencioso e jogado ao chão. E quando a música sobe e a tela fica escura, o espectador sabe que testemunhou o fim de uma das grandes sagas da história do cinema mundial.

Coppola encerra sua maravilhosa trilogia de maneira belíssima e marcante, inserindo novos elementos na trama para mostrar a decadência completa de um homem extremamente poderoso e ambicioso, que na busca por proteger sua amada família, acabou alimentando sua infindável sede por poder. Como conseqüência, se afastou de todos que amava e, ao buscar sua redenção, encontrou numa escadaria, na terra natal de seu pai, o seu triste fim. Fisicamente, Michael não morreu naquelas escadarias, mas a elipse de muitos anos que salta para a sua morte solitária na cadeira simboliza que, na pratica, a vida de Michael Corleone terminou mesmo ali.

Texto publicado em 06 de Dezembro de 2010 por Roberto Siqueira

DE VOLTA PARA O FUTURO 3 (1990)

(Back To The Future Part III)

 

Videoteca do Beto #73

Dirigido por Robert Zemeckis.

Elenco: Michael J. Fox, Christopher Lloyd, Mary Steenburgen, Thomas F. Wilson, Lea Thompson, Elisabeth Shue, Matt Clark, James Tolkan, Hugh Gillin, Mark McClure, Wendie Jo Sperber, Jeffrey Weissman, Bill McKinney, Todd Cameron Brown, Flea e Richard Dysart.

Roteiro: Robert Zemeckis e Bob Gale.

Produção: Neil Canton e Bob Gale.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Fechando a magnífica trilogia dirigida por Robert Zemeckis, “De Volta para o Futuro 3” não decepciona, entregando tudo que a série tem de melhor em forma de homenagem a um gênero clássico do cinema norte-americano. O roteiro inteligente, as excelentes piadas, as ótimas atuações e o sentido de aventura aparecem com força total neste ótimo filme, que garante uma despedida digna para esta trilogia que marcou a geração dos anos oitenta.

Marty McFly (Michael J. Fox) decide voltar ao velho oeste para evitar a morte de Doc (Christopher Lloyd) quando ambos descobrem o túmulo dele após ler a carta escrita pelo cientista em 1885. Ao chegar ao velho oeste, Marty terá apenas cinco dias para evitar que Doc se apaixone por Clara Clayton (Mary Steenburgen) e morra nas mãos do temível bandido Tannen (Thomas F. Wilson).

Logo na introdução, De Volta para o Futuro 3” revela a principal característica da trilogia, ao apresentar um momento decisivo do filme anterior e imediatamente fazer a conexão com a narrativa que será desenvolvida pelo excepcional roteiro de Robert Zemeckis e Bob Gale. Além de constantemente fazer referências às características marcantes dos personagens, como a reação intempestiva de Marty ao ser chamado de covarde, o roteiro revela ainda diversas ações que refletiriam no futuro das famílias da cidade, como quando Doc e Clara conversam sobre a geografia da lua, o que inspiraria o nome do cachorro do doutor muitos anos depois. O roteiro está ainda repleto de alívios cômicos, como quando Doc diz “ainda bem que não fui parar na Idade Média”, pois lá ele seria queimado na fogueira ou na divertida piada sobre o que é produzido no Japão. Ainda podemos citar a piada sobre a origem do “frisbee”, a origem da ravina “Clayton” que se transforma em ravina “Eastwood” e o final de Tannen que remete aos filmes anteriores.

Escrito como uma homenagem ao western, “De Volta para o Futuro 3” apresenta todas as características mais marcantes do gênero desde a primeira cena no velho oeste, com o conflito entre homens brancos e índios. Temos, por exemplo, o saloon, com as prostitutas no primeiro andar e o tradicional uísque servido para os homens mal encarados no térreo, homens andando de cavalo, carroças, a ferrovia, um roubo de trem e, logicamente, o duelo entre o mocinho e o vilão. Zemeckis aproveita ainda para fazer diversas referências a filmes clássicos como “Taxi Driver” e “Impacto Fulminante” (quando Marty brinca com a arma na frente do espelho) e, principalmente, ao astro Clint Eastwood e ao western spaghetti (repare como o travelling que revela a cidade de Hill Valey remete ao mesmo movimento de câmera de Sergio Leone que revela a cidade de “Era uma Vez no Oeste”), além de também fazer referências à cultura pop, como a dança de Marty no salão claramente inspirada em Michael Jackson. O diretor mostra talento também na criação de momentos sutis e simbólicos, como no plano em que McFly brinca com seu bisavô, ainda bebê, enquanto Seamus McFly conversa com sua esposa. O futuro da família McFly dependia da sobrevivência daquela criança e Marty sabia disto, como fica evidente quando diz para Seamus “cuidar bem do bebê”. Quando Marty informa Doc que o Deloren estava sem combustível, o close no rosto do cientista expõe a gravidade da situação e, ao mesmo tempo, revela a imagem de Marty no espelho, agora bastante preocupado. E finalmente, Zemeckis conduz com perfeição a emocionante seqüência da volta ao futuro na ferrovia, alternando entre os planos que mostram Marty aflito dentro do Deloren, Doc tentando chegar ao carro e Clara tentando alcançar Doc, numa ótima cena que conta também com os efeitos especiais da Industrial Light & Magic, que, por exemplo, permitem que o vôo final de Doc pareça verossímil.

Zemeckis conta também com a montagem de Harry Keramidas e Arthur Schmidt para imprimir um ritmo acelerado, que sempre funciona bem em aventuras, além de fazer transições divertidas, como quando Doc diz que terá que explodir uma mina e em seguida vemos a explosão ou quando Doc diz para Marty que “aqueles índios nem estarão lá” e, na cena seguinte, vemos Marty gritando “Índios!”. Keramidas e Schmidt participam ainda de maneira decisiva na construção do clímax, ao balancear muito bem as cenas que antecedem o duelo, com a chegada de Tannen ao saloon, Marty acordando e partindo em busca de Doc, Doc divagando sobre o futuro no bar e Clara partindo no trem. O longa conta ainda com um ótimo trabalho de ambientação que nos joga pra dentro do clima do velho oeste, começando pela direção de fotografia de Dean Cundey, que emprega o tom sépia característico do western e, em conjunto com os planos gerais de Zemeckis, explora com competência as belas paisagens da região. A excelente direção de arte de Margie Stone McShirley e William James Teegarden e os figurinos de Joanna Johnston também ajudam a ambientar o espectador, através da estrutura de madeira dos imóveis da cidade, do tradicional saloon, dos chapéus e botas dos homens, dos vestidos impecáveis das mulheres e do próprio trem que percorre a ferrovia. Vale destacar a referencia ao personagem de Eastwood nos westerns através do figurino de Marty, especialmente na cena dentro do bar em que ele levanta o chapéu, momentos antes do duelo com Tannen. Além disso, a maquete que detalha o plano para voltar ao futuro é rica em detalhes e reforça a qualidade do cuidadoso trabalho de McShirley e Teegarden. E finalmente, observe a simetria de algumas construções da cidade com aquelas que vimos nos filmes anteriores, como o relógio em construção que mantém o exato formato que viria a ter no futuro. Aliás, é apropriado que o objeto que conecta os três filmes seja um relógio, já que a trilogia trata exatamente do tempo e de seus efeitos em nossas vidas. Vale destacar ainda o bom trabalho de som ao captar com precisão os cavalos galopando, os tiros, a máquina de Doc trabalhando e o trem em alta velocidade, e a empolgante trilha sonora de Alan Silvestri, que mantém as referências ao western e colabora com o clima de aventura.

Entre o elenco, Christopher Lloyd continua à vontade no papel do cientista “Doc”, com suas expressões exageradas que caracterizam muito bem a ansiedade constante do Dr. Emmett. A novidade é que neste filme seu personagem vive o drama central da trama, o que lhe garante mais espaço na narrativa, e encontra um amor, o que permite ao ator viver também momentos românticos e dramáticos – e Lloyd se sai bem nestes momentos também. Michael J. Fox novamente dá um show interpretando Marty com a leveza de sempre e de quebra vivendo Seamus, o patriarca da família McFly. A dupla, aliás, mantém a empatia dos filmes anteriores e se sai muito bem nas cenas em que atuam juntos, como quando Clara chega à oficina de Doc e ambos demonstram a ansiedade que sentem diante daquela presença. Doc, apaixonado, se mostra inquieto, enquanto Marty, preocupado com a provável descoberta do Deloren, também se mostra ansioso e procura esconder a miniatura do carro atrás das costas. E fechando os destaques, Thomas F. Wilson também repete o bom desempenho, agora como o cruel bandido Tannen, transmitindo através do olhar cerrado e da voz firme a confiança do personagem, que mandava e desmandava na cidade até a chegada de McFly.

Quando vemos o veículo que transportou nossos sonhos sendo completamente destruído, a sensação de tristeza é inevitável. O fim do Deloren simboliza também o fim da trilogia e, neste momento, a nostalgia toma conta do espectador. Nem mesmo o final alegre, com a feliz volta de Doc e Clara, evita esta sensação. Por outro lado, nos sentimos realizados por poder acompanhar três filmes com tamanha qualidade, que jamais caem na repetição batida de fórmulas, buscando se reinventar de diversas maneiras. Com muita criatividade e inspiração, Zemeckis e seu elenco nos deram um verdadeiro presente que, ao contrário do Deloren, jamais poderá ser destruído.

Texto publicado em 02 de Dezembro de 2010 por Roberto Siqueira

Qual seria seu nome indígena?

Após assistir ao lindo “Dança com Lobos”, fiquei pensando qual seria o meu nome se eu fizesse parte da tribo Sioux. É irresistível pensar nisto ao ver nomes como Pássaro Esperneante, Vento nos Cabelos e De Pé com Punho. Por isso, resolvi publicar a brincadeira e dividir com vocês.

Se meu nome fosse baseado nos tempos de bebê, talvez me chamassem de Lágrima nos Olhos, pois, segundo relatos de meus familiares, eu era uma criança que tinha enorme facilidade em derramar lágrimas, apesar de não chorar com freqüência. Confuso? Vou explicar melhor. Basicamente, eu era um bebê que dificilmente chorava, mas quando chorava, era com lágrima e tudo. Já os meus áureos tempos de adolescência e juventude poderiam me render o nome de Gel no Cabelo, pois dificilmente eu deixava minha casa sem este acessório, que garantia um upgrade em meu visual – e ainda hoje utilizo tal artifício para sair com um visual mais condizente com a bela esposa que tenho. Mas se o nome fosse escolhido com base nos dias atuais, com certeza eu seria chamado de Espirro da Manhã, graças à minha incurável rinite alérgica que tanto me castiga em todos os dias da minha vida.

E você? Com base nos engraçados nomes de “Dança com Lobos”, qual seria o seu nome indígena?

Um abraço.

Texto publicado em 30 de Novembro de 2010 por Roberto Siqueira

DANÇA COM LOBOS (1990)

(Dances with Wolves)

 

Videoteca do Beto #72

Vencedores do Oscar #1990

Dirigido por Kevin Costner.

Elenco: Kevin Costner, Mary McDonnell, Graham Greene, Rodney A. Grant, Floyd “Red Crow” Westerman, Tantoo Cardinal, Robert Pastorelli, Charles Rocket, Maury Chaykin, Jimmy Herman, Nathan Lee Chasing Horse, Michael Spears, Jason R. Lone Hill, Tony Pierce e Tom Everett.

Roteiro: Michael Blake, baseado em livro de Michael Blake.

Produção: Kevin Costner e Jim Wilson.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Em plena ascensão na carreira no final dos anos 80, após estrelar “Os Intocáveis”, “Sem Saída”, “Sorte no Amor” e “Campo dos Sonhos”, Kevin Costner finalmente chegava ao topo com este belo “Dança com Lobos”. E logo em sua primeira experiência na direção, o então astro de Hollywood entrega um resultado belíssimo, num épico tocante, humano e repleto de imagens deslumbrantes, que trata os índios com respeito e utiliza a guerra civil americana como pano de fundo para mostrar a incrível trajetória de seu personagem principal.

Durante a guerra civil norte-americana, John Dunbar (Kevin Costner) é um soldado gravemente ferido que, ao tentar o suicídio, acaba motivando os outros soldados a iniciarem um combate. Considerado herói, ele ganha a oportunidade de servir no posto de sua escolha, o que se revela uma oportunidade única para que realize seu sonho de conhecer a fronteira “antes que ela desapareça”. O problema é que a região é dominada pelos índios Sioux e será questão de tempo para que eles percebam sua presença em seu território.

“De todos os caminhos desta vida, existe um que realmente importa. É o caminho para o verdadeiro ser humano”. As belas palavras de Pássaro Esperneante (Graham Greene) resumem perfeitamente a jornada de John Dunbar, o homem que partiu para conhecer a fronteira e acabou encontrando a si mesmo. Conduzido com extrema sensibilidade por Kevin Costner, “Dança com Lobos” é um filme espiritualista, que nos transporta numa bela viagem pelo interior do coração humano. Auxiliado pela montagem de Neil Travis, Costner emprega um ritmo lento, contemplativo, que casa perfeitamente com o espírito de Dunbar e permite ao espectador desfrutar aquelas imagens belíssimas em sua plenitude – e é marcante a imagem recorrente daquele homem solitário, perdido em meio a tanta exuberância e beleza da natureza. A excepcional direção de fotografia de Dean Semler ajuda a captar com precisão estas lindas imagens, como o sol nascendo e se pondo ao final das longas planícies das pradarias, que se perdem no horizonte distante. A coleção de belos planos é enorme, especialmente durante a viagem de Dunbar até o forte, onde, por exemplo, Costner emprega um zoom out que ilustra perfeitamente a insignificância do homem diante da magnitude da natureza. O diretor também sabe utilizar a câmera para transmitir sensações, como quando Dunbar está assustado no forte e a movimentação da câmera revela que a ameaça na verdade era o cavalo Cisco andando do lado de fora, além de utilizar novamente o zoom out pra revelar toda a sujeira dos arredores do forte e em volta do lago. Além disso, utiliza a câmera lenta com precisão, por exemplo, quando Dunbar corre para evitar o roubo de Cisco, mostrando suas pernas intercaladas com as patas dos cavalos que se aproximam, além de caprichar nos enquadramentos, criando planos belíssimos que mostram a comunhão entre a natureza e o homem, como no plano geral que revela a aldeia Sioux. Finalmente, o diretor é inteligente ao indicar certas coisas sutilmente, como no plano em que Dunbar sai do forte e esquece a agenda na cama, que será vital para o futuro da narrativa e justificará seu retorno ao local, quando ele finalmente confrontará o seu passado e confirmará sua mudança completa.

Além da direção clássica, Costner conta ainda com os figurinos de Elsa Zamparelli, que colaboram para ilustrar a gradual transformação de Dunbar, lentamente transformado de soldado em índio Sioux (e até mesmo seu corte de cabelo e barba reflete esta mudança). A ótima direção de arte de William Ladd Skinner ambienta perfeitamente o espectador através das cabanas espalhadas pela aldeia, dos adereços e artefatos indígenas e até mesmo do abandonado forte Sedgwick, repleto de detalhes como os objetos deixados pelos soldados que ali estiveram. O trabalho de Skinner também é vital em momentos simbólicos, como na primeira aparição de Cisco, que, com sua coloração mais clara, revela-se um cavalo diferente dos demais, numa alusão ao próprio Dunbar, um soldado diferente de todos os outros naquela situação, e que, justamente por não ter grandes expectativas, tenta o suicídio (“Perdoe-me Senhor!”) ao cruzar o campo de batalha com os braços abertos, numa cena linda conduzida em câmera lenta por Costner. Finalmente, devemos destacar a trilha sonora simplesmente espetacular de John Barry, que cria, além do lindo tema principal, diversas melodias belíssimas, como o tema para os momentos entre Dunbar e o lobo ou o tema para seu relacionamento com “De Pé com Punho” (Mary McDonnell), além do tom mais sombrio para momentos tensos, como o confronto com os Pawnees.

Escrito por Michael Blake, baseado em seu próprio livro, “Dança com Lobos” aborda a civilização às avessas, ou seja, o homem branco aprendendo a cultura indígena, além de ilustrar as mudanças no interior de Dunbar através da deliciosa e muito bem escrita narração em off. Blake demonstra profundo respeito e sensibilidade para com a cultura Sioux, fazendo questão de desmistificar a imagem de homens selvagens ao mostrar um povo digno e honesto. Inicialmente, os índios até parecem violentos, como quando discutem o sinal de fumaça em sua terra e matam o camponês que levou Dunbar ao forte (numa cena, aliás, bastante violenta) – saberemos depois que estes são os Pawnees, uma tribo rival dos Sioux. Mas ainda assim, Blake evita o maniqueísmo ao mostrar que mesmo entre os Pawnees existem opiniões distintas, quando um deles diz que eles deveriam ignorar aquele sinal e partir. O contrário acontece entre os Sioux, retratados em sua maioria como pessoas boas, mas também com personalidades muito distintas, como o passional “Vento no Cabelo” (Rodney A. Grant), o inteligente “Pássaro Esperneante”, o sábio “Dez Ursos” (Floyd Westerman) e o índio que encontra o chapéu de Dunbar e se recusa a devolvê-lo, mostrando um lado egoísta que evita a “santificação” dos Sioux. Blake também mostra características marcantes dos índios, como o respeito à hierarquia, representado na obediência à palavra sempre decisiva de “Dez Ursos”. E nem mesmo os unidimensionais soldados estragam o roteiro, já que Blake faz questão de ressaltar a opinião divergente do líder deles em relação à Dunbar. O roteiro conta ainda com momentos de alivio cômico, como quando Dunbar acorda atordoado com o barulho dos índios que roubam Cisco e bate a cabeça na porta, só se levantando no dia seguinte, e com uma pitada de romance, através da aceitável e coerente relação entre “Dança com Lobos” e “De Pé com Punho”, duas pessoas que, como lembrado pela mulher de “Pássaro Esperneante”, têm a mesma origem (“Faz sentido, os dois são brancos”). Mas o roteiro de Blake acerta principalmente na condução do arco dramático de Dunbar, indicando sua lenta transformação através de pequenas atitudes, como quando ele morde um coração de búfalo após a caçada, quando troca o uniforme de soldado por adereços indígenas, a emblemática cena da dança em volta da fogueira (em que Costner, aliás, se sai muito bem), quando os instintos mais primitivos começam aflorar em Dunbar, e, obviamente, a “dança com o lobo”, que explica seu novo nome e finaliza o processo de transformação. Nas palavras de “Dez Ursos”, agora Dunbar já não existia mais, ele era um índio Sioux chamado “Dança com Lobos”. Após sua transformação, até mesmo “Duas Meias” passa a comer em sua mão, como se o lobo soubesse que aquele era um homem já completamente integrado à natureza – algo que o lobo pressentia antes mesmo da transformação, e por isso, rodeava o forte.

E se tem total domínio da narrativa e noção exata do que quer na direção, Costner também se sai bem como ator, iniciando sua atuação de maneira contida, o que é coerente com o sentimento de Dunbar, estarrecido diante de tanta beleza e paz. Aliás, o ator se sai bem desde a primeira cena, quando transmite com exatidão a dor do personagem ao recolocar a bota na perna ferida e, com seu olhar desolado diante da imagem de um soldado com a perna amputada, demonstra seu estado de espírito. Dunbar era um homem completamente sem perspectiva na vida naquele momento. Observe também a aflição no rosto de Costner quando os índios encontram os búfalos mortos por homens brancos, refletindo o sentimento angustiado do personagem. Ele sabia que, diante de interesses conflitantes, era inevitável o conflito entre brancos e índios no futuro. E o que dizer dos belos momentos em que Dunbar tenta se comunicar através de gestos e mímicas com os índios, que, por sua vez, se esforçam para entendê-lo? É tocante a dedicação daquelas pessoas diante de tamanha adversidade. Aliás, o fato dos Sioux falarem seu próprio dialeto confere veracidade e realismo à narrativa e ajudam a ambientar o espectador. Desta forma, os primeiros contatos entre Dunbar e os Sioux expressam de maneira orgânica a dificuldade extrema de comunicação entre aquelas pessoas, separadas pela barreira do idioma. Mas Costner não está sozinho entre os destaques do elenco. Mary McDonnell e Graham Greene também têm grandes atuações, como podemos notar na primeira conversa do trio numa cabana, onde eles demonstram com perfeição a enorme dificuldade de comunicação, através dos olhares ansiosos, do gaguejar de “De Pé com Punho”, já há muito tempo sem falar o inglês, e da irritação de “Pássaro Esperneante” diante da situação, repreendendo a moça diversas vezes. Fica evidente que eles gostariam de dizer muito mais do que foi dito, mas a barreira do idioma ainda existe. McDonnell ainda transmite muito bem a aflição da personagem diante da presença do homem branco, algo que lhe recordava sua origem e lhe tirava daquele mundo, como explicado através de um flashback, que revela como Christine se transformou em “De Pé com Punho”. Já Graham Greene está estupendo como “Pássaro Esperneante”, um homem sensato e inteligente que conduz a aproximação entre os Sioux e Dunbar. A amizade dos dois, aliás, chega a emocionar, sem que o roteiro jamais apele para clichês ou que Costner exagere no sentimentalismo para alcançar este resultado. A emoção é genuína, provocada simplesmente pela pureza daquela amizade, simbolizada no momento da despedida, quando ambos trocam presentes. Assim como é genuíno também o grito de dor de “Vento no Cabelo”, interpretado por Rodney A. Grant, ao ver seu amigo partir, na última e emocionante cena do filme. Vale destacar ainda a atuação de Floyd “Red Crow” Westerman como “Dez Ursos”, conferindo um peso enorme ao respeitado líder dos Sioux.

“Dança com Lobos” tem ainda dois momentos empolgantes, que destoam do ritmo contemplativo da narrativa. Certamente uma das melhores seqüências do longa, a caçada de búfalos joga o espectador pra dentro da cena através da alternância de planos gerais e closes, do som que capta com precisão a corrida dos búfalos e cavalos e da empolgante trilha sonora, numa cena extremamente bem conduzida por Costner. A outra grande cena é a guerra entre os Sioux e os Pawnees, que termina no impressionante plano em que os Sioux massacram um dos índios rivais. Estas duas cenas balanceiam muito bem a narrativa com seus momentos tocantes, como quando “Vento no Cabelo” diz que seu melhor amigo morreu porque Dunbar estava vindo, declarando de maneira sincera a sua amizade, ou quando os soldados matam Cisco e atiram em “Duas Meias”, simbolizando o corte da ligação de Dunbar com aquele mundo que tanto amava. A partir daquele momento, ele sabia que não poderia ficar ali e colocar em risco toda a aldeia, o que motiva sua decisão de deixar a tribo. Esta decisão nos leva então ao final triste e realista de “Dança com Lobos”, com o lobo uivando, “Vento no Cabelo” gritando e o casal deixando a tribo, num momento de partir o coração. O texto cruel que encerra o longa decreta o fim da cultura eqüina das pradarias e a trilha arrebatadora encerra a nossa maravilhosa viagem.

“Dança com Lobos” é um filme lindo, que nos apresenta com muita sensibilidade a busca do homem por sua verdadeira identidade. Se a megalomania derrubou Costner nos anos seguintes, este momento de muita inspiração certamente justificou sua carreira com brilhantismo, entregando um filme tocante e sensível, que sabe exatamente a mensagem que pretende deixar. Dunbar viu mais sentido na vida entre os índios do que em tudo que vivera até então, mas, infelizmente, os caminhos do progresso impediram que ele vivesse esta descoberta em sua plenitude. Repetindo as palavras de Pássaro Esperneante, “o caminho para o verdadeiro ser humano é o que realmente importa nesta vida”. Pena que tão poucos encontram este caminho.

Texto publicado em 28 de Novembro de 2010 por Roberto Siqueira

Retomada da Videoteca: Anos 90

Após uma longa pausa para a divulgação de duas semanas especiais (Chaplin e Nova Hollywood), a Videoteca voltará com tudo nesta próxima semana, quando finalmente iniciarei os anos 90, certamente aqueles que têm a maior quantidade de filmes que marcaram a minha adolescência e a minha geração. Confesso que estou ansioso para rever (e escrever sobre) filmes como “Seven”, “Coração Valente”, “Um Sonho de Liberdade”, “Pulp Fiction” e tantos outros.

Aguardem!

Um grande abraço.

Texto publicado em 27 de Novembro de 2010 por Roberto Siqueira

Qual seu filme catástrofe favorito?

Estes dias estava assistindo novamente “Independence Day” (cotação 3 estrelas em 5, caso alguém tenha interesse) e pensei: porque mesmo com tantos problemas (e o terceiro ato é péssimo) eu ainda acho este filme razoável? A resposta é simples. Como quase todo ser humano, eu realmente gosto de ver uma bela cena de destruição e de pensar em como as pessoas reagiriam diante de uma ameaça de extinção como esta. E olha que em “Independence Day” as cenas de destruição nem são tão formidáveis como as que vimos em filmes posteriores. Por outro lado, a bela construção do clima de suspense antes do primeiro ataque colabora bastante para que eu goste do início do filme, o que infelizmente é jogado na lata do lixo após os ataques, quando o longa se transforma numa batalha aérea entre os EUA e os ET’s e ainda tem um discurso pífio do presidente dos EUA (Bill Pullman) pra completar.

Os filmes catástrofe aparentemente têm uma lógica peculiar, onde a morte de centenas, milhares ou até mesmo milhões de pessoas parece não importar caso o protagonista da história sobreviva (o que invariavelmente acontece). Normalmente, estes filmes não contam com narrativas muito elaboradas, apoiando-se nas fantásticas cenas de destruição para contar a história (o que é ruim). Ainda assim, não resisto e sempre dou uma conferida quando um filme do tipo aparece, muito por causa da minha curiosidade diante destes eventos trágicos, o que talvez seja um sentimento comum à maioria das pessoas.

Claro que não posso afirmar que gosto de todos os filmes do gênero, até porque explodir lugares famosos não é o suficiente para realizar um bom filme e, ainda que existam cenas de grande impacto, é preciso pelo menos um roteiro razoável e/ou alguns personagens interessantes para me conquistar, ainda que seja parcialmente (e neste caso, “Independence Day” tem alguns personagens interessantes, como o vivido por Will Smith). Mas esta não é a critica de “Independence Day”, portanto, vamos deixar de lado o longa dirigido pelo destruidor oficial de Nova York, Roland Emmerich, e focar no debate que interessa.

A questão é que eu realmente me interesso por filmes catástrofe, sejam aqueles em que a raça humana corre sério risco de extinção, como o bom “Guerra dos Mundos”, de Spielberg, ou o apenas razoável “O Dia Depois de Amanhã”, de Emmerich (olha ele aí de novo!), sejam aqueles em que apenas uma cidade está ameaçada, como é o caso da pequena Amity em “Tubarão” ou da cidade de Dante em “O Inferno de Dante”. Certamente, existem também aqueles filmes em que nada se salva, como a bomba “Godzilla” (e não me refiro às pessoas que são massacradas durante a projeção, mas sim aos aspectos que normalmente analisamos num filme, como narrativa, direção, atuações, etc).

Antes de perguntar a preferência de vocês leitores, saio de cima do muro e deixo registrada minha preferência. Se considerarmos “Tubarão” como um filme catástrofe, certamente ele é o meu favorito, pela forma como Spielberg constrói o clima de suspense, criando o pior dos inimigos em nossas mentes ao evitar mostrar o tubarão durante grande parte do longa. Mas se a definição “filme catástrofe” for aplicada somente aos filmes com ares apocalípticos, minha escolha seria “Guerra dos Mundos”, muito por causa da atmosfera caótica da primeira metade da narrativa. Pelo visto, Spielberg é meu diretor favorito neste quesito.

E pra você? Qual é o seu filme catástrofe favorito? Opine votando no quadro abaixo e comentando também!

*Caso seu filme catástrofe favorito não apareça no quadro, vote na opção outros e, se preferir, cite o nome do filme nos comentários.

Um abraço.

Texto publicado em 23 de Novembro de 2010 por Roberto Siqueira

100ª Crítica

A crítica divulgada ontem, que fechou a dupla semana especial “Nova Hollywood”, tem um sabor muito especial para mim. “A Conversação” foi a 100ª crítica divulgada na história do Cinema & Debate.

Diante desta marca importante, deixo um enorme obrigado a todos vocês leitores que prestigiam cada uma destas críticas. Tenham certeza de que cada uma delas é escrita com muito carinho e dedicação.

Estou orgulhoso!

Um grande abraço.

Texto publicado em 20 de Novembro de 2010 por Roberto Siqueira

A CONVERSAÇÃO (1974)

(The Conversation)

 

Filmes em Geral #31

Dirigido por Francis Ford Coppola.

Elenco: Gene Hackman, John Cazale, Allen Garfield, Harrison Ford, Frederic Forrest, Cindy Williams, Michael Higgins, Elizabeth MacRae, Teri Garr, Mark Wheeler e Robert Duvall.

Roteiro: Francis Ford Coppola.

Produção: Francis Ford Coppola.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Francis Ford Coppola já era um diretor renomado quando decidiu filmar este pequeno e ousado projeto pessoal, que é ao mesmo tempo um thriller eletrizante de investigação e um maravilhoso estudo de personagem. Em “A Conversação”, o diretor invade a mente paranóica de um homem insatisfeito com a profissão que tem e, principalmente, com o mal que suas ações causam nas pessoas, ao mesmo tempo em que nos leva numa investigação devastadora e instigante.

O espião Harry Caul (Gene Hackman) é contratado pelo diretor de uma grande empresa (Robert Duvall) para vigiar e gravar a conversa de sua esposa com um amigo do trabalho, que supostamente seria seu amante. Conhecido por sua competência e profissionalismo, Harry começa a entrar em pânico quando percebe os efeitos de seu trabalho na vida das pessoas, principalmente após imaginar que sua investigação será responsável pela provável morte do casal de amantes.

Escrito pelo próprio Coppola, “A Conversação” é um thriller intenso, repleto de reviravoltas e que prende constantemente a atenção do espectador. Segundo o espetacular livro “Como a geração sexo-drogas-e-rock n’ roll salvou Hollywood”, de Peter Biskand, o próprio Coppola admitia ter se inspirado no mestre Hitchcock quando pensou em realizar o longa, e as influências do mestre do suspense podem ser percebidas, por exemplo, através das interessantes reviravoltas na trama, como quando as fitas gravadas vão parar nas mãos do presidente através da mulher que dormiu com Harry. Empregando freqüentemente o zoom, como na espetacular cena de abertura que mostra um enorme pátio e lentamente nos leva até Harry, seguida pela seqüência da gravação da conversa em que a câmera destaca o casal, o diretor nos coloca na mesma posição daqueles que ouvem as gravações, inclusive com as interferências no som provocadas pela movimentação de ambos. Desta forma, logo no início quando vemos Harry observando aquelas duas pessoas enquanto sua equipe cuida dos microfones estrategicamente posicionados em janelas, inconscientemente passamos a ter enorme interesse naquela conversa, o que serve para prender o espectador durante boa parte do primeiro ato, enquanto Harry tenta desvendar o conteúdo da gravação em sua equipada sala de trabalho. A detalhada (e bagunçada) aparelhagem, aliás, reflete também o estado psicológico de Harry, completamente atormentado pela vida que leva, atestando o bom trabalho de direção de arte. Observe o contraste entre seu ambiente de trabalho (repleto de objetos) e seu apartamento (vazio), refletindo a enorme diferença entre sua bem sucedida vida profissional e sua solitária vida pessoal. E é exatamente quando estes mundos começam a se misturar que os problemas começam, quando o espião demonstra enorme irritação diante das perguntas de seu parceiro Stan (John Cazale) – algo que ele já havia demonstrado antes, quando sua vizinha lhe dá um presente. Coppola nos coloca propositalmente na posição do detetive enquanto este ouve repetidas vezes as gravações, ilustrando com imagens da conversa enquanto ouvimos as falas do casal, e por isso, quando ele começa a desconfiar que seu trabalho servirá para provocar um assassinato, o espectador também compartilha deste sentimento. Coppola demonstra habilidade ainda quando utiliza o close em Hackman quando Harry confessa ao padre os seus pecados, criando um momento intimista e belo, além de utilizar novamente o zoom quando ele escuta uma conversa no quarto do hotel, nos levando junto com o personagem pra dentro da situação. Situação que pode ser resumida em um único plano, quando Harry contempla um quadro com a imagem de uma ilha, num simbolismo claro para a sua própria condição de isolamento e impotência diante do que descobrira e da impossibilidade de evitar aquele assassinato.

O longa claramente sofre uma queda de ritmo no segundo ato, enquanto Coppola aproveita para inserir elementos que servem para aumentar a paranóia do personagem (e do espectador também), como quando o assistente do diretor (Harrison Ford) pede para ficar com as gravações e passa a perseguir o vigia. Esta queda colabora ainda mais para que o tenso terceiro ato tenha grande impacto no espectador, o que se revela uma inteligente estratégia do diretor e de seus montadores Richard Chew e Walter Murch. Felizmente, o ritmo lento é compensado pela qualidade dos diálogos e pela constante sensação de medo do personagem principal, como por exemplo, durante a festa após a feira, quando temos mais um indício do estado psicológico de Harry, que se revolta ao saber que suas falas foram gravadas por uma simples caneta – e Hackman demonstra bem a raiva do personagem neste momento. Este clima angustiante é ainda mais palpável graças à tensa trilha sonora de David Shire, toda tocada em piano.

Coppola conta também com a fotografia granulada e com poucas cores de Bill Butler, reforçada pelos figurinos sem vida de Aggie Guerard Rodgers, que ilustram a angústia de Harry. E conta principalmente com um inspirado Gene Hackman, que transmite muito bem o incomodo do personagem diante da vida que leva. Extremamente desconfiado, exatamente por saber das possibilidades que a espionagem possibilita, Harry demonstra até mesmo através da fala contida e do olhar inquieto sua enorme insegurança, algo que fica evidente quando deixa o prédio sem entregar as fitas para a pessoa que o contratou. Quando liga para Stett, o assistente do diretor, ele gagueja e sua perna treme, transmitindo com exatidão a aflição do personagem, que começa efetivamente a se transformar quando ouve uma frase da moça na gravação, sobre as pessoas que dormem na praça. A reflexão dela ecoa na cabeça de Harry em todo instante, pois assim como aquelas pessoas, as vítimas de suas gravações também já foram um dia os queridinhos de um pai e de uma mãe, o que faz Harry se sentir cada vez mais culpado pela profissão que tem – algo refletido também pela fotografia sombria quando ele se deita na cama após a festa e tem um pesadelo. Hackman é o elo entre o espectador e a trama e graças à sua boa atuação o espectador embarca junto com ele na narrativa. Personagem vital na cena que dá os primeiros indícios do estado mental de Harry, Stan, interpretado pelo ótimo John Cazale, é alguém extremamente curioso e falastrão, o que se revela um perigo real para o angustiado Harry e, conseqüentemente, provoca uma grande mágoa em Stan quando este descobre a desconfiança do parceiro de trabalho – algo que Cazale demonstra muito bem, especialmente quando encontra o parceiro numa feira. Vale citar ainda a pequena participação de Robert Duvall como o presidente da empresa, demonstrando em poucos minutos o quanto estava irritado com toda aquela situação. Ainda assim, naquele instante o espectador não sabe exatamente do que se trata, pensando apenas ser mais um caso de traição e de crime passional.

A trama é conduzida com segurança para um momento digno de gelar a espinha de qualquer um. Após resolver tentar evitar aquele final trágico, Harry parte para o local do encontro do casal citado nas gravações. A cena caminha lentamente até o momento em que o espião ouve gritos e vê sangue no vidro do quarto vizinho, provocando o desespero no personagem. Só que quando ele decide invadir o quarto, encontra tudo limpo e tranqüilo, o que gera dúvida sobre a realidade do que vimos até então. A dúvida se dissipa no aterrorizante momento em que Harry descobre sangue dentro da privada, capaz de provocar verdadeiro pânico no espectador, até por causa da excepcional condução de Coppola, que cria o suspense através do silêncio e da lenta descoberta do espião. Assim como o personagem, estamos chocados com o que vemos, mas também como Harry, ainda temos dúvidas sobre a veracidade de tudo aquilo. Seria realidade ou apenas fruto da imaginação do personagem? O final sensacional revela a última grande reviravolta da narrativa e, no melhor estilo Hitchcock, atira de volta na platéia tudo que estávamos pensando até aquele momento. O grande vilão na realidade era a vítima de toda aquela conspiração. Assim como Harry, terminamos o filme desolados, inquietos e até mesmo um pouco paranóicos.

Conduzindo a narrativa com extrema segurança e prendendo a atenção do espectador até o último plano, Coppola entrega um thriller intenso, que ainda tem o mérito de investigar a fundo a mente conturbada de um homem claramente afetado pelo trabalho que realiza. Com uma interpretação brilhante de Gene Hackman, “A Conversação” se estabelece como mais um trabalho memorável na carreira do genial Francis Ford Coppola.

Texto publicado em 19 de Novembro de 2010 por Roberto Siqueira

CAMINHOS PERIGOSOS (1973)

(Mean Streets)

 

Filmes em Geral #30

Dirigido por Martin Scorsese.

Elenco: Harvey Keitel, Robert De Niro, David Proval, Amy Robinson, Richard Romanus, Cesare Danova, Victor Argo e George Memmoli.

Roteiro: Martin Scorsese.

Produção: E. Lee Perry e Jonathan T. Taplin.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Antes mesmo das primeiras imagens aparecerem na tela, “Caminhos Perigosos” deixa claro o tema principal de sua narrativa através das palavras ditas por determinado personagem: “Você não paga os pecados na igreja, paga na rua”. A culpa católica e o eterno conflito entre seguir os ensinamentos da igreja e sobreviver naquele mundo extremamente perigoso é o fio condutor deste ótimo filme dirigido por Martin Scorsese e estrelado por Harvey Keitel e Robert De Niro.

Charlie (Harvey Keitel) trabalha para crescer no submundo de Nova York sob a tutela de seu tio Giovanni (Cesare Danova), ao mesmo tempo em que mantém um caso com Teresa (Amy Robinson) e a indesejada amizade de Johnny Boy (Robert De Niro), um jovem agressivo que vive devendo para todo mundo. Entre os credores está Michael (Richard Romanus), um homem tranqüilo que evita confrontar Johnny por conta da amizade que tem com Charlie.

Não por acaso, a trama de “Caminhos Perigosos” se passa no bairro de Little Italy, o local onde o diretor Martin Scorsese passou boa parte de sua infância e juventude, e que claramente influenciou sua carreira em muitos aspectos (o linguajar de seus filmes, o tema do submundo, etc.). E ainda que este seja um dos seus primeiros trabalhos como diretor, Scorsese já apresenta seu estilo marcante em diversos momentos, como no travelling em câmera lenta que nos leva pela boate ao som de clássicos do rock n’ roll ou quando a câmera presa em Charlie durante uma bebedeira transmite a exata sensação de desorientação que o personagem sentia naquele momento. O diretor emprega freqüentemente o plano-seqüência, os travellings e a câmera lenta, balanceando estes movimentos estilizados com o uso da câmera agitada, buscando empregar realismo em diversas cenas. Observe, por exemplo, a briga que acontece num bar, ao som de “Mr. Postman”, quando Charlie e seus amigos vão cobrar um pagamento. A câmera agitada acompanha os personagens sem fazer muitos cortes, tornando a cena extremamente realista e nos jogando pra dentro da confusão – vale notar também a interessante crítica à corrupção da polícia no final do conflito. O diretor repete a alta dose de tensão e realismo na cena do assassinato dentro do bar de Tony (David Proval), com a vítima tentando estrangular seu assassino enquanto todos saem correndo desesperados pelas ruas tentando escapar da polícia, que já estava a caminho. Obviamente, a montagem de Sid Levin colabora sensivelmente na construção destas cenas, que contrastam diretamente com o ritmo mais lento do restante do longa. Sempre com cenas longas e com poucos cortes, Levin balanceia muito bem o ritmo da narrativa, além de ousar em alguns momentos, como quando Charlie e Johnny caminham pela noite conversando sobre a avó de Charlie. Repare como repentinamente a noite se transforma em dia durante a conversa, numa quebra deliberada de continuidade por parte de Scorsese e Levin. Em outro momento, numa conversa entre Charlie e Teresa dentro do apartamento, o som se inicia antes das imagens aparecerem na tela – imagens estas que remetem a conversa entre Patricia e Michael em “Acossado” e que ainda apresentam uma cena de nu frontal de Teresa. Estas duas cenas exemplificam a clara influência da nouvelle vague (Godard, em especial) sobre Martin Scorsese naquele momento de sua carreira. Scorsese faz ainda sua homenagem ao cinema clássico ao exibir uma cena de “Rastros de Ódio”, revelando sua paixão pela sétima arte.

Scorsese conta ainda com a direção de fotografia de Kent Wakeford, que emprega um visual cru, obscuro e com muitas cenas noturnas, refletindo a escuridão na vida daquelas pessoas à margem da sociedade, contrastando com a fotografia vermelha das cenas que acontecem dentro do bar, repleto de drogas e bebidas, conferindo um ar infernal ao local, afinal de contas, é ali que Charlie comete os seus “pecados”. As ruas sujas e repletas de mendigos, traficantes e prostitutas atestam o bom trabalho de direção de arte de Bill Bates, reforçado pelos figurinos de Norman Salling, que seguem o padrão “O Poderoso Chefão”, com os tradicionais ternos e gravatas. E finalmente, a trilha sonora é certamente um dos grandes destaques do longa, intercalando clássicos do rock n’ roll com óperas,  representando o conflito entre a vida agitada de Charlie no gueto e seu apego às tradições italianas, em especial a religiosidade e a busca pela salvação.

Scorsese acerta também ao apresentar, logo na introdução, as características marcantes de cada personagem, com Charlie buscando orientação na igreja, Johnny fazendo arruaça na rua, Tony cuidando do bar e Michael pacientemente indo cobrar um pagamento, nos preparando para o que aconteceria depois. Escrito pelo próprio Scorsese, o roteiro não tem uma estrutura convencional, nos permitindo acompanhar o cotidiano daquele grupo sem ter um objetivo claro, mas sempre evidenciando o tema da culpa católica, como, por exemplo, através da história que Charlie escuta sobre o casal de jovens que sai para transar e morre. Ainda assim, o foco da narrativa está sempre em Charlie e em sua constante luta por redenção diante da vida que leva. Ele não se importa com os problemas da igreja (“A igreja é uma organização, um negócio”, diz Tony em certo momento), exatamente por não conseguir encontrar outro caminho para aliviar seu conflito interno e buscar a salvação. É como se Charlie quisesse compensar a “vida pecaminosa” que leva freqüentando a igreja e confessando os pecados. Keitel transmite muito bem os conflitos do personagem, que consegue ser ao mesmo tempo durão e paternal, principalmente nos momentos em que passa ao lado de Johnny. Observe, por exemplo, sua reação ao ver uma moça negra dançando, lutando contra seus pensamentos e evidenciando seu racismo – o que se confirma quando ele desiste de um encontro por medo de ser visto com ela. O roteiro, aliás, volta a abordar o preconceito quando um homem diz que “as mulheres judias saem com todo tipo de cara”. Charlie convive ainda com outro dilema, tendo que decidir entre ficar com Teresa e Johnny e herdar o restaurante que seu tio Giovanni lhe prometeu. Neste caso, sua difícil decisão é também inteligente, o que o encoraja a contar pra Teresa a sua escolha, deixando a garota em segundo plano por um tempo, pelo menos até herdar o restaurante – e é apropriado que o plano anterior a esta revelação apresente Charlie colocando o dedo no fogo, pois certamente ele estava brincando com algo extremamente perigoso ao tentar enganar o tio.

Mas não é apenas Keitel que se destaca no elenco. Logo na primeira conversa entre Charlie e Johnny nos fundos do bar, podemos perceber a qualidade da atuação de Robert De Niro. O ator demonstra com competência o jeito desleixado de Johnny através da expressão corporal relaxada e da fala arrastada, que deixam claro o quanto ele pode ser dissimulado e pouco confiável. Durante uma discussão com Tony, Johnny ajeita as calças e arregala os olhos como quem está pronto para brigar, mostrando que ele era capaz de qualquer coisa para se defender. Sua loucura é tão evidente que o espectador não se surpreende quando Johnny resolve atirar no Empire State e na janela de uma mulher, somente para logo em seguida pedir desculpas para a senhora. Aliás, este sentimento de que algo ruim pode acontecer é constante em “Caminhos Perigosos”, muito por causa do elenco formado por atores com cara de “mau”, que dão a sensação de que poderão sair na porrada a qualquer momento. A exceção é Michael, interpretado por Richard Romanus, que exibe uma tranqüilidade atípica para o mundo em que vive, muitas vezes parecendo até mesmo inofensivo. Mas na medida em que o espectador passa a ter certeza de que Johnny não vai pagar a dívida, a eminente explosão de Michael se torna evidente – e o ator transmite esta sensação muito bem, principalmente na tensa seqüência em que Johnny aponta uma arma pra ele no bar. Fechando o elenco, Amy Robinson se sai bem como Teresa, especialmente quando sofre um ataque epilético diante de Charlie. Todos estes personagens sombrios e ambíguos criam um clima tenso sem a necessidade de recorrer à trilha sonora ou a situações inusitadas, somente através da composição dos personagens e da vida que eles levam. Por outro lado, estes mesmos personagens são capazes de citar diversas passagens bíblicas dentro do bar, mostrando a influencia da igreja sobre eles, ainda que não acreditassem nos ensinamentos que memorizaram (ou talvez não aceitassem). Neste dilema está a discussão central do filme.

Quando Michael emparelha o carro e seu parceiro começa a atirar em Johnny, o espectador pode até se sentir surpreso e chocado, mas no fundo todos sabiam que ao agir daquela maneira naquele mundo Johnny estava pedindo por isso. Scorsese encerra o longa com uma interessante rima narrativa, mostrando novamente os diversos personagens em diversos locais diferentes, assim como no início do filme. De diferentes maneiras, todos tentam sobreviver naquele violento ambiente, mas nem todos conseguem sair ilesos.

Texto publicado em 18 de Novembro de 2010 por Roberto Siqueira

AMARGO PESADELO (1972)

(Deliverance)

 

Filmes em Geral #29

Dirigido por John Boorman.

Elenco: Jon Voight, Burt Reynolds, Ned Beatty, Ronny Cox, Ed Ramey, Billy Redden e Seamon Glass.

Roteiro: James Dickey, baseado em história de James Dickey.

Produção: John Boorman.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Inicialmente, “Amargo Pesadelo” parece ser apenas uma despretensiosa aventura de um grupo de amigos num local prestes a ser tomado pela civilização. Mas, repentinamente, o longa dirigido com extremo realismo por John Boorman se transforma num agoniante drama, capaz de chocar a platéia diante da situação em que os personagens se envolvem e ainda gerar diversas reflexões a respeito da natureza selvagem do ser humano.

Os quatro amigos Ed (Jon Voight), Lewis (Burt Reynolds), Bobby (Ned Beatty) e Drew (Ronny Cox) decidem descer um rio a bordo de uma canoa, antes que toda a região seja transformada numa represa. Após se estranharem com os habitantes locais, eles partem nesta aventura. Mas no segundo dia, algo completamente inesperado acontece e altera para sempre a vida de todos eles.

Quando falamos de aventuras nos dias de hoje, pensamos imediatamente (com algumas raras exceções) em filmes voltados para o público adolescente e que normalmente adotam um tom mais leve na narrativa. Não era assim nos anos 70. E para constatar isto, basta assistir a este “Amargo Pesadelo”, uma aventura que apresenta personagens complexos, envolvidos numa situação extremamente angustiante e perfeitamente possível de acontecer, capaz de sugar o espectador pra dentro da história com enorme eficiência. Escrito por James Dickey, “Amargo Pesadelo” aborda a chegada da civilização e o conflito que o progresso gera entre os habitantes da região e as pessoas das grandes cidades. Neste caso em especial, é como se a chegada de forasteiros representasse o fim da vida que aquelas pessoas se acostumaram a viver, algo ilustrado no próprio rio, que antes servia para a pesca e a recreação, e agora passaria a gerar energia (o que, ironicamente, possibilitaria o progresso daquela região). Por outro lado, nem todo habitante da cidade grande está confortável com esta situação, e Lewis é o melhor exemplo disto. Quando Bobby comenta que “existe algo nestas árvores e neste rio que nós perdemos nas cidades”, ele responde “não perdemos, vendemos”, mostrando seu desconforto com as conseqüências do “progresso”. A grande ironia é que a amada natureza revelaria uma face igualmente agressiva e violenta pra todos eles. As grandes cidades não têm o mesmo encanto que as regiões mais afastadas, mas o futuro do grupo serviria para mostrar que nem por isso aquele local poderia ser considerado totalmente seguro como Lewis pensava (“Não acredito em segurança, não há riscos”, diz ele).

Em todo caso, esta face agressiva não pode ser percebida nos primeiros minutos de projeção. Ainda assim, Boorman insere alguns elementos na narrativa que dão pequenas dicas do que poderia vir a acontecer, como no sensacional duelo de banjos entre Drew e um menino da região, que deveria servir para tranqüilizar o grupo naquele ambiente hostil, mas quando Drew tenta cumprimentar o garoto após se empolgar com seu talento e o menino se recusa a tocar sua mão, todos percebem que não são bem vindos ali. Quando o grupo parte para o rio, Boorman faz questão de mostrar a imagem de um rifle na parte de trás da caminhonete, indicando que aquele passeio não seria tão tranqüilo. As dicas aparecem até mesmo através da direção de fotografia de Vilmos Zsigmond, inicialmente limpa e explorando muito bem as lindas paisagens do local, mas que lentamente vai se tornando mais obscura na medida em que o grupo avança pelo rio. E até mesmo o som ajuda no clima de tranqüilidade inicial, quando as únicas coisas que interferem na conversa do grupo são os pássaros cantando e o barulho da água. O passeio inicial representa a verdadeira paz de espírito que o grupo buscava, ilustrada também na trilha sonora de Michael Addiss, toda tocada em banjo.

Graças à boa montagem de Tom Priestley, o ritmo da narrativa alterna corretamente entre momentos de paz, como quando o grupo sai para pescar, e de tensão, como na difícil passagem entre as pedras. Claramente, na medida em que o grupo avança e os problemas aparecem, os momentos de relaxamento deixam de existir e o longa alcança níveis insuportáveis de tensão. Antes de entrar no rio, o grupo parece estar sempre feliz, como podemos perceber no plano em que Ed e Lewis estão dirigindo sorridentes e as folhas refletem no vidro do carro, ilustrando também a integração entre o homem e a natureza que eles tanto buscavam naquele momento. Na primeira vez em que precisam passar entre as pedras no rio, repare como o tom é mais descontraído, até mesmo com sorrisos e brincadeiras entre os amigos. Boorman acompanha toda a trajetória do grupo, nos colocando na mesma posição deles através do posicionamento da câmera e nos aproximando definitivamente de todos eles. Compare este momento com a tensa caçada de Ed ao caipira, onde o diretor provoca calafrios somente através do silêncio e da composição dos planos, como quando vemos o homem armado no segundo plano e Ed dormindo no primeiro. A diferença de clima entre as duas cenas é gritante. Vale observar ainda que durante a subida de Ed pela pedra, Boorman e Zsigmond utilizam um filtro azul para dar a sensação de que a ação se passa durante a noite, numa técnica conhecida como “noite americana”.

E a cena responsável por esta mudança drástica no tom da narrativa acontece de maneira inesperada, pegando o espectador completamente desprevenido. Após o primeiro dia de passeio, o grupo resolve dormir no meio da mata. Neste momento, o silêncio dá a exata noção de isolamento, que era justamente o que eles procuravam, mas que se revelaria algo extremamente perigoso logo em seguida. Na manhã seguinte, o grupo decide se dividir e Ed e Bobby seguem rio abaixo. Mas quando os dois param para descansar na margem do rio, são surpreendidos por dois habitantes locais. O anunciado conflito entre caipiras e forasteiros da cidade grande finalmente acontece. Neste momento, o espectador já se sente parte daquele grupo, o que só aumenta o choque diante da situação. Após uma tensa discussão, os caipiras, armados, informam que o passeio acabou e o medo toma conta do ambiente. E então, sem desviar a câmera para poupar a platéia, Boorman filma uma agressiva cena de violência sexual, que altera todo o destino daquela viagem e da própria vida daquelas pessoas. O diretor confirma seu apreço pelo realismo logo em seguida, mostrando detalhes do assassinato de um dos estupradores, como o sangue pingando da flecha e o homem morto pendurado na árvore. Este violento desfecho do confronto e a complicada situação que o grupo acidentalmente se envolve transformam o filme de uma simples e despretensiosa aventura num drama complexo e real, capaz de provocar angústia em qualquer um.

Pessoas diferentes, mas com um objetivo em comum, os quatro amigos começam a aventura demonstrando entrosamento, ainda que existam divergências de opiniões, como fica evidente quando Lewis se deslumbra diante da primeira imagem do rio enquanto Ed pergunta se existiam cobras ali. Até então, as atuações de Voight, Reynolds, Beatty e Cox são bastante descontraídas e o grupo demonstra uma boa química. Mas é depois da tragédia que o elenco cresce, alterando drasticamente o comportamento de todos eles. Jon Voight se destaca, saindo da posição de mero acompanhante na viagem para se tornar o líder que vai lutar pelo grupo. O ator ainda transmite muita emoção durante um jantar, já depois de sair do rio, quando seu trauma fica evidente. Burt Reynolds demonstra firmeza nas decisões de Lewis, enquanto o Drew de Ronny Cox se revela alguém firme em suas convicções quando o grupo comete um assassinato. Por outro lado, Ned Beatty, que se saiu muito bem na cena mais agressiva do filme demonstrando o desespero do personagem, não apresenta posteriormente a revolta esperada de uma pessoa que sofreu um estupro, o que é até mesmo difícil de julgar, já que as pessoas reagem de maneiras diferentes diante de situações extremas. A partir da tragédia, o grupo passa a enfrentar enormes dificuldades, inclusive com um dos barcos virando após a queda de Drew (que apareceria novamente já morto e totalmente desfigurado, em outra imagem de forte impacto). Boorman nos coloca novamente sob o ponto de vista dos personagens, só que desta vez a passagem entre as pedras é infinitamente mais agoniante, pois carrega um peso dramático enorme diante de tudo que aconteceu. A natureza, assim como os nativos da região, havia revelado sua face cruel e perigosa, mostrando que a violência não é um privilégio das grandes cidades, está na essência do ser humano.

Nos últimos minutos de “Amargo Pesadelo”, vemos a imagem de um corpo boiando no rio, seguida por um desesperado Ed, que acorda suado em sua cama ao lado da esposa. O pesadelo de Ed demonstra o medo que ele tinha da polícia descobrir toda a verdade e reflete o quanto toda aquela situação ainda iria atormentar a vida de todos eles. Este é o tipo de desfecho amargo (com o perdão do trocadilho) que os filmes da nova Hollywood se especializaram em entregar ao espectador. Durante duas horas, somos sugados por uma história tensa, repleta de aventura, é verdade, mas com muito mais a dizer do que podíamos imaginar.

Texto publicado em 17 de Novembro de 2010 por Roberto Siqueira